“A Mãe das Cidades”: Assunção, “Cidade-Jardim”,

padroeira do Paraguai SL

Nossa Senhora da Assunção, a Padroeira do Paraguai

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 24 de maio de 2013

Segue a série mostrando algumas coisas que observei no Paraguai.

A viagem foi em 2013, veja a data de publicação do emeio acima.

Todas as fotos da matéria são Grande Assunção.

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tranquilo entardecer Centro Velho

Tranquilo entardecer Centro Velho de Assunção

Assunção é conhecida como “A Mãe das Cidades”.                       

É muito antiga, de 1537, e dali partiram expedições que fundaram diversas outras cidades:

Como Buenos Aires, Correntes e Santa Fé (todas na Argentina), Santa Cruz da Serra na Bolívia e algumas no atual território brasileiro.

Que foram destruídas pelos bandeirantes na “Grande Marcha pra Oeste e pra Sul” que os luso-brasileiros empreenderam.

Na verdade Buenos Aires foi fundada um ano antes de Assunção, em 1536, por Pedro de Mendonça. Entretanto, durou apenas alguns meses.

sub-emprego

Trabalho infantil, cena comum: o país é muito, muito pobre.

Atacada por índios, foi destruída e despovoada em dezembro do mesmo ano, deixando de existir, ao menos como povoamento ocupado pela raça branca.

Pedro fugiu e se refugiou no interior do país.

No ano seguinte organizou uma expedição pra subir os rios, junto com João de Salazar e Espinosa. 

Ambos eram espanhóis, e seus nomes eram em castelhano obviamente, eu que aportuguesei.

nosso consulado ZC

Consulado brasileiro, embandeirado, na Zona Central de Assunção.

Assim em 1537, João de Salazar funda Nossa Senhora Santa Maria de Assunção, ou simplesmente Assunção.

Era costume dos conquistadores ibéricos ao fundarem uma cidade darem o primeiro nome católico e o segundo pagão.

São Paulo começou como ‘São Paulo de Piratininga’, Curitiba como ‘Nossa Senhora da Luz dos Pinhais’.

O Rio de Janeiro ‘São Sebastião do Rio de Janeiro’, e Bariloche-Argentina é São Carlos de Bariloche.

Rio Paraguai Lambaré

O Rio Paraguai, aqui visto no município de Lambaré, Zona Sul metropolitana, quase na divisa com o município de Assunção. Na margem oposta já vemos território argentino.

Los Angeles-EUA vai no mesmo embalo pois todo o sudoeste ianque é de origem espanhola, como sabem.

A ‘Cidade do Cinema’, 2ª maior metrópole estadunidense, tem uma pomposa denominação. Em português, com nome e sobrenome, é nada menos que a “Cidade de Nossa Senhora, a Rainha dos Anjos”.

Em Assunção não foi diferente.

Nossa Senhora de Assunção é a padroeira do Paraguai, como Nossa Senhora Aparecida o é do Brasil, e Nossa Senhora de Guadalupe é do México.

Assunção” no idioma espanhol significa ‘ascensão’.

Numa gama ampla de dimensões. Tanto uma Ascensão Espiritual quanto uma outra totalmente material. Ou seja, pode ser uma Iluminação como a de Buda, mas também pode ser usado num sentido bem mais mundano. Por exemplo, quando um político toma posse de um cargo, eles dizem “a assunção do prefeito”.

Assim obviamente se vê que ao fundarem a atual capital paraguaia utilizaram dessa simbologia, ao dizer que “Nossa Senhora Santa Maria” é quem permite e guia a Ascensão Espiritual.

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Alguns mais incrédulos já apontariam pra desdobramentos bem mais materiais, dizendo que a fundação dessa cidade as margens do Rio Paraguai garantiu a Espanha a posse do mesmo.

Ou seja que foi a motriz da Ascenção do Império Espanhol no Cone Sul. Pois a existência de Assunção quem permitiu a re-existência de Buenos Aires, fechando o círculo, conquistando de vez toda a planície, o Chaco e o Pampa.

Pois a Cidade de Assunção se tornou importantíssima base de colonização espanhola no centro da parte plana (a oriente dos Andes) do continente sul-americano, por isso “Coração da América”, outro de seus apelidos.

prefeitura

Prefeitura de Assunção

Cidade-Jardim” ou “Capital Verde” é devido a que é imensamente arborizada, já publiquei essas fotos (clique na palavra ‘Paraguai’ em vermelho logo na abertura da matéria).

