Onde Tudo Começou: Salvador da Bahia

salvador é o sol: com 80 km de praias, o sol nasce e se põe dentro do mar

1500: Portugal “descobre” o Brasil, chegando pela Bahia (quadro do museu Palácio da Sé, no Pelourinho-Salvador).

Por Maurílio Mendes, o Mensageiro

Publicado em 22 de Abril de 2021 – aniversário de 521 anos do ‘Descobrimento’ do Brasil, que ocorreu na Bahia.

Mensagem-portal da viagem a Salvador. No fim da matéria ancoro as demais reportagens, conforme eu as vá publicando.

Maioria das imagens de minha autoria. As que forem baixadas da internet identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

Salvador é peculiar, por muitos motivos: é uma cidade muito antiga, foi a primeira e por enquanto mais longeva capital do Brasil.

Salvador foi fundada em 1549 (5 anos antes de SP e 16 antes do Rio), quase meio século depois do “descobrimento”, pra ser a sede da administração portuguesa no então nascente Brasil. A esq. o 1° bispo do Brasil, instalado em Salvador. Nota: eu não sou católico. Apenas em seus primeiros tempos a história de nosso país esteve muito atrelada a Igreja.

Com 80% de sua população afro-descendente, é a metrópole mais negra do Brasil – e uma das mais negras do mundo fora da África.

Espremida entre a Baía de Todos os Santos e o Oceano Atlântico, tem 80 km de praias. Seu litoral é maior que o do estado do Piauí.

Com uma orla com essa grande extensão e bastante recortada, o Sol nasce e se põe no mar:

Situação creio que única no mundo, ao menos entre as cidades dessa porte.

Salvador é uma península (tem a forma de um dedo, se quiser visualizar assim).

Isso faz dela uma cidade muito densa, com pouca área verde e muita verticalização, inclusive nas áreas mais humildes.

Some-se a isso uma grande desigualdade social, que também ocorre nas outras metrópoles do Brasil e do mundo.

Resultando que há favelas em quase todos os bairros, mesmo na Zona Central e nas partes mais abastadas da Orla.

Como as favelas são em morros e com muitos prédios artesanais, em que as lajes vão sendo enchidas e os andares vão subindo sem muita fiscalização, a imagem é bastante impressionante.

Andar pela capital baiana, mesmo perto do Centro e das praias, é parecido com andar na periferia de São Paulo.

O subúrbio soteropolitano (o gentílico da cidade se alguém não sabe) é bastante denso e verticalizado, repetindo.

BEM-VINDO A SALVADOR“: favela em morro ao lado de prédios de padrão mais elevado; eis uma das 1ªs imagens que vi da cidade, ainda dentro do moderníssimo metrô (breve publico matéria específica sobre o transporte) que me levou do aeroporto ao Centro.

Mais parecido com os subúrbios do Sudeste que com os das outras capitais nordestinas.

Salvador é a ligação entre o Sudeste e o Nordeste em termos Espirituais, assim como Curitiba é a ligação entre Sudeste e Sul.

……

É notório que o Brasil já teve 3 capitais em sua história: Salvador, o Rio de Janeiro e atualmente – desde 1960 – Brasília-DF.

Aqui e sobre a manchete: Elevador Lacerda, o cartão-postal mais famoso soteropolitano. Nos detalhes ampliada a estátua da praça (na frente da Candelária, no Rio, há uma parecida), e o valor da tarifa, somente 15 centavos – nov. de 2020, quando o ônibus na cidade custava R$ 4,20.

Salvador, além de ter sido a vanguardista, foi a cidade que ocupou o posto por mais tempo, acima de 2 séculos:

A atual capital da Bahia foi capital do Brasil por 214 anos, de 1549 quando foi fundada a 1763.

O Rio quase chegou a 2 séculos, foram 197 anos sendo mais exato (1763-1960);

E Brasília completou 61 anos um dia antes (21/04/21) da publicação desse texto pra rede.

Salvador foi fundada exatamente pra esse fim, já nasceu capital, como Brasília ela veio ao mundo pra isso.

Esse é o lema da cidade, seu orgulho, repetido em todos os brasões da prefeitura: “Primeira capital do Brasilconfira na foto ao lado.

Ruas estreitas do Centro Histórico.

Então vamos nesse texto falar um pouco da pioneira e por enquanto mais longeva sede administrativa de nossa nação:

São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Salvador da Bahia, ou simplesmente ‘Salvador’.

Não é segredo pra ninguém que essa é uma cidade muito antiga. Seu Centro é praticamente um enorme museu a céu aberto (dir.).

O Brasil como conhecemos começou no Nordeste, mais especificamente na Bahia.

Todos sabem, foi em Porto Seguro, no sul do estado, que Pedro Álvares Cabral aportou, em 22 de abril de 1500.

Farol da Barra, onde Salvador começou. De certa forma, o Brasil também começou ali.

Obviamente o Brasil não foi “descoberto” na ocasião, pois aqui já moravam seres humanos logo a região já estava descoberta a tempos, milênios no caso.

De forma que não houve qualquer “descobrimento” pouco mais de 5 séculos atrás, e se houve foi apenas pros europeus.

Seja como for, a terra já era habitada, e o era, mas não se pode negar que era por uma civilização completamente diferente da que temos agora.

Aqui e a esq.: ladeiras do Pelourinho (essas duas tomadas foram clicadas por uma colega, no ano de 2015).

Como entendemos o termo, a América começou na República Dominicana. O Brasil teve sua gênese na Bahia.

E ali foi travada a primeira das duas batalhas decisivas que repeliram a invasão holandesa.

(Falarei melhor disso breve numa mensagem sobre o Recife-PE, pois essa era ‘Mauriciópolis, a capital da ‘Nova Holanda‘.)

Se o Brasil é essa nação-continente, é graças também a Salvador.

Nome apropriado. A cidade que realmente salvou o Brasil. Onde tudo começou.

. ………….

3° MUNICÍPIO MAIS POVOADO DO BRASIL, PORÉM SUA 8ª CIDADE: A CAPITAL É BEM POPULOSA MAS A REGIÃO METROPOLITANA NÃO TANTO –

O município de Salvador tinha 2,8 milhões de habitantes no Censo de 2010 (o último realizado no Brasil).

São Paulo contava, na mesma contagem, com 11,1 milhões, o Rio de Janeiro 6,7, e Brasília 2,9.

Só que esta última é obviamente o Distrito Federal, e não um município.

Mercado-Modelo, aos pés do Elevador Lacerda (ao fundo a esquerda na imagem).

Assim, considerando apenas a divisão administrativa, Salvador é o 3° município mais populoso do Brasil, atrás apenas das capitais paulista e carioca.

No entanto, as pessoas vivem em cidades, não em municípios. Cidade’ e ‘município’ são conceitos diferentes, como já escrevi muitas vezes.

Uma cidade pode ser composta de somente um município ou de vários.

Lojas na parte interna do mesmo Mercado.

Olhando por esse ângulo, a Grande Salvador é a 8ª cidade do Brasil, com seus 3 milhões e meio de moradores.

[As 7 primeiras em milhões incluindo Região Metropolitana: 1) SP, 19,7; 2) RJ, 11,8; 3) BH-MG, 5,4; 4) P. Alegre-RS, 3,9; 5) DF/Entorno em GO, 3,7; 6) Recife, 3,690; 7) Fortaleza-CE, 3,619.]

Por que isso acontece? Simples. Como dito na ‘gravata’ (sub-título) logo acima, o município-núcleo de Salvador é extremamente denso e povoado.

Agora invertido: estou na Cidade Alta, o Elevador em 1° plano; ao fundo a Baía de Todos os Santo com sua marina e o Forte do Mar (‘S. Marcelo’); a dir. o Mercado-Modelo.

Todavia em seus subúrbios metropolitanos a história é outra.

Se a capital conta com 2,8 milhões de moradores, a Grande Salvador não acompanha o ritmo: 

Camaçari tem 234 mil, Lauro de Freitas 163 mil e Simões Filho 105 mil, pra citarmos os 3 maiores e mais próximos do núcleo.

A causa é o formato do pedaço de terra que abriga Salvador.

Sendo uma península, se parece com um dedo esticado pra baixo, se quiser comparar assim.

A capital baiana é muito fina, literalmente, falando em termos físicos.

Aqui e a seguir: Elevador Lacerda visto da Cidade Baixa (sem os detalhes da tarifa e da praça).

O que faz com que os subúrbios da Grande Salvador sejam muito distantes do polo de empregos, que é a parte turística mais central.

Ir de Lauro de Freitas ou Simões Filho até a Orla diariamente numa migração pendular laboral é complicado.

De Camaçari ainda mais, e daí pra frente o sacrifício se torna cada vez maior.

Bem caro esse deslocamento, se o meio escolhido for automóvel próprio – que muitos trabalhadores braçais nem sequer possuem.

De ônibus sai mais em conta, mas é preciso enfrentar uma viagem desconfortável e demorada.

Agora, desde 2014, Salvador conta com metrô, o que facilitou e muito a vida de quem utiliza transporte coletivo.

Sua mobilidade urbana melhorou bastante na última década (escrevo em 21).

Em junho de 2014, sendo mais específico, Salvador se tornou a 3ª cidade do Nordeste a contar com metrô, após o Recife (1985) e Fortaleza-CE (2012).

Voltando a Bahia, a inauguração foi bem a tempo pra Copa do Mundo de 2014 – a qual Salvador foi uma das sedes.

Famosa Praia do Farol da Barra, por onde passam os trios elétricos no Carnaval.

Logo antes dos jogos começou a operar a 1ª linha do metrô de Salvador, com 4 estações.

Pelo próximo ano e meio, até o fim de 2015, a Linha 1 foi aumentada até atingir seu atual trajeto, que conta com 8 paradas.

Ainda será ampliada em mais alguns quilômetros em direção ao subúrbio.

Estou no mesmo local da tomada anterior (o alto do Morro do Cristo), apenas virei a câmera em direção a Ondinacomo em todas as colagens que faço, você percebe a emenda. A intenção não é enganar ninguém, e se fosse eu não teria os recursos e técnica pra tanto; viso apenas mostrar um ângulo maior que seria possível em uma única foto.

Em dezembro de 2016 veio a linha 2, próxima a Orla, cujo ponto final por enquanto é no Aeroporto 2 de Julho (o chamo por seu nome antigo).

E em breve a linha de trem suburbano que corria na margem da Baía de Todos os Santos será modernizada pra VLT – Veículo Leve sobre Trilhos, o ‘metrô leve’.

Esse trem foi desativado em fevereiro de 2021, pra dar lugar as obras dos trilhos e estações do VLT. 

Não era sem tempo, o trem funcionava de forma bastante precária.

Tanto que a tarifa no seu encerramento de atividades era apenas R$ 0,50 (sim, cinquenta centavos), senão ninguém utilizava.

Outra colagem mostra a Praia da Ribeira, na Baía de Todos os Santos. Não tem ondas, pois não é mar aberto. É frequentada pela classe trabalhadora.

Quando o VLT estiver pronto, aí sim a cidade contará com 3 linhas ferroviárias paralelas de qualidade:

Uma na Baía, outra no Miolo e mais uma na Orla. Vai ficar bom.

A rede de ônibus também foi e continua sendo bastante modernizada.

Breve publico matéria específica sobre o tema, com muitas fotos, onde analisaremos em detalhes todos os modais, dos anos 70 até hoje. Por hora, o foco é na cidade como um todo. Então nos basta ter isso em mente: 

Praia de Ondina, logo após a Barrao litoral de Salvador é recortado, muitas reentrâncias, tornando a vista mais espetacular. No detalhe os pescadores nas pedras, avaliando o que tiraram do mar naquele dia.

  Do meio da década de 10 pra cá a situação da mobilidade urbana em Salvador se modernizou bastante, processo que ainda prossegue.

No entanto, por todo século 20 e também na primeira década do novo milênio o transporte coletivo da capital baiana deixava a desejar, pra dizer o mínimo.

Então some tudo: a cidade é estreita e é uma das maiores metrópoles do Brasil a décadas. Tem pouco terreno disponível pra novo loteamentos, especialmente de padrão popular.

A região metropolitana é distante, e até pouco tempo atrás o deslocamento entre as cidades-dormitório e os polos mais abastados era bastante difícil.

Praia de Piatã/PlacaFor (o nome é porque havia uma placa da Ford, anunciando os carros da montadora): na costa do Atlântico, mas aqui estamos na periferia da cidade.

Resultando que as pessoas preferem morar no município de Salvador mesmo.

A periferia municipal já é distante da Orla e do Centro, onde estão os empregos. A periferia metropolitana, então, é ainda mais distante. A preferência é morar na capital.

Veja: Camaçari tem 200 e poucos mil habitantes, Lauro de Freitas e Simões Filho ainda não chegam a 2 centenas de milhar

O Grande Recife e a Grande Belo Horizonte contam cada uma com um município com mais de 600 mil moradores:

Vizinha a Piatã está a Praia de Itapuã (“é bom passar uma tarde em Itapuã”, como diz a música). O público de ambas são as pessoas do povo, trabalhadores braçais.

Jaboatão dos Guararapes e Contagem, respectivamente. E vários acima dos 300 mil: Olinda e Paulista (PE), e Betim (MG).

A Grande Vitória tem 2 subúrbios metropolitanos com mais de 400 mil pessoas (Vila Velha e Serra) e um acima de 300 (Cariacica, 337 mil sendo mais preciso).

Sim, a capital do Espírito Santo é um caso atípico. O município da capital é pequeno, então Vitória, com 327 mil, é apenas o 4° município mais povoado da Grande Vitória.

Também em Itapuã, a Famosa Lagoa de Abaeté, com sua areia branca e água escura.

Tanto Ananindeua, na Grande Belém do  Pará, quanto Aparecida de Goiânia (que como o nome indica é um subúrbio da capital de Goiás) têm mais de 400 mil habitantes, e Canoas na Grande Porto Alegre mais de 300 mil.

Nem vou falar dos subúrbios da Grande SP e Grande Rio, pois essas cidades são bem maiores que a Grande Salvador. Me restringi a capitais de porte similar. Vocês me entenderam.

Próx. 3: “Corredor da Vitória”, onde estão os prédios mais caros da capital baiana. Trata-se de um trecho de 1 km da Av. 7 de Setembro, na descida do Centro pra Barra.

Muito mais gente mora ao redor de BH, Recife, Vitória, Goiânia, Belém e Porto Alegre que ao redor de Salvador.

Além dos subúrbios da Grande Salvador serem menores que seus colegas de outras capitais, há outra consequência dos baianos preferirem residir na capital:

Os morros soteropolitanos estão hiper-povoados, pra compensar a região metropolitana menos habitada.

Em praticamente todos os bairros de Salvador, mesmo no Centro e na parte mais cara da Orla, grandes favelas cercam as planícies litorâneas e os planaltos de classe média e média-alta.

Em Ondina, onde fiquei hospedado. Próximo ao Corredor da Vitória, que tem o m2 mais caro do Norte/Nordeste. As margens do Dique do Tororó (em frente ao estádio da Fonte Nova).

Salvador é a capital do Brasil mais ligada a Espanha – a bandeira espanhola está por toda parte, como nessa escola.

Nas proximidades da Avenida Paralela (por onde corre o metrô), que como o nome indica é paralela a praia, e bem próxima dela.

Enfim, em toda parte. Morros favelizados são a mais soteropolitana das cenas, andar por Salvador é se deparar com essa realidade o tempo todo.

Nota: eu não falo em ‘favela’ com desprezo burguês. Curitiba tem cerca de 300 favelas (em diferentes graus de urbanização).

Conheço todas e cada uma, por dentro, andando em suas ruas e becos.

O Corredor da Vitória é o único bairro de padrão elevado as margens da Baía de Todos os Santos (r). Note que vários prédios têm suas marinas particulares, com teleféricos de uso exclusivo a moradores e seus convidados.

Morei 15 anos numa delas, o Canal Belém as margens do Rio de mesmo nome, no bairro do Boqueirão, Zona Sul.

Já documentei em diversas matérias que Curitiba também tem aguda desigualdade social:

No Tatuquara, Caximba [Z/S], CIC, São Miguel e Augusta [Z/O], Cachoeira [Z/N], Parolin [Z/C], pra citar alguns exemplos

Fiz o mesmo em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Belém, Florianópolis-SC, Santos-SP, etc.

Dique do Tororó, famoso parque as margens da lagoa. Olhando pra um lado vemos o Estádio da Fonte Nova (esq. na imagem).

E também no México, Argentina, Colômbia, Chile, Republica Dominicana, Paraguai e África do Sul,

Pesquisando pela internet até mesmo nos EUA e Europa, porque a coisa lá também está ficando complicada.

Então sei que a desigualdade social não é um problema exclusivo da Bahia ou mesmo do Nordeste.

No entanto, em Salvador essa situação é muito gráfica, pois quase oni-presente. Parecido com o que vemos no Rio de Janeiro.

De novo a Fonte Nova – no detalhe a loja do E. C. Bahia, que fica anexa; não sou torcedor do Tricolor Baiano, se tivesse visto a loja, a sede do clube ou alguma torcida organizada do E. C. Vitória, teria clicado também. Portanto não inicie uma discussão clubística porque aqui não é o espaço pra tanto.

No Recife mesmo os bairros de Boa Viagem e Pina, na Zona Sul, têm várias favelas, a mais famosa delas, Brasília Teimosa, a beira-mar.

Só que em Pernambuco as favelas são planas e não têm tantas lajes. Então elas não são tão visíveis quanto.

Na Bahia os morros favelizados estão por toda parte, e suas casas já nem são casas e sim prédios artesanais.

Com 3, 4 ou mesmo 5 andares, mesma situação do Sudeste.

Ainda estou no mesmo local, próximo ao estádio; virei a câmera pra direita: além das Baianas Orixás (numa alusão as religiões afro-brasileiras da Umbanda/Candomblê), vemos que enormes porções da cidade têm morros favelizados – isso que aqui estamos perto do Centro e dos bairros e praias de padrão mais elevado.

Repito, sei que todo lugar tem desigualdade social, mesmo o que se conhece por “1o mundo”.

E eu gosto de periferia, gosto de favelas. Não por outro motivo morei em uma.

Ainda assim, não sejamos hipócritas nem tentemos tapar o sol com peneira grossa.

A proliferação descontrolada de favelas é um problema gravíssimo social em si mesmo.

E gera diversos outros problemas, não o menor deles a violência urbana, que no Brasil as vezes atinge contornos de conflitos bélicos.

Ainda as margens do Dique do Tororó. Vimos em muitas imagens acima o ‘lado A’ de Salvador, sua parte turística: Elevador Lacerda, Pelourinho, praias, o parque e estádio ao redor da lagoa. Agora vamos ao ‘lado b’, a dura realidade de como vive boa parte do povo, suas classes mais humildes. As favelas em morro estão praticamente em todos os bairros. Aqui, repetindo, ao lado do Tororó, Zona Central.

É muito impressionante andar por Salvador e ver essa situação.

Não sou de direita, e por isso não rotulo as favelas e periferias como “reduto de bandidos”.

Exatamente o oposto sendo verdadeiro. Gosto do subúrbio.

Sei, inclusive na prática, que a imensa maioria de seus moradores são honestos, e trabalham duro pra sustentarem suas famílias.

Entretanto, as coisas são como são. Nenhum discurso da esquerda de que “somos todos iguais” pode mudar essa realidade.

Corredor da Vitória (r). Destaquei o teleférico e clube particulares de um dos prédios. Ao lado a favela da Gamboa, inscrustada entre a avenida e o mar.

Voltando ao aeroporto de metrô, comentei com minha esposa que a capital baiana é muito parecida com a periferia paulistana, que conheço muito bem.

Aí disse a ela: “mas essa é a diferença. Em SP, a cidade é assim nos arrebaldes. E aqui, por toda parte”.

É Salvador, irmão. Seja bem-vindo.

……..

Gamboa, Salvador, em escala maior (r) .

Veja a imagem a esquerda, o Corredor da Vitória. O bairro tem esse nome porque nele se deram as comemorações da Independência da Bahia em relação a Portugal.

Afinal, a Coroa Portuguesa tentou manter a Bahia sob seu tacão, não reconhecendo a adesão dela a Independência do Brasil em 1822. Uma breve guerra se seguiu.

O Império Brasileiro sitiou Salvador por mar, com ajuda de mercenários ingleses contratados pra esse fim.

Foto tirada do Largo da Vitória: a esquerda os prédios luxuosos da Avenida Sete. Logo abaixo a favela chamada Vila Brandão. No meio da imagem o Iate Clube da Bahia (eles ainda preferem a grafia inglesa, ‘Yatch’), notamos o azul-clarinho de suas piscinas – pra amenizar um pouco tanta disparidade social, o ‘Yatch’ Clube promove na vizinha V. Brandão aulas de futsal e capoeira no projeto ‘Vila dos Esportes’; por fim, na pedra atrás da Igreja de Santo Antônio da Barra há mais uma favela, uma vila de pescadores que aparentemente não conta sequer com água corrente, luz elétrica ou saneamento.

Sem conseguir receber suprimento, os portugueses amealharam tudo que puderam carregar e fugiram, na madrugada de 1° pra 2 de Julho de 1823.

Em 2 de Julho, por ali marcharam vitoriosas as tropas que derrotaram Portugal, expulsando a antiga metrópole e incorporando a Bahia ao Brasil.

A Avenida 7 de Setembro, popularmente apelidada “Avenida Sete”, vai do Centro a Barra.

O trecho de mais ou menos um km a partir do Largo da Vitória é conhecido assim, o “Corredor da Vitória”, como é notório.

Ali se localizamos prédios mais caros da Bahia, e de todo Norte/Nordeste.

Alguns dispõem de teleférico e clube (marina e restaurante) exclusivo.

No entanto, logo ao lado, espremida no barranco entre a avenida e o mar está a favela da Gamboa.

Ondina, olhando pra Barra (um dos cartões-postais mais famosos de Salvador, porque ali o Sol se põe no mar ao lado daquele edifício maior a esq., como veremos logo a seguir); porém foque nos prédios mais baixos, sem elevador, ao lado da árvore, a dir. na cena.

É certamente a imagem que resume os contrastes em nosso país.

Casas simples se comprimem contra o barranco que logo ao lado alguns descem de teleférico particular.

UMA COSTA ENTRECORTADA, FÍSICA E SOCIALMENTE –

Salvador é uma península de relevo acidentado. Muitos morros entre as costas, as vezes formando pequenos planaltos.

Então claro que há regiões de classe média-alta, algumas bastante verticalizadas, no estreito planalto e (relativamente) longe das praias.

Entretanto, no geral a maior parte dos bairros de alta-burguesia e elite se concentram nas planícies a beira-mar.

Vistos mais de perto os prédios que acabei de citar na legenda anterior.

