Até jogo de futebol é “falsificado”??? Só poderia ser no Paraguai

nacional x cerro porteño: grande clássico sul-americano, certo? calma que nós estamos no defensores do chaco

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”no Defensores do Chaco

Publicado em 18 de maio de 2013

Integra a Série sobre o Paraguai.

Estou publicando alternadamente textos desse país e do Chile.

Mas a viagem a Assunção foi dois anos antes, apenas levanto pra rede o que está em arquivo, enquanto as matérias do Chile são feitas no momento de irem pro ar.

Confira sempre a data de publicação.

……….MALENA OLIVETTI 19/11/98

No dia 11 de maio de 2013, um sábado a noite, fui ao Estádio Defensores do Chaco, em Assunção-Paraguai, assistir a uma partida. Visto a esquerda em foto puxada da rede.

Repare quantas árvores. Assunção é uma das 4 cidades mais arborizadas que já estive, ao lado de Curitiba, João Pessoa-PB e Maringá-PR.

Todas elas são um tapete verde, especialmente Maringá, mas ela não é capital, e é bem menor que as outras 3. Santo Domingo, na República Dominicana, não fica tão atrás.

Do lado oposto, entre todas as cidades que já pisei, e foram centenas por vários recantos do Brasil e da América, as menos arborizadas são São Paulo, Fortaleza-CE (que é no sertão semi-desértico) e certamente a pior de todas é a Cidade do México, essa é um deserto de pedra, metal e asfalto.

…………

Feito esse adendo, de volta a nosso foco: nessa mensagem vamos falar um pouco do futebol paraguaio.

cerro-olimpia

Cerro Portenho x Olímpia, o ‘Super-Clássico’ Paraguaio. Se preferir, o ‘Furacão’ contra o ‘Vovô’ – que é o ‘Rei de Copas’ por ter mais títulos, daí estar coroado.

O Defensores é o maior estádio do país, e é público, aceita 41 mil espectadores e não pertence a nenhum clube.

Já comportou mais de 50 mil pessoas, mas como sabem as arquibancadas dos campos de futebol estão “encolhendo”. 

Aqui no Brasil  também: o Maracanã-RJ da inauguração em 1950 até os anos 90 podia receber 180 mil pessoas oficialmente e 200 mil no imaginário popular, hoje são 90 mil e com a nova reforma deve cair mais.

(Nota escrita em 2015: de fato o Maracanã ‘encolheu’ ainda mais. Desde a copa de 14 [que ele sediou a final] em diante sua capacidade é de 78 mil pessoas.

Como eu disse, os estádios estão ficando cada vez ‘menores’, no Brasil e em toda parte.)

Voltemos a falar do principal estádio do Paraguai. Como todos sabem, hoje chamado de Defensores do Chaco. O que poucos sabem, entretanto, é que esse já é sua 4ª denominação.

Fica no elegante bairro da Saxônia, na Zona Central de Assunção, uma região de classe média-alta. “Saxônia” foi exatamente seu primeiro e terceiro nome. O segundo foi “Uruguai”, pra marcar a conquista uruguaia da primeira copa, em 1930, mas a seguir retomou a denominação original.

Logo a seguir, ainda nos anos 30, veio a “Guerra do Chaco”, infinitamente sangrenta, entre Paraguai e Bolívia.

Olímpia

Torcida do Olímpia. Repare que uma das faixas diz “Km 17”, a esquerda da palavra ‘Barra’. No Paraguai – e na Rep. Dominicana também – a quilometragem das rodovias que partem da capital nomeia os bairros suburbanos que a margeiam.

O estádio participou do esforço de guerra se transformando em importante base militar de estocagem de material bélico e tropas.

Após a vitória paraguaia nos campos de batalha homenageou o exército paraguaio.

Enfim vitorioso, depois da fragorosa derrota pra Brasil, Argentina e Uruguai 60 anos antes no que chamamos de “Guerra do Paraguai”, pra eles “Guerra de 1870” ou “Grande Guerra”.

Em mensagem a parte falamos mais da violenta e conflituosa história paraguaia. Aqui, dei essa pincelada só pra por no contexto.

Essas duas guerras formam o cerne do espírito paraguaio, e por todo país há referências a elas. A vitória na segunda lhes fez sentir aliviados, não eram perdedores crônicos afinal, e por isso nomearam seu principal estádio assim.

Cerro Porteño4

Torcida do Cerro Portenho. Uma das faixas é do “Km 9”, acima do ‘como’ na placa de publicidade.

……………

O Defensores do Chaco já abrigou 6 finais de Libertadores da América. Dessas, o Olímpia venceu 3 e foi vice em mais 3.

(Atualização: Escrevi esse texto em 2013. Após esse emeio ser publicado, times paraguaios chegaram duas vezes consecutivas a final da Libertadores, e perderam ambas.

No mesmo ano de 2013 mais uma vez o Olímpia foi finalista, e no Defensores bateu o Atlético Mineiro por 2×0. Porém no Mineirão o Galo devolveu o placar e foi campeão nos pênaltis.

Em 2014 o pequeno Nacional de Assunção – que é exatamente o time que fui ver jogar ‘in loco’ no Defensores, 11/05/13 – surpreendeu a todos e também chegou a final, se tornando então o 2º clube do Paraguai a atingir esse feito na história.

Até então o Nacional nunca havia passado da primeira fase. As 7 vezes anteriores que um time paraguaio chegara a finalíssima foi sempre o mesmo time, o Olímpia. Porém o Nacional de Assunção acabou derrotado pelo São Lourenço da Argentina.

Tudo somado, 2 clubes paraguaios já disputaram nada menos que 8 finais de Libertadores no mítico Defensores do Chaco. O Olímpia participou de 7 delas, venceu 3. Escrevo em abril de 2015.

O Nacional foi vice uma vez. Não é pouco pra um clube pequeno de um país que ele mesmo já é pequeno e pobre. O Cerro Portenho, arqui-rival do Olímpia e 2º grande paraguaio, nunca sequer chegou a disputar uma final.)

Grande só tem 1 - Olímpia campeão mundial

Sede do Olímpia em Assunção. Uma enorme faixa lembra a todos que ele foi ‘Campeão do Mundo‘ em 1979.

(Volta o texto original de 2013. Eu dizia que o Olímpia é tri-campeão da América.)

As outras 3 finais (agora 5) resultaram em derrotas pros clubes paraguaios.

Também já houveram ali 2 decisões de Copa América, entre seleções.

Na mais recente, o Brasil humilhou o Uruguai por incontestáveis 3×0 e foi campeão em 1999.

Em 1979 pra delírio da massa o Paraguai bateu ali o Chile pelos mesmos 3×0, depois perderia por 1×0 em Santiago, forçando jogo-extra em Buenos Aires.

