Ao lado do congresso, a Chacarita: bem-vindo aos Banhados de Assunção

Congresso Nacional Centrão1

Congresso Nacional no Centro de Assunção, as margens do Rio Paraguai: prédio espelhado, veja quanto luxo !!!

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 26 de maio de 2013

Essa mensagem completa a série sobre o Paraguai.

Quase todas as fotos foram tiradas por mim ‘in loco’, maio de 13. As poucas que foram puxadas da rede informo com um (r) na legenda.

Vamos falar um pouco das periferias e favelas de Assunção – nesse vizinho país ‘favela’ se denomina ‘banhado’.

Porque as favelas se concentram na margem do Rio Paraguai.

Favela Chacarita - Congresso Nacional Z-C

Agora olhe pra trás: ali mesmo, na escadaria da praça do congresso, já começa a Chacarita (“Fazendinha”), a favela mais famosa de Assunção.

Há dois complexos, dois aglomerados (como diriam cariocas e mineiros) grandes de favelas na capital paraguaia, o ‘Banhado Norte’ e o ‘Banhado Sul’.

A maior e mais famosa favela é a Chacarita, é bem no Centrão da cidade, como já foi mostrado nessa outra postagem. É a Rocinha, a Vila Capanema paraguaia, sua favela-símbolo, arquétipo.

Isso porque ela começa exatamente atrás do congresso nacional.

Você está na entrada do mesmo, um prédio de vidro espelhado muito bonito, e olhando pro outro lado vê barracos com fiação de gato, ruas de terra, lixo e comida pela rua – e o mais impressionante: enorme criação de porcos se alimentando dos dejetos.

É surreal, mas é absolutamente real. É o Paraguai sem máscaras, como ele é.

porcos soltos em pleno Centrão

Chacarita: porcos soltos na rua em pleno Centrão

……..

Comecemos do começo, até cronologicamente. Assim que desembarquei no aeroporto, me ofereceram táxi. Recusei, e fui pra avenida pegar o ônibus urbano, que é o que sempre faço.

Não ando de táxi, nem em Curitiba e nem em minhas viagens quando estou sozinho, apenas se estiver acompanhado de minha família.

Pois assim já vou estudando o transporte coletivo da cidade.

porcos soltos em frente ao Congresso

Em escala ampliada: exatamente em frente ao congresso os bichos comendo lixo, tem que ver pra crer

Chegando ao Centro, localizei o hotel, me registrei e saí de novo, andar pelo entorno – já era fim de tarde e não daria mais pra ir a algum subúrbio, teria que ficar pelas imediações.

O Centro está num pequeno planalto. Então fui descendo a rua, em direção a razão de existir daquele país, o Rio Paraguai, que inclusive o nomeia. 

Cheguei numa praça onde há o moderníssimo prédio do congresso, todo espelhadoBonito, certamente: mas veja o que há do outro lado da rua:

Congresso Nacional Centrão

Visto de mais longe, o Congresso

Uma enorme favela, absolutamente miserável, a famosa “Chacarita” (como já dito acima), onde porcos são criados soltos, e ao fim de tarde se alimentam dos restos que os mercados desovam.

No Coração da cidade e do país, em seu epicentro político. Os barracos da Chacarita estão literalmente abaixo de alguns prédios ministeriais.

O Luxo ao lado do Lixo. Bem-vindo ao Paraguai, meu irmão.

Grande Assunção

Grande Assunção: clique sobre o mapa pra ampliá-lo.

No Paraguai, não é força de expressão dizer que os porcos se reúnem no Congresso, e estão bem gordos, de tão bem-alimentados. É literal, dimensão física.

………….

Se essa favela fosse no Brasil, seria chamada “Fazendinha”. E uma ‘fazendinha‘ é o que de fato ela é. E não apenas ela: 

Em todas as favelas – e também nos subúrbios distantes – de Assunção porcos, galinhas e bois são criados, o gado preso, mas as aves e os suínos andam soltos, pelo meio da rua, como pode ver aqui.

Favela Chacarita - Congresso Nacional Z-C[1]

Chacarita é 1ª vila do “Banhado Norte“, um dos dois complexos/aglomerados de favela da cidade.