Vendo de cima é um bosque, mal se vê a cidade, exceto alguns poucos prédios mais altos.

Buenos Aires surgiu um ano antes de Assunção, mas não vingou e foi destruída em poucos meses.

Quando Assunção foi fundada, Buenos Aires não mais existia. Logo, se o critério for ocupação ininterrupta, a capital paraguaia é 43 anos mais velha que a argentina.

Buenos Aires foi quem fundou Assunção. No entanto, Assunção foi quem fundou Buenos Aires.

Creio que seja um caso inédito no mundo, duas cidades que se fundaram mutuamente. E isso é possível porque Buenos Aires precisou ser fundada 2 vezes, pela 1ª tentativa ter malogrado. Quebrou a linearidade. Por isso a capital argentina originou a paraguaia, mas depois foi originada por ela.

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Por fins do século 16, os espanhóis viram que os portugueses já haviam sido escorraçados de sua tentativa de formar um império na Ásia, e começavam a voltar os olhos pra América.

Assim, a coroa espanhola percebeu que se deixasse a foz do Rio da Prata desguarnecida, os lusos ou outro povo europeu tomaria posse dali, inviabilizando a saga hispânica América adentro.

Assim, em 1580 a Espanha resolve re-fundar Buenos Aires. A expedição que logrou esse feito partiu justamente do porto de Assunção.

é proibido pichar

Gozação feita por pichadores no Pque. São Lourenço (Z/L metropolitana): alguém escreveu que é “proibido usar aerosol” pra pichar. Pra isso, bem, usou aerosol e pichou a placa

O re-fundador oficial de Buenos Aires foi um espanhol, João de Garay.

Mas a maioria dos primeiros habitantes da cidade re-fundada eram paraguaios (de nascimento ou no mínimo espanhóis radicados a décadas ali), pois João recrutou entre a população de Assunção voluntários pra empreitada.

Ser a “Mãe” da Argentina e de diversas outras cidades americanas, eis o título que Assunção ostenta com todo o orgulho possível.

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Eu nunca fui a Argentina, exceto em Porto Iguaçu, na Tríplice Fronteira com Cidade do Leste-Paraguai e Foz do Iguaçu-Brasil. Mas ainda assim, pelo pouco que conheço da Argentina, achei o Paraguai muito parecido com ela, o jeito das cidades, o caráter do povo, tudo. E de fato assim é.

Mas, agora sabendo que o Paraguai é mais antigo, também podemos dizer que de certa forma é a Argentina quem é parecida com ele, não é mesmo?

Tudo é uma questão de ponto de vista. Economicamente, a Argentina está muito a frente, o Paraguai é quase que mais uma província argentina, a maior parte dos produtos consumidos em Assunção são argentinos. Mas cronologicamente o Paraguai veio antes.

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Lhes disse que a maioria dos paraguaios são brancos. Brancos pobres, latinos do Sul da Europa miscigenados com índios, alvos na pele mas Americanos no Espírito. E não os brancos “de corpo e Alma” anglo-teuto-ianque-escandinavos.

idioma guaraniOs paraguaios são brancos como a massa branca e pobre que povoa o Sul do Brasil.

Os indígenas, embora muito numerosos, são minoria, situação rara na América Latina.

Ainda assim, o idioma guarani é falado pela maioria da população, tornando o Paraguai o país mais bilíngue da América.

O guarani é falado mesmo pelos que não tem ascendência americana nativa, um caso ainda mais raro.

Agora lendo a página do idioma guarani na wikipédia essas observações minhas são ratificadas. Dali veio o mapa a esquerda. Veja onde o guarani é falado na América: Paraguai e imediações.

O Guarani, mais que o espanhol, é a língua nacional paraguaia. É a Nação Guarani.

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Confira a fonte:

http://es.wikipedia.org/wiki/Idioma_guaran%C3%AD

Alguns outros detalhes que constam lá: o Paraguai tem 6,5 milhões de habitantes. Desses, 6 milhões falam guarani, sendo pra 5 milhões a língua materna. 1,8 milhão de paraguaios falam somente guarani, não entendendo espanhol.

praça recém-gradeada

Praça recém-gradeada no Centro de Assunção, repare no cimento ainda claro. Até há pouco era aberto.

Na mão inversa, 4,7 milhões falam espanhol, sendo que 500 mil paraguaios falam somente espanhol, não entendendo guarani.

Como pode ver, há 6 milhões de falantes de guarani contra 4,7 de espanhol, 1,3 milhão a mais pro guarani.