A capital baiana tem duas costas, a da Baía e a do Atlântico, como todos sabem.

O Centro fica as margens da Baía. Apesar disso a maior parte das regiões mais caras estão do outro lado, no Atlântico.

Ou talvez exatamente por isso, já que o Centro é um dos bairros mais violentos da cidade.

A orla da Baía é a periferia da cidade, o chamado ‘Subúrbio Ferroviário. Mas há uma exceção:

Aproximando ainda mais a câmera, vemos uma das favelas de Ondina.

O bairro que tem os prédios de padrão mais elevado de Salvador é o Corredor da Vitória, que está do lado da Baía.

Depois dele há o cabo, ou seja a península acaba, há o encontro das águas fechadas da Baía com o mar aberto.

Vizinha a Vitória está a Barra, e a seguir Ondina. Na sequência Rio Vermelho, Amaralina, Pituba e a Costa Azul.

O litoral soteropolitano é entrecortado, nas dimensões física e social.

Próximas 4: Centro, próximo a Estação Central de trens. Colagem mostra a avenida que corta a Cidade Baixa, e o morro que a separa da Cidade Alta ao fundo. Vou mostrar em detalhes tanto o barranco atrás da igreja a esq. na tomada (próx. cena) quanto sobre o barracão a dir., ao lado do ônibus azul (a seguir).

Quanto ao terreno, são muitas falésias, pequenos cabos e penínsulas.

Em relação as pessoas, a forma como vivem os Homens e Mulheres, também há uma grande oscilação.

Alguns pedaços da costa são bastante verticalizadas e aburguesadas.

No Corredor da Vitória não há praia, pois o mar encontra o continente numa falésia (penhasco).

Da Barra pra frente, ao contrário, o que não faltam são belas praias. Aí que notamos aquela heterogeneidade tão marcante de Salvador:

Favela sem qualquer infra-estrutura se equilibra como dá – em pleno Centro!

Na Barra especialmente, mas em menor medida também em Ondina e Rio Vermelho, há muitos edifícios de padrão elevado, embora em meio a alguns morros favelizados.

Já na vizinha Amaralina a situação não poderia ser mais distinta. Quase não há prédios.

E mesmo a poucas quadras da  beira-mar predomina um perfil mais de periferia, sobrados artesanais onde se “enche laje” sem muita fiscalização do poder público.

O barracão um dia foi usado como estação ou garagem de trens – trilhos desativados ainda estão na via; acima dele temos mais uma síntese de como vive o povo em Salvador.

Quando se entra em Pituba, mais uma vez a realidade se altera em 180°.

Trata-se de uma das regiões mais verticalizadas da capital baiana.

A Costa Azul, que fica a seu lado (mesmo nome do bairro que me hospedei em Acapulco-México), vai no mesmo embalo. Vocês entenderam.

Regiões abastadas (algumas com mais prédios, quando nos afastamos do Centro há outras de condomínios horizontais) convivem com bairros de classe trabalhadora, e isso na orla.

Composição aguarda partida na estação Central de trens (operou até fev.21), no bairro da Calçada, que também é parte do Centrão. Veja atrás o morro favelizado, e isso em pleno Centro da cidade, não custa enfatizar de novo. Imagine como são os bairros as margens dos trilhos dali pra frente. Por isso a orla da Baía de Todos os Santos é chamada de ‘Subúrbio Ferroviário‘.

O SOL NASCE E SE PÕE NO MAR: PRIVILÉGIO SOTEROPOLITANO –

A capital baiana é uma península entre o Oceano Atlântico e a Baía de Todos os Santos, dizendo mais uma vez.

São nada menos que 80 quilômetros de orla, apenas no município.

O litoral de Salvador é maior que o do estado inteiro do Piauí!

Tá certo, dos 17 estados brasileiros que são banhados pelo Atlântico, o Piauí foi o menos agraciado pelo contato com o mar, são apenas 66 km.

Porém a capital baiana sozinha não fica muito atrás do litoral do Paraná, que tem 100 km, 2° menor do país.

Próximas 3: mesmo perto das praias do Atlântico a situação as vezes é difícil. Tirei essa foto de dentro do metrô, alias está visível a grade de proteção do mesmo.

Além de bem grande, a orla soteropolitana é bastante recortada.

Tudo isso aumenta sua extensão, claro. Mas produz um outro efeito:

Na maior parte das cidades brasileiras litorâneas, o Sol nasce no mar.

Algumas têm o privilégio de ver ele se pôr no Oceano (ou pelo menos num belo lago).

Há esperança: perto do aeroporto (o avião já se prepara pro pouso). De novo, note o gradil do metrôa melhoria dos transportes levando progresso pra periferia, tornando de classe-média partes antes depauperadas; vi exatamente a mesma cena em Santos-SP.

Porém creio que apenas Salvador pode ver o nascente e o poente do Astro-Rei no mar.

Eis o ‘Casamento Místico’, “Meu Pai é o Sol, Minha Mãe é o Mar”, pros que têm ‘ouvidos de ouvir’. . . .

Salvador e o Sol. Salvador É o Sol, pras religiões ameríndias (Atlantes) que veem no Sol, Lua e Terra a Trindade de Pai, Mãe e Filho – Patcha Papa, Patcha Mama.

Avante, Filhos e Filhas do Sol e da Lua!

…………

Feita essa incursão a 4ª Dimensão, voltemos aos temas da 3ª, mais terrenos.

A síntese: estação de metrô em 1° plano, a periferia (ao fundo) está enfim recebendo melhores cuidados – parecido com o que vi em Medelím/Colômbia.

HOTÉIS FECHADOS, SITUAÇÃO DIFÍCIL –

A coisa já é complicada por si mesmo, não é segredo pra ninguém que os índices sociais do Nordeste não são tão robustos quanto no Centro-Sul.

A economia de Salvador tem no turismo uma de suas principais fontes de empregos e receitas (impostos).

Porém desde a 2ª metade da década de 10 – do século 21, evidente – a economia brasileira desacelerou.

Próximas 3 imagens: hotéis fechados, cena comum em Salvador, situação preocupante pois o turismo é uma das bases da economia local. Esse na Barra. A seguir na Avenida 7 de Setembro, o “Corredor da Vitória“.

Situação ruim que foi tornada catastrófica com a epidemia de Corona-Vírus que eclodiu em 2020.

Essa doença é um assunto altamente polêmico, como não poderia deixar de ser, e não vamos aqui debater as causas.

Vamos falar apenas de uma das consequências, no que toca a Salvador,que é nosso foco:

Vários hotéis estão fechando, boa parte deles em definitivo. Cliquei exemplos no corredor da Vitória, Barra e Ondina. 

Alias em Ondina haviam 2 grandes hotéis um em frente ao outro com as portas lacradas, não irão reabrir tão cedo se é que algum dia.

Diversos desses estabelecimentos estão até murados, como precaução pra evitar invasões de sem-teto.

Nesse do Corredor da Vitória visto ao lado o prédio que abrigava o estabelecimento inclusive já está sendo demolido.

Aí como vai ficar? Quem vai sustentar essas famílias dos funcionários mandados embora? Responda quem puder a essa pergunta.

Pior que não se restringe a Bahia: no Rio de Janeiro presenciei (e fotografei, breve publico) a mesma cena. Que Deus nos ajude!!!.

Ondina. Do outro lado da rua estava também fechado – e este em definitivo – o Hotel Othon, que operou em Salvador por mais de 4 décadas (1975-2018), e tinha um dos maiores centros de convenções da cidade, com capacidade pra 3 mil pessoas. Me lembrei do Centro de Joanesburgo, África do Sul.

METRÔ NA ORLA , SUBÚRBIO FERROVIÁRIO NA BAÍA: O ‘LADO A’ E ‘LADO B’ DE SALVADOR –

A cidade começou as margens da Baía de Todos os Santos.

Daí o nome do estado, obviamente, antigamente a grafia era diferente, se escrevia ‘bahia’ com ‘h’.

(A Grande Acapulco no México é até hoje conhecida por ‘Bahía’, pois em espanhol ainda é assim.)

Da linguística desse idioma-irmão ao nosso luso falamos outro dia. Aqui, o tema é Salvador.

A princípio, no início do século 16, tentaram construir a cidade na Barra, que é o ponto de encontro da Baía com o Oceano.

Salvador, lado ‘A’, lado ‘B‘: na costa da Baía circulou, até 2021, um trem de subúrbio em condições precárias (quando estive lá, em 2020 estava nos últimos meses de vida). Antes gerido pela CBTU, nos derradeiros tempos foi operado pela CTB, estatal estadual que significa ‘Cia. de Transportes da Bahia’.

Tanto que o forte de Santo Antônio da Barra data de 1534. Se havia um forte, é porque já haviam construções portuguesas a serem protegidas.

Foi na Barra que Salvador foi oficialmente fundada, em 1549.

No entanto a região era vulnerável a ataques, tanto de estrangeiros europeus quanto dos nativos da terra.

No fim do século 16 Inglaterra e Holanda intensificam suas tentativas de tomar posse das possessões portuguesas na América.

Em 1605 Portugal decide levar a sede da capital de sua colônia pra costa interna, as margens da Baía, tirando-a da costa Atlântica.

Em compensação, desde 2014 a cidade conta com metrô, que além de facilitar o transporte vem levando progresso a periferia.

Natural, uma povoação as margens de uma baía é muito mais fácil de defender de ataques de piratas que em mar aberto, por motivos óbvios.

Em 1605 (ou 1608, as fontes divergem) inicia-se o planejamento de um forte na Baía.

Em 1623 Portugal inaugura o Forte de São Marcelo, também conhecido como Forte do Mar ou de Nossa Senhora do Pópulo.

Em João Pessoa-PB ocorreu o mesmo: a cidade começou ao lado do mar. Só que a povoação foi atacada.

Integra Salvador: a rede de ônibus também vem sendo modernizada – breve publico matéria específica sobre o tema.

Por isso transferida pra um local de mais fácil defesa contra invasores.

No caso o forte foi construído numa colina as margens do Rio Paraíba (acessível aos navios amigos, inacessível aos inimigos).

Voltando a Bahia e sua capital, nos seus primeiros séculos a Costa Atlântica era um local distante, pouco povoada.

Salvador se desenvolvia em volta da Baía da Todos os Santos.

Próx. 3 imagens: Pelourinho e imediações. Aqui uma típica Baiana, ao fundo o casario antigo, também visto nas tomadas a seguir.

Até fins do século 19 e começo do 20, a Praia da Ribeira, ali localizada, era o reduto da elite e alta burguesia da capital baiana.

Até hoje vemos imponentes casarões na beira-mar da Ribeira que atestam esse passado de luxo.

Porém o século 20 trouxe grande progresso material ao planeta, como todos sabem.

A chegada do automóvel e a construção e melhoria das vias públicas possibilitou que a cidade se expandisse cada vez mais rumo a costa de mar aberto.

Além disso, a pirataria deixou de ser um problema como fora em tempos anteriores.

Assim, os moradores mais abastados foram deixando a orla ocidental soteropolitana, a da Baía, e se instalando na orla oriental, a Atlântica.

Com isso, as duas costas de Salvador passaram a expressar uma dicotomia cada vez mais aguda.

A parte aburguesada no Oceano, a porção da baía foi se tornando cada vez mais a periferia da cidade.

Praça da Sé sob chuva.

Por quase 5 anos, de 2016 a 2021, esse contraste podia ser visto até no transporte:

Na Costa Atlântica existe um moderno metrô, construído sobre a Avenida Paralela.

Enquanto que a outra costa, a da Baía, contava até pouco tempo atrás com um trem de subúrbio que funcionava em péssimo estado.

Entrada da Cidade Alta do Elevador Lacerda, ao lado da praça da tomada anterior.

Por isso os bairros as margens dessas praias são conhecidos em Salvador como “Subúrbio Ferroviário”.

Em fevereiro de 2021 esse trem foi aposentado pra dar lugar a um moderno VLT. Aí sim!

Quando o VLT estiver pronto os bairros do ‘Subúrbio’ terão acesso a um transporte de qualidade, já disponível no Miolo e Orla com as 2 linhas de metrô.

Praia de Ondina: na praça lembrei de novo do Centro de Medelím, na Colômbia, que tem estátuas parecidas; nos detalhes as bicicletas de aluguel do banco Itaú e uma rua que remete ao lema da Aeronáutica, ‘Senta a Púa‘.

Os primeiros vagões, fabricados na China, tem previsão de chegada ao Brasil em abril de 21.

Veremos quando serão concluídas as obras dos trilhos e estações do VLT – as do metrô atrasaram bastante.

Seja como for, em algum momento dessa década de 20 que se inicia (escrevo em 21) o VLT estará em funcionamento. Oxalá, assim seja!

Porque olhe, o pessoal do ‘Subúrbio Ferroviário’ merece um transporte de qualidade.

O trem suburbano que o nomeia era totalmente precário, deixava a desejar em muito.

Foto de dentro do Elevador Lacerda: Cidade Alta a esq., Baía de Todos os Santos a dir. com sua marina, e Corredor da Vitória ao fundo (autoria de um colega, que publica o projeto ‘Retratos do Brasil‘).

Tive a oportunidade de andar nele num de seus últimos meses de funcionamento.

Breve farei matéria específica sobre o transporte, onde relatarei tudo em detalhes.

Aqui, basta dizer que a tarifa era irrisória, somente R$ 0,50.

Sim, cinquenta centavos – e ainda tinha meia-passagem pra estudantes!

Era cobrado algum valor apenas pra não dizerem que era de graça.

Avenida beira-mar. O ônibus azul ao fundo é municipal, da padronização Integra Salvador. O vermelho é metropolitano, copiou a pintura numa homenagem.

E mesmo nesse preço simbólico, que obviamente não cobre, os custos o movimento era baixíssimo.

O trem era sub-utilizado, exatamente porque a qualidade dos serviços era péssima.

Pra você ter uma ideia, o intervalo entre as viagens era de 40 a 45 minutos.

Só pegavam trem os mais miseráveis, aqueles que não podiam arcar com o ônibus – que custa R$ 4,20 quando escrevo (como comparação em Curitiba é 4,50, e em SP 4,40).

Pituba, um dos bairros mais verticalizados da orla.

Então, como dito, na 2ª metade dos anos 10 o contraste entre as costas da cidade era expresso até nos modais sobre trilhos, que não poderiam ser mais distintos:

Na Orla (e também no Miolo) metrô com ar-condicionado, de domingo a domingo.

Intervalo entre as viagens de cerca de 6 minutos no meio do dia (3 no pico). Estações e trens seguros, policiados.

Sim, a tarifa custa 4,20. Mas pagando com cartão dá direito a uma viagem de metrô e duas de ônibus, municipais ou metropolitanos.

Se fosse somente de ônibus, o usuário já pagaria os mesmos 4,20. Ou seja, pega um ônibus perto de casa até a estação do metrô.

Dali percorre de forma rápida, segura e relativamente confortável o trecho mais longo. E ao descer na estação pega outro buso que o deixa no trabalho. 

ÁFRICA NA AMÉRICA” – Família aproveita o domingo na Praia de Ondina, sintetizando o povo de Salvador, que é uma das metrópoles mais negras do mundo fora da África: 80% de seus moradores são afro-descendentes.

No Subúrbio Ferroviário a situação era diametralmente oposta: a única vantagem do antigo meio de transporte era o preço, praticamente gratuito.

Sabe aquele ditado ‘não paga, mas também não leva’? Com o trem suburbano de Salvador era o mesmo. 

Pagava-se muito pouco pela tarifa, verdade. Com uma moeda de R$ 1 você ia e voltava. Em compensação, não tinha integração com ônibus nem metrô.

Se precisasse mais uma condução pagava de novoe a maioria precisava, difícil quem more e também trabalhe ao lado da estação, aí o trem já saía mais caro que o metrô/ônibus.

Mesmo quem usava só o trem, o custo era baixo mais a qualidade do serviço idem. 40 minutos de espera entre as viagens, ou mais.

Essa e as próximas 4 fotos são no mesmo local da anterior, e mostram o pôr-do-Sol na Praia de Ondina. Há um muro entre areia e avenida. Várias praias de Salvador têm esse desnível pra rua, você tem que descer por rampas ou escadas. Só na Cidade do Cabo/África do Sul presenciei esse fenômeno na mesma magnitude.

Num vagão sem ar-condicionado (é sabido que a capital baiana é bem quente).

Pra não falar que da insegurança, assaltos e apedrejamentos eram frequentes.

No começo dos anos 90 o trem já havia deixado de operar aos domingos justamente porque a população que voltava das praias depredava as composições e estações.

O movimento era muito baixo. Apenas os mais depauperados, que não podiam arcar com o ônibus, iam de trem. Quem podia preferia viajar de busão.

Se o modal sobre trilhos, mesmo sendo quase gratuito e mais rápido que o sobre pneus, não consegue competir com este último algo está errado.

De lado o mesmo prédio que será visto 3 vezes (em outro ângulo) na sequência abaixo. Destaquei o comércio no térreo.

É porque o serviço é ruim. No trem suburbano de Salvador era de fato precário.

Presenciei o mesmo na África do Sul – as grandes cidades desse país têm uma extensa rede de trens urbanos, chamada ‘MetroRail’.

Só que quase ninguém usa, exceto os miseráveis, todos os demais vão de van (preferencialmente) ou de ônibus pro trabalho.

O SOL SE PÕE NO MAR – Já seguimos com o texto. Antes um carrosel de imagens mostrando o Astro-Rei adentrando o Oceano, em Ondina, e o começo da noite.

Domingo de sol na Praia de Itapuã, na periferia da cidade – a dir. em escala maior: 90% das pessoas são negros ou mulatos.

O “DIA DE ZUMBI” NÃO É FERIADO: É SALVADOR EM PRETO-&-BRANCO –

Não sou de direita nem de esquerda, porque não concordo com muitas coisas que os dois lados falam. Eu nem sequer voto.

Vou apenas relatar o que vi na cidade, independente de ideologia.

Salvador é a capital mais negra do Brasil, de cada 5 de seus moradores nada menos que 4 são afro-descendentes.

Conhece obviamente a música que diz “É bom passar uma tarde em Itapuã, ao Sol que arde em Itapuã”.

Pois bem, aceitei o convite. Fui passar uma tarde de domingo na Praia de Itapuã.

Aqui e a dir.: Morro do Cristo, na Barra. Muita gente curtia no parque esse mesmo fim-de-semana de tempo bom, depois de uma semana bem chuvosa. Nessa imagem vemos a Praia do Gaban, entre Barra e Ondina.

Os banhistas ali presentes são as pessoas mais humildes (2 fotos acima, na verdade a mesma em diferentes escalas).

Cerca de 90 a 95% deles eram negros ou mulatos naquele belo dia ensolarado.

Inversamente, na Barra e imediações, como o parque no Morro do Cristo (esq.), a imensa maioria – 70%, estimando por alto – eram brancos.

Há brancos pobres na periferia soteropolitana? Sim, claro que há. Mas são minoria.

Inversamente, há negros nas classes média-alta e alta? Sim. Igualmente também uma minoria na alta burguesia, na elite ainda mais raros.

Os brancos são imensa maioria dos frequentadores. A Cavalaria da PM está a postos, tanto ali quanto nas praias da periferia.

Nosso Brasil é realmente um país imerso em contradições.

Muitas vezes as classes trabalhadores passam por dificuldades, de norte a sul desse país-continente.

Porém em Salvador esse contraste se expressa mais nitidamente em termos raciais que nas outras capitais.

Isso se refletia nas pessoas que frequentavam esses espaços de lazer. Em Itapuã os brancos eram raros.

Calçadão da Barra, ao lado: mesma situação, os de pele alva predominando (no prédio espelhado fica o consulado da Espanha).

Não chegava ao ponto da República Dominicana (onde na periferia não há caucasianos), mas ficava próximo disso.

Nas regiões mais caras da cidade, ao contrário, os negros eram minoria.

Eu faço um tipo peculiar de turismo, sempre procuro conhecer os bairros mais caros e também os mais depauperados, pra fazer o contraste.

Por isso vi, com meus próprios olhos, o quanto em Salvador a questão de classe está ligada a raça das pessoas.

Na mesma Praia do Gaban vista um pouco mais pra cima na página, o Clube Espanhol – quadras de vôlei-de-praia vazias porque o Sol está no pico, no fim-de-tarde deve bombar.

O alinhamento é 100%? Não. Há brancos nos morros e subúrbios, e negros morando nos prédios mais elegantes. Afinal, no Brasil não há ‘apartheid‘.

Existem exceções. Mas minoria de parte a parte. Na maior porção das vezes, digamos em 70 a 80% dos casos, haverá o alinhamento.

Presenciei isso ao frequentar os dois lados da cidade. Porém poucos fazem o que eu fiz.

Quase todas as pessoas preferem um turismo mais convencional:

Essa e a seguir: parque do Morro do Cristo, olhando a Praia do Farol da Barra ao fundo.

Se restringem aos pontos turísticos mais conhecidos.

Como Elevador Lacerda, Mercado-Modelo, Pelourinho, Corredor da Vitória, praias, restaurantes badalados, ‘shoppings’, etc.

Esses visitantes verão muitos negros na capital baiana certamente, no entanto talvez nem se deem conta que ali eles são não apenas maioria, mas amplíssima maioria.

Pois na Barra e no Morro do Cristo era o contrário, os descendentes de europeus quem eram ampla maioria.

Sim, claro. Muitos dos brancos ali eram turistas, vieram de outros estados.

Entretanto muitos eram soteropolitanos da gema, nascidos e criados em Salvador, apenas geralmente em seus bairros mais caros. Ou pelo menos imigrantes, oriundos de outras partes mas já muito bem estabelecidos na capital baiana, e obviamente da mesma forma nas regiões abastadas.

Ruas antigas do Centro, na Cidade Alta (nem tem postes, a iluminação é fixada nas casas).

Além disso, na sexta-feira, dia 20 de novembro, eu havia planejado andar no trem de subúrbio que até então corria paralelo a orla da Baía de Todos os Santos.

Ele a tempos não funcionava domingos e feriados, porque quando o fazia até a virada pros anos 90 era depredado com frequência.

Ao chegar no Centro achei que não conseguiria andar de trem, pois 20/11 é o Dia da Consciência Negra (em comemoração a morte de Zumbi no Quilombo dos Palmares, que ficava no atual estado de Alagoas, pertinho da Bahia).

Praia da Ribeira, na periferia – os casarões nos lembram que até o começo do século 20 ali era a beira-mar mais cara da cidade.

Portanto, cri, seria feriado e o modal não estaria operando.

No entanto, pra minha surpresa ao chegar na Estação Central ela funcionava normalmente.

Fui e voltei a Paripe, no Subúrbio. Óbvio, dia 20 de novembro não é feriado em Salvador.