Apenas na Praia de Jericoacoara-CE eu havia visto porcos andando livremente pelas ruas, entre os humanos, como se fossem animais domésticos urbanos.

Tudo tem uma segunda vez, não é mesmo?

Agora, Jericoacoara é uma praia perdida no fundão do litoral cearense, onde alias não se chega de carro.

Só há estradas até uma cidade próxima, que fica a mais de 30 km.

Dali pra frente tem que se seguir em caminhões ou ‘buguis’, pois tem que passar pelo meio das dunas.

aterro sanitário1

Aterro sanitário de Assunção, na margem do Rio Paraguai. O chorume corre pra lá.

É portanto um local de certa forma esquecido pela civilização capitalista e consumista, parecida com os Lençóis Maranhenses

Alias é bem próxima deles (estive lá no já distante ano de 1989, não sei se a situação se modificou desde então).

Então numa praia nos confins do Ceará, isolada de tudo e todos, onde não se chega de carro, ver porcos soltos na rua não causa tanto impacto.

………..

lixão de Assunção

Bem ao lado do lixão (circulado em amarelo) está a favela chamada Cateúras. Já veremos em escala maior os detalhes em vermelho.

Em Assunção a experiência foi mais chocante porque, pombas, eu tava ao lado do Congresso Nacional. 

Oras, eu já estive nas capitais nacionais do Brasil, Colômbia e México (e depois que escrevi esse texto também República Dominicana, Chile, Argentina e África do Sul).

Além disso, em quase todas as capitais estaduais brasileiras.

Também já fui a ‘Miami’ e Nova Iorque-EUA, que não são capitais estaduais mas ainda assim centros de poder importantes no estado (ambas) e em nível nacional e mundial, no caso de Nova Iorque.

aterro sanitário

Caminhão descarrega lixo no aterro

Em todas as cidades citadas a sociedade se empenha em fazer com que os edifícios que abrigam as sedes de suas instituições políticas/econômicas sejam um cartão de visitas.

Digo, por dentro, moralmente, são corrompidas e corruptas (inclusive e principalmente nos EUA).

Mas por fora, fisicamente, os centros de poder material político, econômico, militar, midiático, etc, dessa civilização são sempre impecáveis.

criação de porcos na favela Banhado Sul

Na vila de Cateúras também se criam porcos soltos, como em todas as favelas do Paraguai

Então se eu já havia visto porcos andando soltos pelas ruas em total harmonia com os Homens e Mulheres, certamente me foi inédito vê-los ao lado do marco zero da pátria.

Tudo tem uma primeira vez, pois esse choque elevou essa experiência a uma nova dimensão.

Conseguiu tornar inédito o que já havia ocorrido antes. É o Paraguai.

…………

Banhado Sul

Cateúras é penúltima vila (a 2ª mais longe do Centro) do “Banhado Sul”

Embora não esperasse ver suínos bem gordos em via pública, eu já sabia antes de ir lá da existência e localização da favela Chacarita no Centrão de Assunção.

Estudar esse tema é o que faço desde sempre, afinal. 

Inesquecível é a cena em que a câmera está filmando o Palácio Presidencial paraguaio, e aí o equipamento gira alguns graus, e você vê uma enorme e miserável favela, justamente nos jardins do palácio. 

Favela do Lixão1

Os moradores de Cateúras vivem de revirar o lixo, a cena é triste e trágica, coisa de 4º mundo mesmo

Depois que assisti, num documentário anos atrás, essa sequência nunca mais me saiu da mente.

Assim que o ‘Google’ Mapas jogou imagens de satélite de Assunção (pelo alto, ‘visão de rua’ ainda não), a primeira coisa que fiz foi voltar minha atenção pra essa região, e fiquei sabendo nome e localização exata.

Antes de viajar, o título dessa postagem já estava planejado, porque já conhecia a Chacarita. Fui pra beira do rio exatamente por causa dela.

………..

Favela do Lixão

Tirei essa foto do alto do Monte Lambaré. Eu estive em Chacarita, mas Cateúras eu só vi de cima. Entrei numa favela vizinha a ela, entretanto, no sopé do Lambaré.

