Em Preto-&-Branco: Orgulho de um Povo, Paixão de um País

“paraíso verde”: chile é colo-colo; mas o litoral é ‘caturro’

1mapu z-o é garra branca

Mxral: “Maipx é G.B.”. Trata-se de um mural em Maipú, Z/O de Santiago. Mas a torcida do Colo-Colo nunca escreve a letra ‘u’, pois seu rival é conhecido como “U”.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 13 de abril de 2015

Integra a Série sobre o Chile.

Campeão da Copa América-2015. Primeira vez.

Nota: eu já não torço mais pra nenhum time de futebol, nem no Brasil e muito menos em outros países.

Portanto ao dizer que o Colo-Colo é o maior clube do Chile isso é a constatação de um fato, e não uma preferência particular de minha parte.

Basta você ler as estatísticas, e andar pelas ruas desse país, que entenderá isso cristalinamente.

1zona norte

Garra Branca Zona Norte

Já chegamos lá. Antes, como contextualização, quero relembrar algo que já falei anteriormente.

Que depreendi apenas andando virtualmente pelo ‘Google’ Mapas pelo Chile, antes mesmo de pisar fisicamente nessa nação:

Creio que o chileno seja o povo mais fanático por futebol de todo planeta, mais inclusive que os argentinos.

1zona sul

O.D.A. (torcida do Universidade do Chile) Zona Sul; Veja todos os postes pintados em azul e vermelho

Na periferia de Santiago a briga é poste por poste.

Em quase todas as vilas e cohabs dos subúrbios tudo está pintado nas cores do time que domina aquela quebrada específica.

E são todos os postes da vila, quadras e quadras a fio. Em quase todas as vilas de periferia a situação é essa:

postes, brinquedos no parquinho das crianças, calçadas, muros, estacas no chão.

Tudo, absolutamente tudo, está decorado ou de preto e branco (Colo-Colo) ou de azul e vermelho (Universidade do Chile).

Mais raramente achamos alguns redutos em que aparece o azul e branco (Universidade Católica).

1Rainha z-l[2]

Os Cruzados (torcida do Universidade Católica) Zona Leste

Como em qualquer guerra de quadrilhas há disputa por território.

No frio da madrugada santiaguina grupos de torcedores saem munidos de pincel e tinta, profanando os postes adversários e passando-os pro seu lado.

Apenas nas quebradas é que se pintam postes aluzindo a times de futebol.

Na Zona Central de Santiago isso não existe, a classe média tem outras ocupações que ficar se preocupando em marcar território dessa maneira.

Ao longo da matéria vamos vendo mais postes pintados. Clique sobre as imagens que elas se ampliam, o mesmo vale pra todas.

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1maipu z-o[1]

Nem o escorregador das crianças escapou de ficar com as cores do Colo-Colo. Garra Branca Maipú, Zona Oeste

Os 2 grandes da capital (Colo-Colo e U. do Chile) dominam a torcida nacionalmente, presentes também no interior.

Ainda assim, a Grande Valparaíso tem também a preferência por seus clubes locais.

Eis clássico portenho: Santiago Wanderers x Éverton.

O Éverton tem as mesmas cores do Boca Juniors argentino, e está sediado em Vinha do Mar.

Já Valparaíso é verde. No futebol, no transporte coletivo . . .

Como Valparaíso e Vinha são dois municípios diferentes mas por estarem umbilicalmente ligados são a mesma metrópole que é a Grande Valparaíso, pode-se dizer que a cidade para no dia que alvi-verdes e auri-celestes medem forças.

Veja o adesivo abaixo, feito pela torcida verde do Santiago Wanderers. Por isso o emblema do rival Éverton está profanado, menor e virado de ponta-cabeças.

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clássico portenhoNão se deixe enganar. Apesar do nome, o Santiago Wanderers tem sede em Valparaíso, e não na capital.

É que quando ele foi fundado – é o time mais antigo do país ainda em atividade, de 1892 – já existia um Valparaíso Wanderers.

Fruto da influência inglesa que é muito ampla no litoral. Não por outro motivo seu arqui-rival ser o Éverton, igualmente.

santiago wanderers

o periquito ‘Caturro’, mascote do Santiago Wanderers

Em outros textos falo mais disso, de como a costa chilena é mais anglicizada que a capital. Aqui o foco é futebol.

Já existia um ‘Valparaíso Wanderers’ (que na década de 10 do século passado encerrou atividades), aí pra diferenciar nomearam o time recém-criado de ‘Santiago Wanderers’, mesmo a sede sendo em Valparaíso.

Um dos apelido do Wanderers é ‘Vagabundo’, pois em inglês ‘to wander’ é ‘vagar sem rumo’, ‘especular’, ‘sair em busca da descoberta’, algo assim.

Pode ter uma conotação positiva, daquele que não segue nenhum roteiro social porque está em busca de um Sentido Maior pra vida.

Mas também pode ser o que não se ajusta a sociedade mas tampouco tira qualquer proveito disso.

E as vezes as concepções se misturam, no Yin-Yan o preto vem junto do branco, não há como separar.

1sw 0 x 3 palestino - prayancha, 1-4-15Fui em um jogo do Santiago Wanderers (S.W.).

Numa gelada tarde/noite de 1º de abril de 2015, o alviverde costeiro levou uma surra do Palestino (da capital Santiago) por sonoros 3×0, em casa, o Estádio da Praia Grande.

