“As veias abertas”: embora em baixa intensidade, o Chile ainda está em guerra

1centro stgo ocupado militarmente1

Alameda, Centro de Santiago, março/2015: com a capital ocupada militarmente, sinal que a nação não está em paz.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 2 de julho de 2015

Vamos falar um pouco da situação política do Chile, que não é nada calma, bem ao contrário.

A maioria das fotos foi clicada por mim, mas as dos confrontos violentos entre policiais e manifestantes foram puxadas da internet.

Não presenciei pessoalmente nenhuma dessas selvagerias, felizmente. Eu reforço essa informação na legenda das que foram baixadas com um (r) de rede..

As cenas que estão acima e ao lado foi a primeira coisa que vi assim que cheguei no 1tanque de guerrapaís, em março de 2015:

Tanques de guerra ocupam a principal avenida de Santiago (a popular “Alameda”), bem em seu Centrão, em plena luz do dia.

Dá uma sensação que o país está em guerra. E de fato está, embora em baixa intensidade.

chile 2011 [1]

Chile, 2011 (r) – como explicado, as com esse símbolo são oriundas da internet.

Há no Chile um confronto armado entre o governo e forças de extrema esquerda, os anarquistas do bloco negro.

Menos severo que na Colômbia e México, evidente. No Chile os grupos rebeldes não têm armas pesadas e não dominam território.

Não há chacinas, decapitações.

chile 2015

Chile, 2015 (r).

E nem é preciso operações da força aérea pra desalojar os guerrilheiros de suas bases.

Ainda assim, repito, há confrontos frequentes das forças de segurança contra bandos armados.

Além de atentados terroristas, barricadas, bombardeios de estações de metrô e execuções a sangue-frio. As imagens são claríssimas.

1chile em guerra

Conclamação no Centro de Santiago a massa pra tumultos no dia 29 de março de 2015.

É uma mini-guerra, digamos assim. Frequentemente fatal.

No último domingo de março de 15, quando eu estava no país, houve nova ronda de tumultos.

Ônibus foram queimados, carros virados, comércio saqueado.

E um policial foi assassinado a sangue-frio pelos guerrilheiros numa tocaia.

1agitando a multidao

Festival de ‘punk rock’ marcado pra sábado, véspera do ‘dia do jovem combatente‘, pra já ir aquecendo a multidão. ‘Yuta’ (pronuncia-se ‘juta’) é ‘polícia’ – na Argentina é o mesmo termo.

Em setembro de 2014 um comando anarquista explodiu uma bomba no metrô de Santiago.

Ferindo 14 pessoas, incluso com amputações.

…………..

O povo chileno é muito agitado, politicamente.

Isso é bom enquanto se restringe a ações pacíficas. Promover passeatas, greves, isso é um direito das pessoas.

policial assassinado

Comandos anarquistas mataram um policial em tocaia em Santiago, na madrugada de 29 pra 30/03/15.

Agora, quando você bombardeia uma estação lotada de metrô está evidente que esses grupos são tão ou mais autoritários que o sistema capitalista que dizem combater.

Com o agravante que o transporte coletivo é usado pelas classes média e baixa, já que os ricos andam em seus carros de luxo.

Ainda assim eles têm grande base de apoio entre os jovens. Por toda parte de Santiago há pichações políticas, num volume que nunca vi em lugar nenhum.

chile 2011 [2]

Ônibus articulado queimado pelos guerrilheiros, Santiago, 2011 (r).

Já visitei alguns países da América, e várias partes do Brasil.

Em todo lugar, em menor ou maior grau, há rabiscos dos lemas políticos de esquerda e direita.

Porém no México, Paraguai e Colômbia há grande volume dessa parafernália apenas no Centrão das capitais.

Mesmo na periferia do México D.F., Assunção e Bogotá quase não há pichações políticas.

chile 2011

Chile, 2011 (r)

E nas cidades do interior, mesmo as maiores delas (Acapulco, Cidade do Leste e Medelím foram as que eu estive pessoalmente), as pichações de grupos políticos são bem raras.

Uma ou outra esparsa bem no Centrão, mas muito pouco. No subúrbio inexistente.

O mesmo se repete no Brasil. Você vai ver um volume considerável desse confronto ideológico no Centro de Curitiba, aqui no Boqueirão quase nada.

1comando anarquista zona oeste

Grafite dos comandos anarquistas em Maipú, Zona Oeste de Santiago.

