Colômbia, “a Terra em Transe”

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Tradição pela América: nossa bandeira no alto da cidade. Aqui subindo no teleférico os morros de Medelím(*).

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 16 de abril de 2011

Começo a levantar pra rede o que escrevi sobre a Colômbia. A viagem foi entre março e abril de 2011.

Essa é a abertura da série. Ao fim do texto ancoro as ligações pra todas as outras matérias.

Tirei poucas fotos na Colômbia, e sendo franco várias ficaram ruins, tive que descartar. Eu ainda pegava o jeito da coisa.

Anoitece em Bogotá, Colômbia, 2014.

Pra complementar baixei imagens da internet.

Os créditos foram mantidos, sempre que estavam impressos na foto.

Vamos então delinear: as que forem de minha autoria eu ponho um asterisco (*) na legenda, como visto acima.

As do Jardim Botânico de Medelím e a da entrada da mina em Zipaquirá são de autoria de meus familiares, não estive nesses locais. O resto veio da rede.

………..

Feitas essas considerações, Fogo no Pavio:

Fiquei 8 dias por lá. Descontando um que viajei o dia inteiro, uma semana:

4 na capital Bogotá e 3 em Medelím, a maior cidade do interior

Como é sabido, escreve-se no original ‘Medellín’.

Pronuncia-se ‘Medejín‘ no espanhol andino e Centro-Americano, falado na Colômbia, Venezuela, Chile, México e Istmo.

No espanhol pratense (Argentina, Paraguai e Uruguai) fala-se ‘Medechín’, e no castelão europeu diz-se ‘Medelín’. Nessa outra matéria eu falo melhor das diferenças de pronúncia entre as 3 vertentes dessa língua.

Medellin

Medelím, a “Cidade da Primavera Eterna”. Por ser no alto dos Andes e perto do Equador a cidade quase não tem variação térmica, é um calor ameno de janeiro a janeiro.

Comecemos pela população. Muitos não sabem que a Colômbia é o segundo país sul-americano em número de habitantes.

Atribuindo erroneamente esse posto a Argentina, por esta ser mais próxima física e culturalmente do centro-sul brasileiro.

Um erro de percepção: a população colombiana é quase 15% maior que a argentina.

O país andino tem perto de 45 milhões de pessoas, enquanto nosso vizinho do sul ainda não chega aos 40. Peru e Venezuela têm perto de 30 cada.

(Atualização. Os números acima foram consultados em 2011, quando o texto foi escrito. Nos dados mais atualizados de 2015, a Colômbia está com 48 milhões, e a Argentina 43.)

medelim centro e morros

O Centro de Medelím é plano, no vale do rio de mesmo nome. Porém cercado de morros. Na Zona Sul uma encosta é da elite, ‘Las Palmas’, uma ‘Beverly Hills’ colombiana. Todas as demais ladeiras estão favelizadas, clique pra ampliar e conferir.

(Manteve-se a distância absoluta de 5 milhões de pessoas, porém diminuiu-se a proporcional.)

A capital Bogotá tem pouco mais de seis milhões de habitantes no município e ultrapassa 7 na Grande Bogotá, somando os subúrbios.

O município de Bogotá tem população similar ao município do Rio de Janeiro, mas o Grande Rio (perto de 12 milhões) é muito maior que a Grande Bogotá.

O município da capital é o Distrito Federal deles. Chama-se Bogotá D.C., abreviatura de ‘Distrito Capital’.

Os subúrbios metropolitanos estão em outro estado, chamado Cundinamarca.

Outro apelido de Medelím é ‘Medallo’ (pronuncia-se ‘medájo’). Na época dos cartéis havia outra alcunha: ‘Metrallo‘, ou seja, ‘metralho’, ‘encho de balas’.

Como ocorre em várias nações como Paraguai, México, Argentina, República Dominicana, EUA e muitos outros, a capital é uma metrópole bi ou mesmo tri-estadual.