Algumas edições desse torneio não tinham sede fixa, por isso a final em 3 nações distintas sendo a partida que decidiu o título em campo neutro.

O jogo na Argentina acabou sem abertura de placar. Assim o Paraguai foi campeão pelo melhor saldo, vencendo o torneio pela 2ª vez. De lá pra cá não ganhou mais.

Olímpia campeão mundial e tri americano

Detalhe do boné do Olímpia que comprei num camelô em frente o estádio. Repare na posição das estrelas em relação ao escudo. São as 3 Libertadores e um Mundial.

Com 8 finais de Libertadores e mais 2 de Copa América no currículo podemos classificar o Defensores como um dos mais lendários palcos do futebol americano e mundial.

Outra coisa: lhes disse que houve forte imigração alemã pro Paraguai, afora a base formadora espanhola é a única etnia europeia lá presente.

O bairro Saxônia, um dos mais ricos da capital, reflete isso. Em castelhano se escreve Sajonia e se diz “Sarrônia”.

………….

Agora que já falamos do estádio em si, posso começar a lhes contar sobre minha visita a ele:

25 pagantes - GH1S

Agora veja a pecha que a torcida do Olímpia fez com o escudo do arqui-rival Cerro Portenho. Há 4 pontos de interrogação (‘?’) no lugar das estrelas, significando que não se sabe quando o Cerro ganhará um titulo internacional. A palavra ‘Putos’ substituiu ‘Portenho‘. Sobre o número 25 explico abaixo.

Presenciei Nacional x Cerro Porteño. Alguém poderia pensar que se trata de um grande clássico sul-americano, talvez pelo mata-mata da Libertadores.

Quem dera. As coisas não são tão simples assim. Estamos no Paraguai, afinal. E por isso:

Foi um jogo “falsificado”. Os dois times são cópias de outros clubes maiores e mais famosos.

O Nacional é um time pequeno, de Assunção, cópia exata do Nacional de Montevidéu-Uruguai. Até o escudo é ‘xerocado’.

E o Cerro também não é o que aparenta. Não é o Cerro de Assunção, segundo maior clube do país, atrás apenas do multi-campeão Olímpia.

O Cerro Porteño que vi jogar é sediado em Presidente Franco, município que fica na região metropolitana de Cidade do Leste, na fronteira com Foz do Iguaçu-Brasil.

Nacional do Paraguai - 'falsificado'

Volte a foto do ingresso e veja o jogo que assisti: o Clube Nacional é o mandante. Não, não é o Nacional do Uruguai. É uma cópia ‘falsificada‘ de Assunção mesmo.

Comentemos as imagens, espalhadas pela página, identifique pela legenda.

Nessa mensagem as únicas fotos que são clicadas por mim são as que mostram o ingresso de Nacional x Cerro de Franco, o boné e a sede do Olímpia e as pichações de torcidas.

As que retratam o estádio (tanto vazio visto de cima quanto com as torcidas nas arquibancadas), o ingresso de Olímpia x Atlético-MG e as relativas aos títulos olimpianos foram puxadas da rede.

Alias quando haviam créditos impressos eles foram mantidos.

– O Estádio Defensores do Chaco (baixada da internet)

– Clube Nacional de Assunção, o mandante, “falsificado”

– Cerro Porteño do interior, o visitante, igualmente “falsificado”

Cerro Porteño do interior - 'falsificado'

E esse é o visitante: Não, não é o Cerro de Assunção, um dos grandes do Paraguai. Mas uma cópia do interiorzão. Outro time ‘falsificado’. Duas cópias se enfrentando??? Só poderia ser no Paraguai . . .

– Eis abaixo o escudo do Clube Nacional do Uruguai, o original, a quem o Nacional de Assunção copiou

– E na sequência o Cerro Porteño da capital, o original, a quem o Cerro de Franco copiou.

Um clube “falsificado” vá lá, mas olhe, ir numa partida em que os dois protagonistas são cópias de outros mais vitoriosos:

Isso só poderia ser no Paraguai, não é mesmo? É mole ou quer mais??????

Sintetizou com perfeição o país. As dimensões se alinharam, se você sabe o que é isso.

……….

Nacional do Uruguai - original

Nacional do Uruguai – o  original copiado no Paraguai

Não é um juízo de valor, que fique bem claro. Eu Amo o Paraguai, do fundo de meu coração.

E não por outro motivo conheço a fundo suas duas maiores cidades, pois além dessa viagem a Assunção já estive várias vezes na Cidade do Leste.

Nunca fui a Buenos Aires e nem ao Uruguai, por exemplo, mas já fui muitas vezes ao Paraguai, capital e interior. Isso é Amor por uma Nação, e eu Amo o Paraguai.

Não é uma crítica, repito.

Ainda assim, o Paraguai é como é. Não deixo de Amá-lo, mas também não deixo de ver que lá se falsificam coisas. É fato.

Cerro Porteño da capital - original

Cerro Porteño de Assunção – o original, também copiado naquele jogo.

Inclusive se falsificam times de futebol, fui num jogo falsificado, que pelo título você poderia pensar se tratar de grande clássico sul-americano.

Que nada, amigo. Bem vindo ao Paraguai.

…………..

Quanto a partida em si, o Nacional foi infinitamente superior e enfiou 4×1 fácil, fácil. Poderia ter sido muito mais. Só um time jogou.

Além dos 4 que marcou, perdeu inúmeras chances claríssimas, antes e depois de ter construído a goleada.

O Cerro só deu dois chutes certos ao gol em toda a partida, quando estava 2×0 o cara pegou da intermediária e deu um petardo no ângulo, indefensável, diminuindo pra 2×1.

25 pagantes!!!!!!

Mas a torcida do Olímpia só faz o emblema do Cerro assim: com o número ’25’ no lugar da sigla ‘CCP’. E por quê disso???

E quando já marcava 4×1 houve mais um lance perigoso que o goleiro adversário catou.

É que a diferença de nível é muito grande. O Nacional vem fazendo campanha irretocável, em 13 partidas foram 11 vitórias, 1 empate e somente 1 derrota.

Só por um milagre o título paraguaio lhe escapa esse ano, e será seu 9º. Já o Cerro de Franco está somente na sua segunda participação na 1ª divisão, em toda a história.

(Atualização: as previsões se confirmaram. De fato o Nacional foi campeão paraguaio pela 9ª vez em 2013.

E mantendo a boa fase foi a finalíssima da Libertadores em 2014, infelizmente batido pelo São Lourenço argentino.