Há pouco, bem menos que na capital, no Centro de Londrina e Ponta Grossa.

E nos bairros afastados dessas cidades interioranas será praticamente nulo, com uma ou outra exceção pontual.

Porque, em nossa pátria e na maioria de todas as outras, pichação política é coisa frequente no epicentro político, no Centrão da capital.

No subúrbio da capital é rara, e no interior é rara também, mesmo no Centro das cidades.

Estou me repetindo porque é preciso que isso fique bem claro, já que no Chile é diferente.

chile - 2011 [5]

Estudante ???? O garoto com molotov pintado no muro não é arte ou ‘licença poética’. Veja um deles em ação nos protestos de 2011 (r).

Há pichações políticas por Santiago inteira, de ponta a ponta, inteira, Centro, classe média e subúrbio proletário igualmente.

E mesmo em Valparaíso esse fenômeno se repete, já diluído em relação a Santiago, mas mais do que em Curitiba, por exemplo.

Já na República Dominicana mesmo no Centro da capital é quase inexistente, e inexistente em outras partes.

O povo dominicano não é politizado.

chile - 2015 [3]

E agora em 2015 (r).

A maioria dos países têm sua população medianamente politizada, e o chileno é um povo altissimamente politizado.

No Chile as feridas abertas pela ditadura de Pinochet ainda não cicatrizaram.

…………

Natural que seja assim. A ditadura militar lá foi infinitamente mais sangrenta que a nossa.

chile - 2015

Nova onda de confusão em 2015 no Chile (r).

Seguindo o exemplo de Brasil, Paraguai e outros países americanos que já viviam sob regime militar, os comandantes das forças armadas chilenas em 1973 resolveram derrubar o governo democrático de Salvador Allende.

No Chile são 4 armas:

Exército, marinha, aeronáutica e os carabineiros.

11 de junho de 2015: no dia da abertura da Copa América, manifestantes usam bolas de futebol pra protestar (r).

Esses últimos são a polícia nacional, que é militar como no Brasil.

Mas ao contrário de nossa Pátria Amada os carabineiros chilenos são uma força federal, que tem o mesmo status do exército.

Quando os 4 chefes se alinharam na rebelião, ela veio a tona.

No dia 11 de setembro de 1973, logo cedo, a marinha chilena se revolta e toma o Porto e o Centro de Valparaíso.

Trata-se do principal terminal de cargas do país, sediado na maior cidade do interior. Com esse ataque-surpresa fulminante o golpe sagra-se vitorioso. Falta só o xeque-mate em Santiago.

1familia exterminada por pinochet - 1975 maipu z-o

Maipú, Zona Oeste de Santiago: grafite lembra 8 membros da mesma família executados pelas forças de segurança em 2 massacres, nos anos de 1975 e 76. Há grafites com outros mortos por toda cidade, inclusive bem no Centrão.

Os militares exigem que Allende deixe o cargo, e pra isso fazem a oferta que ele poderia deixar o país em segurança.

Ele toma a opção contrária da que João Goulart tomara no Brasil, 9 anos antes.

Em 31 de março de 1964, vendo que o golpe era inevitável, Jango preferiu poupar ao país e a ele mesmo do enfrentamento.

E deixa pacificamente o poder.

Allende, inversamente, opta por resistir.

Recusa acordos e diz que irá cumprir seu mandato até o fim, e pra que isso não ocorresse teriam que metralhá-lo. Assim de fato foi feito. 

chile - 2011 [3]

2011 (r).

Mesmo com Valparaíso e diversas outras partes do país já no controle dos amotinados, ou seja com a situação já definida contra si, ele toma a opção da resistência.

Se refugia no palácio presidencial, o “La Moneda”.

Os militares cercam o edifício e passam a bombardeá-lo por terra e ar.

No que agora é um documento histórico muito significativo, Allende faz ao vivo sua última transmissão radiofônica ao povo chileno.

chile 11-9-73

Tropas cercam e bombardeiam o palácio presidencial, 11/09/1973 (r).

Num ‘La Moneda’ sitiado, prestes a cair, ele diz “ter fé no Chile e em seu destino”.

Ao fundo ouvem-se tiros e explosões. Pouco depois os golpistas invadem seu gabinete e o matam com um tiro certeiro.

……….

A versão oficial apresentada rapidamente pelos militares indica ‘suicídio’. Trata-se de farsa evidente.