Os números se sobrepõem pois 4,2 milhões de paraguaios falam ambos, repito, o país mais bilíngue de toda América, com mais de 60% dos habitantes entendendo dois idiomas.

Mas nem todos são bilíngues, alguns só falam uma língua. É aí que a vantagem do guarani ficará ainda mais evidente: dos 6,5 milhões de paraguaios, 2,3 são monolíngues:

1,8 milhão falam somente guarani; 500 mil somente o castelhano. 

Os números são inequívocos: os monolíngues em guarani são quase 4 vezes mais numerosos que os monolíngues em espanhol.

No interiorzão, nos rincões do país, se você chegar falando espanhol (ou pior, portunhol) não será entendido por ninguém.

paraguai 10 guaranis[1]O guarani é a moeda nacional. Lá não é o ‘peso’, como na imensa maioria das nações hispano-americanas. O Paraguai tem língua própria, e seu dinheiro também tem nome próprio.

A herança indígena é homenageada inclusive pelo futebol. Como explico mais detalhadamente na mensagem que falo desse esporte no vizinho país:

O Guarani é 3º maior time do Paraguai em  torcida, atrás apenas de Olímpia e Cerro Portenho. E o 4º em títulos, nesse caso perde também do Libertad. Todos são da capital Assunção.

No momento que faço essa atualização, final de maio de 2015, o Guarani está nas quartas de final da Libertadores, após ter eliminado o Corinthians com 2 vitórias, venceu tanto no Defensores do Chaco quanto em Itaquera.

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Nos ônibus do Paraguai há muitos vendedores ambulantes, como há no Brasil, México, Colômbia e em toda a América Latina.

Centro Velho Sol se põe

Centro Velho no fim de tarde, a mesma imagem vista bem no topo da página agora em outra escala.

Mas afora isso, se viaja em silêncio nos ônibus urbanos de lá. Não há passageiros ouvindo música no celular sem fone de ouvido, como ocorre aqui.

E tampouco o motorista liga o rádio no máximo volume, como é uma manifestação infernal no México e também em Fortaleza-CE.

Conto mais sobre os ônibus urbanos de Assunção em outra mensagem que breve levanto pro ar.

UM PAÍS SEM TRENS

Por hora, já que estamos falando de transportes,ressalto de novo que em todo o Paraguai não há uma linha de trem sequer ainda ativa. Digo, há. Mas são ramais minúsculos, turísticos, desconectados entre si. Não há uma rede de transporte ferroviário, não há trens suburbanos e muito menos inter-cidades, nem de carga nem de passageiros.

Houve até pouco tempo atrás. Assunção teve ativo um ramal de trem suburbano até 1999, e era a vapor (maria-fumaça). O último trem a vapor que operou em toda América.

Infelizmente, quando foi desativado na virada do milênio, se tornou também o último trem a operar no Paraguai, em larga escala. Por diversas partes de Assunção cruzei com os trilhos desativados sendo “devolvidos a natureza”, o mato tomando conta de tudo.

Me deu pena, uma cena triste, o Paraguai é pobre, e lhe faria bem contar com um modal de transporte mais eficiente que rodoviário.

Há “planos” de se reativar a malha férrea paraguaia. O ser humano faz muitos planos, mas muitos deles jamais se tornam realidade. Se um dia o Paraguai de fato voltar a investir em estradas de ferro retifico a postagem assim que eu souber. Mas por hora é assim que tá.

Make your orders in the box”: o “engrish” ataca em pleno aeroporto

No Aeroporto de Assunção vi uma tradução literal que ficou ridícula. Na cafeteria havia uma placa que dizia, em inglês e espanhol:

Centro Velho2

Centro Velho, perto do porto.

“faça seu pedidos no caixa, por favor”. Porém, em inglês estava grafado “please make your order in the box(??????????).

Obviamente, ‘box’ significa sim ‘caixa’, mas caixa de madeira, e não o local onde se recebe dinheiro.

Provavelmente traduziram pela internet, e ficou bizarro. Digno de figurar no sítio do “Engrish“. Engraçado que ninguém apontou-lhes isso ainda.

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Há igrejas evangélicas na periferia das cidades paraguaias, mas nem de longe na concentração agudíssima exibida no Brasil.

Na Colômbia e México é assim também, um fenômeno presente mas bem mais raro. Concluí que o Brasil concentra boa parte da massa de neo-pentencostais do planeta.

