Ozama e Izabela se encontram: Santo Domingo é assim

barbearia Centro Ponta das Canas RD

barbearia no Centro de Ponta das Canas, balneário longe da capital.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 2 de dezembro, 2013

Vamos caminhando pro fim da série sobre a República Dominicana.

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O título se refere aos dois principais rios da capital Santo Domingo.

O Isabela é afluente do Ozama, deságua nele na tríplice fronteira que divide os municípios de Santo Domingo, Santo Domingo Norte e Santo Domingo Leste.

mercado público Centro Sto. Dgo. RD

mercado público no Centro de Santo Domingo

O Ozama deságua no Mar, em cuja foz começou a colonização europeia na América, e hoje está o porto. Como já lhes disse muitas vezes, Santo Domingo é o Distrito Nacional (equivalente ao Distrito Federal).

Enquanto os outros dois ficam na província (estado) de Santo Domingo, e são respectivamente a Zona Norte e Leste da cidade que é a Grande Santo Domingo.

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Falemos das fotos, afinal esse é o propósito dessa mensagem. Nem sempre a imagem está exatamente ao lado da descrição, essas postagens anteriormente foram emeios, que têm formato bem diferente. Busque pelas legendas, vai ser fácil localizar.

'Botanica' - termo haitiano pra ervas e umbanda - RD

em escala maior

Abrimos, bem no topo, com uma barbearia, ramo comercial que na RD é uma instituição, um centro de convivência social.

Os Homens dominicanos vão a barbearia muito mais que pra cortar o cabelo.

Exatamente como é entre as Mulheres de todos os países e raças, entre os negros dominicanos e estadunidenses nesse quesito ambas as polaridades compartilham dessa vibração.

Eis a história completa.

Santo Domingo Leste cidade florida RD

cidade das flores: Santo Domingo Leste

Aqui estamos no Centro da cidade de Ponta das Canas, balneário famoso no Leste da ilha. Os turistas estrangeiros geralmente não visitam essa parte da cidade.

“Então por que você estava lá?”, alguém poderia me perguntar, e seria uma justa indagação. Explico. Eu e minha família fizemos um roteiro diferente da imensa maioria dos turistas. Clique na ligação acima que eu relato tudo em detalhes.

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'recarregue aqui' em criolo haitiano RD

‘recarregue aqui’ em criolo haitiano, no Centro de Sto. Dgo.

Em duas escalas o mercado público no Centro da capital Santo Domingo. Vemos bem marcadas algumas características da Ilha Espanhola, compartilhada pela RD e Haiti – malgrado a rivalidade política entre a elite política das duas pátrias, o povo é muito parecido, independente da nacionalidade, e tem uma cultura comum:

Em ambas essas nações, a umbanda e a farmácia se encontram. “Botânica” é um termo haitiano (também usado na RD e EUA, entre outros países) cujo significado pode oscilar tão amplamente pra centro de macumba – lá chamada ‘vudu’ – até o estabelecimento em que você vai tomar uma injeção e comprar remédios alopáticos com receita médica.

antigo navio agora usina e lixo no rio Sto. Dgo. Rd

Rio Ozama: poluído e com antigo navio panamenho agora fixo ali como casa de de máquinas.

É porque na Ilha Espanhola tanto a casa de umbanda quanto a farmácia fornecem ervas pra se fazer remédios caseiros, ‘in natura’ a granel ou já misturadas, nesse último caso as chamadas ‘garrafadas’.

Nessa foto específica vemos duas ‘botânicas’, uma ao lado da outra, e nesse caso elas não são nem farmácias nem templos religiosos, tratam-se de lojas de artesanato que oferecem vasos, chapéus, roupas, mas também as ‘garrafadas’.

Eu disse que o espectro de significado que a palavra pode assumir é amplo.

'Estrela do Mar' ex-navio, agora fixo em Sto. Dgo. RD

‘Estrela do Mar’ não sai do lugar, portanto nem vê mais o mar

Confuso? Normal ! Na República Dominicana o surreal é o normal.

Vamos tentar resumir da seguinte forma: nos bairros mais ricos há as ‘farmácias’ com a cruz-de-malta, que são similares as farmácias do mundo todo. Não vendem eras nem garrafadas, só remédios industrializados.

