a “Grande Guerra”, a “Guerra Total” e “dom” Alfredo: a violenta história do Paraguai‏

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Anos 80. Amplie pra ler a linha na lateral: Foz do Iguaçu x Presidente Stroessner, nome do então ditador do Paraguai e de sua maior cidade do interior, a atual ‘Cidade do Leste’.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 23 e 30 de maio de 2013

Todas as fotos dessa mensagem foram puxadas da internet, exceto duas que tirei ‘in loco’. Eu informo quais são.

Falaremos hoje da violenta História desse pequeno país chamado Paraguai.

3 períodos especialmente sangrentos se destacam:

– o que chamamos “Guerra do Paraguai”, pra eles “Guerra de 1870” ou “Grande Guerra”, contra Brasil, Argentina e Uruguai (1864-1870);

paraguai

A “Grande Guerra”, “Guerra de 70”, ou (no Brasil) “Guerra do Paraguai”. Em vermelho as atuais fronteiras paraguaias. Em preto o território disputado. Em azul ficou pra Argentina, em amarelo pro Brasil.

– a “Guerra do Chaco” (1932-1935), contra a Bolívia;

– e a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), que foi também uma guerra, uma “Guerra Suja”, dessa vez interna, contra o povo paraguaio.

Após ser deposto Stroessner se refugiou no Brasil, desencarnando em nossa capital Brasília-DF em 2006, e ali foi enterrado.

……….

Já chegamos lá. Antes vamos dar uma pincelada na Europa. Portugal é um país pequeno, cuja única fronteira terrestre é com a Espanha.

Pra interagir com outros povos, os lusos se lançaram ao mar, se tornando os maiores navegadores do meio do milênio passado, no que foram seguidos por seus vizinhos.

Como é notório, os vizinhos ibéricos dividiram o mundo entre si no ‘Tratado de Tordesilhas”, de 1494. No fim do século 15, era vantagem pra Portugal dar a maior parte da América aos espanhóis.

Chacarita-Centro

Centro de Assunção: em destaque a favela Chacarita.

Pra em troca assegurar a posse da África e Ásia (onde eles fundaram ou tomaram entrepostos comerciais).

Pois Portugal almejava formar um império global, como os EUA têm hoje.

Não deu certo, os povos asiáticos se rebelaram e o império luso veio a pique antes de se consolidar.

Foi aí que Portugal olhou pra América, e resolveu unilateralmente revogar Tordesilhas.

Curitiba foi oficialmente fundada em 1693, dentro do que pertencia a Espanha, quando Tordesilhas ainda vigorava, exatamente numa ofensiva de Portugal de redesenhar as fronteiras.

perdas paraguaias na 'Grande Guerra' de 1870

Mapa mostra em verde hachurado o território que o Paraguai reivindicava e perdeu na guerra pra Brasil e Argentina, com a data das principais batalhas.

Ainda antes, em 1669, subiram o Rio Amazonas e fundaram Manaus no coração da floresta exatamente pra se apossarem da Amazônia. Ou seja, de norte a sul Portugal adentrava e ocupava território espanhol.

E em 1750 Portugal afinal conseguiu seu objetivo: o Tratado de Madri revogou Tordesilhas. Passaram a pertencer a colônia lusitana mais ou menos o formato atual do Brasil. 

A Amazônia não era ocupada por espanhóis, então ali não houve conflito entre as potências europeias.

Entretanto, mais ao sul Portugal tomou posse, via Tratado de Madri, de duas áreas que eram sim já ocupadas pela Espanha.

Na verdade Portugal falsificou mapas que foram apresentados aos árbitros na renegociação, dizendo que ali não haviam europeus, mas era mentira.

Seja como for, não houve como descobrir a trapaça a tempo, e nos atuais estados do Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul povoações espanholas foram dizimadas (as ‘Missões’ jesuíticas no Oeste do RS) ou incorporadas a Portugal.

paraguai 10 guaranis[1]

República do Paraguai: 10 Guaranis. Eis a ‘Nação Guarani’, o espanhol é apenas a 2ª língua do país. O Paraguai tem idioma o próprio, e seu dinheiro tem nome próprio, não é o ‘peso’ como na maioria dos países americanos.

O território sul-mato-grossense que já era ocupado por espanhóis e passou pro domínio português foi exatamente o que desencadeou o que no Brasil se conhece por “Guerra do Paraguai”.

Pois este país queria de volta o que na verdade era mesmo seu.

Ademais, Solano Lopes queria uma saída pro mar, e em última análise ele queria revogar o Tratado de Madri. Assim a maior parte do Sul do Brasil passaria pro Paraguai.

…………

Ora, a guerra se iniciou – com ataque paraguaio – 1864. Então já faziam 114 anos que Tordesilhas havia sido revogado e substituído pelo Tratado de Madri.

É evidente que o Brasil, tendo empreendido duas guerras de secessão em suas províncias meridionais (uma perdida – o Uruguai – e uma ganha – a ‘Guerra dos Farrapos’) não iria simplesmente ceder todo o Sul aos paraguaios.

ponte da amizade

A nota mostra a ‘Ponte da Amizade’, que une Foz do Iguaçu/Brasil (esquerda) a Cidade do Leste, ex-‘Presidente Stroessner’, maior metrópole do interior do Paraguai

O ‘Tratado de Madri’ foi obtido através de falsificação de mapas, é verdade. Ainda assim, já estava em vigor a mais de um século, era fato consumado.

