Serra e Papagaio, debaixo de temporal: abrindo o Raio Vermelho em BH

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 2 de dezembro de 2012

AVISO: EU NÃO TORÇO PELO CRUZEIRO. NEM PRO GALO, TAMPOUCO PRA QUALQUER OUTRO CLUBE.

FUI NO JOGO CRUZEIRO X CORITIBA PORQUE FOI ESSE QUE HOUVE EM BH ENQUANTO EU ESTAVA LÁ. TIVESSE A CHANCE IRIA TAMBÉM NA TORCIDA ATLETICANA. PORTANTO NÃO INICIE UMA DISCUSSÃO FUTEBOLÍSTICA, PORQUE NÃO É O CASO DE DEFENDER OU ATACAR NENHUM TIME, SÓ RELATO A VIAGEM.

Serra - BH - MG1

Aglomerado da Serra – B.H. (r).

Outra nota: a maioria das fotos, que retratam a cidade em geral, foi batida pessoalmente por mim.

Porém as que mostram cenas de futebol e das favelas Serra e Papagaio foram puxadas da rede. Por motivos óbvios de segurança eu optei por não levar a câmera nesse dia.

Eu identifico o que for da internet com um (r) de ‘rede’ entre parênteses, como visto acima.

Sem esse símbolo é de minha autoria. Isto posto, podemos começar a reproduzir o emeio, conforme ele seguiu aos contatos no fim de 2012.

capivaras na Lagoa da Pampulha

Muito verde e várias capivaras ao redor da Pampulha.

Falemos mais um pouco sobre Belo Horizonte.

Vou explicar o que quis dizer com o título: 

Na Ciência Oculta, se denomina ‘Raio Vermelho’ as vibrações mais densas (em sentido energético), mais cruas, mais instintivas, que por vezes descambam em violência.

Por isso o arco-íris começa no vermelho (maios denso) e termina no violeta (mais sutil).

bandeirao galoucura

Galoucura no Mineirão (r).

E o domingo que passei em BH foi dedicado justamente a explorar o lado mais ‘vermelho’ da cidade.

Visitei de manhã as duas favelas-ícone belo-horizontinas, o Aglomerado da Serra e o Morro do Papagaio.

bandeirao mafia azul

Máfia Azul no mesmo estádio (r).

…………

De tarde fui no ‘bonde’ da Máfia Azul assistir Cruzeiro x Coritiba. Tudo isso sozinho e a pé, e debaixo de muita, muita chuva, pra realçar as dificuldades físicas da tarefa.

Mais uma nota: eu não falo ‘favela’ em tom de desprezo ou preconceito, ok? Ao contrário, eu amo as favelas. Moro numa delas, na Zona Sul de Curitiba.

E conheço milhares de outras favelas e quebradas de periferia, nas 5 regiões do Brasil.

morro-do-papagaio

Aqui e acima da manchete: Morro do Papagaio (r).

E mais 7 países da América (México, Rep. Dominicana, Colômbia, Paraguai, Chile, EUA e Argentina – essa última apenas uma cidade fronteiriça com o Brasil).

(Uma atualização. Em março de 17 conheci melhor a Argentina: sua capital e maior metrópole, Buenos Aires; a maior cidade do interior, Córdoba; e 3ª maior cidade do interior, Mendonça.)

…………….

Bem próximo ao Centro de BH, está o “Aglomerado da Serra”. Há diversas vilas, entre outras São Lucas e Cafezal. Só que todas formam na prática formam uma favela só, gigantesca.

ingresso1

Ingresso de Cruzeiro x Coritiba, 25/11/12, penúltima rodada do Brasileirão/12. No Independência (“Caiu no Horto tá morto”) pois o Mineirão estava em reforma pra copa.

E por sua localização o Aglomerado da Serra é foco de diversos conflitos sociais, como não poderia deixar de ser diferente.

Uma vez que está ao lado do Centro e dos bairros mais caros daquilo que se chama ‘Centro-Sul’ (Savassi e entorno) da cidade,

Tanto a Serra quanto o Papagaio estão sendo urbanizados, processo que se repete em diversas cidades do mundo.

Estão recebendo infra-estrutura urbana como asfalto e regularização das ligações de luz e das escrituras.

ingresso

Ops, veja atrás: “Assento com visibilidade prejudicada“. Como assim??

Isso é excelente. Ainda que melhor estruturados fisicamente, obviamente num sentido ‘espiritual’ se quiser colocar assim esses morros ainda são favelas.