No Centrão e na periferia há farmácias menores, também ostentam a cruz-de-malta, também vendem remédios industrializados, mas vendem igualmente ervas e garrafadas. No entanto ali não há trabalhos espirituais de ‘limpar possessão’, essas coisas. É apenas uma medicina homeopática sem receita, digamos assim.

porto, Cidade Colonial e muralha Sto. Dgo. RD

bem ali ao lado, esses navios ainda correm o Marzão: é o Porto de S. Domingo, quase na foz do Ozama

E há ainda os centros de vudu, alguns se denominam ‘Botânicas’. Ali não se vendem remédios industrializados, é claro. Como o nome indica fornecem ervas e garrafadas, ou seja remédios caseiros.

Mas se o caso for grave, se tua Alma estiver sendo atacada por outro espírito, o pai ou mãe de santo já ali mesmo faz um ‘trabalho de limpeza’.

Entenda que não estou ironizando nem tratando com desprezo a Fé do povo negro. É dessa forma que eles veem e cultuam Deus Pai-Mãe, e essa abordagem é tão válida quanto outras. “A Casa do Pai-Mãe tem Infinitas Moradas”, um Grande Profeta bem definiu.

favela na barranca do rio Centro Sto. Dgo. RD

na barranca do rio, mais uma favela

Voltemos. No vudu se fazem as sessões de descarrego e limpeza pra ‘abrir os caminhos’ e ‘fechar o corpo’ contra ataques de rivais. Mas como nesses lugares se vendem ervas, muitas vezes o lugar se chama ‘botânica’.

E por fim há ‘botânicas’ que também vendem ervas, mas não tem nada a ver com vudu. Simplesmente nas prateleiras ao lado das garrafas e sacos de erva ‘in natura’ estão sendo comercializados também chapéus, cartões postais e outros artigos pra turistas, como é o caso aqui.

muitos gatos na fiação Sto. Dgo. Leste RD1

gatos de luz num bairro de classe média ao lado do Centro: Santo Domingo é assim

Não acreditou quando eu disse acima, né? Na RD o espectro da palavra ‘botânica’ é amplo, e inclui farmácia, vudu e quinquilharias de viagem. O surreal é normal, não há como pôr de outra forma.

Caso você ainda não tenha entendido, nessa outra postagem eu falo mais disso.

Se nem assim for, o jeito é você passar numa ‘botânica’ pra ‘abrir os caminhos’. Risos… tou brincando, claro, é só pra descontrair um pouco.

Los Frailes Sto. Dgo. Leste RD1

Los Frailes, Sto. Dgo. Leste, bem afastado do Centro. Há vilas bem pobres, mas essa é de classe média

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Vimos acima a direita, mais uma prova da influência haitiana: cartaz de uma operadora de celular diz “recarregue aqui” em crioulo haitiano em pleno Centro da capital dominicana. Falo mais da “questão haitiana” em outra mensagem.

Aqui basta dizer o seguinte: muitos pensam que a língua corrente no Haiti é o francês. Nada poderia ser mais distante da realidade.

Digo, a elite e a classe média haitianas falam mesmo esse idioma imposto por essa metrópole europeia. Mas o povão haitiano se comunica em crioulo, que se originou do francês mas já se separou dele há muito, é uma língua a parte, parecida mas não a mesma, como o português e espanhol. O tema dessa série é a Rep. Dominicana, mas como ela é umbilicalmente ligada a seu vizinho, demos essa pincelada.

muralha e ponte sobre Rio Ozama Cid. Colonial Sto. Dgo. RD

antiga muralha na Cid. Colonial. Ao fundo ponte sobre Rio Ozama.

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O Rio Ozama. Infelizmente com muito lixo, como é o padrão em toda República Dominicana, na terra e água igualmente.

A esquerda e depois em escala maior, “Estrela do Mar” é um navio panamenho que agora não navega mais, está fixo em Santo Domingo funcionando como uma usina flutuante. Aqui estamos quase na foz, ao lado do porto.

Na barranca, mais uma favela. Notam também um pequeno cais pra barquinhos a remo, e uma marina, pros barcos de luxo.

Veja também a sequência em horizontal abaixo, cenas clicadas no mesmo lugar.

classe média Sto. Dgo. Leste RD3

Zona Leste: bairro de classe média distante do Centro

Num pequeno espaço ancoram próximos navios trans-oceânicos de enorme calado, tanto de carga quanto de passageiros, pequenos barcos movidos a tração manual usados pelos pescadores pobres, e embarcações de médio porte, de luxo, nas quais os ricos passam os fins-de-semana.