O Paraguai deveria então ter buscado uma negociação. Mas ao invés disso Solano decidiu atacar o Brasil.

O que já era loucura por si só. Posto que nossa pátria era infinitamente maior militar e economicamente que a deles.

E ao mesmo tempo atacou também a Argentina.

Iniciar guerras em duas frentes contra dois países muito maiores foi um ato delirante, vamos ser francos. A guerra já começou perdida pro Paraguai.

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Assunção. Na outra margem do Rio Paraguai está a Argentina.

O Brasil reagiu com força excessiva? Sim, pelo que lhes devemos desculpas.

Mas a guerra foi iniciada pelo Paraguai. Sobre isso não pode haver dúvidas.

Se algum amigo paraguaio ler isto, entenda que não estou fazendo patriotadas, e reconheço que o Brasil (e antes Portugal) erraram duas vezes na questão.

Primeiro ao manipularem os registros geográficos tomando posse de território que era habitado por espanhóis e depois usando força excessiva na guerra.

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Assunção

O Brasil pilhou o Paraguai, queimou cidades, estuprou Mulheres, executou civis em massa, em verdade dizimou nosso vizinho, e não era necessária tanta selvageria, pra qual não há qualquer justificativa.

Poderia ter se limitado a derrubar militarmente o governo, sem massacrar os civis não-combatentes. Devemos pedir perdão a nossos irmãos paraguaios.

Ainda assim, que Solano iniciou uma guerra – que ele jamais poderia vencer – de forma afobada e impensada é um fato também.

Lembre-se que no século 19 não havia o conceito de ‘direitos humanos’, alias no Brasil ainda havia escravidão. Se a elite imperial não tinha pena dos próprios brasileiros que eram negros, teria piedade de um estrangeiro que inicia uma guerra? Ao ser atacado obviamente o Brasil reagiria violentamente.

Assuncao1

Assunção vista do Rio Paraguai

O que mais ele esperava ao agir como agiu? Alias desprezando o último conselho paterno. O Marechal Francisco Solano Lopes herdou o poder de seu pai, Antônio Carlos Lopes

O velho Antônio, em seu leito de morte, ao passar a faixa pro herdeiro recomendou-lhe claramente:

“Filho, há muitas questões de fronteira por se resolverem. Mas escolha a caneta ao invés da espada. Não ataque nossos vizinhos, especialmente o Brasil, ou o resultado será trágico pro Paraguai”.

…………

chacarita

Favela da Chacarita (“Fazendinha” em espanhol), bem no Centrão de Assunção, exatamente atrás do congresso. O peitoral em branco pertence a prédio do ministério da educação.

No começo de década de 1860, o Uruguai entrara em guerra civil.

Intervindo militarmente no que um dia fora uma de suas províncias, a marinha brasileira bloqueia e depois toma Montevidéu, instalando um dos grupos que guerreavam no poder.

Pra alguns um ato de imperialismo, pra outros uma legítima defesa já que há décadas grupos de bandoleiros uruguaios invadiam o território brasileiro pra roubar gado.

paraguai 10 guaranis

A frente da mesma nota vista acima

E repetidas reclamações junto ao governo em nada adiantavam.

Eu diria que as duas coisas são verdade, o Brasil tinha razão em se queixar dos constantes saques mas extrapolou na resposta.

Pode-se ver a invasão brasileira ao Uruguai como justificável ou não. Mas algo ninguém contesta:

Era um problema entre Brasil e Uruguai. O Paraguai nada tinha a ver com isso. Só que Solano Lopes, sob a desculpa que o Brasil “violou a soberania uruguaia”, empreendeu ataque-surpresa duplo contra o Brasil:

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Encarnação, Paraguai. Na outra margem do Rio Paraná é Pousadas, Argentina.

Invadiu o então Mato Grosso por terra, e reteve um navio brasileiro, o Marquês de Olinda, que transportava o governador do Mato Grosso.

Nossa embarcação capturada, que era civil, foi adaptada e virou navio de guerra da marinha paraguaia. O governador do Mato Grosso permaneceu preso em Assunção até o fim dos combates.

Na ofensiva terrestre, o Paraguai tomou e fortificou Corumbá (atual MS, na época Mato Grosso), e se preparou pra invadir Cuiabá, capital daquela província.

Demoramos quase 4 anos pra retomar de forma efetiva Corumbá, entretanto, de Cuiabá o exército paraguaio não passou nem perto.

Pois não tinha calibre pra tanto. Foi o primeiro de uma série enorme de erros de Solano Lopes, que custaram caríssimo a seu país.

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Vista da Cidade do Leste logo após a ponte com o Brasil. Uma carreta Scania se prepara pra ingressar em nossa Pátria Amada, provavelmente rumo ao Porto de Paranaguá.

A seguir, Solano Lopes pretendia abrir nova frente de batalha, queria invadir o Sul do Brasil,

Pra isso, suas tropas precisavam passar pela Argentina, que negou esse pedido, pois queria ficar neutra no conflito entre seus vizinhos.

Solano Lopes então invadiu a cidade argentina de Correntes, forçando a Argentina a também declarar guerra ao Paraguai em 1865.