Não vi filiais da Igreja Universal no Paraguai, como cheguei a presenciar nas periferias de Bogotá e Medellín, as duas maiores cidades da Colômbia obviamente.

Atualização: depois do Paraguai já visitei a República Dominicana e Chile. Nessa pequena ilha do Caribe a situação é a mesma do Brasil, há templos evangélicos por toda parte, incluso filiais das maiores igrejas do Brasil, Universal e outras.

No Chile a proporção de templos evangélicos é a mais ou menos a mesma do México, Colômbia e Paraguai. Sempre presentes, mas não é em proporção altíssima.

Em compensação, o Chile é o mais católico de todos os países que já estive, Brasil incluído. No Chile as missas ainda estão lotadas, mesmo no meio do dia, o que em outras partes da América não é a realidade há muito, e na Europa então só em livros de história.

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Por incrível que pareça o Paraguai também sofre com o contrabando.

Agora mesmo (o texto é de maio.13), como vem sendo amplamente noticiado, o tomate está muito mais barato na Argentina que no Paraguai, e Assunção faz fronteira com a Argentina.

Logo, os donos de mercados de Assunção têm cruzado o rio pra comprar esse alimento no país vizinho, e depois revendê-lo na capital paraguaia, prejudicando assim os agricultores locais.

Curioso que recentemente (repito, texto de 2013) o mesmo tomate também foi motivo de polêmica econômica aqui no Brasil, dessa vez por questão da inflação.

Voltando ao Paraguai, o contrabando não se restringe a esse alimento, mas é generalizado, infelizmente. Aqui me refiro ao contrabando com a Argentina, que lesa o Paraguai, e não o com o Brasil, com o qual ele lucra.

paixão paraguaia na Rodovia 2 ZL

Carros Mercedes, paixão paraguaia. Atrás uma jardineira da mesma marca.

Bem próximo a Assunção está a cidade argentina de Clorinda, que é separada da cidade paraguaia de Nanawa por um pequeno riacho. Essa fronteira é extremamente porosa.

‘Mulas’, muitos deles menores de idade tanto argentinos quanto paraguaios, cruzam o tempo inteiro a fronteira, levando e trazendo todo o tipo de mercadorias, tudo sem nota fiscal é claro.

Vejam a matéria de um jornal argentino que trata do tema.

http://www.lanacion.com.ar/1371706-clorinda-donde-el-contrabando-es-norma

Clorinda, onde o contrabando é norma”, eis a ligação. O título da matéria é “uma aduana que poucos respeitam”, e o sub-título é “pela passarela que separa Clorinda de Nanawa circulam quase sem controle pessoas e mercadorias”.

Clorinda é uma cidade pequena e pobre, no fundão do interior argentino. Entretanto, a imprensa paraguaia está noticiando que seu faturamento comercial equivale a dos departamentos (estados) Capital (Distrito Federal, o município de Assunção) e Central (onde está a Grande Assunção) somados, e eles são os dois mais ricos do Paraguai.

Não há atividade legalmente estabelecida em Clorinda que nem de longe justifique esses números, vem tudo do comércio ilegal, prejudicando as finanças tanto paraguaias quanto argentinas. Drogas, armas e carros roubados também passam livremente, e a região é um maná pra trabalho infantil (inclusive escravo) e prostituição adulta e infantil.

Resumindo, o que a fronteira com a Cidade do Leste é pro Brasil a fronteira com Clorinda é pra capital do Paraguai, um ponto complicado onde diversos problemas sociais eclodem.

O que o Paraguai planta na fronteira Leste ele colhe na fronteira Oeste.

Se você tem raiva desse país porque ele leva nossos carros e nos dá em troca armas, drogas e contrabando, saiba que pelas Leis Naturais de Ação e Reação o Paraguai também tem que provar de seu próprio veneno.

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Nanawa está no Departamento (estado) de Presidente Hayes, homenagem ao presidente estadunidense Rutherford Hayes, que arbitrou a disputa com a Argentina pela qual ali se tornou de fato território paraguaio.

Após a “Grande Guerra” (1864-1870), pra nós a “Guerra do Paraguai”, Brasil e Argentina tomaram posse de 3 grandes nacos daquilo que o Paraguai reivindicava pra si.

laranjas se perdendo na rua

Laranjas caídas na rua pavimentada com pedras irregulares na periferia. Nessa outra mensagem eu falo melhor desses tópicos.