Pois a mancha urbana extrapola em muito o Distrito Federal. No Brasil esse fenômeno também existe, mas em menor proporção.

A maior parte da periferia de Brasília está dentro do DF (as famosas ‘cidades-satélites’).

No entanto mais de um milhão de candangos trabalham e gravitam em torno de Brasília mas já dormem em subúrbios-dormitório no estado de Goiás. A região é chamada por isso de ‘Entorno’.

Monserrate-Bogota2

Voltamos a Bogotá. O ponto culminante da capital é o Monte Serrate, ou simplesmente ‘Monserrate’. Há uma igreja no topo (*).

……

De volta a Colômbia. O grosso da população da capital está no DF deles, o D.C..

Mas há um pequeno ‘entorno’ no vizinho estado que tem um nome curioso, a ‘Dinamarca’ europeia acrescido do prefixo ‘Cun’ = ‘Cundinamarca’.

Nomes a parte, os subúrbios metropolitanos da capital colombiana são relativamente pequenos.

Formam um arco a oeste da metrópole (pois a leste é montanha, falarei disso abaixo). Estive em quase todos.

O maior é Soacha, o único que tem sua área urbana conurbada com a capital, ou seja, o único que você não percebe que mudou de município – e também de estado.

Nas alamedas verdes e floridas ao redor do templo há estátuas da ‘Paixão de Cristo‘. Uma bucolidade tranquilizante (*).

Ressaltando, apenas o município de Soacha fundiu sua área urbana com a de Bogotá.

Todas as outras cidades da região metropolitana são bem mais afastadas.

É preciso pegar estradas e passar por áreas rurais antes de se chegar a seus núcleos urbanos.

……..

O município de Medelím tem 1,8 milhão de habitantes (o mesmo que Curitiba). Porém, assim como ocorre em Bogotá, a área metropolitana é pequena.

Nem tudo em Bogotá é calmaria. Nesse mercado de dia você entra e pega tua compra na prateleira. Ao anoitecer continua aberto, mas protegido, você pede, o dono te dá a mercadoria e pega o dinheiro através das grades, pra evitar assaltos. Cena comum lá, e isso que estamos num dos bairros mais ricos da cidade, Chapinero, na Zona Norte (*).

Novamente, a Grande Curitiba é maior que a Grande Medelím.

Curitiba mais seus subúrbios ultrapassam os 3 milhões de habitantes.

Já a Grande Medelím não chega a 2,5.

Retificação: fui pesquisar e vi esses dados, 1,8 milhão somente pro município e menos de 2,5 pra Grande Medelím.

Mas esses números estavam desatualizados. 

Na contagem de 2010 apenas o município de Medelím já tinha 2,6 milhões de pessoas.

Sendo portanto muito mais povoado que o de Curitiba. E na Grande Medelím moram perto de 3,5, um pouco mais que na Grande Curitiba. Corrigido.

Voltamos a calma do Monserrate: o acesso é via teleférico. É uma área turística, não mora ninguém no alto do morro, e só turistas usam esse bondinho (*).

Também estive em quase todos os municípios que formam a metrópole. Na sequência conto como foi.

………….

O CLIMA – As duas maiores cidades da Colômbia são no alto dos Andes. Bogotá está 2.600 metros acima do nível do mar, e Medelím 1.700.

A capital dessa nação é a terceira mais alta do planeta, atrás das capitais da Bolívia e Equador.

Medelím é quase um km abaixo de Bogotá.

Estação térrea do bondinho (*).

Mas como o Altiplano Colombiano é realmente muito elevado ainda assim Medelím está acima da mais alta cidade brasileira, Campos do Jordão-SP, 1,6 km acima do oceano.

Vale ressaltar entretanto que C. do Jordão tem somente 50 mil pessoas de população permanente, enquanto a Grande Medelím tem 3,5 milhões.

Brasília é nossa capital mais alta, a pouco mais de 1 quilômetro acima do oceano.

bogota3

Do alto do Monserrate a vista da capital é realmente espetacular.