Eu não uso esse termo como pecha, como faz a direita. Mas eu tampouco mudo o termo pra ‘comunidade’, como faz a esquerda.

Favela é favela, pombas. Eu Amo as favelas e não por outro motivo moro numa delas, mas as coisas são o que são.

………

independencia

O estádio do América foi refeito, e refeito errado. Há barras de ferro em frente as cadeiras (r).

No Rio de Janeiro, quando várias favelas se juntam, formando uma só, se chama “Complexo”. Complexo do Alemão, Complexo da Maré, e por aí vai.

Antes de ir a BH, pensava que era o mesmo termo, por isso me referia a esse local como “Complexo da Serra”.

Entretanto, Belo Horizonte não tem “complexos” de favelas. Apenas porque lá essa manifestação se denomina “Aglomerado”. Então esqueça o “Complexo da Serra”.

Em lugar disso, bem-vindo ao “Aglomerado da Serra”, a favela-ícone, mãe de todas as favelas mineiras,a Rocinha de BH.

estadio_independencia

Dizem que é por causa da inclinação do anel, que foi mal-calculada e saiu muito aguda (r).

A Serra está logo a sul do Centro, na divisa entre as Zonas Central, Leste e Sul.

Saí cedo do hotel e fui a pé, passei por uma parte rica da Zona Central (falo disso depois) e logo começou a cair uma tempestade.

Prossegui assim mesmo. Há muito me reconciliei com a chuva, amo andar sentindo os pingos.

Não tenho guarda-chuva, pois não quero ser ‘guardado’ dessa Energia, e sim ser Um com ela. Eu Sou Taoista, se isso te diz algo. Yin-Yan.

independencia1

Não sei a causa, mas senti os efeitos. Bem como essa galera aqui (a foto é puxada da rede de outro jogo, não o que eu fui): você paga mais caro pra ficar no 2º anel que na geral (R$ 30 contra 20, valores de 2012) mas tem que ficar o tempo todo em pé, se sentar não vê nada.

E assim prossegui. Ensopado, mas feliz, lembrando de Medelím-Colômbia, onde também fiz uma enorme caminhada embaixo de uma tempestade.

Depois que escrevi esse texto, me encharquei em temporais também em Assunção, Belém do Pará, e muitos outros.

Aliás na capital paraguaia eu me molhei também no dia que fui a maior favela da cidade:

A Chacarita (‘Fazendinha’), que também fica ao lado do Centro.

……

A maioria das pessoas não se reconciliou com a chuva, e ela lhes incomoda. Mas há exceções.

Mais uma das margens da Lagoa da Pampulha. É tanto verde que parece que estou na área rural, a muitos km de BH. Mas que nada, é no coração da Zona Norte

Passei por um grupo de operários da Cemig (a estatal de energia elétrica) consertando um fio derrubado.

Eles estavam como eu, integrados a chuva, cantavam e riam, felizes, sabiamente aceitando o clima, ao invés de entrar em confronto com ele.

………..

Mais adiante, a ladeira ficou íngreme, e começou a favela, a maior e mais famosa da cidade, dizendo de novo. Fui serpentando por seus becos até chegar ao cume. 

Continuava chovendo, mas na favela as pessoas não se importam tanto com isso.

Bairro Colonial, em Contagem (Zona Oeste metropolitana).

Se as ruas do Centro ficaram desertas quando começou a chover, as vielas da Serra estavam cheias de gente. Aí comecei a descer pela outra face da encosta.

Continuava na ladeira, mas saí da favela. “Serra” é um bairro de Belo Horizonte, e não contém apenas pobreza.

“Aglomerado da Serra” é a favela, mas há partes do bairro de classe média e mesmo de classe alta. Subi pelo lado miserável, e desci pelo lado rico.

Lá embaixo, topei com duas moças que também já se reconciliaram com a chuva. Elas corriam, fazendo exercício.

Em BH por décadas os ônibus vieram com a linha pintada na lateral. Ou seja, não dá pra mudar. Mas e se for preciso deslocar o veículo pra outra linha? Cobre com fita-crepe. Que tal ficou?

Estavam encharcadas, as calças de ginástica e as camisetas grudadas em seus corpos torneados.

Mas elas estavam felizes, e continuavam sua corridinha como se nada estivesse acontecendo.

……………

Fui pela Avenida do Contorno (contornando o Centro, portanto, como o nome indica) até a Avenida Nossa Senhora do Carmo, que sai do Centro e vai pra Zona Sul.

