a Colômbia, aprendendo a conviver com a Paz

ianques fora

Colômbia, a Terra em Transe: a ocupação militar ianque vem complicar ainda mais – e essa é a intenção – uma situação que já é naturalmente volátil e conflituosa. Esse é um cartaz de protesto que circula na Colômbia.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 3 e 4 de julho de 2011

Jogo no ar mais um texto sobre a Colômbia.

As fotos dos caveirões e dos conflitos entre estudantes e policiais foram puxadas da rede.

As do Museu do Ouro foram tiradas por meus familiares, não estive nesse local. As que mostram o teleférico de Medelím e imediações, e mais a estrada e os extintores são de minha autoria.

No modal do emeio, esse fechou a série. Aqui na página vamos por ordem distinta.

Recapitulemos. O país está em guerra civil desde o fim dos anos 60, numa situação extremamente confusa, gerando um ‘todos contra todos – exatamente como a CIA gosta‘.

casa branca pablo paulo escobar washington dc eua frente grade filho criança narcotráficoAs oligarquias colombiana e ianque – que as vezes se confundem – ganham muito dinheiro com o tráfico, e por isso não visam jamais extingui-lo mas sim controlá-lo.

Veja a foto de Paulo Escobar exatamente em frente a sede do governo dos EUA. Uma imagem vale por bilhões de palavras. Não é necessário argumentar além disso.

Mas mesmo nesse cenário extremamente corrupto indiscutivelmente a situação melhorou em relação ao auge dos ‘problemas’ (emprestando o termo norte-irlandês), que foi nos anos 80 e 90.

Desde então uma ofensiva do governo desmantelou as bases urbanas dos carteis e das guerrilhas, e uma parte dos para-militares também se desarmou.

estudantes

Em março de 2011, estudantes da Unal (Univ. Nacional) em Medelím protestavam exatamente contra a ocupação estadunidense de seu país.

Agora é possível viajar por via terrestre no país – nos anos 80, 90 e começo de 2000 não era, os ricos só iam de avião. Mesmo esse modal era arriscado, Paulo Escobar uma vez derrubou um voo com uma bomba. 

Pra tentar matar um candidato a presidente, que não embarcou porque a notícia vazou. Perigoso, portanto. Mas pelo solo era muito pior.

Ricos e a classe média alta jamais iriam de carro entre Bogotá, Cali e Medelím, as 3 principais cidades da nação, que são próximas umas das outras, formam um triângulo no centro geográfico de Colômbia.

Se alguém com um pouco mais de dinheiro fosse pela estrada, era sequestro na certa. As rodovias colombianas viviam então uma situação como retratada no filme ‘Mad Max’.

disturbio

A tropa de choque invadiu o campus.

Só quem não tinha opção usava. As grandes transportadoras faziam seus caminhões irem em comboios, muito bem guardados por seguranças armados.

As viações de ônibus faziam o mesmo. Quem não podia arcar com o alto custo desse aparato tinha que rezar muito pra chegar em segurança.

Nas cidades a coisa não era muito melhor, bombas também explodiam em ônibus e centros comerciais, e a onda de sequestros era rampante, um salve-se-quem-puder.

policia invade a unal

E houveram violentos enfrentamentos.

Resumindo, nessas 3 décadas a Colômbia parecia o Afeganistão, Somália, enfim as partes mais conflagradas do globo. Isso mudou. Melhorou muito, sem dúvidas.

Ainda assim, a Colômbia está longe de estar ‘renascida’ e plenamente ‘recuperada’, como as vezes sai na mídia capitalista.

É sabido que os barões que comandam a comunicação de massas tem sua própria lista de interesses, e entre eles não está relatar os fatos de forma imparcial.

……….

esmad11

Aqui, o exato momento em que os caveirões do Esmad adentram os portões do campus Medelím da Universidade Nacional.

As guerrilhas, os cartéis e os para-militares perderam boa parte de seu poder letal? Sim, graças a Deus é assim. 

As cidades agora são “seguras” – coloquei entre aspas porque é uma situação similar a do Brasil.