Nessas poucas imagens, todas as contradições da República Dominicana enfileiradas. Difícil seria fazer síntese melhor. Definitivamente as imagens valem por milhares de palavras.

Santo Domingo Leste1

foto tomada em frente ao Farol a Colombo, visto em outras mensagens da série. Zona Leste, ao lado do Centro.

Logo no planalto visto a esquerd(em cuja encosta estão esses barracos), está a Cidade Colonial, primeira povoação europeia na América, que ainda conserva parte da muralha, visível na foto do porto (do lado oposto ao navio).

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Seguem-se mais imagens do Rio Ozama, sempre captadas próximas de sua foz, na Cidade Colonial, Centro, onde está o porto. Clique sobre que elas aumentam, o mesmo vale pra todas as outras.

foz do Ozama e marina Sto. Dgo. RDpequeno cais em meio a muito lixo no Rio Ozama Sto. Dgo. RDsobre o Rio Ozama Sto. Dgo. RDSanto Domingo Leste do outro lado do Rio Ozama RD

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entrada da Cidade Colonial Centro fim de tarde Sto. Dgo. RD

Agora em terra firme, vemos no decorrer da matéria partes remanescentes dos muros, com um dos portões que lhe atravessavam. A direita observe que bonito entardecer na entrada da Cidade Colonial.

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muitas flores, e também muito lixo Sto. Dgo. RDMais alguns detalhes: na RD pouquíssimas pessoas usam capacete.

Em Santo Domingo há muitas árvores (várias delas com flores) nas ruas. É uma cidade muito bonita, malgrado todas as dificuldades materiais, e não são pequenas.

…………..infra-estrutura quase zero RD

Muitos gatos na fiação, uma síntese perfeita de como as coisas funcionam na República Dominicana.

E olhe que aqui não estamos numa favela, bem ao contrário, trata-se de um bairro da Zona Leste, de periferia sim, mas ainda assim de padrão razoável como notam nas imagens, e bem próximo ao Centro.

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caminhão sem portas RDDireita, acima: esgoto a céu aberto, cena comum em diversos bairros.

Notamos na ampliação a esquerda que o caminhão de lixo não tem portas, vi vários nessa situação por lá. Perigoso? Evidente. Mas alguém se importa?

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Mais algumas cenas de Santo Domingo Leste, a Z/L da Grande Santo Domingo. Eu também fui a periferia nas Zonas Norte e Oeste, mas eu quebrei minha câmera porque deixei entrar areia, então eu não pude fotografar essas outras regiões. De qualquer forma, o que vocês veem aqui sintetiza bem os subúrbios dominicanos, as cenas são bem parecidas.

Santo Domingo Leste2

Santo Domingo Leste. Na esquina ao fundo está a Beira-Mar

Nas duas primeiras tomadas entre as que estão enfileiradas na horizontal logo abaixo, estou bem próximo ao Centro, nas imediações da margem do Ozama. De novo, a confusão na fiação com tanto gato chama mesmo a atenção.

A esquerda e nas 6 últimas dessa mesma sequência, em Los Frailes, bairro bem afastado, que mistura casas miseráveis em ruas de terra – de novo com esgoto a céu aberto – com outras partes bem-estruturadas onde mora uma classe média-baixa.

Essa pequena burguesia suburbana é 100% negra e mulada.

Clique sobre que as fotos aumentam.

classe média Sto. Dgo. RD1muitos gatos na fiação Sto. Dgo. Leste RDesgoto a céu aberto Sto. Dgo. RDclasse média Sto. Dgo. RDLos Frailes Sto. Dgo. Leste RD2classe média Sto. Dgo. Leste RD2Los Frailes Sto. Dgo. Leste RDclasse média Sto. Dgo. Leste RD

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sem placas na frente RD

Cidade Colonial, Centro Velho de Santo Domingo

Vou dizer mais uma vez: na RD apenas os ricos são brancos. No Centro, há uma pequena porcentagem de brancos de classe média, mas mesmo ali já minoritária.

Na periferia de Santo Domingo não há gente branca. Simplesmente não há. E olha que existem bairros melhores, asfaltados, arborizados, com sobrados e escolas particulares bilingues. Pois bem.

Então ali você vê Homens e Mulheres negros e mestiços em carrões utilitários buscando criancinhas igualmente negras ou mulatas, que estão sendo alfabetizadas em inglês e espanhol simultaneamente. Nas melhores casas há até piscina. Uma vida de classe média, de fato e direito. Ainda assim, mesmo entre os que vivem com relativo conforto material, não há brancos no subúrbio da RD.