Ao lado do Cemitério Inglês, o ‘Yatch’ Clube, na Avenida Sete. Um utilitário ‘Jeep‘ custa perto de R$ 100 mil (até 150 mil se 0km a dísel; isso quando US$ 1 = R$ 5,50). Dele desembarcou uma criança loira pra se entreter no clube.

Achei curioso. Pois é feriado municipal nas duas principais metrópoles brasileiras, Rio e São Paulo.

Alias é feriado não apenas na capital mas em todo Estado do Rio de Janeiro.

Também é feriado estadual no Amazonas (1° estado brasileiro a abolir a escravidão, bem antes da Lei Áurea), Mato Grosso, Alagoas, Amapá e Roraima.

E foi oficializado igualmente em milhares de municípios do Brasil. Entre as capitais fora as já citadas em Belém do Pará e São Luís do Maranhão

Enquanto isso, no subúrbio: saída da Estação Paripe do trem. A imagem fala por si mesma, após a catraca uma feira improvisada, negros e mulatos se dirigem a suas casas no morro (ao fundo). É Salvador em Preto-&-Branco.

Porém em Salvador, que é a capital mais negra do Brasil, não é o caso. É dia normal de trabalho.

Assim é Salvador. Suas belezas, seus contrastes. Nossa viagem está apenas começando.

…….

Está aberta a Série sobre a Bahia:

SOTEROPOLITANO –

Publicado em janeiro de 2017, antes de eu ter ido pessoalmente, portanto:

PUXADINHO NO PRÉDIO, GENTE NAS CAÇAMBAS, GARAGENS NA VIA PÚBLICA:

SALVADOR TAMBÉM É AMÉRICA! E COMO É!!!

Em algumas fotos puxadas do ‘Google Mapas’, mostramos cenas da periferia da cidade.

Ao lado “puxadinho no prédio“:  há um edifício, legalmente construído, com alvará e tudo.

E aí sem alvará alguém sobe mais um andar por conta.

Orla de Salvador, buso metropolitano a frente e municipal atrás.

Essa é no bairro de Perambués, mas é situação comum por todo subúrbio soteropolitano.

Flagrei também pessoas viajando sem proteção nas carrocerias de caminhões, calçadas das vias públicas que foram transformadas em estacionamentos pros prédios em frente, e por aí vai.

América Latina, né? Fazer o que?

Deus proverá

A “Cidade Sangue-Quente”: Recife, Pernambuco

“choque cultural”: um curitibano no recife

O Recife é lindo, com certeza (essa panorâmica é um quadro que havia no hotel).

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 24 de fevereiro de 2021

Mensagem-portal da viagem ao Recife. No fim da matéria ancoro as demais reportagens, conforme eu as vá publicando.

Maioria das imagens de minha autoria. As que forem puxadas da internet identifico com um ‘(r)’ de ‘rede, e sempre que possível passo ligação pras fontes.

Em novembro de 2020 Deus permitiu e realizei um dos maiores sonhos de minha vida: pude conhecer o Recife. Foi definitivamente uma Experiência Extática!!

Por dois motivos, o 1° e mais importante é porque Amo essa cidade, do fundo de minha Alma e Coração.

E, tão importante quanto pra gerar esse Êxtase, é porque sou candango de nascimento mas curitibano de adoção, morei toda minha vida aqui em Curitiba.

Mas o contraste social é agudo. Essa favela com palafitas dentro do rio é praticamente ao lado do Centro da cidade.

Poucas cidades no mundo são tão diferentes quanto as capitais pernambucana e paranaense.

O Recife é quente, Curitiba é fria – e por isso me refiro também a temperatura física evidente, mas vai muito além disso.

Não é uma questão de julgamento, ok? Não estou dizendo que uma é melhor e a outra pior.

No entanto, que são bem diferentes, disso não resta dúvidas. Foi um “Choque Cultural”.

O Recife é belo, e também perigoso! Até pra tomar banho de mar: cerca de 90% dos ataques de tubarão no Brasil ocorrem aliplacas nas praias alertam pros riscos, os surfistas são as maiores vítimas.

Você se lembra desse quadro que havia no Fantástico no começo da década de 10?

Não vejo mídia a muito tempo, nem sei se ainda existe. Só assisti a um episódio, que me foi enviado por emeio.

Funcionava assim, a produção da emissora de televisão escolhia uma pessoa pra participar.

E a seguir a levava pra viver um tempo do outro lado desse Brasil, que é um verdadeiro país-continente.

Sempre em condições muito diferentes daquela que a pessoa mora em sua cidade de origem, daí o nome da atração.

No único capítulo que tive a oportunidade de assistir, houveram 2 ‘choques culturais’:

1) Uma curitibana da alta burguesia, classe média-alta mesmo que andava num carrão, foi levada pros Lençóis Maranhenses, onde nem energia elétrica havia na época.

Se é arriscado surfar no mar, que tal na lataria do ônibus? O Recife é a capital nacional e talvez mundial de ‘Surfe no Busão‘, e faz tempo, viu? Essa cena é dos anos 80, um tróleibus da CTU – ainda mais temerário, pois aqueles fios na traseira são de alta-tensão; acima da manchete imagem atual de um ônibus da Globo já no padrão SEI mostrando a mesma coisa (ambas as tomadas baixadas da rede).

E 2), Um negro da periferia de Salvador da Bahia foi trazido pra residir um tempo em Pomerode-SC.

Sendo essa uma pequena e conservadora cidade do interior do Sul de colonização alemã.

Ali quase não há pessoas afro-descendentes, pelo menos até recentemente.

Enquanto que Salvador é a capital mais negra do Brasil, 80% dos habitantes são dessa etnia.

Aliás, estive também na capital baiana, e igualmente estou produzindo uma série relatando o que vi nessa que foi a 1ª capital do Brasil.

Hoje, entretanto, o foco é a capital de Pernambuco. Disse acima:

Maurílio‘ (o humilde que vos fala) sonhava ir ao Recife. Deus permitiu, e o dia chegou. Vamos contar nessa série de matérias o que observei na cidade – essa cena aqui retratada se materializou, fui de metrô a Camaragibe – e também a Jaboatão. Isso já é uma diferença marcante entre as capitais de PE e PR: o Recife conta com metrô, 1º do Nordeste. Enquanto Curitiba não tem essa modernidade, e provavelmente não terá nunca, ou pelo menos não por muitas décadas.

Poucas cidades no mundo são tão diferentes quanto as capitais pernambucana e paranaense. O Recife é quente, Curitiba é fria. ”

De fato assim é. Na dimensão física-densa, aquela que os termômetros medem.

Entretanto, digo de novo e é óbvio, principalmente no jeito de ser de seus povos.

Na próxima mensagem da série (em breve) falaremos melhor do clima, da parte física.

Primeiro vamos abordar a diferença psicológica, espiritual, entre o curitibano e o recifense.

Diria que o principal contraste é: o povo recifense é sátiro, o curitibano é sério.

Novamente enfatizo, não é uma questão de tentar determinar qual é melhor ou pior, e sim de reconhecer as diferenças.

VENEZA BRASILEIRA” – O Centro do Recife é composto por várias ilhas, formadas pelo encontro de 2 grandes rios – Capiberibe e Beberibe – com o mar. Por suas muitas pontes e canais/rios, a cidade é conhecida por ‘Veneza Brasileira‘ (ou ‘Veneza Americana’).

Em todo o planeta as pessoas do povo, as classes mais humildes, são menos formais, pela própria natureza de como as coisas são.

Isso bem esclarecido, vamos lá. A questão é que no Recife, a sociedade formal, estabelecida, reconhece a ‘sabedoria popular’, se quiser ver assim.

E adota como denominações oficiais os nomes populares, criados e consagrados pelo povão.

“DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS”. OU SE PREFERIR….BEM-VINDO AO RECIFE, A CIDADE SANGUE-QUENTE –

Exemplifico com 2 postos de saúde (U.S.) recifenses: Planeta dos Macacos – na Zona Oeste da capital – e Maria Farinha – no subúrbio de Paulista, Zona Norte do Gde. Recife. É isso mesmo que você leu, veja as fotos mais abaixo.

Aqui e a dir.: Praia de Boa Viagem (Zona Sul), m2 mais caro de Pernambuco, um dos mais caros do Brasil.

Oras bolas, pode ter certeza que o inferno irá congelar antes de Curitiba batizar uma U.S. dessa forma bastante exótica.

O mesmo vale pra linhas de ônibus como ‘Bola na Rede’, ‘Carnaval’ ou ‘Festa no Morro‘ – no entanto essa é a realidade recifense.

Salvador tem uma ‘comunidade’ chamada da mesma forma de Planeta dos Macacos. Fica próxima ao Aeroporto 2 de Julho.

Nos anos 90 chegou a ser murada ao seu arrepio pra ficar escondida de quem passava na avenida, como igualmente aconteceu na famosa favela ‘Cidade Oculta, na Zona Oeste de Buenos Aires, durante a ditadura argentina.

Adivinhe? Não tem nenhuma U.S. ou linha de busão que ratifique essa curiosa alcunha na Bahia.

Alias portanto nesse caso a disparidade não é nem entre o Recife e Curitiba, mas eu arriscaria dizer entre o Recife e o mundo.

Nem nos outros estados do Nordeste vemos esses nomes populares elevados ao reconhecimento oficial.

E olhe que Fortaleza-CE (que visitei em 2011) é a ‘capital nacional do humor’.

Praia de Piedade (também na Z/S), em Jaboatão, vizinha a Boa Viagem e quase que um ‘prolongamento’ desta.

Tanto que Chico Anysio, Renato Aragão, Tom Cavalcante, Falcão, Tiririca, entre muitos outros, vieram de lá.

Também fui a João Pessoa-PB (2013) e Salvador (2020).

Conheço razoavelmente as demais capitais pelo ‘Google Mapas’.

E em nenhuma delas me deparei com algo remotamente parecido.

Claro, os mais humildes não são beneficiados pelo sistema.

Creio que não estou revelando nenhum segredo ao dizer isso.

Colagem mostra o Centro, clique pra ampliar (você percebe as emendas, alias numa foto até a posição das nuvens é diferente. A intenção não é enganar ninguém, e se fosse não teria os equipamentos e técnicas necessários. Quero apenas mostrar uma panorâmica de quase 180°).

Por esse motivo eles têm menos compromisso com as ‘regras do jogo’, inclusive na hora de criarem os apelidos de seus bairros, vilas e ‘comunidades’.

Isso é universal, e ocorre mesmo nos EUA, que ainda são formados majoritariamente por brancos anglo-saxões (‘WASP’).

Até nesse país os bolsões de miséria – como acampamentos de sem-tetos, que estão aumentando muito – têm nomes curiosos como “ObamaVille” ou “TrumpVille”.

A capital pernambucana é uma cidade muito antiga. Essa é a 1ª ponte do Brasil, erguida por Maurício de Nassau.

Se é assim entre os ‘WASP’, muito mais o é entre os latinos.

E Curitiba é uma cidade latina, uma metrópole latino-americana.

Então aqui na capital paranaense e sua região metropolitana as vilas e periferias do subúrbio também ostentam nomes curiosos. Alguns exemplos, entre muitos outros:

Ilha do Sapo’ (Piraquara, Z/L), ‘Morro do Piolho’, ‘Morro do Juramento’ (ambos no CIC, Z/O), a já extinta ‘Favela do Lixão’ (também no CIC), ‘Favela da Tripa’ (Umbará, Z/S). Estou só me aquecendo.

O Recife e seus paradoxos: charrete passa por uma dessas velhas pontes no Centro. Aqui em Curitiba há muitos anos é proibido a circulação de carroças.

Não esqueci o ‘Morro do Amor’ (Tamandaré, Z/N), Buraco do Sapo’, ‘Cantinho do Céu’ (as 2 no Tatuquara, Z/S), ‘Rocinha’ (Cajuru, Z/L), no Rio Barigüi o ‘Bom Menino‘ (divisa entre C. Siqueira e Mosunguê, Z/O), etc. .

Além disso, as 2 favelas da Zona Central, agora urbanizadas, são a Vila Capanema (entre o Jardim Botânico e Prado Velho) e a Vila Parolin (no bairro de mesmo nome).

Antigamente elas eram chamadas, respectivamente, de ‘Vila Pinto’ e ‘Valetão’. 

No Centrão vi muitos pescadores tirando seu sustento das águas. Já rodei uma boa parte da América (e dei uma esticada até na África), mas só nessa cidade eu presenciei essa cena em pleno Centro. Tudo tem uma 1ª vez.

Até mesmo o Jardim Social, que é o 2° bairro de renda mais alta da cidade, era conhecido antes de ser urbanizado como ‘Morro do Querosene‘. Precisa dizer mais?

Então em Curitiba, como no mundo todo, o povo batiza de forma curiosa os bairros.

A questão é aqui, como em quase toda parte, o poder público não ratifica esses apelidos, os ignora, e sempre que possível os retifica.

No Recife é diferente, passam a fazer parte do ‘ethos’ da metrópole. Como já escrevi antes:

Ônibus com esse nome só existe no Recife (r)!

FESTA NO MORRO “: AH, ESSES ÔNIBUS RECIFENSES . . . .

Andava eu (Visão de Rua/’Google’ Mapas) pela Zona Norte do Recife.

Quando me deparei com um busão dessa linha que vocês estão presenciando no veículo azul a dir.: “Festa do Morro”.

Um nome bem inusitado pruma linha de transporte coletivo.

Em 1° plano o Centro de Olinda (Zona Norte – no detalhe placa de um comércio), cidade-mãe do Recife, cujos prédios vemos ao fundo.

Aí eu me recordei que essa é uma característica local.

Esclarecendo, Festa do Morro” não é uma linha fixa que opere o ano inteiro.

No Morro da Conceição, Zona Norte do Recife, há uma enorme festa.

Justamente a Festa do Morro que começou como celebração católica.

Todavia com o passar do tempo se tornou laica, sem estar automaticamente atrelada a igreja.

Casa Caiada, região moderna e praia mais aburguesada de Olinda.

Então, somente na época da “Festa do Morro” existe uma linha com esse letreiro.

Na verdade diversas linhas regulares são reforçadas pra atender esse evento.

E indicam dessa forma pras pessoas saberem, evidente.

Próximas 7 imagens: nomes populares curiosos que acabaram consagrados como postos de saúde (‘U.S.)’, linhas de ônibus e agências bancárias, traço típico recifense. Começamos com 2 U.S.’s. Essa se chama, hum…., “Planeta dos Macacos”!! Sério isso?? No Recife é (foto via ‘Google Mapas’). A seguir ‘Maria Farinha‘ (r).

É digamos um ramal temporário de muitas outras linhas, de várias empresas.

Quando o ‘Google’ fez uma filmagem foi esse o caso, ela estava ativa.

Pois assim que eu saí do Morro da Conceição foi esse o ônibus que vi.

(Nota: em 2012 o passeio descrito aqui foi de forma virtual e não física, conforme já delimitei acima.

Porém em 2020 visitei pessoalmente o Morro da Conceição, embora não com a profundidade que eu gostaria.)

Cidades, como as pessoas, têm personalidade própria.

E o gosto pernambucano é esse, dar nomes curiosos as linhas de ônibus que cortam suas ruas.

Há também busão (fonte de várias fotos: portal Ônibus Brasil, créditos mantidos).

Vejamos algumas das linhas de ônibus urbanos que circulam na capital de Pernambuco e região metropolitana:

Maria-Farinha (ao lado);

Bola na Rede (logo abaixo);

Totó (segue na mesma frequência, ‘totó’ é o popular ‘pebolim’);

Carnaval;

Roda de Fogo;

Chão de Estrelas;.

Linha do Tiro;

Cor do Abacaxi (sim, é ‘Córrego do Abacaxi’ – porém o letreiro estava abreviado, então dizia ‘Cor. do Abacaxi’);

Cor da Areia (mesmo caso: ‘Córrego da Areia’, mas no busão estava escrito ‘Cor’);

Rio das Velhas (dir.);

Porta Larga. Pensa que eu tou brincando, né?

Eu não estou, e há 2 linhas de ônibus ‘Porta Larga‘, se uma fosse pouco.

Agência “Ilha do Leite”, quase no Centro.

O letreiro não está informando que o veículo tem suas entradas e saídas bem amplas.

Não. ‘Porta Larga’ é nome de duas comunidades.

Uma do município de Igarassu, um subúrbio distante do extremo norte do Grande Recife, e outra em Jaboatão;

Estrada do Encanamento em Casa Amarela, região de classe média-alta da Zona Norte.

Chá de Alegria (na verdade ‘Chã de Alegria’);

Sítio Histórico;

Rua do Sol;

E por último nessa lista mas não menos importante, a “Festa do Morro

Bem-vindo ao Recife, meu irmão.

Bem-vindo a “Cidade Sangue-Quente”.

Aqui e a dir.: tomadas noturnas da Av. Boa Viagem. 1° o ‘Galo da Madrugada‘, símbolo do Carnaval de Pernambuco. A seguir as carrancas típicas do Nordeste, presentes nas barcas do Rio São Francisco. Dizem que elas espantam maus-olhados. Qualquer ajuda é bem-vinda.

Tudo isso constava num emeio que produzi em 2012 (antes dessa página existir o modal de nosso canal de comunicação era esse, o emeio).

Subi pra internet numa matéria de 2015, logo que o blogue se iniciou.

Só pra fecharmos esse tópico, darei mais um exemplo marcante:

Num bairro de padrão elevado da Zona Norte do Recife existe uma avenida que se chama “Estrada do Encanamento”.

Ainda mais uma vez, jamais existiria em Curitiba uma via com esse nome,

E muito menos em um dos bairros mais aburguesados da cidade.

Digo, aqui na Grande Curitiba existe também uma “Estrada do Encanamento”.

É a rodovia (PR-415) que liga a capital aos subúrbios metropolitanos de Pinhais e Piraquara, na Zona Leste.

Só que veja a diferença. Esse é só o apelido informal dela, oficialmente é denominada “Rodovia João Leopoldo Jacomel”.

Se o povo quer chamar assim, chame. Mas no mapa consta de outra forma, bem mais ‘elegante’.

Ou seja, mesmo na região metropolitana aqui em Curitiba e região não aceitam a ‘sabedoria popular’.

O nome da cidade vem do termo ‘arrecife’, paredões de pedra comuns nas praias da região (ao fundo os prédios do Pina).

E muito, mas muito menos nas porções mais aburguesadas da capital.

Em Pernambuco mesmo os magnatas não se avexam em dar seu endereço como “Estrada do Encanamento”. É o Recife, né?

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“CURITIBA/BÉLGICA E RECIFE/ÍNDIA”: SERÁ MESMO???

Aqui e na próx.: fotos feitas do alto do hotel que fiquei, no Pina. Se eu olhasse pra direita via essa praia maravilhosa – no Nordeste a água é cristalina, você pode estar com água no peito que ainda vê seus pés. Aquelas manchas escuras são os arrecifes. É preciso ficar entre eles e a areia, pois após essa barreira de pedras os tubarões pululam.

Em 2020 não tivemos o Censo demográfico, devido a epidemia de corona-vírus – assunto altamente polêmico, que não entrarei no mérito aqui.

O fato é que a contagem desse ser realizada em 2021 (escrevo em fev.21).

Isso já aconteceu uma vez. Em 1990 o Censo igualmente foi cancelado, sendo feito no ano seguinte, 1991.

O que isso tem a ver com o que estamos falando aqui? É simples, já vou voltar as comparações entre o Recife e Curitiba.

Hoje não acompanho mais a mídia capitalista a muitos anos.

Porém no começo dos anos 90 (eu era um adolescente então) o fazia.

No entanto, virando pra esquerda está essa favela, a apenas 2 quadras do mar.

Em 1992 – quando começaram a sair os resultados do Censo/91 – a manchete de um dos maiores jornais de circulação nacional foi bombástica:

Apenas 7 habitantes separam a Curitiba/Bélgica da Recife/Índia”.

A metáfora é bastante explícita pra necessitar de explicações. Implicava que esse país-continente é imerso em desigualdades.

Quase nas margens do Rio Capiberibe (na divisa entre as Zonas Norte e Oeste) a mesma situação: um “shopping” ao lado de uma “comunidade” – eufemismo que alguns preferem usar pra não ter que dizer ‘favela’. É o Recife em Preto-&-Branco.

Não o menor deles a diferença de padrão de vida entre o Sul e o Nordeste.

Aqui teremos que navegar em águas turbulentas, então vamos com calma.

Será que Curitiba é mesmo a ‘Bélgica’? Posto em outras palavras:

Será verdade que a capital do Paraná poderia mesmo ser uma ilha de ‘1° mundo’ num oceano de 3° mundo que é a América Latina?

Anoitece, prédios do Centro ao fundo.

Não, evidente que não! Isso é um mito, definitivamente. Curitiba é uma metrópole latino-americana, com tudo que isso implica.

Apenas no município, sem contar região metropolitana, são cerca de 300 favelas.

Morei numa delas (o Canal Belém, no Boqueirão, Zona Sul) por 15 anos, e conheço todas as outras, por dentro, andando em seus becos.

Agora todo mundo pode surfar: na Praia de Casa Caiada, Olinda, há um mural com prancha de surfe tridimensional. Você sobe e ‘tira aquela onda’. Tão fácil quanto dirigir um antigo Fenemê.

Portanto eu gosto de periferia, não falo de ‘favela’ com o preconceito burguês, ficou bem claro?

Ainda assim, as coisas são como são. Alta desigualdade social já é um problema em si mesmo, e gera diversos outros problemas.

Não o menor deles o aumento da violência urbana – vide como está a situação no Rio de Janeiro principalmente, que se repete em menor escala em diversas cidades brasileiras.

Isto posto, sigamos. As favelas curitibanas estão em diferentes graus de urbanização, óbvio.

Continuamos em Olinda nas próximas 5 imagens. Aqui a Igreja da Sé, com o letreiro grafitado a frente e o mar ao fundo.

Algumas já passaram pela intervenção do poder público, e agora são vilas normais de periferia.

Enquanto que outras ainda são favelas mesmo, com barracos (alguns deles palafitas nas barrancas dos rio), ‘gatos’ de eletricidade e esgoto a céu aberto.

2 das maiores entre as que ainda não estão urbanizadas são as do São Miguel (próximo ao CIC, Zona Oeste) e Caximba (Zona Sul).

Curitiba tem favelas. Centenas delas. Já documentei muitas vezes as desigualdades dessa cidade, seu lado ‘A’ e lado ‘B’.

Aqui e na próx.: Centro de Olinda, as ladeiras que levam ao Alto da Sé. Repare no calçamento da rua, não é paralelepípedo (rochas cortadas em forma de retângulos regulares, obviamente) mas sim pedras irregulares, que foram colocadas ali e a rodagem das carroças assentou. Provavelmente a via foi pavimentada dessa forma ainda na época da escravidão, que terminou a 132 anos quando escrevo. Fotografei o mesmo em Salvador, breve subo essa matéria pro ar.