Eu estava no local e presenciei tudo.Veja o ingresso ao lado.

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Já voltamos a falar dos times que ficam na orla. Antes vamos dar o panorama da capital Santiago, que concentra o grosso do futebol chileno.

A torcida alvinegra diz que “Colo-Colo É Chile, Chile É Colo-Colo”. Não há como dizer que eles estejam mentindo.

O Colo-Colo:colo-colo 1991 eterno campeão

– Conquistou a única Libertadores da história do Chile, em 1991. Por isso chamado “Eterno Campeão”, pelo menos até que outro iguale a façanha.

Veja o grafite ao lado, clicado em Maipú, Zona Oeste de Santiago.

– É recordista em campeonatos chilenos, 30. Contra apenas 17 do Universidade do Chile, e meros 10 do Universidade Católica.

universidad de chile x colo-colo

Azul e branco: eis o ‘Super-Clássico’, Universidade do Chile x Colo-Colo

É o único tetra-campeão do Chile, feito atingido em 2006/07.

Lá desde o meio da década passada são dois campeonatos por ano, o ‘Abertura’ e o ‘Fechamento’.

Logo você pode ser tetracampeão em apenas dois anos, e assim ocorreu.

– É recordista também em títulos da Copa do Chile, com 10 conquistas. As duas Universidades, a do Chile e a Católica, tem 4 cada.

índio quer fumar - maipu z-o

Índio quer fumar – Maipú Z/O. A esquerda no desenho o troféu da Libertadores/91, inveja dos rivais

Se tudo fosse pouco, o Colo-Colo tem disparado a maior torcida de Santiago e de todo país. Não há comparação possível.

Colo-Colo É Chile”. Não é meu desejo que seja assim, não torço pra ninguém por lá. Pra mim é indiferente.

Mas assim quis a Grande Vida, então assim É.

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Como contra-ponto, ressalto que nessa década a Universidade do Chile (“U. do Chile”, como é conhecida) tem se dado melhor, foi campeã 4 vezes contra 1 do Colo-Colo – são dois torneios por ano, lembre-se.

u. de chile 5 x 0 colo-colo

29 de abril de 2012: U. do Chile 5 x 0 Colo-Colo; Cinco a zero, amigos. Nesse dia o cacique perdeu até o cocal.

A “U” foi tri-campeã em 2011/12, e levou a Copa Sul-Americana em 2011.

O biênio foi mesmo bom pros “azuis”. Em 2012, eles bateram o arqui-rival Colo-Colo por sonoros 5 x 0.

E a Universidade do Chile é atual campeã chilena, venceu o “Fechamento” de 2014.

O vice é o Santiago Wanderers de Valparaíso, que no entanto este ano não consegue bons resultados e está lutando contra o rebaixamento.

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Uma característica muito forte das torcidas de futebol de lá são os ‘murais’.

Entretanto, andei por Santiago inteira. Inteira, Zonas Central, Leste, Norte, Sul e Oeste de ponta a ponta. Só vi murais do Colo-Colo, e vários deles, nas Zonas Leste, Norte e Oeste, especialmente esta última.

Não vi murais de nenhuma das Universidades, o que comprova que o peso de suas torcidas é bem mais fraco. Bem mais, nem tem como comparar com o Indião Velho de Guerra.

Aliás, já que tocamos na parte da simbologia:

O Colo-Colo é o Índio, representa o povão. Ademais, as cores preta e branca quando combinadas mostram exatamente a bi-polaridade, aquele que vai de um extremo ao outro em segundos.

1sw - val

São Roque/Bairro dos Ingleses, Valparaíso. A torcida do Santiago Wanderers também pinta os postes nas cores do clube

Evidente, essa é a característica dos que têm sangue-quente, dos que são instintivos.

Sem muito preparo intelectual e sem apego as normas sociais de comportamento.

O cara que se vira por ele mesmo. Em vários grafites está escrito “os ilegais” na faixa que o cacique ostenta na cabeça.

No Chile a Garra Branca define os colo-colenses como “os Filhos da Raça Brava”.

Que os outros dois clubes são bem mais elitizados já está evidente por se tratarem de clubes universitários.

everton - vinha1

O mesmo faz a torcida do Éverton na vizinha Vinha do Mar (Grande Valparaíso).

Claro que há muita gente do subúrbio que nunca sonhou em fazer um curso superior que torce pro Universidade do Chile.

Assim como no Rio muitos gostam do Vasco sem serem da colônia portuguesa.

Ainda assim, o símbolo capta a Vibração Espiritual. E ela é essa: o Índio é o povão, a massa, a multidão. Tudo vai como dá.

Inversamente, o mascote da “U” é a coruja, exatamente o bastião da intelectualidade, do conhecimento analítico e racional.

Gente culta e preparada, sangue-frio, que calcula cada passo, e que usa estensamente suas conexões sociais.

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Não confunda as duas “Universidades”: O Colo-Colo certamente é o maior time do Chile.

O segundo maior, com quem ele faz o ‘Super-Clássico’, é a Universidade do Chile. Segundo lugar em torcida e em títulos. Já a Universidade Católica é claramente a terceira força.

Cumpre nessa nação mais ou menos o mesmo papel do Paraná Clube aqui em Curitiba, do Náutico em Recife-PE ou do América em Belo Horizonte-MG.

1everton - vinha

Mais uma da torcida do Éverton, Vinha do Mar. Estamos no alto de um morro. Ao fundo os prédios na parte plana e elegante da cidade.