Há assaltos e chacinas, quadrilhas dominam as favelas, tanto as planas quanto as de morro.

Nas maiores cidades entre 3 a 5 pessoas são assassinadas por dia, seja na capital Bogotá quanto em Medelím, Cali, Barranqulla, Cartagena, etc. Isso em cada uma delas, eu digo. Nos fins de semana os números são maiores.

pensar diferente nao e terrorismo

Pensar diferente não é terrorismo”, diz a faixa.

Quando eu estava em Medelím, uma gangue de uma favela matou um rapaz de outra.

Seus companheiros roubaram três carros (um deles um táxi) e em um comboio de 15 homens armados até os dentes invadiram a favela rival, atirando “em tudo que se move”.

Duas ou três pessoas morreram, e mais umas seis ou sete foram internadas com ferimentos a bala. Um exemplo entre muitos.

Infelizmente isso é rotineiro na Colômbia, como o é – ou pelo menos foi em um passado muito recente – no Brasil, boa parte da América Latina e também nos EUA.

Como já escrevi antes, a Colômbia passou de um estágio similar ao Afeganistão, de guerra total, a um parecido com o nosso, hiper-violento mas que não abala as estruturas da sociedade.

esmad assassinos

Esmad Assassinos”, está pichado na barricada. É a sigla do ‘Esquadrão Móvel de Ação Direta’, a Tropa de Choque da Polícia Nacional Colombiana.

É fato que a situação melhorou muito. E a razão é que ao lado da repressão policial está se dando atenção a parte social.

A Colômbia de ontem é o Rio de Janeiro hoje. Da parte social, cuja espinha dorsal é o transporte, já escrevi bastante, os artigos subiram pra rede.

Fazendo um breve resumo, o governo percebeu que sim, é preciso combater militarmente os grupos armados. Mas isso por si só não basta.

Quanto mais você aplica violência contra uma população, mais ela reage também com violência contra o estado e as classes alta e média-alta.

disturbios unal

Distúrbios incendiários no portão da Univers. Nacional, Medelím, 2011.

Por isso é preciso aliar o combate militar a uma estratégia de integração das periferias a sociedade organizada. É preciso que os morros se sintam parte da cidade.

Depois de 3 décadas de intenso derramamento de sangue, enfim a elite e o governo colombiano perceberam isso. Assim, ao lado do ferrenho enfrentamento militar aos cartéis e guerrilhas, promoveram também uma revolução cívica. 

Pra que as massas populares, pela primeira vez, sentissem orgulho de pertencer a Colômbia. Assim deixando de enviar sua juventude pra servir nas fileiras dos grupos criminosos.

O pilar é a revolução no transporte, como já detalhei. Se iniciou por Medelím, sua cidade mais problemática.

E logo a seguir se consolidou na capital Bogotá.

Agora atinge todo o país:

disturbios

A seguir a confusão se espalhou pela cidade, fora da universidade.

Cali, Medelím, Cartagena e Barraquilla inauguraram recentemente ou inaugurarão em breve seus TransMilênios.

Cali planeja fazer também bondinhos ligando o alto das favelas aos terminais, ‘vencendo a gravidade’.

Já Cartagena quer um ‘TransMilênio Aquático’. Explico:

A cidade fica no litoral caribenho. Alguns de seus bairros são ilhas, sem pontes que levem ao continente.

Milhares pegam todos os dias barcos e balsas pra ir trabalhar. 

esmad1

Caveirões do Esmad dispersam protesto. Aqui na Colômbia. Mas a mesma cena se repete também no Chile.

O sistema de barcos é caro, confuso, desorganizado e descoordenado.

Assim como eram (e em alguns casos ainda são) os micro-ônibus. Então.

O TransMilênio Aquático irá padronizar horários, preços e itinerários, além de possibilitar integração com a rede de ônibus.

Por terra, ar e água, é a Fênix Colombiana que renasce.

Nos agora foquemos na outra parte.

O esmad ataca: é a colômbia, o estado para-militar

esmad

Aqui não estamos mais em Medelím mas na capital Bogotá, veja os Expressos Vermelhos do Transmilênio atrás. Os caveirões na Colômbia – e Chile idem – são muito maiores que os brasileiros, verdadeiros tanques de guerra usados contra a população civil – situação que lembra o ‘apartheid’ sul-africano.