Logo no começo dela, margeando a parte mais rica da cidade, há outra grande favela:

Milionários, Zona Oeste.

A segunda mais famosa de BH, o Morro do Papagaio, que conheço pelo nome desde criança, uma vez que sempre tive interesse nesse tema.

A chuva continuava. Por vezes virava uma tempestade, as vezes diminuía prum chuvisco, mas choveu a manhã inteira, sem nunca parar.

papagaio1

Morro do Papagaio, ao lado da parte mais rica da cidade, a divisa entre as Zonas Central e Sul (r).

……..

Chegando ao Papagaio, entrei em uma ladeira e cortei toda a favela por dentro.

Uma hora dois menores de idade, traficantes de droga, me abordaram e perguntaram se eu queria comprar maconha.

Disse que não, que eu não fumo, e que só estava mesmo dando uma volta. Não haviam revólveres a mostra. Se eles estavam armados, estava por baixo da camisa.

Não fiquei olhando pra me certificar. Pois obviamente inspecioná-los visualmente levantaria suspeitas que eu seria olheiro da polícia ou de grupo rival. Eu pretendia, exatamente o contrário, encerrar o diálogo o quanto antes. Disse que não era de BH e só queria ver como era o Papagaio.

Eles acharam meio estranho, e com razão. Domingo de manhã, um temporal desabando. Um cara que não é da cidade no meio dos becos do morro, e ‘só pra conhecer o lugar’. Ainda assim nossa conversa foi cordial.

Serra - BH1

Aérea do Aglomerado da Serra, não muito longe do Papagaio. Nas próximas 2: ao nível do solo aqueles pombais de cohab. Todas as fotos da Serra e Papagaio são baixadas da internet.

Me indicaram pra onde era a avenida, a saída da favela. Quando nos despedimos, falaram pra eu ‘voltar mais tarde, na hora do baile, pra ver as minas’, as garotas obviamente.

Agradeci o convite, mas não retornei mais ao Papagaio. Segui por onde me recomendaram, e ao voltar a Nossa Senhora do Carmo estava de volta ao “asfalto”. 

É modo de dizer, porque tanto a Serra quanto o Papagaio estão asfaltados agora. Seja como for, dali embarquei rumo ao Centro.

………..

Um arco de favelas “protegendo” o Centro – 

Como já disse, o Aglomerado da Serra é uma enorme favela, a sudeste do Centro, bem próximo dele. Seguindo um pouco no sentido horário, logo há o Morro do Papagaio, bem grande também, a sul do Centro.

Continuando no mesmo sentido, breve se Serra - BHchega no Morro das Pedras, a sudoeste do Centro.

São 3 grandes favelas em morro, que formam um arco e ‘vigiam’ a Zona Central, formando uma ‘barreira de proteção’ que abrange toda parte meridional do coração de BH, de sudeste a sudoeste.

Na parte boreal, há também uma favela em morro, a Pedreira Paulo Lopes. Mas ela é menor, menosSerra - BH - MG famosa e está isolada.

Talvez porque a parte norte do Centro de BH não precise da proteção de algum morro, pois ele mesmo é uma quebrada, uma parte bem degradada da cidade.

………………….

Várias fotos saíram ruins porque eu desregulei o contraste, desculpe. Segue pois melhor que nada. Bairro Justinópolis, Ribeirão das Neves, Z/N metropolitana. Traço da querida América, muitos busões juntos no ponto final do bairro, ‘mini-terminal’ informal. Já fotografei em Assunção, Santiago, Acapulco, Cid. México, Fortaleza, Curitiba, SP, Belém.

Explico. Olhe no mapa a área delimitada pela Avenida do Contorno, que é o Centro de Belo Horizonte.

Ele é bem inclinado. A parte sul é a mais elevada, tanto na geografia física quanto na humana.

Ou seja, de forma social e topograficamente. O sul do Centro é mais alto, e abriga os bairros mais ricos de BH, a região do bairro de Lourdes/Savassi.

A parte do meio é intermediária, topográfica e socialmente. É o Centro propriamente dito, onde está a Praça Raul Soares, aquela bola que é o marco zero de BH.

Continue seguindo ao norte, que tudo vai baixando, em relação ao nível do mar e também em termos de constituição social.

A parte norte do Centro é a baixada, onde fiquei. O eixo entre a Rodoviária e a Praça da Estação (onde um dia os trens que chegavam a cidade pararam; hoje é a Estação Central dos trens do metrô), é a boca do lixo, a “Cracolândia”, a zona de prostituição.