A Católica não faz nem cócegas no Colo-Colo, e por isso sua ambição é cutucar a U. do Chile no “Clássico Universitário”.

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As torcidas organizadas são:

– A do Colo-Colo é a ‘Garra Branca’, picha-se G.B. nos muros, insígnia oni-presente no Chile, capital e interior.

– A do U. de Chile se chama “Os de Abaixo” – O.D.A.” . Picha-se ‘L. de A.” no original em espanhol evidentemente, sabem que eu traduzo tudo pro português.

Domina alguns bairros de Santiago, e tem uma presença, já bem diluída, no interior.

1maipu z-o - vídeo da GB

Clique na ligação da G.B. ao lado: aos 3:45 aparece no clipe que eles produziram esse mural.

– Já a ‘barra-brava’ da Universidade Católica se chama “Os Cruzados”.

Veja os vídeos:

Garra Branca/Colo-Colo: https://www.youtube.com/watch?v=JGOYEw3ZtIM

O.D.A./ U. de Chile: https://www.youtube.com/watch?v=vogrgL3Xx5o

Cruzados/ U. Católica: https://www.youtube.com/watch?v=ifq1HqFSWjY

Note que enquanto a torcida do U. de Chile escolheu o roque pesado como trilha sonora, os Índios e os Cruzados preferiram o ‘rap’.

1maipu z-o - fotogrado por mim

Veja que curioso: sem saber disso eu fotografei pessoalmente a exata mesma cena. Maipú, Zona Oeste

O ‘rap’ é muito forte no Chile, não penses que esse país é similar a Argentina no gosto musical.

Na Argentina, como se sabe, praticamente o ‘rap’ inexiste, assim nos seus satélites Uruguai e Paraguai.

O Chile, ao contrário, nesse quesito se parece com Brasil, Colômbia, México, Venezuela, EUA:

Nas quebradas os jovens ouvem esse estilo o tempo todo, o ‘rap’ chileno é fortíssimo, a ponto inclusive de projetar a fama e estrelato as Mulheres repeiras.

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bandeira sw - val

Valparaíso: bandeiras do Santiago Wanderers tremulam pra mostrar que o litoral é verde

Da música nos ocupamos em outra oportunidade.

Aqui só estou dando uma pincelada pra mostrar que sim, em muitos quesitos o Chile se parece muito com a Argentina:

O gosto pelo vinho, a arquitetura inclusive no subúrbio. Mas em outros não tem nada a ver.

Já que tocamos no ponto de como as casas são construídas, no Chile como no Sul e no Norte do Brasil há muitas casas de madeira.

O que inexiste na Argentina exceto no estado das Missões.

Leia a radiografia completa que fiz desse tema em nível continental.

sw - val1

‘Valpo é Verde’, eles dizem por lá.

Em Buenos Aires, Córdoba, Mendonça, Rosário, Comodoro Rivadávia, resumindo por todo país exceto as Missões, não existe casa de madeira.

Não existe. E na Argentina não existe quase o ‘rap’, isso incluindo as Missões.

Agora, no Chile há casas de madeira aos montes, especialmente fora da capital. E, Santiago e interior, há muito, muito ‘rap’.

A Argentina e Uruguai querem ser parte da Europa. O Chile não quer.

O Chile É América. E como É.

escadão - sw - val

Valparaíso: até o escadão do morro ficou verde e branco, território do S.W.

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De volta ao futebol: veja nos vídeos que a Garra Branca não escreve a letra ‘u’, substitui pelo ‘x’.

Os ‘Murais’ da GB são os ‘Mxrais’. O bairro de Maipú, na Zona Oeste de Santiago, no comando da Garra é Maipx.

Já O.D.A. não escreve a letra ‘g’.

Já conhecia os ‘murais’ (ou ‘mxrais’) chilenos pela internet, de todas as torcidas. Mas, andando ao vivo pela cidade, só vi da Garra Branca, e muitos deles contra nenhum de todas as outras,

Digo, em Vinha do Mar vi e fotografei murais do Éverton. Mas não achei murais do S.W. nem das duas Universidades.

Eles existem, óbvio, pelo ‘Google’ já encontrei vários da U. do Chile. Mas em número infinitamente menor.

guerra colo-colo sw - val

Valparaíso, território em disputa. Em vermelho vemos que a torcida do Santiago Wanderers (‘S.W.’) profana os escritos da GB do Colo-Colo

A única conclusão possível é que o Colo-Colo deve ter mais da metade da preferência popular, sobrando a todos os outros brigar pelo que sobra.

E, entre a rapa, o U. de Chile é o maior, domina alguns bairros de Santiago, é o único que consegue fazer frente ao Índio.

Indumentárias da Universidade Católica aparecem esparsamente em uns poucos bairros específicos, mas nunca com massa crítica pra ser majoritária em nenhum deles.

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1guerra rainha z-l[1]

Cidade da Rainha, Z/L de Santiago: guerra pelos postes, a GB pintou de branco e preto, O.D.A. atropelou de vermelho e azul

Mesmo em outras cidades o Colo-Colo bate de frente com o maior time da cidade.

Andando nas quebradas de Valparaíso constatei que ali a disputa pelos corações e mentes da rapaziada é entre Colo-Colo e o local Santiago Wanderers.

Lembre-se do paradoxo, esse time não é de Santiago mas dali de ‘Valpo’.