É a única cidade grande em nossa pátria (incluindo capitais e interior) que vira essa marca. Falando agora somente de capitais, Curitiba está a 900 e poucos metros, é a 2ª;

Belo Horizonte-MG vem logo a seguir com 850; e São Paulo e Goiânia na sequência com perto de 750 m.

Nenhuma outra capital chega a 600 metros acima do mar. Já a Colômbia é um país da montanha.

Cali, onde eu não estive, tem mais de 2 km de altitude. Portanto suas 3 maiores metrópoles estão acima de 1,7 km, duas delas acima de 2.

………

bogota2

Bairro Cidade Bolívar, Zona Sul, a ‘parte quente’ de Bogotá. As favelas e subúrbios da Colômbia são como as do Sudeste Brasileiro, de tijolo vermelho a vista. No México as favelas são cinzas pois o tijolo de lá é branco.

A Colômbia não tem estações climáticas (verão, inverno, etc), por estar muito próxima da linha do Equador. A temperatura é constante o ano inteiro.

Lá, o conceito de ‘inverno’ é o mesmo usado no Norte e Nordeste do Brasil: a estação chuvosa do ano. E pelo mesmo motivo, a proximidade do Equador.

A soma dos dois fatores (região equatorial com altitude elevada) resulta que essas cidades têm o tempo todo uma temperatura agradável.

Nem muito calor, nem muito frio. Isso é especialmente verdade no caso da capital.

Medelím já é um pouco mais quente, por estar 800 metros mais baixa. Ainda assim não há verão tórrido nem inverno gelado.

arborizadora z-s bogota

Ladeira sinuosa que dá acesso ao subúrbio de Arborizadora Alta, vizinho a Bolívar, Z/S bogotana.

Dizem que nunca chove em La Paz, Bolívia, e outras versões já atribuem o mesmo a Lima, Peru. Não sei se é lenda ou fato, pois nunca estive nesses países, nem estudei o assunto com profundidade.

O que posso lhes garantir é que em Bogotá e Medelím chove. Peguei chuva em ambas.

BOGOTÁ, CIDADE INDÍGENAA capital do país é uma cidade totalmente americana (lembrando mais uma vez e sempre que América é um continente e não um país), o que significa indígena.

As classes média e alta são brancas, se entrar nos centros comerciais (‘shopping centers’) ou supermercados nos bairros mais caros verá uma maioria esmagadora de brancos.

Jardim Botânico de Medelím.

Porém nas ruas o predomínio absoluto é de mestiços entre brancos e índios.

Mesmo entre o povo há brancos não tão misturados e negros, e também índios não misturados.

Mas em Bogotá o mestiço entre branco e índio reina absoluto. Entre as classes populares diria que 80% são assim.

Há poucos negros em Bogotá. Diria que a mesma quantia que em Curitiba.

metro da favela medelim

Teleférico sobe a favela de Medelím, funciona de forma oposta ao de Bogotá. O da capital é turístico. Esse, ao contrário, usado pelo povão. É uma extensão do metrô, na estação a conexão com o trem é grátis. Serve área densamente habitada.

Eles vão se tornando mais numerosos quanto mais você vai indo pro norte. Medelím já tem bem mais população de origem africana, e no litoral é como em Salvador-BA.

Perto de 70% de Cartagena (onde não deu certo de eu ir) é de negros, e nas ilhas do Caribe que pertencem a Colômbia o índice abeira os 100%.

Bem, nas ilhas do Caribe que são nações independentes os afro-descendentes também são sempre 90% ou mais.

O branco pobre também é pouco comum em Bogotá. Me refiro ao tipo que é predominante em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte.

Branco pros padrões brasileiros, mas que nos EUA-Europa já não seria branco, pois é miscigenado.

metrocable-medellin

E bota ‘denso’ nisso. Favela de Medelím. Muda a cidade, o resto é igual Bogotá, casas de tijolo vermelho sem pintura se amontoam na encosta.