Em outra mensagem eu esmiucei as guerras que o Paraguai passou com bem mais detalhes, inclusive com muitos mapas mostrando as trocas de território.

A Argentina abandonou o esforço bélico antes dele estar concluído (foi o Brasil quem fez a ofensiva final sozinho, quando caiu a capital Assunção e o Paraguai capitulou).

A Argentina saiu antes por ter enfrentado rebeliões internas que exigiram a presença de seus soldados dentro de seu próprio território.

Mas pretendia retalhar mais o Paraguai, ainda não estava satisfeita com os dois pedaços que já garantira.

Pelo contrário, mesmo findos os combates as fronteiras não ficaram definidas. Veja esse mapa, é da outra mensagem mas como estamos falando dele levanto já pra rede. A parte em azul fora da linha vermelha ficou pra Argentina, e essa definição só veio em 1876, 6 anos após o fim do confronto militar.

paraguai

Conflito bélico conhecido pelos paraguaios como “A Grande Guerra”, e pelos brasileiros como “Guerra do Paraguai”: definição final das fronteiras.

Ainda assim, a Argentina queria mais, pretendia tomar pra si uma boa parte dentro do atual Paraguai.

Em vermelho as atuais fronteiras do Paraguai. Em preto o território disputado na guerra. Em amarelo ficou pro Brasil, em azul pra Argentina.

Foque na porção em verde-claro e cercada de preto, logo ao norte de Assunção dentro do atual território paraguaio. A Argentina reinvindicava pra si, além dos dois que já havia garantido a oeste e sul de Assunção.

Apenas em 1878, com mediação dos EUA, ficou afinal definido que a parte pintada de verde-claro ficaria mesmo pro Paraguai.

Que então nomeou seu estado que lhe pertence com ajuda dos EUA com nome de seu benfeitor.

Não para por aí. Desde 1999, a capital do Departamento de Presidente Hayes é a cidade de Vila Hayes, que fica bem próximo a Grande Assunção.

Inclusive com ônibus urbano ligando-a ao Centro da metrópole. Vila Hayes é o único subúrbio de Assunção que não fica no Departamento Central.

Até então a capital de Pres. Hayes era Poço Colorado, que fica bem mais ao norte, já no Chaco, no centro geográfico do departamento, bem longe de Assunção.

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Em Assunção há alguns cachorros soltos, alguns em bando, como há em toda parte.

Entretanto o que me chamou a atenção lá foi a quantia de gatos na rua. Certamente é o lugar em que mais vi esse animal andando livremente pela via pública, incluindo as cidades brasileiras que já visitei.

No Chile há infinitamente mais cães de rua. Infinitamente mais, são bandos e bandos, por todo subúrbios, e mesmo no Centro são frequentes, embora aí não em grupos, mas isoladamente.

Em compensação no Chile a proporção de felinos andando livremente pelas ruas é menor, similar a do Brasil e demais países exceto o Paraguai.

Gatos são seres aristocráticos, animais exigentes que só saem as ruas em bairros “civilizados”. ‘Quebradas’ não são pra eles.

Em subúrbios favelizados, os caninos predominam. Por isso ‘gato’ e ‘gata’ são elogios, pessoas bonitas, e ‘cachorro’ e ‘cadela’, bem ao contrário, são xingamentos, se referem a gente vulgar e desqualificada.

lixo na praça ZC

Aqui e a esquerda: Em várias partes de Assunção há lixo pelas ruas. Acima vemos uma praça no Centro.

Aqui em Curitiba mesmo só se vê gatos nas ruas nos bairros mais arborizados e tranquilos das Zonas Norte e Oeste. Nas Zonas Sul e Leste, as partes mais populares, eles são raros.

Bem, Assunção é a cidade mais arborizada que já estive, uma Cidade-Jardim.

Ali os felinos se sentem bem. Na verdade tanta área verde dá uma impressão boa pra pessoas também.

Assunção é pobre, mas por ter tantas árvores, não é uma pobreza opressiva visualmente.

Mesmo os subúrbios metropolitanos mais depauperados parecem pacatas chácaras. Bem diferente do Brasil, Colômbia e México – especialmente esse último.

lixo na rua VE ZS

E agora o distante subúrbio de Vila Elisa, Zona Sul metropolitana.

No quesito arborização, não há duas cidades no mundo tão opostas quanto as capitais paraguaia e mexicana.

Enquanto em Assunção você se sente bem mesmo nas partes mais pobres, no México DF é o exato oposto, você se sente sufocado mesmo na classe média.