Além disso, os problemas de violência urbana e sem-tetos igualmente são rampantes.

Então, está dito com todas as letras, Curitiba não é um pedaço da Europa dentro do Brasil.

Alias, se for ver bem certinho, será que a própria Europa ainda é realmente de “1° mundo”?

Afinal, nesse ‘Velho Continente” as favelas – iguaizinhas as que temos na América Latina, África e Ásia – estão aumentando bastante, como já documentei amplamente com fotos inclusive.

A Bélgica mesmo, que é apontada na metáfora usada nessa reportagem de 1992 como um exemplo de desenvolvimento, também tem seus problemas

Pra conversa começar, a Bélgica foi o país do mundo mais atingido pela epidemia de corona-vírus.

Essa é a parte turística de Olinda, cheia de hotéis, restaurantes e lojas de artesanato. Subi por aqui. Agora veja a próxima foto.

Foi a primeira nação a passar de mil mortes pra cada milhão de pessoas.

E no momento que essa matéria sobe pro ar já está chegando a impressionantes 2 mil mortes por milhão de habitantes

(Mais precisamente 1.885 em 22/02/21, quando você estiver lendo será ainda mais alto o índice.)

Então se há “algo de podre no Reino da Dinamarca”, como diz o ditado, certamente também o há no Reino da Bélgica.

No entanto desci pela parte popular de Olinda (de novo o mar ao fundo), aquela que não é turística. Observe que a ladeira é de terra, não tem qualquer pavimentação, nem asfalto tampouco pedras, regulares ou irregulares.

No mínimo o sistema de saúde público deles não era tão eficiente da maneira que muitos pensavam

Pra não falar dos ataques terroristas, que lá são frequentes, bem como nas vizinhas França, Alemanha e Reino Unido.

Enfim, vocês entenderam. Nem a Bélgica original é tão justa e desenvolvida como é apregoado na mídia.

Assim, certamente não seria a ‘Bélgica Brasileira’ (Curitiba) que seria isenta de graves problemas sociais, muito pelo contrário.

Chegando na beira-mar fotografei esse farol. Aqui fechamos a sequência de Olinda.

Um mito, repito. Agora, analisemos por esse lado: o que é um mito?

É uma narrativa que exagera, que confunde as vezes a ilusão com a realidade.

Sim, com certeza. Por outro lado ainda que distorça em parte a forma com que as coisas acontecem o mito precisa ter alguma base nessa mesma realidade.

Ou então ele nem pega. O mito é uma mistura de real e ilusão, e muitas vezes é difícil determinar em que grau.

Sub-emprego: moça limpa vidros depois pede trocados aos motoristas. Dura realidade latino-americana, já fotografei exatamente a mesma cena na Argentina e Paraguai.

O que é certo é que há sempre algum grau de verdade na narrativa que o mito conta.

No caso da dicotomia entre Curitiba/Bélgica x Recife/Índia, analisemos o contexto no qual a matéria que levou essa manchete foi escrita.

CURITIBA É “3ª MELHOR CIDADE DO MUNDO”; ENQUANTO QUE RECIFE É A “4ª PIOR”?? NÃO NECESSARIAMENTE, MAS ERA ISSO QUE SE DIZIA A ÉPOCA –

Certamente você conhece a música “Antene-se”, em que Chico ‘Science’ – que é recifense, como todos sabem – assume que é “Mangue-Boy”.

Logo na primeira estrofe Chico e sua Nação Zumbi fala que eles estão “entulhados à beira do Capibaribe, na quarta pior cidade do mundo.”

Mais 2 cenas noturnas da Av. Boa Viagem.

Recife, a 4ª pior cidade do mundo? Uma opinião bem radical eu diria.

Certamente discordo. Mas de onde Chico tirou esse título então? Simples.

Em 1991 saiu uma pesquisa, não me lembro se tinha o aval da ONU, que foi amplamente divulgada na imprensa – eu mesmo li na revista que era a de maior circulação nacional.

Esse estudo comparava metrópoles do mundo inteiro, em diversos pontos:

IDH, educação, violência urbana, acesso a moradia, etc.

E foi ali que o Recife foi, somando todos os critérios, escolhido como quarta pior cidade do planeta pra se viver.

O Recife tem 2 grandes regiões de classe média-alta. Uma é a orla da Zona Sul, que no município da capital abrange as Praias de Boa Viagem – vista aqui – e Pina (na verdade Pina é um prolongamento de B. Viagem, assim como no Rio o Leme é um prolongamento de Copacabana).

No mesmo levantamento São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre-RS estavam entre as 10 cidades mais violentas de toda a Terra na ocasião, embora não constassem entre as 10 piores na contagem geral.

Belo Horizonte-MG foi então agraciada com a honra de ser a melhor cidade do Brasil, segundo os dados ali comparados.

Curitiba não participou dessa pesquisa. Entretanto ‘’deram um jeito”:

Na mesma época um arquiteto ianque declarou que “Curitiba era uma 3 melhores cidades do mundo pra alguém morar”, se não me engano ao lado de São Francisco-EUA e Roma-Itália.

Piedade, em Jaboatão, é vizinha a Boa Viagem, e também um prolongamento destana tomada vemos Piedade ao fundo e a Praia de Candeias em 1° plano. Como notam, Candeias também tem se verticalizando e aburguesando intensamente.

O que muitos não prestaram atenção quando isso foi divulgado com tanto alarde na mídia é que essa era apenas a opinião pessoal de alguém, desprovida de qualquer valor científico.

E não alguém imparcial. O arquiteto que afirmou isso era amigo pessoal de Jaime Lerner, prefeito de Curitiba na ocasião – e que também é arquiteto.

Oras, esse estadunidense tem o direito de ver o mundo como quiser, e de expressar o que sente.

A questão é que a mídia divulgou uma visão individual como se fosse uma verdade definitiva.

Na Av. Boa Viagem são comuns os espigões de 40 andares (que em Ctba. e todo Paraná são bem raros).

E a partir daí passou a repetir o mantra que “Curitiba é a 3ª melhor cidade do mundo” com um fervor quase que religioso.

O levantamento que determinou Recife como ‘4ª pior’ é polêmico, sem dúvida. Até pelo escopo da tarefa.

Não é fácil comparar centenas de cidades em escala global em diversos critérios, não o menor dos problemas sendo que diversas estatísticas estão longe de serem confiáveis.

Ainda assim, pelo menos um levantamento objetivo, científico, que pode ser contestado por outros cientistas sociais.

Enquanto que a opinião do estadunidense é totalmente subjetiva e individual.

Em compensação no Pina está Brasília Teimosa, antiga favela, agora urbanizada, mas que não deixa de ser uma vila popular a beira-mar e no bairro mais caro da cidade (r). Um ‘choque de realidade’ entre os prédios do 1° e as casas humildes da 2ª.

No entanto como era ‘música aos ouvidos’ da mídia da época, foi propagada como se fosse uma Revelação Divina.

Pra quem não é daqui, Curitiba completou 300 anos (contando apenas desde a fundação oficial pelos europeus) em 29 de março de 1993.

Portanto desde que adentramos os anos 90 começou um dos maiores festivais de propaganda que esse país já viu.

Curitiba já tinha muitas favelas nessa oportunidade. As duas mais centrais, as Vilas Capanema e Parolin, são dos anos 60.

Próximas 4: a outra região bem aburguesada e verticalizada é as margens do Capiberibe, que como dito e é notório divide as Zonas Norte e Oeste (pra Z/O é onde a câmera mira aqui que foco a montante do rio – na próxima imagem a jusante).

Os ‘complexos’ (‘aglomerados’ no termo mineiro) do Cajuru e Uberaba, na Zona Leste, começaram a se formar ainda nos anos 70, e engrossaram nos 80.

A invasão da Vila Verde, na Cidade Industrial, se deu em 1988, e do Xapinhal, no Sítio Cercado (ambos na Zona Sul) foi em 1991.

Diversas favelas nos bairros Boqueirão, Xaxim, Pinheirinho, Novo Mundo (todos na Zona Sul), e algumas na parte da C. Industrial que fica na Zona Oeste igualmente são das décadas de 70 e 80.

E isso só pra citar apenas alguns exemplos, há muitos outros.

Ou seja, na virada dos 80 pros 90, Curitiba já tinha bem mais de uma centena de favelas (talvez mais de 2 centenas), algumas delas bem grandes

No bairro Casa Amarela e entorno, essa parte perto do rio, também estão surgindo vários prédios bastantes elevados, na altura e no valor dos apês.

Ainda assim, boa parte da burguesia curitibana embarcou numa catarse.

Cria piamente que Curitiba ‘não tem favelas’ e é mesmo ‘de 1° mundo’.Cria e queria que assim fosse.

Natural. Vivíamos uma barragem de lavagem midiática colossal, que criou essa narrativa, mesmo não sendo verdade.

Então pronto, está dito. Se o arquiteto ianque considerava Curitiba uma das 3 melhores cidades do mundo pra se morar, é um direito dele.

No entanto o fato que a imprensa capitalista reverberou a exaustão como se fosse a verdade acabada e definitiva, isso criou um mito.

Um mito que distorceu a realidade? Sim. Mas, digo de novo, o mito distorce a realidade, mas não pode criá-la de todo, ou senão o mito não pega.

Agora, claro, essa aburguesação não impede que C. Amarela também tenha suas favelas (a dir. na foto aquelas placas marrons com nome da rua, típicas do Recife).

O mito de que Curitiba era (alguns até hoje acreditam que ainda é) como pintada na tela de TV pegou tão forte pelo seguinte:

Curitiba tinha favelas. Porém, no censo de 1991, cerca de 10% dos curitibanos moravam em invasões.

Não é nenhum feito tão fantástico. Outras capitais do Centro-Sul, como São Paulo e Florianópolis-SC, registraram índices similares.

Nas próximas 6 imagens, o Centrão. No Recife é comum vermos prédios assim, ‘redecorados’ pelos pichadores – só em SP presenciei esse fenômeno na mesma magnitude.

A questão é: o Recife emplacou, nesse mesmo Censo, perto de 40% de seus habitantes vivendo em moradias precárias/invasões.

Natural que seja assim. Creio que ninguém contestaria que as condições sociais variam muito dentro de Brasilzão gigante.

Ainda assim, as diferenças chegam a ser gritantes em certos casos.

O Recife tinha quase metade de seus moradores apenas lutando pra sobreviver.

Enquanto que em São Paulo, Paraná e Santa Catarina era um décimo, 4 vezes menos que em Pernambuco.

Digo, o Norte e Nordeste se desenvolveram muito nas últimas décadas, se industrializaram razoavelmente, então a disparidade hoje é bem menor que era na época.

Esse ponto de ônibus na beira-rio também mudou de função, agora é moradia de sem-tetos. Repare que há até barracas armadas.

No começo dos anos 90 não era assim. Os empregos eram escassos muitas vezes no Nordeste, e assim bem mais raras que hoje as oportunidades de ascensão social.

BEM AO LADO DO CENTRO, A “ILHA DA MISÉRIA”: É O RECIFE SEM MÁSCARAS –

Além disso, não é só uma questão de quantidade, mas ‘de qualidade’, se quiser ver assim.

A diferença entre Curitiba e várias das demais capitais não é apenas o número de favelas, mas principalmente onde elas estão localizadas.

Curitiba tem 2 grandes favelas centrais (hoje urbanizadas, na ocasião ainda não).

O porto é bem no Centro, na Ilha do Recife que nomeia a cidade. Uma parte dele ainda está no local original.

Só que fora essas quase todas as suas favelas são na periferia.

Fora da visão das pessoas de classe-média, sejam os nativos e muito mais dos turistas. ‘Longe dos olhos, longe do coração’, saca?

No Nordeste e no Rio não funciona dessa forma. As favelas estão por todos os bairros, mesmo na orla mais endinheirada, mesmo no Centro. 

Aqui e nas próx. 2 tomadas: região do ‘Marco Zero‘, dali o porto foi retirado e deu lugar a atrações turísticas como restaurantes e lojas de artesanato. Isso já ocorreu em muitas cidades do mundo, por ex. em Buenos Aires-Argentina.

Fiquei na Praia do Pina, a meia quadra da Av. Boa Viagem. No 10° andar.

Da janela do meu apartamento, se eu olhasse pra direita via aquele marzão simplesmente maravilhoso.

Entretanto, se virasse pra esquerda via algumas favelas bem grandes, a 3 quadras da avenida que tem os edifícios mais elitizados de Pernambuco.

Fotografei esse contraste. Visitei Brasília Teimosa, que era uma favela miserável a beira-mar até 2006.

Os trilhos do bonde foram mantidos, embora a décadas esse modal tenha sido abandonado (fotografei o mesmo na Argentina, Paraguai e Belém do Pará).

Agora está urbanizada, melhorou muito, mas ainda é uma região de periferia em plena orla.

Já escrevi um pouco sobre isso, e na próxima matéria da série (breve) abordaremos o tema com maior profundidade.

E pelo ‘Google Mapas’ constatei que os bairros de Pina e Boa Viagem têm diversas favelas.

Fui de metrô a ‘Jaboatão Velho’ e a Camaragibe. Sim, esses são subúrbios metropolitanos.

No entanto, mesmo na parte central da capital a situação é complicada

No Marco Zero há esse letreiro com o nome da cidade, onde os turistas se enfileiram pra serem fotografados.

Peguei o trem na Estação Joana Bezerra, que é a segunda da linha, logo após a Estação Recife (Central).

Ou seja, Joana Bezerra é colada ao Centro. Ainda assim, há uma grande favela bem em frente a estação de trem/terminal de ônibus.

Uma caminhonete da polícia ficava estacionada ali, me pareceu de forma permanente ao menos durante o dia, pra garantir a segurança dos usuários de transporte coletivo.

Casa Caiada, em Olinda, tem um letreiro similar, todo grafitado em diversas cores.

E logo após a estação vi diversas outras invasões. Por conta disso, a região é conhecida como “a Ilha da Miséria”. Isso ao lado do Centro, enfatizo de novo.

É o Recife, irmão. Mas isso não me incomodou nem um pouco, muito ao contrário.

Gosto de periferias, digo mais uma vez e quantas se fizerem preciso.

E Amo o Recife. Amo essa cidade de uma forma visceral, tenho uma ligação espiritual com ela, talvez tenha vivido ali uma vida passada.

De volta ao Centro do Recife, que é quase um museu a céu aberto. A cidade é uma das s do Brasil, fundada em 1537 (SP só surgiu 17 anos depois, o Rio 28 anos, Salvador 12, Curitiba 156, e Porto Alegre 235 anos depois).

Ter podido enfim pisar em suas ruas, cruzar suas lendárias pontes, me banhar em suas praias, foi um Presente do Criador Deus Pai e Mãe, o sonho de toda uma vida realizado.

Amo o Recife como ele é. Sem máscaras, sem maquiagem.

Fui pra explorar essa cidade, ver os dois lados, o lado ‘A’ e o lado ‘B’.

Fiquei no Pina. Passeei portanto muitas vezes em Boa Viagem.

Alias abri a série com um ensaio sobre essas 2 praias (que na verdade são a mesma) da Zona Sul. Visitei Casa Caiada, a praia mais verticalizada da Zona Norte.

Metrô chega a Estação Joana Bezerra. Observe que mesmo na Zona Central há várias favelas.

No meu último dia no Recife, peguei um ônibus até Candeias, em Jaboatão obviamente.

Dali voltei a pé pro Pina, passando por Piedade e Boa Viagem.16 km caminhando, eu e minha esposa.

Como vim pela areia da praia sob sol forte e evidentemente parei muitas vezes pra entrar na água e uma vez pra almoçar, levei 9 horas, das 10 da manhã as 7 da noite.

Conheci toda orla do Recife e Jaboatão. Mas não apenas isso.

Subúrbio da Zona Oeste.

Fui também a região de classe média-alta as margens do Capiberibe. Falo de Casa Amarela e seu entorno, como você percebeu.

Então estive na parte aburguesada da cidade. Tanto a orla da Zona Sul quanto a outra porção, perto do rio e longe do mar.

Alto Zé do Pinho, subúrbio da Zona Norte – no canto direito um micro complementar.

Ainda assim, e pra fazer o balanço completo, andei pelas ladeiras de Olinda (e não me refiro a parte turística perto das igrejas), por Brasília Teimosa, pelo Centro de Jaboatão.

Dei uma passada também por Camaragibe e, na Avenida Norte, pelo Alto Zé do Pinho e Morro da Conceição, embora nesses casos bem mais brevemente do que gostaria.

Mostrando agora as icônicas placas marrons colocadas nas esquinas. Aqui na Avenida Boa Viagem, onde desemboca a Rua do Atlântico (que só tem 3 quadras) . . .

Fui conhecer o Recife por inteiro. Na orla e no morro.

Boa Viagem, Piedade, Candeias, Pina e Brasília Teimosa.

O Centrão com suas belas pontes e multidão de sem-tetos e a região metropolitana que você chega de trem.

Os dois lados da Avenida Norte, os ‘altos’ a direita (no sentido indo pro subúrbio) e os espigões caros a esquerda.

. . . e agora na Avenida Norte, na estrada dos bairros Alto Stª Terezinha, Alto José Bonifácio e Bomba do Hermetério. Por todo o Recife, da orla até o subúrbio, “Eu Sou O Mensageiro”.

Olinda e Camaragibe, e, em Jaboatão, de Piedade a Jaboatão ‘Velho’, o Centro.

O Recife como ele é. Sem máscaras.

No Preto e no Branco,

Amor Maior.

Graças a Deus Pai e Mãe que permitiu.

Continua . . .

Metrô (r).

Série sobre o Recife:

– “FESTA NO MORRO”??? AH, ESSES ÔNIBUS RECIFENSES . . .

Publicado originalmente (via emeio) em 11 de novembro de 2012. Levantado pra página em 2015.

Matéria ampliada maciçamente nos primeiros  dias do ano (e década) de 2020, com a adição de centenas de imagens.

Moderno articulado do sistema ‘Via Livre’.

Assim se tornando uma radiografia do transporte na capital pernambucana, abordando todos os modais, do metrô ao micro-ônibus ‘complementares’.

Ou seja, foi escrita antes de eu ir pessoalmente ao Recife (novembro de 20), com base no que estudei pela internet.

Breve atualizo com o que constatei ‘in loco’, mas já dá pra ter uma boa ideia.

ISSO É QUE É VIDA!!! AMANHECE E ANOITECE NA PRAIA DE BOA VIAGEM Ensaio de dezembro de 2020, 1ª mensagem feita após a ida ao Recife, portanto.

Palavras não são necessárias, basta apreciarmos a beleza das imagens.

Na capital pernambucana amanhece cedo. Veja ao lado, as 4:20 da manhã os primeiros raios de Sol surgem no horizonte.

Pra quem tem o privilégio de ver o Grande Astro se levantando do mar da Praia do Pina melhor ainda.

Brasília Teimosa antes da urbanização (r).

ATÉ CAMARAGIBE TEM METRÔPublicado em 2015, apenas com desenhos de ‘Marília e Maurílio’ no Recife.

Em 2019, entretanto, ampliei a matéria com fotos, pra documentar a urbanização de ‘Brasília Teimosa‘, que falei sucintamente no decorrer do texto.

O mesmo local em 2020.

No próximo texto da série igualmente farei uma análise mais detalhada do antes/depois, mostrando o que vi – e fotografei – no local.

A direita o ‘antes’: barracos em palafitas não apenas a beira-mar, mas mais precisamente dentro do mar.

A esquerda atualmente: uma avenida com ciclovia e canchas de esporte. Brasília virou ‘Formosa’.

Deus proverá”

021: a cidade é maravilhosa, mas . . . . se liga meu irmão!!!

Complexo de favelas do Morro do Alemão, Zona Norte do Rio, com o teleférico operando, o que ocorreu entre 2011 a 2016 (r): com a Copa e Olimpíada, o Rio de Janeiro sonhou que os dias gloriosos retornariam. Passados esses eventos, o dinheiro minguou e a dura realidade chegou pra ficar.

Por Maurílio Mendes, o Mensageiro

Publicado em 4 de janeiro de 2021

Maioria das imagens de minha autoria, setembro de 2020.

As que foram baixadas da internet – créditos mantidos sempre que impressos nas mesmas – identifico com um ‘(r)’ de ‘rede’, como visto ao lado.

Não é segredo pra ninguém que o Rio de Janeiro enfrenta, a décadas, um problema gravíssimo de segurança pública.

Estive lá em setembro de 2020 e o que vi foi uma cidade ocupada militarmente. Parecia que eu havia desembarcado por engano em Bagdá/Iraque ou Cabul/Afeganistão.

Policiais saturavam toda a Zona Sul, e também tinham presença forte no Centro (como já contei, infelizmente não pude ir ao subúrbio, então não sei como estava a situação ‘do outro lado do túnel‘).

Copacabana, setembro de 2020: o Rio (melhor dizendo, sua Zona Sul) estava totalmente ocupado pela polícia, na operação ‘Segurança Presente‘, que visa saturar a cidade e mostrar que o Estado de Direito regido por leis ainda se faz presente e controla seu território – ao menos na orla . . .

EPIDEMIA? OS LADRÕES AGRADECEM . . .

Como chegamos nessa situação? Há vários fatores, e mesmo uma tese de mestrado seria insuficiente pra uma conclusão definitiva.

Agora, um motivo que certamente agravou foi a obrigatoriedade que todos fizessem uso de máscaras nas ruas.

Como todos sabem, no 1º semestre de 2020 veio a epidemia do corona-vírus. Eis um assunto altamente polêmico, e certamente não vamos entrar nessa discussão aqui.

O que nos importa é: com todas as pessoas tendo que cobrir o rosto, o número de assaltos aumentou muito na Zona Sul, e certamente em outras partes da cidade também.

Afinal, por motivos óbvios isso facilita bastante a ação de ladrões, que agora a menos que sejam pegos em flagrante não podem mais ser identificados por testemunhas ou filmagens.

Jardim de Alá na divisa das praias de Ipanema e Leblon: em plena beira-mar que tem o m2 mais caro do Brasil encontrei uma pichação da facção Comando Vermelho (‘C.V.’). Sim, foi a única que vi na cidade, mas isso porque não pude ir nas ‘comunidades’ nem no subúrbio, senão acharia bem mais, posto que essa cena é comum no Rio.

Fora isso, o Rio vive do turismo, tem nessa uma de suas principais fontes de renda e empregos senão a principal.

Com as restrições pra viajar, esse fluxo caiu muito, quase a zero no auge que foi o outono e inverno de 2020.