Belo Horizonte também é América. Busões parados vazios na Av. Vilarinho. O ponto final da linha “Venda Nova”. Alias, se você quiser ir de ônibus a esse bairro da Zona Norte de Belô, preste atenção num detalhe: se o letreiro disser “Venda Nova”, é essa linha com ponto final na rua, sem integração. Caso queira ir ao terminal Venda Nova pegar um alimentador sem pagar de novo, precisa ser o “Est. Venda Nova”.

A Vida é cheia de contrastes, não?

O Centro-Sul de BH é riquíssimo. E ainda assim, ou talvez por isso, cercado por 3 grandes favelas.

O Centro-Norte, se podemos usar esse termo, é bem mais pobre e conturbado, ele mesmo lembra uma favela. Em compensação há poucos morros favelizados por perto.

……………

Saindo das vielas do Morro do Papagaio, almocei, e depois fui dar uma volta, em outro bairro. 

De tarde, eu iria ao estádio do América, o Independência, na Zona Leste, presenciar Cruzeiro x Coritiba, pela penúltima rodada do campeonato brasileiro.

……….

Sempre que é possível, vou a estádios nas viagens. Já o fiz no Chile, Paraguai e Colômbia (nesse caso, duas vezes). Em novembro de 15, a Vila Belmiro em Santos. Em BH a Vida igualmente abriu essa possibilidade. Então embarquei

No bonde da Máfia Azul
placa nos pontos de onibus1

Próximas 2: nas principais avenidas há essas plaquinhas com itinerário.

Enfatizando ainda mais uma vez, eu iria a um jogo do Galo, se tivesse a chance. Mas em 2012 não tive, jogou como visitante nessa rodada. O jogo em casa durante minha estada foi Cruzeiro x Coxa.

(Nota: por outro lado, em 2017 eu vi o Atlético-PR jogar fora de casa, e não em qualquer lugar, mas na cidade de Buenos Aires, que concentra nada menos que 24 títulos da Libertadores.)

De volta a BH, 2012. Assim que cheguei a BH na quinta já corri a sede social do Cruzeiro, no Barro Preto (Zona Central) comprar o ingresso.

No momento da partida eu pretendia ir direto ao Independência sozinho.

O Mineirão estava em reformas pra ser sede da copa do mundo. E foi mesmo, foi ali que o Brasil tomou os eternamente inesquecíveis 7×1 da Alemanha. placa nos pontos de onibus

Entretanto, houve um problema. Agora já estamos no domingo  de manhã, dia do jogo. Estou subindo as favelas, debaixo de um toró.

Eu havia impresso um mapa de BH, que foi destruído pela tempestade. Então eu não sabia como chegar ao estádio, teria que pedir informação.

Após almoçar em algum bairro, embarquei num ônibus rumo ao Centro, pra resolver isso.

Contagem

E fui justamente ali, no ‘marco zero’ da parte baixa do Centrão, a Praça da Estação, que eu desembarquei do ônibus, pra resolver o que fazer.

Dei de cara com a concentração da Máfia Azul, a torcida organizada do Cruzeiro, se aglutinando pra seguir a pé pro embate.

Não precisaria mais pedir informação sobre como chegar ao Independência, afinal eles rumariam pra lá. Então decidi ir com eles. A pé, é claro. Continuava chovendo, com alguns breves intervalos estiados.

Confisco Zona Oeste (2)

Confisco, Z/O, divisa com Contagem.

Como é notório, as torcidas organizadas se reúnem em um ponto de concentração, e vão caminhando aos estádios.

Eu vou a campos de futebol desde que tinha 8 anos, e na adolescência assisti muitos os jogos, tanto aqui no Paraná quanto em São Paulo, no meio da torcida organizada.

Mas eu nunca havia ido ao estádio no ‘bonde’ deles. Então decidi participar dessa manifestação, pra ter essa experiência.

Zona Oeste, a beira da linha do trem.

…..……

Infelizmente, como é sabido, o nível de violência envolvendo a disputa Atlético x Cruzeiro está muito elevado, diversas mortes têm ocorrido.

Por isso por um tempo o maior clássico mineiro foi só de torcida única. Cruzeiro mandante, só gente de azul na arquibancada. Galo mandante, só galera alvi-negra.

comercio atras das grades

Comércio atendendo atrás de grades no subúrbio. Essa manifestação existe em BH, mas não é comum. Parecido com outras metrópoles brasileiras, e também Paraguai e Rep. Dominicana. Na Colômbia, Chile e México é pior.