A esquerda, banca de jogo e pichação política. Já lhes disse que apostar em loterias é uma mania dominicana. Trata-se de uma atividade exclusiva da iniciativa privada, aparentemente não há uma ‘loteria nacional’ estatal jogo e pichação política Sto. Dgo. RDdominicana, como existe no Brasil e na maioria dos países.

Já o protesto diz “Não aos ianques de América”, os estadunidenses obviamente. Ao lado, em letra menor, diz “Bosh vive ainda hoje” – refere-se, em grafia errada, a Juan Bosch, ex-presidente dominicano, e não a George Bush, pai e filho, ambos ex-presidentes ianques.

falei na abertura da série sobre a história política dominicana, e quem foi Bosch: presidente eleito dominicano após o fim da longa ditadura (orquestrada e bancada pela CIA) de Trujillo. Entretanto, a CIA derrubou Bosch pra instalar nova ditadura comandada por um dos auxiliares diretos de Trujillo, Joaquim Balaguer.

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entrada dos fundos - todo prédio tem RD

Escada de emergência usada no dia-a-dia, como entrada de serviço

A direita: na República Dominicana, quase todos os apartamentos tem essa porta dos fundos pela área de serviço, através da saída de emergência.

Em teoria, essa escada de metal na parte traseira só deveria ser usada em caso de incêndio. Mas eles usam no dia a dia, como entrada de serviço. Há a escada principal, coberta, dentro do edifício, que sai na sala, e essa, nos fundos. Ambas são utilizadas.

Me refiro aqui aos pombais do subúrbio, baixinhos, poucos andares. Os espigões com elevador da classe alta são outra categoria, não tem nada a ver com o que está descrito aqui.

Ainda falando da foto que mostra o prédio amarelo, note a enorme  quantia de grades, as portas de madeira tem uma segunda porta de ferro a protegê-las de arrombadores, e mesmo as janelas do 3º e 4º andares são lacradas dessa forma como se os ladrões pudessem voar pra chegar até ali.

Acima: Cidade Colonial, Centro de Santo Domingo. Como já amplamente comentado, os carros não tem placas na frente e boa parte da frota está batida. Esse amarelo até que está uma joinha, comparado com os outros que se vê por lá. A coisa no geral é bem pior.

favela atrás do comando naval Sto. Dgo. Leste RD

Favela atrás do comando naval, Sto. Dgo. Leste, perto do Centro. Fotografei exatamente a mesma cena no Paraguai, confira.

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Daqui até o final: Cenas do município de Santo Domingo Leste, que é a Zona Leste da cidade que é a Grande Santo Domingo.

Percorri-a de ponta a ponta a pé, e aqui algumas cenas que presenciei (algumas já mostradas acima) e quis compartilhar com vocês:

Muitas árvores e flores, Santo Domingo é uma cidade linda, a luta material é árdua mas a cidade é um jardim.

A região da elite é a Zona Oeste próxima ao Centro, único lugar da cidade que há prédios altos, com Santo Domingo RDelevador. Nas Zonas Norte e Leste, no Centrão e também na Zona Oeste suburbana mais distante, bairros muito pobres convivem com outros de padrão bem razoável, de classe média, sempre com casas e prédios baixos.

Entretanto, os primeiros prédios altos fora da Z/O já estão em construção, e logo serão entregues. Aí a porção Centro-Ocidental dominguense terá ainda quase todos os espigões da cidade, mas não mais o monopólio dessa manifestação.

legalização Los Frailes Sto. Dgo. Leste RDEsquerda: Imagem captada no bairro de Los Frailes, extremo da Zona Leste: não é uma favela, as ruas são regulares, e não há barracos nessa parte.

Ainda assim, as casas não tem documentos, trata-se de uma ocupação irregular. Mas veja, o anúncio no muro oferece aos moradores a oportunidade de regularizar a situação, pra que passem a ser, de fato e direito, donos do terreno que vivem.

E fechamos com a cena de um patriota, um morador de Santo Domingo Leste que elevou o Pavilhão Nacional Dominicano onde ele merece.

tremula a bandeira Los Frailes Sto. Dgo. Leste RDDeus abençoe a República Dominicana e seu povo sofrido e lutador, bem como a toda Humanidade.

Bendita seja a América, e todo o Planeta Terra.

Ele-Ela proverá”

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