Já o Cerro de Presidente Franco foi mesmo rebaixado. Em 2014 nova queda, e agora – abr.15 é a data da postagem – ele disputa a 3ª divisão paraguaia. Realmente o 4×1 no jogo que vi representou bem a diferença de nível entre os clubes.)

dia macabro

É simples: num jogo em 2008 o Cerro só levou 25 pagantes numa partida em casa. A vergonha ficou conhecida como “Dia Nacional do Abandono“.

…………

Mesmo com o Nacional sendo de Assunção e caminhando a passos larguíssimos pra volta olímpica, o Defensores do Chaco estava deserto.

Nota importante: Não confunda o que estou relatando aqui com o jornal ao lado.

Estou descrevendo o jogo que vi no Estádio Defensores do Chaco em 2013 entre Nacional e Cerro de Presidente Franco, não é o Cerro de Assunção, portanto.

É normal os jogos do Nacional estarem vazios, pois sua torcida é pequena. Isso não é capa do jornal, assim como não e capa do jornal quando os jogos do Paraná Clube ou da Portuguesa-SP ficam vazios.

Já o jornal fala de uma partida em estádio distinto, com times distintos, ocorrida quase 5 anos antes: Cerro Portenho da capital, o original x 12 de Outubro, em junho de 2008, no Estádio ‘La Olla’, de propriedade do Cerro.

Esse clube é de massa, daí sim ser a manchete que ele só levou 25 pessoas pra vê-lo jogar.

……….

Bem esclarecido isso, que o texto nesse trecho e a foto logo ao lado tratam de jogos diferentes (abaixo eu falo do jogo de 2008 que só teve 25 pessoas de público, mas por hora ainda não), voltemos a falar de como estava o Defensores do Chaco no dia que eu estive nele.

Assunção Paraguai buso jardineira decorado pintado bicudo motor saltado 3 três estrelas merced vidro preto bege faixa azul vermelho linha numerada número itinerário adesivo vidro placa

Jardineira em Assunção. Não relacionado a futebol, só pra ilustrar.

Tem capacidade pra mais de 40 mil pessoas, mas haviam cerca de somente 200 pessoas no estádio.

Eu fiquei na curva norte, a dos visitantes. Além de mim, haviam outras 10 pessoas em todo o setor.

Não é modo de falar, quando entrei haviam mais 3 – em toda a curva norte, ressaltando de novo -, tanto que se ouvia os grilos cantarem (literalmente, pois já era noite e não havia nenhum ser humano por ali).

Depois chegaram mais umas 6 ou 7. E nenhum deles era torcedor do Cerro, alias não havia um torcedor sequer do time visitante, suas torcidas organizadas não se animaram a fazer caravana, cruzar o país, pra incentivar o time, talvez já prevendo o que aconteceria.

não é ovni, é libertadores

Um ovni ??? Não, é a Taça da Libertadores da América, mané”. O Olímpia, que tem 3 delas, ensina ao arqui-rival Cerro o que é esse objeto, que ele desconhece.

Só que os outros pouquíssimos gatos pingados que ocuparam o setor de visitantes tampouco eram torcedores do Nacional.

Pois se o fossem iriam pro lado oposto, onde se concentraram os não muitos ‘hinchas’ do Nacional.

Provavelmente moram nas proximidades do Defensores e gostam de futebol, então foram ver a partida mesmo sem torcer por qualquer dos clubes, pra distrair um pouco a cabeça.

A reta oposta estava fechada, sequer foram vendidos ingressos pra ela.

Pois não compensava abrir mais esse setor – o que necessitaria de funcionários pra operarem os portões na entrada e na saída, policiais pra revista, etc – posto que os estádio ficou as moscas.

Na curva sul, onde ficaram as torcidas organizadas do Nacional, haviam cerca de 100 pessoas, e mais umas 100 no setor de tribunas, mais caro, o dobro do preço. Esses 200 eram torcedores do Nacional. As torcidas organizadas ficam na curva sul, atrás do gol oposto de onde eu estava. 

Em ambas as curvas não há assentos, você senta no concreto ou no caso dos barra-bravas assiste o jogo de pé. O torcedor não-organizado fica nas retas. A principal é coberta e com cadeiras confortáveis, mais cara.

Atualização: sempre que possível eu vou estádios quando viajo. Em 2012 estive no Independência em BH, e em 15 na V. Belmiro de Santos.

Nos outros países é o mesmo: na Colômbia eu vi duas partidas no local em que foram realizadas, uma em Bogotá outra em Medelím. Como ambas foram os clássicos das cidades (Milionários x Santa Fé e Nacional x Independente respectivamente) os estádios estavam cheios na capacidade máxima.

Retificando: a memória me traiu e escrevi uma inverdade acima. Em Bogotá o jogo foi domingo e sem restrições a torcida, então realmente as arquibancadas lotaram, ou muito perto disso.

Mas em Medelím houveram sérios problemas de violência em jogo anterior, por isso as autoridades impuseram diversas restrições as torcidas. Ademais a partida foi em dia útil no meio da tarde. Assim o Atanásio Girardot não estava lotado, longe disso: foram 11 mil espectadores.

Desculpe pela falha. Leia aqui o relato completo de como vi o futebol colombiano, onde conto melhor minha ida a esses dois estádios.

olimpia campeao mundial

Cartaz comemorativo a conquista do mundial de 1979 pelo Olímpia. Veja que a torcida alvinegra risca no meio a letra ‘c’, por ser a inicial de seu arqui-rival.

Em Medelím eu fiquei na reta principal, coberta, com cadeira confortável e mais cara. Nos serviram até um lanchinho, um sanduíche de queijo e presunto.

Em Bogotá, em Assunção e também agora em Valparaíso-Chile eu fiquei nas curvas atrás do gol, o setor popular.

De forma que em minhas andanças pela América até nos campos de futebol eu já presenciei a realidade de todas as classes sociais.

Na Colômbia as arquibancadas estavam lotadas – ou pelo menos com um público razoável, o setor popular certamente encheu – pois os dois grandes se enfrentaram, no Paraguai desertas uma vez que eram dois times pequenos.

No Chile foi o intermediário. Era o time grande da cidade, o Santiago Wanderers contra um pequeno da capital, o Palestino.

Apesar do nome o Wanderers tem sede em Valparaíso [clique nessa ligação pra ver a matéria sobre o futebol chileno em que eu conto o porque dessa distopia no nome]

A curva norte, setor popular dos mandantes, encheu. As retas tinham pouca gente, e a curva sul deveria abrigar os visitantes. Se houvesse torcida visitante. Como ninguém veio de Santiago apoiar o Palestino o setor sequer foi aberto.

Cerro Porteño2

Cerro Portenho. Foto puxada da rede.