Não pretendo dar destaque a violência. Mas infelizmente essa é a realidade, e citei pra por no contexto, pra que vocês dimensionem o que é estar no bonde da Máfia Azul, o que há envolvido.

Mesmo sem o jogo ser contra o arqui-rival Atlético, o nível de tensão é grande.

Até porque as torcidas dos times de Belo Horizonte e Curitiba são aliadas. A torcida do Coritiba, a Império Alvi-verde, é aliada da Galoucura.

E Os Fanáticos do Atlético Paranaense é aliada da Máfia Azul. A maior aliada da Máfia Azul, diga-se de passagem. Veja a esquerda a foto em que a Máfia picha “Os Fanáticos” por BH.

fanáticos máfia azul bh minas mg z/c centrão prédio edifício pichação picho teto céu azul limpo nuvens futebol torcida organizada aliança comandoQuando cheguei na concentração na Praça da Estação, vi que havia mais de uma dezena de membros da Máfia com camisas dos Fanáticos.

Portanto o Cruzeiro jogar contra o Coritiba envolve um nível de rivalidade alto, uma vez que esse time é apoiado pela Galoucura.

……..

Ribeirão das Neves

Então. Cheguei a Praça da Estação. O local estava cercado de policiais, inclusive da tropa de choque.

Alguns pareciam não se importar, e fumavam maconha ao lado de algumas viaturas. Os policiais fingiam que não viam, pra evitar confrontos.

Chegou um metrô, e mais alguns comandos da Máfia desceram da composição bradando seus hinos de guerra, no que foram acompanhados pelos que já estavam concentrados.

Barreiro, Z/O.

Alguns minutos depois, chegou mais um trem, mais alguns integrantes se juntaram ao grupo, e era hora de partir.

Quando o bando se pôs em movimento, o ônibus da tropa de choque ligou os motores e também zarpou, pra escoltá-lo.

Eu segui atrás deles, sem perdê-los de vista mas a uma distância segura, já fora do cordão de isolamento feito pela polícia, pra poder sair fora se houvesse alguma confusão.

Alias o último policial, que fechou o cordão de isolamento logo a minha frente, ia portando uma escopeta.

Confisco, também Z/O

Assim lá fomos nós, mais de mil pessoas, caminhando por Belo Horizonte, embaixo de muita chuva. 

Foi uma hora e pouco de caminhada. Eu era o último Homem dessa massa humana:

Perto o suficiente pra acompanhar os acontecimentos e também pra saber como chegar ao local da partida, mas longe o suficiente pra poder me dispersar em caso de confusão.

E confusão houve, já nas imediações do estádio. Mas já chego nessa parte.

Contagem

Primeiro vamos descrever o trajeto. Fomos pelo meio das avenidas, ignorando qualquer regra de trânsito.

Subimos um viaduto pelas faixas destinadas aos automóveis, eles é quem desviaram de nós. Literalmente, a rua era nossa.

A Máfia foi o tempo inteiro estourando rojões, no meio deles mesmos, com o risco enorme de alguém se machucar, mas ninguém parecia se importar.

Passamos em frente o batalhão da Rotam (Rondas Táticas Metropolitanas). Aí sim foi uma bateria de bombas que explodiu, em provocação.

U.S. do Confisco.

A torcida não atacou o quartel, não seriam tão burros. E sim explodiu os fogos de artifício numa sequência ensurdecedora, sem ter como alvo a sede da polícia.

Foi uma provocação velada a Rotam. Não um ataque aberto, que acabaria de forma trágica a Máfia.

Mas que as mentes se agitaram ao ver o quartel foi nítido. Sabiamente, a tropa de choque ignorou e não reagiu.

……….

Confisco, em frente ao postinho.

Quando entramos no túnel, foi um pandemônio sonoro. Todos gritaram ao mesmo tempo, e todos os carros acionaram as buzinas.

Parecia que eu havia voltado ao Caos Primordial, na Grande Explosão que formou fisicamente a parte do Universo que conhecemos.

Foi só uma intensa sensação sonora, mas sem riscos. Como havia ocorrido pouco antes em frente a Rotam, dentro do túnel houve muito barulho mas sem agressões a quem quer que seja.

Contagem

………

Porém nem tudo ficou apenas na ameaça. Eu estava preparado pra um tumulto.

Ele veio, já no entorno do Independência. Em alguma casa, alguém saiu na janela e gritou “Galo”.

A massa parou, e em meio a muitos xingamentos, alguém atirou algo em direção a casa, não sei se uma pedra ou mesmo uma fruta.