Uma observação muito importante é que exército e polícia se confundem na Colômbia, uma situação que dá margens a muitos abusos, como é lógico crer.

Nada mais natural. Indubitavelmente, a Colômbia é um estado para-militar.

Um país não emerge de um estado de guerra total pra plena paz democrática sem um tumultuado período de transição.

E é essa transição que a Colômbia atravessa agora.

Todos estão se adaptando a viver em ambiente mais livre, e há solavancos nessa difícil estrada. Por vezes, o estado ainda abusa de seu poder.

Quando estávamos lá, vimos pela televisão que a tropa de choque invadiu a Universidade Nacional (Unal) em Medelím. No Brasil, semelhantes episódios só correram no período mais sinistro do regime militar.

amarelo

Agora que já vimos essas cenas mais pesadas, e não há como falar na Colômbia sem tocar na questão política, vejamos fotos mais amenas. Nessa nação os extintores não são vermelhos. Digo, alguns até são. Mas há de várias cores, esse é amarelo. A partir daqui veremos várias tomadas de minha autoria.

Exemplo foi a invasão da Universidade de Brasília pelas tropas do exército em 1968, na época da decretação do tristemente célebre AI-5.

Ou seja, em nosso país, esses abusos ficaram marcados como símbolo do pior do pior.

Na Colômbia não. Oficialmente é uma democracia, mas isso não impediu o Esmad de ocupar o campus, sempre com a desculpa de ‘combater o terrorismo’.

Esse é a tropa de elite da polícia, e a sigla significa Esquadrão Móvel de Ação Direta, ‘Esquadrón Móvil de Acción Directa’ no original.

Os estudantes faziam uma manifestação pacífica exatamente contra as bases ianques, quando a polícia avançou. Veja o sítio que dá a versão deles, se quiser:

http://pensayactua.blogspot.com/

verde e cerveja

Aqui um verde. A cor indica a categoria, o verde é o ‘A’, ou seja, que contém apenas água, portanto não pode ser jogado na rede elétrica pois aumenta o fogo. Outro detalhe. Na Colômbia não há garrafa de 600 ml pra cerveja, é sempre vendido em garrafa pequena, aquela chamada ‘long neck’.

…………

Uma semana depois desse lamentável ocorrido, houve o retorno.

No dia em que vim embora os estudantes, aliados a alguns movimentos sociais, fizeram uma passeata gigante.

Que literalmente parou o Centro da cidade.

Eram milhares, muitos milhares. De fato impressionante.

O abre-alas da marcha eram alguns estudantes semi-nus pintados, de ambos os sexos.

Algumas mulheres estavam totalmente peladas, pintadas com uma tinta muito forte pra esconder suas partes íntimas.

A seguir havia uma ala circense.

Com malabares, palhaços, equilibristas, bonecos humanos (aqueles de 3 metros ou mais), etc.

gnose1

A Gnose é muito forte na Colômbia, seus cartazes estão por toda parte. Depois descobri, a sede dessa Doutrina é no México, a filial colombiana é mais ativa, embora já tenha visto seus cartazes no Brasil (muitas vezes) e também Chile.

E depois vinha a massa. Muita gente, já disse. Se ficasse parado olhando eles levavam bem uns 15 minutos pra passarem todos.

O comércio fechou, com medo de saques, mas não houve violência.

Os bancos e instalações governamentais, além de tudo que lembrasse remotamente os EUA (Mc Donalds, etc), também fecharam.

A parte de serem protegido por um cordão fixo de policiais.

Não houve depredações, apenas xingamentos, e nesses alvos citados acima foram atiradas bolas de papel e laranjas, mas ficou nisso.

Fomos de ônibus de Bogotá a Medelím. Apenas 245 km em linha reta, 45 minutos de voo. Porém como é preciso descer e subir os Andes, são mais de 400 km de estrada, e leva 8 horas pra percorrer, ou seja quase o dia inteiro. Saímos cedo pela manhã da capital, chegamos já noite avançada em Medelím.