Então, em Bogotá também não se vê muitas pessoas assim. Não é raridade, mas é minoria.

Isso define a participação tanto dos brancos quanto dos negros entre o povo.

Entretanto, as classes alta e média alta são 90% brancas, exatamente como aqui.


Bogotá é muito parecida com Manaus-AM, onde fui em setembro de 2010.

Ao lhes relatar minha viagem a capital amazonense, o título do emeio foi “O Coração da América” (aqui na página mudei pra “a Mãe de Deus” porque ‘Coração da América’ ficou pro Paraguai).

medellin8

Era uma região esquecida, e por isso o cartel e outras quadrilhas tomaram conta. Agora o estado reagiu, integrou o morro a cidade. Veja ao lado da estação de metrô um centro cultural com teatro no alto do morro em Medelím.

Bem, Bogotá também é coração e essência de nossa querida América. São cidades bem próximas, física e espiritualmente.

Manaus é razoavelmente plana, Bogotá é uma cidade de morros. O resto é igual:

Ambas têm uma periferia muito pobre (pro padrão do Centro-Sul brasileiro), e são de maioria indígena absoluta.

Embora eu diria que em Manaus o tom predominante de pele é um pouco mais escuro.

Talvez por Bogotá ser capital de nação, o que exacerba a presença da elite, branqueando um pouco o sangue do local. Mas os olhos puxados revelam a americanidade da cidade.

Enfim, essa mistura torna as bogotanas Mulheres muito bonitas, em minha opinião. Têm em geral a pele clara (herança europeia) e o olho puxado, com o cabelo preto e liso (herança americana).

transmilenio

Bogotá também investiu pesado no transporte. Não há metrô, ali é pelo modal do ônibus. Em compensação é um espetáculo o Transmilênio, que depois inspirou o Transantiago, Metro-Bus mexicano, Move-BH e Trans-Oeste-RJ, entre outros.

Uma belezura. Dava gosto andar no Transmilênio lotado apenas pra ver dezenas de moças da raça americana.

Quase não há loiras ou ruivas em Bogotá, posto que mesmo entre as brancas, que já são minoria, boa parte tem o cabelo escuro.

Claro que entre os Homens os loiros e ruivos também são raros.

MAS MEDELÍM NÃO ÉFalando nisso, vamos fazer o contraste com Medelím. Etnicamente, é bem distinta da capital, da qual dista apenas 250 km em linha reta.

Se Bogotá é americana, Medelím poderia ser uma capital do centro-sul do Brasil, falando apenas em termos raciais:

padronizacao

Num 1º momento, apenas os expressos (vermelhos) e alimentadores (verdes) do Transmilênio tiveram pintura padronizada. Mais recentemente, em nova etapa, todos os ônibus de Bogotá serão padronizados, uma cor pra cada categoria, como é em Curitiba e várias outras metrópoles.

A maioria da cidade é igual a maioria de Curitiba e São Paulo, como já citei.

Um branco pobre, mestiçado com outras raças, pele clara mas não puro-sangue ariano euro-estadunidense.

E assim é a maioria do povo de Medelím. Há bem mais negros que em Curitiba, mas não mais que em São Paulo.

Colocando em números, Medelím é mais indígena que nossas capitais do centro-sul. Mas não é maioria indígena, como Bogotá.

Diria que Medelím é 50% de brancos americanizados (não-arianos), 30% indígena e 20% negra, bem parecida com Cuiabá-MT, por exemplo.

Catedral de sal

Catedral de Sal“: em Zipaquirá (50 km de Bogotá) há uma igreja no fundo da terra, dentro de uma mina. As paredes são todas de sal.

Bogotá é 80% indígena, 10% brancos americanizados (não-arianos) e 10% de negros, similar a Belém-PA e Manaus.

Cartagena, no litoral, é 70% negra, os outros 30% divididos entre indígenas e brancos americanos, espelhando mais ou menos a composição racial de Salvador ou São Luís-MA

Não estive em Cartagena, relato o que me contaram. Seja como for, em todas a classe média-alta e a elite são 90% brancas.