A Cidade do México é muito densa.

Mesmo a classe média tem a mesma densidade e a mesma escassez de área verde que o Jardim Ângela em São Paulo e o Sítio Cercado em Curitiba, ambos no extremo Sul das metrópoles.

Já a periferia da Cidade do México – a “Cidade Cinza”, já descrita e ricamente ilustrada quando estive lá no ano de 2012 – é a verdadeira ‘Selva de Pedra’.

Não há árvores, só enormes favelas se amontoando, feitas com uma variedade de tijolo cinza, mais barato que o marrom (também existente lá mas pouco usado nas quebradas exatamente por ser de custo mais elevado).

Como os moradores dos morros mexicanos raramente pintam suas residências, só se vê o cinza de seus tijolos.

Nesse ambiente agressivo e tumultuado do México DF, hordas de cães vira-latas ocupam as ruas, especialmente nos morros do subúrbio. Em algumas ruas, não pude passar porque eles não deixaram.

O mesmo se deu na favela Arborizadora Alta, no bairro Cidade Bolívar, na extremidade da Zona Sul de Bogotá-Colômbia. Tive que inclusive pegar um pedaço de madeira pra me defender dos cães, muitos e ‘muito bravos’, como um morador piedosamente me alertou:

Centro Velho

Centro Velho de Assunção. Ao fundo, onde estamos vendo os prédios altos, está o Centro Novo.

Não vá por aí, tem muito cachorro solto”. Não cheguei a entrar em confronto físico com os animais, felizmente. Ao me verem com o galho na mão, me deixaram passar. Mas foi preciso aludir ao uso da força.

Em Assunção, tudo foi exatamente o oposto. A cidade mesmo pobre no geral tem poucas favelas, e muito, muito verde. O que faz com que até os animais fiquem menos agressivos.

Daí a quantia impressionante de gatos andando despreocupadamente, vibração que compartilhei, não me senti ameaçado nem por animais nem por seres humanos.

Nas favelas de Assunção há muitos porcos e galinhas criados soltos. Falo mais disso em outra mensagem que breve vai pro ar, bem ilustrado com fotos.

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Comentemos as imagens (nem sempre descrição abaixo corresponde a foto que está a seu lado. Fie-se sempre pela legenda das imagens, estão corretas). Vemos no decorrer da matéria:

Carro Mercedes-Benz, uma paixão paraguaia, de todas as classes sociais. Estão por toda a parte: nos bairros ricos, reluzindo de novos, recém-chegados da Europa. Na classe média, usados mas ainda em bom estado. E nos subúrbios e favelas, caindo aos pedaços, por vezes literalmente.

Não importa. Importa apenas que tenha a famosa estrelinha na frente, e seja do modelo longo, com porta-malas saliente. No Líbano e na Palestina é assim também. Aqui vê um deles na Rodovia Nacional nº 2, já na Zona Leste da Grande Assunção.

favela Morro São Gerônimo Centro Velho

Favela São Jerônimo, Centro de Assunção: veja a direita uma casa de madeira. Elas são poucas, mas existem no Paraguai. Confira o mapa completo dessa manifestação a nível continental.

Algumas tomadas do Centro Velho de Assunção. É uma parte tranquila, residencial, onde quase não passam carros.

Trata-se de uma baixada, espremida entre o Centro Novo – esse sim o Centrão da cidade, tumultuado como todo Centro de metrópole – e o porto.

Por estar no fim físico da cidade, não é rota de passagem pra outros bairros. E é estritamente residencial, comércio só os mercadinhos locais.

De forma que só os moradores passam por essas ruas. Quer dizer, é perto do porto, localização que traz alguns problemas universais de toda zona portuária.

Ainda assim, no geral uma parte calma da cidade.

Perto do Rio há uma pequena favela, o Morro São Jerônimo, visto a esquerda.

Eles se dão bem com seus vizinhos do Centro Velho, que é uma parte bem pobre da cidade, não há desnível social entre “o morro” e seu entorno.armadilha - relógio d'água

Veja a guarita em amarelo e teto verde. É um quartel da marinha. Na verdade não ‘um’ quartel, mas sim o Quartel General, a sede da Armada Paraguaia.

O Paraguai não tem mar, mas tem marinha. Já falei disso melhor em outra oportunidade.

Aqui o que nos importa é que atrás de seu Comando-Maior há uma pequena favela. Na República Dominicana fotografei exatamente a mesma cena.