1em frente ao palácio presidencial

Busto e citação de Salvador Allende em frente o palácio ‘La Moneda’, onde ele foi morto pelos sediciosos liderados por Pinochet em 1973.

Mesmo sabendo que a queda era inevitável, Allende optou por resistir. Não faltaram ofertas pra que ele poupasse sua vida entregando o poder.

Nos preparativos do motim tentaram chantageá-lo dessa forma.

E mesmo no dia 11/9/73, com a tomada ilegal de poder já consumada, os militares ligaram pra ele e ofereceram pela última vez sua barganha:

Uma ‘saída segura’ do país em troca da faixa presidencial.

1zona sul

Na Zona Sul de Santiago outra homenagem

Ele se recusou, e optou por cumprir o que prometera:

Exercer o mandato lhe outorgado pelo povo do Chile. E que pra isso não ocorrer teriam que matá-lo.

Certamente ele não iria desistir no último minuto. Eles de fato o mataram, e inventaram o ‘suicídio’ pra tentar lavar suas mãos sujas de sangue.

moneda-bombardeada

11 de setembro de 1973: os militares tiram o presidente eleito Allende da presidência e também do plano material (r).

………..

Pra nós brasileiros parece surreal, afinal mesmo nosso golpe militar ocorreu sem derramamento de sangue.

Levei até um susto ao ver pela 1ª vez a imagem ao lado, do ‘La Moneda’ sendo bombardeado por sua própria força aérea.

Mas assim se deu, se nosso golpe de estado foi relativamente pacífico o deles foi extremamente sangrento.

1sabado a tarde centro stgo

Centro de Santiago, sábado 28/03/15: já prevendo depredações no dia seguinte os bancos protegeram suas fachadas.

Evidente, aqui no Brasil também os militares mataram muita gente impunemente, e houve uma guerrilha que igualmente cometeu excessos.

Entretanto, no Chile esse expurgo, e esse confronto armado, foi muito maior e mais sangrento.

Calcula-se que cerca de mil pessoas tenham perdido a vida nas mãos da ditadura brasileira e na dos guerrilheiros que tentavam derrubá-la.

Pois bem. No Chile foram mais de 3 mil, sendo que a população deles é 13 vezes menor que a nossa.

chile - 2011 [2]

2011 (r).

Proporcionalmente, no Chile morasse o mesmo tanto de gente que aqui, teriam morrido 40 mil pessoas, ou seja foi 40 vezes pior.

………

Vamos pausar um pouco o texto pra vermos fotos de Santiago, na sequência horizontal abaixo e ao lado.

Tiradas do alto do morro São Cristóvão, onde aquele que em suas encostas abriga o zoológico e santiago3também uma das poucas favelas da Grande Santiago.

Já vimos esse bolsão de pobreza na outra postagem abre na ligação em vermelho acima.

Agora veja como é a capital chilena fotografada do alto.

Note a inversão térmica: Santiago é muito seca, quase não chove.

centro stgo cena comum

Caveirões parados no Centro de Santiago, cena que lembrou a África do Sul dos tempos do ‘apartheid‘.

E por estar entre montanhas é umas das cidades mais poluídas do planeta.

Logo na 1ª tomada isso fica claro, a capa cinza de poluição que encobre a metrópole.

Não há nuvens, o céu mais acima está limpíssimo, é tudo monóxido de carbono mesmo.

Imagine respirar aquilo todos os dias, que delícia pro pulmão.

Clique sobre as fotos que elas se ampliam, o mesmo vale pra todas.

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………

1centro stgo ocupado militarmente2

Em outra escala repito 2 imagens, os tanques de guerra na Alameda.

Voltamos ao texto. Eu falava dos múltiplos abusos da ditadura de Pinochet. Verdade que houveram outras ainda piores.

Proporcional a população a ditadura dominicana de Trujillo foi 6 mil vezes pior. É isso mesmo, matou seis mil vezes mais gente per capita que aqui.

A ditadura argentina foi 120 vezes mais sanguinária que a nossa, já a paraguaia de Stroessner foi de 10 a 15 vezes pior que a brasileira.

(Nota: por uma divergência de fontes, anteriormente grafei uma taxa de letalidade bem maior da ditadura paraguaia. Agora leio que lá foram cerca de 400 mortos. Ajustados proporcionalmente a população do Paraguai que é 30 vezes menor que a brasileira, chegamos a esse número de 10 a 15 vezes pior.)