O U. de Chile tem ínfima aparição no litoral, e a outra Universidade, a Católica, se mal amealha forças na capital fora dela inexiste.

guerra de torcidas - val

Valparaíso: as torcidas da capital brigam em pleno litoral. De preto, a G.B. do Colo-Colo, O.D.A. (em espanhol ‘L. de A.’) em azul

Os habitantes da Grande Valparaíso (que inclui Vinha do Mar e outros subúrbios do outro lado da montanha – fui ali também, em outro texto detalhes incluso com fotos) são os ‘portenhos’.

Obviamente por causa do Porto de Valparaíso, o principal do país.

Exatamente ali começou o golpe de estado orquestrado por Pinochet em 11 de setembro de 1973, o que também nos ocupamos melhor outro dia.

Repetindo, o ‘Clássico Portenho’ opõe o Santiago Wanderers – que apesar do nome foi fundado e está até hoje em Valparaíso – e Éverton – que foi fundado em Valparaíso mas se mudou pro vizinho município de Vinha do Mar.

gb - vinha - por todo chile

Idem a legenda a direita. Porém estamos agora em Vinha do Mar, e a O.D.A. fez seu grafite (já profanado) em vermelho. A GB continua negra

Valparaíso e Vinha são cidades rivais. Muito parecidas com Santos e Guarujá-SP.

Santos é o porto e centro político e econômico da região, mas a elite prefere comprar seus apartamentos no Guarujá. Então, no Chile é o mesmo.

Valparaíso é o núcleo da metrópole por sediar o porto, mas é uma cidade velha, relativamente empobrecida.

E em alguns pontos do Centrão bastante caótica e mesmo suja.

Pois os ricos têm como colônia de férias a vizinha Vinha. (Nota: ‘Vinha do Mar’, como eu chamo sempre traduzindo pro português, não quer dizer que algo chegou pelo oceano, que ‘veio do mar’. E sim ‘vinha’ se refere a uma fazenda vinícola, onde se produz vinho.)

Explicado o nome, ‘Valpo’ e Vinha são umbilicalmente ligadas, um moderníssimo metrô e dezenas de linhas de ônibus urbanos as une, e pela orla são conurbadas, você não percebe quando sai de uma e entra em outra.

1garra branca maipu zona oeste

Garra Branca Maipú, Z/ Oeste: esse comando é forte, o bairro está inteiro decorado em preto-&-branco.

Mas por serem municípios distintos e terem papéis econômicos distintos dentro da metrópole há uma rivalidade, como os seres humanos fazem em todas as partes.

O futebol acentua isso.

O Santiago Wanderers foi fundado em 1892. Em 1909, também em Valparaíso, imigrantes ingleses criam o Éverton.

Porém em 1935 este último se transfere pra vizinha e rival Vinha do Mar. Os vinhenses adoraram o ‘tapa de luva’ que o clube dera em Valparaíso.

Já, inversamente e pelo mesmo motivo, os valparaisenses nunca perdoaram a ‘traição’.

O que botou fogo na rivalidade, pois aí extrapolou a dimensão futebolística e encampou também o orgulho de cada município.

oda - maipu z-o

“Paixão e Violência“, eis o lema da O.D.A. Maipú; pra tentar contra-balancear a GB

Se antes da mudança do Éverton o jogo entre ele e o S.W. era o clássico apenas local do município de Valparaíso,

com a mudança passou a agitar toda a região, toda a metrópole costeira, por a partir dali ser uma disputa Vinha x Val.

Outro apelido do S.W. é “Caturro”, que significa algo pequeno mas arretado. O mascote, como em vários times verdes, é o periquito.

maipu z-o

O.D.A. Maipú

O Palmeiras tinha o periquito como seu arquétipo, até o porco ser reconhecido oficialmente em 1986, antes era uma pecha.

Entretanto, a T.U.P. não aderiu e ainda ostenta essa simpática ave em seu estandarte. O Gama-DF também é verde, e também é o periquito.

…………

Voltando ao Chile, a nível nacional o sucesso de S.W. e Éverton é limitado. Já dei acima a lista dos maiores campeões, os 3 primeiros são da capital, todos com o número de títulos já nos dois dígitos.

O quarto, e maior do interior, é o Cobreloa, do Norte Chileno – a região que exatamente agora foi abalada por uma enchente monumental.

Por todo o Chile estavam-se organizando comitês pra enviar doações, os jornais só falavam disso, foram mais de uma centena de mortes, a coisa foi feia.

bando azul z-s

“O Bando Azul”: O.D.A. Zona Sul

Deixando essa tragédia de lado, o Cobreloa já foi campeão chileno 8 vezes, e por duas vezes chegou a final da Libertadores, tendo perdido ambas.

Ainda que não conte com nenhum troféu internacional, é o maior campeão chileno entre os times de fora de Santiago.

Já os ‘portenhos’ estão bem atrás, o Éverton ganhou 4 vezes, a última em 2008.

E seu arqui-inimigo Santiago Wanderers tem 3 canecos nacionais, o mais recente deles é de 2001.

Ano passado o S.W. foi muito bem e ficou como vice-campeão, atrás apenas do U. de Chile.

Já esse ano o S.W. está péssimo e briga contra o rebaixamento.

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Um dos clubes pequenos da capital chama-se Palestino. O Chile tem enorme colônia árabe em geral, e palestina em particular.