(Atualização: depois da Colômbia estive no México, Paraguai, República Dominicana e Chile.)

Centro de Zipaquirá (conhecida simplesmente como ‘Zipa’): é uma cidade colonial, o casario lembra a Bolívia e Cusco-Peru (*).

(No México e Rep. Dominicana só a elite é branca, mesmo a classe média é escura, indígena no caso mexicano e afro-descendente no Caribe).

(Muda um pouco a receita, mas o resultado em ambas é que o povão é quase 100% escuro.)

(No Chile é parecido com a Colômbia, elite branca, classe média mais europeizada mas com percentual elevado indígena. No subúrbio meio-a-meio.)

(Já o Paraguai é o país mais branco que já estive, elite europeia, classe média quase toda muito branca.)

(E mesmo as classes populares são de pele clara, alguns descendentes de espanhóis, outros mistura desses com os nativos.)

mina-Zipa

Entrada da mina de sal, Zipaquirá.

……..

DUAS CIDADES DE MORROS

Tanto Medelím quanto Bogotá são cidades planas em seu Centro, porém com altos morros a cercá-las.

Nada mais natural, são cidades andinas na melhor definição do termo.

bogota1

Bogotá. A bola iluminada é uma arena de touradas. É isso que você leu.

Bogotá tem uma encosta muito alta a delimitá-la ao oriente, por isso a cidade não a cidade não tem zona leste, apenas Oeste, Sul e Norte, além da Central, é claro.

A Zona Norte é a mais rica. Foi onde ficamos, no bairro Chapinero. Lembra Santa Teresa, no Rio, pra quem conhece.

Pois é uma região no pé do morro, próximo ao Centro da cidade, e reduto ‘cultural’ da classe média. É o setor universitário da cidade.

Próximas 5: mais um pouco da subida do Monserrate, Bogotá. O jardim, ainda no nível da cidade, já mostrado acima. A seguir o teleférico inicia a ascensão, e a vista lá de cima (*).

Meus familiares não saíram muito dessa região exceto pra ir ao Centro, então talvez não tenham percebido que a periferia de Bogotá é muito mais pobre que a de Curitiba.

A Zona Norte em Bogotá é dos ricos, a Zona Sul é quase toda de periferias e favelas.

A Zona Oeste é intermediária, física e socialmente: imensa maioria de classe média-baixa.

Não moram tantos ricos, mas as favelas ali também são menores, pois não há morros no ocidente da cidade.

Voltando a opor as seções boreal e austral: na Zona Norte Bogotá se parece com os bairros mais ricos das cidades brasileiras.

O cume da cidade, a mais de 3.000 metros de altitude. Bogotá já está a 2.600, pro Monserrate ainda são mais 400 (*).

Mas assim que passa o Centro a cidade muda brutalmente, mesmo na Zona Sul próxima ao núcleo da cidade é bem tensa a situação.

Quando alguém sobe no teleférico do Monserrate (vejas as fotos e suas legendas) pode ver a cidade toda, e se percebe bem a diferença.

A Zona Norte é toda verticalizada, a Sul toda plana ou com prédios bem baixos, os famosos ‘pombais’, sem elevador.

Bem, agora estão começando a fazer prédios de classe média nas quebradas meridionais da cidade, pois o espaço nas outras regiões está se esgotando.

Paixao de Cristo-Monserrate1

Cercando a igreja há uma pequena vila, que no passado foi residencial. Hoje porém abriga apenas lanchonetes e demais pontos comerciais que dão apoio aos turistas (*).

……………

Tudo na Colômbia é muito mais barato que no Brasil. Estou pensando pela nossa renda, é claro. Lá eles ganham menos, então dá no mesmo.

Um apartamento novo, na planta, sai por a partir de 38 milhões de pesos, pouco mais de R$ 40 mil.

O mesmo padrão em Curitiba, num bairro similar, é R$ 110 mil.