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Os relógios de água ficam na rua, em frente as residências lá no Paraguai. Eram quando instalados protegidos por tampas metálicas, que já foram 99% delas roubadas.

Resultando que as calçadas de Assunção estão inteiras esburacadas, transformando-se em verdadeiro ‘campo minado’ (a direita).

feira de um lado com tráfego livre

Feira livre em Assunção. Notam o 11-13 Mercedão, tão comum no Paraguai como no Brasil. No Chile igualmente. Na Colômbia e Rep. Dominicana encontra-se mas é bem raro, no México não existe essa marca de caminhão. Fiz matéria completa com centenas de caminhões Mercedes por todo o globo.

É uma situação perigosa, o que comprovei pessoalmente. Depois que anoitece você não vê os buracos, e são dezenas em toda e cada quadra da cidade.

Andando a pé a noite, pisei num deles e torci o pé. Por sorte não foi grave, doeu um pouco mas pude continuar caminhando.

A partir daí preferi ir pelo meio da rua, que é mais seguro. Imagino quanto milhares desses acidentes ocorrem todos os anos por lá, alguns bem mais graves que o meu, especialmente se envolvem pessoas idosas.

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No Paraguai, a feira livre não interrompe o tráfego, como visto logo acima. As barracas são montadas apenas de um lado da rua, e os veículos podem passar, apenas reduzindo a velocidade.

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Comércio atendendo atrás das grades. Repare nas placas que dizem “aberto”, “toque a campainha”.

comércio atrás das grades

Aqui é Assunção, Paraguai. Fotografei um bar também vendendo Brahma em Valparaíso, Chile.

Justiça seja feita, existe mas não é muito comum não. Assunção não é muito violenta. Na Colômbia e no México é infinitamente mais frequente a cena de lojas atendendo gradeadas.

Nesses dois países na periferia é onipresente, e na Colômbia mesmo no Centro se vê bastante.

Depois de ir a Assunção fui a Belém-PA, República Dominicana e Chile.

Em todos eles o problema de assaltos aos comércios, que os leva a ter gradear o balcão, é pior que em Assunção, embora sempre menos que México e Colômbia. Digo, no Chile é meio empatado. Um pouco menos pior, mas nem tanto.

No Paraguai, não há tantos assaltos. As pequenas banquinhas são gradeadas pelo seguinte: são empreendimentos que o dono trabalha sozinho, na casa dele. Muitas vezes é uma Mulher, o marido sai pra trabalhar e ela pra se distrair e reforçar o orçamento monta uma lojinha de roupas e presentes, uma banquinha de doces.

E em áreas residenciais, ruas calmas de pouco movimento. Então não faz sentido ficar ali parado olhando pras paredes, as vezes esperando mais de uma hora pra que chegue um cliente. Assim ele ou ela fica dentro de sua casa, descansando, vendo TV, tomando tererê (chimarrão gelado, hábito lá onipresente) ou fazendo outras atividades.

Quando chega alguém, bate ou toca a campainha, e o então o comerciante vem e atende.

placa da União Europeia

Carro com placas da União Europeia circula no Paraguai, situação muito comum. Não há placas locais. Certamente trata-se de algo irregular.

Os mercados e lojas mais movimentadas não são gradeados no Paraguai, e o são no Pará, no México, Colômbia e no Chile também.

Em todos eles por várias vezes fui tomar água ou um refri e tive que ser atendido como se estivesse numa cadeia, passando o dinheiro e pegando o produto por entre as barras de metal.

Na majoritariamente branca e rica Santiago também, mesmo em bairros centrais como na Colômbia, saibam vocês.

E nesses casos por haverem muitos assaltos. Em Assunção sempre que há movimento maior as portas são abertas. É uma questão de pouco movimento, e não de muita violência.

Coloquemos assim: a proporção de lojas gradeadas em Assunção é a mesma de Curitiba. Aqui se encontra esse fenômeno, eu mesmo já fotografei aqui na Zona Sul. Mas é esporádico, exceção. No México e em Belém é comum na periferia, e Chile e Colômbia periferia e também Zona Central das cidades.

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Mais um detalhe: a Brahma abocanhou uma boa fatia do mercado paraguaio. Fabricada lá mesmo. Vi também outras marcas populares brasileiras e a Quilmes argentina, entre as que identifiquei.

No Chile também vi placas da Brahma, mas não tanto quanto no Paraguai.

Pra fecharmos esse tópico: “mercearia” no Paraguai se chama “despensa”. No México, é “miscelânea” ou “abarrotes”, palavra que significa “pequenas gostosuras”, algo como nosso antigo “secos e molhados”.

