“Morro do Querosene, digo, Jd. Social”: bairros de Curitiba antigamente

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1999: a ‘Ponte Preta’ (divisa entre Centro e Rebouças) ainda tinha uma maria-fumaça. Já não operava há décadas, estava ali só como decoração, como o bondinho do Rua XV.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 28 de julho de 2010

As ligações pra outras matérias estão em vermelho. 

Vamos falar um pouco das origens e fatos curiosos dos nomes dos bairros e municípios da cidade.

Veja a população de cada bairro, e também a qual parte da cidade cada um deles pertence.

Ilustro a matéria com cenas da cidade, não necessariamente relacionadas ao que está escrito. Todas puxadas da rede exceto 4, informo quais.

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Capanema centro prédio z/c ctba periferia quebrada madeira

Vila Capanema, ao fundo o Centrão.

Todos os bairros de Curitiba tiveram seus nomes e limites definidos em definitivo no ano de 1974.

Nesse ano o Capão da Imbuia (Zona Leste) se tornou independente do Cajuru, que assim assumiu sua atual configuração (décadas antes, o Cajuru chegava até o Centro).

Assim os atuais 75 bairros da cidade definiram o desenho de seus territórios, que não mudou mais.

De lá pra cá a única mudança foi em 1992, quando o bairro Capanema (igualmente na Zona Leste) mudou seu nome, após plebiscito popular, pra Jardim Botânico. Não houve alteração nos limites.

Rio Belém aérea Capanema PUC rebouças cohab prado velho z/c ctba

Rio Belém na V. Capanema, próximo a foz do Rio Água Verde. O prédio mais alto é a PUC, no local que um dia abrigou o ‘prado velho’.

O nome ‘Vila Capanema’ foi herdado por uma vila popular que há ali, antiga favela agora urbanizada.

Apesar que a maior parte do território do ‘Capa’ está no vizinho bairro do Prado Velho.

Voltando aos nomes antigos, alguns duraram até 1974, quando uma lei estabeleceu a nomenclatura atual.

E portanto ainda existem resquícios em mapas (olhe esse de 1953) e mesmo em placas pelas ruas.

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Vejam vocês, Jardim Social (Zona Leste) antes de ser urbanizado era chamado de Jardim Social Z-LesteMorro do Querosene.

Obviamente esse nome tosco e irônico se refere a um ciclo anterior, quando o lugar ainda era praticamente desabitado/área rural.

Hoje o ‘Social’ (como é carinhosamente chamado) tem a segunda maior renda da cidade, só atrás do Batel (Zona Central).

É a morada da elite, com suas ruas calmas e arborizadas, que tem no Bosque de Portugal sua referência.

Água Verde Z-Central

Início da Av. Rep. Argentina, na Água Verde (Z/Central), década de 2000. Compare com a imagem a direita.

Acima vemos, dentro desse parque, uma ponte sobre o Rio Bacacheri. Puxei a foto da rede.

Anteriormente eu disse que era de minha autoria porque confundi com outra, desculpe. Agora reparei no selo a direita.

Trata-se de um bairro planejado, que surgiu nos anos 60 (quando ali era distante do Centro, já que a cidade era então bem menor) espelhando os subúrbios ianques que pipocavam a todo vapor.

Enterrando assim qualquer referência ao ‘Morro do Querosene’ – mas no começo era assim que a região era chamada.

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agua verde

O mesmo local, fim dos anos 70. Que diferença, hein?

A Água Verde tem esse nome por conta do Rio de mesmo nome, hoje canalizado e subterrâneo.

Nasce nas proximidades do estádio do Atlético, e sua foz é no Belém, na Vila Capanema.

O Pinheirinho (Zona Sul) era conhecido por Capão dos Porcos.

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Já o bairro da Santa Quitéria (Zona Oeste) quase se chamou Carmela Dutra.

Homenagem a Carmela Teles Leite Dutra, esposa do presidente da república Eurico Gaspar Dutra.

Avenida Batel Z-Central

Avenida Batel, ZonaCentral.

Optou-se pelo nome da santa, embora meio que se ‘descobriu uma santa pra cobrir outra’.