Pronto, agora o Paraguai não estava em guerra somente contra um vizinho infinitamente maior e mais poderoso, mas contra dois. Como ao intervir no Uruguai o Brasil foi quem endossou seu presidente, claro que o governo uruguaio por nós empossado também entrou na disputa do nosso lado.

Estava formada a “Tríplice Aliança”, que em pouco tempo poria o Paraguai de joelhos. Na verdade o Uruguai “fazia número”, mandou poucos soldados, e nenhum navio. O jogo bruto foi entre Paraguai contra os 2 maiores, Brasil e Argentina.

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Pedro Juan Caballero, Paraguai

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Após o ataque surpresa paraguaio, rapidamente o Brasil, muito mais poderoso, virou o jogo.

Fizemos a ofensiva deles no Mato Grosso recuar pra defensiva, e nós aí tomamos a ofensiva, avançando por terra e pelo rio rumo a capital Assunção. 

O Paraguai havia saqueado o Mato Grosso, e o Brasil respondeu incendiando cidades paraguaias, e fazendo grande banho de sangue, executando em massa prisioneiros de guerra e civis.

Foi um massacre, e de fato desnecessário. Poderíamos ter apenas batido o Paraguai militarmente, sem ter aniquilado sua população civil. Digo isso mais uma vez pra que não reste dúvidas.

As maiores atrocidades foram cometidas apenas por brasileiros. As tropas argentinas se recusaram a participar dessas piores chacinas.

chaco

A “Guerra Total” contra a Bolívia pelo Chaco (1932-35). Em vermelho as atuais fronteiras paraguaias. Em preto o território disputado. Em verde-claro e rosa dentro do Paraguai o que ficou pra ele, em verde-escuro é da Bolívia.

…………….

Tanto Brasil quanto Argentina aproveitaram o conflito militar pra exterminar propositadamente suas próprias populações negras.

Os soldados negros argentinos e brasileiros iam na linha de frente, praticamente desarmados. Os paraguaios esgotavam sua pólvora matando milhares deles.

Antes da guerra, Buenos Aires chegou a ter um terço de sua população formada por negros (afinal ali também houve escravidão).

Após a guerra a capital argentina era quase que totalmente branca.

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A Argentina alias não participou da ofensiva final.

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Fim-de-tarde na Cidade do Leste. Como vemos a ponte, a foto foi tirada a partir do Brasil

Pois ela enfrentou rebeliões internas e precisou retirar suas tropas do território paraguaio, pois eles eram necessários em casa pra sufocar os levantes.

Coube ao Brasil ir até o final e fazer o Paraguai capitular.    Conforme fomos nos aproximando de Assunção, Solano Lopes foi recuando a capital do Paraguai pro interior.

Pra mais longe das margens do rio, que é por onde a marinha brasileira iria chegar.

A primeira capital provisória foi Luque, ainda ao lado de Assunção, município que eu estive, onde estão localizados o Aeroporto Internacional e a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).

assuncao1

Assunção

Por aí, você vê que não ajudava muito levar o governo pra lá, pois Luque é vizinha a Assunção, sendo hoje praticamente um bairro da mesma. Então outras 3 capitais se seguiram, até a queda de Lopes.

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Simplesmente não haveria como o Paraguai, que tinha meio milhão de habitantes, vencer o Brasil, já com 9 milhões, e isso sem falar na Argentina.

O pai de Francisco Solano Lopes já havia avisado, mas ele não deu ouvidos.

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Assunção – o Sol se põe no Rio

Obviamente quando nossas tropas tomaram Assunção e a seguir em sequência as 4 capitais provisórias do Paraguai, o país que perdia a guerra e era dizimado entrou em caos.

Em desespero, Solano Lopes “enxergou” um complô dentro de suas próprias fileiras. 

E começou a executar comandantes do exército e marinha paraguaios, acelerando uma derrota que já viria naturalmente.

Fica pior: tudo foi desandando, e Solano voltou-se contra sua própria família, pois passou a crer que ali estavam os traidores. Encarcerou vários parentes, incluindo a mãe.

Historia da fronteira Paraguaia

Mapa original (invertido, o norte está pra esquerda), que usei de fonte pra desenhar os dois acima.

A progenitora foi perdoada, mas suas irmãs Mulheres foram expulsas do país.

Pros irmãos Homens, além dos cunhados, os maridos de suas irmãs, a pena foi mais severa: foram condenados a morte.

Um irmão morreu na cadeia, outro e os cunhados foram fuzilados pelo exército paraguaio, num triste espetáculo, que, julgava ele, o levaria afinal a vencer a guerra.

Ou ao menos punir os responsáveis pela derrota.

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Tudo somado, o Paraguai tinha meio milhão de habitantes antes da guerra. Cessados os combates restaram 250 mil. Ou seja metade da população foi exterminada, sendo a maior parte dos Homens em idade militar. Um número altíssimo, sem dúvidas.

Ainda assim, não é verdade que 90% dos paraguaios tenham morrido. Essa estimativa se refere a uma contagem feita por Solano anteriormente ao conflito que apontou que seu país tinha 1,5 milhão de habitantes.

fronteira seca

Essa praça é a fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã-Mato Grosso do Sul

Há fortes suspeitas que esse censo tenha sido grosseiramente falsificado ou mesmo nunca tenha existido.

Já planejando o confronto Solano teria inflado drasticamente os números pra dar a impressão de uma força econômica e militar que não possuía.