Os valores são de 2011. De lá pra cá a bolha imobiliária se inflou mais no Brasil, embora talvez agora (2015) ela venha a furar.

Ainda assim, um apê na periferia da Z/S de Ctba hoje sai por 130 a 140 mil – aqui me refiro ao município, sem contar região metropolitana.

Não sei se a Colômbia vive bolha similar.

Monserrate-Bogota

Em Santos-SP também há uma igreja no alto do Monte Serrat, onde igualmente há um teleférico pois não chega carro. Porém na cidade paulista pode-se subir o morro a pé, se quiser (foi o que fizemos). Aqui em Bogotá não há como, só de bondinho mesmo(*).

……….

E a Zona Oeste de Bogotá? Bem, como disse acima está entre as Zonas Sul e Norte, tanto geográfica quanto socialmente.

Então mistura regiões de classe média com bairros bem mais humildes. Não há na Zona Oeste bairros de elite.

Esses se concentram ao Norte, tanto dentro do município de Bogotá quanto na região metropolitana, onde estão se formando muitos condomínios fechados ao estilo ‘Alphaville’.

Bem distantes da cidade, há que se pegar rodovia e pagar pedágio pra chegar a Bogotá.

De todos os países que já estive, só o Paraguai não tem condomínios fechados. Talvez porque embora muito pobre ele é o menos violento de todos, no que se refere a criminalidade comum.

Só que no Monte Serrate na Colômbia a pronúncia é diferente. Na cidade portuária paulista se fala Monte Serrá, com ‘t’ mudo, como no francês. Se disser isso ao taxista em Bogotá ele não entenderá nada, precisa dizer “MonserratE”, com o ‘e’ bem pronunciado (*).

México e Colômbia são extremamente violentos; Brasil, República Dominicana, EUA e Chile têm em algumas cidades índices relativamente altos de criminalidade.

E o Paraguai é o mais calmo de todos. Embora em outros campos, como no futebol e na política, por vezes há bastante violência.

……….

De volta a falar de Bogotá. Talvez o predomínio da Zona Norte entre os ricos esteja começando a mudar. Pois o aeroporto é na Zona Oeste.

Chama-se Eldorado, mesmo nome da avenida que o liga ao Centro (onde está sendo feito mais um ramal do Transmilênio, nessa mensagem falo bem melhor sobre o transporte).

bogota

Bogotá

Nessa avenida estão se erguendo torres comerciais de alto padrão. Em 2011, esse ramal do Transmilênio apenas iniciava as obras.

Um ano depois, em junho de 12, fiz conexão em Bogotá pra ir ao México, e vi que ele já estava pronto.

É mais uma prova que a Zona Oeste de Bogotá começa a se aburguesar, dando mais opções pra classe média-alta de moradia e trabalho.

Centro_de_Medellin-Colombia

Medelím

Comparando por alto com São Paulo, diria que a Avenida Chile, no Centro de Bogotá, cumpre o papel da Avenida Paulista. É onde está a bolsa, e ainda é o centro financeiro do país.

Porém a Avenida Eldorado, que vai até o Aeroporto, cortando a cidade do Centro até o extremo Oeste, está se transformando na região das avenidas Faria Lima, Luís Carlos Berrini e Marginal Pinheiros.

A comparação a Curitiba será ainda mais precária, pois aqui o mercado imobiliário corporativo é infinitamente menor que o de São Paulo e Bogotá.

bogota4

Bogotá

Grosseiramente, podemos colocar que o Centro e Centro Cívico daqui são a Avenida Chile bogotana, a parte tradicional.

E o eixo do expresso que corta a Zona Oeste nos bairros Bigorrilho-Mossunguê (“Champagnat-Ecoville”, segundo alguns) é a parte emergente, aqui como em Bogotá.

…….

Enfim, isso está fazendo que se ergam prédios de classe alta residenciais na Zona Oeste de Bogotá também. E até a pobre e violenta Zona Sul também está vendo surgir prédios pra uma classe média emergente.