Veja o mapa. Há dois enormes complexos de favelas em Assunção.

Chacarita, bem no Centro, é a primeira do “Banhado Norte”, e elas seguem entre a Avenida Artigas e o rio. Do outro lado da cidade há o “Banhado Sul”. 

Quase todas as favelas de Assunção pertencem a um dos dois banhados, exceto duas, vistas abaixo. Preferiram ficar neutras nesse grande alinhamento, estão isoladas.

Essa a esquerda está perto do porto, mas antes do Banhado Sul.

favela z/c assunção paraguai miséria barracos periferia quebrada papelão margens rio palafita banhado barranca

Favela na margem do rio (r). Essa não pertence nem ao Banhado Sul nem ao Norte, é neutra, no meio de ambos. Como explicado acima, as imagem com esse (r) foram puxadas da rede.

É das mais miseráveis, como a imagem mostra, bem na barranca do rio.

As outras favelas tem partes muito desgraçadas ao lado de outras relativamente já urbanizadas.

Voltando ao que dizia acima, em todos os banhados de Assunção animais são criados soltos entre as casas.

É fácil de entender o porque:

Até os anos 60, o Paraguai era um país majoritariamente rural, 90% da população vivia no campo, em regime de agricultura familiar.

favela Morro São Gerônimo Centro Velho assunção rio paraguai marinha quartel general militar sede comando maior forças armadas casa madeira

Favela São Gerônimo, no Centro Velho, atrás do Quartel-General da marinha, a esquerda. Ela também é neutra, não faz parte de nenhum Banhado.

Se quase todos eram muito pobres – a grande maioria não tinha sequer energia elétrica, por exemplo – pelo menos ninguém morria de fome.

 Aí começaram a se instalar no país latifúndios de monocultura de gado ou soja pra exportação. 

Boa parte delas exploradas pelos chamados “brasiguaios”, brasileiros (muitos deles gaúchos) que adquiriram enormes extensões de terra no país vizinho, a preços irrisórios.

Isso foi bom ou ruim? Depende do ponto de vista analisado. Pra economia, pro PIB paraguaio, pro desenvolvimento do agronegócio e tecnologia, foi excelente. 

criação de vacas Vila Elisa ZS

Criação de vacas na Vila Elisa, distante subúrbio metropolitano da Zona Sul. A periferia de Assunção é semi-rural.

Entretanto, socialmente foi péssimo.

Centenas de milhares de pessoas que viviam da terra foram dali expulsas, indo inchar as favelas e subúrbios da Grande Assunção já a partir dos anos 60.

E quando se iniciou a construção de Itaipu nos anos 70 também da região metropolitana da Cidade do Leste.

As favelas do Brasil também cresciam descomunalmente no mesmo período.

Mas há uma diferença fundamental. Os retirantes nordestinos apinharam as favelas do Rio e São Paulo.

Grande Assunção SA ZS

Município de Santo Antônio, Z/S (vizinho a V. Elisa, fui a pé do local da fota acima praqui): muito verde, ruas de terra, um cara anda de charrete. Parece interiorzão, mas ainda estamos dentro da cidade.

Só que eles iam pra um local onde havia trabalho. Empregos precários, é certo, muitas vezes sem carteira assinada e com salário de subsistência.

Ainda assim, comparado com o Paraguai, essa situação brasileira se configurava paradisíaca.

Em Assunção simplesmente não haviam empregos. Nem precários, informais e de subsistência, e muito menos efetivos.

A massa foi pra cidade não por ter sido atraída pra ali, mas por ter sido expulsa do campo.

Uma situação que lembra a Nigéria, e, bem, os banhados de Assunção são tão miseráveis quanto os de Lagos, nesse país africano.

fim da cidade Santo Antônio ZS

Santo Antônio: a periferia de Assunção tem densidade baixíssima por km2, ao contrário do Brasil, Colômbia, México, Chile, a maioria dos países resumindo. No Paraguai é diferente, eles não gostam de prédio nem de laje, então a cidade vai se espraiando pra muito longe, dando ar semi-rural aos seus arrebaldes.

O que chamamos de “favelas” hoje no Brasil são algo que os moradores dos banhados de Assunção sonham em viver na próxima encarnação.