Pinochet matou um bocado de gente. Menos que na Argentina, mesmo proporcionalmente. Mas mais que no Paraguai, até quando comparado a população, e muito, mas muito mais que no Brasil, até no absoluto, e ainda mais no proporcional. 1centro stgo ocupado militarmente

Logo que assumiu o poder promoveu ele sua famosa ‘Caravana da Morte’. As tropas de elite do exército foram varrendo o Chile:

De cidade em cidade, executando e prendendo toda e qualquer pessoa que eles desconfiassem que poderia fazer oposição ao golpe.

1greve no aeroporto

As cenas de conflitos violentos acabaram. Daqui pra baixo veremos protestos políticos pacíficos, em que as pessoas exercem legitimamente seu direito de expressar sua opinião sem agredir aos outros. Essa é uma greve no Aeroporto de Santiago.

Foi tanta gente presa que o Estádio Nacional (palco da final da Copa América no sábado 04/07/15) se transformou em presídio improvisado e galeria de torturas, como os coliseus do império romano.

O mais impressionante: de 1973 a 1990 o Chile não teve parlamento.

Quase todos os regimes ditatoriais no mundo inteiro mantém um parlamento de aparências:

Dócil, onde os integrantes são escolhidos a dedo e apenas rubricam o que o generalíssimo já determinou.

1cartaz sindical

Sindicatos protestam contra a reforma trabalhista da presidente Bachelet e sua ‘Nova Maioria’, dizendo que ela recebeu malas de dinheiro dos grandes empresários e devolveu o presente mudando a legislação.

Visando dar uma casca de fachada legalista, numa farsa evidente a todos mas o espetáculo segue.

No Brasil foi assim, em toda parte é assim.

Augusto Pinochet era tão centralizador que dispensou mesmo esse teatro.

Durante seu governo, por longos 17 anos, o Chile simplesmente não teve poder legislativo, nem mesmo como débil tentativa de tapar o sol com a peneira.

O general decidia, está decidido, não há votação nem mesmo de fachada.

……..

Outro detalhe. Até 1973 o congresso era em Santiago, que então era capital única do país, sede das esferas executiva, legislativa e judicial.

1campanha politica - nova maioria

“Por uma Nova Maioria”, dizia a vitoriosa campanha de Michelle Bachelet. ‘Nova Maioria’ é um termo muito usado na política do Chile e do vizinho Peru. Em português bem claro isso significa comprar todo mundo pra governar sem oposição, um mensalão deles.

No período 1973-1990 não houve esfera legislativa, e em 1990 o congresso foi reaberto, mas em outra cidade: Valparaíso.

Assim, seguindo o exemplo de Bolívia, África do Sul e outros, o Chile tem mais de uma capital.

…………

Desde 1989 há democracia constitucional. Em 2006, Michelle Bachelet se tornou a primeira Mulher a ser presidente, governando até 2010.

Em 2013 ela foi eleita novamente, batendo no segundo turno outra Mulher, que fora sua colega de escola.

1nova maioria

Jornal satírico diz que “Nova Maioria” é união da esquerda e direita pelo butim do poder, esquecendo a ideologia. Foi provado que o filho da presidente recebeu muito dinheiro em contas frias. Ela diz que ‘não sabia’ de nada.

Assim em março de 2014 ela assumiu seu segundo mandato, que irá até 2018.

É a 1ª pessoa no Chile, de ambos os sexos, a conquistar nas urnas dois mandatos presidenciais. Não-consecutivos pois lá não há re-eleição.

………..

Já seguimos com a narrativa.

Agora vamos ver uma panorâmica da cidade de Valparaíso.

Tirada do terraço do edifício, que já é ele mesmo no alto de um morro, no ‘Bairro dos Ingleses’, subúrbio da cidade.

Vemos vários outros conjuntos de classe média, verticais e um de sobrados. De um lado favelas enormes, melhor retratadas nessa outra postagem. E o Centro, na orla.

valparaiso4panoramica valparaisobairro dos ingleses valparaisovalparaiso2valparaiso1valparaisovalparaiso5valparaiso e assimvalparaiso6valparaiso entre a serra e o mar1

………….

valparaiso entre a serra e o mar

Valparaíso.

Voltamos com o texto.

