‘Ponto Final’: o sonho do trólei-café americano durou pouco

trolei-cafe-bogota-colombia-2011-3

Nélson Herrera, um Sonhador

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 13 de julho de 2014

Imagens puxadas da rede. Os créditos foram mantidos, sempre que eles estavam impressos.

História triste! As vezes, os sonhos duram pouco.

Não importa com quanto esmero são cultivados, quando a Grande Vida decide que não é pra ser, de fato não é. 

Um idealista comprou uma carcaça de tróleibus num ferro-velho de Bogotá.

tinha ate placa do itinerarioGastou muito tempo e dinheiro pra restaurá-lo, ficou exatamente como era quando esse bichões circulavam na capital da Colômbia.

E o transformou numa lanchonete, como visto na imagem ao lado. 

Uma atração turística, pelo inusitado, e histórica, pois resgata o passado do transporte colombiano – hoje esse país não tem mais ônibus elétricos.

Mas os burocratas não conseguiram captar o grau de abnegação da empreitada, e caçaram em poucos meses sua licença.

..

trolei-cafe-bogota-colombia-2011-2

Interior do trólei-café

Viram na outra mensagem o ônibus 2andares-lanchonete que funciona em Brest-França.

Pois bem. Há precedentes em território americano. Veja a fonte dessa história. Lá há mais fotos. 

http://www.tramz.com/co/tc/tc.html

Bogotá teve tróleibus (pra quem não sabe, ônibus elétricos que puxam através de uma haste seu combustível de uma rede de fios própria pra isso) até 1991.

era lixo

Nélson encontrou várias carcaças de trólei no ferro-velho.


Eram tempos difíceis nesse vizinho país, então em guerra civil “todos contra todos”

Já desenvolvi detalhadamente o tema em mensagens anteriores.

Estava muito pior que está agora, e olhe que agora a Colômbia já não é nenhum oásis de paz, o oposto sendo verdadeiro.

Duas décadas e pouco atrás era bem pior, a confusão era muito mais multi-dimensional.

era lixo1

Essa estava menos pior.

Afogado pela corrupção rampante e violência, o sistema de tróleibus deixou de funcionar de maneira patética:

Houve inclusive um episódio em que diversos tróleibus-articulados foram importados da então existente União Soviética.

Os russos cumpriram sua parte no acordo, e no prazo acertado desembarcou na Colômbia a frota de veículos. Os problemas começaram aí:

o cara comprou

O cara comprou . . .

Transportados de caminhão pra Bogotá, não entraram em funcionamento.

Foram pagos mas nunca rodaram, levados direto pra um depósito onde se decompuseram com o passar do tempo.

Fica pior: não se sabe sequer quantos ônibus elétricos vieram nessa leva.

Zero km, cheirando fábrica, apenas pra apodrecerem na Colômbia sem terem transportado um passageiro sequer.

pintou

. . . e reformou o bichão inteirinho, detalhe por detalhe.

E se não se sabe quantos veículos vieram, obviamente tampouco se sabe quanto dinheiro foi jogado no lixo nessa brincadeira.

No Brasil aconteceu algo similar, sabia? Ainda bem que a Argentina salvou os veículos . . .

…………….

Voltemos a falar dos tróleibus que rodaram em Bogotá. Retirados de circulação em 1991, foram levados pra um pátio 30 km ao norte da cidade.

Em 2009 Nélson Herrera, um aficcionado por ônibus, descobriu onde eles estavam.

centro-de-bogota-2011

Trólei-Café: Bogotá, Colômbia, 2011

Após um bom tempo de negociação, conseguiu autorização pra entrar no depósito e fotografar alguns exemplares.

Veja na foto a situação lamentável que os veículos se encontravam.

Nélson achou uma carcaça de tróleibus que ainda não estava de todo carcomida, aquela que um dia circulou com o número 2088.

menu

Eis o cardápio. O que vai ser pra você?