Já que a ex-primeira dama brasileira tinha o apelido de ‘dona Santinha’. Enfim, ‘Santa Quitéria’ ao fim prevaleceu.

Carmela Dutra nomeou um conjunto do bairro e uma linha de ônibus.

Que originalmente acabava ali mas foi estendida, tendo o ponto final no vizinho bairro do Campo Comprido (também na Z/O).

aérea Capanema PUC prado velho z/c ctba

A Vila Capanema ao lado da PUC.

Timoneira é nome antigo do município de Almirante Tamandaré (Zona Norte – RM). E Tindiquera é a denominação anterior de Araucária (Zona Sul – RM).

Tamandaré e Araucária são distantes entre si, em lados opostos da metrópole.

Mas veja: ambas foram parte da ‘Grande Marcha pro Oeste’ que povoou a porção ocidental da cidade, saga promovida pelo então governador Lamenha Lins.

De volta a nomenclatura dos lugares, a empresa de ônibus que opera o transporte municipal chama-se exatamente Tindiqüera. É do mesmo dono da Viação Araucária, intermunicipal.

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Cristo Rei Z-Leste

Cristo Rei, comecinho da Zona Leste. Fiz um desenho retratando esse local, ‘Maurílio’ está na sacada de um desses prédios e vemos ao fundo o Viaduto do Capanema e o Moinho Anaconda que estão fotografados aqui.

Pinhais já foi parte de São José dos Pinhais, e essa é a origem da nomenclatura.

Todos conhecem o fato que Piraquara é o município ‘mãe’ de Pinhais.

Mas o que a maioria talvez ignore é que São José dos Pinhais é que é a ‘avó’, e o nome da ‘neta’ Pinhais remonta a isso.

É de domínio público que Pinhais se separou de Piraquara em 1992.

Não tão notório é que Piraquara por sua vez já havia se separado de São José dos Pinhais, algumas décadas antes. Os 3 municípios pertencem a Zona Leste da Grande Curitiba.

fila tubo bigorrilho

Fila no tubo da Praça da Ucrânia, Bigorrilho, Zona Oeste

Pra entender a genealogia de Pinhais, voltemos um pouco no tempo, até a primeira metade do século 20.

Quando as viagens entre a Capital e o Litoral eram feitas de trem, na ferrovia projetada pelos irmãos Rebouças, que falarei mais adiante.

Pinhais pertencia a Piraquara, e ambos pertenciam a São José dos Pinhais.

Havia uma estação de trem perto de onde hoje é o autódromo, chamada “Estação São José dos Pinhais”, que com o tempo passou a ser conhecida por “Estação Pinhais”.

centro z/c Rua Flores ctba calçadão XV 15 novembro boca maldita

Calçadão da 15 de novembro, a nacionalmente famosa “Rua das Flores

Quando Piraquara se separou de São José dos Pinhais, a região mais próxima da divisa com Curitiba se tornou o distrito de Pinhais.

Que por sua vez na década de 90 também se tornou independente.

Piraquara, alias, é o ‘buraco do peixe’, em tupi-guarani. Vamos decompor a palavra. ‘Pira’ significa peixe.

Piracicaba (SP) é o ‘lugar que o peixe pára’, referência ao salto do rio, bem no Centro da cidade, um lugar muito bonito, alias, malgrado a poluição do Rio Piracicaba. ‘Quara’ é buraco.

buso caio laranja terminal pinheirinho Dalagassa Ctba Zona Sul z/s

Terminal Pinheirinho: o busão Dalagassa espera pra zarpar. Destino: o vizinho bairro do Tatuquara.

Com isso, vocês deduzem que Tatuquara, na Zona Sul, é o ‘buraco do tatu’, ou talvez ‘toca do tatu’, numa tradução mais livre.

O nome do animal em português foi importado do tupi sem modificações.

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Continuando na Zona Sul, o bairro em que vivo, o Boqueirão, se deve uma grande propriedade rural chamada “Fazenda Boqueirão”.

Perto do campo dos times de futebol suburbanos do Boqueirão e do Vila Hauer (são no mesmo local, no Boqueirão e não na Vila Hauer) existe uma creche da prefeitura chamada Fazenda Boqueirão.

Batizada assim pra preservar a memória da colonização da região.