Em 2011, durante o governo de Sebastião Pinheira (sabem que eu aportugueso os nomes) o Chile explodiu em severa onda de protestos que tinha por mote a “educação pública”.

Houve violentos confrontos entre a polícia e o grupo de anarquistas do bloco negro, que se infiltrou nas manifestações.

1protesto dia 29

Várias ONG’s aproveitaram a agitação política do ‘dia do jovem combatente’ pra marcar na mesma data uma marcha em memória de alguns ‘desaparecidos políticos’.

Ônibus e carros foram queimados e virados, houve saques e depredações ao comércio, especialmente contra os bancos.

Eu fui a Colômbia nesse ano de 2011. Esse país, como é notório, está em guerra civil.

A coisa se amainou bastante mas ainda não se encerrou de todo.

Então. Uns dias antes de chegarmos a Medelím, pra dispersar um protesto estudantil a polícia invadiu a universidade. Vimos pela TV, de Bogotá.

Desmantelando a força a base da manifestação.

1protesto contra governo

Protesto contra cortes nas escolas. As manifestações públicas no Chile – tanto as pacíficas quanto as violentas – sempre tem como mote aglutinador a ‘educação pública’.

Por conta disso alguns dias depois meus familiares tentaram entrar no campus em Medelím mas não foi permitido. 

Seguranças informaram que devido a esses acontecimentos estava vedado ingresso de pessoas que não fossem estudantes ou funcionários da universidade.

Os estudantes, aliados a diversas ONG’s, decidiram então manifestar-se em passeata gigante, que ocupou Medelím.

Eu vi pessoalmente esse protesto, era meu último dia na Colômbia. Era imenso, colossal, tomou boa parte do Centro da cidade. Foi pacífico, terminou sem incidentes.

1palacio presidencial

Frente do Palácio presidencial ‘La Moneda‘, na ‘Alameda’, a Av. Libertador Bernardo O’Higgins. Pinochet bombardeou-o, pra retirar a força Allende. Depois, bem instalado, reconstruiu a fachada.

Então. Mas por conta disso diversos caveirões da polícia se posicionaram por todo o Centro.

Eles são bem maiores que os caveirões brasileiros, na Colômbia são verdadeiros tanques de guerra.

Já joguei no ar o que já escrevi quando voltei de lá, inclusive com muitas fotos. Aqui o que nos importa é:

Chegando de volta ao Brasil, isso ainda em 2011, eu vi pela TV os mesmos caveirões em ação no Chile. Aquilo me espantou muito, sabe.

Porque na América do Sul só a Colômbia e o Chile utilizam esse tipo de arsenal de guerra contra a população civil.

1palacio fundos

Fundos do ‘La Moneda’.

Nem mesmo a Venezuela, Peru e Bolívia, que por vezes passam por períodos conturbados politicamente, fazem uso desse tipo de equipamento bélico.

Tem mais: a Colômbia definitivamente está em guerra civil, diluída mas ainda não finalizada de todo.

E ainda assim os caveirões só foram pras ruas no dia desse gigantesco protesto, que parou o Centro da cidade.

Fiquei uma semana na Colômbia, em Bogotá e Medelím. Apenas e somente nesse dia em Medelím eu vi esses tanques na rua, que isso fique claro.

1palacio centro

De volta a Alameda. Essa enorme bandeira chilena está na frente do palácio. Note a torre de telecomunicações ao fundo.

Você vê o tempo todo soldados do exército e da polícia – que é extremamente militarizada a guisa de exército, incluso é verde-oliva – na Colômbia.

O tempo todo, em todas as partes.

Mas andando a pé. Você não vê caveirões nas ruas da Colômbia como uma coisa permanente, e isso que o país está em guerra.

Aí é que está: o Chile não está em guerra. Ou se está ninguém assume.

centro torre

A mesma torre refletida num edifício comercial.

Ainda assim, os caveirões da polícia ocupam o Centro de Santiago de forma permanente.

Mesmo quando não há agitação política, como se fosse preciso defender aquele território.

(A polícia também é militar, é uma força federal nacional com o mesmo status militar das outras 3 armas, e também se veste de verde-oliva escuro.)

Repito, foi a primeira coisa que vi na cidade assim que cheguei:

Desembarcamos do ônibus que nos trouxe do aeroporto e já demos de cara com um comboio militar estacionado na principal avenida de Santiago, a “Alameda”.

favela beira linha de trem

Favela na Grande Valparaíso, na beira linha de trem, entre Vinha do Mar e Vila Alemã. Tirei de dentro do metrô em movimento.