Se nessa eles aceitarem resignadamente seu carma.

E aqui chegamos nos animais.

Forçados a viver em barracos de papelão na selva de pedra, sem ter no que trabalhar, os favelados paraguaios, recém egressos do interior, trouxeram com eles seus porcos, galinhas e gado.

E continuaram a criá-los na metrópole.

Teve tripla função:

De fome pelo menos ninguém morreu, gera uma renda extra com a venda da carne aos mercadinhos e ocupa a mente, pois houve tempos ainda mais negros em que o desemprego real beirava os 90% dentro da favela.

Depois que escrevi esse texto fui a João Pessoa e República Dominicana, no mesmo ano de 2013, e a África do Sul em 2017. Constatei que nos subúrbios mais distantes da capital paraibana igualmente as pessoas criam animais pra comer, porcos, vacas, até mesmo bodes.

Vila Elisa Zona Sul metro4

Outra da V. Elisa: veja quanto espaço entre uma casa e outra. Estamos num dos bairros mais pobres da Grande Assunção.

Mas na periferia sim, na Área Central obviamente inexistente. A questão é que em Assunção a maior favela é no Centrão.

nas periferias da ilha caribenha é comum vermos galinhas soltas nas ruas, mas outros bichos não.

Enquanto que em alguns dos bairros mais miseráveis da África do Sul igualmente as pessoas têm cabras e bodes pra ajudar na alimentação, tradição em todo continente. Fotografei em Klaarwater, Grande Durbã.

Mas, novamente tanto no Caribe quanto na África, vemos bichos nas ruas nos subúrbios mais distantes, no Centro jamais. Daí meu choque em Assunção.

………….

No dia que cheguei ao Paraguai (era 5ª feira), meu único contato com a Chacarita foi esse descrito na abertura da matéria, bem superficial.

Vila Elisa Zona Sul metro corcel 1

Casa típica da periferia do Paraguai: pobreza – em 2013 o Corcel 1 ainda é o carro da família -, sem muro, quintal enorme, em alvenaria. Também na V. Elisa. As vezes, a periferia paraguaia se parece com a da África do Sul.

No domingo, entretanto, debaixo de muita chuva, serpenteei por entre seus becos e vielas, pra ver como ela é por dentro. 

Contemos como foi esse dia. Acordei, tomei café e saí pra andar pela cidade.

Mesmo com o toró estava ocorrendo a meia-maratona de Assunção.

A chegada era numa praça, fiquei ali alguns minutos vendo os corredores cruzarem a fita final.

Logo abaixo da praça começa a favela – ‘logo abaixo’ é literal, pois várias casas estão se equilibrando precariamente nas barrancas fluviais.

favela se formando Vila Elisa ZS metro

Favela se formando na Vila Elisa, maio de 13. São bem poucas as favelas longe das margens do Rio Paraguai. Essa é uma dessas exceções.

Pelo menos até que a próxima cheia carregue tudo rumo a Argentina, rio abaixo.

Diversos garotos da favela cercavam a praça onde se concentrava a festa de chegada da maratona.

Por conta disso, um exército de seguranças (particulares e da polícia nacional) faziam um cordão de isolamento, pra impedir que eles molestassem os corredores e seus acompanhantes.

Essa situação de tensão é permanente. Afinal, a favela está ali, as portas do congresso, palácio e ministérios, e não vai sair.

favela depósito de lixo VE ZS

Em escala maior, a favela na Vila Elisa – ao lado um lixão clandestino.

O Centro de Assunção e Chacarita tem que achar uma forma de co-existir.

Uma relação difícil. Mas fazer o quê?

Chacarita existe, é o retrato do Paraguai, e a burguesia e elite têm que conviver com ela.

E existe bem aonde, né?

No Centrão, no marco zero, no ponto mais ‘nobre’ da cidade.

Vila Elisa Zona Sul metro

Vila Elisa: pichação da torcida organizada “Comando”, do Cerro Portenho.

Mesmo papel que o Aglomerado da Serra desempenha em Belo Horizonte-MG.

Uma favela bem grande, talvez não a maior da cidade, mas sem qualquer réstia de dúvidas a mais famosa, incrustada no seu núcleo mesmo.