Aí começou a saga desse Homem apaixonado por ônibus, e por sua cidade Bogotá: 

Ele comprou o que restava da lataria, além das demais peças pra deixar o veículo com cara de novo.

Foram meses re-montando e re-pintando o bichão, pra que ficasse igual aos bons tempos. 

Nélson é detalhista, ele reproduziu de forma fiel absolutamente todos os detalhes da pintura.

trolei-cafe-bogota-colombia-2011-4

Tinha até TV.

Inclusive o quanto era a tarifa num determinado período. Até mesmo uma placa frontal com o itinerário foi refeita. 

Trabalho de um idealista, coisa de quem faz com o coração. E aí ele quis compartilhar o fruto de sua obra com sua cidade.

Após 8 meses de negociação, em junho de 2011 ele conseguiu alvará pra instalar o bichão restaurado no Centro, funcionando como lanchonete.

letreiro

Detalhe do letreiro.

Trata-se, além de uma atração turística pois é algo curioso comer um lanche dentro de um ônibus antigo restaurado, um museu vivo do transporte na América. 

Atualmente, digo de novo a Colômbia não tem mais nenhuma linha de tróleibus.

Exceto uma curtíssima linha-experimental que percorre poucas centenas de metros dentro de uma universidade em Medelím. Mas em linhas regulares não há mais.

trole3 bogota

Cemitério de tróleis em Bogotá. Foto antiga. Hoje esses veículos não existem nem mais como sucata, foram prensados e tiveram seu metal reciclado.

Na verdade até mesmo essa linha experimental foi eliminada. Veja abaixo uma atualização e retificação. Primeiro vamos corrigir uma informação que grafei errada.

A princípio escrevi que o tróleibus operava “na mesma universidade onde houve confrontos entre polícia e estudantes em 2011”.

Não foi assim que se deu, e peço perdão pelo erro. Existiu uma curtíssima linha de tróleibus numa universidade.

E sim, de fato o temido Esmad entrou em choque com alunos de uma universidade.

Mas foram em universidades distintas, e não na mesma.

trolei-medelim-2011

2011-12: Medelím opera o único tróleibus da Colômbia. Porém era uma linha universitária, e acabou eliminada.

Os confrontos foram na Unal (Univ. Nacional). O tróleibus foi implantado e percorreu o campus da Universidade Pontifícia Bolivariana.

Seja como for, a “volta dos tróleibus” a Colômbia durou apenas 1 ano, entre 2011 e 12.

Foi o idealismo de um professor, que praticamente sozinho convenceu a universidade a investir no projeto. Foi inaugurado em novembro de 2011.

A linha eletrificada tinha 400 metros, dentro do campus. O professor queria fazer uma extensão fora dele, chegando a Estação Estádio da linha B do metrô.

medelim1Que fica, como o nome indica, na porta do Atanásio Girardot – onde assisti ‘in loco’ o clássico da cidade Nacional x Independente Medelím.

Mas não deu certo. Ao invés de ser ampliada a única linha de tróleibus da Colômbia foi extinta em fins do ano de 2012.

Outro sonho de mais um idealista também chegou ao ponto final.

medelim[

1929-1951: era pioneira dos tróleibus em Medelím, quando eles operaram linhas normais do Centro a periferia.

Medelím já havia tido tróleis no século 20. O sistema foi inaugurado em 1928 (ou 29, as fontes divergem) e ampliado na década de 30. Desmantelado em 1951. Ao lado um desses pioneiros.

Em compensação a cidade vem investindo pesado no transporte não-poluente: em 1995 Medelím inaugurou o primeiro (e por enquanto único) metrô convencional da Colômbia, por trilhos.

Logo a seguir veio revolucionário Metrô-Cabo, teleférico que não é turístico, ao contrário, é transporte de massas, e integrou os morros da cidade a rede de metrô.

Creio que quando surgiu era único no mundo. Depois outras cidades como Cali na própria Colômbia, o Rio de Janeiro e Caracas-Venezuela fizeram igual.

medelim

De 2015 em diante, a Colômbia entra na era do bonde moderno, graças a Medelím.