Somente na primavera as coisas começaram a melhorar, e apenas começaram. Muita gente ficou desempregada.

O que certamente aumenta as fileiras dos que recorrem ao crime pra conseguir alguma renda (as causas da violência são complexas, e creio que nunca se chegará num consenso; agora, que um alto desemprego gera aumento de crimes é fato comprovado).

Tudo somado, os tiroteios entre bandidos e deles com a polícia também tiveram fortes espasmos, situação alias que é crônica a décadas.

Em julho e agosto de 2020 mesmo mais uma onda de violência chocou a cidade. Cheguei ao Rio no começo de setembro, poucos dias depois. 

O Estado, em suas diversas esferas, tenta reagir: Praia de Ipanema com várias viaturas da PM (estadual) e Guarda Civil (municipal), pra que os banhistas pudessem ter um feriadão da Independência tranquilo.

Em meu 2º dia lá fomos, eu e minha companheira, ao Cristo Redentor. Chamamos um motorista pelo aplicativo.

O primeiro que aceitou a corrida nunca chegava. Por três vezes o mapa indicou que ele virava a esquina da Barata Ribeiro, ou seja, já se encaminhava pro prédio que estava hospedado.

Só que não se materializava, e a seguir o carro aparecia em outro ponto de Copacabana. Quando isso aconteceu pela 3ª vez, cancelei a corrida.

Chamei outro carro. Também não veio, mas pelo menos esse motorista não ficou me enrolando, ele mesmo cancelou o serviço. Tentei ainda mais uma vez, por outro aplicativo.

Agora deu certo, ele nos apanhou no local combinado. Entretanto, assim que entramos no carro avisou que só nos levaria até a estação de trem que sobre no Corcovado, no bairro Cosme Velho.

Em condições normais é possível subir até os pés do Cristo de automóvel, dispensando assim o trem, que é caro. A estrada é particularmente bonita, vai serpenteando o morro, no meio da mata.

Na Região Central a mesma situação: picape da PM patrulha a avenida principal, no detalhe observamos que uma outra viatura, essa um carro pequeno, desce a ladeira.

Só que suas encostas abrigam também algumas favelas, entre outras a de Cerro-Corá e Guararapes. E as condições não estavam nada normais.

Poucos dias antes haviam ocorridos encarniçados tiroteios nessas favelas. O clima está bem tenso lá”, nos explicou o motorista.

Assim não tem como subir de carro, eu pelo menos não vou. Se vocês quiserem desçam e tentem contratar outra corrida”, ele arrematou.

Como 2 outros condutores já haviam recusado, achei melhor seguir com ele até a estação do Cosme Velho e dali embarcar no trem.

Seria bem mais caro, mas ao menos garantia nosso passeio, já que certamente outros motoristas tampouco arriscariam nos levar de carro ao Cristo. Então fomos.

Só que, digamos até naturalmente nesse contexto, a conversa passou a girar em torno da violência na cidade. O motorista chegou a dizer que “se você vem ao Rio e não vê ‘tiros e explosões’ você não veio ao Rio”. Isso começou a deixar minha companheira preocupada.

Copacabana é cheia de montanhas (cortados por túneis), que a dividem dos bairros vizinhos. Um dos morros fica ente Copa e Ipanema.

Nota: evidente que problemas de segurança pública não são exclusivos do RJ. Eu e ela alias fomos assaltados alguns meses atrás na Zona Norte de Curitiba.

Até por isso já estávamos ‘cabreiros’, como se diz. E aí o motorista resolveu nos impressionar contando episódios de violência.

Minha companheira ficou receosa e perguntou se não era melhor cancelar a ida ao Cristo Redentor naquela hora e ir depois.

Oras, fomos ao Rio de Janeiro principalmente pra ela subir ao Cristo, que era seu sonho. E no dia seguinte o problema continuaria igual, de nada adiantaria adiar.

Pedi ao motorista do aplicativo que “parasse com aquele assunto”. Imediatamente ele se deu conta e mudou o tom da conversa.

Agora também o rapaz ajudava a deixá-la tranquila. Ele falava “essas coisas que eu contei aconteceram bem longe, no subúrbio. Aqui é Zona Sul, é bem seguro, a polícia protege”.

No entanto veja o que há sobre o túnel: bem ao lado dos prédios de classe média/média-alta, a favela do Pavão-Pavãozinho/Cantagalona próxima tomada a mesma cena em escala maior.

Chegamos ao Cosme Velho. Havia uma viatura parada na estação, como há viaturas paradas e rodando por todos os pontos das Zonas Sul e Central, pelo menos.

Ainda assim, o motorista nos alertou: “ali é a bilheteria. Vá direto comprar seu ingresso, não fale com ninguém”. 

Como se nós não tivéssemos entendido, ele repetiu 3 vezes no curto tempo de manobrar o carro pra descermos:

Não fale com ninguém, não peça informações, se falarem com você não responda. Vá direto a bilheteria – ah, e não use o celular na rua”.

No fim deu tudo certo. Subimos ao Cristo Redentor de trem, não presenciamos nenhum episódio negativo.

Voltando ao tema anterior, alias minha namorada reparou que no Rio pouca gente usa celular nos ônibus, enquanto aqui em Curitiba essa prática é universal. Se você andar de busão na capital paranaense irá constatar que quase 90% das pessoas estão entretidas com seus apetrechos eletrônicos.

No Rio, segundo ela apontou, é bem mais raro. Mas ressalto que andamos poucas vezes de ônibus lá, a amostragem foi pequena, não posso endossar nem refutar a observação dela.

…….

No feriado de 7 de Setembro fomos a Barra da Tijuca. Ida de metrô e novo sistema de ônibus expressos (agora se usa a sigla em inglês ‘BRT’ – breve escreverei uma matéria específica sobre o transporte no Rio).

Na volta pegamos um ônibus convencional, que vem margeando a orla. Ele passa perto da Rocinha e aos pés do Vidigal, duas das maiores e mais famosas favelas da orla carioca (alias a imagem acima da manchete – puxada da internet – mostra justamente uma operação militar na Rocinha, em 2017).

Em São Conrado 4 garotos de uma dessas “comunidades” invadiram o ônibus, pela porta de trás. Eram garotos mesmo, ainda crianças, por volta dos 10 anos. O motorista levantou e deu uma dura neles: “O menor, cadê a passagem?” Um dos meninos respondeu “a gente tá trabalhando”.

Ainda o Pavão-Pavãozinho visto de Copa, o contraste entre os extremos

Pra quem não sabe, existe um acordo tácito que camelôs que vendem seus produtos no busão podem embarcar por trás sem pagar, mas precisam descer tão logo concluam o serviço.

O motorista obviamente não aceitou o ‘caô’ dos meninos, pois além deles estarem em grupo não tinham nada as mãos pra vender.

Encrespou: “Que trabalhando que nada. Vai pagar a passagem ou vai descer, qual vai ser?Só que a seguir ele mesmo propôs um acordo: “Vai ficar na disciplina?”

Isso quer dizer que a gurizada podia viajar sem pagar, mas precisava ficar sem fazer algazarras, sem incomodar os demais passageiros – essa é a ‘disciplina’. Ele reforçou: “então, vai ficar na disciplina ou vai descer agora?”

A mesma ‘comunidade‘ (nas fotos anteriores vista das ruas, de dentro do bairro de Copacabana), agora fotografada em plena areia da praia de Copa: “O Rio é uma cidade de cidades misturadas; O Rio é uma cidade de cidades camufladas; Com governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros; Ocultando comandos…”, bem definiu a música “Rio 40º”. Obviamente todos entenderam que os comandos – e mais recentemente também as milícias – é que são os governos ‘paralelos, sorrateiros e misturados’.

O líder das crianças aceitou a oferta, garantindo que eles iam sim ‘ficar na disciplina‘. E assim foi, eles viajaram na paz até a Praia do Leblon.

Ali desceram, cumprindo o acordo de não perturbar o motorista e demais passageiros. Só queriam uma carona pra curtir o fim-de-tarde de feriadão nas areias da Zona Sul.

Somente o susto. Mas que foi um momento tenso é certeza. Felizmente eram crianças. Se os invasores fossem um pouco mais velhos, adultos ou mesmo adolescentes, a situação poderia ter tomado outro rumo.

Alias nem mesmo o motorista teria peitado um grupo de rapazes, temendo – com razão – primeiro por sua própria segurança.

Esse foi o único episódio de quebra de ordem que presenciei em 6 dias no Rio. Ficamos um pouco apreensivos sobre o rumo que a coisa tomaria, mas não aconteceu nada.

Bem, digo ainda mais uma vez, a cidade estava inteira tomada pela polícia, ao menos em seus bairros mais caros e no Centro. Assim estava segura.

Praia de Ipanema. Sua beira-mar tem os prédios residenciais mais caros do Brasil. Mas repare ao fundo no morro a favela do Vidigal.

Tudo foi tranquilo, mas foi bem tenso. É impressionante de ver a polícia oni-presente, e triste constatar que essa é a única forma de garantir um pouco de segurança pros turistas e moradores.

………..

RIO, CIDADE-DESESPERO: FICA DE OLHO ABERTO “QUE A MALANDRAGEM NÃO TEM DÓ” –

Agora estou a anos afastado da cobertura da mídia, mas por décadas (entre os anos 90 e começo dos anos 10) eu lia frequentemente jornais de várias partes do Brasil e do mundo.

Acompanhava também os periódicos cariocas. E neles eu vi diversas histórias de horror das guerras do tráfico – em menor medida também do jogo do bicho.

Em escala maior, o Vidigal em sua ‘Glória & Esplendor’, vigiando as praias do Leblon e Ipanema. Como já escrevi antes: na orla e ao lado do bairro de m2 mais caro do Brasil, o próprio Vidigal, ainda que seja uma favela, é um lugar caro de se morar. Segundo levantamento da revista Exame, um imóvel de 100 m2 ali sai por nada menos que R$ 800 mil, mesmo preço do Centro e mais caro que em todos bairros da Zona Norte e Zona Oeste exceto a Barra, mas acima do Recreio dos Bandeirantes.

Relatos dignos de figurar nas reportagens das guerras do Afeganistão, Iraque, etc. Não apenas a imprensa falou disso. A arte também.

Conhece a música ‘ZeroVinteUm’ do grupo carioca ‘Planet Hemp?

O título é, obviamente, a forma por extenso do DDD ‘021’. Assim está evidente que a canção se propõe a ser um breve raio-X do Rio. Diz a letra:

“  Rio de Janeiro, cidade hardcore.

Arrastão na praia não tem problema algum.

Chacina de menores, aqui é 021.

Polícia, cocaína, Comando Vermelho.

Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro. 

………

Sarajevo’, não custa relembrar, é a capital da Bósnia-Herzegovina, país que se separou da Iugoslávia no começo dos anos 90. A secessão foi qualquer coisa menos pacífica; exatamente ao contrário:

Desandou numa guerra civil que foi o mais sangrento conflito bélico da Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial, 75 anos quando escrevo em 2020.

Em frente a Lagoa Rodrigo de Freitas (clique pra ampliar) vemos o mesmo Vidigal a esquerda da imagem – no detalhe. “O Rio de Janeiro continua lindo“, sem dúvidas. Mas o descaso com a situação das favelas, que cresceram descontroladamente, fez surgir um descalabro nas mesmas. Foram tomadas pelos ‘comandos’ de traficantes surgidos a partir da gênese da Falange Vermelha, ainda nos anos 70. Na maior parte da Zona Oeste e Baixada Fluminense predominam as ‘milícias’, que a princípio não permitiam a venda de drogas no território que dominam; mais recentemente, entretanto, algumas milícias passaram a explorar também as bocas-de-fumo, pois viram que elas rendem bastante dinheiro. Seja ou não permitido comércio de entorpecentes na comunidade (e agora mesmo algumas milícias aderiram a prática, repetindo), ‘milícias’ e ‘comandos’ têm mais pontos em comum que divergências: nos territórios dominados por um grupo armado o poder é mantido de forma brutal, e é praticada extorsão contra comerciantes e fornecedores de serviços como camelôs e moto-táxis. Em compensação, não há roubos dentro da ‘comunidade‘, os moradores podem deixar as portas destrancadas quando saem pra trabalhar. Não para por aí, os traficantes e milicianos são o verdadeiro ‘estado paralelo’, e implantaram em algumas favelas até mesmo clínicas médicas pra população. Além disso, quando há casamentos nas favelas eles fornecem limusines pra que as noivas possam chegar em alto estilo no ‘grande dia‘.

No começo e meio do anos 90, os jornais televisivos e impressos estavam repletos de histórias de atrocidades, matanças e bombardeios ocorridos em Sarajevo e toda Bósnia.

Ainda assim, o autor que é Marcelo D2 achou que era justo dizer que ‘Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro‘.

Querendo com isso dizer que o conflito carioca pelos pontos-de-venda de drogas é ainda mais pavoroso que a guerra que culminou na independência da Bósnia.

Na mesma linha segue a música ‘Calibre’, do grupo Paralamas do Sucesso.

Trata-se de outro retrato do que acontece em terras cariocas por quem as conhece por dentro. Reproduzo-a na íntegra:

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo

Sem saber o calibre do perigo

Aqui e a seguir, o Centro da cidade: nos deparamos com a mesma situação da Zona Sul – uma ocupação militar pra garantir a ordem, com viaturas oni-presentes.

Eu não sei, daonde vem o tiro (2x)

Por que caminhos você vai e volta?

Aonde você nunca vai?

Em que esquinas você nunca para?

A que horas você nunca sai?

Há quanto tempo você sente medo?

Quantos amigos você já perdeu?

Entrincheirado, vivendo em segredo

Próximo aos camelôs da Rua Uruguaiana.

E ainda diz que não é problema seu

E a vida já não é mais vida

No caos ninguém é cidadão

As promessas foram esquecidas

Não há estado, não há mais nação

Perdido em números de guerra

Rezando por dias de paz

Não vê que a sua vida aqui se encerra

Ainda no Centro, o VLT em obras em 2015: entre a Copa e Olimpíada o Rio imaginava que a bonança estava de volta (foto de autoria de uma colega).

Com uma nota curta nos jornais

Do ‘rap’ vamos pro roque. Do ‘morro’ passamos pro ‘asfalto’.

No entanto a mensagem é a mesma: a situação da violência urbana no Rio está fora de controle.

E ameaça mesmo a continuidade do Estado de Direito regido por leis. De fato assim é, infelizmente.

Como Herbert Viana do Paralamas colocou, no caos ninguém é cidadão; não há estado, não há mais nação.”

A GUERRA NA CIDADE: CV X TC/ADA X TCP –

Esse problema atinge diversas capitais brasileiras, e mesmo cidades médias do interior.

No entanto, certamente no Rio de Janeiro é onde essa situação é mais aguda.

E mais antiga. No fim dos anos 70 surgiu no presídio de segurança máxima da Ilha Grande, em Angra dos Reis, a famosa ‘Falange Vermelha‘.

Em ouro texto, que breve publico, falo melhor disso. Aqui, pra resumir, a ‘Falange’ metamorfoseou-se no ‘Comando Vermelho’ (‘C.V.’).

Aqui e a dir.: 2020, VLT operando no Centro do Rio. O chamado ‘metrô leve’ é limpo, rápido, eficiente e não-poluente. No entanto, o trajeto é muito curto – do Porto ao Aeroporto Santos Dumont. Por conta disso, o número de passageiros, e consequentemente a arrecadação, está muito abaixo do que era esperado.

O CV logo dominou boa parte das favelas e periferias cariocas. Pra se contra-pôr a ele, nos anos 80 veio o Terceiro Comando (‘T.C.’).

É um segredo ‘nem tão secreto assim’ que o TC foi fundado com a participação de alguns policiais e ex-policiais corruptos.

Que dessa forma almejavam competir com o CV pelo lucro da venda de entorpecentes.

Por esse motivo o Terceiro Comando era algumas vezes chamado de ‘Comando Azul’, alusão a cor da farda dos PM’s.

A seguir surgiu a facção ‘Amigos dos Amigos’ (‘A.D.A.’). O nome é inspirado na máfia italiana, cuja uma de suas múltiplas correntes se denomina ‘Amici del Amici’.

Nomenclatura a parte, ADA e TC se aliaram, formando uma parceria. Assim, os morros comandados pelos dois não se combatiam, uniam suas forças contra o CV.

No entanto, um grupo dentro do Terceiro Comando não aprovou a união com os ‘Amigos’. Numa dissidência, surgiu dessa forma o ‘Terceiro Comando Puro’ (‘T.C.P.‘).

O Centro do Rio, e a cidade como um todo, tentam renascero ‘Veículo Leve sobre Trilhos’ foi um legado positivo da Copa e Olimpíadas, que permaneceu; breve publico matéria específica sobre o transporte, onde falaremos com detalhes (e muitas fotos) sobre o VLT e todos os modais.

O Terceiro Comando original, o TC, não combatia a ADA e nem o Terceiro Comando ‘Puro’, dissidente seu.

E em reciprocidade o TCP tampouco guerreava com o TC. No entanto, entre TCP e ADA o pau comia, eram considerados tão inimigos quanto o CV.

Descrevi aqui como a situação se desenrolou dos anos 80 até o começo dos 2000. Como já disse, há tempos não acompanho imprensa, então essas alianças e mesmo seus grupos podem estar bastante modificados atualmente.

Pro que nos importa aqui, ainda que com outros nomes e configurações, o fato é que os grupos de criminosos fincaram raízes nos morros e favelas planas de várias partes do Estado do Rio.

Tomaram conta do município do Rio de Janeiro e mais Niterói e Duque de Caxias, além de várias cidades do interior do estado.

O VLT se manteve. No entanto, foram construídos 2 teleféricos em favelas, e esses foram desativados ainda em 2016, assim que acabaram os Jogos Olímpicos. Nessa imagem e na seguinte estamos vendo o teleférico do Morro do Alemão, na Zona Norte, no período que ele funcionou, de 2011 a 16 (r). Foram investidos nada menos que R$ 328 milhões nos dois sistemas, 253 milhões no Alemão e outros 75 na Providência.

Todavia, na Baixada Fluminense os ‘comandos’ não conseguiram se estabelecer tão firmemente – com exceção de algumas partes de Duque de Caxias (que é mais perto da área central do Rio).

Isso porque ali na Baixada a ação dos grupos de extermínio – conhecido como ‘Esquadrão da Morte’ ou ‘os Mão-Branca’ – é muito forte.

Assim, na Baixada surgiram posteriormente as milícias. Formada basicamente por ex-policiais e ex-bombeiros, a maioria deles expulsos da corporação por má-conduta.

Em alguns casos, participam também alguns policiais e bombeiros ainda na ativa. O que importa é que as milícias são organizações criminosas tão cruéis quanto os ‘comandos‘.

Com uma diferença: no princípio, as milícias não permitiam a venda de drogas nos territórios controlados por elas. Pra se sustentar, elas arrumavam outras formas de extorsão contra os próprios moradores.

Por exemplo, cobravam um ‘pedágio’ pra permitir a venda de botijões de gás dentro das favelas ou ‘comunidades‘.

Alemão ao anoitecer, a todo vapor as gôndolas do teleférico (r). Bons tempos . . .

Assim, um bujão de gás tem um ágio de 50% a 100% pros moradores da favela, que já têm o orçamento hiper-apertado por natureza.

As milícias instituíram além disso uma taxa ilegal pra permitir o transporte por táxis, moto-táxis e vans.

Os camelôs da região são extorquidos da mesma forma, precisam pagar a ‘licença’ pra milícia.

E ainda exploram a pirataria de TV a cabo, que no Rio é generalizada e conhecida como ‘gato-net’.

Um adendo: é evidente que em todas as cidades existe gente que pirateia sinal de TV por assinatura.

Aqui em Curitiba mesmo conheço pessoas que utilizaram desse ‘serviço’ ilegal. A diferença é que aqui e na maioria das cidades a fraude se dá ‘no varejo‘, digamos assim.

Teleférico do Morro da Providência, na Zona Central – ao fundo vemos o prédios da Central do Brasil (r). Esse teve vida ainda mais curta, só funcionou de 2014 a 16.

Alguém quer ter TV a cabo sem pagar pela assinatura. Aí então telefona pro técnico e esse vem a sua casa e instala ali um decodificador clandestino.

Só que nesse caso o roubo do sinal se dá individualmente, casa por casa. Se seu vizinho tiver TV por assinatura clandestina, você não saberá, pois no seu aparelho não pega o sinal desviado.

No Rio de Janeiro é diferente. Lá o roubo de sinal de TV se dá ‘no atacado’. Explico. Em cada ‘comunidade’ e em muitos bairros de periferia existe uma central não-autorizada de TV a cabo.

E nessa central o sinal é decodificado e daí enviado coletivamente a todas as casas da ‘comunidade’ ou bairro.

Ou seja, todos os moradores têm TV a cabo, sem precisar de uma assinatura formal. Porém como nada vêm de graça é preciso pagar uma taxa a milícia, que é quem comanda a central.

A dura realidade: em 16 o serviço nos teleféricos foi suspenso ‘temporariamente pra manutenção’, e nunca mais voltou (r). Os equipamentos são importados da Áustria e hoje estão imprestáveis, pois foram abandonados ao relento, como vê aqui.

………

Seja como for, as milícias tomaram conta da Baixada Fluminense. E então começaram a entrar no município do Rio mesmo.

Um de seus epicentros na capital é a favela (plana, não é em morro) chamada Rio das Pedras, próximo a Barra da Tijuca na Zona Oeste.

Vocês sabem que a Barra é uma espécie de ‘subúrbio estadunidense’: um lugar afastado dos bairros centrais, que a elite e alta-burguesia escolheram pra morar justamente por ser distante do resto da cidade.

Pois bem. Rio das Pedras é ali do lado, inclusive dá pra ver dela os espigões na orla da Barra. A última coisa que os moradores da Barra querem são assaltos e arrastões nas suas ruas e praia, alias quem é que iria querer isso?

Daí surgiu a milícia em Rio das Pedras. Ela usa de todas as formas de financiamento ilegais. Inclusive correm boatos que não posso confirmar, mas que atestam que alguns comerciantes da Barra pagam uma ‘caixinha’ pra milícia, em troca da tranquilidade do bairro.

Ingresso do teleférico do Pão-de-Açúcar, na Zona Sul. Esse é turístico, evidentemente. No começo da década de 10 se imaginava que as favelas cariocas poderiam dispor do mesmo padrão de conforto.

Alias, dizem que esse é o caso também na orla da Zona Sul e em bairros da Zona Norte igualmente. O que é fato é: a milícia estabeleceu uma base em plena Zona Oeste, ao lado de um dos bairros mais ricos da cidade.

Paralelamente a isso a milícia se expandiu e conquistou boa parte da Zona Oeste, em seus bairros mais periféricos como Santa Cruz, Sepetiba e o vizinho município de Itaguaí.