E as semelhanças não param por aí, em ambas, na Serra e na Chacarita, eu fui domingo de manhã, e ambas chovia, por vezes torrencialmente.

De forma que saí do ponto final da maratona e comecei a andar pelo Centro de Assunção, alternando entre o asfalto e a favela.

Monte Lambaré

Monte Lambaré: do alto dele (onde há aquela capela) tirei várias fotos dessa e de outras postagens. Subi a pé num calor infernal, veja o termômetro abaixo.

Passei pela antiga estação ferroviária, agora desativada – o Paraguai não tem mais trens ativos, exceto pouquíssimas linhas isoladas que não se conectam entre si.

E entrei em um beco da Chacarita, cruzei-a inteira de ponta a ponta.

Mas a parte mais difícil fisicamente ainda estava por vir. Não por acaso as favelas de Assunção se chamam “banhados”. 

Nessa viela é uma parte antiga, já aterrada.

E portanto você pode andar por ela normalmente, com certo grau de normalidade. Mas ao chegar na várzea do rio havia um pedaço revém-invadido, miserável.

Vila Morra ZL DF4

Vila Morra, bairro de classe alta dentro do município de Assunção, entre as Zonas Central e Leste.

Melhor dizer, em processo de invasão (em maio de 13), pois novos barracos são erguidos dia-a-dia. 

E depois, bem, um banhado. Os porcos chafurdavam na lama. Atravessei o lodoçal, o pé afundava inteiro no barro até o início da canela.

Sob chuva, só havia eu e os suínos ali. Por fim logrei atravessar tudo e sair na novíssima Avenida Costeira, ainda em obras.

Foi curioso, sabe? Fiquei filosofando sobre a situação. Domingo de manhã, muita chuva, e eu andando entre os becos da favela mais temida de um outro país, cuja simples menção do nome faz a burguesia local se arrepiar.

mansões ao pé do morro ao lado da favela

Nas imediações do Lambaré há umas favelas bem feias. Mas há também um bairro de classe alta, com sobrados de alto padrão.

Mas a mim não. Estava eu lá, em seus charcos, literalmente entre os porcos. Minha missão na Terra é realmente peculiar.

………

Fiquei um bom tempo ali limpando a lama que subiu até acima da barra da calça, e depois prossegui, rumo a Zona Norte.

A nova Costeira que está surgindo é uma imponente avenida, com 3 pistas de cada lado. Pretende ser parte de um parque em pleno Centro, com varandas pro rio, jardins, canchas de esporte, etc.

Ao lado da parte miserável, recém invadida, havia um conjunto habitacional construído pelo governo, pra onde foram transferidos moradores dos barrancos mais insalubres da favela. Há poucas dessas cohabs por lá.

Apenas muito recentemente o Paraguai começou a olhar pra questão social. Antes, tudo era caso de polícia. Bem, a democracia paraguaia é um bebezinho, eles viveram quase toda sua história sob regime autoritários.

mansões ao pé do morro DF

Em escala maior, veja que belas flores.

Atualização. Esse texto é de maio de 13. No mês seguinte fui a Belém-PA, onde me deparei com uma situação parecida:

Passei por uma avenida recém-construída na margem do rio que foi feita pra ser um parque pra população mais carente.

Ali também favelas estavam sendo urbanizadas e virando cohabs, com moradia civilizada. Logo jogo no ar esse texto.

……….

Vila Morra ZL DF

V. Morra.

De volta a Assunção. Fui seguindo a Costeira, por enquanto pouquíssimo utilizada, levou mais de meia hora pra passar um carro sequer.

Pois é nova, ainda em obras, os moradores locais não se habituaram com ela.

E dali fui vendo as outras favelas do Banhado Norte, emendados com a parte mais central da Chacarita.

É uma parte absolutamente miserável, barracos de papelão em meio ao charco, lixo, gatos de eletricidade roubada, muito lixo, e uma quantia enorme de porcos, galinhas e gado.

rua comercial Vila Elisa Zs

Essa rua divide os subúrbios metropolitanos de Lambaré e Vila Elisa, Zona Sul. Um táxi amarelo. No Paraguai – e também na Colômbia – todos os táxis, de todas as cidades, são nessa cor.