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Morreram entre 250 a 400 mil paraguaios, mas nunca 1 milhão, como alguns alegam. Pelo lado brasileiro, foram perto de 100 mil mortos.

Tampouco é verdade que o Paraguai era ‘altissimamente desenvolvido’ e isso chegava mesmo a ameaçar o poderio industrial inglês.

O conto-de-fadas de que o Paraguai não tinha analfabetos ou desempregados antes da guerra é uma mentira estapafúrdia. Ao contrário, a maior parte da população paraguaia sequer sabia falar espanhol, se comunicava em guarani, e não sabia ler ou escrever em qualquer dos idiomas.

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Ainda que a guerra tenha sido iniciada pelo Paraguai, é fato que o Brasil cometeu um massacre.Itaipu

Bastava ocupar militarmente o país. Saques, incêndios, estupros e execuções em massa foram atos de covardia e não de necessidade bélica.

Felizmente, tomamos medidas efetivas pra pedir desculpas, um século depois da guerra. Veja a Usina de Itaipu, que construímos “em conjunto com o Paraguai”.

plocNa verdade o Brasil fez o grosso do trabalho e doou uma parte a nosso vizinho, como uma forma de pedir perdão pelos erros de antes.

Na época foi a maior usina do mundo, depois a China fez uma maior.  A prova é a figurinha do Ploc Gigante, ‘livro guinness informal’  dos anos 80.

Nem em sonhos esse nosso pequeno vizinho teria condições de realizar um décimo dessa empreitada por sua conta. 

A metade paraguaia da usina supre toda a necessidade energética do país, e eles ainda vendem o excedente ao Brasil.

ponte

Aqui e a esquerda, Ponte da Amizade

Falando francamente nós pagamos pra comprar a eletricidade que é produzida pela usina que fizemos.

Não estou me queixando, ao contrário, acho uma justa retribuição.

Já que fomos responsáveis por parte do atraso desse país-irmão, que agora sejamos responsáveis também por desenvolvê-lo.

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Já falamos mais do presente, há mais além de Itaipu. Agora voltemos ao passado, ao século 19. Vejam o mapa logo no topo da matéria: em vermelho, a fronteira atual do Paraguai. Em preto, o território disputado na guerra. O Paraguai perdeu território a oeste (pra Argentina), a leste (pro Brasil) e a sul (pra ambos). 

Melhor dizendo, não ‘perdeu’, porque não era dele, estava em disputa. ‘Teve que abrir mão’ seria mais apropriado. A norte da capital Assunção, vê que eles conseguiram manter um pedaço do Chaco, a vontade da Argentina era pegar o dobro do que já conquistara nessa frente de batalha.

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Agora num belo crepúsculo.

Felizmente pro Paraguai a Argentina enfrentou rebeliões internas na fase final da guerra, e tropas tiveram que ser deslocadas da frente paraguaia pra suprimir a população local.

Se a Argentina pudesse ter centrado força total no conflito contra o Paraguai, teria abocanhado tudo que deseja.

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E o pequeno pedaço que o Paraguai conseguiu salvar do avanço argentino, logo ao norte de sua capital, 6 décadas depois seria alvo da cobiça de outro vizinho: a Bolívia. Era a “Guerra do Chaco” (1932-35), ou “Guerra Total”.

Retornemos novamente ao século 19, pra pormos no contexto. A Bolívia tinha litoral, no Oceano Pacífico, entre o Chile e Peru. Mas aí foi descoberto cobre no Deserto de Atacama, justamente na costa boliviana.

esquadra marinha assunção paraguai rio paraguai navio barco porto armada miltar água fronteira argentina anoitece céu noite crepúsculo fim tarde pôr sol

Marinha paraguaia protege Assunção. Essa foto é de minha autoria.

O Chile ocupou militarmente esse território, se apoderando dos recursos minerais. Foi a “Guerra do Pacífico”, que opôs Chile a Peru e Bolívia, com inconteste triunfo chileno. 

Por isso a Bolívia mantém ativa até hoje sua marinha, como forma de protesto.

O Paraguai também tem marinha sem ter mar, mas é diferente. A marinha paraguaia patrulha o Rio Paraguai, e sua capital é nas margens do rio e é na fronteira.

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Formigueiro humano no Centro da Cidade do Leste: como é sabido, a 2ª maior cidade paraguaia vive do comércio com o Brasil

Na Bolívia, não há grandes rios, a marinha se limita ao Lago Titicaca, em termos operacionais é inútil, existe por motivos políticos.

A Bolívia, no espisódio, perdeu sua única saída pro mar, do que nunca se recuperou. Pouco depois, perderia o Acre pro Brasil, dessa vez sem guerra, numa manobra diplomática.

Na canetada e no canhão, a Bolívia estava tendo seu território dilapidado.

E eles viam ao sul um vizinho, justamente o Paraguai, destroçado por uma guerra selvagem, apenas 60 anos antes, sem ter ainda se recuperado.

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Assunção, em primeiro plano o porto. A esquerda dele o palácio de governo, aquela construção branca com um jardim na frente, ali é o heliponto presidencial, portanto é proibido entrar nele. Descobri isso na prática, não há qualquer sinal avisando, pensei que era uma praça. Imediatamente um soldado com uma metralhadora me mandou sair dali, o que obedeci com toda a rapidez antes que a coisa complicasse.