No Chile se fala “armazém” e também existe o termo “abarrotes”, desconhecido no Paraguai.

(Sabem que eu aportugueso tudo, logicamente nas fachadas desses países estão esses termos que citei porém na língua espanhola).

bruxaria SLA esquerda, no Centro de São Lourenço, Zona Leste metropolitana. O caminhão da Copetrol (“é paraguaio, apoie”) passa ao lado de pessoas esperando o ônibus.

No Paraguai é comum que os pontos de parada do transporte coletivo sejam em postos de gasolina, uma situação perigosa afinal concentra pedestres num ponto de intensa entrada e saída de veículos automotores.

Na mesma avenida, vê trabalho infantil, crianças limpando vidros de carros em troca de moedas (foto no topo da matéria).

Cena muito comum no Paraguai, envolvendo adultos e crianças, tanto que alguns carros trazem o seguinte adesivo: “antes de limpar o vidro peça permissão”. Na Colômbia e México é exatamente igual.

No Chile esse problema é bem menor, verdade seja dita. É um país infinitamente mais rico que o padrão da América Latina.

Voltando ao Paraguai, não apenas relacionado a limpeza de para-brisas, mas em diversos ramos de atividade há trabalho infantil. Perto do Ceasa de Assunção, meninos que não tinham mais de 10 anos vendiam chicletes e frutas pra reforçar o parco orçamento familiar.

No Paraguai há muitas laranjeiras em via pública, e é muito comum ver laranjas apodrecendo no solo, sem que ninguém tenha se interessado em comê-las.

No Brasil é bem diferente. Qualquer árvore frutífera de acesso público aqui é depenada, jamais você verá frutas a disposição de quem queira pegar. Voltando a foto, estamos no município de Fernando de la Mora, Zona Leste metropolitana, que fica exatamente entre São Lourenço e o município de Assunção.

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No Paraguai é comum de se ver veículos circulando com placas da União Europeia.

Consegui fotografar um carro (já visto mais pro alto na matéria) e um caminhão (ao lado), reparem na tarja azul a esquerda. É uma situaçãoplaca da União Europeia1 estranha, pra dizer o mínimo.

Obviamente esses veículos foram de navio pro Paraguai, e a chance que tenham sido roubados na Europa é imensa.

Há máfias europeias especializadas em subornar as autoridades nos portos, pra que esse tipo de carga possa embarcar.

Pois certamente o dono não iria transportá-los pra lá voluntariamente pra uso temporário, e depois fazer o mesmo trajeto de volta pra Europa. Mais fácil alugar um carro no Paraguai, caso sejam turistas. A isso me refiro ao carro. No caso do caminhão, é ainda mais evidente que se trata de uma irregularidade.

E se vieram legalmente, por que não foram re-emplacados com placas paraguaias? Não estou afirmando nada. Mas que é suspeitíssimo, disso não resta dúvidas, especialmente se considerando que o Paraguai já chegou a ter mais 80% de sua frota irregular.

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As praças de Assunção estão sendo gradeadas, pra que não se tornem abrigo de sem-tetos após o pôr do Sol.

Repare que a reforma é recente, o cimento no chão onde foram fixados os pilares da grade ainda está bem branco. Os anarquistas estão a protestar contra isso em pichações no Centro. “A cidade tem que ser aberta por povo”, dizem suas inscrições nas paredes.

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galera chegando do subúrbio AssunçãoA primeira cena que via de minha janela, assim que acordava.

O Sol nascendo e a galera já chegando dos distantes subúrbios, pra ralar em mais um dia de batente no Centrão. Capturada por volta de 6 da manhã.

Amplie a imagem e verá que há um ônibus urbano no canto direito da foto. Agora que está a  amanhecer, e ele já puxou a primeira viagem pro Centro. Saiu dos subúrbios metropolitanos as 5 da madruga, ainda com a Lua bem alta. O povão sua pra ganhar o pão !

………..

Agora o momento oposto. Após iluminar mais um dia, o Sol se recolhe. 

Essa grade é a entrada de um quartel do exército. Pedi autorização aos sentinelas pra fotografar. Com qualquer coisa que envolva área de segurança melhor não arriscar, não é mesmo?o Astro Rei se recolhe

Com essa bonita cena, abrimos e fechamos mais uma mensagem.

Que Deus ilumine a todos.

Ele-Ela proverá”

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