Santos-SP anos 80

Anos 80: Amélia da C.S.T.C. vai pro Boqueirão. Isso em Santos, litoral paulista. Confira melhor como era essa famosa pintura ‘Boca Loca’ da estatal santista.

Quanto a origem da palavra, boqueirão significa exatamente ‘grande boca’.

Esse termo passou a ser utilizado pra indicar um vale formado por um rio, praia ou canal.

Depois foi generalizado pra ‘caminho que leva ao mar’, e por isso há um bairro e uma praia em Santos (SP) com esse nome.

Voltando a Curitiba, não sei se o ‘Boqueirão’ daqui se relaciona com o trajeto que se faz pra ir a praia.

Talvez, posto que a saída pro litoral de Santa Catarina não passa tão longe daqui.

O que é fato é que criado o Boqueirão, o nome do bairro vizinho, Alto Boqueirão, nitidamente é uma ‘filial’ do Boqueirão.

Bigorrilho Z/o ctba prédio cidade lua céu

Lua sobre os prédios do Bigorrilho.

A propriedade rural vizinha a “Fazenda Boqueirão” tinha sua cerca adornada por diversos exemplares de uma planta chamada xaxim.

Que então nomeou o bairro, também na Zona Sul, que fica do outro lado da Rua Cristiano Strobel.

Vamos seguir agora a Marechal em direção a Linha Verde.

Os bairros Hauer e Fanny, que são vizinhos, separados pela Linha Verde, homenageiam a família Hauer, imigrantes alemães e pioneiros na região. Existe até um centro comercial no Batel de propriedade deles.

O patriarca era Roberto Hauer (há uma rua com seu nome), e sua esposa se chamava (ou era apelidada, não sei) Fanny Hauer, e o bairro Vila Fanny é em sua homenagem.

cohab prédio ctba z/s periferia pombal Bairro Novo Z/S sítio cercado

Cohab no Sítio Cercado, Z/ Sul. Essa foto é de minha autoria.

A Fanny (esse é o nome oficial do bairro, o ‘Vila’ foi extinto em 1974) tem uma parte chamada Vila Guilhermina.

Há até um ônibus com esse nome que sai da Praça Rui Barbosa.

Guilhermina Hauer foi outra representante feminina dessa família.

Ali perto, o Novo Mundo teve como primeira denominação ‘Planta Kawasinski’. Pelo nome, a origem só pode ser polonesa.

‘Armazém Novo Mundo’ era o nome de um mercadinho que havia por ali, fundado exatamente por um imigrante europeu, oriundo do ‘velho mundo’. Com o tempo, o bairro ficou conhecido assim.

Todos os bairros citados acima ficam na Zona Sul.

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O Parolin, ali perto mas já na Zona Central, também é o sobrenome de uma família de pioneiros europeus da região. No caso, os Parolin eram italianos.

placa ctba Prado Velho JóqueiDo outro lado da Marechal Floriano, também na zona Central, está o Prado Velho.

Antigamente, o jóquei de Curitiba era onde está localizada a PUC.

As arquibancadas eram naquela construção que há logo a direita do portão principal da universidade.

Bem em frente, há a Rua Jóquei Clube. Com a inauguração da Hípica no Tarumã (Zona Leste), a região passou a ser conhecida como a do ‘prado velho’.

Veja a foto, essa tirada por mim.

buso ctba canal marcop amarelo belém

O “trem-bala da Zona Leste”, as margens do rio de mesmo nome, pertinho da PUC, que vemos a foto mais acima. Essa fui eu que tirei.

Rebouças, o bairro vizinho, também na Z/C, homenageia dois irmãos Antônio Pereira Rebouças Filho e André Pinto Rebouças.

Eles eram negros, nascidos na Bahia, netos de escrava.

Se formaram engenheiros, assim como um terceiro irmão, José. Todos eram abolicionistas.

A rua Engenheiros Rebouças é em homenagem a eles. Comumente, ela é grafada errada como Engenheiro Rebouças, no singular, mas o correto é no plural.

O motivo de terem nomeado um bairro e uma de suas principais vias é porque foram eles que projetaram a ferrovia Curitiba-Paranaguá, feito que parecia impossível a época, em 1886.