Esse ‘alfabeto‘ de pichação é o orgânico, originário de BH mesmo. Também se usa muito o ‘alfabeto’ de SP, BH é híbrida nesse sentido.

O fato é que a tropa de choque desembainhou os cassetetes e partiu pra cima. Correu gente pra onde foi possível. Eu me virei e corri também.

Mas como os gritos e a correria logo cessaram, percebi que a confusão havia sido contornada sem enfrentamentos.

A polícia prendeu um cara – que pode ter sido o autor da agressão ou simplesmente um bode expiatório – e o comboio retomou o rumo aos portões do estádio.

…………..

Falemos do independência propriamente dito. O estádio do América foi recém-reformado, e ficou pior que era. Isso porque no andar de cima há grades em todos os degraus, então se você fica sentado não consegue ver nada.

Colonial, em Contagem. Ao fundo a linha de prédios do Centro de B.H. .

Segundo me informaram, é por causa da inclinação, que é muito aguda. O fato é que alguém paga mais caro pra ficar no anel superior, mas tem que ficar o tempo inteiro de pé.

Vejam as imagens do ingresso. Nele já está assinalado que que a visibilidade é prejudicada, tipo “não aceitamos reclamações posteriores”.

E quanto a partida: as duas equipes não tiveram um bom ano (o texto é de 2012, lembre-se), e no Brasileirão se contentaram em escapar do rebaixamento.

Jd. Cristina Betim Z-Oeste metrop.2

Jd. Cristina, Betim. Amplie pra reparar no muro pichado no estilo que veio de SP: letras grandes, retas e bem separadas, feitas com rolinho de tinta.

O Coxa ainda chegou a final da Copa do Brasil e foi tri-campeão estadual, ou seja, o primeiro semestre foi salvo (até 2012 a final da Copa do Brasil era em junho. A partir de 13 foi pra novembro).

O Cruzeiro nem isso. Seu arqui-rival Atlético foi campeão mineiro invicto, e o Cruzeiro não foi bem em nenhuma das competições que disputou em 12.

De forma que sua alegria foi o fato que o Atlético perdeu o campeonato brasileiro, após ter disparado na liderança no 1º turno.

Ribeirão das Neves

Chegando ao estádio, logo após a confusão, torcedores do Cruzeiro ostentavam faixas (provavelmente roubadas) da torcida do Atlético-MG, que diziam “eu acredito, Galo campeão brasileiro 2012”.

Os torcedores do Cruzeiro repetiam com desdém “Eu acredito, eu acredito”, pois sua única alegria esse ano foi a derrota do rival pro Fluminense, que vestiu as faixas do certame.

Nas arquibancadas do Independência, o mesmo se repetia. Alguém entrou com uma faixa escrito “G-41”, alusão aos 41 anos que o Galo não conquista um título relevante fora de Minas Gerais.

Entorno da Lagoa da Pampulha, de alto padrão econômico.

Foi uma das maiores atrações da tarde, até pelo estádio estar pouco decorado.

Camisas de torcida organizada estão permitidas, a Máfia entrou uniformizada. Mas em Minas Gerais estão proibidas bandeiras, faixas e bateria de torcida organizada.

Tudo por conta da violência, que lá está em níveis muito altos.

Mais uma vez, esse relato era verdadeiro no fim de 2012, não necessariamente a coisa se manteve desde então. Nesse dia era assim.

betim

Municipal de Betim. Foto de minha autoria, não ficou muito boa. Veja tomada melhor, puxada da rede. Nos mais novos há um painel eletrônico do lado, com nome e nº da linha, e o preço. Nos municipais de BH e metropolitanos é o mesmo.

Alias falando em mudanças. Realmente a situação se alterou em 180º. No fim de 2012 a torcida do Cruzeiro vibrava que o Atlético não ganhava um título importante desde 1971.

Não imaginavam que já no ano seguinte – 2013 – o Galo venceria logo a Libertadores, pra findar o jejum em grande estilo.

Em 2014, a final da copa do Brasil teve suas duas partidas decisivas ali em BH.

Ida nesse exato Independência que estive, volta no Mineirão. O Atlético bateu duas vezes o arqui-rival Cruzeiro e foi o campeão.

Por outro lado, o time celeste foi bi-campeão brasileiro em 2013/14. Um biênio de ouro pro futebol mineiro.

contagem

Municipal de Contagem (r), custava R$ 2,70. Linha pintada na lata em busos novos. Só a última safra com letreiro eletrônico lateral, em 2012 raro. Fui num desses do Eldorado ao Colonial. Em BH moram 2,3 milhões, suas linhas mais caras (integradas) eram R$ 2,65. Por que Contagem (600 mil hab.) cobra mais por linhas não-integradas?