Próximas 4: subindo o morro de Medelím no metrô-teleférico, aquele que é popular. Essa sequência de minha autoria (*).

Acabou o espaço nas Zonas Norte e Central pra novos empreendimentos, e os terrenos que existem são infinitamente caros. 

Assim a Zona Oeste está virando a nova Zona Norte (de classe alta) e a Zona Sul a nova Zona Oeste (de classe média).

Tudo isso porque as favelas estão sendo integradas a cidade, Bogotá – embora extremamente violenta ainda – está deixando de ter ‘zonas proibidas’. Voltarei ao assunto.

A Zona Oeste é a única plana. Uma alta montanha delimita a cidade a Leste, como já foi dito. Bogotá tenta vencer essa barreira. A área urbana vai subindo o morro, tanto quanto pode. Tanto as favelas quanto partes mais caras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo as invasões vão subindo o morro, mesmo o Centro e a rica Zona Norte tem pavorosas favelas dependuradas nas encostas da montanha.

É o padrão da América Latina, não? No Chile, Belo Horizonte, Florianópolis-SC, entre muitas outras, favelas no morro ao lado de prédios de luxo.OLYMPUS DIGITAL CAMERA

No entanto, há em Bogotá uma pequena parte da encosta que não foi ocupada por barracos, justamente ao contrário.

Bem no meio da Zona Norte, acima de Chapinero. Ali é uma região de elite, mesmo na montanha.

Inclusive os mais ricos entre os mais ricos moram em ruas em aclive, sem saída, já bem mais altas que o resto da cidade. É um excelente meio de se encastelar e evitar sequestros.

Onde ‘morro e asfalto’ se encontram em Medelím, alguns prédios de classe média, ao fundo a favela ‘Comuna 13’ (*).

As ruas são guardadas por soldados do exército, metralhadoras em punho. Presenciei essa cena.

Tirando esse pequeno pedaço, chamado Santa Ana, toda a encosta do morro é favelizada.

Desde o extremo Norte, pula esse meio-Norte. Voltam as favelas logo a seguir, no Centro-Norte da cidade (onde eu fiquei).

E dali segue até o extremo Sul, incluindo o Centro, uma favela emendando na outra. Lado a lado com os prédios mais ricos.

cidade-bolivar-bogota2

Mais uma dos morros da Cidade Bolívar. A Zona Sul é mais pobre de Bogotá.

Já disse que o bairro que ficamos, Chapinero, é de classe média-alta, e de fato assim é.

Porém a duas quadras de onde ficamos já começava uma enorme favela.

Fui até lá, e me embrenhei por seus becos, é claro.

Era cedo, seis da manhã. Todos desciam o morro pra ir trabalhar, eu era o único que subia. Valeu a pena.

A vista da cidade lá de cima é estonteante, e se pode ver com perfeição seus contrastes e feridas:

chapinero

Bairro Chapinero, onde nos hospedamos. A Zona Norte é a parte rica da capital colombiana.

De um lado da rua prédios de altíssimo luxo com várias camadas de grades, cercas cortantes e eletrificadas se sobrepondo.

Do outro, a favela, que “é bela mas também é fera”, na definição do rap.

Nada muito diferente do Brasil. Repito, essa favela foi a primeira coisa que visitei na Colômbia, nos primeiros cinco minutos que estava no país. 

Contando a partir do momento que acordei no dia seguinte. No dia que cheguei, apenas jantei e fui dormir. Me levantei e rumei a favela do Chapinero. Veja a direita a cena: uma região de classe média-alta, cercada por grande ocupação no morro.chapinero favela

E lá eu fui. A primeira de muitas favelas. A próxima seria a Arborizadora Alta, no extremo Sul de Bogotá, em sua Zona Vermelha, local que os burgueses temem só de ouvir falar.