A Bolívia tinha então 3 vezes mais população que o Paraguai (afinal os paraguaios haviam sido dizimados pelos brasileiros, e em menor medida pelos argentinos).

A diferença de recursos bélicos e financeiros era mais ou menos na mesma proporção, sempre em favor da Bolívia.

Aí, os comandantes bolivianos acharam que levantaria a moral da população enfim vencer uma guerra, e invadiram o Chaco, território semi-árido entre os dois países.

Julgaram que seria uma ‘brincadeira de criança’ derrotar de novo um Paraguai que estava em ruínas. Além disso, rumores circulavam que havia grandes reservas de petróleo no Chaco.

Ledo engano, que custou caríssimo a Bolívia. O enfrentamento terminou com ampla vitória paraguaia, que ficou com 75% do território disputado, cedendo 25% ao rival como apaziguamento.

A Bolívia não contava que a população paraguaia, após ser destroçada na “Grande Guerra”, não pouparia esforços pra vencer dessa vez. O populacho boliviano nem de longe tinha o mesmo entusiasmo.

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Vários erros de cálculo foram cometidos pela cúpula militar boliviana, que alias foi trocada no auge da guerra por incompetência:

povo da montanha x povo da planície– veja a direita o mapa topográfico da América do Sul. A Bolívia é um país do altiplano, dos Andes, da altitude. Já o Paraguai é um país da baixada, da planície.

O Paraguai é o país do Chaco, e a guerra foi no Chaco e pelo Chaco. Ou seja o Paraguai lutava em casa, pela sua casa.

– O Paraguai era mais homogêneo em termos étnicos. Todos no seu exército, do mais raso soldado ao mais elevado general, falavam o mesmo idioma, o guarani.

Na Bolívia a situação não poderia ser mais distinta. O oficialato era da elite branca descendente de europeus, e falava espanhol, ignorando por completo as línguas indígenas. Bem, o comandante supremo da guerra na sua primeira metade era alemão.

Na soldadesca era o absoluto oposto, eram quase 100% de nativos, e eles não entendiam – e nem queriam entender – a língua do colonizador, o castelhano.

A Bolívia tem nada menos que 37 idiomas oficiais. Resultando que os soldados vinham de muitas tribos, e não se comunicavam nem com os oficiais nem entre si.

bolivia - pais da montanha

Em escala maior. A Bolívia é o ‘povo da montanha’. Todas as suas grandes cidades são nos Andes ou ao menos no sopé dele, como o nome indica sua única metrópole plana é Santa Cruz da Serra.

Na topografia como linguística a Bolívia estava em desvantagem, o que já neutralizou sua vantagem econômica e populacional.

Mas há o principal fator, o motivacional: os paraguaios queriam estar ali, queriam acima de tudo essa vitória, pra compensar a derrota anterior.

Por isso a “Guerra Total”. A entrega do país foi mesmo total. Nenhum sacrifício era grande demais, se significasse a vitória após a humilhante derrota anterior.

Há um exemplo que sintetiza tudo. Uma ocasião, o exército precisava de madeira, pra fazer caixas pra transportar as granadas que iriam pra frente de batalha.

A população de Assunção então, em massa e voluntariamente, doou as mesas e cadeiras de suas casas. E passaram então a fazer as refeições sentados ao solo.

Entre os bolivianos, a situação não poderia ser mais oposta. Os soldados eram escravos, recrutados a força nas aldeias da altitude, e pra eles estar ali, naquele deserto na baixada, tórrido, lutando por uma nação que não reconheciam como sua e que sequer falavam seu idioma, era o próprio inferno.

A guerra foi duríssima, dois países pobres destroçados por guerras anteriores se enfrentando. O Chaco é muito, muito quente e seco, um semi-árido. Não haviam recursos materiais como meios de transporte, gasolina, água, comida ou uniformes em quantidade e condições necessárias.

paraguai - pais da planicie

Já o Paraguai é o ‘povo da planície‘. Não há montanhas nessa nação. Como a ‘Guerra do Chaco’ foi travada na e disputando uma planície, natural que ele levou vantagem.

Os soldados eram obrigados a marchar por horas sob sol escaldante, com fome, sede e por vezes descalços.

Haviam também diversas doenças tropicais, entre outras a cólera. Assim, faleceram de fome e doença mais gente que em combate.

No total, caíram mortos 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios.

E no fim os relatos que diziam haver petróleo no Chaco eram falsos. Não havia nada.

Pro Paraguai, valeu e muito, após ter perdido a “Grande Guerra”, venceram a “Guerra Total”. Não eram perdedores crônicos, afinal.

Pra Bolívia, a Guerra Total acabou em desastre total. Após perder o litoral do Pacífico na guerra contra o Chile e o Acre na canetada, suas pretensões sobre o Chaco acabaram da mesma forma, a nação derrotada e endividada.

Veja o mapa (busque pela legenda), em vermelho de novo as fronteiras atuais paraguaias, em preto o território disputado na Guerra do Chaco. O Paraguai ficou com ¾, cedeu ¼ como demonstração de boa vontade, a parte em verde escuro, fora da linha vermelha.

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Estádio Defensores do Chaco: tudo no Paraguai remete as duas maiores guerras que o país passou.