Cerca de 350 mil chilenos são descendentes dessa pátria ocupada militarmente por Israel.

Andando por um bairro de classe média-alta ao pé do Morro São Cristóvão (entre as Zonas Central e Norte de Santiago) você vê diversos restaurantes elegantes sírio-libaneses, sinal que a colônia se concentra ali.

Um deles é exatamente o do Clube Palestino.

Cid. Rainhalva z-l

Rainhalva“: A Cidade da Rainha, Zona Leste, pintada pela Garra Branca

Há tantos palestinos no Chile que a Seleção Nacional da Palestina já disputou uma vez a 3ª divisão do campeonato chileno, você sabia disso?

Não confunda o clube Palestino de Santiago, que é um time de futebol chileno que apenas honra a colônia palestina, com a Seleção Nacional da Palestina.

Cid. Rainha z-l[1]

G.B. Cid. Rainha, Zona Leste

O Clube Palestino joga a primeira divisão chilena, inclusive agora eu já presenciei uma partida deles no estádio.

Assim como a Portuguesa de Desportos é um time paulistano que honra a colônia portuguesa mas obviamente não é a própria seleção que representa a pátria de Portugal.

Mas agora vamos falar da Seleção da Palestina, que representa a Pátria Palestina, que um dia terá Jerusalém Oriental como capital. Por ela estar ocupada por Israel tem imensas dificuldades em tudo, desde montar seu escrete a treinar e jogar.

1guerra rainha z-l

Cid. Rainha, Z/L, guerra por território: o poste já foi pintado e repintado tantas vezes que está difícil ver quem foi o último a fazê-lo

Assim a Fifa abriu uma exceção e abrandou as regras pra se vestir a camisa da Palestina.

Podem defender a esquadra nacional pessoas até a oitava geração de descendência palestina.

Se teu tetra-avô, ou mesmo o avô de seu tetra-avô, era palestino você pode jogar por esse país ainda que nunca tenha pisado nele e nem fale uma palavra sequer de árabe.

E como no Chile há enorme colônia palestina, muitos cidadãos chilenos de ascendência palestina servem a equipe nacional palestina.

Fora do Oriente Médio é o maior fornecedor de jogadores.

Somando todo esse contexto, em 2003 a Seleção Nacional da Palestina foi convidada e disputou a terceira divisão do Chile, como se fosse um clube. Como um preparatório pra Copa da Ásia.

http://clubecolours.blogspot.com.br/2010/09/selecao-palestina-ja-jogou-o-campeonato.html

santiago sul - oda

O.D.A. Zona Sul. ‘Santiago Sul’ é o que está pichado, com o ‘u’ caracterizado como Universidade do Chile

Jogou 21 das 26 rodadas previstas. Saiu antes do fim porque estava muito difícil a logística.

Estavam tendo que cruzar o oceano o tempo todo pra conciliar o campeonato chileno com os compromissos lá no Oriente Médio.

Então a participação palestina no campeonato nacional de outro país acabou mais cedo.

Ainda assim, existiu. Creio que seja algo inédito na humanidade, a seleção de um país disputar um torneio nacional de outro como se fosse um time local.

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Já fui a estádios no Paraguai e na Colômbia. No Brasil, além de muitas vezes em Curitiba e SP capital, também em Belo Horizonte e Santos-SP.

Planejava ir no Chile também, mas ao chegar lá vi que naquele fim-de-semana não haveriam jogos pelo campeonato chileno.

Rua Curitiva Curitiba Santiago z/s pichação placa Chile

Rua Curitiba, Zona Sul de Santiago. Ou seria “Rua Curitiva”????

Pois estava em recesso pra que a seleção nacional jogasse. Alias é uma história curiosa. O Chile enfrentou justamente o Brasil, e perdeu por 1×0.

Mas há mais. Na Zona Sul de Santiago há um bairro que homenageia exatamente o Brasil.

As ruas se chamam Curitiba, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Belém, Maceió e Campinas.

Eu, um brasileiro visitando o Chile, estava exatamente ali no bairro da capital do Chile que homenageia o Brasil, enquanto Brasil e Chile se enfrentavam. Nas vendinhas ouvia-se o rádio narrando o confronto.

zona oeste

O.D.A. Zona Oeste

Por conta disso não houve rodada do campeonato chileno.

Na sexta-feira que eu estava em Santiago foi a final da Copa do Chile. O Universidade de Concepção

(3ª maior cidade chilena, que fica no Sul do país, não confunda com as duas ‘Universidades’ de Santiago) bateu por 3×2 o Palestino e foi campeão.

Não pude ir nessa partida porque ela ocorreu na cidade de Talca, a 250 km da capital. E, dizendo de novo, pelo campeonato nacional não haveriam jogos pois a data estava reservada pra seleção.

gb - val caminhão

Garra Branca presente em Valparaíso

De forma que eu já estava conformado que não daria certo ir ao estádio nessa viagem.

Foi aí que uma série de circunstâncias se alinharam pra que afinal eu pudesse pisar numa arquibancada chilena.

Eu e meu irmão de manhã fomos a praia com nossa família – o mar é gelado, vocês não imaginam quanto.

Nessa outra postagem mais detalhes tanto sobre a sensação térmica no oceano quanto aproveitando uma radiografia completa da Grande Valparaíso.