As favelas da Colômbia, como no Brasil, estão sendo urbanizadas e pacificadas, em outros textos descrevo melhor essa reconciliação.

santo domingo savio medelim

Bairro Santo Domingo Sávio. Em Medelím inverte: a Zona Norte (e partes da Leste) são as mais pobres, que concentram as favelas.

………….

Mas o processo é longo e trabalhoso.

Por hora, mesmo asfaltadas e sem a presença dos temidos ‘cartéis’ (que cumpriram ali papel semelhante aos ‘comandos’ cariocas) as favelas de Bogotá ainda são ‘a parte quente’ da cidade.

Comecei pela favela do Chapinero e da Arborizadora, e encerrei por Manrique, o último lugar que visitei em solo colombiano, uma enorme favela (complexo de favelas na verdade) na Zona Leste de Medelím.

Las palmas medelim

Bairro Las Palmas. A Z/S de Medelím concentra os ricos. Na Z/O (onde ficamos) há partes de classe média-alta e várias favelas.

Claro que no meio fui nas regiões de classe média, alta e altíssima, pra ver os dois lados de tudo.

Passei por bairros em Bogotá (Santa Ana) e em Medelím (Las Palmas, vista a direita) que parecem as partes horizontais e verticais, respectivamente, do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo.

Importa dizer que visitei bairros de todos os tipos, dos mais miseráveis aos mais abastados, passando por tudo que está no meio.

De Arborizadora Alta a Manrique, passeei por toda a Colômbia, tanto quanto as condições permitiram.

chapinero-bogota

Zona Sul de Medelím. Antes escrevi ‘Zona Norte de Bogotá’,  assim está identificado errado na internet. Corrijo: não é Bogotá, no mastro há bandeira verde-e-branca do estado da Antioquía, que Medelím é capital.

De ‘A’ a ‘Z’, da favela a elite, nada escapou a meu olhar. No decorrer da série vou soltando pra vocês minhas impressões.

……………….

Está aberta a série:

Vielas da V. Maria, Deusa-Lua, Primavera Eterna e Afeganistão ao lado de ‘Beverly Hills’ (abril de 2011).

– “Sinais antes do fim” (junho de 2011), falando sobre minhas voltas em Medelím.

– “Dormindo com o Inimigo“: desenho de um casal colombiano. Cada um deles torce pra um dos times arqui-rivais de Medelím, devidamente uniformizados (março de 2016);

O transporte, síntese da fênix colombiana (grande coletânea de textos, os principais de abril e junho de 2011, mas incluindo material de 2012, 13 e 14):

O país emergiu, e passou a ter esperança em si mesmo. Só foi possível quando deram cidadania as massas do morro, e o transporte coletivo foi o pilar da mudança;interior dentro salão mesas balcão tv geladeira bebidas trólei café lanchonete z/c bogotá colômbia ex era buso trol

O futebol na Colômbia (maio de 2011): Estive em dois clássicos, tanto em Bogotá quanto em Medelím. Narro a experiência e falamos um pouco desse esporte no país;

Ponto Final (julho de 2014): Bogotá teve tróleibus, mas eles acabaram. Um idealista reformou uma sucata e fez um trólei-café (dir.). Seu sonho foi banido pra Sibéria.

Em Medelím igualmente havia um dia contado com esse modal, mas também acabara.

Na mesma época (2011/12) outro idealista tentou re-implantar os ônibus elétricos, mas novamente não deu certo;

casa branca pablo paulo escobar washington dc eua frente grade filho criançaAprendendo a conviver com a Paz (julho de 2011): A parte pior dos “Problemas” já passou. Mas ainda há conflitos violentos, é um aprendizado lento e difícil;

– “A Guerra do Pó”: A Guerra Civil Colombiana: todos x todos, como a CIA gosta que seja (abril de 11).

A violência na Colômbia se reduziu bastante, louvado seja Deus. Ainda assim o país ainda está em guerra. Nesse texto eu abordo as origens desse conflito. A imagem de Paulo Escobar em frente a Casa Branca em Washington é um bom aperitivo.

“Deus proverá”

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