Logo ela seguiu crescendo e passou a dominar ‘comunidades’ na divisa entre as Zonas Oeste e Norte, em bairros como Bangu, Padre Miguel, Realengo, Quintino, Bento Ribeiro, etc.

Começaram então violentos confrontos com as quadrilhas de traficantes. A princípio, repito, a milícia não permitia a venda de drogas (depois isso veio a mudar, já falaremos melhor).

Assim o conflito carioca aumentou e se tornou multi-dimensional. Além dos comandos brigarem entre si pelos pontos-de-venda de drogas, enfrentavam agora a ira da milícia com seu crescente poder.

No entanto acabou assim: estação de teleférico do Morro da Providência – ao fundo vemos a Baía da Guanabara – abandonada (r). Abandonada e usada como depósito de lixo, até vasos sanitários são depositados ali. Mais de 300 milhões jogados no ralo. Depois não entendem porque a cidade está quebrada . . .

RIO, A “TERRA EM TRANSE”: COMO NA COLÔMBIA

Já escrevi antes, a situação no Rio guarda vários paralelos com o que aconteceu na Colômbia. Nesse vizinho país (2º mais populoso da América do Sul só atrás do Brasil), 2 Cartéis de Traficantes, o de Medelím e o de Cali, se engalfinhavam numa disputa sangrenta.

Os choques ocorriam entre eles e contra as forças do estado. Paralelamente a isso havia uma guerrilha de esquerda ativa muito forte.

Cujos grupos mais significativos eram as ‘Farc‘ (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ‘ELN‘, ‘Exército de Libertação Nacional’.

Conflitos entre esses dois grupos e os militares atingiram níveis de guerra civil. No auge perto da virada do milênio a Farc chegou a controlar uma grande ‘área desmilitarizada’ na Amazônia Colombiana.

Pra combater as Farc e o ELN surgiu a milícia AUC – Auto-Defesas Unidas da Colômbia. As AUC, como as milícias cariocas fariam depois, no começo não permitiam o tráfico de drogas em seus territórios.

Vale lembrar que o que chamamos ‘tráfico de drogas’ na Colômbia está uma dimensão acima do que ocorre no Brasil. A coca é plantada um pouco na Colômbia mesmo, mas o grosso na Bolívia e Peru.

Porém independente do país que seja plantada, quase toda coca produzida na América do Sul é refinada na Colômbia, ou seja, ali ela vira cocaína. De forma que nesse país o jogo sujo do tráfico movimenta bilhões, é briga de cachorro grande.

Medelím, Colômbia: ali foi inventado o ‘metrô-cabo’, os teleféricos que sobem os morros  (r). Deu certo. Tão certo que foi copiado também em Cali (na própria Colômbia), Caracas (Venezuela), La Paz (Bolívia) e no Rio. Pena que no caso carioca já foi abandonado.

No começo as AUC não permitiam a venda de drogas em seu território, portanto elas combatiam tanto as guerrilhas de esquerda como os cartéis.

No entanto, logo as AUC ”perderam a pureza”, se quiser ver assim. E passaram a também permitir a ação dos cartéis em seus territórios, desde que claro um alto pedágio fosse regiamente pago.

Portanto o conflito colombiano se tornou, repito, multi-dimensional. A partir do momento que as AUC também negociam com os cartéis, várias guerras paralelas se desenrolam, com múltiplas interações entre os grupos envolvidos:

– Os cartéis de Medelím e Cali se combatem entre si e contra o Estado.

– As guerrilhas Farc e ELN enfrentam as AUC e o Estado.

Voltamos ao Rio, desembarcando justamente na estação Cantagalo do metrô, que serve ao morro (favelizado) de mesmo nome, na Zona Sul. O transporte é parte fundamental da recuperação da Colômbia. No Rio os teleféricos nos morros deixaram de funcionar; mas do legado da Copa e Olimpíadas, nem tudo foi perdido, muito ao contrário: ficaram o VLT (já visto mais pra cima na matéria), a expansão do metrô por toda Zona Sul e chegando na Zona Oeste (perto da Barra) e a implantação dos ônibus expressos ‘Trans-Carioca’ e suas ampliações (o ‘BRT – próxima imagem).

No entanto, quando as AUC resolveram aceitar o dinheiro sujo dos cartéis (o que as guerrilhas também fazem), nova situação se desdobrou, muito mais complexa.

As duas guerras se misturaram, tornando-se uma só. Tanto a milícia de direita quanto as guerrilhas de esquerda fazem alianças pontuais com os cartéis da droga.

Alianças que são tênues por natureza, pois visam apenas uma vantagem imediata. Se as circunstâncias se alteram, as ‘amizades’ também oscilam. Resultado: “Todos Contra Todos, como a CIA Gosta”. Bem complicado!

Da Colômbia já escrevi com mais detalhes quando visitei esse país, em 2011. Citei agora brevemente porque há paralelos com o Rio.

Em 2020 as últimas notícias dão conta que as milícias cariocas, como fizera a colombiana antes, agora também permitem a venda de entorpecentes em seus territórios.

Segundo uma investigação divulgada na imprensa, já são 180 favelas e ‘comunidades’ no Grande Rio comandadas por milicianos com bocas-de-fumo ativas.

Essas ‘biqueiras’ as vezes são operadas diretamente pelos milicianos e em outros casos ‘arrendadas’ aos comandos de traficantes. Sim, é isso. O domínio do território é da milícia. Ela quem determina as regras de convivência social.

Inclusive em quem os moradores devem votar nas eleições – apesar do voto ‘ser secreto’ (nos bairros dominados por milícias e comandos a população vota em bloco no candidato determinado pelos chefões, num verdadeiro ‘curral eleitoral’).

Neobus articulado do sistema ‘expresso’ (‘BRT’) no Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. Só foi implantado nas Zona Norte e Oeste, no Centro e na Zona Sul não. Ainda assim, ele liga de forma rápida e barata as periferias da Z/N e Z/O a orla da Z/O. Isso, a expansão do metrô e mais a construção da Linha Amarela nos anos 90 mudou a Barra, que até então era uma espécie de ‘subúrbio estadunidense’. Trocando em miúdos, o pessoal da elite e alta burguesia escolheu a Barra da Tijuca pra estar distante e próximo do Rio ao mesmo tempo: poder aproveitar ao máximo a extensa vida cultural da cidade, ir a jogos no Maracanã, mas ao mesmo tempo ficar afastado dos problemas cariocas, não o menor deles a violência. No começo saiu como o planejado. Mas com a melhoria dos transportes o Rio ‘alcançou’ a Barra, se quiser ver assim. Hoje, a Praia da Barra da Tijuca é do povão, igual as da Zona Sul. Não deu certo a estratégia de se isolar. Deixo pra vocês avaliarem se isso é bom ou ruim.

No entanto, a comércio de substâncias ilegais é de responsabilidade de um dos comandos, que dividem os lucros com os donos do local.

Por isso a música ‘Calibre’ dos Paralamas fala: “No caos ninguém é cidadão; não há mais estado, não há mais nação”.

De fato assim é. O Rio atingiu um ponto de caos. Como contei, agora a anos não vejo mais mídia, exceto muito esporadicamente.

No entanto, na primeira década do novo milênio, quando eu lia os jornais cariocas com frequência, vi histórias horrorosas de conflito urbano, de fato não devendo muito pra uma guerra civil.

Além de muitas chacinas e decapitações/amputações, os tumultos chegaram ao ponto de provocar refugiados, como uma guerra mesmo.

Em Curitiba e na maiorias das cidades brasileiras, quando uma quadrilha de traficantes toma o ponto da outra eles matam ou expulsam da ‘comunidade’ os líderes antigos.

No Rio a coisa é mais brutal. Os traficantes recém-chegados escolhem algumas casas na favela invadida e as tomam pra si, pondo dezenas de moradores no olho da rua.

Assim, algumas grandes favelas cariocas chegaram a ter, no começo do novo milênio, alguns mini ‘campos de refugiados’:

Alguns dos expulsos de suas casas, sem ter pra onde ir, acampam na praça na entrada da favela, pra poder manter seus empregos que são nas redondezas.

DUAS ABORDAGENS OPOSTAS PRO MESMO PROBLEMACopacabana, Zona Sul do Rio, 2020. Ruas públicas com grades, transformando-se em condomínios fechados – cena comum no bairro, e que se repete em todas as outras metrópoles brasileiras, evidente. No entanto, na imagem a seguir . . . .

Oras, essa é a situação do Haiti pós-terremoto. Como sabem, a situação nessa ilha caribenha de ampla maioria negra já era difícil antes.

Em 2010 um fortíssimo tremor de terra abalou essa sofrida nação, as mortes foram na casa das centenas de milhares, estimadas entre 100 e 300 mil.

Após esses triste ocorrido, as praças da capital Porto Príncipe se tornaram campos de refugiados.

Imagens de satélite mostram diversos acampamentos improvisados pela cidade, em que a ONU e diversas ONG’s tentam como podem mitigar o sofrimento dos desabrigados.

Claro que no Rio a situação não chegou nesse extremo, afinal nenhum terremoto ocorreu ali. Ainda assim, embora em escala infinitamente menor, há um paralelo.

Além disso, não sei como a coisa está hoje, mas na década de 2000 você precisava consultar no rádio ou na internet se podia passar em algumas partes da cidade.

. . . . agora vemos um prédio sem qualquer grade ou porta externa, nem mesmo de vidro. Numa cidade que sem dúvidas é violenta, alguns não sentem dessa forma, não sentem medo, e por isso o pátio de entrada do edifício é aberto. Curioso, não? A mesma cidade, o mesmo bairro, mas as pessoas veem a mesma questão por ângulos opostos: alguns fecham até a via pública, outros não fecham nem a área particular de seus prédios.

Se você ia pegar via expressa de grande movimento (como as Linhas Vermelha e Amarela ou a Av. Brasil) tinha que pesquisar se elas não estavam fechados.

Isso por conta que tiroteios entre traficantes ou deles com a polícia com frequência tornavam essas vias temporariamente intransitáveis.

Óbvio que isso apenas diminuía o risco, e não o eliminava. Você ficava sabendo que até quando saiu de casa a coisa estava tranquila.

Entretanto nada podia garantir que coisa não iria degringolar justamente no momento que você estava ali.

Então o que presenciei no Rio, a invasão do ônibus pelos meninos da favela e os motoristas se recusarem a nos levar até o Cristo, foi apenas o aperitivo. Uma pequena amostra do que os cariocas têm que enfrentar diariamente, a décadas.

Antiga UPP do Cosme Velho, Zona Sul, agora desativada e em ruínas – desse ângulo não aparece (eu estava dentro do trem que sobe ao Corcovado em movimento) mas largaram ali até as viaturas pra que apodrecessem ao relento. Tipo, abandonaram essa e muitas outras UPP’s, foi todo um sonho jogado fora. A justificativa é que agora a região do Cosme Velho é atendida pela UPP do Santa Marta/Dona Marta, em Botafogo, também na Zona Sul. Hummm… O conceito de UPP não funciona assim. Na UPP, a unidade precisa estar baseada na própria comunidade que policía e pacifica, pro policial conhecer os moradores e saber separar o ‘joio do trigo’. Se a UPP está baseada longe, em outra favela, não é mais ‘Polícia Pacificadora’, e sim polícia comum com o rótulo de UPP. Mas fica pior, se fosse possível mas é. Não apenas desistiram da UPP do Cosme Velho, mas não se deram sequer ao trabalho de levarem as viaturas, que poderiam ser utilizadas em outras unidades. Não aconteceu assim. Ao contrário, os carros da polícia, propriedade pública, foram esquecidas ali se deteriorando, como se o Estado tivesse que ter fugido as pressas de seu próprio território. Isso nos leva a algumas reflexões: na Colômbia, recuperação que o Rio tentou imitar, o renascimento tem duas vertentes, igualmente importantes –  o aspecto social, de dar cidadania as classes sociais carentes; e o aspecto policial, o de reprimir a ação de criminosos pra desenraizar as quadrilhas. No caso colombiano investiram na infra-estrutura das favelas, sendo o transporte um aspecto fundamental do câmbio; porém investiram pesado no policiamento da cidade toda, as ‘comunidades’ inclusive. No Rio, após um bom começo, parece que tudo desandou de vez de novo. Aí como almejar melhorias? Só porque é o Morro do Cristo querem um milagre? Talvez seja isso que estejam esperando!!!!

Encerrando como comecei, temos que perguntar: como chegamos nesse ponto??? É isso que irei abordar no próximo texto, na sequência da série sobre a ‘Cidade Maravilhosa’. Alias, parafraseando o ‘Planet Hemp’ que já nos alertou:

“     A cidade é maravilhosa mas se liga, mermão.

Aqui fazem sua segurança assassinando menor. Então fica de olho aberto, a malandragem não tem dó. ”

Rio, cidade-desespero. A vida é boa mas só vive quem não tem medo.  ”

Por ”malandragem não tem dó” obviamente D2 quis dizer exatamente que as ‘comunidades’ iriam se organizar em comandos/milícias, e passar a viver num ‘estado paralelo’.

E quando esse ‘estado paralelo’ se chocasse com o ‘estado oficial’ a burguesia não iria gostar do resultado. De fato assim se deu.

Sim, evidente, como diz a música do Rappa, “menos de 5% dos moradores de favela são dedicados a alguma atividade marginal”.

A canção sabiamente esclarece que ”a grande maioria das pessoas que vivem nesses locais daria um livro por dia, sobre honestidade e sacrifício.  Pura verdade. Ainda assim, o problema permanece:

“A cidade é maravilhosa mas se liga mermão. Fica de olho aberto, malandragem não tem dó. A vida é boa mas só vive quem não tem medo”.

Como não ter medo com as coisas correndo soltas dessa maneira? Finalizo com sábio aviso da música dos Paralamas:

“    Perdido em números de guerra, rezando por dias de paz

Não vê que a sua vida aqui se encerra com uma nota curta nos jornais?

No caos ninguém é cidadão. As promessas foram esquecidas.

Não há estado, não há mais nação   ”.

Que situação! Deus Pai e Mãe nos ajude!!!

“Deus proverá”

Isso é que é vida!!! Amanhece e anoitece na Praia de Boa Viagem, Recife

TERMINA O DIA DE FERIADÃO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA EM BOA VIAGEMTodas as imagens mostram o fim-de-tarde de 15 de Novembro de 2020 na Praia da Boa Viagem; ou o amanhecer seguinte, de 16/11/20, na Praia do Pina, que é prolongamento da Boa Viagem. As fotos estão datadas. Quando o selo disser 15/11, como aqui, estamos vendo o Pôr-do-Sol.

Por Maurílio Mendes, o Mensageiro

Publicado em 8 de dezembro de 2020

Estive no Nordeste, mais especificamente no Recife e em Salvador.

Agora vou escrever duas séries de reportagens.

Relatando o que observei nas capitais pernambucana e baiana – além claro de prosseguir a série sobre o Rio de Janeiro.

Vamos abrir com chave de ouro, mostrando logo de  cara algumas das imagens mais bonitas que captei por lá.

O anoitecer e amanhecer na Praia de Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

Próximas 13 tomadas: amanhecer de 16/11/20 na Praia de Boa Viagem/Pina. Aqui vemos que os 1ºs raios de Sol surgem pouco depois das 4:20 da manhã.

Na África do Sul aconteceu o mesmo, em 2017. Comecei a série sobre  aquele país com um ensaio mostrando sua parte mais charmosa:

Também é a orla da Zona Sul da Cidade do Cabo, apelidada ‘Riviera do Cabo’ pelas casas se espremerem entre os rochedos e o mar.

De volta a B. Viagem, Recife. Todos sabem que essa é a praia mais famosa da  cidade que abriga os prédios mais caros de Pernambuco.

Algumas imagens foram feitas na Praia do Pina, que fica logo ao lado.

Na verdade quase diríamos que o Pina ‘pertence’ a Boa Viagem, assim como na Zona Sul do Rio o Leme pertence a Copacabana.

Antes de 20 pras 5: céu começa a clarear.

Falar alias nisso, passei o feriado de Independência no Rio de Janeiro, e o da República no Recife.

Na capital de Pernambuco amanhece bem cedo, pouco depois das 4:20 da manhã surgem os primeiros raios.

Quando a Lua ainda está alta, como vemos na tomada a direita.

Isso porque obviamente o Sol Nasce no Leste (e se põe no Oeste).

João Pessoa, na vizinha Paraíba, é a cidade mais a Leste de toda América.

Exatamente 15 p/ 5 cheguei na Avenida Boa Viagem pra registrar esses espetáculo.

Portanto a capital paraibana, apelidada ‘Jampa’, é “onde o Sol Nasce“.

O lugar que recebe todos os dias o primeiro raio de claridade de todo continente.

Sua longitude é 34,4º Oeste. A longitude do Recife, por sua vez, é 34,9º Oeste.

Oras, apenas meio grau separa as capitais paraibana e pernambucana.

4:46: avenida ainda escura e deserta.

Se J. Pessoa é a cidade mais a Leste da América, e portanto onde o ‘Sol Nasce’ no continente, o Recife é a 2ª mais a Leste.

Dessa forma ali o Astro-Rei surge no mar pouquíssimos minutos depois, é a 2ª cidade de toda a América a ver o amanhecer.

Tanto que a linha imaginária que marca essa longitude é conhecida como “Meridiano do Recife”.

Aqui e a esq.: praia perto de 10 pras 5.

Se Jampa é a cidade mais a Leste, Recife é maior e mais importante econômica e politicamente.

Logo coube a ela nomear a referência geográfica.

Seja como for, o Recife e João Pessoa são cidades-irmãs.

Muito próximas e ligadas em todas as dimensões, físicas e espirituais.

Já falei um pouco disso na série sobre a Paraíba, que visitei em 2013.

E em texto que breve voltamos a abordar esse mesmo tema.

Por hora curtamos o amanhecer em Boa Viagem, a praia mais badalada de Pernambuco.

Nas imagens nas laterais vamos vendo e aqui no texto descrevendo a sequência do que fotografei.

As tomadas acima estão legendadas. Então seguimos a partir da próxima a direita:

Perto de 5 pras 5 o firmamento começou a clarear por inteiro.

No entanto a luta entre luz e escuridão ainda está em andamento.

A iluminação pública nos postes ainda está acesa, por conta disso.

As 5 da manhã o céu já clareou por inteiro (esq.).

No entanto, ainda não tem quase ninguém nas ruas.

Tampouco passa qualquer carro no asfalto, nesse momento.

Entretanto, em poucos minutos a situação iria mudar, como veremos a seguir.

Exatamente as 5:09 da manhã o Astro-Rei se levantou do Oceano Atlântico.

Registrei o momento exato, ao lado. Pena que uma nuvem o encobria.

Dois minutos (5h11min) depois captei as duas tomadas a seguir, ao lado e abaixo.

Começou um novo dia. O céu está inteiro iluminado.

No detalhe a luz do Sol refletida nos prédios espelhados (registrei a mesma cena em Santos-SP).

Por volta das 5:15 a beira-mar começou a encher de gente.

Praticando todo tipo de exercício: caminhada, musculação, e …. tênis!

Repare nas próximas imagens. O calçadão e os parques da Avenida Boa Viagem movimentados.

O Recife é muito quente. De forma que os melhores horários pra malhar, jogar bola ou simplesmente andar na praia são mesmo de manhãzinha ou ao entardecer (presenciei a mesma coisa na República Dominicana, e pelo mesmo motivo).

Achei bem interessante. Tênis as 5 da matina em plena Boa Viagem? Isso é que Vida!!!

………

Na sequência abaixo 3 imagens tiradas do mesmo local.

Vemos exatamente a grade dessa quadra, pra acompanharmos a mudança no firmamento.

Encerramos acima o amanhecer de 16/11. Agora ao lado e no próximo carrossel horizontal abaixo vamos ver o entardecer imediatamente anterior.

Portanto o Pôr-do-Sol do dia 15 de novembro de 2020, data que marcou o aniversário de 131 da proclamação da República no Brasil.

Anoiteceu assim na Praia de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

Fechamos com um desenho, Maurílio e Marília nessa exata Praia de Boa Viagem. Eles visitaram também Brasília Teimosa, que fica ao lado como sabem.

O Pai e Mãe Deus Oni-Poderoso Criador do Universo permitiu, então consideramos os Trabalhos sobre o Nordeste abertos.

Deus proverá

 

Essa é a ‘Cara do Brasil’: Rio de Janeiro, Cidade-Maravilhosa

Praia de Copacabana: o Rio de Janeiro continua lindo!, sem dúvidas. Mas o contraste social é gritante: o morro do Cantagalo/Pavão-Pavãozinho é uma grande favela quase a beira-mar, ao lado do m2 mais caro do Brasil, a orla de Ipanema, Copacabana e bairros vizinhos.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 13 de outubro de 2020

Mensagem-portal da viagem ao Rio de Janeiro. No fim da matéria ancoro as demais reportagens, conforme eu as vá publicando.

Quase todas as fotos de minha autoria. As que forem baixadas da internet identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

……..

Aquele Abraço: mural no Centro com a famosa canção que retrata a cidade que é “a cara do Brasil”.

O que falar da “Cidade-Maravilhosa”?, já tão cantada e decantada em verso e prosa…

Ainda assim aceito o desafio, e farei uma série de matérias relatando o que observei nesses quase 6 dias que passei no Rio.

UMA CIDADE ABSOLUTAMENTE MARAVILHOSA; MAS . . . SOB OCUPAÇÃO MILITAR –

Sabe o Yin-Yan, aquela bola metade escura e metade clara em que as metades se entrelaçam?

É o Oráculo-Mor do Universo, e se isso fosse possível resumiria numa imagem como as Leis da Energia (que regulam toda a Vida, em todas as dimensões) funcionam.

SOB OCUPAÇÃO MILITARPraia de Ipanema, feriado de 7 de Setembro de 2020: várias viaturas da Polícia Militar e Guarda Municipal fazem pressão na orla, pra manter a ordem. O Rio de Janeiro está inteiro assim, fortemente ocupado pelas forças de segurança, pra tentar impedir assaltos no asfalto e invasões nos morros; Como vê, a força-tarefa envolve todas as esferas, afinal obviamente a P.M. é do governo estadual, e a Guarda Municipal é gerida pela prefeitura como o nome indica. Quando é preciso ações mais pesadas nos morros, Exército, Marinha e Aeronáutica  (a esfera federal) também participam – vide próx. imagem.

“O Preto e o Branco vem juntos”, o que quer dizer que as partes boas e ruins muitas vezes caminham lado-a-lado.

Funciona assim sempre, mas em nenhum lugar esse contraste é tão óbvio quanto no Rio.

Não estou contando o segredo do Santo Graal, estou?