E nas bordas iam os pichadores. Por onde passavam eles iam pichando palavras de ordem.

Em tudo. Viadutos, monumentos, paredes, o que achassem. Na verdade estavam provocando a polícia, para ver se ela reagia.

A maioria dos pichadores eram anarquistas do “bloco negro”.

Estavam mascarados e preparados pro confronto, que felizmente não ocorreu. Toda a marcha foi acompanhada de perto pela polícia.

Além de é claro o setor de inteligência, que discretamente ia filmando pra identificar os líderes e demais participantes.

Embora essa filmagem seja ilegal, foi feita. Sempre é.

Os caminhões pesados colombianos são todos ianques, viajar na Colômbia, ao menos nesse quesito, é quase como estar nos Estados Unidos.

……….

Mesmo sem violência física, a tensão era palpável.

Centenas de policiais iam escoltando os milhares de manifestantes, com cães pastores alemães, evidentemente agitados pelo barulho.

E diversos caveirões (carros-fortes) do Esmad estavam ali, além é claro dos helicópteros dando rasantes.

Uma nota sobre isso: os caveirões da Colômbia são maiores que os similares brasileiros. E mais reforçados também.

Várias cenas do Metrô-Cabo, teleférico que levou metrô aos morros de Medelím. Há 2 linhas de cabo, 1 na Z/ Oeste (favela ao fundo é a ‘Comuna 13’) e outra na Z/ Norte, que não pude usar pois estava em manutenção.

Os brasileiros são na verdade iguais aos blindados que transportam dinheiro pros bancos.

Do mesmo tamanho, apenas têm mais buracos e um espaço acima pra polícia atirar.

Já na Colômbia eles são uns dois metros mais compridos, sendo até trucados (com um eixo a mais).

Logo cabem mais policiais. Veja a foto. A frente, há uma enorme pá anti-barricada.

Li que ela remove até 3 toneladas sem que o veículo precise parar. Esse é o peso de mais de dois carros de passeio somados.

Há uma estação no alto do morro chamada ‘Passarinhos’. Antigamente era a parte esquecida da cidade, um verdadeiro pesadelo. Agora, com infra-estrutura e maior segurança, vários prédios são erguidos no local, alguns de cohab mas muitos de classe média.

Nos vidros e nos faróis há uma grade protetora. É claro que os vidros são também blindados.

Assim eles não podem ser perfurados por balas mas também não trincam com pedras.

Na frente e atrás há mangueiras que lançam tanto água quanto gás lacrimogênio na multidão.

A abertura em cima, onde se preciso ficam policias metendo bala de metralhadora, também é maior no país vizinho.

Os caveirões do Bope (RJ) tem espaço apenas pra uma pessoa ali.

Leve em conta que o texto é de 2011, e refletia o aparato policial então vigente. De lá pra cá novos equipamentos podem ter sido adquiridos, mais parecidos com o que já existia em outros países.Volta o texto original:

Na Colômbia cabem dois, ou seja dá pra atirar em mais gente simultaneamente. Assim se vê que o caveirão é na verdade um tanque de guerra mais adaptado pra um ambiente urbano. Os caveirões colombianos se parecem ainda mais com tanques que seus similares brasileiros.

E haviam muitos caveirões sitiando o Centro de Medelím naquele dia.

Mesmo depois que a marcha se dispersou eles continuaram lá, nas entradas das estações de metrô, pra mostrar quem manda.

O uniforme da polícia de choque também é mais reforçado: eles usam uma armadura por todo o corpo.

Não é uma peça compacta, mas várias placas, que eles aderem ao peito, costas, braços e pernas. Parecem robôs.

Amigos, a Colômbia está em guerra. Diluiu bastante, mas ainda não acabou.

Assim, embora impressionante a vista desses tanques de guerra nas cidades, é natural e compreensível.

Isso já disse. A novidade vem agora: o Chile vive a mesma situação.

E, pelo menos na teoria, o Chile não está em guerra – mas na verdade está, ainda que de baixa intensidade.