Compare os dois mapas e repare que um pedaço que a Bolívia pretendia abocanhar já havia sido alvo de cobiça argentina, na guerra anterior, e foi a única parte que o Paraguai reteve então.

Ou seja, uma parte do Chaco ao norte de Assunção o Paraguai precisou passar por duas guerras severíssimas pra poder manter.

Coloquei no ar  o mapa original que usei pra elaborar esses dois anteriores – repare que ele está inclinado, o norte pra esquerda. E também mais um mapa das perdas paraguaias no embate contra Brasil e Argentina.

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É notório que houve forte imigração alemã pro Paraguai, a única etnia europeia lá presente, a parte dos espanhóis obviamente.

Pois bem. Em 1912, na cidade paraguaia de Encarnação (fronteira com Pousadas, Argentina) encarnou justamente Alfredo Stroessner, filho de alemão (daí o sobrenome) com paraguaia. Ele lutou na Guerra do Chaco, como tenente.

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Centro da cidade de Encarnação.

Pelo seu desempenho nas batalhas da guerra civil de 1947 ele é promovido a general no ano seguinte.

Stroessner, ascendendo na carreira, em 1951 foi nomeado chefe das forças armadas. Em 1954, ele comandou um golpe de estado, se tornando ditador, onde ficou até 1989.

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O curioso é que ele queria dar um verniz de legalidade, e mudou a constituição pra permitir a re-eleição indefinidamente. Assim Stroessner se “re-elegeu” presidente 8 vezes, em eleições fraudulentas em que era candidato único.

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Assunção a noite, suas luzes espelhadas no Grande Rio Paraguai

Ele mudou o nome da segunda maior cidade paraguaia. A atual Cidade do Leste foi fundada como “Porto Flor-de-Lis” (quanta fofura….).

Mas depois do golpe de 54 renomeada “Presidente Stroessner”, como os mais velhos se lembram. Cheguei a ir lá duas vezes quando ela se chamava assim, em 1985 e 1988.

Na República Dominicana foi pior. Pois o ditador renomeou a capital em seu nome, Santo Domingo se chamou ‘Cidade Trujillo’ de 1930-61.

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Voltemos ao Paraguai e seu generalíssimo. Ele se auto-denominava “Dom” Alfredo Stroessner, e assim constava nas placas que marcavam inaugurações de seu longo governo de 35 anos. Como é sabido, em espanhol o título “Dom” denomina nobreza, caráter superior, meio que como o “Doutor” no Brasil.

Falar em nossa Pátria Amada, comentamos que a construção de Itaipu foi uma forma justa de compensarmos os massacres de guerra que cometemos nas terras dessa nação-irmã nossa.

BR-277 pr mapa rodovia estrada pguá foz fo iguaçu ctba cascavelMas não parou por aí. O governo brasileiro também construiu a BR-277. Falamos sobre ela na mensagem sobre as rodovias brasileiras.

Vejam o seu traçado, que corta o Paraná de ponta a ponta, no sentido leste-oeste: 

Começa no Porto de Paranaguá, e termina Ponte da Amizade, Foz do Iguaçu, justamente na fronteira com o Paraguai.

A seguir o Brasil cedeu uma parte do Porto de Paranaguá ao Paraguai. Por um acordo de cavalheiros a aduana brasileira não se intromete nas cargas que chegam ou saem do Paraguai.

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Resumindo, o Brasil tem se esforçado pra ajudar a re-erguer o Paraguai, já que fomos também em parte responsáveis por sua queda.

três bandeiras assunção paraguai caminhão argentina brasil americana amizade tri nacional

Caminhão em Assunção com as bandeiras do Brasil e Argentina ao lado da paraguaia: nosso país é muito amado no Paraguai. Se depender de mim a recíproca é totalmente verdadeira. Foto de minha autoria.

Deu certo. As desculpas foram aceitas. O Brasil é muito querido, muito admirado no Paraguai.

Espontaneamente o povo paraguaio pinta nossa bandeira em seus ônibus e caminhões. Observe ao lado

Andam com camisas dos times daqui, pois acompanham nossos campeonatos. Ouvem muita música brasileira, desde a refinada até a de péssima qualidade. E por aí vai.

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Como é notório, esse pequena e sofrida nação passou por uma série de golpes de estado em sua história. O último deles ocorrido a menos de um ano (escrevi em maio de 2013), ocasionando resultado trágico pro país, que foi suspenso do Merco-Sul.

Chacarita Centro Assunção

Pôr-do-Sol no Rio Paraguai. Em primeiro plano a favela da Chacarita, Centrão da capital.

O presidente recém-eleito em 21 de abril (de 13), Horácio Cartéz, já declarou entretanto que assim que ele assumir o Paraguai retorna ao bloco.

Desmantelando a confusão política que se instalou com a recusa em aceitar a Venezuela como membro efetivo do Merco-Sul.

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O Paraguai é comandado pelo Partido Colorado”, que governou o país ininterruptamente por mais de 60 anos. Qualquer semelhança com o Partido Revolucionário Institucional mexicano não é mera coincidência.

Escrevi acima como Alfredo Stroessner foi subindo na hierarquia político/militar do país, que então era uma e a mesma.