Mas os Rebouças eram tenazes, e descobriram novas técnicas, que espantaram a todos.

André também ficou famoso por ter planejado o sistema que levou saneamento básico a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, no fim do século 19.

Foi ainda deputado, advogado e conselheiro do imperador Dom Pedro 2º. O cara era multi-funcional mesmo.

Alto 15 XV Z/l ctba viaduto caixa água

Praça das Nações, divisa quádrupla entre Cristo Rei, Alto da XV, Tarumã e Jardim Social, Zona Leste.

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Voltemos a Zona Sul, na extremidade da cidade. A origem do nome Umbará se deve a que o local foi colonizado por europeus.

Que têm dificuldade em pronunciar corretamente a letra “R”, especialmente as pessoas mais velhas.

Quando ainda era área rural (boa parte dele ainda é), o Umbará, quando chovia, se tornava intransitável, devido ao barro.

Vinha a tempestade e tudo virava um barral, que os polacos pronunciavam “um baral”. O CT do Atlético é conhecido erroneamente por ‘CT do Umbará’, pois está localizado no vizinho bairro do Sítio Cercado.

divisa Tatuquara campo Santana ctba z/s periferia subúrbio anoitece céu fim tarde torre fio alta tensão trânsito carros avenida rua

Divisa entre Tatuquara (onde eu estou, essa é de minha autoria) e Campo de Santana, após a torre de alta tensão.

Já que estamos por aqui, digo-lhes que o Sítio Cercado tem esse nome porque na origem era uma fazenda que tinha seus limites delimitados por rios.

Respectivamente o Arroio Cercado, a norte e noroeste, e o Ribeirão dos Padilhas, a leste e nordeste.

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Do outro lado da cidade, questões de diferentes pronúncias entre os europeus nomearam o bairro do Bacacheri, na Zona Norte.

Já falei melhor sobre isso nessa postagem, onde inclusive há um mapa que mostra um de seus nomes antigos, “Colônia Argelina”.

Só resumindo, a vaca Cherry virou ‘Bacacheri’ porque os espanhóis não conseguem falar a letra ‘v’. Por isso Havana ou Habana se fala igualmente Habana, e se pode escrever ‘sávado‘ pro dia de semana e ‘Curitiva’ pra cidade que vivo.

Santa Cândida Z-Norte

Santa Cândida, Z/ Norte. Bem no meio da imagem a polícia federal.

Isso é amplamente conhecido. Poucos anos atrás, alias, a câmara de vereadores aprovou um projeto pra colocar uma enorme vaca na entrada do bairro.

O então prefeito Beto Richa vetou, sob pressão dos comerciantes. Mas nem todos eles eram contrários a ideia.

Aproveitando a carona do destaque do tema na mídia, uma auto-escola colocou a escultura de uma vaca em tamanho real na Avenida Erasto Gaertner.

Logo após a linha do trem, entrada do bairro pra quem vem do Cabral. Ficou ali alguns meses.

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Voltando a falar da 1ª foto da matéria, no topo da página:

A famosa Ponte Preta, na ferrovia que André e Antônio Rebouças projetaram. Sobre a Rua João Negrão, na divisa entre o Centro e o bairro da Zona Central que leva o nome dos irmãos.

ctba centro aérea prédio z/c

Agora captada de cima, a mesma região da Pç. do Japão, divisa entre Á. Verde e Batel, Z/ Central. Grande concentração de prédios de luxo, é uma parte muito rica da cidade. A esquerda vemos o Cemitério Água Verde. Onde os prédios altos cessam, abaixo, é a Visc. Guarapuava, e paralela a Av. do Batel.

Essa tomada é de 1999. Os mais velhos vão se lembrar da maria fumaça que havia por ali. 

Assim como a ponte, essa locomotiva não estava em operação, era apenas pra compor o cenário.

Não há como não reparar no Monobloco Mercedes 0-371 da Cristo Rei, que estava escrito “Expresso” na lateral, de acordo com a reformulação adotada em 1992.

Observem também que a esquerda há um Del Rey ou Belina ainda com placa amarela, “BP-1563”, aparentemente.

Paz a todos.

Deus proverá”

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