Leia matéria completa que em que detalho a situação com muitas fotos.

Chile e Colômbia são os únicos países sul-americanos em que o estado joga tanques de guerra contra a população civil.

Medelím do alto do morro.

Nem mesmo Venezuela, Peru e Paraguai fazem uso desse artefato militar.

E olhe que todos eles são bastante conturbados politicamente, o Peru (como a Colômbia) ainda enfrenta guerrilhas ativas com bases fortes na selva e montanhas.

…..……

Enfim, enfatizando de novo o que é óbvio, da guerra total pra democracia plenamente pacífica há um período de transição, e é exatamente o que essa vizinha nação vive agora.

gnose

Em outra escala, o cartaz da Gnose.

Já falamos do momento agudo, a invasão da universidade e a passeata.

Vejamos agora o que é crônico, ou seja o dia-a-dia da questão de segurança na Colômbia.

Além dos alimentadores do TransMilênio e do metrô (cujos ônibus são verdes), outra presença do estado, também verde, subiu os morros:

As bases da polícia nacional. Verde-oliva, a farda da polícia na Colômbia é parecida com a do exército.

A partir daqui fotos tomadas pelos meus familiares no Museu do Ouro, Bogotá.

Este último também é muito presente nas ruas das grandes cidades.

Afinal a guerra prossegue, grupos armados recuaram pra selva mas podem atacar na cidade a qualquer momento. Já falamos mais disso. Por hora nos fixemos na polícia.

Agora a polícia tem bases na cidade inteira. Tanto nas favelas e periferias como nas regiões de classe média, em cada bairro há uma unidade da polícia.

Especialmente em Bogotá, em Medelím nem tanto. Isso explica em parte porque Medelím é mais violenta, pois é menos policiada.

A construção desses módulos é uma iniciativa excelente, a polícia precisa estar perto do povo, até pra que passe a ver a população pobre como cidadãos a serem protegidos, e não inimigos a serem atacados.

Agora em Medelím estão se construindo novas bases da polícia, pra que se iguale o estágio já atingido em Bogotá.

Há uma região da Zona Oeste medellinense chamada Passarinho, que sintetiza bem a Colômbia, seus problemas e sua luta pra reviver: enormes favelas, agora sendo parcialmente urbanizadas.

Implantaram o metrô-cabo e seus alimentadores, e tudo isso levou a prédios de classe média serem construídos, onde antes a cidade só crescia por invasões. E agora está sendo feita a base da polícia, mantendo e ampliando o círculo virtuoso.

O metrô e a polícia, o aspecto social e o policial da recuperação, lado a lado. Um não funciona sem o outro, assim como um carro precisa ter roda dos dois lados ou não sai do lugar.

Outro exemplo dessa aproximação é que em cada estação do TransMilênio bogotano ou do metrô medellinense há dois ou três policiais.

Mas não só isso. Os policiais têm consciência que estão ali pra servir aos usuários do transporte no que for necessário, inclusive dando informações.

Por muitas vezes os vi explicando as pessoas qual linha deveriam tomar pra chegar ao destino, e o faziam com paciência e sorrindo.

A polícia é nacional na Colômbia, e não estadual como ocorre aqui. O país é bem menor, obviamente. Como a nossa PM se divide em batalhões, a deles também.

Cada batalhão cuida de um departamento (os estados de lá), em alguns casos, ou de uma região metropolitana ou mesmo um único município, no caso das cidades maiores.

Há uma sigla no uniforme que identifica. Por exemplo, a capital Bogotá está no distrito federal (lá chamado Distrito Capital, ou DC), que está dentro do departamento de Cundinamarca, como o nosso Distrito Federal está dentro de Goiás.

Assim, a polícia de Bogotá é a MEBOG, que quer dizer Metropolitana de Bogotá. Apesar desse ‘metropolitana’, eles agem só no Distrito Capital.

A Grande Bogotá fica sob guarda da DECUN, pois está no Departamento da Cundinamarca.

Quem policia Medelím, por sua vez, é a MEVAL (pronuncia-se Mebal, já que espanhol não tem o som de ‘v‘), que quer dizer “Metropolitana do Vale do Aburrá”. Já lhes disse que a Grande Medelím muitas vezes é referida assim, é seu nome oficial.