Como no Paraguai, só que nesse segundo caso foi a reta oposta que ficou fechada. De qualquer forma houve um setor inteiro que nem mesmo teve os portões liberados por falta de necessidade.

Deixa eu voltar a contar minha experiência no Defensores do Chaco, Saxônia, Assunção, 11 de maio de 13.

Os preços, alias, eram: 20 mil guaranis (10 reais) pras curvas, lá chamada “gradería”, por ficar atrás da grade muito alta que protege os goleiros de objetos arremessados pela torcida rival.

E 40 mil guaranis (20 reais) pra tribuna, no termo local a “preferencial”.

Eu não resisto a mais uma comparação. Dois anos depois fui a um jogo no Chile. O ingresso mais barato, a geral atrás do gol, era o dobro do preço, 20 reais. E era exatamente o mesmo setor que fiquei no Paraguai. Por aí você calcula a diferença de renda entre os dois países.

………….

De volta ao Defensores. A grade é realmente bem alta. E é necessário. Episódios de violência são frequentes no futebol paraguaio.

Olímpia2

Torcida do Olímpia. Imagem igualmente baixada da net, alias os créditos estão mantidos como sempre.

Paradoxalmente, o mictório do banheiro é de louça, coisa que nunca vi no Brasil. A maioria das Mulheres nunca entrou num banheiro público masculino, e certamente não num estádio.

Então vamos explicar pra que elas entendam essa diferença entre os estádios do Paraguai e do Brasil.

Mictório é, obviamente, o local apropriado pra que nós Homens urinemos sem precisamos entrar na ‘casinha’, onde há o ‘trono’.

Os mictórios de aeroportos, centros comerciais, etc, são de louça e individuais, uma bacia pendurada na parede.

Sendo assim, ele se despedaça com um chute, e ao cair em pedaços vira dois tipos de arma: pelos cacos serem de cerâmica são pesados, podem ser arremessados como se fossem uma pedra, e também pontiagudos, logo podem ser usados a guisa de uma faca.

titulos x interrogacao

As estrelas sobre o escudo olimpiano indicam 1 mundial (dourada) e 3 Libertadores (prateadas). Sobre o rival os torcedores alvi-negros colocam interrogações, querendo dizer que não se sabe se um dia o Cerro ganhará um título internacional.

Por esse motivo, como eu disse, mictórios individuais de louça só são usados em aeroportos, centros de compras, locais pretensamente mais civilizados resumindo.

Em estádios, nem pensar. Nos campos de futebol de nosso país, os mictórios são coletivos e de ferro ou de tijolo.

Parecidos com baias onde equinos e bovinos bebem água, mas servem pra nós humanos mijarmos.

Sendo de material resistente, eles não se despedaçam, e por isso são assim nos estádios brasileiros pra não poderem ser usados como armas.

No Chile o mictório também era de metal, ou seja a prova de vandalismo.Alias mesmo sendo muito rico paradoxalmente o Chile tem um clima muito violento, sabem?

Há uma tensão permanente no ar. No Centro de Santiago e Valparaíso os ‘caveirões’ da polícia, que são maiores que no Brasil, verdadeiros tanques de combate militar, ficam a postos o tempo todo mesmo de dia, dando uma impressão de guerra a cidade.

Ao redor do estádio em Valparaíso vários caveirões também marcavam presença, gerando um ar sombrio, especialmente quando entram em movimento, o ronco de seus motores é verdadeiramente tenebroso.

Nessa mensagem falei melhor da violência no Chile, suas causas e consequências.

………….

Falei tudo isso pra chegar no seguinte ponto. Mesmo sendo muito pobre, o Paraguai não é muito violento. Ao contrário, é o mais calmo de todos os países que já estive.

Afora os EUA que eu fui há duas décadas, visitei recentemente Colômbia, México, Paraguai, República Dominicana e Chile. Os mais pobres disparado são Paraguai e Rep. Dominicana, ambos totalmente nem de 3º mas de 4º mundo mesmo.

O Chile é o mais rico, inclusive mais que o Brasil. México e Colômbia são intermediários, bem mais pobres que o Brasil e muito mais que o Chile.

mosaico

Bonito mosaico olimpiano no Defensores.

Mas, paradoxalmente talvez, o Paraguai é o menos violento de todos.

Na Colômbia, México, Rep. Dominicana e Chile há o tempo todo soldados do exército nas ruas, e/ou de uma polícia bastante militarizada, sempre espelhando o exército.

No Paraguai não. Não há Homens armados em comboios macabros cortando as ruas de Assunção. Claro que bancos, ministérios, embaixadas, são fortemente protegidos com seguranças armados com escopetas e metralhadoras.

Mas nas ruas a polícia não é fortemente militarizada e armada até os dentes.

Inclusive as viaturas da polícia paraguaia são brancas. Não é preciso ser iniciado na Ciência Oculta pra entender que a cor reflete a vibração, o estado de espírito de algo, e por isso as tropas de elite das polícias são sempre escuras, negras ou verde-olivas.

No Paraguai, repito, as viaturas da polícia nacional são brancas e não há ‘tropas de elite’ circulando o tempo todo pra demarcar território. Estabelecido está o contraste entre essa nação e todas as outras latino-americanas que já visitei.

.…

horas boas ruins Cerro portenho porteño assunção paraguai esporte futebol time clube san lorenzo z/l são lourenço grafite mural pichação azul vermelha praça comando cogumelo plaza

Nas horas boas e ruins nós vamos te apoiar”: mural da torcida do Cerro Portenho em São Lourenço, Zona Leste metropolitana de Assunção

Apesar de no geral ser um país calmo, no futebol o Paraguai é violento, como diversas outras nações incluso a nossa.

As barra-bravas de Olímpia, Cerro e outros muitas vezes agem com selvageria indescritível, é fato.

Mas no Defensores do Chaco, inexplicavelmente, tinha o mictório “chique”, de louça e individual, passível de vandalismo, e de se transformar numa arma.

Ainda assim, é dessa forma. Relato pra vocês o que vi.

Agora voltamos as arquibancadas, que estavam vazias. Por que o time que vai ser campeão e vem passando por todos como um rolo compressor só leva 200 pessoas ao campo? Por 2 motivos:

O Nacional é um clube pequeno, apenas a 5ª maior torcida de Assunção.

Olímpia e Cerro Porteño (o original e não esse que vi jogar), ambos dali de Assunção é claro, são os clubes da massa, realmente populares, e dividem entre si 90% da torcida não apenas na capital mas também de todo país.

Depois vem o Guarani, também de Assunção, e cheguei a ver gente com a camisa dele nas ruas, além de pichações de sua torcida nos muros. O Paraguai é a Nação Guarani, e se orgulha muito disso. O clube de futebol reflete esse Espírito.