Em 1947, o Paraguai entrou em guerra civil, na chamada “Revolta dos Pynandí” (pés-descalços, em guarani), que resultou em diversos massacres na capital e no interior. Stroessner participou e comandou várias dessas batalhas.

praia rio parana

Galera refresca o calor em praia do Rio Paraná, Encarnação, Paraguai. Na margem oposta está a Argentina. O Paraguai é habitado por um povo que gosta de residir em fronteira, a capital e suas 3 maiores cidades do interior são no limite com as nações vizinhas.

A luta foi vencida pelo Partido Colorado, que desde então se enraizou no poder, pra não mais deixá-lo, exceto no breve governo de Fernando Lugo, que o Partido Colorado encerrou com mais um golpe.

Mas já voltamos ao presente. Por hora, voltemos as consequências da matança que dizimou o Paraguai em 1947.

O Partido Colorado consolida-se no poder, auxiliado pela marinha da Argentina (que enviou dois navios) e pelos militares ianques.

800 mil paraguaios se refugiam na Argentina. O Paraguai mergulha em caos econômico e político.

Alfredo Stroessner, pelos bons serviços prestados, é elevado a general no ano seguinte, o mais jovem general de toda a América do Sul, com 36 anos.

3 anos depois, em 1951, Stroessner se filia oficialmente ao Partido Colorado.

fronteira seca1

De um lado da avenida é Ponta Porã(MS)-Brasil. Do outro é Pedro Juan Caballero-Paraguai.

Em 1954, Alfredo Stroessner é elevado a comandante das forças armadas. Não perde tempo. No mesmo ano organiza golpe militar e se torna presidente, cargo que ocupa até 1989, como já dito e é de domínio público.

…………

A Lei de Ação e Reação é fatal e inexorável. Em 1954 Stroessner era o braço direito do presidente, e organizou um golpe pra ficar no seu lugar.

Em 1989, foi o inverso. O também general André Rodrigues, braço direito de Stroessner, deu um golpe de estado, e tomou o lugar se seu ex-chefe.

Assuncao-Paraguai4

Assunção

André era um dos homens mais ricos do Paraguai, não por outro motivo comandante militar. 

Já que em países pequenos e muito militarizados as elites econômica, política e militar geralmente são uma e mesma.

Ainda assim, ele deu ao Paraguai um pouco de liberdade civil: aboliu a pena de morte e revogou o estado de sítio que perdurou ininterruptamente por mais de 3 décadas.

Seu sucessor foi João Carlos Wasmosy (lembre-se, eu aportugueso todos os nomes, que originalmente são em castelhano), mais um membro do Partido Colorado, esse ficou rico na época da construção de Itaipu.

fronteira seca2

Fronteira seca entre Brasil e Paraguai. Uma avenida – e em alguns trechos uma área verde – separa Ponta Porã de Pedro Juan Caballero, como alguém já assinalou.

Além de ser amigo íntimo da família Stroessner (reconduziu ao poder vários integrantes da ditadura de “dom” Alfredo).

Ainda assim, João Carlos foi o primeiro presidente eleito do Paraguai, senão em toda a história, em muitas décadas.

O Paraguai seguiu sempre na mesma balada, o Partido Colorado usando de qualquer meio necessário pra se manter no comando.

Depois de João Carlos, o Paraguai foi governado por Raul Cubas, por apenas 6 meses.

Em 1996, houve mais uma tentativa de golpe de estado, comandado pelo general Lino Oviedo, em que muitos massacres se seguiram. Raul foi eleito em circunstâncias extremamente tumultuadas, e 3 dias depois da posse libertou o general golpista.

Só que 6 meses depois metralharam o vice-presidente Luís Arganha. O recado era claro, Raul entendeu. Pra não ser o próximo ele renunciou.

Ponte2

Vamos ver duas tomadas da construção da Ponte da Amizade. Essa é ainda do início das obras, na década de 50.

Assumiu o presidente do senado, Luís Ângelo Machhi, que em 2000 enfrentou novo golpe de estado, que dessa vez não frutificou.

Passou o poder a Nicanor Duarte, o qual também sofreu tentativa de assassinato em 2008, agora por envenenamento.

Todos esses presidentes pertencem ao Partido Colorado, e os golpistas que tentam derrubá-los também, é o partido único paraguaio.

……………

Até que em 2008 pela primeira vez o Partido Colorado precisa ceder a presidência a outro grupo. O esquerdista Fernando Lugo foi eleito com boa margem sobre a candidata do Partido Colorado, que pela primeira vez era uma Mulher.

ponte

Com as obras um pouco mais avançadas. Cortaram a fita, em 1965, os presidentes Castelo Branco e Alfredo Stroessner, ambos militares que não haviam sido eleitos.

Lugo teve origem humilde, e sua família fora duramente perseguida pela ditadura de Stroessner. Seu tio e alguns irmãos foram exilados, e seu pai foi preso mais de 20 vezes.

Documentos vazados pela ‘Wikileaks’ revelam que os EUA tramava pra destituir o presidente desde o dia de sua vitória.

(Nota: Originalmente eu escrevi ‘wikipedia’ no lugar de ‘wikileaks’, perdão pela confusão.)

O desejo das elites ianque e paraguaia se alinharam pra reverter a vontade do povo paraguaio.

Dito e feito: em 15 de junho de 2012, num massacre numa reintegração de posse numa fazenda 11 sem terra e seis policiais morreram.