Em 2015 a revolução continua. Acaba de entrar em funcionamento o primeiro bonde moderno de toda Colômbia (leia matéria específica sobre a modernização do transporte na Colômbia, da qual Medelím é cabeça).

Ainda assim tróleibus não existem mais, nem mesmo curtíssimas linhas estudantis dentro do campus. Feito esse adendo medelinense, volta o texto original que fala de Bogotá.

Então o Trólei-Café de Nélson é a única lembrança que um dia a Colômbia contou com esse sistema, que é não-poluente. Pois os outros exemplares que estavam no depósito foram derretidos e fundidos, não existem mais sequer como carcaça. 

bogota-colombia

Daqui pra baixo vamos ver os tróleibus quando rodaram em Bogotá, as tomadas são dos anos 60, 70 e 80.

Ou melhor, era. Levou 8 meses pra ele conseguir o alvará, e ele só valeu pelo mesmo período. Em 2012, Nélson foi obrigado a fechar seu Trólei-Café e a retirá-lo do Centro de Bogotá. 

A última notícia que se teve é que o empreendimento, vendido por um Nélson entristecido por ter seu sonho desfeito, tentou sobreviver em frente ao autódromo.

Que é bem afastado da cidade, não muito longe de onde a carcaça havia sido resgatada dois anos antes.

bogota2Um autódromo só funciona sazonalmente, e sendo fora da metrópole o espaço fica as moscas quase o tempo todo.

De forma que o mais provável é que já tenha sido também vendido pra sucata. 

trole bogota

Antes da pintura branca, houve essa rubra.

Atualização feita em julho de 15:

Escrevi esse texto exatamente um ano antes, em julho de 14, quando a última notícia era que o trólei-café havia sido transferido pro autódromo.

De maneira previsível, a lanchonete não ‘pegou’ nesse novo local, e foi desmanchada.

bogota4………….

O autor da página que é fonte dessa matéria atualizou com novas informações:

O tróleibus foi retirado do autódromo e jogado numa área deserta, pra apodrecer, nas imediações, e 2014assim foi fotografado em 2014, a direita.

Em 2015 ele foi levado guinchado (pois ele não tem motor a dísel, não anda sozinho) de volta a Grande Bogotá.

Num bairro chamado Sibéria, e está ali, numa fazenda, esquecido, esperando o tempo decompô-lo.

2015

2015: ex-trólei-café entre os bichos na Sibéria colombiana. No Chile um busão virou varal.

Engraçado, não? Stálin e outros dirigentes da ex-URSS quando queriam se livrar de alguém mandavam-no pra Sibéria.

E o mesmo foi feito do sonho do idealista Nélson Herrera. Acabou também na Sibéria . . .     

…………..

Triste, muito triste. O cara vê uma carcaça apodrecendo num ferro-velho, e num trabalho de mais de 2 anos, restaura item por item. 

bogota-colombia2

Voltamos a ver fotos antigas dos bichões em ação.

Oferece a cidade que ama, um museu vivo, uma atração turística. 


Mas o mundo é gelado. Outros não se importam, e mandam um sonho, um ideal, pro ferro-velho, pra ser prensado e vendido por algumas moedas.

21 anos após o fim dos tróleibus na Colômbia, o último remanescente dessa era dourada teve o mesmo fim dos outros que rodaram pelo sistema. 

bogota1Sonhos morrem. Chegam ao ponto final. As vezes, esmero, carinho e dedicação não bastam.  Quando a Grande Vida quer, é assim. 

Entretanto, se tudo que é material chega ao fim, numa dimensão mais sutil os sonhos nunca morrem. Divulgar esse trabalho é minha forma de manter vivo o sonho de um lutador.

bogota

Desses lutadores, porque ao lado do dono do Trólei-Café incluo o também o professor que praticamente sozinho re-implantou o trólei em Medelím.

Uma homenagem de quem Ama a Colômbia.

Tamo junto, irmão

“Deus proverá”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s