O fato é: depois de entrarmos rapidamente no Pacífico a tarde fomos caminhar por Vinha do Mar e Valparaíso, subir os morros a pé, pra vermos como é a periferia.

maipu zona oeste é zona branca1

mesmo parquinho visto acima: Maipú Zona Oeste é ‘Zona Branca’.

E realmente saímos do Centro de Vinha, que é plano e onde moram os ricos.

Fomos até o alto de um morro, no subúrbio. Descemos, chegamos de novo a parte plana, rica e central da cidade.

Entramos pra tomar uma água num café elegante, com quadros na parede, flores no peitoral da janela, poltronas estofadas, bem coisa de burguês.

A garrafinha foi caríssima, era chilena mesmo mas nos custou como se fosse mineral francesa. De forma que disse a ele: “cara, é só porque estamos em outro país que entramos naquela porta.

No Brasil eu jamais frequentaria um estabelecimento de altíssimo padrão como esse”.

gb z-l

Veja no alto da matéria o poste pintado pelos Cruzados na Zona Leste. Atrás dele a G.B. de Peñalolén marca presença

Mas valeu a pena. Até aí, eu conformado que viria embora do Chile sem ir ao estádio.

Eis que meu irmão pegou o jornal pra ler. E ali ficamos sabendo que naquele exato dia haveria um jogo ali em Valparaíso:

Santiago Wanderers x Palestino.

Não era pra eu ter lido esse jornal, o fato se deu em circunstâncias insólitas, eu bebia uma água que me custou os olhos da cara.

Num estabelecimento elegante, o reduto dos artistas, intelectuais, chiques e descolados, segmento da sociedade que eu de forma alguma represento, tanto que moro no Canal Belém.

guerra peñalolen z-l

Ali perto, em Peñalolén, Z/L: o poste era azul e branco dos Cruzados, a GB tinha outros planos e pintou de preto e branco

Entramos nesse café, e ali lemos o periódico. Já foi uma conjunção de fatores incomuns. Mas há muito mais:

Não era pra ter esse jogo naquele dia. Como eu disse, não houve rodada do campeonato chileno na semana que estive lá.

Essa partida S.W. x Palestino estava atrasada, era de 3 rodadas atrás.

É que duas semanas antes, quando ela deveria ter sido realizada, houvera um incêndio feio que causou muitos estragos nos morros de Val e Vinha. Aí cancelaram o jogo nessa ocasião.

O remarcaram justamente pro dia que eu estava na cidade.

Como eu disse, muitas coisas insólitas se alinharam pra que eu visse uma partida de futebol no Chile. Era pra ser, entende?

maipu a vida pelo branco

Maipú Z/O. Além do grafite da “Vida pelo Branco“, veja que curiosa essa quadra de pelada de basquete só com uma cesta, pra jogar mano a mano ou dupla contra dupla.

Como já havia se dado antes, em Medelím-Colômbia. Ali, igualmente, o Universo conspirou pra que eu pusesse meus pés no Estádio Atanásio Girardot.

Muitas coisas que não ocorreriam em circunstâncias normais não só ocorreram como foram combinadas, se alinharam.

4 anos se passaram, e a mesma ‘Conspiração Positiva’ se repetiu, agora no Chile.

Tem mais. Valparaíso e Medelím são cidades muito parecidas, o Centro numa planície cercada de morros por todos os lados, as encostas tomadas por favelas.

Se fosse pouco, tanto o Nacional de Medelím quanto o Santiago Wanderers são alvi-verdes e têm a mesma camisa principal, toda esmeralda escura.

………..

De forma que eu e meu irmão encerramos aquela parada pra refresco e fomos nos informar onde era o estádio.

Era no bairro da Praia Grande, ‘Playancha’ em espanhol. Isso porque ele fica no último bairro de Valparaíso.

rainha z-l azul

Cidade da Rainha, último subúrbio de Santiago a Leste, já subindo os Andes. Poste da O.D.A.

A cidade é uma baía, logo a orla principal onde está o porto é cercada de terra por 3 lados.

Em cada canto da cidade está um cabo, que avança mar adentro delimitando a baía.

Do outro lado do cabo é mar aberto, por isso o nome da ‘Praia Grande’, contrastando com a ‘praia pequena’ que é a central enclausurada pela baía.

O bairro sobre o morro que abriga o cabo se chama também Praia Grande.

A praia nomeou o bairro, e a seguir o Estádio. Oficialmente registrado Elias Figueroa Brander, ou na boca do povo simplesmente ‘Playancha’.

Cid. Rainha z-l

Cidade da Rainha, Zona Leste. Alguém não gostou do mural da G.B.

Pegamos um micro-ônibus no Centro de Vinha, atravessamos toda a orla.

Depois do porto o veículo virou a esquerda e começou a subir a encosta. No alto dela vimos as arquibancadas.

A princípio nos disseram que não há comércio de ingressos no local, é preciso adquirir antecipadamente pela internet, tendo se cadastrado no sítio do clube.

gb são roquíndio - val

G.B. São Roque, Valparaíso: “A Torcida do Time Campeão”, diz o grafite.

Como eu não havia chegado até ali pra desistir, perguntamos aos camelôs, que nos informaram melhor: virando a esquina havia sim uma bilheteria que vendia na hora.

Não deu certo de meu irmão também ver o jogo. Pagamos meu ingresso, custou 4 mil pesos, o equivalente a R$ 20.

É o setor popular, a curva norte. Nas retas, que são mais caras, realmente é preciso a compra antecipada com cadastro.