De volta ao texto de 2012: o Cruzeiro fez 1×0 logo no início, e o primeiro tempo foi bem fraco. Passado o intervalo, após o time azul ampliar, a partida melhorou muito.

O Coxa lutou como pôde pra reagir, e o Cruzeiro tentou golear. Já nos últimos minutos, Deivid diminuiu pro Coxa, acabou Cruzeiro 2×1.

Deivid foi ídolo do Cruzeiro no passado. Entretanto, talvez exatamente por isso, foi muito vaiado pela torcida local.

………….

Antes de seguirmos com o texto, breve pausa pra fotos.

Vamos ver em outra escala cenas que estão postadas no decorrer da página.

A direita, bairro Milionários, Z/O, município de BH.

Na sequência horizontal abaixo:

1) Confisco, também Zona Oeste; 2 e 3) Betim, com um ônibus municipal; 4) Colonial em Contagem, os edifícios altos da Zona Central de Belo Horizonte estão ao fundo.

Clique sobre as imagens pra ampliá-las, o mesmo vale pra todas:

Confisco Zona Oeste (3)Contagem Z-O Centro de BH ao fundo

Vamos a mais algumas curiosidades sobre Belo Horizonte. Lá se come muita pimenta, é uma terra quente, de povo moreno, afinal. No Chile, e muito mais no México, igualmente adoram esse condimento. 

Jardim São Luiz, Betim.

Mas mostarda é bem raro, senão inexistente. Só vi servirem ‘catchup’ e maionese nas lanchonetes.

Ainda sobre a comida: aqui em Curitiba há diversos restaurantes no Centrão e no subúrbio no chamado ‘bifê livre’.

Em que você paga um valor fixo por pessoa e se serve a vontade, quantas vezes quiser.

A carne são duas porções por pessoa, o resto você faz seu prato e repete o quanto queira.

Venda Nova, Z/N

Em Fortaleza, relatei quando estive lá, isso não existe. Não há comida a vontade por preço fixo na capital do Ceará. Se o preço é fixo, é prato feito, que já vem servido.

Se você se serve a vontade precisa pesar, e paga proporcional ao que comeu, o chamado ‘bifê por quilo’. Em Belém-PA constatei exatamente o mesmo.

Então, em Belo Horizonte há um modelo intermediário. Você mesmo faz teu prato, por um preço fixo, sem pesar.

BR-381 em Contagem. A famosa ‘Fernão Dias‘, vinda de São Paulo.

Pode se servir a vontade, mas apenas uma vez. “Sem balança, mas “sem repetir”vem escrito na fachada. Custa em torno de R$ 7,00 (em 2012).

………………..

Falemos mais um pouco sobre os ônibus. Já fiz matéria específica, aqui é só pra pincelar mais alguns detalhes.

Os municipais de Belo Horizonte quase todos agora tem 3 portas. Curiosamente, o sistema metropolitano não adotou essa inovação.

Jd. Cristina Betim Z-Oeste metrop.

Jd. Cristina, Betim

Embora BH seja bastante pichada, o ato de riscar com objetos pontiagudos o vidro dos ônibus, tão comum em Curitiba e São Paulo, não pegou por lá.

Mostrei nessa outra postagem ligada acima que em Belo Horizonte há os micro-ônibus amarelos, os “suplementares”.

Antigos piratas, agora incorporados legalmente ao sistema. Então. Em Betim, na Zona Oeste da Grande BH, também há.

Já em Contagem e Ribeirão das Neves eu não vi. Não há alternativos inter-municipais, como são comuns em São Paulo, Campinas-SP, Rio de Janeiro e vários outro lugares.

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Táxis e ônibus ilegais proliferam; em bh a pirataria é alarmante

Vamos ver 3 imagens do bairro Colonial, em Contagem.

Mas há ainda problemas gravíssimos com táxis piratas, e ônibus rodoviários, em viagens de longa distância.

A questão dos táxis se quer saber eu já sabia antes de pisar em BH. Quando voltei de Fortaleza, em 2011, fiz escala em Confins. Não saí da sala de embarque.

Mas ouvi que o alto-falante ficava anunciando o tempo todo pra você não pegar táxis não-autorizados, indicando como saber se o serviço é oficial ou pirata: cor do veículo e da placa, local de abordagem e estacionamento, etc.