E naquele dia não havia qualquer protesto, qualquer grupo gerando algazarra.

Apenas a metrópole pulsava de trabalhadores, como qualquer Centrão de metrópole.

Mas não havia uma réstia de distúrbios.

Nos demais dias a mesma cena se repetia. Calma absoluta, mas os caveirões sempre presentes.

Em Valparaíso o mesmo se repetia.

grande valparaiso

Essa também foi de dentro do metrô. Aqui é divisa entre Vinha do Mar e Valparaíso, já na orla.

Ocupado militarmente de forma permanente, a única conclusão possível é que o país está em guerra.

E de fato está, ainda que de baixa intensidade. Uma mini-guerra.

……….

Os grupos de esquerda ficam o tempo todo falando na ‘ditadura’, mesmo ela já tendo se encerrado há 25 anos.

metro v. alema

Metrô de Valparaíso na Vila Alemã. Note como em todas as tomadas o céu está bem azul, o Chile é muito seco, chove pouco.

Mantém-na viva no plano mental das pessoas, pois é assim que eles conseguem aglutinar apoio da massa pra sua causa. Por exemplo:

Em 29 de março de 1985 a polícia assassinou dois jovens irmãos, de 18 e 20 anos. Todos os anos há tumultos nessa data.

Na versão oficial eles assaltavam um mercadinho.

Outros já dizem que foi uma execução política pra silenciar os opositores da ditadura Pinochet, que se encaminhava pro final.

irrigando plantas centro

Resultando que todos os dias caminhões-pipa da prefeitura precisam irrigar as plantas pra elas não perecerem. Esse aqui é na Alameda, no Centrão. Fotografei o mesmo na Zona Oeste.

Não sei qual das duas versões é verdade. É fato que Pinochet executou milhares de chilenos, forjando ‘confrontos’ que nunca existiram.

No bairro de Maipú, na Zona Oeste, há um mural homenageando uma família inteira de ativistas da esquerda. 

Que foram mortos pela ‘Dina’, a temida polícia política da ditadura, em duas rondas de massacre, em 1975 e 76.

Ao fim 8 membros familiares, inclusive algumas Mulheres, foram exterminados em dois supostos ‘confrontos’.

Então é provável que no caso dos irmãos Vergara, nesse dia 29 de março de 1985, o mesmo tenha ocorrido.

casa de internet - recarga de cartao

Casa de internet faz recarga de cartão-transporte, o chamado ‘Bip’. É facílimo usar o cartão em Santiago, recarrega em qualquer vendinha, como vemos aqui.

………..

Seja como for, Pinochet já se foi.

Seu golpe de estado, e as consequentes violências empregadas pra que ele ocupasse e mantivesse o poder, jamais deveriam ter existido, é fato.

E não estou nem por um segundo justificando a usurpação de poder por parte dos militares.

Ainda assim, Pinochet se dispôs a entregar o poder pacificamente no fim dos anos 80, e assim o fez.

Ademais ele já deixou inclusive o plano material, desencarnando em Santiago, 2006.

rua 'd composto' vila alema

Rua ‘D Composto’, no Centro de Vila Alemã. Ficou engraçado o nome, né?

Também é um fato que o Chile vive hoje sob democracia constitucional, sem presos políticos.

Portanto qualquer manifestação política precisa ser igualmente pacífica.

E não é sempre o caso. Os anarquistas de esquerda empregam violência pra atingir seus fins.

Mostrando que são tão autoritários quanto a direita militarista que dizem combater.

………

condominio centro vila alema

Condomínio fechado de sobrados no Centro de Vila Alemã

Todos os anos, no dia 29 de março, são realizadas manifestações em Santiago e em todo o país.

É o denominado ‘dia do jovem combatente’.

Andávamos pelo Centro de Santiago na 6ª (27/03/15) quando vi o cartaz que é mostrado mais pra cima na matéria, chamando as pessoas pro confronto violento.

Já informei a minha família que domingo seria um dia de confusão no Centro, e por isso programamos pra não sairmos as ruas da região central.

calcadao camelos

Essa e próximas 4: cenas do Centro de Santiago.

No sábado a tarde, andando pelo Centro, percebi que os bancos já haviam protegido suas fachadas pra evitar depredações.