Como essas favelas são na beira do rio, vi que os moradores pescam também, tem pequenos barquinhos que utilizam pra esse fim.

Tanta destruição, as pessoas sobrevivendo, e não vivendo, lembra as piores favelas da África.

Assunção tem relativamente poucas favelas, bem menos que as cidades do México e da Colômbia, e também Bolívia, Venezuela e Peru.

Mas alguns dos banhados do Paraguai são indescritivelmente miseráveis.

Quase no fim da novíssima avenida há um outro conjunto habitacional também em obras, pra onde serão transferidas mais de uma centena de famílias das piores partes do banhado.

Vila Morra ZL DF1

Vila Morra

Acabou a Costeira, entrei na Avenida General Artigas, rumo ao Jardim Botânico, na Zona Norte.

Tudo sob muita chuva, onde vi os mercados com seus ‘cinemas de cachorro’, como conto em outra mensagem.

………..

Por hora vamos permanecer no tema das favelas, e ir pro lado oposto da cidade. Bem-vindo ao Banhado Sul, tão miserável quanto o Norte.

Reparemos nas tomadas que eu tirei de cima do Monte Lambaré, um parque muito bonito as margens do rio, quase na divisa entre o Distrito Federal e o Departamento (estado) Central.

Rua São Lourenço, Centro de SL

Centro do município de São Lourenço, na Zona Leste da Grande Assunção. Estamos na Rua São Lourenço, que o nomeia.

Porcos também são criados soltos nas favelas ao sopé do morro, como nas favelas de todo Paraguai. Mas o mais impressionante está por vir:

Algumas das favelas do Banhado Sul estão dentro do Lixão, do aterro sanitário de Assunção, e tiram sua subsistência dele.

Lá não há reciclagem de lixo, então metal, plástico, vai tudo pro lixão, e adultos e crianças sobrevivem revirando o lixo. Como foi muito comum em nosso país no passado.

Irmaos de Sangue

Nações-Irmãs

Hoje, embora o problema não tenha sido eliminado no Brasil, e não quero tapar o sol com a peneira, ao menos foi amenizado.

O Paraguai ainda está por dar esse passo. Veem claramente o aterro e milhares de famílias que sobrevivem dele.

Por vezes, mandei as fotos em escalas diferentes, pra que vejam o todo e os detalhes, os porcos e mesmo os caminhões.

………

No Brasil havia a Fanta Guaraná no fim dos anos 70 e comecinho dos 80 (r). Acabou, só retornou em 2017. E o que isso tem a ver com o Paraguai? É simples: nesse vizinho país a Fanta Guaraná nunca terminou (a foto foi feita lá), existiu nessas 4 décadas que ficou ausente aqui.

Vou enxertar aqui um outro emeio, que trata do mesmo tema.

“COM A FÉ NO LIXÃO NASCE A FLOR”

Publicado em 27 de junho de 2013.

Uma das favelas do Banhado Sul, aquela que é no aterro sanitário, chama-se Cateúras.

É absolutamente miserável, as pessoas vivem de revirar o lixão. Por isso a favela surgiu ali, pros catadores morarem no seu ‘local de trabalho’.

A boa notícia é que no meio dessa favela, uma das mais desgraçadas da América e de toda Terra, surgiu uma orquestra de jovens e adolescentes.

Que fazem música clássica com instrumentos feitos a partir de material pego no lixo.

Veja o vídeo, é bem curto e mesmo que não entenda inglês as imagens são auto-explicativas.

http://www.openculture.com/2012/12/the_recycled_orchestra.html

“O mundo manda lixo a Cateúras, Cateúras devolve em forma de música.”

S. Lourenço ZL metro1

S. Lourenço, Z/L.

……….

Apenas uma correção. O texto diz que Cateúras é uma pequena cidade do Paraguai, dando a entender que é no interiorzão.

Nada disso. É uma favela da maior cidade do país, sua capital Assunção.

Não estive exatamente em Cateúras, mas a vi e a fotografei do alto do monte Lambaré, e passei nos becos de uma favela vizinha.