Mas felizmente havia ainda um setor que não se modernizara, que funciona como era antigamente no Brasil, você chega, paga e sai com o bilhete na mão, sem precisar ter a carteirinha de sócio.

val - gb

Mais uma da G.B. S.R. (São Roque): a torcida do Colo-Colo é tão grande que tem múltiplos comandos mesmo fora de Santiago. “São Roquíndio“, eles rebatizaram o bairro

Foram mais duas coisas que se alinharam pra que eu pudesse ver o jogo:

Primeiro, havia venda no local, segundo, não era tão caro, eu só tinha o equivalente a R$ 30 em pesos.

Nos estádios dos grandes times do Brasil geralmente nem há mais bilheteria aberta no dia do jogo, muitas vezes os sócios já reservaram tudo.

E mesmo quando há disponível é sempre muito, mas muito acima desse valor que eu tinha na carteira.

Mas no Chile ainda não é assim, lá ver seu time de coração não é coisa só pros bem-nascidos e bem-conectados.

Ainda é acessível, ainda não precisa da burocracia e compromisso de ser sócio, e as pessoas aproveitam. Apenas a curva norte, o setor popular local, encheu.

A reta principal, coberta onde fica a elite com camarotes, etc, estava com mais ou menos metade da capacidade.

A reta oposta, descoberta, mais barata que a principal mas mais cara que as curvas, estava quase vazia. E a curva oposta, que seria do setor de visitantes, nem sequer foi aberta.

O Palestino é um clube tão pequeno que ninguém veio de Santiago incentivá-lo, e olhe que a viagem é curta, uma hora e meia.

………..

guerra maipu z-o

Guerra pelos postes em Maipú, Z/O de Santiago.

Voltando a descrever minha saga. Chegamos, eu e meu irmão, a bilheteria e comprei meu ingresso.

Como faltavam mais de duas horas descemos o morro a pé, ladeamos o porto.

E ao chegarmos ao Centro nos despedimos, embarcamos então em ônibus distintos que iam a sentidos opostos.

Ele rumou ao apartamento que estávamos hospedados e eu peguei outra condução de volta ao estádio.

Ali eu já entrara no clima do confronto, o buso estava cheio de torcedores com as camisas esmeraldas.

Porém quero ressaltar que o respeito e a educação pelos demais passageiros eram absolutos, ninguém cantava ou gritava, muito menos palavras de baixo calão.

Rainha z-l

Cid. Rainha, Z/L: até as estacas são preto-e-brancas. Qualquer coisa que fique na rua será pintada na cor de um dos dois maiores times

Todos iam respeitosamente em silêncio ou conversando civilizadamente, respeitando os colegas de viagem que não tem interesse em futebol.

O povo brasileiro teria muito a aprender com seus vizinhos, isso se nós fôssemos um pouco menos prepotentes.

A civilidade na hora de se dirigir ao estádio certamente é um ponto bastante deficiente em nossa pátria.

Nossos irmãos hispano-falantes respeitam os outros no ônibus, e ali não berram. Guardam as gargantas pro momento que adentram as arquibancadas.

Em compensação durante os 90 minutos eles não silenciam um momento sequer, mesmo quando o time está perdendo. Tanto que o cântico mais famoso da torcida do Colo-Colo é “podemos ganhar, podemos perder, mas eu sempre vou te apoiar”.

Já os torcedores organizados brasileiros são o exato oposto. No ônibus não respeitam ninguém.

Só que dentro do estádio só gritam quando seu time está ganhando e/ou faz um tento. Há exceções, claro. Mas a regra é essa.

grafite copa morro s. cristóvão z-n

No Chile também há grafites relativos a Copa. Esse eu cliquei numa favela que há no Morro São Cristóvão, Zona Norte de Santiago

………

Volto a descrever a cena que eu subia o morro no micro-ônibus, acompanhado por vários torcedores uniformizados rumo ao estádio.

Quase todos com camisas do S.W., mas um deles trajava-se com o estandarte do Nacional de Medelím, as torcidas têm amizade pela semelhança dos uniformes.

Como eu contei acima, uma série grande de circunstâncias se alinharam pra eu estar ali, precisamente como já havia ocorrido antes em Medelím;

E como as cidades são similares, como os dois times têm o mesmo uniforme, enfim, estava escrito nas estrelas, era pra ser. Assim ver um rapaz chileno homenageando o clube colombiano foi o arremate final em um dia perfeito, memorável mesmo.

………….

marília tatuada maurílio garra branca colo-colo meia-calça bota casal loira olhos verdes unhas vermelhas bolsa tatuados

Casal chileno com o corpo todo tatuado. Um dos desenhos dele é o símbolo do Colo-Colo com as iniciais G.B. . Veja a postagem.

Dentro do estádio, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o alto percentual de Mulheres no público.

Os chilenos adoram futebol, arriscaria a dizer mais que na Argentina, e certamente muito mais que no Brasil. E essa paixão é compartilhada por ambos os sexos.

Vi várias Mulheres uniformizadas com os adereços do S.W. (camisa, chapéu, etc) que não estavam ladeadas por nenhum Homem.

Ou seja, elas não estavam ali pra acompanhar os maridos e namorados, e sim porque elas mesmas são ‘hinchas’ do clube, de coração.

Uma hora sentaram-se ao meu lado 5 Mulheres da mesma família, de 3 gerações.