 Na sequência, há o Libertad, novamente de Assunção e alvi-negro como o Olímpia.

horas boas ruins Cerro portenho porteño assunção paraguai esporte futebol time clube san lorenzo z/l são lourenço grafite mural pichação azul vermelha praça comando plaza

Diz a torcida ‘La Plaza’: “São Lourenço (Z/L) é do Cerro”

Só depois sobra um espacinho pro Nacional, que não é muito, compreensivelmente.

Até porque os paraguaios são hiper-nacionalistas, pela sua história de guerras – em Assunção inteira o pavilhão pátrio está por toda a parte, nas mansões, na classe média e nas favelas.

Falo mais sobre isso, ricamente ilustrado, em texto a parte.

Assim sendo, nada mais natural que haja poucos deles que se disponham a torcer por um clube que é xerox de outro estrangeiro. E não qualquer nação estrangeira, o Uruguai era parte da Tríplice Aliança que retalhou o Paraguai na “Grande Guerra” de 1870.

Então a torcida do Nacional é mesmo pequena em Assunção. Mas somando-se e agravando esse fator, há um outro, que é o local escolhido pra abrigar a partida:

O Nacional tem seu próprio estádio, pequeno, localizado no bairro em que sua torcida se concentra, um verdadeiro alçapão.

Levar o jogo pro Defensores foi uma decisão política, proposital, pra prejudicá-lo, jogar em “campo neutro” e quem sabe perder pontos, pra talvez reacender a esperança dos clubes grandes.

Tanto é que foi a primeira vez na história que o encontro entre essas duas equipes se deu no maior estádio do país. Bem, se a intenção era essa, soçobrou espetacularmente.

Mesmo com o colossal Defensores absolutamente vazio, entregue as moscas – e aos grilos -, o Nacional faturou fácil mais 3 pontos, e se consolida cada vez mais como virtual campeão paraguaio.

……………

guerra de torcidas Cerro x Olímpia

Daqui pra baixo é só pichações de guerra de torcidas: L.B.D.O. é a Torcida Organizada do Olímpia, em português. Ultras também é alvi-negro. Já o ‘Comando’ é a galera do Cerro Portenho. Veja que eles escreveram ‘Putos’ em azul sobre a sigla em branco.

Pra vocês dimensionarem, é o mesmo que o Jota Malucelli jogasse contra o Irati no Couto Pereira.

Ou a Portuguesa enfrentasse o Penapolense no Estádio do Morumbi. Os gigantes ficariam parecendo cidades-fantasmas.

Se o Nacional ratificar a faixa de campeão, a vestirá pela 9ª vez na história, repetindo. Acima dele, os maiores vencedores do campeonato paraguaio são:

1) Olímpia (Assunção), 39 vezes, único hexa-campeão.

2) Cerro Porteño (Assunção), 29 títulos

3) Libertad (Assunção), 16 campeonatos, atual campeão

4) Guarani (Assunção), 10 conquistas; e chegamos ao

5) Nacional (Assunção), por hora 8 canecos.

Atualização e notas. O Paraguai, como quase todos os vizinhos hispano-falantes, a partir do meio da década passada tem dois campeonatos nacionais por ano, o Abertura e o Fechamento.

Escrevi esse texto em maio de 2013, o Libertad era o então detentor da faixa, tinha vencido o Fechamento de 12. A Abertura de 13 foi mesmo pro Nacional, está com 9.

O Fechamento de 13 foi ganho invicto pelo Cerro Portenho, inteirou 30 títulos. O Libertad está mesmo em grande fase e é o atual bi-campeão, pois triunfou nas duas disputas de 2014, Abertura e Fechamento.

poster

Pôster do Olímpia que foi o melhor time do planeta em 1979. Digo, da final entre América do Sul e Europa, já que os outros continentes só passaram a disputar o torneio em 2005.

Nos nossos vizinhos, como são um campeonato nacional no 1º semestre e outro no 2º, você pode ser bi-campeão num único ano, e mais uma vez aconteceu.

Assim o Libertad agora coleciona 18 troféus na sua sede.

O Olímpia foi hexa de 78 a 83, na época era só um torneio por ano. Ele estava mesmo inspirado na virada dos 70 pros 80, em 79 venceu a Libertadores e o Mundial.

Feito que é exaltado amplamente em toda sua indumentária, desde um painel gigante na sede até os bonés, adesivos e pichações nas ruas. Há mais duas Libertadores, 1990 e 2002.

Não perca a conta, que o Olímpia está só se aquecendo. Tem mais 4 títulos americanos: uma copa inter-americana (contra o campeão das Américas Central e do Norte), uma Super-Copa Sul-americana (competição antecessora e similar a atual Copa Sul-Americana).

E por duas vezes foi o campeão da Recopa Sul-Americana (disputada entre o vencedor da Libertadores e da outra competição continental que ocorre no segundo semestre, que já mudou de nome e formato várias vezes).

Em 1990 o Olímpia ganhou tanto a Libertadores (competição sul-americana do 1º semestre) quanto a Super-Copa (a disputa do 2º semestre).

Assim, pelas regras da Recopa ele garantiu as duas vagas da decisão, e portanto deveria disputar o título contra ele mesmo. Obviamente então foi campeão direto, poupando a finalíssima, vencida por antecipação.

guerra de torcidas Cerro x Olímpia1

Mesmo muro da foto acima a direita.

Tudo somado: Olímpia, maior vencedor do torneio nacional, único hexa, campeão mundial, tri-campeão americano, e mais 4 títulos continentais.

Único clube paraguaio a vencer uma disputa internacional, e no atacado, são 8 títulos, inclusive a glória suprema de ser o maior clube do planeta num ano. Nada mal, não?

Especialmente quando comparado ao arqui-rival Cerro Portenho.

Nunca ganhou um torneio internacional, alias na Libertadores ele sequer chegou a uma final. E a nível local seu recorde são dois tri-campeonatos, metade do hexa olimpiano.

………….

Credenciando o alvi-negro a ser, sem comparação possível, o maior clube da história paraguaia. A parte disso, vamos continuar analisando o campeonato nacional.

Como podem ver, só dá os times da capital. É assim mesmo, o campeonato paraguaio é “nacional” na teoria, na prática é o torneio metropolitano da Grande Assunção.

Dos 12 clubes que disputam esse ano (2013), apenas 2 são do interior, um deles vi jogar. Os outros 10 são da capital.

Sendo 3 dos subúrbios metropolitanos que ficam no Departamento (estado) Central e os demais 7 do Distrito Capital (Distrito Federal), o município de Assunção propriamente dito.