Os caminhões Mercedes são tão comuns no Paraguai quanto no Brasil (r).

Se há uma saída pros jovens da Favela do Lixão que fica na capital do segundo país mais pobre da América do Sul, há uma saída pra humanidade.

…………

Volta o texto original de 26 de maio de 13.

Falemos das imagens espalhadas pela matéria, não necessariamente a descrição ao lado corresponde a cena mais próxima, busque pelas legendas.

No mapa, veem a divisão por estados do Paraguai na sua capital e entorno.

No Distrito Federal (Departamento Capital, o município de Assunção), o nível de vida e de renda é bem elevado.

anoitece1

Crepúsculo de Assunção com seus ônibus decorados: isso é América (e também Ásia)!!!

Bem mais alto que você espera se tem o rótulo “Paraguai” muito ativo em sua mente, pensando que nesse país só há miséria e desgraça

Mas ali também estão as favelas miseráveislogo a concentração de renda e nível de desigualdade social é altíssimo.

Já os subúrbios metropolitanos, que ficam no Departamento (estado) Central, a coisa é infinitamente mais homogênea. Os bairros são muito mais pobres, mas sem miséria. 

Fui a pé do Centro do município de São Lourenço, na Zona Leste Metropolitana, até o Centro da capital, passando pelo município de Fernando de la Mora. Dá uns 15 km mais ou menos.

S. Lourenço ZL metro2

Mais uma de S. Lourenço, essa calma rua é perto do Centro do município

Naquele dia andei uns 20 porque ainda por cima não fui em linha reta, mas entrando nas vilas. Então, não vi uma favela sequer.

Porque a miséria em Assunção é bem delimitada geograficamente, se circunscrevendo a praticamente a várzea do rio.

A zona central, o município mesmo de Assunção, tem elevado padrão de vida, e também grande concentração de miseráveis. Ou seja, disparidade social altíssima.

Classe ‘A’ e classe ‘E’, as vezes lado-a-lado.

O subúrbio metropolitano, os municípios que já estão em outro estado, são bem mais pobres no geral, mas são mais homogêneos, se há menos ricos, há menos miseráveis também, quase todos são das classes média e média-baixa.

S. Lourenço ZL metro3

São Lourenço

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Entre o Centro e o Monte Lambaré há um complexo, um aglomerado de favelas, o Banhado Sul, como já dito.

A última favela do Banhado Sul, já no sopé do monte, é bem pequena, e relativamente civilizada, não é tão miserável, estive nela.

Logo a seguir há uma região de classe alta, essa parte de mansões que veem aí nas imagens.

Zona Central Assunção6

Nessa e nas próximas 3: Zona Central de Assunção

O mais curioso é ver as galinhas soltas andando na parte dos ricos.

Pois a favela está ao lado, e em todas as favelas do Paraguai as pessoas criam sua própria fonte de proteína animal.

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Já estamos de volta ao Centro Velho, perto do porto. É a favela Morro São Gerônimo, inclusive uma casa logo na entrada é de madeira, modal que existe em pequena escala no Paraguai.

Zona Central Assunção12Aqui a convivência é mais serena, pois o entorno da favela é quase tão pobre quanto ela.

A favela fica atrás do comando-maior da marinha paraguaia, situação que presenciei exatamente igual na República Dominicana.

Vemos também cenas do subúrbio metropolitano, que fica em outro estado.

Uma favela se formando no distante subúrbio de Vila Elisa, Zona Sul. É bem miserável, e uma das poucas que fica longe do Rio Paraguai. Também a beira de um depósito de lixo, como observa.Zona Central Assunção2

Vila Elisa” é uma homenagem a irlandesa Elisa Lynch, esposa do marechal Solano Lopes, aquele que atacou o Brasil e Argentina e teve seu país destroçado no retorno.

Há também uma avenida, no município de Assunção, chamada “Madame Lynch”.

Zona Central Assunção7

Ainda o Centro de Assunção, bem florido.

Ela cruza com a Avenida Marechal Lopes – como eles eram marido e mulher, de fato ‘cruzaram’ em muitos sentidos, num trocadilho irresistível.

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A periferia das cidades paraguaias é bem diferente das outras nações da América Latina.