Ao desembarcar em BH, 1 ano depois, constatei que a situação é mesmo complicada.

Além dos avisos sonoros, no saguão há diversas placas, bi-língues português-inglês, orientando o que você deve fazer pra não utilizar um táxi não-autorizado.

Nunca presenciei pirataria nesse modal com tamanha severidade em nenhuma outra metrópole brasileira. Entretanto, em outros países é epidêmico.

Na Colômbia, República Dominicana, Paraguai e no México igualmente abundam avisos pra você não embarcar num pirata.

Mais 1 na Fernão Dias, Contagem.

………….

Há ainda ônibus piratas de viagem. E a ousadia dos que oferecem o serviço é impressionante.

Eles ficam em frente a Rodoviária, onde param os ônibus oficiais, anunciando os destinos, tipo “Ouro Preto e Mariana, está partindo agora”.

Tem mais. O governo do estado colocou placas imensas alertando os usuários pra não utilizarem ônibus-piratas.

Betim, Zona Oeste metropolitana

Pois bem. Os agenciadores dos piratas ficam exatamente embaixo dessas placas, até lhes protege do sol belo-horizontino, que é muito forte. É mole?

São Paulo também tem problemas com ônibus piratas de viagem. Mas é bem menos intenso, porque eles não ficam na rodoviária oficial.

Em São Paulo, os ônibus-piratas partem do Bom Retiro, próximo ao Centro, onde funcionou a antiga rodoviária até o começo dos anos 70, mas há 40 anos não é mais ali.

Serra - BH3

Agora mais 3 do Aglomerado da Serra, todas baixadas da internet.

Em São Paulo, cada um tem seu nicho bem delimitado. Há ônibus piratas de viagem, mas eles não concorrem com os oficiais. Se você quer utilizar o transporte clandestino, já vai direto onde eles saem.

Entretanto, se você opta por viajar com segurança num empresa autorizada, não é abordado ao entrar na rodoviária pela ‘concorrência’.

Ou seja, o que me impressionou em BH não foi tanto a existência de transporte clandestino de longa distância, manifestação que já havia presenciado no Centro de SP.

Mas a ousadia deste de tentar arrebatar no último minuto passageiros que optaram pelo transporte oficial.

E esses ‘coiotes’ se posicionam justamente sob a placa que alerta de sua ilegalidade.

Quase um ano depois que fui a BH visitei João Pessoa-PB (breve subo pra rede os textos das idas ao Nordeste).

Ali constatei o exato mesmo problema, coiotes pululam em frente a rodoviária e tentam aos brados arrebatar os passageiros pro transporte clandestino. Não vi, entretanto, táxis-piratas. Serra - BH2

Em Curitiba não há e nem nunca houve táxis nem ônibus piratas, sejam urbanos ou de longa distância.

………………

O calor em BH é tanto que no aeroporto há cadeiras e praça de alimentação ao ar livre.

morro-do-papagaio1

Fechamos com duas cenas do Morro do Papagaio, igualmente oriundas da rede.

É isso mesmo, na parte externa do complexo, a sombra mas sem paredes em volta.

Pra quem mora na gélida Curitiba (apesar que agora no verão está bem quente), foi um espanto.

  ………………….

É isso. Com essa mensagem, está encerrada a série.

Abrimos com os morros, concluímos com eles também.

A Saga da “Vida na Serra”?

É B.H., poooooooooooooommmmmmmmmmbas!!!papagaio

Toda a energia captada em Belo Horizonte acaba de ser transmutada e devolvida ao Universo.

Deus Pai/Mãe permitiu, está feito.

Deus proverá”

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2 comentários sobre “Serra e Papagaio, debaixo de temporal: abrindo o Raio Vermelho em BH

    • omensageiro77 disse:

      É uma questão de opinião. Comparada com Curitiba, certamente BH é muito, mas muito quente. Quando eu estava aí (novembro.12) fazia um calor infernal, os próprios mineiros comentavam que estava demais. Na postagem que abriu a série
      https://omensageiro77.wordpress.com/2015/07/08/a-vida-no-morro-belo-horizonte-minas-gerais/
      eu fotografei um termômetro na Venda Nova, e marcava 37°. Se quase 40° não é quente pra você, repito, é uma questão de opinião. Certamente a maioria das pessoas diria que é, mas como você afirma categoricamente que não, quem sou eu pra te contradizer? Publico teu comentário, aí cada um chega a suas próprias conclusões.

      Curtir

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