Como diz a música Rio 40º, é a “capital do melhor e do pior do Brasil“.

Acho que não poderia haver melhor definição que essa.

Então isso é o que mais chama a atenção no Rio de Janeiro:

Um lugar deslumbrante, espetacular, a própria “Cidade-Maravilhosa” mesmo e não poderia haver outra.

GUERRA NA CIDADE – Favela da Rocinha, Zona Sul do Rio, setembro de 2017 (r): 4 mil Homens das 3 Forças Armadas (mil na linha de frente e mais 3 mil na retaguarda) com dezenas de blindados – verdadeiros tanques de guerra, como vê na imagem – e helicópteros sobem a Rocinha, pra apoiar grande operação das Polícias Civil e Militar que visava pacificar a favela após dias de tiroteios entre facções do tráfico, que assustaram a Zona Sul. Como dito, fotos com ‘(r)’ são puxadas da internet, nesse caso a fonte é a ‘Wikipédia’.

Por outro lado, com problemas gravíssimos de segurança pública. Bota ‘gravíssimos’ nisso.

Alias essa parte já se deteriorou tanto que os tumultos se tornaram crônicos, ou seja permanentes.

Em setembro de 2020, quando lá estive, o que vi foi uma cidade sob ocupação militar:

Uma força-tarefa que reúne duas esferas – municipal e estadual – satura as Zonas Sul e Central de polícia.

(Nota: não tive tempo de ir a Zona Norte infelizmente, e na Zona Oeste só estive na Praia da Barra.

Então sinceramente não sei como estava a situação no subúrbio.)

Vamos então olhar esse Rio de Janeiro, ‘lado A & lado B‘, suas belezas e suas mazelas. Aqui, em foto tirada no Cristo Redentor, vemos o Pão de Açúcar obviamente, abaixo dele a Urca, e o bairro de Botafogo. Mais uma vez o agudo contraste, repare quantos barquinhos ancorados na baía; no entanto (também no bairro de Botafogo) na encosta do morro, repare na parte que tem sombra, a favela de Santa Marta/Dona Marta, aquela em o cantor estadunidense ‘Michael Jackson’ gravou um clipe. Do outro lado da Baía de Guanabara, visualizamos ainda Niterói.

Seja como for, o que presenciei já foi bastante impressionante.

Viaturas ocupam todas as partes da Zona Sul, o tempo todo, e no Centro a presença também é  intensa.

Pra tentar reduzir, temporariamente que seja, os assaltos e tiroteios entre traficantes, que tiveram grande explosão no inverno de 2020.

Quando preciso, até a esfera federal – as Forças Armadas – também participa dos cercos as favelas, como nota na imagem a direita.

Fiz outra matéria, falando mais especificamente sobre essa situação.

Por hora, vamos dar um panorama geral da cidade e em breve, no decorrer da série, nos aprofundaremos na questão da (in)segurança pública.

………

Agora invertemos: vemos o Cristo Redentor do alto do Pão de Açucar (estava bem nublado no dia que subi o bondinho, outro dia conto mais).

Trata-se, como todos sabem, da 2ª maior cidade do Brasil.

O Grande Rio tem pouco mais que 12 milhões de habitantes.

(Foram contados 11,7 milhões no Censo de 10, a projeção pra 2020 é de 12,7. Logo teremos os resultados do Censo de 2020.)

Os Arcos da Lapa, no Centro (sobre eles passa o bonde de Santa Teresa, só o Rio e Santos-SP têm linhas de bonde antigo ainda ativas no Brasil, mas esse do Rio é o único que vem sendo operado de forma contínua desde o século 19 – o de Santos havia sido desativado em 1971 e retornou somente em 2000).

Somente na capital, o município do Rio, são 6 milhões de pessoas (6,3 no censo, 6,7 é a projeção pra 2020).

O Rio de Janeiro é de um espetáculo natural indescritível.

E eu diria mesmo “incomparável”, em escala global.

Tudo isso por boa parte da cidade – e certamente nos seus bairros mais caros – ficar espremida entre a serra e o mar.

Aqui e a esq.: escultura de areia na Praia de Copacabana mostra os 3 símbolos maiores do Rio, o Cristo Redentor, os Arcos da Lapa e o Pão de Açúcar – o autor se deu ao trabalho de pôr mesmo um teleférico suspenso entre os morros, como ampliei no detalhe.

No meio da cidade há uma grande cadeia de montanhas, o Maciço da Tijuca. Eis a glória do Rio, que lhe confere sua beleza singular.  

Os dois símbolos maiores do Rio estão no alto de morros: me refiro, evidente, ao Cristo Redentor no Corcovado e o bondinho no Pão de Açucar.

O imponente Cristo pode ser visto pela maior parte da cidade (na África do Sul a Cidade do Cabo tem a Mesa-Montanha, que cumpre o mesmo papel; bem, como o Rio o Cabo é outra cidade linda mas cheia de problemas e contrastes sociais).

No meio da imagem a escultura de areia que descrevi na legenda anterior. O Rio é belo, mas repleto de contradições: no canto esquerdo da foto vemos alguns sem-teto dormindo na praia, a luz do dia. Ao fundo o Forte de Copacabana, que sofreu o famoso motim dos “18 do Forte”, liderado pelo tenente Siqueira Campos. Repare também no desenho da calçada da orla, outro ícone indelével da cidade. Tem mais: veja as bandeiras de alguns países sul-americanos (Chile, Uruguai e Colômbia) numa ‘banquinha’ da praia. É comum esses comércios ambulantes desfraldarem os pavilhões dos países cujos turistas que estão no Rio, que eles tentam atrair pra consumir ali – já cliquei a mesma cena em Florianópolis.

Nada mais natural, posto que a montanha do Corcovado que o sustenta tem 750 metros de altura.

Fotografei-o em diversos pontos da Zona Sul (infelizmente o tempo foi curto e não pude visitar a Zona Norte, como já informei).

Por outro lado, de certa forma essa geografia é também uma provação.

Não é difícil entender o porquê. A cidade fica muito quente, falando de forma literal e também figurada.

Aqui uma tomada melhor do calçadão de Copacabana, com seu marcante desenho ondulado. Retratados igualmente o mesmo prédio da 1ª foto da matéria, no topo da página – dessa vez a favela do Pavão/Pavãozinho não aparece; uma carreta Scania ‘cara-chata; e as famosas ‘bancas’ ou ‘barracas’, barzinhos e lanchonetes já dentro da praia, muito procurados pra petiscos e um choppinho, pra quem aprecia. No detalhe uma banca na areia com a bandeira do Pará ao lado de escudos do Remo e Paysandu, há muitos paraenses no Rio – também é frequente as banquinhas ostentarem bandeiras de clubes de futebol, sejam do Rio, outros estados brasileiros como nesse caso, ou do exterior.

Fisicamente no subúrbio do Rio faz muito calor, pois ele está numa espécie de estufa entre duas cadeias de montanhas:

O Maciço da Tijuca quase a beira-mar e a Serra do Mar um pouco mais adiante, no alto da qual ficam Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, etc.

A orla ainda é mais fresca, pois recebe a brisa marítima que alivia o calor.

Mesmo assim quando estive lá em alguns dias a temperatura beirava os 35º – olhe que oficialmente ainda estávamos no inverno, afinal a primavera começa no dia 22 de setembro.

No entanto, o subúrbio carioca é muito, mas muito quente. Justamente pelo que acabo de dizer acima, ele se localiza entre 2 serras.

Isso causa uma estufa que faz com que os termômetros fervam. Um mês depois disso, em outubro de 20, o calor chegou a nada menos que 43º!!!

Segundo diz quem morou nas duas cidades, o Rio é mais quente que Salvador-Bahia (cidade sobre a qual também visitei e estou publicando uma série de matérias).

Aliado a isso, há também uma situação social explosiva. Todos sabem, novamente não vou contar nenhum segredo.

Nos feriados (nesse caso era 7 de Setembro) e fins-de-semana a avenida beira-mar fica fechada pro tráfego de veículos, sendo liberada a pedestres e ciclistasem João Pessoa-PB é ainda melhor, lá é diariamente das 5 as 8h. Voltando ao Rio, veja que em Copacabana esse posto de gasolina reproduz na parede a calçada, de tão famosa ela é.

A encosta dos morros foi ocupada de maneira completamente desordenada. Com isso, o Rio tem favelas em quase todos os bairros.

A princípio eu havia escrito “com exceção talvez da Urca”. Só que mesmo a Urca tem uma pequena favela na divisa com Botafogo.

(Embora a Urca seja segundo alguns o bairro mais seguro do Rio, questão que me aprofundarei outro dia.)

Não tem jeito, são praticamente onipresentes. No Centro, na orla, ao lado dos bairros mais ricos, ou seja, por toda parte.

Duas notas: 1) como já disse muitas vezes, eu não falo ‘favela’ com desprezo burguês. Gosto de periferia, e gosto das favelas.

Não sou de direita. Sei muito bem, na prática inclusive, que a imensa maioria das pessoas que moram em favelas e periferias são honestos e batalhadores.

O desenho ondulado no piso das 2 praias da Zona Sul que são ‘a Cara do Rio’, Copacabana e Ipanema evidente (na Barra, que fica na Z/Oeste, é diferente) é símbolo até do Campeonato Carioca de futebol. Uma imagem vale por mil palavras, não preciso dizer mais nada.

Agora, também não sou de esquerda. Então não vamos tapar o sol com a peneira.

Eu me recusei a substituir o termo favela por ‘comunidade’.

Sim, desse modo manda o dogma de uma estranha ‘novilíngua’.

Dogmas esses que hoje predominam na academia e boa parte da mídia.

Ainda assim, quando escrevo “comunidade”, o faço sempre entre aspas.

Bandeiras do Brasil, Alemanha e Israel na Praia de ‘Copa‘. O fluxo de turistas estrangeiros no Rio em setembro de 2020 não chegava a 10% do habitual, por conta do ‘corona-vírus‘. Viagens entre Brasil e EUA estavam proibidas, entre Brasil e Argentina havia sido liberado a menos de uma semana e ainda engatinhava, e pra Europa haviam voos mas apenas 2 ou 3 por dia, quando o normal seriam 2 ou 3 por hora. Copacabana estava bem vazia. Por um lado isso barateou em muito as coisas, paguei uma diária de casal num hotel com piscina a 4 quadras do mar por apenas R$ 84 (15 dólares, portanto quase de graça; na ocasião US$ 1 = pouco mais de R$ 5, a passagem de ônibus no Rio era R$ 4,05, em Curitiba R$ 4,50), as refeições nos restaurantes de Copa também saíam por cerca de metade do que seria pago em condições normais (estrogonofe bem servido pra 2 pessoas, com suco natural, por volta de R$ 50 a 60). Por outro lado, o Rio vive do turismo. Vários hotéis estavam fechados, muitos deles em definitivo, com as entradas já muradas. Se a situação não se normalizar em breve o desemprego irá pra estratosfera, com consequências sociais terríveis.

Pra indicar que é um sinônimo da palavra ‘favela’, e não seu sucessor. 

Eu gosto de favelas e periferias. Ainda assim, repito, não tapemos o sol com a peneira.

A presença de favelas em todos os bairros da cidade é uma situação altamente explosiva.

Não preciso explicar isso pra ninguém, e muito menos pros cariocas.

E assim de fato se dá. A cidade ferve, não apenas nos termômetros que medem a temperatura física, mas também em termos sociais. 

2ª nota: é claro que Curitiba também tem favelas. E como as têm!

No município da capital do PR são cerca de 300, e eu conheço todas elas, uma por uma.

Não apenas no mapa mas por dentro, andando em suas ruas e becos.

Curitiba não é Europa, muito longe dissoe olhe que a Europa também tem suas próprias favelas e seus problemas sociais crescentes.

Seja como for, a capital paranaense é uma metrópole da América Latina, como tudo que isso acarreta.

Aqui há desigualdade social, as vezes aguda. Há violência urbana, evidente.

Alguns meses atrás, eu e minha companheira inclusive sofremos um assalto na Zona Norte da cidade.

Clique pra ampliar a panorâmica, fiz uma colagem com 3 tomadas captadas do alto do Cristo mostrando o Centro e começo da Zona Norte: no canto esquerdo da imagem o Estádio do Maracanã; a seguir vários prédios do bairro da Tijuca – que é longe da praia, não confundir com a Barra da Tijuca; no meio da foto vemos duas favelas em morros, mais perto da Baía da Guanabara o Morro da Providência, que oficialmente é a 1ª favela do Brasil, de 1897 (em breve conto a história dessa e de outras favelas famosas cariocas), e logo abaixo o maior Complexo da favelas da Zona Central, que engloba os morros e favelas São Carlos, da Mineira, Zinco, Fallet, Fogueteiro, entre outros nomes. A direita o Centro, e no alto da imagem a Ponte Rio-Niterói, que com seus 14 km já foi a maior do mundo.

Então em Curitiba e todas as cidades brasileiras e podemos dizer em boa parte do planeta a questão da violência urbana é aguda.

Curitiba tem centenas de favelas, em diferentes graus de urbanização.

E ocorrem assaltos frequentes por toda cidade, Centro, burguesia e periferia.

Agora, e esse é o ponto, aqui a periferia é, bem, na periferia.

Porta de comércio em Copacabana mostra os símbolos do Rio: Estádio do Maracanã – que já sediou 2 finais de Copa do Mundo, façanha que só ele e o Estádio Azteca no México conseguiram; Cristo Redentor de braços abertos; Arcos da Lapa, sobre os quais passa o bondinho de Santa Teresa, também retratado no desenho; a orla da Zona Sul e sua calçada característica (por aí você vê o apreço que o carioca tem por esse desenho ondulado); e o Pão de Açúcar.

Na periferia geográfica da cidade, bem longe óbvio da Região Central que concentra a classe média-alta

A capital paranaense tem duas grandes antigas favelas perto do Centro, Vila Parolin e Vila Capanema.

Agora foram urbanizadas, mas alguns problemas permanecem.

A questão da violência certamente é uma delas. É o Brasil, amigos.

No geral, entretanto, as favelas de Curitiba são distantes do Centro.

E embora algumas delas sejam em ladeiras (a começar pela Vila Parolin supra-citada), nenhuma delas é em encosta de montanhas.

Em São Paulo, Brasília-DF e muitas outras cidades, o mesmo se repete.

(Digo, na Zona Norte de Sampa há algumas favelas na encosta da montanha, no caso a Serra da Cantareira.

A imagem acima da manchete, Cristo Redentor de braços abertos no alto do Corcovado, Abençoando a Cidade-Maravilhosa. Nas próximas 3 imagens, ele visto de diversos pontos de Zona Sul.

Só que são bem afastadas do Centro e dos bairros mais caros.)    

Há gravíssimos problemas sociais, evidente que sim. Quem tentaria negar?

Entretanto os bairros mais “quentes” da cidade (se é que me entendes) ficam nos arrebaldes, “longe dos olhos, longe do coração”.

No Rio, e também em Florianópolis-SC, Santos-SP e Vitória-ES, é diferente.

Nessas 4 cidades, todas no litoral do Atlântico (fora o Rio alias as outras 3 são ilhas), há uma grande cadeia de montanhas no centro – geográfico – do município.

Assim, os bairros ocupam a área plana disponível entre os morros e a água.

Copacabana.

Além disso, várias encostas estão bastante favelizadas.

O que faz com que existam favelas na orla, em alguns casos quase na beira-mar mesmo.

Voltando a falar especificamente do Rio de Janeiro, que é nosso foco hoje.

Praticamente todos os bairros da cidade têm grandes favelas.

Lagoa Rodrigo de Freitas: até 1971 naquele morro do centro da imagem havia a Favela da Catacumba – contarei melhor essa história na próxima mensagem da série (nota: essa é mais uma colagem, e como em todas as colagens que faço você percebe as emendas entre as fotos; a intenção não é enganar ninguém, e se fosse eu não teria os equipamentos e técnicas necessários pra tanto, viso apenas mostrar uma visão mais panorâmica, que não seria possível em uma única tomada).

Seja nos morros (na região das Zonas Sul, Central e boa parte da Norte) ou planas (na Zona Oeste e alguns pontos da Norte).

Se tudo isso fosse pouco, o Rio de Janeiro, como não é segredo pra ninguém, tem um problema gravíssimo com o enraizamento de facções criminosas nos morros, favelas e periferias

O problema vem desde os anos 80, e pelo andar da carruagem não será solucionado tão cedo. 

Tomemos por exemplo o bairro de Copacabana na Zona Sul.

Jardim de Alá, parque ao redor do canal que liga a Lagoa ao mar, e que divide Ipanema (dir.) do Leblon (esq.). Há muitos sem-tetos no local, e inclusive revestiram uma das margens de areia como nota, então me dá a impressão que o local é usado como uma espécie de praia dos moradores de rua.

Antigamente, no meio do século 20, era a parte mais cara da cidade, ao lado da vizinha Ipanema.

(Isso antes da ascensão da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, como reduto da classe média-alta e elite.)

A questão é que boa parte da burguesia foi pra Barra, mas ‘Copa’ ainda retém o status de um bairro de classe média e média-alta.

Ainda que a maior parte dos que são milionários já tenha preferido migrar pra condomínios fechados com maior segurança na orla da Zona Oeste.

Bem em frente ao Jardim de Alá está a Cruzada de São Sebastião, que é uma cohab popular. Portanto um bairro de periferia encravado na região mais cara do Rio e do Brasil. Os moradores da Cruzada têm empregos perto, essa é a vantagem. Em compensação, seu custo de vida é altíssimo, comparado a seu salário certamente, pois precisam pagar os preços do Leblon nos produtos e serviços que consomem, que são significativamente mais altos que nos morros e subúrbios. Mais uma faceta dos múltiplos contrastes cariocas.

Igualmente, falaremos melhor sobre a Barra em outra ocasião. Por hora, fiquemos em Copa.

Mesmo sem a hegemonia do passado, ainda é um bairro caro.

Comparado com a Zona Central e os subúrbios das Z/N e Z/O certamente.

Pois bem. A ponta de Copacabana mais próxima do Centro é a Praia do Leme, como sabem (“Do Leme ao Pontal” da música famosa).

No Leme, praticamente a beira-mar, está a favela dos morros Babilônia e Chapéu-Mangueira.

(Sim, o nome é derivado do Morro da Mangueira na Zona Norte, em breve contarei com mais detalhes.)

Em outra colagem, a Praia do Leblon, sempre com sua calçada característica. Na encosta do morro ao fundo a favela do Vidigal.

No meio de Copa, dessa vez um pouco afastado da praia, temos outro complexo de favelas na encosta, o Morro dos Cabritos/Ladeira dos Tabajaras.

E na divisa com Ipanema há mais um morro com uma grande favela, a maior das 3 de Copa, o morro do Cantagalo/Pavão-Pavãozinho.

Em escala maior, o Vidigal. A beira-mar e ao lado do bairro de m2 mais caro do Brasil, o próprio Vidigal, ainda que seja uma favela, é um lugar caro de se morar. Segundo levantamento da revista Exame, um imóvel de 100 m2 ali sai por nada menos que  R$ 800 mil, mesmo preço do Centro e mais caro que em todos bairros da Zona Norte e Zona Oeste exceto a Barra, mas acima do Recreio dos Bandeirantes – os dados são de 2014. Mesmo que tenha havido ligeira alteração nos nos números de lá pra cá, o quadro geral permanece.

Sendo que a Babilônia/Chapéu-Mangueira e Cantagalo/Pavão-Pavãozinho podem ser vistas até mesmo das areias da praia.

E também da maior parte das ruas próximas. Uma realidade que não pode ser ignorada.

Além do mais, se você for da orla da Zona Sul (Copacabana, Ipanema/Leblon) pra orla da Zona Oeste (Barra/Recreio dos Bandeirantes) terá que passar perto dos morros do Vidigal e Rocinha.

Babilônia/Chapéu-Mangueira, Cantagalo/Pavão-Pavãozinho e Cabritos/Tabajaras são favelas entre médias a pequenas.

Ou seja, têm alguns milhares de moradores em cada uma delas.

a Rocinha e o Vidigal são favelas bem grandes. Grandes mesmo.

O Vidigal tem algumas dezenas de milhares de habitantes.

Outra panorâmica do Centro feita do Cristo, dessa vez mais fechado nele, sem mostrar a Zona Norte. No alto de novo a Ponte Rio-Niterói. Bem no meio da imagem uma favela no morro, mas logo abaixo vemos que nem todas as encostas das montanhas da cidade estão favelizadas; ao contrário, algumas abrigam bairros de classe média, que têm inclusive temperatura mais amena que os outros bairros que ficam a nível do mar, por serem mais altos e mais arborizados. Numa cidade que os termômetros ultrapassam bastante os 40o com frequência, é um alívio estar num ambiente mais fresco.

E a Rocinha é ainda maior, quase de uma centena de milhar.

Nota: são comuns os relatos totalmente descabidos que a Rocinha teria, sozinha, ‘meio milhão de habitantes’.

Trata-se de um despropósito óbvio. A população total do município do Rio é de 6 milhões.

Então basta você olhar no mapa e ver a área que a Rocinha ocupa em relação ao total.

Assim ficará evidente que não é possível que a Rocinha concentre quase 10% dos cariocas.

Não é possível, e dizendo de novo, uma simples mirada no mapa deixa isso cristalino.

Muitos brasileiros têm problema crônico com os números.

Próximas 8: algumas tomadas do Centrão do Rio. Aqui a Igreja da Candelária, em cujas escadarias em 1993 ocorreu a matança de 8 menores de rua que ali dormiam.

E o desarranjo no relato de quanta gente mora nesse morro demonstra isso.

No censo de 10, o IBGE contou 69 mil pessoas vivendo na Rocinha.

Um ‘censo das favelas’ do governo do estado fixou o número um pouco acima, perto de 100 mil.

São por volta de 30 mil moradias na Rocinha, logo algo entre 70 a 100 mil moradores fica perto da realidade.

No entanto, a Rocinha não tem ‘200, 300 ou mesmo 500 mil habitantes’, como alguns falam sem atentar pra consequência de suas palavras.

Bem em frente a igreja, vemos que até hoje o local é escolhido como abrigo por sem-tetos.

Convenhamos, entre 70 a 100 mil moradores não é pouca coisa.

Trata-se ainda de uma das maiores favelas do mundo, a segunda maior do Rio.

Atrás do Complexo da Maré na Zona Norte que abriga perto de 120 mil pessoas.

Alias essa é a situação em todo Centro: em plena luz do dia, várias pessoas dormem nas calçadas – em algumas partes o odor de urina e outros dejetos é bem forte.

Há duas formas de ir da Z/S a Barra, e por qualquer uma deles você terá que passar na frente do Vidigal ou da Rocinha:

1) Pela Av. Niemayer, que segue ao lado da praia e até mesmo sobre ela em alguns pontos (é um elevado, um grande viaduto, pra quem não conhece).