Um campeonato nacional que na prática é um campeonato suburbano. Na Argentina e no Uruguai é exatamente igual.

Atualização: em 2015 a hegemonia da capital é ainda mais pronunciada. Das 12 agremiações na disputa 11 são da Grande Assunção, apenas 1 solitária do interior.

defensores do chaco

Mais uma bela tomada do Defensores. Ao fundo a linha de prédios do Centro.

Desses 7 são do município de Assunção mesmo, o Distrito Capital (D.C.), o DF deles. E 4 dos subúrbios metropolitanos da Grande Assunção.

Um dos times metropolitanos que está na primeira é o São Lourenço.

Esse não é cópia do São Lourenço argentino. Pois há um município na Zona Leste metropolitana de Assunção que se chama São Lourenço. Estive lá em 2013, o clube local estava na 2ª divisão.

Haviam pichações pela cidade “São Lourenço na 1ª, é possível, eu acredito.” A Fé valeu. Em 2014 o São Lourenço foi campeão paraguaio da 2ª divisão, e agora quando lhes escrevo essas linhas (abr.15) está de fato na primeirona. Sonho realizado.

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Olímpia e Cerro são os clubes da massa. A imensa maioria de pessoas que ostentavam camisas de futebol era de um deles. Entretanto, vi alguns com a camisa do Guarani, o Guarani lá de Assunção evidente, e não o de Campinas-SP.

guerra de torcidas Cerro x Olímpia3

Ultras Sul (do Olímpia) manda !!! “, alguém escreveu. O ‘Comando’ cerrista discorda, é óbvio.

Nas pichações de muro, o mesmo se repetiu. Quase tudo dos dois grandes, mas vi também do Guarani, cuja torcida de chama “Raça” (‘La Raza’ no original).

Se vi de outros clubes, não soube decodificar. Isso me refiro ao município de Assunção, o D.C. .

Nos subúrbios localizados fora do Distrito Federal, igualmente Cerro e Olímpia tem 90% da torcida (já disse que os municípios da região metropolitana na prática são bairros da cidade que é a Grande Assunção).

A única exceção, pelo que pude notar, é Luque, na Zona Norte – nesse município está localizado o Aeroporto Internacional e também a sede da Confederação Sulamericana de Futebol (CSF ou Conmebol).

Alias a Conmebol é bem próxima do Aeroporto, na Autopista que liga esse ao Centro de Assunção.

Voltando a situação dos times da Grande Assunção. Fui nos municípios de São Lourenço (San Lorenzo), Fernando de la Mora (ambos na Zona Leste), Vila (Villa, em espanhol) Elisa, Lambaré (ambos na Zona Sul) e Luque (como já dito, na Zona Norte).

Em todos os grandes dominam incontestavelmente, exceto em Luque. Ali Olímpia e Cerro ainda ficam com a maior fatia do bolo, é claro, mas sobra algum espaço pro Sportivo Luqueño.

Vi várias pichações de sua torcida, algumas em guarani, e no Centro de Luque algumas pessoas com a camisa do time. O símbolo é um porco.

Especialmente ao redor do estádio, por onde eu também passei, há nos carros e casas adesivos, e também grafites nos muros, desse animal com a camisa azul e amarela do clube local.

De todos os times suburbanos certamente é o maior. O Esportivo Luquenho (na grafia em português) já foi campeão paraguaio 2 vezes.

Não é pouco, pois os grandes concentram quase todos os títulos. Passei a tabela acima dos 5 maiores vencedores. Todos são do município de Assunção (D.C.).

guerra de torcidas Cerro x Olímpia2

Em azul a torcida do Cerro escreveu 1912, ano de fundação do clube. De preto os olimpianos alteraram pra 1902, já que seu clube é 10 anos mais velho. Ao lado: “Ultra Sul V.A.” e abaixo U.S.V.A. . Pois estamos no bairro da ‘Vila Aurélia’, Zona Leste de Assunção. Note que o ‘Sul’ dos Ultras não se refere a Zona Sul da cidade, mas a Curva Sul do estádio. Seja como for, a torcida do Cerro o chama de ‘Putos’ por cima.

Afora eles, o Sol da América, também do D.C., tem 2 conquistas, o Luquenho já vestiu a faixa 2 vezes, é da Grande Assunção como disse.

E fechando a galeria de honra dos que já ganharam o torneio da 1ª divisão ainda temos o Presidente Hayes, também de um subúrbio metropolitano da capital, que já deu uma volta olímpica.

Nunca um time do interior foi campeão, como vemos. Todos foram pra Grande Assunção, sendo 108 taças pro Distrito Capital e 3 pra região metropolitana. Dessas 2 são do Sportivo Luqueño.

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Vi um número razoável de camisas dos clubes brasileiros. É a primeira vez que isso acontece.

Na Colômbia e no México há muita gente andando com adereços da seleção brasileira (como há no mundo todo), mas de times não.

No Chile vi um rapaz com a camisa do Atlético Mineiro, mas ele é brasileiro. Não vi chilenos que torcem pra time brasileiros, repetindo o que já ocorrera em terras mexi-colombianas.

No Paraguai é diferente. Presenciei vários com indumentárias dos grandes de São Paulo, Belo Horizonte-MG e Porto Alegre-RS. O futebol brasileiro é muito visto lá, a Globo passa na TV a cabo, em português mesmo.

Quando cheguei ao hotel no fim da tarde de domingo, o porteiro acompanhava a vitória do Corinthians sobre o Santos na primeira final do campeonato paulista (de 2013, lembre-se).

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Agora podemos falar da rivalidade que move o país: o eterno confronto entre Cerro Porteño (“O Ciclone”, ou se preferir “O Furacão”) e Olímpia (“O Decano” ou “Vovô” por ser o mais velho e também “O Rei de Copas”, já que possui mais troféus).

Esse é o “Super-Clássico”, a disputa que faz o Paraguai parar. Veja o desenho dos símbolos dos times se peitando. 4 fotos que mostram as torcidas nas arquibancadas, o Cerro rubro-celeste (lá eles dizem azul-grená, mas tá mais pra vermelho que grená) e o Olímpia alvi-negro. Puxei elas da rede.

guerra de torcidas Olímpia x Cerro

A L.B.O. (“La Barra del Olímpia”) pichou primeiro. “La Plaza”, a torcida do Cerro, profanou.

O Defensores do Chaco é público, e portanto casa de ambos. Os dois tem seus próprios estádios, pequenos, os “alçapões”, em que mandam os jogos contra os times do interior do Paraguai.

Os clássicos, entre si e contra os médios de Assunção, e as partidas internacionais são todas no Defensores.