Nesse caso é metropolitana mesmo, ou seja, cuida dos municípios-satélites ao redor do núcleo também.

Os policiais se vestem como soldados, de farda verde-oliva. Por sua vez, os soldados do exército cumprem funções que aqui no Brasil seriam da polícia.

Especialmente na capital Bogotá eles estão por toda parte. Você os diferencia da polícia porque sua farda, embora também verde escura, é camuflada, enquanto da polícia é lisa.

Enfim, os soldados do exército vigiam a casa das autoridades mais altas e as instalações do governo.

Num país que ainda enfrenta insurreição armada, tudo é questão de segurança nacional e não dá pra baixar a guarda.

No Centro da cidade, protegendo os edifícios públicos, a situação é a mesma. Não é permitido sequer parar em frente ao palácio presidencial. Não estou me referindo aos carros.

Quero dizer que não é possível parar a pé na calçada em frente ao local de trabalho do presidente.

Não fui até ali, mas quem foi me contou, admiravam a arquitetura do edifício quando um soldado comunicou de forma educada porém firme que não era permitido ficar naquele ponto, e que eles teriam que circular.

Afinal o país está em guerra. Esse é outro motivo que as estações de ônibus e metrô são tão bem patrulhadas.

Não é apenas pra impedir roubos, mas também ataques terroristas.

No início das operações, por diversas vezes os ônibus vermelhos do TransMilênio foram incendiados pelas Farc.

Nada mais natural, pois esses ônibus são o símbolo do processo de paz, que minou a guerrilha. Agora não há mais como fazer isso, em cada estação há dois ou três policiais.

Outro exemplo. Na Zona Oeste de Medelím está o quartel da 4ª Brigada do exército, responsável pelo estado da Antioquia. E ao contrário do que ocorre no Brasil, a guarda do complexo já começa em via pública.

É isso mesmo. Dezenas de homens, com metralhadoras em punho, vigiam as ruas ao redor do quartel. O trânsito também é restrito, sendo afunilado por barreiras de metal.

Tudo gera um ambiente pesado em uma região muito bonita. O bairro se chama Estádio.

Por ficar nas imediações do complexo esportivo Atanásio Girardot (onde vi o clássico paísa Nacional x Medelím), e é plano, arborizado e de classe média.

……..

Como em todos os países, a capital é mais politizada e concentra o grosso do ativismo. Bogotá é toda ela pichada com palavras de ordem. No Centro, e nos bairros, especialmente perto das universidades. Vamos a algumas delas:

bogotá colômbia buso trol branco vermelho montanha serra 4 folhas 3 portas

Fechamos com 2 fotos baixada da internet. Em tomada bem antiga, os tróleibus de Bogotá na ativa. Hoje a Colômbia não tem mais ônibus elétricos.

– “Esmad fora da Unal”  

Combatendo o estado para-militar”

Tenho fome sim, e muita”

Fora bases ianques”

COLÔMBIA: USA NÃO MATA”

A última é um trocadilho que pode ter duplo sentido: “Colômbia: pode usar, mas não mate” ou “Colômbia: os USA não conseguirão matar”.

Em Medelím já não. Haviam infinitamente menos dessa manifestação, apenas um pouco no Centro, mas nada nos bairros.

……..

2014 bogotá colômbia luzes montanha serra panorâmica anoitecer entardecer céu mata árvore monserrate monte serra

Anoitece em Bogotá.

Por isso disse que a Colômbia é um estado para-militar. Como escrevi acima, a transição entre um estado de sítio em guerra civil pra uma democracia plena paz é lento.

Os colombianos ainda estão aprendendo a conviver com a paz.

A revindicar seus direitos e a aceitar a manifestação alheia sem apelar pra armas. “Pensar diferente não é terrorismo”.

Eles irão superar essa etapa. Já venceram o mais difícil, e vencerão essa parte também.

Que Deus ilumine a Colômbia, bem como a toda humanidade.

Paz a todos.

Deus proverá.

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