Assuncao-Paraguai2

É noite na capital do Paraguai. Aquele galpão no canto inferior é a antiga estação ferroviária – hoje o país não tem mais trens ativos em larga escala, só algumas linhas isoladas. A esquerda está a favela da Chacarita, e logo a seguir o rio.

5 dias depois, foi instalado processo de cartas marcadas de impedimento.

Em apenas 2 dias, sem qualquer chance de defesa, Lugo foi afastado do cargo.

Golpe baixo”, como as pichações políticas no Centro de Assunção deixam claro.

Foi um golpe civil, com fachada legalista.

……….

Entre o crime na fazenda (o suposto detonador, na verdade um pretexto) e a destituição do presidente se passou somente uma semana.

Assuncao-Paraguai1

Assunção

Entre a abertura formal do inquérito e sua conclusão – com o resultado pretendido pelas Oligarquias paraguaia e estadunidense – foram apenas 48 horas.

Na sessão que consolidou o processo o senado concedeu a Lugo 2 horas pra preparar e apresentar sua defesa.

Isso mesmo, meros 120 minutos. Vendo que as cartas estavam marcadas ele se recusou a ratificar o processo fraudulento e não se pronunciou.

cidade do leste

Cidade do Leste

De forma que o primeiro presidente de esquerda eleito no Paraguai se foi. Nas eleições de 21 de abril desse ano (2013), ganhou Horácio Cartez. Do Partido Colorado.

………..

E é aqui que a história do Paraguai mais uma vez se entrelaça com a do Brasil, Argentina e Uruguai.

Como é sabido, esses 4 são os sócios-fundadores do Merco-Sul. Em seu processo de ampliação, o bloco passou a contar com a Venezuela como membro temporário.

Interessava ao Brasil e Argentina (os cabeças do esquema, por sua maior força populacional, econômica e política) colocar a Venezuela como membro pleno, e ambos e mais o Uruguai já haviam ratificado.

Assunção vista do Monte Lambaré1

Capital paraguaia vista do Monte Lambaré, um de seus parques mais bonitos.

Só que o Paraguai se recusava, e o estatuto do Merco-Sul exigia unanimidade. Com o golpe que destituiu Lugo, os outros foram rápidos e suspenderam o Paraguai do grupo.

Assim, a Venezuela entrou por unanimidade entre o trio que permaneceu. Houve rodízio no Merco-Sul: sai o Paraguai, entra a Venezuela.

E enquanto não voltasse atrás ficaria fora. O presidente eleito Horácio Cartéz entendeu o recado.

Já avisou a prioridade máxima é a re-inclusão do Paraguai no Merco-Sul, e pra isso declarou que aceita a inclusão do país caribenho, que alias fato consumado: “a Venezuela já está dentro do Merco-Sul”, declarou ele admitindo  a derrota.

Intermediado por Brasil e Argentina, o novo presidente paraguaio conversou com seu colega venezuelano, reconheceu-o como mandatário legítimo e ele inclusive estará na posse em Assunção.

Paraguay-Asuncion

Assunção

Alias “posse” no espanhol paraguaio é exatamente “assunção”.

De forma que a imprensa fala que Cartéz terá sua ‘assunção em Assunção’, em 15 de agosto (de 2013, o texto foi escrito em maio desse mesmo ano).

…………….

Comentemos as imagens, espalhadas pela matéria (busque pelas legendas):

Tomada aérea de Assunção. Seus relativamente poucos prédios altos, a baía, o rio, e destacada a favela Chacarita.

Assunção vista do Monte Lambaré

Pôr-do-Sol visto do Monte Lambaré, Assunção

Duas fotos também mostram “Chaca”, como é popularmente conhecida.

A invasão começa exatamente atrás do Congresso, e margeia todo o Centrão, entre este e o rio.

Veja nessa outra mensagem fotos tiradas por mim no local.

Aquele pátio com as escadas brancas é nada menos que o ministério da educação paraguaio.

Abaixo dele havia uma rua. Havia. A favela tomou conta. Veja. Há um prédio, provavelmente extensão de algum ministério, e no vão dele os miseráveis se espremem.

……………………..

Na imagem a direita que vemos uns barracos na barranca do rio não é Chacarita. Trata-se de uma outra favela que não sei o nome.

Como lhes disse, as favelas de Assunção se agrupam em dois grandes complexos, o Banhado Norte (do qual Chacarita é a primeira vila, seu ‘cartão de visitas’). favela assuncao paraguai

E o Banhado Sul, do qual a última vila é a favela que está no lixão de Assunção.

Então, essa vila aqui retratada não faz parte nem do Banhado Sul, nem do Norte, pois está no meio de ambos, sem se ligar fisicamente a nenhum.

Preferiu se manter neutra nesse grande alinhamento, a única favela da cidade a tomar essa opção de ficar isolada.

………..

Vimos tomadas tiradas do alto do Monte Lambaré.

E pra fecharmos com o que é belo, bonita imagem do Porto de Assunção.

…………

É isso aí galera. De A a Z, do preto até o branco, da Vila Morra a Vila Elisa, de Chacarita a Luque,

Assim é o Paraguai.

…………..Porto de Assunção

Que Deus ilumine esse sofrido país, bem como a todos os Homens e Mulheres da Terra.

Paz a toda humanidade.

Deus proverá”

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Um comentário sobre “a “Grande Guerra”, a “Guerra Total” e “dom” Alfredo: a violenta história do Paraguai‏

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