Ali, a Curva Norte (“Gradería Norte”) é da torcida do Cerro, e a Curva Sul do Olímpia. Uma facção da torcida olimpiana se denomina ‘Ultras Sul’ (‘Sur’ em espanhol) justamente por isso.

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Assunção é inteira pichada pelas torcidas de Cerro e Olímpia. Inteira, de ponta a ponta, Centro e periferia, Distrito Federal e Departamento Central, bairros ricos, remediados e favelas. A disputa é muro a muro.

Só há dois tipos de pichação no Paraguai: de futebol e políticas.

ingresso

Eis o ingresso da final da Libertadores/13, entre Olímpia e Galo. Podem ver que na hora de comprar o torcedor precisava informar nome e RG, pra evitar a ação de cambistas.

As políticas, tentando te convencer a votar em alguém, ou então da “juventude comunista”, dos anarquistas, etc, são muito comuns, mas só no Centro.

Nos bairros, sejam de classe média ou quebrada, não existem.

Mandei as fotos delas na mensagem que abriu a série, cuja ligação está no topo da página, e comentamos mais da confusão política nessa nação em outros textos.

Já as pichações de torcida estão pela cidade inteira, repetindo. Como podem ver, dos muros ao teto do ônibus nada escapa.

Na Colômbia é igual, há pichações de futebol por toda parte, Centro, classe média, periferia e favelas. No Chile no subúrbio em toda parte mas no Centro não.

E no México quase não há pichações relacionadas ao futebol, vejam vocês. Os mexicanos adoram futebol, sim, mas curiosamente não picham muros com esse tema – mas pra outros assuntos a cidade é inteira riscada.

Já mandei a ligação pra matéria sobre o futebol no Chile e México acima. Breve jogo no ar também o que escrevi da Colômbia, e aí ativo a ligação aqui. Então tudo ficará claro, incluso ricamente ilustrado. 

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De volta ao Paraguai. Pichações sobre futebol são onipresentes. Mas praticamente não existe outro tipo de pichação no Paraguai, aquela “comum”, de gangues de rua. Digo, há um pouco, mas bem raro. De tão insignificante, nem me ocupei de fotografar.

No Brasil, México, EUA, Rep. Dominicana, Chile e Colômbia é bem diferente, há muita pichação “comum”. Sendo que no Brasil, Chile e Colômbia há pichação de gangues e também de futebol. Ambos os modais convivem e disputam espaço nos muros.

Olímpia assunção paraguai estádio esporte futebol camisas camelô alvi negro preto branco time clube jipe campeão mundo

Outra foto da sede do Olímpia, na Zona Central de Assunção. Veja o camelô com as camisas expostas no varal. Foi dele que eu comprei o boné.

Já no México, EUA e República Dominicana há muita pichação de gangues mas de futebol não.

Entretanto, o Paraguai é exatamente o inverso desses últimos 3: pichação de gangues quase nada, de futebol por toda parte. Na Argentina e Uruguai é igual ao Paraguai.

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VOU DE NOVO PRO JAPÃO”: A MASSA ALVI-NEGRA CANTA . . . –

Não sei qual dos dois (Olímpia ou Cerro) tem maior torcida. A disputa é acirrada, palmo a palmo. Nos 4 dias que estive lá, vi dezenas de pessoas com camisas e adesivos de ambos, em todas as classes sociais.

Se em torcida a disputa está em aberto, em termos de títulos não há o que comparar. O Olímpia é infinitamente maior. Tem 10 títulos paraguaios a mais (isso em 2013; agora em 2015 são 9 de vantagem), só que isso é troco comparado com suas maiores conquistas:

Como já detalhei acima, são 3 Libertadores (79-90-02), e um Mundial, em 1979. O Cerro nunca ganhou um título internacional. Vide a charge: “pra você é tão estranho que até parece um disco voador. Mas não é, é o troféu da Libertadores. Agora repete: Li-ber-ta-do-res”.

Filma agora o boné que comprei em frente o estádio do Olímpia, o portal que há em sua entrada também foi devidamente clicado por mim. Voltemos ao boné: uma estrela dourada em cima, o título planetário, e 3 prateadas abaixo, as das conquistas continentais.

Por esse abismo entre as duas salas de troféus, a torcida do Olímpia criou 2 siglas, que repete ‘ad infinitum’:

GH1S: Grande Há 1 Somente, e

picho Olímpia teto do ônibus

Nem o teto dos ônibus urbanos de Assunção escapa da confusão. Esse aqui foi riscado pela torcida do Olímpia (L.B.O.) de São Lourenço, Zona Leste da Gde. Assunção.

7902: uma sigla numérica, abreviação de 79-90-02, os anos em que seu clube, o “único grande”, foi coroado melhor de toda a América.

Além disso eles fazem o emblema do arqui-rival Cerro com 4 pontos de interrogação (?):

Um acima e 3 abaixo, exatamente nos pontos onde no emblema do Olímpia estão as estrelas. Compare a foto do boné com essa do muro pichado que isso ficará claro.

paixão em preto-&-branco: eis o orgulho de um povo. no chile, como no paraguai

Mais uma atualização. Há uma similaridade entre o futebol no Paraguai e no Chile:

Em ambos há um clube alvi-negro que é o maior do país disparado em títulos, a nível local bem como internacional.

Olímpia e Colo-Colo são de longe os recordistas nacionais, tanto em número total de taças quanto no de voltas olímpicas consecutivas, o Olímpia é hexa, o Colo-colo tetra, feitos que só eles obtiveram.

assunção paraguai esporte futebol time clube grafite pichação bogotá Millionários Colômbia

Pichação da torcida do Milionários da Colômbia na Z/C de Assunção. 1ª cena que vi assim que desembarquei do ônibus urbano que me trouxe do aeroporto.

Quando se fala da Libertadores a supremacia só se amplia. São os únicos de seus países a ter essa taça em seu rol.

O Olímpia levou 3 (no Brasil só São Paulo e Santos o igualam, ninguém o supera, sempre lembrando que a data da postagem é abril de 15), um Mundial e mais 4 campeonatos continentais.

Nenhum outro clube paraguaio jamais ganhou um torneio internacional.

No Chile a distância não é tão grande. O Colo-Colo ganhou 1 Libertadores, e seu arqui-rival Universidade do Chile tem um troféu continental, a Copa Sul-Americana de 2011.

Ainda assim, obviamente a Libertadores é muito mais importante, é ela quem define o Campeão Americano de um ano.

E o Colo-Colo foi a única equipe do Chile a vencê-la. Tanto que em um de seus principais cânticos a torcida colo-colense brada a altos pulmões aos simpatizantes do Universidade: “A Libertadores não terás. Jamais, jamais, jamais”. No Paraguai a mesma situação se repete, como estamos vendo.