E vi cartazes anunciando espetáculos de bandas ‘punk’ pro sábado a noite, pra já ir aquecendo a galera.

Não deu outra. Alias os tumultos começaram já nessa noite de sábado pra domingo:

Um ônibus amanheceu queimado.  

centrao - fim-de-tardeIsso na Zona Sul.

Que é uma das partes mais problemáticas de Santiago.

Além disso houve barricadas em diversos pontos da cidade.

Domingo de manhã eu fui sozinho (minha família fez outros programas) andar a pé por essa mesma Zona Sul. centro stgo

Primeiro na região Centro-Sul, onde há o bairro que homenageia as cidades do Brasil, com sua famosíssima rua ‘Curitiva’.

Logo depois do almoço os ônibus começaram a retornar do Centro pichados com lemas anarquistas, e com os vidros quebrados.

santiagoEntão percebi que a ação tinha começado.

Mas o tumulto se restringiu ao núcleo central da cidade; os bairros estavam calmos, como se nada estivesse ocorrendo.

Peguei o metrô e fui pra Extremidade da Zona Sul, que é a parte mais pobre da cidade, e a mais afastada do Centro. alameda

Inclusive há algumas favelas, de resto raras em Santiago.

A Z/S é importante base da guerrilha anarquista, os que bombardearam o metrô moram ali, por exemplo.

Mas nesse dia que fui lá também tudo estava na mais absoluta paz. Nenhum sinal de agitações ou confusões.

música vengo cd ana tijoux rap chilena capa repeira guerrilheira amamentando mãe peitos seios bebê mascarada mulher cirança mamando

A repeira Ana Tijoux aproveitou o momento de turbulência política pra lançar um CD cuja capa aparece uma guerrilheira amamentando (r). O ‘rap’ é muito forte no Chile, exatamente ao inverso da Argentina.

Na estação de metrô eu peguei uma linha alimentadora.

Essa feita por um micro-ônibus com catraca, o que reduz significativamente a evasão, nas demais linhas altíssima.

O ponto final é num centro de compras numa parte bem afastada da cidade.

Famílias viam as vitrines e levavam os filhos pequenos ao cinema. Adolescentes passeavam, tomavam sorvetes e paqueravam.

Enfim, a pequena burguesia do subúrbio aproveitava o domingão de sol gastando seu dinheiro no centro de compras.

(No Chile ‘domingo de sol’ é meio que um pleonasmo, quase sempre lá está sol brilhante.

O clima é muito seco, o que causa grande poluição, como as fotos mostram.)

Mais fotos: O subúrbio proletário da Vila Alemã num belo fim de tarde. Muitas casas de madeira. Como em todo Chile. Clique pra ampliar.

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……….

centro

Os protestos no Chile são quase sempre em ‘defesa da educação pública’. O governo contra-ataca na guerra de propaganda e diz que essa é sua prioridade. Amplie a foto pra ler o anúncio que ocupa o prédio inteiro no Centro de Santiago.

De volta narrar minha volta em Santiago no ‘dia do jovem combatente’.

Retornei de ônibus e metrô a Zona Central, numa longa viagem que demorou mais de duas horas.

Como eu não conheço a cidade e estava sem mapa fiz uma rota mais longa, o que por outro lado foi bom pra conhecer mais.

Ao chegar ao Centrão (onde fiquei hospedado) já no fim de tarde, tudo havia se acalmado, não presenciei nenhuma cena de violência, felizmente.

Ficamos sabendo que houveram alguns enfrentamentos, mas fora algumas depredações nada muito sério, sem feridos graves.

Mas o pior estava por vir: na madrugada de domingo pra segunda comandos anarquistas covardemente numa emboscada assassinaram um policial que fazia ronda.

area interna dos predios centro

Pátio interno de dois edifícios em Santiago. Mesmo bem no Centrão em um deles há uma pequena área verde, onde as crianças pisam na terra.

As armas eram de grosso calibre, ele estava de colete mas as balas perfuraram essa proteção, após já terem vazado o vidro da viatura.

Aí eu fiquei pensando:

Sabe, os anarquistas dizem que combatiam a ditadura por ela ser autoritária e inclusive executar a sangue-frio seus oponentes.

Aí o que eles fazem? São autoritários e executam a sangue-frio seus oponentes. 

Como já dito acima, em setembro de 2014 os anarquistas bombardearam uma estação de metrô.