Uma senhora, duas moças que pareciam filhas dela, e 2 meninas pequenas, que podem ser primas ou irmãs. E ninguém do sexo masculino junto. Ir ao estádio, no Chile, também é ‘Coisa de Mulher’.

Agora, claro que a maior parte do público é masculina. Quis dizer que há mais Mulheres na arquibancada que no Brasil, e não que há mais Mulheres que Homens, óbvio que não.

………

Quanto ao jogo em si. Marcado pra 7:30, começou de dia e acabou de noite.

No Chile amanhece e anoitece bem mais tarde que no Brasil, pois o fuso horário é o mesmo de Brasília, mas o país está muito mais a oeste. Cheguei ao estádio com Sol alto, saí na escuridão total. Por isso eu não pude ver o Astro-Rei entrando no Pacífico.

Na véspera eu passei perto.

Rainha z-l[1]

Cidade da Rainha, Z/L: Garra Branca na ativa.

Mas o vi em Acapulco-México, 2012, que é outra cidade extremamente parecida com ‘Valpo’.

Alias o é ainda mais, já que Medelím é um vale no interior, já Acapulco e Valparaíso são litorâneas, uma baía com uma parte central plana cercada por morros por todos os lados.

De volta ao Chile, era uma quarta-feira esse dia do jogo. Na sexta anterior, o Palestino acabar de perder a final da Copa do Chile pro Universidade de Concepção, como disse acima.

Ele foi a Valparaíso jogar essa partida atrasada na tabela disposto a se recuperar do baque, a sair de lá com os 3 pontos, ainda que fosse o visitante.

1everton - vinha2

Éverton – Vinha do Mar. Como vimos, no Chile as torcidas organizadas espalham suas pichações e grafites por todo país. No México, entretanto, não há pichações de futebol. 

Então assim se deu: a bola mal começara a rolar e o Palestino já guardou o primeiro, 1×0 antes do primeiro giro do ponteiro se completar.

O Santiago Wanderers tentou ensaiar uma pressão mas não teve competência, tentou compensar sua falta de habilidade na malandragem:

Por 3 vezes seus atacantes se jogaram na área simulando terem sido derrubados. O juiz foi mais esperto e não comprou a armação.

Valparaíso é uma cidade gelada, pelo oceano ser cortado por uma corrente antártica vinda direto do Polo Sul.

Então a partir do intervalo começou a esfriar pra valer, e eu tinha levado pouco agasalho, não sabia que chegaria depois do entardecer pois não sabia que iria ao jogo.

Além disso, o estádio é num bairro bem distante, o último da cidade como descrevi acima. Eu teria que ir até o Centro, e dali ainda pegar outra condução pra onde estava hospedado.

guerra zona sul

Zona Sul: a O.D.A. pichou primeiro, em branco. A G.B. atropelou. Curioso a torcida do Colo-Colo usar o azul do arqui-inimigo, mas assim se deu.

Se eu ficasse até o apito final, que seria quase 9:30 da noite, chegaria em casa as 11, e isso num país que eu não conheço, e que não falo direito a língua.

Assim, eu já havia planejado mesmo sair antes do fim.

Aos nove do segundo o Palestino ampliou pra 2×0. Eu senti que a fatura estava liquidada.

Me dirigi a torcida organizada do S.W., pra sentir um pouco o clima.

Eles nunca param de cantar, mesmo quando o time está perdendo, mesmo quando o clube que estão apoiando leva gol. É impressionante, nos outros países hispano-falantes americanos é assim também, é uma característica da raça.

2×0 pros de fora. Mas a barra-brava nunca se silenciou, nunca sentou. Pularam e gritaram o tempo todo.

gb - v. alemã

G.B. Vila Alemã, distante subúrbio da Grande Valparaíso.

Fiquei uns minutos ali, cantando com eles, e saí. Assim que deixei o estádio ainda ouvi o barulho do Palestino fazendo 3×0, que acabou como placar final.

………..

Caminhei a pé até o Centro. Era meu último momento no Chile, no dia seguinte cedo começaria a viagem de volta pro Brasil. Quis passá-lo sozinho, na escuridão da noite.

Na descida do morro, e depois contornando o porto, não havia ninguém nas calçadas. Carros passavam nas ruas, mas a pé eu estava ali na solitude, sem uma Viv’Alma a me ladear.

Enfrentando o vento gelado que vem do mar eu fui, refletindo sobre a vida. Ao meu lado, a Lua Crescente quase cheia iluminava o Pacífico Sul.

Foi um momento bonito. Agradeci ao Pai-Mãe a oportunidade de conhecer mais um país americano.

Logo cheguei ao Centro, e começou um burburinho de pessoas, algumas bebendo nas baladas, outras buscando condução pra ir pra casa após mais um dia de batente, outros ainda são sem-tetos e drogados que moram ali mesmo.

guerra peñalolen z-l[1]

Peñalolén, Z/L: o ‘U’ em azul do U. do Chile foi riscado

Enfim, todo esse fervo de Centrão de metrópole que vocês conhecem.

Embarquei num táxi-lotação. A viagem pro Chile chegara ao final.

………..

Galera, dessa vez comecei pelo fim.

Nas outras mensagens vou descrevendo os outros aspectos que observei na nação trans-andina.

Obrigado pela atenção de vocês, e que Deus Pai e Mãe eterno Ilumine a todos.

Paz a toda Humanidade.

Deus proverá”                                                 

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