Em ambas as nações a torcida alvi-negra fala aos inimigos azuis: “Jamais terás. Não é Ovni, é a Taça de Campeão da América, mané !!! Desculpe, esqueci que você não sabe o que é isso.”

Vou de novo pro Japão”, canta a torcida olimpiana no Defensores. De fato eles já foram pra lá 3 vezes, em 1 voltaram com a taça suprema que os coroou melhor time do planeta naquele ano. A torcida cerrista nada responde. Pudera. Ela só conhece esse país asiático por fotos.

Camisa 12 Boca juniors pichação picho futebol esporte assunção paraguai Argentina

Agora a torcida Camisa 12 do Boca Juniors argentino é quem deixa sua marca no Paraguai. Em São Lourenço, Zona Leste da Gde. Assunção.

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Nessa imagem do logo do Cerro “modificado” pelos olimpianos há outros detalhes, e vamos decodificá-los agora.

A direita, vê o mantra “GH1S”, de cor prateada, mais fraca, mas com atenção percebe. Acima da sigla há 1 estrela dourada do Mundial e abaixo 3 prateadas das Libertadores.

Exatamente na mesma posição em que eles colocaram os (?) no escudo cerrista profanado ao lado, pra ficar claro o contraste.

“E vocês, o que têm????????”, pergunta o tempo todo a torcida do Olímpia ao Cerro.

O CCP, que significa “Club Cerro Porteño”, aqui é CCPUTOS. Essa parte é auto-explicativa. A palavra de baixo-calãoputos” quase não é utilizada no idioma português; no espanhol, entretanto, é de uso corrente, e tão ofensiva quanto sua variação feminina, “putas”.

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SÓ 25 PAGANTES???? O “DIA DA VERGONHA” CERRISTA PERDURARÁ PELA ETERNIDADE –

Há ainda uma outra referência, que aqueles que não são inteirados da história do futebol paraguaio não irão captar:o número 25 dentro do escudo. Um enigma, mas que será desvelado já:

Em 2008, o Cerro fez péssima campanha, e chegou a última rodada do campeonato paraguaio já eliminado de qualquer disputa, seja do título ou de vaga pra competições sul-americanas. Mas o pior estava por vir:

Jogando em casa, o Cerro enfrenta em 27 de junho de 2008 o 12 de Outubro. Bicho, vou falar baixinho pra não humilhar ainda mais:

assunção paraguai esporte futebol time clube grafite pichação montevidéu bolso Nacional Uruguai

De volta a Zona Central de Assunção, flagrei essa marca da torcida do Nacional de Montevidéu-Uruguai.

Tinha mais gente dentro do gramado que nas arquibancadas.

O Cerro, no dia mais negro de sua história, só conseguiu atrair 25 pagantes pra essa partida. Veja a capa do jornal .

Desde então, a torcida do Olímpia só se refere ao Cerro como “25 pagantes”, e só grafa seu escudo com o “25” no lugar do CCP.

Também pudera né meu irmão? Somando-se jogadores, arbitragem, comissões técnicas e reportagem, havia muito mais gente no gramado que fora dele.

Aí fica difícil se auto-denominar o “time do povo”. Lascou…..

………..

Lendo meu relato dá impressão que sou olimpiano, né? Mas eu não sou. Não torço pra ninguém nem no Brasil e muito menos em qualquer outro país.

O boné do clube alvi-negro eu não trouxe pra mim, mas de presente pra um colega que coleciona artigos raros de futebol.

Mas enfim: Não sou olimpiano, apenas eu relato os fatos.

Só imbecis discutem com números, e os números dizem que o Olímpia é disparado o maior time do Paraguai. O que você quer que eu faça ???

olimpia-x-cerro

Os arqui-rivais em mais uma batalha

Como diziam os adereços vendidos na frente do estádio, “Campeão do Mundo. 3 vezes campeão da América.

E vocês, o que têm? Grande mesmo, só tem 1….” Convenhamos: 25 pagantes é mesmo de amargar.

Tanto que a torcida alvi-negra todo 26 de junho faz um churrasco em sua sede pra celebrar mais um aniversário do “Dia Nacional do Abandono” cerrista.

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Agora, infelizmente nem sempre a rivalidade é resolvida com humor e com chistes. As vezes há confrontos violentíssimos, em que as torcidas cometem atos de selvageria indescritíveis.

É assim no Paraguai, é assim no Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, Uruguai, etc.

E hoje a coisa acalmou um pouco, mas entre as décadas de 70 e 90 houve muita violência na Europa por causa de jogo também, inclusive centenas de pessoas pagaram com a vida.

Esses acontecimentos lamentáveis existem, no Paraguai como em toda parte. Não vamos nos focar muito nessa parte negativa, está feito o registro e já basta.

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lambaré Z/s assunção paraguai elite classe média alta casa mansão árvore flores primavera violeta grade sobrado rua pedra irregular pavimentada céu azul limpo

Bairro Lambaré, de classe elevada, Z/S de Assunção. Essa e a próxima não se relacionam a futebol, é só pra ilustrar.

Nos países hispano-americanos, como é sabido, as torcidas organizadas não são tão “organizadas” como no Brasil.

Digo, há a cúpula da mesma, que organiza excursões, a bateria, etc. Esses estão sempre ali, em todos os jogos, em casa e fora.

Entretanto, a torcida não é constituída juridicamente, e portanto não há sócios, estatuto, carteirinha, mensalidade e nem uniforme.

Se você tá no barato, você chega perto deles e canta junto, mas não há qualquer vínculo formal.

Assim, mesmo a questão dos nomes é mais solta. A torcida do Olímpia se chama, bem, “Torcida do Olímpia” – em espanhol “La Barra de La O”. Nos muros se picha a sigla L.B.O. ou L.B.D.O.

Por não haver tanta rigidez pela ausência de sociedade formal, também se usam as denominações Máfia Negra, Ultras Sul e “A Quadrilha” (“La Pandilla”). São grupos de galeras menores, formados localmente nos bairros, que se juntam ao grupo principal da L.B.O. .

anoitece z/c assunção paraguai buso crepúsculo luzes tremida letreiro eletrônico

Anoitece em Assunção.

A organizada do Cerro é a “La Plaza”. Sabem que eu sempre traduzo tudo pro português, mas aqui terei que abrir exceção. A palavra ‘plaza’ é ‘praça’, obviamente.

Mas fica estranho dizer “A Praça”, deve haver algum significado simbólico, que eu não captei, então esse segue em espanhol. Outro nome usado é “Comando”.

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É isso aí. Dos “25 pagantes” ao “Clássico Falsificado”, eis um breve resumo do futebol paraguaio.

Deus proverá”

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