Pelo menos as que conheço pessoalmente (Brasil, Colômbia, Chile, Rep. Dominicana e México).

Onde os bairros de periferia são densamente habitados

picada VE-SA ZS

Trilha na periferia de Assunção. A rua acabava, precisei seguir pela mata. E não foi o único caso. Ainda bem que tenho experiência no tema.

Pense no Sítio Cercado em Curitiba, Jardim Ângela em São Paulo, ou na Baixada Fluminense, no Rio.

Mora um quantia insana de gente por quilômetro quadrado, uma casa em cima da outra.

No Paraguai é o exato oposto. A periferia das cidades de lá é esparsamente habitada. 

As casas são bem pobres, mas cada uma com seu quintal, que é grande, dá pra jogar bola. 

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Vila Morra ZL DF2

Aqui e a esquerda, abaixo: Vila Morra

A Grande Assunção ocupa a mesma área que a Grande Curitiba, mesmo com metade da população.

Os bairros de subúrbios metropolitanos no Paraguai são uma transição entre campo e cidade. Um pouco de cada. 

Veja as fotos que tirei nos municípios de Vila Elisa e Santo Antônio (que são vizinhos), na Zona Sul da Grande Assunção.

Há muito espaço entre uma casa e outra, muito verde, criação de vacas, ainda é comum ver gente andando de carroça.

O bairros, por pouco urbanizados, são muito extensos. Na Cidade do Leste se Vila Morra ZL DF3dá assim também.

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Um dos motivos é que no Paraguai as pessoas não gostam de morar em prédios. Entre a classe alta e média alta, são poucos edifícios.

Na classe baixa inexistente. Não há pombais na periferia de Assunção, 100% das pessoas ali moram em casas.

muita chuva Vila Elisa

No sábado e domingo que eu estive lá choveu muito, por vezes torrencialmente, por vezes por muitas horas seguidas.

No México as pessoas também não curtem muito morar em edifícios. Há poucos prédios altos no México DF, mas baixos (sem elevador, até 5 andares) há bastante.

No Paraguai isso é ainda mais pronunciado. Há igualmente poucos prédios altos, mas os prédios baixos (“pombais”) são ainda mais raros.

E pra fechar esse tema, no Paraguai não há condomínios fechados afastados.

Como é infinitamente comum no México e EUA, razoavelmente comum no Brasil e já começa a aparecer na Colômbia.

Em Assunção, isso não existe. A elite mora na Zona Central, as vezes em sobrados mas geralmente em mansões térreas, em ruas abertas ao público. Não há ‘Alphavilles‘ por lá. No subúrbio moram os pobres, não os ricos, como um dia foi em toda América Latina.

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muito calor

“Assunção 40º”, ou quase isso pelo menos: estava muito, muito quente. Consegui fotografar 34º. Cheguei a ver termômetros registrando 36º. Fotografei o mesmo em B. Horizonte, S. Paulo e Belém.

Já as favelas do Paraguai são densas, afinal são favelas. Ainda assim menos que aqui, Colômbia, Argentina, Peru, Venezuela, Rep. Dominicana e México.

Porque em todos esses lugares existe a cultura da laje, em que vão sendo feitos prédios artesanais, uma casa em cima da outra.

No Paraguai, mesmo nas favelas as casas são térreas, não tem laje. O que torna o ambiente menos opressivo.

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Em João Pessoa tampouco há lajes, com poucas exceções igualmente as moradias mesmo na favela são de andar único. anoitece2

Em Recife-PE já mais comum, muito mais que João Pessoa mas infinitamente menos que no Sudeste.

Enquanto que em Salvador-BA, por sua vez, há tantos ‘prédios artesanais’ quando no Sudeste, parece Rio, SP ou BH.

Voltamos pro Paraguai. Há casas de madeira em Assunção. Poucas, mas existem. Na Colômbia e México é inexistente. Já no Chile são muito comuns.

anoitece……….

E fechamos com mais 2 imagens do Centro da metrópole no Crepúsculo.

Ficaram tremidas, mas como gostei do efeito da luz nelas, digamos que “é o charme”. Licença poética.

 Deus proverá”

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