Num atentado terrorista torpe e covarde, mostrando que eles são exatamente iguais a Pinochet, a quem dizem repudiar.

poluicao stgo

Foto tirada em ‘Las Palmas’, extremo da Zona Leste de Santiago, já na subida dos Andes. Veja como o bairro é bem mais alto que a Zona Central. E assim podemos ver bem a capa de poluição que abafa a cidade.

Então com que direito essas pessoas dizem querer uma ‘igualdade social’, uma ordem mais justa pra sociedade?

Só se o conceito de ‘justiça’ deles forem os gulags de Stálin, ou quem sabe a anarquia de todos contra todos que vigora hoje no Iraque e Síria, entre outros lugares.

……

Eu sei, eles dirão que a anarquia que defendem ‘nada tem a ver’ com ‘o que erroneamente chamam’ de anarquia de uma guerra civil.

Então que pratiquem o mesmo que pregam.

Ao bombardear o metrô e executar um policial em emboscada eles mostram apenas que são, digo ainda mais uma vez, iguais a Pinochet.

santiago poluicao

Com grande aproximação vemos os prédios, encobertos pela névoa artificial de carbono.

Fazendo amplo uso de mantras que falam de coisas bonitas, mas sempre usando a violência pra impor o que pensam aos outros. Não é segredo:

O Chile (também o Brasil e outros), após um período negro em que os militares deram golpes perpetrados e mantidos violentamente, hoje vive em democracia.

Assim, o direito de protestar e discordar é sagrado – desde que seja exercido sempre pacificamente.

Passeatas, greves e mesmo as pichações são atos legítimos pra se chamar a atenção pra uma causa.

v. alema madeira

Casa de madeira em Vila Alemã. Há muitas delas no Chile.

Agora, o uso de armas, assassinatos, bombardeios, barricadas, saques, coquetéis molotov, tudo isso demonstra sempre mentalidades autoritárias.

E discursos reversos de luta “contra os poderosos e favor dos despossuídos” não alteram essa realidade.

O exemplo foi o assassinato do policial. Era exatamente assim que a ‘Dina’ (‘Direção de Inteligência Nacional’, o ‘Dops chileno’) agia:

v. alema casa de zinco

Agora casa de metal na V. Alemã. Também há muitas no Chile.

Executava na calada da madrugada seus opositores, sem chances de defesa, e alegavam estar lutando por um país melhor’.

Agora, o regime ditatorial chileno já se recolheu em 1990.

É hora dos guerrilheiros entregarem suas armas e partirem pra luta pacífica, na arena da política.

Como fizeram as guerrilhas da Irlanda do Norte, África do Sul e muitas outras partes.

………

itau stgo

Agência do Itaú em Santiago

Isso me parece profundamente óbvio, por auto-evidente. Agora, incrivelmente muitos no Chile não conseguem enxergar isso.

Imersos que estão em suas bolhas de ideologia dentro das quais só veem seu próprio umbigo.

E é por isso que o Chile até hoje tem uma insurreição ativa.

Mesmo sendo um país de alto padrão de vida – na capital, ao menos. O interior é bem mais pobre, bem mais mesmo.

avenida madri centro

Avenida Madri, uma calma via num bairro pobre da Zona Central de Santiago. Pavimentada em concreto, como sempre no Chile.

Mas incrivelmente os distúrbios políticos se concentram na riquíssima Santiago, por ser uma questão de ideologia e não de necessidade material.

E por isso o país mais rico da América Latina, o que tem a menor taxa de homicídios do sub-continente ao lado do Uruguai, convive com uma guerrilha.

Com uma guerra de baixa intensidade.

Os enfrentamentos são extremamente violentos, e por vezes fatais, e as imagens falam por si mesmas.

flor vila alema

Vila Alemã, fim de mais um dia.

Uma mini-guerra. Infinitamente menor que na Colômbia e México? Não tenha qualquer sombra de dúvidas.

Ainda assim, uma insurreição ativa, situação que Brasil, Argentina, Paraguai e a maioria dos países americanos hoje desconhece. santiago2

……….

Direto da linha de frente em Santiago,

Eu Sou O Mensageiro.

……….

Antes de fecharmos, deixo vocês com mais imagens da capital do Chile. Já começamos ao lado com essa tomada da praça, com os Andes nevados de pano de fundo.

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Que Deus Ilumine ao Chile, bem como a todos os Homens e Mulheres da humanidade.

Deus proverá”

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