Nesse caso você irá cruzar o Vidigal, até porque é a via de acesso a favela.

2) Via Auto-Estrada Lagoa/Barra. Nesse caso, após o túnel Zuzu Angel você sai na Rocinha.

Avenida Getúlio Vargas, a principal via do Centro, no cruzamento com a Avenida Rio Branco, em cujo piso vemos os trilhos do VLT.

Sim, a maior parte da favela você não vê, pois ela está sobre o morro que o túnel corta por baixo.

No entanto, mesmo o finalzinho da Rocinha, que você vê quando sai do túnel, já é bastante impressionante.

Mais uma vez repito, praqueles que têm sua mente bem lavadinha pelas ideologias em voga na academia/mídia possam entender:

Eu gosto de periferia, e gosto de favelas. Não falo com desprezo pela Rocinha, e nem por nenhuma favela.

Placa dessa famosa esquina. No Rio as placas de rua trazem uma breve biografia da pessoa, data ou local homenageado – recentemente Santos, no Litoral Paulista, adotou a mesma prática.

Ainda assim, as coisas são como são, e não como gostaríamos que fossem.

Favela é favela, chamá-la de “comunidade” não ameniza essa dura realidade.

A Rocinha é uma favela, e isso não deixa de ser reparado por quem passa ali.

Ao menos pelo 99% das pessoas que não estão tão atreladas aos dogmas pregados com fervor religioso na “comunicação” e “educação” (entre aspas por algum motivo, deixo pra você decifrar).

Eis o VLT (‘Veículo Leve sobre Trilhos’) carioca. O Centro está bastante degradado, esse bonde moderno, que é limpo e eficiente, é uma tentativa de recuperação da região – breve publico matéria específica sobre o transporte.

E é impressionante passar pela Auto-Estrada e ver ali a Rocinha, ‘em toda sua Glória e Poder’ se podemos chamar assim.

Ocupando lugar de destaque entre os bairros mais caros do Rio de Janeiro.

……

Além disso, a composição racial do Rio de Janeiro é mais parecida com a de Minas e boa parte do Nordeste, ou seja, uma proporção alta de negros e mulatos.

Próximo do chamado ‘Saara’ está o comércio popular. Várias ruas estão tomadas por camelôs.

Não vai aqui nenhum racismo, ao contrário. Amo a Raça Negra Original.

Já fui a África  e também a República Dominicana (que é a “África na América“).

Nunca fui a Europa e nem mesmo ao Uruguai (país que embora tenha uma minoria negra significativa certamente é mais associado a raça branca).

Retratei inúmeras vezes ‘Marília e Maurílio’ como negros.

Próximo a Praça 15, de onde saem as barcas pra Niterói, do outro lado da Guanabara.

E esse casal de personagens é uma representação de minha Alma, afinal sou eu quem os desenho. 

Então, enfatizando ainda mais uma vez e quantas se fizerem preciso, não vai aqui nenhum racismo.

Ainda assim, é evidente que existe um contraste entre Sul x Sudeste/Nordeste.

Óbvio que a composição racial do Rio (e também de Minas, Pernambuco e muito mais da Bahia e Maranhão) é bem distinta da capital do Paraná, onde eu morei toda minha vida.     

Vamos cruzar a Baía da Guanabara e ir pra Niterói. Várias tomadas foram tiradas de dentro de um ônibus em movimento, essa e a seguir sobre a Ponte Rio-Niterói. Aqui vemos o Centro de ‘Niquíti‘ (apelido carinhoso de Niterói, pra quem não sabe).

Não é um juízo de valor, entenda bem isso. Não é questão de eleger um modelo como melhor ou pior.

Nosso país, e o mundo todo em verdade, está cego por uma intensa polarização arraigada.

Polarização política enorme, que ultrapassa os limites do ódio.

E está agravando todos os conflitos, que já não são pequenos.

Ainda na ponte podemos observar grandes favelas nos morros que cercam o Centro de Niterói. Óbvio que os problemas que assolam o Rio – e o Brasil todo, além de boa parte do mundo, alias – se repetiriam aqui, e como seria diferente? Um outro detalhe, vemos os guindastes do porto. O Porto do Rio é o 2o maior do Brasil atrás do de Santos. O Porto de Niterói do outro lado da Guanabara é independente do Rio, mas estando tão próximo faz parte de um mesmo complexo portuário, digamos assim.

A extrema-direita cultua a raça branca normanda, enquanto a extrema-esquerda cultua a raça negra africana.

Vamos nos manter neutros nesse confronto. Curitiba não é melhor ou pior que o Rio, BH, Recife-PE, Salvador da Bahia e São Luís do Maranhão por ter uma composição racial distinta.

Entretanto, é diferente, sem dúvidas. Só que Curitiba (e boa parte do Sul em geral) que são a exceção, com sua população majoritariamente de pele mais clara.

(Um adendo: embora o que chamamos ‘brancos’ no Brasil são – e somos, porque me incluo nessa conta – mulatos-claros.

Se o Rio tem a Av. Pres. Vargas, Niterói também possui suas grandes avenidas no Centro – no detalhe a pichação no alto do prédio, tema sobre o qual também me estenderei futuramente.

Os ‘brancos’ do Brasil e América Latina quase todos não seríamos brancos nos EUA, Europa Ocidental e Anglosfera.

E com razão. Porque não somos brancos, no sentido de normandos/arianos.

Somos Latinos. Somos América, América Latina.

E os Latinos não somos brancos, mesmo os que temos a pele mais clara).

Você entendeu. No Hemisfério Norte os ‘brancos’ brasileiros são outra raça, os Latinos.

A Câmara Municipal de Niterói tem o escudo do Estado do Rio de Janeiro, isso porque está no prédio que um dia abrigou a Assembleia Legislativa quando Niterói era a capital estadual, até 1975 (também falarei mais disso numa próxima matéria).

Ainda assim, o que aqui no Brasil se classifica como ‘branco’ é ampla maioria no Sul,

Embora certamente hajam minorias negras/indígenas significativas.

No Rio não é assim. O Rio é uma cidade mestiça por natureza, com os negros com uma proporção alta da população.

Em verdade diria que o Rio é uma cidade de maioria mulata/mestiça.

Na orla os brancos são majoritários, nos morros os negros se não são maioria são quase.

Praça da República no Centro de Niterói. Importante espaço cívico que abriga diversos órgãos públicos. Estou na escadaria da Câmara vista na tomada anterior e registrando a Biblioteca Municipal, pra citar apenas 2. Ampliei nos detalhes a fachada da Biblioteca, a estátua que há em frente e uma parte da favela mais famosa do Centro de ‘Niquíti’, o ‘Morro do Estado‘.

Perguntamos então: e no subúrbio, que afinal é que concentra pelo menos 2/3 da população carioca?

Bem, nos subúrbios das Zonas Norte e Oeste o tipo majoritário é o que mistura o sangue das raças-formadoras da Pátria Amada.

Como diz outra canção: Uns de pele clara, outros mais escura. Mas todos viemos da mesma mistura”. 

E já que o tema é a música, pense no cantor Marcelo D2, que foi vocalista da banda ‘Planet Hemp‘ e depois partiu pra carreira-solo.

Se tivesse que escolher o carioca típico numa imagem, o biotipo majoritário, seria o D2.

Próx. 2: o Porto do Rio. Nessa visto da Ponte Rio-Niterói, ao fundo o Centro da capital do estado.

Um mulato de pele clara, a ‘Cara do Rio‘. O Rio é assim.

Muitos negros, e maioria mestiça. Ali, os brancos é que são a minoria.

Conhece a música “A Cara do Brasil”? – gravada, entre outros, por Ney Matogrosso.

Agora inverteu: estamos na Zona Central, em 2º plano a famosa ponte que cruza a Baía da Guanabara.

Ela fala dos múltiplos contrastes dessa nação-continente.

O Brasil em preto-&-branco. Pergunta a letra dela (eu mudei a ordem das estrofes):

O Brasil é o que tem talher de prata?

Ou aquele que só come com a mão?

Ou será que o Brasil é o que não come? 

O Brasil gordo na contradição?

Seguimos na mesma região perto das docas. Aqui e abaixo cenas dos morros (favelizados) da parte central da cidade.

O Brasil é o homem que tem sede?

Ou quem vive da seca do sertão?

Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo?

O que vai e o que vem na contramão?

Me bateu a pergunta, meio a esmo: na verdade, o Brasil o que será?

São os Trens da Alegria de Brasília?

Ou os trens de subúrbio da Central?

Qual a cara da cara da nação? ”

E assim vai. O autor vai desfilando as múltiplas contradições.

2 tomadas noturnas da Praia de Copacabana.

Não esquecendo nem do futebol, comparando as seleções nas Copas de 82 – que jogou bonito e perdeu – e de 94 – que jogou feio e ganhou.

(Breve explicação pra quem não é muito ligado nesse esporte, ou então é muito novo e não presenciou:

Tanto o Brasil de 82 quanto o de 94 fez seu último jogo na Copa contra a Itália.

Em 82, na Espanha, fomos eliminados perdendo por 3×2 num jogaço memorável.

Já em 94 a decisão do título Brasil x Itália foi o 1º 0x0 da história numa final de Copas do Mundo.

O Brasil acabou vencendo nos pênaltis e levou a taça.)       

Já basta de futebol. Dei essa pincelada no esporte só pra pôr no contexto.

Nas próximas 3 imagens, continuamos em Copacabana. Aqui e na a seguir, vemos ruas públicas que receberam grades ou cancelas e guaritas, transformando-se em condomínios fechados.

Voltemos a falar das disparidades sociais, que são o foco tanto da música quanto desse texto.

A certa altura, Ney Matogrosso fuzila, perguntando afinal qual é a ‘Cara do Brasil‘:

Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas?

Ou quem das ilhas vê o Vidigal? ”

……..

Pois bem. Fui da Barra a Copa de ônibus, passando portanto perto da Rocinha e aos pés do Vidigal.

Alguns têm medo de assaltos (e justificadamente, não estou ironizando)…

Houve um momento de tensão, quando alguns meninos da uma dessas favelas invadiram o ônibus.

Eram meninos mesmo, bem crianças, e ao levarem uma dura do motorista não criaram problemas. Depois eu conto essa história melhor.

Aqui, pra resumir, eles queriam apenas uma carona pra Praia do Leblon.

Era feriado, fim-de-tarde e eles iriam curtir o pôr-do-sol na orla da Zona Sul.

enquanto outros estão mais preocupados em ter algo pra comer: velho caminhão recolhe reciclagem nas ruas de Copa – o “alta costura” na loja do fundo apenas aumenta a ironia.

Andando pelos bairros mais caros do Rio num fim-de-semana prolongado pela comemoração da Independência, eu via toda aquela mistura.

Todos interagem, todos se misturam. O mar e as areias são de todos:

Da classe média e média-alta que vive nos prédios de Copacabana e Ipanema, que vão a praia a pé;

Do pessoal dos morros da Zona Sul, que também chega a pé;

Os edifícios de classe média-alta de São Conrado.

De quem vem do subúrbio de transporte coletivo – esse público aumentou muito desde a virada do milênio.

Pois as opções de metrô e ônibus melhoraram muito de lá pra cá (farei matéria específica sobre o tema, em breve);

Dos turistas, muitos deles estrangeiros (por outro lado, seu número estava bem limitado na ocasião.

Favela da Rocinha em 1º plano, ao fundo os prédios de São Conrado, que fotografei a nível do solo na imagem anterior (r). Definitivamente, muitos contrastes por toda parte.

Estávamos na epidemia do Corona-vírus, que restringiu a maior parte do fluxo turístico, nacional e internacional);

E dos moradores de classe-média dos bairros longe da orla, que vêm de carro.

Na praia, é tudo ‘junto e misturado’. Vendo isso, pensei: “o Rio é mesmo ‘a Cara do Brasil’ ”.

Ao passar pelo Vidigal, então, a lembrança dessa canção se consolidou na minha mente.

“Anoitece no Rio” tirado dentro do bondinho do Pão de Açucar. O Astro-Rei encerra mais um ciclo de Trabalho e fazemos o mesmo, fechando essa primeira matéria da série.

Taí. Num estalo, surgiu o título da matéria, e não pode haver outra:

Essa é a ‘Cara do Brasil’ – Rio de Janeiro, Cidade-Maravilhosa.

Assim É. 

Continua…. 

CONFIRA A SÉRIE SOBRE O RIO DE JANEIRO:

De 2011 a 2016 o complexo de favelas do Alemão, na Zona Norte, também foi servido por bondinhos (r) . . .

–  021: A CIDADE É MARAVILHOSA MAS . . .  SE LIGA MEU IRMÃO!!! (janeiro de 2021)

Que a situação está complicada e de forma multi-dimensional não é segredo pra ninguém. Não o menor dos problemas é a violência urbana, evidente. Faço uma breve retrospectiva histórica mostrando as origens dessa triste situação.

. . . acontece que passada a Olimpíada tudo foi abandonado e está na situação que estão vendo aqui (r). Os teleféricos do Alemão e Providência (Zona Central) custaram mais de R$ 300 milhões. Tudo jogado no lixo. Esse é apenas um dos temas que abordo nessa matéria.

Como já dito, logo solto reportagem específica sobre o transporte, com dezenas de fotos. Outras postagens sobre o mesmo tema:

CAPELINHA: RIO, SP, B.H., BELÉM E POA; PLACA NO ALTO: ESTAMOS NO SUDESTE (Publicado originalmente via emeio em agosto de 2014) –

Não é específica sobre o Rio, abordo características dos ônibus (e até caminhões) que ocorriam em diversos estados brasileiros – e mesmo outros países latino-americanos. No entanto, falo um pouco do transporte carioca nesse texto.

“Deus proverá”

Seguuuuura, Peão!!!

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 2 de setembro de 2020

Numa homenagem ao interior do Brasil, Maurílio e Marília fazendeiros, trabalhando no campo.

Ao lado vemos ele tocando a boiada. E também tocando o berrante.

Maurílio é o peão de boiadeiro. Seguuuuura, peão!!!

Passa o boi, passa a boiada, diz o ditado. Ele comanda tudo montado num imponente cavalo branco.

Marília igualmente monta, e muito bem, ela é amazona.

Mais que isso. Quando tem cavalgadas, ela tem a honra de ser a porta-bandeira da Pátria Amada (dir.).

E isso usando saias! Que  é bem larga, pra que ela possa pôr um pé em cada lado do animal.

…………

Já que o tema é vestuário, a esq. repito o detalhe da camisa xadrez de Maurílio.

Chamo a atenção agora pra próxima imagem, logo abaixo.

O dia está quente, ele está com o peito nu. O chapéu ele mantém sobre a cabeça.

Não dispensa esse acessório, evidente, como todo bom caubói.

E onde foi parar a camisa de Maurílio? Amarrada na cintura de Marília, tinha reparado nisso?

Ela sente mais frio que seu companheiro, por isso pegou a vestimenta emprestada.

No entanto no meio do dia esquentou bastante, e por isso agora nenhum deles necessita dessa peça de flanela.

Ao fundo, a sede da fazenda. É um sobrado de madeira.

Uma construção centenária, que está com a família a algumas gerações.

A direita acima vemos Marília e seu marido Maurílio.

A esquerda a avó dela, que também se chamava Marília, em frente a mesma casa, em imagem do começo do século 20.

Ao lado vemos os quadros na estante da casa, 3 gerações se passaram:

As fotos em preto-&-branco da Marília vovó, sozinha e com seu companheiro.

E em cores a Marília menina, também ao lado de seu amor.

É notório que é um costume o filho Homem ter o nome do pai, só acrescido dos sufixos ‘Júnior’ ou ‘Filho’.

A filha ter no nome de sua mãe, no entanto, não acontece.

Por outro lado, é comum a neta ser batizada como xará de sua própria avó.

É o caso aqui. Marília tem o mesmo nome de sua ancestral de 2 gerações antes.

A Marília mais velha, a avó, é vista a esquerda um século atrás com seu marido, segurando as barras de seu vestido.

Ela está toda cheia de babados, laços, muitas camadas de roupa, é difícil até de andar pelas ruas.

A vestimenta masculina também era bem mais formal, ele usa gravata e cartola.

Na imagem acima atualmente, a Marília mais nova, a neta. Muita coisa mudou, não?

Ele está sem camisa, ela de tomara-que-caia. Não precisa mais levantar as saias pra poder caminhar.

O casal está tomando chimarrão – ou seria um tererê, por estarem num lugar de clima quente?

Aqui e na próx.: São Mateus do Sul-PR. Até a caixa d’água remete a cuia de chimarrão. E no Centro há o ‘Chimarródromo‘ (esq.): você só precisa providenciar a cuia e a erva. A água fervente é por conta da curiosa máquina instalada na praça principal da cidade.

Seja como for, eles gostam de tomar a erva na cuia, quente ou fria.

Quando Maurílio foi ao Uruguai, repetiu o mesmo gesto lá (acima).

Alias, diga-se de passagem que Marília é nascida no Sul do Brasil, pois foi aqui que seus antepassados se fixaram quando imigraram, um século e pouco atrás.

A fazenda ainda é pertence aos descendentes desse pioneiros, por isso o sobrado de madeira da sede ainda está de pé, apenas repintado.

E ali Mari foi criada, no interior do Paraná. No entanto, quando ficou adulta ela foi, como tantos sulistas, ajudar a abrir a chamada ‘Fronteira Oeste’ da agricultura brasileira.

Dessa forma, a família comprou uma fazenda maior, no Mato Grosso ou estados vizinhos como Rondônia, Goiás ou Tocantins.

E assim foi ela, imigrou pra divisa entre Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Foi lá que conheceu Maurílio, que era peão numa das fazendas que ela administrava.

Foi amor a primeira vista. Apesar da diferença de classe social pois ela era a patroa dele, eles compartilham o gosto pelo campo. Se apaixonaram e casaram.

Maurílio nunca tinha vindo pro Sul. Quando vieram ver a família dela, o que ele mais gostou foi do chimarródromo e da caixa d’água em forma de cuia que ele viu em São Mateus do Sul-PR, cidade próxima a fazenda que Marília fora criada (fotos acima).

O resultado? A família está crescendo, como vemos ao lado. Uma nova geração de caubóis está sendo criada, com as raízes na terra

“Deus proverá”

Flores no Portão (e Água Verde)

Todas as imagens: flores nas ruas dos bairros Água Verde e Portão (Curitiba), fevereiro de 2020.

Por Maurílio Mendes, o Mensageiro

Publicado em 17 de agosto de 2020

Todas as postagens de ‘Flores’ são dedicadas as Mulheres.

Estive nos vizinhos bairros da Água Verde e Portão – vamos mostrar as flores que fotografei por ali.

Eles ficam na divisa da Zona Central com a Zona  Sul de Curitiba, evidente.

Ambos são bastante populosos, ambos acima dos 50 mil habitantes.

Assim estão entre os 10 maiores bairros da cidade em número de moradores.

A Água Verde é disparado o bairro com mais habitantes da Zona Central, bem acima inclusive do próprio Centro.

A. Verde e Portão ficam as margens da República Argentina.

Hibisco Rosa.

Essa Avenida (que homenageia a nação sul-americana que nos faz divisa a sudoeste) é a via Estrutural do Eixo Sul-1 do sistema de ônibus Expressos.

Nas proximidades do Eixo Trinário (canaleta do Expresso e ‘Vias Rápidas’ que o ladeiam) a Água Verde e Portão têm bastante prédios altos.

Na tomada a direita vemos inclusive um pinheiro, árvore-símbolo do Paraná.

Porém da cidade e seu sistema de transportes já falamos em outras oportunidades.

Já fiz matéria específica, com muitas fotos, mostrando como são os bairros Água Verde e Portão.

Aqui vamos focar nas flores que adornam essa região.

Um pouco mais pro alto na página minha flor favorita, o Hibisco Rosa, “a Flor do Amor“.

Acima e ao lado, a praça que há em frente ao Cemitério da Água Verde, na avenida de mesmo nome.

Curitiba tem 75 bairros. Alias, diga-se de passagem, a Água Verde é o único deles em que a avenida principal tem o mesmo nome do bairro.

Em outras metrópoles (como São Paulo) isso é extremamente comum.

Entretanto, aqui na capital paranaense essa é a exceção, não a regra.

Seja como for, vamos manter nosso foco no tema de hoje:

Notamos que a praça em frente ao cemitério da Água Verde está bastante enfeitada, com flores de diversas cores.

Os cemitérios, na verdade. Pois além do Cemitério Municipal, ao seu lado temos o Cemitério Israelita (judeu).

……..

Da Água Verde  vamos pro Portão: nas 2 fotos acima retrato o Centro Cultural do Portão.

Na 1ª tomada dessa mini-sequência a entrada dos fundos do Centro.

Que fica em frente a uma ampla praça (a porta principal fica na República Argentina, ao lado do Terminal do Portão).

E a seguir vemos em detalhes essa curiosa flor roxa que adorna o local.

A direita: um prédio da região tem um poço em frente ao jardim.

Como já mostrei em detalhes na matéria sobre os bairros.

Trata-se de um simulacro, uma brincadeira apenas.

Não sai água dali, o corpo do ‘poço’ são apenas pneus pintados com uma cobertura de telha.

Nem existe furo na terra. Mas ficou um arranjo curioso, não acham?

Agora vamos nas 2 próximas fotos ver a mesma cena com enquadramento diferente.

A esquerda bonitas flores vermelhas, numa rua residencial na divisa dos bairros Portão e Água Verde.

O foco é na cidade ao fundo, vemos com clareza o contorno dos prédios e carros.

A direita está invertido, agora a flor está bem definida.

O pano de fundo que ficou ligeiramente embaçado, como perceberam.

…..

Algumas rosas, agora. Acima rubras, e ao lado alvas.

Essas últimas entrelaçadas a grade de alguma residência, obviamente.

Exatamente como a foto acima da manchete (repetida na próxima imagem).

Daí surgiu a ideia do título da postagem, ‘Flores no Portão’.

Anteriormente pensei em nomear essa mensagem como ‘Portal das Flores‘.

Isso porque há pessoas fora de Curitiba que pensam que o bairro Portão se chama ‘Portal’ – curioso, não? Mas é verdade.

Por conta disso, eu iria fazer o referido trocadilho.

No entanto, gostei da cena a esquerda, e aí mudei pro tema que acabou sendo escolhido, ‘Flores no Portão’.

Ao lado, agora vejam que as flores estão na janela.

E novamente oscilando entre o cor-de-rosa e vermelho.

Agora mantendo essas 2 tonalidades acima, e ainda acrescentando o branco, temos esse canteiro mostrado ao lado.

………….

Fechamos com mais flores que captei nas ruas desses dois bairros: