Vaca Sagrada

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro.

Publicado em 30 de julho de 2017.

Todas as postagens de Marília são dedicadas as Mulheres.

……..

Vamos pro Leste, galera, fazer mais uma série sobre a Ásia

Abrindo muito bem essa sequência, hoje vemos Marília com sua filha na Índia.

Como se sabe, nesse pais as vacas são sagradas, veneradas como animais santificados.

Inclusive segundo a crença local esses bichos podem alcançar a Iluminação e atingir o estágio que no Ocidente se denomina ‘santo’.

Por isso elas ficam soltas pelo meio das ruas, inclusive nas grandes metrópoles.

A menina é mais escura que a mãe, porque o pai é um indiano de pele marrom, mas nariz e cabelos finos.

Se essa te parece a definição de um índio, bem, o termo ‘índio’ se origina exatamente na Índia.

OM – MARÍLIA, A IOGUINA –

Agora uma Marília brasileira. Digo, nascida, criada e moradora de nossa Pátria Amada.

Mas, em Espírito, ainda estamos na Índia: uma professora de ioga – ou Yôga, como alguns preferem.

Acima, ela trabalhando, ensinando a seus alunos as posturas dessa filosofia multi-multi-milenar.

E nas próximas 2 tomadas essa mesma Marília loira de olhos claros em momentos de folga.

Daí ela pode soltar o cabelo, usar vestidos e se produzir, colocando bastante bijuteria e até um hibisco no cabelo.

…………

Outras postagens relacionada a Índia/ioga:

– Marília em frente ao Taj Mahal, na Índia;

– Ela nesse mesmo país oriental, sobre um elefante;

– Outra Marília ioguina, dessa vez numa postura diferente, no solo;

– Seu Grande Amor Maurílio também é iogue, fazendo a Invertida;

– Ele igualmente foi a Índia, e lá se Iniciou nos Mistérios do Oriente;

Marília Cigana (os ciganos vieram dessa exata mesma Índia).

Abaixo repito os desenhos em escala maior.

Próxima Parada: China. Já desenhei, separadamente, tanto Maurílio quanto Marília chineses, ele soldado e ela no metrô de Pequim, o maior do mundo.

Mas agora veremos um casal de brasileiros visitando a China (ela nas últimas semanas de gravidez), na Muralha e no Cenbtro de Xangai.

OM – Pra tudo se alinhar, veja meu apelido aqui na página:  “O Mensageiro”. As iniciais dele são “O.M.”. Ou seja, formam exatamente a ‘Sílaba Sagrada’ OM.

Hare Rama, Hare Sita. Louvado é Deus Pai & Mãe.

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‘Pol Pot na América’: o Genocídio Argentino, com suas ‘Escolas’ e ‘Voos da Morte’

A esquerda e os movimentos sociais querem que a ditadura militar argentina seja reconhecida oficialmente como um ‘genocídio’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de julho de 2017

Maioria das tomadas de minha autoria. O que for puxado da internet eu identifico com um (r) de ‘rede, como visto abaixo.

No intervalo de um mês, fui a Argentina e a África do Sul. Assim vamos alternando as séries sobre esses países.

Escrevi recentemente sobre o ‘Apartheid’ sul-africano. Hoje, mantendo-nos na mesma frequência, vamos falar sobre os ‘anos de chumbo’ da Argentina (1976-83).

Vamos ser bem claros aqui: não há qualquer comparação possível entre as ditaduras brasileira e argentina.

A deles foi infinitamente mais cruel. Infinitamente. Muito mais curta, somente 7 anos, contra 21 da nossa (nota: ao publicar a matéria escrevi erroneamente ’31 anos’. Perdão pela falha).

Os Encapuzados” (r): escultura de metal em frente a Esma (o ‘Dops argentino’) revela forma de tortura. Como explicado, todas as tomadas com ‘(r)’ são baixadas da internet.

Mas o regime de Rafael Videla foi muito, mas muito pior que o de Médici e seus companheiros, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, se podemos colocar assim.

A definição é: o Brasil viveu um regime autoritário, mas a Argentina passou por um genocídio.

Estima-se que a ‘guerra suja’ brasileira tenha deixado perto de mil vítimas fatais.

A maioria mortos pelos militares, mas as guerrilhas que os combatiam também assassinavam friamente seus oponentes.

Entretanto, pondere que em apenas 7 anos foram mortas 30 mil pessoas na Argentina.

Como a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a 120 mil pessoas no Brasil.

No Brasil o ‘carro do terror’ era a Veraneio. Na República Dominicana o ‘Fuscão Preto’. Na Argentina foi o Ford Falcão (r). Apesar disso, ele é muito popular e querido até hoje.

Portanto um simples cálculo nos mostra que a ditadura argentina foi nada menos que 120 vezes mais letal que a brasileira.

Não há a necessidade de se argumentar além disso, já que só idiotas discutem com números.

Da Esma (escola técnica da marinha transformada no ‘Dops argentino’) partiam os famosos ‘Voos da Morte’:

Os presos eram dopados pra ficarem inconscientes, embarcados em aviões e desmaiados atirados sobre o Delta do Rio da Prata ou sobre o mar.

Praça de Maio, epicentro político da Argentina no Centro de B. Aires.

Dezenas de corpos acabaram aparecendo boiando nas praias da Argentina e Uruguai.

Os que acabaram na costa argentina os ditadores recolheram e deram fim nos cadáveres.

Mas os mortos argentinos que foram pro Uruguai foram preservados. Posteriormente identificados, serviram como provas nos processos contra os militares.

Muitos milhares mais desapareceram pra todo sempre, dissolvidos na água e devorados por animais marinhos.

Noturna do Obelisco da 9 de Julho em B. Aires, cartão-postal-mor argentino.

De todos os que foram presos na Esma, apenas 150 foram soltos ainda vivos. Mais de 5 mil foram chacinados.

A minúscula proporção entre libertados com vida e executados nos autoriza igualar o regime de Videla ao de Pol Pot.

5 mil mortos apenas e tão somente num único centro de detenção. No país inteiro foram 30 mil.

……...

Por outro lado, se lá a repressão foi muito pior, em compensação os militares foram julgados e presos.

Menen reverteu os processos, a gestão de Nestor Kirchner os reabriu. O ditador-ícone, Jorge Rafael Videla, morreu na prisão, em 2013.

Próximas 2 (via ‘Google Mapas’): favela Vila 51, bairro de Vila Lugano, Zona Oeste, município de Buenos Aires. Também chamada ‘Cidade Oculta‘.

Já falamos do pós-ditadura. Primeiro vamos ver como foi a matança.

Não são apenas números, e só eles já são impressionantes. Mas fica pior. Muito pior.

Primeiro, o massacre foi centrado contra a juventude de classe média, especialmente na capital.

O regime militar tornou essa geração acéfala. Faça as contas. 30 mil foram sumariamente executados.

Na ditadura, Videla mandou murar a Vila 51, pra que ela ficasse oculta as vistas de quem passava pela avenida em frente, aí surgiu o apelido usado até hoje, décadas depois da queda do ‘muro da vergonha’.

Conte aí as muitas dezenas de milhares mais que foram torturados, exilados, ficaram viúvas (o), órfãos, etc.

Os ditadores eliminaram, ou no mínimo prejudicaram severamente, toda uma geração daquela que hoje é a classe dirigente nacional.

Daí nada mais natural a confusão multidimensional que engolfou a Argentina.

Primeiro, na Argentina houve o rapto sistemático dos bebês das presas políticas.

Próximas 3: estação de trem (de subúrbio) Rivadávia, bairro de Nunhez, onde fica a Esma, daí os murais lembrando a ditadura.

O que nunca ocorreu no Brasil, certamente não em escala industrial como aconteceu lá.

Segundo, após a Segunda Guerra mundial, a Argentina acolheu diversos oficiais da Alemanha nazista.

Com novos documentos, alguns desses alemães prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, se é que se pode colocar assim.

Por isso as torturas infligidas aos presos políticos na Esma e outros ‘Centros Clandestinos de Detenção’ espelhou as experiências nazistas nos campos de concentração:

Não visavam somente confissões, não visavam somente infligir dor num ato de sadismo.

Isso é universal, existiu na ditadura brasileira (e ainda existe em nossas delegacias hoje contra presos ‘comuns’).

Essa gravura é no mesmo local, a Estação Rivadávia em Nunhez. As argentinas adoram cachecóis. As chilenas idem.

As torturas na Argentina, como em Auschwitz antes disso, visavam também desumanizar o adversário.

Retirar dele ou dela qualquer réstia de dignidade, pra que ele preferisse a morte a continuar pelo suplício.

Mas o ‘tiro de misericórdia’ era negado, o tormento prosseguia, num ‘1984’ puro.

………..

A esquerda abaixo a Praça de Maio, Centro de Buenos Aires. Ao fundo a Casa Rosada, palácio presidencial.

Pintado no chão o lenço que é o símbolo das ‘Mães da Praça de Maio‘.

Grupo que montou a resistência mais efetiva a ditadura protestando nesse exato local.

Nem Videla teve coragem de prender e torturar senhoras idosas, que pacificamente apenas pediam pra saber onde estavam seus filhos.

E elas tinham razão de estarem preocupadas:

Na Argentina houve formas de torturas desconhecidas no Brasil, só praticadas nos regimes mais opressores da Ásia na época, que descreverei mais abaixo.

Cartaz na Praça de Maio conta a história do epicentro político da nação.

No ‘consciente coletivo’ brasileiro, o nome do chileno Augusto Pinochet é o símbolo dos ditadores sul-americanos.

A maioria dos brasileiros nunca ouviu falar de Jorge Rafael Videla, que cumpriu esse papel na Argentina. Mesmo o paraguaio Stroessner é mais conhecido aqui que Videla.

Um dos motivos é que quando a Argentina era ditadura o Brasil também, assim nossa mídia preferia não tocar não tocar muito nesse tema.

Fundos da Casa Rosada. Em 1º plano o Escudo Nacional que há na grade.

Pois a imprensa era censurada, e ademais a maior rede de TV era a relações-públicas dos militares.

Portanto era melhor não atirar pedras nos outros quando seu próprio telhado era de vidro.

A Argentina voltou ao regime civil em 83, o Brasil logo após em 85. O Paraguai, entretanto, só em 89, e o Chile em 90.

O governo de Sarney, a segunda metade dos anos 80, foi uma era bem confusa no Brasil, como quem tem mais de 30 lembra perfeitamente. E natural.

Centro de Buenos Aires.

Afinal recém reconquistámos os direitos de expressão e associação, mas o caos econômico e político foi total.

Assim, nesse período de catarse, a mídia exorcizava o período que esteve amarrada falando intensamente dos ditadores Pinochet e Stroessner.

Videla foi poupado dessa propaganda negativa, pois quando ele governava com mão de ferro seus colegas faziam o mesmo no Brasil.

E o departamento de censura militar é quem determinava as manchetes dos jornais.

Mapa das favelas na Grande Buenos Aires: a direita no município (cap. federal). Um similar já seguiu na postagem anterior. A esquerda, e esse é novidade, na região metropolitana.

que o regime argentino foi ainda mais letal que o chileno.

E muito, mas muito mais letal que o paraguaio.

Na ditadura Pinochet morreram cerca de 3 mil chilenos.

Dez vezes menos que na Argentina, sendo que a população do Chile é 2,5 vezes menor que a desse seu vizinho trans-andino.

‘Dom’ Alfredo Stroessner torturou e exilou muita gente no Paraguai, é certo.

Chegamos a uma Buenos Aires imersa em caos, março de 2017. Protestos fechavam a cidade inteira. Fui ao jogo São Lourenço x Atlético Paranaense. Na volta, já tarde da noite os protestos continuavam, aqui um deles. Em primeiro plano o validador onde você encosta o cartão de transporte pra descontar a passagem do ônibus.

Mas em termos de vítimas fatais, calcula-se em 400 o número de desaparecidos e executados por seu regime.

Com a população paraguaia 30 vezes menor que a nossa, e pouco menos da metade dos mortos, a taxa de letalidade é de 10 a 15 vezes maior que a nossa.

(Nota: anteriormente calculei erroneamente essa proporção, corrigido agora.)

Portanto a ditadura Stroessner, arredondando por alto a proporção de mortos em relação a população total, é bem mais violenta que a brasileira, mas menos que chilena, e incomparavelmente menos que a argentina.

Oras, em 2013 eu passei pelas ruínas de um supermercado que  9 anos antes pegou fogo na Zona Norte de Assunção. Ali morreram igualmente 400 pessoas.

Porque mesmo com as chamas consumindo o local os donos mandaram fechar as portas pra “impedir que as pessoas saíssem com produtos sem pagar”. Oras, num único dia, por ganância pra não ter prejuízos materiais, o dono dessa rede de mercados matou tanta gente quanto o governo Stroessner em 35 anos.

As famosas “Águas Vermelhas” da praça principal de Mendonça.

É evidente que nenhum Ser Humano deveria ser assassinado, e um dia vamos chegar lá. Mas convenhamos, outros ditadores foram bem mais sanguinários que ‘Dom’ Alfredo.

Stroessner rebatizou com seu nome o que na época era uma distante e desimportante cidade nos confins do interior, é certo.

Vamos falar do mais sanguinário de todos. O que dizer então do dominicano Rafael Trujillo?

Que afinal mudou o nome da capital (e na verdade única cidade grande da pátria) em sua própria homenagem??

A ditadura mais sangrenta da América certamente foram os 31 anos (1930-61) em que Trujillo comandou com mão-de-ferro, alias mão-de-aço, a Rep. Dominicana.

Um paradoxo: entre a classe média argentina predomina o materialismo (ateísmo). Mas o povo é bastante religioso. A Argentina, ao lado do México, é entre os países que já visitei o que mais têm essas capelinhas nas ruas. Essa é em Mendonça e traz ao lado da bandeira nacional as do Peru e Chile.

Foram eliminados 50 mil pessoas, 30 mil haitianos e 20 mil dominicanos. Trujillo matou mais de 1% da população dominicana.

Digo, em termos de matança Trujillo está ao lado (fisicamente e na questão dos números) de ‘Papa Doc’, no vizinho Haiti. Seu governo exterminou entre 30 a 60 mil pessoas, o que também dá mais de 1%.

A Argentina ficou em aproximadamente 0,1%, na primeira casa decimal, Chile e Paraguai oscilam entre 0,02 e 0,04%, enquanto que no Brasil a taxa é de 0,001%.

Os números são aproximados, apenas pra termos uma noção, e não seguem rigor estatístico. Mas são válidos pra compararmos.

IRONIA DA VIDA: VIDELA RECLAMA DE ‘MAUS-TRATOS’ NA PRISÃO –

Em compensação, de todos esses países a Argentina foi o único que a justiça funcionou, e os ditadores acabaram passando um tempo atrás das grades.

Aqui em Porto Madeiro, um novo bairro de elite a beira d’água que foi feito no Centro de Buenos Aires (na Cidade do Cabo/África do Sul um projeto idêntico está em implantação).

Na República Dominicana, a CIA estadunidense pôs e manteve Trujillo no poder. Mas quando não foi mais interessante, a CIA descartou-o, como ela sempre faz.

Assim Trujillo morreu no cargo, assassinado numa emboscada com armas fornecidas pela própria CIA.

No Brasil no fim de seu regime os militares passaram a ‘Anistia’, pra aqueles quem eles perseguiam, e também pra si mesmos.

Resultando que ninguém respondeu por violações de direitos humanos em nossa pátria.

Stroessner foi deposto em golpe militar, o mesmo instrumento que ele usara pra vestir a faixa presidencial foi usado contra pra retirar dele esse símbolo do poder presidencial.

Feitiço contra o feiticeiro. Mas quem assumiu no seu lugar achou que geraria menos problemas políticos exilar Stroessner que julgá-lo e aprisioná-lo.

Assim o ex-ditador paraguaio se mudou pro Brasil onde viveu seus últimos 17 anos numa vida bucólica em nossa capital, sem se incomodar com a justiça.

Nas favelas de B. Aires, a ‘cultura da laje’ (prédios artesanais que o próprio morador vai erguendo um andar por vez, sem qualquer tipo de alvará) está tão consolidada quanto no Sudeste do Brasil e Salvador/BA. Aqui vemos a favela Vila 21 (em Bs. As. elas são numeradas, como em Medelím/ Colômbia). Zona Sul, ainda no município da capital mas divisa com Avellaneda.

Pinochet foi acusado pelo juiz espanhol Baltazar Garzón pelos crimes que cometeu, e chegou a ficar 1 ano e meio em prisão domiciliar na Inglaterra.

Mas não houve como extraditá-lo pra ser julgado na Espanha por crimes de ‘lesa-humanidade’, como queria a acusação.

Resultando que em 2000 ele foi liberado pela justiça inglesa, e voltou ao Chile como um Homem livre.

Em dezembro de 2004, quando haviam pendentes contra ele mais de 300 acusações, foi posto em prisão domiciliar.

Assim viveu mais 2 anos. Em dezembro de 2006 desencarnou, sem ter sido preso ou condenado.

Na Argentina, entretanto, foi diferente. Após a volta do regime civil com Raul Alfonsín em 83 houve uma primeira tentativa de julgar os militares.

Mas na periferia de Buenos Aires fora das favelas, e no interior dentro e fora das favelas há poucas lajes. Agora que essa cultura começa a germinar. Flagrei essa na periferia de Córdoba.

Alfonsín revogou a auto-anistia que os ditadores se concederam no apagar das luzes de seu mandato, e houveram condenações na justiça.

Mas motins militares e a ameaça aberta de novo golpe de estado forçaram seu recuo. Seu sucessor Carlos Menen novamente anistiou os militares ditadores.

Depois de Menen veio Fernando de la Rúa, que foi obrigado a renunciar numa rebelião popular em dezembro de 2001.

Quando a Argentina re-assumiu a ordem constitucional, a partir de 2003  presidente foi Nestor Kirchner.

Nestor, e sua esposa Cristina que o sucedeu no cargo em 2007 e ficou até 2015, reverteram mais uma vez o rumo dos acontecimentos.

A infra-estrutura urbana na Argentina é precária. É muito comum vermos esgoto correndo a céu aberto. Aqui estou na Zona Sul do município de Buenos Aires.

Em novo giro de 180º, os ditadores foram levados mais uma vez a juízo. Rafael Videla cumpria prisão domiciliar, como ocorrera com Pinochet no Chile.

Mas em 2008 VIdela foi pro presídio, a princípio militar, depois civil. E seus advogados e família reclamaram de ‘maus-tratos’ e ‘negligência’.

Ironia, não? Um dos torturadores e exterminadores-mor do planeta se queixar que as condições da cadeia são muito duras.

Mas não teve jeito. Quando já estava a 4 anos e meio encarcerado, Videla sofreu mal súbito, e desencarnou em março de 2013.

Periferia de Córdoba, mesma cena.

Como dito, os ditadores argentinos foram os mais cruéis do continente, excetuando Trujillo e ‘Papa Doc’. Mas a justiça de seu país também foi implacável com eles.

“ESCOLAS DO TERROR”: A ESTRANHA FIXAÇÃO DOS TORTURADORES ARGENTINOS COM A ‘EDUCAÇÃO’ –

O maior centro de tortura argentino funcionou numa antiga escola técnica militar. Como é sabido, o ‘Dops argentino’ era na Esma, ‘Escola de Mecânica da Marinha’.

Hoje, funciona ali o Museu dos Direitos Humanos. A ex-Esma fica no bairro de Nunhez, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Pra falarmos de uma coisa leve, os refris na Argentina. Lá ainda existem 7Up (ao fundo um buso no bairro Palermo), Crush e Mirinda. Passo de los Toros é uma marca local que também fotografei no Paraguai. Voltando a Argentina, Talca é um clone local da Pepsi. A lata da Coca é ‘caçula’ (250 ml), mas a garrafa é maior (350 ml, contra 290 ou 300 aqui). Já no Chile a garrafa (de todas as marcas) é menor que no Brasil. A fábrica da Coca na Argentina exporta também pro Paraguai e Uruguai. Nosso Guaraná Antarctica faz sucesso na Argentina, mas no verso tem uma explicação que é um “fruto exótico” da Selva Amazônica. É fabricado pela Quilmes (cerveja mais popular da Argentina) e exportado também pra Bolívia e Uruguai.

A poucas quadras dali está o ‘Monumental de Nunhez’, pertencente ao River Plate, maior estádio do país e por isso a casa oficial da seleção argentina.

Do futebol já falamos em mensagem a parte, ricamente ilustrada. Aqui o tema é a política. Ou melhor, nesse caso o futebol interfere na política.

O golpe militar foi em março de 76. Mesmo antes dele, ainda no regime civil da primeira presidente Mulher da história da Humanidade (‘Isabelita Perón’), já estavam ocorrendo ‘desaparições’ políticas.

Mas depois que os militares assumiram o poder de fato (embora não de direito) a coisa piorou muito.

Se a Argentina já não estava calma de 68 a 76, a 2ª metade dos anos 70 foi um banho de sangue.

E, vejam vocês, quando do golpe já estava definido que o país sediaria a próxima Copa do Mundo.

Na final da Mundial de 78 o Monumental explodia em alegria pela vitória da seleção local.

A Argentina está mudando o emplacamento. A direita modelo antigo (ainda predominante em março.17), 3 letras e 3 dígitos. A esquerda o novo (há rumores que será implantado em todo Merco-Sul, Brasil incluído), com 2 letras, 3 dígitos e mais 2 letras.

E, bem perto dali, centenas de argentinos gritavam também, mas de dor nas câmaras de tortura.

Pra felicidade dos ditadores, a ‘alvi-celeste’ venceu sua primeira Copa jogando em casa (a segunda e última foi 8 anos depois, em 1986 com um Maradona endiabrado).

Voltemos a 78. Essa ‘Dieguito’ não jogou pois era muito jovem. Ainda assim a Argentina foi campeã, batendo a Holanda na final.

O êxtase que tomou conta da pátria abafou a questão política, tirando o foco e permitindo que as atrocidades seguissem.

Os gritos de ‘gol’ foram mais fortes que os que vinham dos porões dos Centros Clandestinos de Detenção, sendo que o principal deles estava bem ao lado.

Próximas 2: Porto Madeiro, Centro de Buenos Aires. Construído no antigo cais do porto.

O estádio do River Plate fica na verdade no vizinho Belgrano, mas é na divisa dos bairros, por isso o ‘Monumental de Nunhez’ na boca do povo.

Na capital o maior centro de detenção e tortura ficava em um de seus bairros mais chiques e caros.

Local elitizado, moram muitos artistas. Um deles fez essa escultura, ‘derreteu’ a base dos postes de luz.

Entretanto, na principal cidade do interior a cadeia ficava próxima mas já totalmente fora da cidade: bem-vindo a “Pérola de Córdoba”.

Se é que alguém pode ser bem-vindo a um lugar macabro desses. As margens da rodovia que leva a Carlos Paz ficava o presídio chamado de ‘A Pérola’.

Com a virada da maré e volta da democracia as prisões da ditadura foram renomeadas ‘Centro Clandestino de Detenção’ – CCD.

Tenha o título que tiver, na “Pérola” ficaram boa parte dos presos políticos do Norte do país.

Pros íntimos, Pérola era chamada de  “Universidade do Terror”. Curioso esse apelido, não? Fora o fato que a Esma era numa escola. 

Como se tortura e assassinatos fossem matérias educativas.

Fica pior. Notam a direita a placa da rodovia que indica a entrada pra ‘Pérola’ (imagens baixadas da rede) alguém escreveu ‘Volta Videla’.

E desenhou mas logo a seguir riscou o lenço das Mães da Pça. de Maio, que viram em foto mais pra cima na matéria.

Aeroparque, o aeroporto central de B. Aires. ‘Austral’ é a marca pra curtas distâncias da Aerolineas Argentinas.

É. Ainda tem gente saudosa dos ‘Voos da Morte’, e das ‘Escolas do Terror’ dos Anos de Chumbo.

…..

Disse acima que Nestor Kirchner e sua esposa Cristina são heróis da esquerda argentina.

Pois revogaram várias anistias que haviam sido auto-concedidas e depois re-concedidas por Menen aos militares por crimes na ditadura.

Após 3 mandatos dos Kirchner (1 dele e 2 dela), a direita voltou ao poder. E almejam o sonho de ver Cristina atrás das grades (dir.)

Não há como prender o marido porque Nestor já desencarnou em 2010. Mas se possível eles colocarão uma ‘esposa’ na esposa.

(Quem não conhece o idioma espanhol não entendeu o trocadilho. Nessa língua a palavra ‘esposa’ tem duplo significado.

Centro de Córdoba.

É sinônimo de ‘cônjuge’, como em português. Mas ‘esposa’ signifca também ‘algemas’. Estar ‘esposado’ é estar algemado.)

Alguns auxiliares de primeiro escalão dela já estão ‘esposados’. Lemos no jornal em março de 2017 que Cesar Milani, ex-comandante-geral do Exército no governo de Cristina, foi pro presídio.

E não apenas isso, ele está num presídio feminino. Em Ezeiza, na região metropolitana da capital (onde fica o aeroporto de mesmo nome).

A justificativa é no xadrez masculino ele seria morto. Como ele já está no pavilhão das Mulheres, o sonho da direita é que sua ex-chefe Cristina fique na cela ao lado.

Ir pra Argentina em muitos aspectos é como viajar ao passado. Vejam a chave do hotel que nos hospedamos em Córdoba. Sim, de metal.

…..

Na Argentina os presos políticos sofreram todas as formas de suplício aplicadas no Brasil (pau-de-arara, afogamento, choque elétrico). Mas muito pior que isso.

Lá houveram técnicas de tortura que não foram usadas aqui:

Os infelizes detidos em alguns pavilhões na macabra Esma eram conhecidos como ‘Os Encapuzados’.

E eis a portaria do prédio que ficamos no Centro de Buenos Aires. Na Argentina todos os interfones são desse modelo, como era o Brasil 20 anos atrás. Tem que ter uma tecla pra cada apê, se forem dois blocos o aparelho é o dobro desse. Não existe ainda interfone com teclado, em que você simplesmente digita o nº do apartamento.

O nome se deve a que eles ficavam o dia todo acorrentados na posição fetal, com grilhões nas mãos e pés, e com toucas ou vendas cobrindo-lhes os olhos.

É isso. não podiam ver nada, e nem sequer se mexerem. Reveja a segunda foto da matéria, no alto da página, que ficara claro.

Os presos ficavam em baias individuais, pra não conversarem entre si.

Eles eram libertados uns poucos minutos por dia, apenas pra ir ao banheiro, onde eram acompanhados por seus captores.

As Mulheres precisavam sentar ao vaso e banhar-se sob as vistas de seus torturadores do sexo oposto.

Afora esses poucos minutos de ‘liberdade vigiada’, vários dos Homens e Mulheres detidos na Esma passavam o dia inteiro acorrentados e encapuzados.

A ‘liberdade’ é relativa, eles apenas podiam andar um pouco por dentro da prisão, e vigiados por soldados fortemente armados.

Mas pelo menos nessa hora podiam ver e movimentar seu corpo, era o melhor momento do dia.

Centro de Córdoba: bandeiras nacional e estadual nesse belo fim-de-tarde.

Eu disse que os militares argentinos usaram padrões de crueldade asiáticos, desconhecidos na América

Na Ásia (já veremos exemplos) é corrente esse prática de manter os detentos imobilizados por longo período.

Nada nem remotamente parecido jamais existiu no Brasil. Voltemos a descrever os tormentos dos ‘encapuzados’ na Esma:

Eles permaneciam vendados mesmo na hora das refeições. Ali o marinheiro soltava brevemente os braços – mas não tirava o capuz do prisioneiro.

Ele ou ela só sabia qual era o cardápio quando punha o alimento na boca. Isso era uma tortura em si mesmo, a desumanização extrema do inimigo.

Mafalda também passa na TV, não é só quadrinhos. Um ícone na capital argentina.

Pois assim o cativo estava completamente batido.

Não tinha sequer o direito de saber o que comia, exceto quando a gororoba já descia pela goela.

Se isso te parece uma forma de punição aplicada num campo de concentração nazista, é porque é exatamente isso:

A Argentina (e também em menor escala a Bolívia e o Paraguai) recebeu centenas de oficiais e soldados da tropa da SS, fugidos da Alemanha pra escapar do Julgamento de Nuremberg.

Mais 2 da favela Vila 31, a mais famosa de Buenos Aires, bem no Centrão.

Vários desses alemães, com documentos falsos, prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, como também ocorreu nos EUA.

De volta a Argentina, basta lembrar que Adolf Eichmann vivia em Buenos Aires e trabalhava na fábrica da Ford.

Desse subúrbio da capital argentina ele foi sequestrado pelo Mossad pra ser julgado em Israel.

Josef Mengele também viveu na clandestinidade na Argentina no pós-guerra.

Enfim, de volta a Esma. Nem todos os presos eram ‘encapuzados’. Alguns mais afortunados eram obrigados a trabalhar pros militares.

Tinham que falsificar documentos (passaportes, etc) que eram usados em novas capturas de militantes.

Ou então escrever matérias pra imprensa dizendo que os exatos abusos que eles estavam sofrendo na verdade “não ocorriam, era ‘intriga da oposição’ “.

Ironia, não? Presos políticos eram obrigados a escrever que não havia presos políticos em território argentino.

Numa espécie de tortura psicológica, eram obrigados a negar sua própria existência. Bom, era melhor que ficar sem visão e acorrentado ao solo. Qualquer coisa era melhor.

……….

Na Argentina cada estado (lá chamado ‘província’) tem uma ‘embaixada no Centro da Capital Federal. Essa é a ‘embaixada’ do estado das Missões, onde há muitas casas de madeira – como no Brasil mas ao contrário das grandes metrópoles argentinas.

Alias o único fugitivo da Esma era exatamente um desses presos que trabalhavam.

Horácio Maggio, apelidado ‘Nariz’, foi sequestrado pela Marinha Argentina em 1977.

Passou um ano e um mês na Esma. Inteligente, foi cordato com seus captores, pra ganhar a confiança deles.

Assim ele era um dos que trabalhavam. Mais que isso, de vez em quando ele ou outros presos faziam serviços externos.

Sempre acompanhados por um marinheiro armado, claro. Numa dessas saídas, Horácio ‘Nariz’ se tornou a única pessoa a fugir da Esma.

As versões variam, e ele não viveu muito tempo pra contar sua história.

Córdoba: pessoas sem proteção na caçamba, cena digna da África e das partes mais pobres da América Latina.

Segundo uma das versões, ele entrou numa loja pra comprar material de escritório.

O guarda ficou na porta, pois pensou que era suficiente, não haveria como o prisioneiro escapar pois teria que passar por ali fatalmente.

O que o guarda não sabia é que a papelaria tinha outra saída do lado oposto, pra rua dos fundos.

Horácio teria se evadido por ali, se tornando então um dos Homens mais procurados da Argentina.

Tropas de elite da Marinha e outros setores das forças de segurança faziam uma caçada humana frenética recapturá-lo.

Cosquín, interior de Córdoba: família na moto, todos sem nenhum tipo de proteção.

Horácio Maggio não deixou por menos. Ao invés de sair do país, preservando assim sua vida, optou por continuar lutando contra a ditadura:

Pôs-se a escrever cartas e telefonar pra imprensa e ONG’s estrangeiras (pois as nacionais eram censuradas).

Pra denunciar a repressão argentina, que oficialmente não existia.

Nos noticiários de TV e jornais, os militares apenas combatiam dentro da lei os guerrilheiros ‘pra evitar a revolução comunista’.

Calçadão no Centro de Mendonça.

Mas os relatos de Horácio, em primeira pessoa, geraram uma repercussão negativa ao governo, afora o fato que ele já havia dado um drible nos seus carcereiros ao fugir.

‘Nariz’ resolveu mesmo ser a ‘pedra no sapato’ da Esma. De orelhões ele ligava pro centro de torturas e discutia com os marinheiros.

Dizendo que breve eles seriam julgados ‘como os nazistas foram em Nuremberg’.

Centro de Córdoba: semáforo em que o pedestre (na verdade a pedestre) é uma Mulher de vestido e cabelos compridos.

Aí se tornou questão de honra ser capturado ‘vivo ou morto’.

O regime não poupou esforços pra localizá-lo. Em outubro de 1978, sete meses depois de sua fuga, a saga de Horácio ‘Nariz’ Maggio chegou ao fim:

Um pelotão do Exército o encontrou, e cercou-o na rua. Em desespero ele pulou o muro pra uma obra.

Dali, atirava tijolos nos soldados, na tentativa de ter mais alguns minutos de vida.

A resposta veio com muitas saraivadas de metralhadoras.

Horácio tombou sem vida. Terminara a epopeia do único foragido da temida Esma.

Seu cadáver crivado de projéteis foi caravaneado pelas celas do centro de torturas.

“Macri Gato”, o mantra oni-presente da Argentina. Maurício Macri é um ‘neo-liberal’, e suas políticas concentram renda, é fato. Mas foi eleito democraticamente, e hoje não há censura, presos políticos nem ‘desaparecidos’ na Argentina. Ainda assim, a esquerda iniciou uma insurreição civil pra derrubá-lo.

……….

O número de 30 mil desaparecidos e executados pelo regime é repetido o tempo inteiro por vários movimentos sociais na Argentina.

Como até os cartazes nas ruas deixam claro. Mas, é óbvio, não deixa de ser controverso. Os setores da direita insistem que foram “apenas” 9 mil mortos.

Eu estive na Argentina em março de 2017, quando o país enfrentava uma insurreição (civil) que visa derrubar o presidente (eleito democraticamente) Maurício Macri.

O país estava em caos, como descrevi com muitas fotos na mensagem de abertura da série.

A nação está em turbilhão, a um passo de decretação do estado de emergência, veja a manchete do jornal.

A situação persiste uns meses depois, quando produzo e levanto esse texto (julho.17). Por hora voltemos a março:

Passeatas exigiam o reconhecimento consciencial do ‘Genocídio Argentino’, com a oficialização da cifra dos 30 mil cadáveres.

Questionado sobre o tema, Macri declarou: “não sei se foram 9 ou 30 mil, mas é fato que morreu muita gente”.

“Vamos virar a mesa”, eis o lema dos insurgentes. Veja, em março somando passeatas e greves gerais foram 21 protestos, quase um por dia.

Ele é político, então obviamente ficou em cima do muro, não definiu publicamente qual dos dois números ele crê ser verdade.

Maurício Macri pretende agradar a todos, ou no mínimo não desagradar nenhuma corrente, como é habitual entre as pessoas que dependem de votos pra terem emprego.

O que quero apontar aqui é que essa declaração, de um presidente no exercício do cargo, sintetiza o quão sangrenta foi a ditadura argentina.

Disparada a mais letal da América do Sul, como apontado bem acima da chilena, brasileira e paraguaia.

Uma vez que é evidente que mesmo o número otimista de 9 mil já seria 3 vezes pior que Pinochet no absoluto.

E olhe que Pinochet não matou pouca gente.

Vamos pra uma panorâmica. Tenha em mente que eu não fotografei todos os cartazes. Mesmo assim a coisa é assombrosa. Não perca a conta: 6 e 7/3.

O oposto sendo verdadeiro. Sua ‘Dina’ (‘Dep. de Inteligência Nacional’, a temida polícia política da repressão chilena) não era famosa por economizar munição.

Muitas vezes eles exterminavam famílias inteiras, como ocorreu no célebre caso da ‘Rinconada de Maipú, na Zona Oeste de Santiago.

E mesmo assim a Argentina matou 10 vezes mais gente no absoluto, e proporcionalmente de 3 a 4 vezes mais, se aceitarmos a cifra de 30 mil.

Que eu acredito ser verdadeira, afinal apenas e somente na Esma foram mais de 5 mortos.

7/3.

…….

Não foram apenas os assassinatos em maior número, na Argentina, repito, ocorrerem barbaridades que não se repetiram em outras partes, certamente não no Brasil.

Já falamos das formas de torturas trazidas de Auschwitz, de impedir a pessoas de ver, falar e se mexer em tempo integral.

Outro ponto doloroso, que igualmente não existiu em nossa pátria, foi o sequestro deliberado de centenas de bebês das presas pelos generais torturadores.

Muito mais de uma centena de milhares de pessoas passaram pelos cárceres políticos argentinos nesse período.

14/3.

Embora a imensa maioria fosse de Homens, muito mais de uma dezena de milhares de Mulheres argentinas sofreram o mesmo martírio, ou na verdade um martírio ainda maior.

Me refiro ao fato óbvio que boa parte delas senão quase todas as presas políticas foram estupradas por seus captores.

Isso ocorreu também no Brasil, não tapo sol com a peneira. Mas hoje nosso tema é a Argentina, então bora de volta pra lá, pois fica ainda pior.

Algumas centenas de argentinas estiveram atrás das grades quando grávidas. A maioria delas já estava ‘de barriga’ quando capturadas.

20, 21 e 22/3. Colado em cima de um cartaz que chamava pra manifestação em 24/3 (o que abre a reportagem, no topo da página).

Mas algumas tiveram a infelicidade de gerar um filho de seus torturadores/estupradores. Isso, repito, foi igual no Brasil. A diferença vem quando o bebê veio ao mundo.

Caso o recém-nascido fosse branquinho e saudável, no país vizinho muitos generais roubaram essas crianças e as registraram em seu nome.

A seguir rapidamente assassinaram a presa, pra que ela não delatasse o rapto. Foram centenas desses casos. E esse sequestro coletivo não encontra paralelo no Brasil.

21 e 22/3.

Muitos oficiais das forças armadas argentinas não tinham filhos, por eles mesmos ou suas esposas serem estéreis.

Lembre-se, nos anos 70 a medicina nem de longe tinha o poder que possui hoje pra modificar essa condição.

Então ocorreram muitos sequestros de bebês, após o parto a mãe era sumariamente eliminada (muitas vezes atiradas no mar num ‘voo da morte’).

21 a 22 ou 23/3, ficou pequeno e não dá pra ler com toda certeza.

E generais e almirantes registravam esses filhos como se fossem legítimos deles. Por isso ONG’s hoje auxiliam as pessoas que no papel são filhas de militares.

Mas que no fundo de sua Alma têm uma ‘pulga atrás da orelha’, uma dúvida se aqueles são mesmos seus pais ou se elas nasceram em cárcere de outras mães raptadas.

Em Córdoba vi um mural na rua: “Se você nasceu entre 1975 e 1984 e tem dúvidas quanto sua origem, procure-nos”.

Assinado pelas “Avós da Praça de Maio“, organização-espelho das famosas “Mães da Praça de Maio”.

Apenas as “Avós” obviamente é formada por Mulheres mais velhas, que tiveram seus netos sequestrados, ao invés de seus filhos.

Mas peraí!!! Como assim, “1975”? “Se a ditadura militar se iniciou em 29 de março de 1976”???, alguém perguntaria com toda razão. Porém infelizmente é verdade.

24/3.

A violência na Argentina foi tão áspera que os desaparecimentos e execuções políticas por agentes do estado começaram 2 anos antes do golpe militar, ainda em 1974.

Isso estou falando de sequestros e execuções perpetrados pelas forças armadas oficiais. Pois desde 1968 a Argentina vivia uma conflito armado.

De um lado, forças da extrema direita (o grupo “Aliança Anti-comunista Argentinta”, o “Triplo A”, equivalente ao “Triplo C” brasileiro, o ‘Comando de Caça aos Comunistas’.

Do outro, a extrema esquerda, representada no início somente pelos ‘Montoneros‘, mais tarde surgiu a guerrilha “Exército Popular Revolucionário” – ERP.

Sem data.

Ambos os lados praticavam atrocidades, com sequestros e execuções sumárias.

De 1968 até antes do golpe, em março de 1976, estima-se que 1,3 mil argentinos tenham sido mortos pelos dois lados.

Em 1974 desencarnou João Perón, figura-ícone argentina. Morreu ocupando a faixa presidencial. Sua vice era a esposa, Isabel Perón.

Com a morte do marido, ela assumiu o cargo, sendo assim a primeira Mulher presidente do todo o planeta Terra, repetindo.

Com a morte do Homem-forte Perón, os grupos armados aumentaram o escopo de suas ações violentas. Isso tanto a esquerda quanto a direita.

Porém a eminência-parda de Isabelita Perón era José Lopes Rega, líder do “Triplo A”, a ‘Aliança Anti-comunista’.

Rapaz desaparecido. Teria sido sequestrado e/ou executado por algum grupo armado? Não sei te dizer, apenas registrei o protesto.

Apenas entre 73 e 74 o ‘Triplo A’ é suspeito de cometer 300 assassinatos.

Mas seu líder é quem dá muitas das ordens no governo de Isabel.

Assim ela, já em setembro de 1974, assina a ‘Lei Anti-Terrorismo’, que dá carta branca aos militares pra eliminar as guerrilhas de esquerda.

Em novembro desse ano as guerrilhas assassinam o chefe de polícia de Buenos Aires, assim Isabel decreta estado de sítio.

Que suspende o ‘habeas-corpus’ entre outras medidas drásticas de igual calibre.

Em fevereiro de 75 o estado parte pra ofensiva total, denominada ‘Operação Independência’.

Protesto sem data. Cartaz colado sobre o do garoto desaparecido.

Os vizinhos Chile e Brasil estão no auge da violência política, esses sob ditadura. A Argentina ainda não passou pelo golpe militar.

Ainda assim o regime civil de Isabel Perón pra ir aquecendo as máquinas já autoriza o exército a ‘desaparecer’ com os militantes que incomodam.

Mas essa ‘liberdade’ ainda era pouca pros que eram da ‘linha-dura.’ Em março de 76, como todos sabem, eles afastam a presidente Isabel Perón do poder.

Pra poderem agir como quiserem, sem freios de qualquer tipo. Portanto evidente que o golpe amplifica e muito o processo. Mas não é a gênese dele.

Repetindo, por 1 ano e 1 mês (fev.75-mar.76), ainda sob regime civil constitucional, centenas de pessoas já havia ‘desaparecido’ nas mãos do estado.

Mendonça, 21/03/17: fotografei um dos protestos, o dos funcionários públicos municipais (no Chile, que é pertinho, eu cliquei uma greve aeroportuária).

Claro, em 7 anos de regime os militares executaram mais 30 mil, então piorou e muito. Mas a prática de sumir gente é anterior a seu governo. Tá bom pra ti ou quer mais?

UMA PÁTRIA DIVIDIDA, UNANIMIDADES SÓ A SELEÇÃO E AS MALVINAS –

A coisa foi feia. Assim, os militares e a direita em geral precisam  tirar o foco da matança na ‘Guerra Suja’ interna.

Por isso, os militares argentinos gostam muito de lembrar a guerra externa contra a Inglaterra pela posse das ilhas.

Pichação em Córdoba protesta contra arrocho econômico. ‘Despidos’ significa ‘despedidos‘, e não ‘pelados, como muitos pensariam.

Que as Malvinas deveriam pertencer a Argentina é um dos pouquíssimos temas de consenso nesse conflitado país.

Pois de resto ele está aguerridamente dividido entre esquerda e direita em quase todos os assuntos.

Mas se o desejo que as Malvinas pertencessem a nação é consenso na Argentina, a Guerra das Malvinas não é.

Zona Sul da capital: ‘Buitre’ é ‘abutre’, ‘urubu’. “Nem mais um dia com Macri, ou seremos colônia dos abutres, seremos devorados por eles”, é o que quer dizer.

Muitos a viram como uma estupidez, um excesso de orgulho da Marinha Argentina. Sim, eles rapidamente venceram a o conflito interno. Não foi tão difícil, né?

A oposição militante era formada por civis, uns poucos estavam levemente armados nas guerrilhas dos Montoneros e ERP. Mas a imensa maioria sequer portava armas.

Após torturar selvagemente Homens e mesmo Mulheres civis, sem armas (com poucas exceções), e executar dezenas de milhares deles, o comando militar se entusiasmou.

Jornais na banca retratam a confusão do país. Os dois de cima são de esquerda, incluso o Página 12 é um clássico da imprensa mundial, um jornal da grande mídia mas de tendência esquerdista. Era curioso parar na banca e ler a cobertura da confusão política que engolfou a Argentina nos 3 maiores jornais da capital: o ‘Clarín’ e o ‘La Nación’ iam por um lado, o ‘Página 12’ sempre divergia, fazia o contra-ponto. O de baixo, Diário Popular, é mídia tradicional, mas um periódico menor, de circulação mais restrita ao subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires.

E levou uma surra da Real Marinha Britânica, os combates não duraram 2 meses e meio.

Bem, se a vitória na Copa de 78, inédita e logo em casa, deu um gás pra ditadura na sua gênese, a desastrada derrota fulminante  nas Malvinas foi seu ocaso:

A guerra foi em 82, já no ano seguinte os militares se viram obrigados a abandonar a Casa Rosada e retornar aos quartéis.

Alguns veem a pancada levada dos ingleses – com a dor psicológica e muito mais física dos marinheiros, pois guerra é sempre guerra – como uma ‘auto-expiação’ de culpa da Marinha.

Uma busca tardia pela redenção na Consciência Coletiva Argentina. De certa forma funciona, dá algum alento.

Já que embora muitos discordem da decisão de atacar a Inglaterra militarmente, quase todos entendem a que a Inglaterra usurpa o que não lhe pertence – visão que compartilho.

Manifestantes acampados na Pç. de Maio. São veteranos da Guerra das Malvinas.

Só a seleção de futebol e esse arquipélago é que são unanimidade na Argentina.

São os únicos 2 assuntos que você pode puxar numa roda de desconhecidos sem que a conversa descambe pra ofensas.

Repetindo, a nação está agudamente partida, esquerda e direita nutrem mutuamente um ódio recíproco que não se ameniza, só aumenta.

Proibido esquecer as Ilhas Malvinas. Não são negociáveis”, diz cartaz no Centro de Córdoba.

Exemplifico pelo o desejo de encarcerar Cristina Kirchner, o que é absurdo. Mas não pense que a esquerda é menos intransigente, porque é tão egocêntrica quanto.

Daí os cartazes e pichações por Buenos Aires que dizem “Reconciliação e perdão jamais”. Tudo bem, os ditadores torturaram e mataram muita gente.

Mas a esquerda quer derrubar um presidente eleito democraticamente, que não decretou estado de sítio ou exceção, e que não desapareceu com ninguém.

Concordo que as política neo-liberais de Macri aumentam a exclusão social, porém a esquerda fala abertamente em ‘virar a mesa’. Isso também não é golpe?

Eu não tomo partido, não sou nem de esquerda nem de direita, eu não voto (isto é, anulo, digito ‘zero-zero e confirma’). Apenas relato o conflito, sem ser parte dele.

Monumento as Malvinas em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano da capital que mostrarei mais abaixo. Tanto a escultura quanto o prédio em construção atrás pertencem a um quartel da Marinha, que abriga também uma escola técnica (como era o caso da Esma, como agora a Esma é um museu as classes foram transferidas pra outras sedes da ‘Armada’).

Agora, o que vi na Argentina é: os ânimos estão muito exaltados, dos dois lados. Todo mundo quer impor o que pensa.

Seja sobre Macri, ditadura, religião, aborto, qualquer assunto, direita e esquerda não aceitam divergências, e querem eliminar quem pensa diferente. 

O Brasil é um país que o povo é bastante despolitizado, e isso de certa forma é bom. Sim, agora aqui os ânimos também estão bastante exaltados, não nego.

Mas muito menos que na Argentina e Chile, sem comparação possível. Na nossa pátria, as diferenças de visão política acabam em discussão. Na Argentina e Chile, acabam em atos de violência.

Temos nossas divergências políticas, mas isso não paralisa o país. Digo, a violência urbana aqui é elevadíssima, muito mais que na Argentina e Chile, não nego. E o Rio de Janeiro está realmente em situação muitíssimo complicada há 2 décadas, que persiste em 2017.

Mas, Rio de Janeiro a parte, nosso país convive com altos índices de chacinas (nas periferias) e assaltos (em toda parte) sim, mas com guerrilhas e insurreições políticas definitivamente não.

Periferia de Buenos Aires (município de Avellaneda, Zona Sul metropolitana).

Na Argentina a esquerda quer reverter a eleição a força, inclusive com apedrejamentos, numa tensão que lembra a África do Sul do ‘Apartheid’. Mas não há qualquer ‘apartheid‘ na Argentina.

E o Chile ainda tem uma guerrilha ativa, anarquista, que além de com frequência promover incêndios e saques, em 2014 bombardeou o metrô de Santiago.

……

Muita politização sem compaixão leva a intolerância, que leva a ofensas a quem pensa distintamente. Isso estamos vivenciando no Brasil. Porém a Argentina e Chile estão um passo adiante, ou melhor atrás. Lá a intolerância leva a violência política. Daí você entende a ferocidade das ditaduras Pinochet e Videla, que brotaram nesse exato campo.

Mas, voltando o foco somente a Argentina de novo, não são só os números, repetindo. É uma questão conceitual.

O metrô de Buenos Aires é o mais antigo da América Latina, de todo Hemisfério Sul, e de toda língua espanhola. Veio só 9 anos depois do de Nova Iorque/EUA, e 6 anos antes do de Madri/Espanha.

O regime ditatorial brasileiro queria apenas se manter no poder. Ou seja, precisava apenas conter a oposição, mas não almejava eliminá-la.

O regime argentino, muito diferentemente, pretendia eliminar fisicamente qualquer um que contestasse sua legitimidade.

Como Pol Pot fazia ao mesmo tempo na Ásia e Hitler fizera antes na Europa.

Por exemplo, na 2ª Grande Guerra um comandante do Exército Alemão foi morto num ataque-surpresa na pequena cidade de Lídice, na atual República Checa.

Manifestações típicas argentinas: o plátano (árvore do frio que já cliquei também no Chile e na África do Sul) e a frota muito velha. Foto em Cosquín, interior de Córdoba.

A SS então foi ao local com grande regimento e matou todos os Homens adultos, e encarcerou todas as Mulheres em campos de concentração, fora as que também foram executadas.

Hitler a seguir dinamitou todas as casas da cidadezinha, limpou o local e plantou árvores. E mandou que o nome ‘Lídice’ fosse eliminado de todos os mapas.

Ou seja, por ter perdido ali um de seus oficiais o regime nazista pretendeu fazer com que a cidade não apenas deixasse de existir – isso ele conseguiu.

Mas ele pretendia também fazer com que nunca tivesse existido, por isso acabou com todas as casas e limpou o terreno de entulhos.

Literalmente Hitler riscou Lídice do mapa. Era proibido até a pronúncia desse nome. Ele quis mudar inclusive o passado.

Falemos num detalhe da linguística: no espanhol pratense (falado na Argentina e seus vizinhos Paraguai e Uruguai) usa-se a palavra vós como 2ª pessoa do singular, ou seja, como sinônimo de ‘você’ (sem o ‘s’) ou ‘tu’. Leia anúncio no Centro de Mendonça: “junto a vós“, “de tu vida”. Repito, ‘vós’ significa ‘tu’, por isso ‘tua vida’ e não ‘vossas vidas’.

Pra resistir, os casais nomearam ‘Lídice’ as meninas que nasceram logo a seguir a esse triste episódio.

Há centenas de Mulheres checas de 70 e poucos anos com esse nome, e a causa é essa:

Se Hitler acabou com uma cidade e pretendeu eliminar mesmo a palavra, a República Checa não permite registrando suas filhas assim.

Na Rodoviária de Córdoba, outro exemplo. “Vós te vás”. Sujeito (aparentemente) no plural, mas pela preposição vemos que é singular.

Pouco depois, na Ásia, outro ditador, Pol Pot, tentou o mesmo, fazer com que a oposição a ele nunca tivesse existido.

Os ‘Campos da Morte’ cambojanos, os temidos centros de concentração do Khmer Vermelho, não intentavam manter as pessoas detidas ali indefinidamente. Não.

Os presídios políticos do Camboja visavam reter ali as pessoas apenas o tempo necessário pra providenciar sua execução e desaparecimento em massa.

Os prisioneiros eram levados de caminhão pro interior, e ali eliminados primeiro a tiros.

Outra noturna do Centro de Buenos Aires.

Depois passaram a matar muita gente e começou a faltar balas (não é modo de falar, é literal), então decidiram usar machadadas e golpes de facão.

O mais famoso dos centros de detenção do Camboja funcionou numa antiga escola de 1º e 2º graus na capital Phon Phen. Hoje o local é o Museu do Holocausto Cambojano.

Bom, Pol Pot era professor antes de se tornar revolucionário.

Voltando a Argentina, seu mais famoso campo de concentração (a Esma) também era numa escola, e hoje também é museu.

Ainda no Centro de B. Aires, o ‘Imperialismo Verde-&-Amarelo‘: o Itaú (e a Petrobrás) estão engolfando a América do Sul, já cliquei o banco também no Paraguai e Chile.

A prisão ‘Pérola’ era chamada ‘Universidade’.

No Camboja, um professor se tornou genocida. Na Argentina, os genocidas se criam professores…..

……….

Hitler e Pol Pot almejaram fazer desaparecer toda e qualquer pessoas que lhes contestasse.

Entre muitos outros que vibravam na mesma frequência, claro.

Mao na China, Stalin na URSS, Franco na Espanha, os exemplos são múltiplos, não ficam tão atrás.

Então. Em menor escala, Videla também nutria semelhante anseio.

Zona Sul de Buenos Aires: periferia típica argentina, casas de alvenaria com porta direto pra rua. No Chile e no Nordeste Brasileiro é assim também.

Claro que não com tanta ferocidade pois isso não lhes era possível.

Mas a junta ditatorial argentina pretendeu se não eliminar de forma plena todos os que lhe contra-disseram, ao menos desumanizar (não é modo de dizer) aqueles que eles capturassem.

A intenção das torturas sofridas na Esma, na ‘Pérola’ e nos outros centros clandestinos era fazer com que o militante se arrependesse.

E não apenas de ter resistido a ditadura, mas que chegasse ao ponto em que ele ou ela se arrependesse mesmo de ter nascido.

……..

Os ditadores brasileiros empregavam força bruta contra seus oponentes, é óbvio.

Em Mendonça, de novo as portas na calçada. Mas com um detalhe extra, os canais pra escoar água que desce dos Andes. Isso só há em Mendonça e alguns bairros de Santiago do Chile.

Nossa ditadura torturou e matou sem piedade muita gente.

Mas ela empregava a força apenas que achava necessária pra não ser derrubada.

Não pretendia, digo de novo, eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

Tanto que vários presos políticos foram julgados pelo tribunal militar.

Evidente que sendo o juiz e o promotor militares, a condenação era quase sempre certa. Mas em alguns poucos casos houve absolvições.

E o mais importante, a ditadura brasileira quis manter essa réstia de legalidade. O que trouxe uma vantagem:

Após ser julgado num tribunal militar, o preso político ficava detido injustamente, e era torturado, é certo.

Mas ele não podia mais ser executado sumariamente, uma vez que havia a ficha dele nos arquivos da justiça militar.

Próximas 2: Vicente Lopes. A estação Rivadávia vista acima fica ainda no município de Buenos Aires (‘capital federal’). Mas cruzando o viaduto muda-se de município e de estado, entramos em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano abastado. Natural, pois também é Zona Norte, a parte rica da cidade. Aqui vemos ao pôr-do-Sol a av. principal de Vic. Lopes, a esquerda uma rua mais calma numa tomada já noturna.

Assim se ele simplesmente desaparecesse, juridicamente os próprios militares se acusariam por genocídio.

Esse detalhe, se não evitou prisões arbitrárias e torturas, certamente impediu execuções em massa. É importante dimensionarmos isso claramente.

Pois na Argentina não funcionou dessa forma. Lá não houveram esses mecanismos ‘legalistas’. A ditadura argentina não usou simplesmente a força necessária pra frear a oposição.

Lá, ao contrário daqui, os ditadores almejavam eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

O regime argentino se assemelha mais ao de Pol Pot, no distante Camboja, que ao de Médici no Brasil que está a seu lado.

Assim embora curioso é natural que o seu ‘QG do Terror’ tenha funcionado numa escola. Hoje o local é um museu.

Isso é mais um ponto que une os regimes do Camboja e da Argentina.

O ‘QG do Terror’ argentino também era numa escola (mostrada acima da manchete), embora nesse caso uma escola militar.

Indo diametralmente pro outro lado da metrópole: também num fim-de-tarde, o Centro de Avellaneda (sede do Racing e do Independente); igualmente região metropolitana, mas agora Zona Sul.

A Esma (Escola de Mecânica da Marinha) era equivalente ao ‘Dops’ argentino, como já dito e é de domínio público.

Quero apontar o seguinte. No Brasil, os presos políticos ficavam detidos injustamente e eram torturados, sim.

Mas executados em massa não. No Camboja, e também na Argentina, a intenção era mais macabra.

Pretendia-se, se possível, aniquilar fisicamente todo e qualquer opositor.

Assim os presos ficavam nos respectivos ‘QG’s do Terror’ apenas o tempo necessário pra se arranjarem os procedimentos necessários pra sua execução.

Córdoba. Na traseira de um ônibus urbano vemos 2 detalhes: 1º, a inscrição “As Malvinas são argentinas“, pra ver a popularidade do mantra; 2º, esse buso é municipal (da capital estadual), só tem 1 placa. Já entenderá porque digo isso.

Pouca gente escapou com vida das ‘Escolas do Terror’ do Camboja.

Na Esma, literalmente a ‘Escola do Terror’ argentina, o mesmo se repetiu.

Enfatizando de novo, somente 150 presos foram libertados vivos.

Provavelmente eram o que estavam ali quando a ditadura acabou, não houve tempo de matá-los. 

Mais de 5 mil foram chacinados apenas na Esma.

Só os mortos nesse local já configuraria a ditadura argentina 5 vezes pior que a brasileira em números absolutos, 20 vezes em termos proporcionais.

Como já explicado a Esma só teve uma única fuga em todo tempo que operou, e o fugitivo foi morto poucos meses depois.

Também Córdoba, e também um buso urbano. Mas tem 2 chapas. E por que? No estado (‘província’) de Córdoba, todos os veículos comerciais (os que aqui no Brasil teriam placa vermelha) necessitam ostentar uma segunda chapa com o registro estadual. Os ônibus municipais estão dispensados, mas os inter-municipais (tanto metropolitanos, esse caso, quanto de viagem) têm que ter.

Seu cadáver foi exibido como troféu pelos militares num cortejo macabro pelas dependências do centro de tortura.

Por que não houve mais fugas na Esma? Era impossível fugir. De segurança além da máxima pois o epi-centro mesmo da repressão. Além de trancafiados em celas vários prisioneiros ficavam acorrentados nas mãos e pés.

Um conceito oriental. Na China e boa parte da Ásia (Japão, Coreia e povos Malaios) a visão é bem mais dura contra os presos.

No Oriente se diz que o objetivo das cadeias não é apenas prender o corpo, mas também a Alma dos prisioneiros.

Os asiáticos entendem que os presídios ocidentais são muito suaves.

Táxi em Córdoba. Com as duas chapas.

Por deixarem o preso privado da liberdade física, mas permitindo a conversa, raciocínio, associação e ócio dos presos.

Não é segredo pra ninguém que as cadeias da China e Coreia do Norte são campos de trabalho forçados.

Em que os detentos trabalham 14 horas por dia ou mais, 365 dias por ano e 366 nos bi-sextos.

Essa é a pintura padronizada estadual do transporte escolar em Córdoba. Com as 2 placas dos veículos comerciais (no Chile, Colômbia e Peru não há a 2ª chapa, mas eles precisam pintar a principal na lateral).

E sem poderem conversar entre si, sem sequer ser permitido desviar o olhar.

Fato menos conhecido é que no rico e civilizado Japão não é tão diferente:

Os presídios também empregam legalmente instrumentos de correção que em quase todos os países do mundo seriam considerados tortura.

Por exemplo, no Japão um preso que comete uma infração disciplinar grave é atado a uma cadeira por 3 dias, até seu pescoço, punhos e tornozelos são  imobilizados.

Nos outros estados não há 2ª chapa. Essa é a padronização dos escolares em Buenos Aires (local dessa tomada) e Mendonça. Eu disse ‘vermelho’, o taxista me corrigiu pra ‘laranja’. Seja como for, é a 1ª vez que vejo um ‘Escolar’ que não é amarelo, tom que ostentam no Brasil, EUA, Chile, entre outros.

A alimentação é por soro intravenoso, e outros tubos dão conta das necessidades fisiológicas.

Em nações ocidentais, se recorre a ‘solitária’ nesses casos.

O cara fica isolado numa cela escura sem falar com ninguém, mas sem estar impedido de movimentar seu corpo.

Pois bem. No Japão, como visto, o conceito é mais amplo:

O preso fica atado completamente imobilizado, literalmente os únicos músculos que ele consegue mexer são os olhos, a boca e os dedos e nada mais.

E isso não é um castigo infligido no porão ilegalmente por um carcereiro particularmente cruel, mas sim um recurso legal aplicado a luz do dia por todos os agentes da lei.

Boliche em Córdoba. Esse esporte é muito mais popular na Argentina que no Brasil. Inclusive ‘ir ao boliche’ na periferia das grandes cidades desse vizinho país significa ‘ir pra balada’, pois nas mesmas casas noturnas que oferecem pistas de boliche também há outras opções de lazer: sinuca, caraoquê, música ao vivo, pista de dança, barzinho. Vi na Argentina um garoto brincando de boliche sozinho na calçada, em plena via pública. Ele arrumava os pinos e a seguir arremessava uma bola de tênis neles, pelo ar mesmo e não ao nível do chão. Suficiente pra provar a popularidade da modalidade. Na República Dominicana vi meninos fazendo uma pelada de beisebol, e agora isso.

Citei essa punição exemplar, que é certo é usada somente em casos extremos mas ainda assim é a lei da terra.

Pra mostrar que o oriental vê a correção dos presos de forma completamente diferente do ocidental.

Na Ásia, o conceito é tirar a liberdade não só física como mental.

Não basta estar trancado entre muros, mas existe ‘a prisão dentro da prisão’, o detido não pode sequer movimentar seu corpo a vontade, incluindo a fala e a visão.

 …….

Entendendo isso, vê-se o porque escolhi nomear essa matéria como ‘Pol Pot na América’. Não é exagero, infelizmente.

Digo, é óbvio que em termos de quantidade o Camboja foi infinitamente pior.

Pois o regime de Pol Pot foi o maior banho de sangue da história da humanidade, em termos proporcionais a população do país.

Próximas 3: Jd. Botânico de B. Aires, na parte rica da cidade, entre Palermo e Recoleta. Aqui a estátua-símbolo de Roma/Itália, os gêmeos Remo e Rômulo mamando na loba.

Em apenas 16 anos (1963-1979) a ditadura do Khmer Vermelho eliminou nada menos que 25% da população cambojana.

(Nisso contando os combates pra que ela assumisse o poder, ali se mantivesse, e depois a invasão vietnamita pra derrubá-la.) 

Pol Pot e seus asseclas simplesmente dizimaram o Camboja. Dizimaram.

Óbvio que a ditadura argentina de Videla e seus colegas não passou nem perto disso, eles mataram “apenas” 0,1% da população argentina. Ainda assim 0,1% em somente 7 anos não é pouco.

Se os generais, almirantes e brigadeiros argentinos tivessem ficado os mesmos 16 anos de Pol Pot mantendo o mesmo ritmo de execuções, eles teriam matado nada menos que 0,25% da população total argentina.

100 vezes menos que Pol Pot? Sim. Mas bicho, ter 1% da letalidade do mais sangrento regime da humanidade já é sangrento o bastante.

Em outras palavras, mesmo 1% do pior genocídio da história do Planeta Terra já configura um genocídio em si mesmo.

Em 21 anos a ditadura brasileira eliminou a vida de 0,001% dos brasileiros.

Portanto faremos uma comparação grosseira entre o número de cadáveres e os anos em que estiveram no poder.

Assim, diríamos que se fossem os mesmos 16 anos de Pol Pot, a taxa no Brasil seria 0,0008%.

Resultando, arredondado grosseiramente pros 16 anos do Khmer Vermelho no Camboja, ou seja dobrando o período da ditadura argentina e reduzindo a brasileira pro mesmo tempo, mas em ambos os casos mantendo a taxa de letalidade:

Vão longe os tempos que a Argentina tinha pouca pobreza. Aqui e a direita, pessoas revirando as latas de lixo de Buenos Aires em busca de algo pra vender. Fotografei mais, a cena é bem comum, até descartei outras imagens. Essa tomada foi feita próxima a São Telmo, na Zona Central.

– Camboja, 25%

– Argentina, 0,25%

– Brasil, 0,0008%.

Já reconheci acima e enfatizo de novo, obviamente trata-se de um arredondamento grosseiro.

Toda hipótese é especulativa por natureza, o que nunca aconteceu só pode ser imaginado, o que sempre torna a comparação imperfeita. 

Feita essa ressalva, o emparelhamento dos números é útil pra deixar nítido como o regime ditatorial argentino esteve mais próximo do cambojano que do brasileiro.

E aqui em plena Recoleta, Zona Norte.

…….

Veja bem, não estou argumentando que a ditadura brasileira foi suave ou gentil.

Evidente que em nosso país os generais também deram um golpe pra assumir um poder que não lhes pertencia.

E depois reprimiram ferozmente quem lhes negava a legitimidade, seja por métodos pacíficos ou de insurreição. 

É um fato, e renomear o processo como ‘Revolução’ ou mesmo ‘Contra-Revolução’ não altera a realidade.

Contraste social agudo: na mesma região de Palermo e Recoleta, perto de onde o rapaz revira o latão, lojas chiques e caras com nomes em inglês.

E a realidade é a de que eles derrubaram um presidente que havia sido ratificado pela vontade popular não apenas uma mas duas vezes:

A 1ª quando eleito, pois na época o vice-presidente era eleito diretamente. Era diferente de hoje.

Atualmente, a chapa é ‘casada’, você vota só pra presidente, o vice vem junto no ‘pacote’.

Portanto agora o povo só elege o presidente, o vice é o partido ou coligação quem escolhem. Mas antigamente não era assim, entendamos bem a diferença.

A classe média argentina adora cães. Pode ser que os dois bichos sejam desse rapaz; mas lá existe a profissão de ‘passeador de cachorros’, o cara ganha pra levar os animais darem uma volta, é mole? Avellaneda, Z/S metropolitana de B. Aires.

Antes você votava separadamente pro cargo de presidente, e depois pro de vice. Portanto eles podiam ser de partidos diferentes.

Resultando que, se o titular se afastasse, o vice havia sido escolhido diretamente por sufrágio democrático pra governar a nação, tanto quanto aquele que ele substituiu.

Assim João Goulart (‘Jango’) havia sido eleito diretamente pelo povo brasileiro pra ser vice, e caso necessário o presidente. Mas tem mais.

No plebiscito de 63, o presidencialismo ganhou por ampla maioria, referendando mais uma vez o mandato dele como presidente legítimo.

Próximas 2: Vila Carlos Paz, uma espécie de ‘Campos do Jordãobem próxima a Córdoba. Uma cidade muito bonita, os ricos da região têm casas na orla do lago.

Obviamente a implantação do parlamentarismo em 61 já havia sido um ‘golpe branco’ na presidência de Jango.

Com a revogação dele em 63, no fatídico dia 31/03/64 veio o golpe aberto.

Portanto não estou de forma alguma negando o golpe e a ditadura brasileiras.

Não concordo com muitas coisas que a esquerda prega, mas tampouco compactuo com a prática da direita de mascarar um golpe com ‘aforismos’ diversos.

Numa praça no Centro,  caça da Força Aérea.

Então a ditadura brasileira foi exatamente isso, uma ditadura militar.

Generais que subiram ao poder ilegitimamente atropelando a Constituição, e derrubando um presidente duas vezes votado pela maioria da população brasileira.

Vocês já sabem de tudo isso, provavelmente até melhor do que eu. Estou colocando isso aqui pra fazermos o paralelo com a Argentina.

E pra mostrar pra imensa maioria que não estudou o processo em nosso vizinho como lá foi infinitamente pior que aqui.

A ditadura brasileira era uma ditadura mesmo. Ainda assim, o regime brasileiro tentou manter uma réstia, uma casca de legalidade.

Aqui e a direita: as margens da estrada que liga Córdoba a Carlos Paz. As colônias de veraneio entre o lago e a montanha.

Tanto que manteve o congresso, ainda que fantoche pois expurgado de qualquer oposição verdadeira.

Entretanto, Pinochet no Chile não teve sequer essa preocupação. Nos anos que ele foi presidente (1973-90) simplesmente dispensou o Congresso.

Mesmo como fachada, mesmo como encenação, nem assim existiu. Por 17 anos o Chile não teve poder legislativo, caso raro senão único na história.

O que o generalíssimo determinava era a automaticamente lei, não precisando de um crivo legalista nem mesmo encenado.

“O Brasil te espera!”, diz anúncio em Córdoba.

Como curiosidade pra fecharmos o Chile que não é nosso tópico de hoje, até 1973, no golpe, o Congresso era em Santiago, então a única capital do país.

Quando o Congresso foi reaberto com a volta da democracia em 1990, foi transferido pra outra cidade, Valparaíso.

Assim hoje o Chile tem mais de uma capital, como também ocorre na Bolívia e África do Sul, por exemplo.

Portanto aqui já temos o exemplo de um regime ditatorial sul-americano que foi muito mais severo que o nosso. Mas o argentino foi hours-concours na América do Sul.

E em toda a América, talvez só menos pior que os da Ilha Espanhola (Trujillo na República Dominicana e Papa Doc no vizinho Haiti). Esses executaram cada um mais de 1% da população de seus países.

Cetro de Buenos Aires, Obelisco ao fundo.

Bem, a massa ali é formada por negros e mulatos. Aí os militares descarregaram munição sem dó nem piedade.

Tirando esses casos extremos, Videla e seus almirantes e generais são os recordistas. Realmente implantaram a própria ‘Escola do Terror’. 

Pol Pot na América. Não é modo de falar.

…….

Que Deus Ilumine a Argentina e a todos os Homens e Mulheres da Humanidade.

Deus proverá

“Sou muito Mulher!!! Não são uns cabelinhos no braço que vão mudar isso!”

“Deus, tou parecendo um macaquinho. Ou pior, um… um Homem!! Ri-ri”. Marília, dramática, se diverte ao ver seu braço sem raspar.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Levantado pra pra página em 7 de julho de 2017 (07/07/17)

Publicado (via emeio) nos invernos de 2013 e 2014

Todas as postagens de Marília são dedicadas as Mulheres, essa especialmente.

Nessa mensagem as ligações estão em verdepois o azul indica a fala dos namorados de Marília.

Curitiba é a capital mais fria do Brasil. Em 2017, como em praticamente todos os anos, o inverno está sendo congelante. Assim Marília, como fazem quase todas as Mulheres, se depila menos no frio.

“Que nada. Sou Mulher, e muito Mulher!”

Mesmo quando está mais quente essa já é a tarefa mais chata da ‘Via Sacra Feminina‘. Com os termômetros lá embaixo então piora tudo, os pelos não saem direito, coça, a gilete ou a cera irritam a pele.

A mesma dificuldade que os Homens têm de se barbear com baixas temperaturas. Mas deixemos a dimensão Masculina pra outra hora, pois aqui chegamos a mais uma aventura de Marília (o desenho acima e ao lado são de um emeio de 9 de maio de 2014).

Num dia de manhã, inverno curitibano no auge, temperatura pouco acima do 0º. Marília sai do banho, olha pros seus braços que estão ‘ao natural’. Sempre dramática com relação a sua aparência, ela pensa:

“Deus, que floresta, a Amazônia está longe de se extinguir! Tou parecendo um gorila. Ou pior: um … um Homem! Ri-ri.” Mas ela se consola: “Tou atrasada, não dá tempo de raspar, vai assim mesmo”.

Na rua, com umas quatro camadas de roupa a cobrir seu corpo, ela ri do fato de dizer que parecia Homem.

“A gente vai sair hoje. Mas se ele for diferente do outro [que nem gosto de lembrar], não será problema. Daqui a pouco eu descubro”.

Que nada, Sou Mulher, e muito Mulher! Não por outro motivo tou de saia nesse frio. Não são uns cabelinhos no braço que vão mudar isso“. Ademais, Marília  pondera:

“Com tanto casaco ninguém vai ver mesmo. Meus pelinhos tão mais escondidos que a fórmula da Coca-Cola, kkkkk”, ela dá risadas.

A seguir Marília recorda um fato importante: “Digo, talvez alguém me veja assim, como uma francesa; ele (seu Grande Amor Maurílio, claro) ficou de me pegar no escritório pra gente sair”.

“Se ele gostar de mim de verdade, sabe que eu não sou um manequim, sempre naturalmente lisinho, então isso não será problema”. Vai ser um teste definitivo pra ver se o namoro continua. Ela espera que sim, que seu atual não seja um boçal quanto o ex.

“da água pro vinho”: de um namo conquistador barato pra outro que entende as mulheres

“Mari, o inverno deixou você bem relaxadinha com a depilação, né?” “Cafajeste machista! 3 meses sem me procurar, me liga de surpresa, e queria que até sob neve eu tivesse como uma princesa te esperando???”

Marília está traumatizada, uma vez ela terminou com um rolo seu por causa desse motivo, sabia? É isso que vamos ver agora.

Nevou em Curitiba em 1975. Após essa data se passaram 38 anos até nevar de novo em 23 de julho de 2013. Fiz o desenho a direita  em 27/07/13, somente 4 dias depois portanto.

(Nota: no retrato original a garota está só de calcinha. Por computador Marília ‘vestiu’ um sutiã, pra não exibir os seios em público. No detalhe em escala maior que mostra ‘os pelinhos da discórdia’, a alça não aparece.)

Os próximos 3 desenhos não se relacionam com o texto. Esse (repetido acima da manchete) mostra Marília como uma dona-de-casa. Seu marido é caminhoneiro. Como está sozinha em casa, ela não está das mais chiques, inclusive espaçando a depilação. Mas ele já ligou dizendo que vem jantar em casa. “Vou estar impecável pra recebê-lo”, ela assegura. A noite promete!

Então vocês viram como estava frio no Paraná no inverno de 2013. Uns meses antes, Marília viveu ‘um Amor de Verão‘. Um daqueles romances rápidos que acontecem na praia, e que “não sobem a serra“.

Ou assim esse rapaz de olhos verdes e que não é calvo (o paquera de Marília nas noites de carinho passadas a beira-mar) planejava, usar ela e a seguir descartá-la. Um conquistador, um ‘Casanova’ moderno.

Mas Marília era uma moça ingênua, romântica, e acreditou nas promessas dele de que ficariam juntos. Quando voltaram a capital, adivinha?

Ele não ligava mais pra Marília, geralmente não atendia mais as chamadas dela, e quando o fazia inventava desculpas pra não se verem.

Marília, apesar dele não merecer, sentia sua falta, e lágrimas lhe corriam pela face Coisa de menina apaixonada, claro, mesmo que pela pessoa errada. Parou de telefonar pra não se humilhar mais, mas no fundo ainda ansiava que ele a procurasse.

Até que em julho, no auge do frio, praticamente embaixo de neve e não é modo de falar, ele entrou em contato e pediu pra vê-la. Provavelmente nenhuma das outras com quem ele se divertia estava disponível, aí como um estepe o rapaz se lembrou de Marília.

Marília se arrepia só de pensar em ter que raspar as pernas nesse frio!

Marília estava sem ninguém, e com o clima congelando – e portando ela coberta de casacos da cabeça aos pés – ela estava sem depilar seu corpo.

Como ele ligou no meio da tarde já marcando pro mesmo dia, não houve tempo dela se preparar como gostaria.

Ingenuamente no seu ‘Coração de Mulher’ apaixonado, Marília achou que ele gostava dela, então isso seria o menor dos detalhes, que “o importante era estarem juntos”.

Doloroso engano! Quando já estavam sem-roupa, ele ergueu os braços dela e resolveu fazer graça: “Pôxa, Marília, você já foi bem mais cuidadosa com a depilação, hein? O inverno deixou você bem relaxadinha…”

“Veneno de Mulher”: Marília ficou uns dias sem fazer a sobrancelha, e suas colegas de trabalho não perdoaram. O namorado tirou sarro de Marília porque ela pulou a depilação e virou ex por causa disso. Marília bem que gostaria de ter o mesmo poder de nunca mais ver essas ‘recalcadas’, mas não pode fazer nada – exceto bolar uma vingança pra serpente morder sua própria língua. É a ‘Rivalidade Feminina’, que não perdoa deslizes na aparência da outra.

Pra quê? Cutucou a onça com a vara curta. Ela já tava ressentida de ter sido abandonada, mas por gostar dele acabaram se vendo quando ele enfim a procurou.

É o Coração de Mulher, que Ama as vezes mesmo sem reciprocidade. Agora, abandonada e ainda cobrada, aí não. Isso é demais.

Quem fala o que quer ouve o que não quer. Então ela disparou: Seu cafajeste machista!!! Primeiro, fica mais de 3 meses sem lembrar que eu existo, e eu fiquei sozinha, não tava com ninguém.

Se ao menos me chamasse com um dia de antecedência, claro que eu teria me arrumado.

Mas não. Depois de um século você surge do nada, no auge do frio – até nevando está! – e queria o quê, que eu estivesse como uma princesa te esperando?

No fim foi bom. Ela ficou furiosa, e enfim rompeu as ilusões. Ele (cinicamente como sempre) pediu desculpas, até passaram a noite juntos. Mas foi a última.

O resto de Amor que ela sentia acabou ali. No dia seguinte cedo ela riscou o telefone dele das agendas (de papel e do celular) e decidiu que estava encerrado em definitivo. Tem mais: os Homens estão dispensados de passarem lâminas, cera quente e ‘laser’ em seus corpos.

Maurílio foi de surpresa ver Marília. Ela morreu de vergonha porque não esperava visitas, então estava ‘a vontade’.

Assim, que tenham pelo menos um pouco de tolerância com as Mulheres – especialmente quando está nevando ou perto disso!

No seu caso particular, Marília decidiu que jamais voltaria a ficar com outro Homem machista, fútil e preso somente as aparências materiais.

Não me interprete mal. Marília não reclama de se depilar. Sim, no inverno ela espaça um pouco, como quase todas as Mulheres também fazem o mesmo.

Mas no calor, pra usar roupas de alcinha ou tomara-que-caia, evidentemente ela está sempre impecável. Mesmo no frio, nas primeiras paqueradas com um rapaz é óbvio que ela vai lisinha como uma seda vê-lo.

Isso quando o encontro é programado com antecedência, e ela sente que vale a pena investir na relação. Agora, o cara a evita por um tempão, chega de surpresa, e ainda quer fazer piadas as custas dela. “Vai se catar”, Marília ficou furiosa.

“Oras, por que tanto drama? Vamos ver o que você esconde com tanto afinco”.

E o garoto de olhos verdes virou só uma amarga lembrança. O tempo passou e ela conheceu Maurílio, que é calvo e de olhos castanho-claros. Eles estão se curtindo, Maurílio gosta de Marília de verdade, e está só com ela. Ela sente isso.

Um dia, como vemos nos 3 últimos desenhos (feitos em 26/08/14), Maurílio foi visitar sua Amada de surpresa. Como apesar do inverno esquentou um pouquinho, e ela não contava ver nem a ele nem a ninguém, Marília estava de ‘shorts’, regata, mas sem se depilar.

Ela ficou quente e rubra de tanta vergonha, e tentou tapar seus bracinhos peludos. Mas delicadamente ele pegou suas mãos e ergueu-as. Marília tremeu, pois veio-lhe a mente a lembrança anterior.

A exata mesma cena, ela sem se depilar, o rapaz segura e levanta seus braços. “É agora, não tem jeito”. Sem escolha, Marília cedeu. “Bem, ao menos dependendo do que ele falar descubro se é igual ao outro (urgh!, que descanse em paz!!!) ou se é mais gentil”.

“Querido, estou …tou um pimentão de vermelha!”. “Mas Mari, você tá uma graça com esse ‘charme europeu’…rs’.

Maurílio foi gentil. Fez uma brincadeira com ela, como visto ao lado. Marília ficou encantada. Viu que a Vida sorriu pra ela.

De um machista que só se aproveita das Mulheres ela agora tem um namo que se empatiza o sexo feminino.

Final feliz, ela no colo dele, de braços e pernas (em “estado bruto”) pro ar. “Ufa! Esse sim entendeu que eu não sou de plástico.

Homem que gosta de Mulher de verdade gosta da gente em carne e osso. E, de vez em quando, até com uns pelinhos……kkkkk!!!!”

Deus proverá

da ‘Guerra dos Táxis’ ao Gautrem: o transporte na África do Sul, da barbárie ao moderníssimo

Acima da manchete: Gautrem, de primeiríssimo mundo, que interliga Joanesburgo, Pretória e o aeroporto internacional. Aqui: sistema de ônibus ‘Minha Cidade’, no Cabo, que não fica atrás.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 1º de julho, 2017.

Maioria das imagens de minha autoria. Identifico nas legendas o que foi baixado da internet.

Vamos falar da rede de transportes na África do Sul. Esse é um país de contrastes, de paradoxos.

Faz parte da África, como até o nome indica, e é de maioria negra. Mas de certa forma ir a África do Sul é também como ir a Europa (os brancos de lá são brancos de verdade. Pele, cabelos e olhos muito claros. 90% são loiros, os olhos azuis e verdes predominam). 

Sendo uma ponte entre Europa e África, a África do Sul não poderia escapar de escapar de ter em si os dois mundos, com todos os conflitos que isso traz.

Rea Vaya‘, o equivalente em Joanesburgo. Funciona bem, mas a rede é muito pequena.

Em outra mensagem já falamos do infame ‘apartheid’, que findou em 1994 com a eleição de Mandela presidente.

No transporte esse paradoxo se manifesta da mesma forma. Encontramos desde os moderníssimos sistemas de ônibus e trens até gente sendo transportada em caçambas de caminhões.

E o pior: muito sangue correu. No período após o ‘apartheid’, os negros explodiram numa revolta que ficou conhecida como “as Guerras do Transporte”, ou ‘Guerra dos Táxis’ no original. Eles queriam o direito de gerir seu próprio transporte coletivo, e assim incendiaram centenas de ônibus.

Centrão de Joanesburgo: mas o modal mais usado do país são as vans (que eles chamam de ‘táxis’). Quase todas são brancas e Toyotas, mas não necessariamente.

E – é triste mas tenho que dizer – balearam e mataram diversos motoristas, quase todos também negros, em Durbã alguns indianos, que igualmente têm pele escura e igualmente foram vítimas do ‘apartheid’.

Quando estava em vigor o macabro regime racista, os negros não eram vistos como seres humanos, e isso dentro de sua própria terra.

Os bairros e favelas que os negros moravam muitas vezes não eram servidos por ônibus, haviam algumas linhas de trem – que eram e ainda são péssimas.

Av. Vitória, Cid. do Cabo, mesma cena. A frente um modelo novo, com farol quadrado o mais antigo, (quase) sempre Toyotas e alvas.

Porém da estação pra sua casa, e muitas vezes eram vários kms, eles tinham que ir a pé. Nos bairros que contavam com ônibus, a situação não mudava muito.

Os busões passavam pela rodovia (ou pela avenida principal em zonas mais urbanizadas) mas não entravam nas vilas.

Resumindo que a situação era a mesma do trem, uma longa caminhada do pouco transporte coletivo disponível até em casa.

Por isso, mesmo quando o ‘apartheid’ ainda vigia, os negros começaram uma rede de transportes própria: vans percorriam os meandros das vilas, favelas e em Durbã também os morros.

Em Pretória, a capital. Nessa aqui há a capelinha de ‘táxi’. “Patrocinado pela mamãe e papai”, diz o adesivo. Outro detalhe: a Toyota vende tanto na África do Sul que fez esse adereço, a bandeira personalizada.

E deixavam os moradores na estação de trem ou na rodovia, onde passava ônibus pro Centro, ou pras áreas industriais, ou pros subúrbios ricos.

Resumindo, ao descer da van operada informalmente também por um negro, a massa trabalhadora acessava enfim o transporte oficial pra seguir viagem pra onde estavam seus empregos.

O ‘apartheid’ tolerava essa situação, pois não prejudicava em nada os brancos, e amenizava um pouco o sofrimento da massa negra.

Entretanto, e entenda isso claramente, as vans não podiam sair do gueto. Da vila ao estação de trem ou ao trevo na rodovia, ok. Mas ali é o limite.

O transporte operado e gerenciado pelos próprios negros em hipótese alguma podia chegar ao Centro da cidade, e muito, mas muito menos, aos bairros ricos onde os brancos viviam.

Enquanto o ‘apartheid’ vigorou, os negros não tinham escolha, pois qualquer contestação era respondida de forma extremamente violenta pelo regime racista.

Gautrem no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, por isso a maioria dos passageiros são brancos.

Extremamente. Vocês viram o ‘caveirão’ que a polícia usava pra entrar nas favelas quando haviam distúrbios.

Pense que esse verdadeiro tanque de guerra era usado contra pessoas desarmadas pois os negros não podiam ter armas de fogo por razões óbvias.

Mas quando o ‘apartheid’ caiu, gradualmente desde o fim dos anos 80 e em definitivo em 1994, os negros bradaram:

“People Mover”, a semente da modernização de Durbã. Só 3 linhas curtas por enquanto.

“Agora é nossa vez! Queremos que nosso transporte seja gerido e gere receitas pro nosso próprio povo”.

Portanto os negros exigiam que suas vans, os ‘táxis’ em seu jargão, pudessem ir até o Centro.

Pra que dessa forma o negro usasse e pagasse uma condução só, ademais fizesse a viagem sentado.

Os donos das viações de ônibus resistiam, sejam brancos ou em Durbã muitas delas eram (e ainda são) de propriedade de indianos.

Centrão da Cidade do Cabo.

Sejam de que raça for, quem se beneficiava do ‘status quo’ naturalmente iria se opor a sua modificação.

Aí os negros partiram pra revolta armada. Incendiaram centenas de ônibus, em várias cidades do país.

Em casos mais extremos, metralharam os veículos em movimento, com os passageiros dentro.

Dezenas de pessoas morreram nos levantes, centenas mais ficaram feridas. A princípio o estado reprimiu. Mas a massa negra não iria ceder.

Tri-modal: na Cidade do Cabo, em 1º plano um trem de passageiros; no meio uma estação com ônibus articulado, e ao fundo o porto. Só faltou um avião. Na Argentina eu fotografei o tetra-modal: pneus, trilhos, ar e água.

Após mais de um século de ‘apartheid’, sem nenhum direito em seu próprio continente, os negros decidiram que teriam direito em usar seu próprio meio de transporte.

Foi o poder público quem acabou cedendo. Era inevitável, que os negros conduziriam mesmo suas vans pelo itinerário que quisessem sendo legal ou não.

Assim as prefeituras resolveram legalizar as vans, optando pelo mal menor e cessando o banho de sangue que já estava grande demais.

Todas as grandes cidades da África do Sul têm um trem de subúrbio (chamado ‘Metrorail’) que é péssimo, e por isso quase não é utilizado. Em Durbã (local dessa foto) e na Cidade do Cabo eu andei, em Joanesburgo não deu tempo.

Com isso, várias viações menores quebraram, em Durbã várias empresas operadas de pai pra filho pelos indianos há 3 gerações acabaram saindo de atividade.

No país inteiro a situação se repetiu, embora aí os donos tivessem outras etnias. 

Escrevemos em outra mensagem que a história do transporte coletivo de Campinas-SP é tumultuada e violenta.

De fato assim é. Ocorreram ríspidos embates entre prefeitura, viações e perueiros, como muitos protestos, fechamento de avenidas e rodovias, e locautes.

O que se repetiu em diversos países da América Latina.

Sempre que o poder público tentou melhorar o sistema de ônibus, os operadores independentes dos micros protestaram, fecharam avenidas e garagens, entoaram palavras de ordem.

Estação de ônibus no Centro da Cid. do Cabo.

Presenciei esse movimento pessoalmente em Acapulco, México, 2012.

No Chile ocorreu o mesmo, na Colômbia e Peru foi ainda pior:

Muitas vezes sindicatos aliados a grupos criminosos incendiaram ônibus, do Transmilênio em Bogotá e da finada estatal peruana Enatru respectivamente.

Ônibus 2-andares (linha não-integrada) no Centro de Joanesburgo.“Praça Gandhi” é o Terminal Central. Só 1 porta, imagine como é circulação aí dentro no horário de pico? Um “Deus-nos-acuda”.

Mas em nenhum lugar da América a situação se compara ao que ocorreu na África do Sul.

Lá o termo “Guerras do Transporte” não é força de expressão, foi uma guerra mesmo com vários mortos.

A situação se amainou um pouco desde o pico na virada do milênio, mas não se encerrou.

As “Guerras do Transporte” continuam ceifando vidas, nesse país que é tão belo, mas também tão conflagrado, dividido, injusto e violento.

Veja, em 2015 (somente dois anos atrás portanto no momento que escrevo) mais uma vez os motoristas de vans partem pro ataque:

Fazem barricadas, apedrejam ônibus e mesmo disparam contra um ônibus em movimento, acertando uma passageira e segundo um relato também o motorista, que teria falecido no local.

http://www.news24.com/SouthAfrica/News/Putco-bus-shot-at-during-taxi-protest-20150703

No andar de cima até que estava tranquilo, o problema é o de baixo. Todos os passageiros são negros, com exceção de 1 Mulher branca. Nessa outra postagem há foto de mais um veículo 2-andares.

……

Então há gravíssimos problemas com violência política. Fato. 

Mas inquestionavelmente as coisas melhoraram muitíssimo na África do Sul. 

Na época do ‘apartheid’ as janelas dos ônibus e trens tinham que ser protegidas por grades (veja as fotos um pouco mais pra baixo na página).

Pra pelo menos o motorista não ser atingido por pedras e desgovernar o veículo.

Já que quando rolavam revoltas, atacavam ferozmente o transporte coletivo.

‘Golden Arrow‘ (‘Flecha Dourada’), a maior viação da Cidade do Cabo. Nas linhas não-integradas vigora a pintura livre. A mesma empresa opera também linhas integradas do ‘Minha Cidade’, aí com pintura padronizada.

Repito porque é importante, e já entenderão porque de tanta ênfase:

Atualmente os busos e trens da África do Sul não são mais assim, não é mais necessário.

Mas agora virá o choque: nos dias de hoje, a Argentina está igual a África do Sul no seu período mais sombrio.

Estão apedrejando ônibus e trens o tempo todo em Córdoba, Buenos Aires e demais cidades grandes de nossa vizinha nação, linhas estão sendo canceladas pra evitar os locais mais quentes.

E, sim, hoje os trens da Argentina têm grades na janelas, como nos seus tempos mais difíceis a África do Sul também os teve, mas não mais a muito.

Rolou uma ‘reversão de polaridade’. A África do Sul era sinônimo global de problemas políticos, e lá as coisas se acalmaram um pouco, tiraram a grade.

A Argentina, que era conhecida como uma nação próspera e tranquila, passou pela ‘ascensão e queda’, e precisou colocar as grades.

Claro que as coisas estão muito longe de serem perfeitas na África do Sul. Veja a foto a direita:

Interior de um ônibus da Golden Arrow, de linha não-integrada.

Aqui se paga em dinheiro, e o motorista é também o cobrador. Ele fica numa cabine blindada, pra evitar assaltos.

Há uma pequena janelinha pra ele pegar o dinheiro e te dar o troco e bilhete, como nas casas lotéricas (esq.).

O motorista entra e sai por uma porta de uso exclusivo, a direita do veículo.

…………

Apesar das ‘Guerras do Transporte’, Durbã ainda conta com dezenas de viações independentes.

Boa parte delas de propriedade de indianos, e eles adoram decorar seus ônibus.

Veja ao lado grafite que há na traseira de um deles. Clique pra ampliar, nessa escala você não está vendo nada.

É uma obra de arte: pintada a mão, cada buso tem uma gravura diferente, não é produção em série. Merece ser apreciada.

Agora filma a esquerda:

Colagem mostra dezenas de viações independentes de Durbã, sempre que eu identifiquei o nome anotei ao lado.

Nas raças escuras (o que inclui africanos, asiáticos e americanos) os donos gostam de personalizar ao máximo cada veículo.

Por exemplo a viação Dehal’s (de indianos) teve 3 ‘carros’ fotografados:

Um deles é o ‘Riquinho’, outro o ‘Esperto’, e mais um o ‘Sonhador’. Como se cada buso fosse vivo e tivesse sua própria personalidade.

Muito lixo nos trilhos em Durbã. Em outra postagem verão a cracolândia que há no local.

Outra coisa. Repare que o letreiro está sempre desativado, a linha vem numa placa no para-brisas.

Nos EUA, Anglosfera e Europa Ocidental a linha sempre vem no letreiro, nunca no para-brisas.

Em vários pontos da América Latina, África, Ásia e Europa Oriental o oposto, letreiro apagado, informação no vidro como aqui.

E no Brasil e outros países uma transição, a linha no letreiro mas o itinerário no para-brisas. Há lugares como a África do Sul em que os dois modelos convivem.

………

Falando agora especificamente do modal ferroviário: todas as grandes metrópoles do país têm extensa rede de trens de subúrbios.

No Aeroporto Tambo, cartaz do Gautrem só enfatiza as ligações pra Pretória e Sandtom, ignora Joanesburgo. Alguns dizem que “o Apartheid continua”. Abaixo explico o porquê.

Mas eles são tenebrosos, e não usados por ninguém exceto os mais miseráveis entre os miseráveis.

Lembram os similares que existem na Índia, Egito e Bangladesh, e todos foram construídos pelos ingleses.

Por outro lado, a capital administrativa do país (Pretória) é ligada a maior metrópole da nação (Joanesburgo) – e ambas ao aeroporto internacional da região – pelo moderníssimo Gautrem.

Próximas 7: vamos ver as vans, o modal mais popular do país. Fotografei o Centrão de diversas metrópoles inundado delas. Começo em Joanesburgo.

Esse sim parece um pedaço da Suíça, Suécia, China, Japão ou Alemanha transplantado pro solo africano.

Mas pra lembrar que estamos mesmo na África, o modal mais usado são as vans, que eles chamam de ‘táxi’, e que são quase todas brancas, embora existam as coloridas também.

Pra que as vans tivesse trânsito livre em toda parte, falando literal e figuradamente também, é que o sangue correu.

Durbã.

Deu certo, as vans se impuseram como escolha da massa.

………..

Vamos resumir a situação:

Vans (quase sempre) brancas chamadas de ‘táxi’:

Pretória, o prédio ao fundo é o Banco Central (‘Banco da Reserva’) Sul-Africano.

Oni-presentes, o modal mais usado em todas as cidades da África do Sul e, aqui podemos generalizar, da África como um todo.

Quase todas são Toyota (tanto as antigas quanto as novas), e quase todas são brancas. 

Claro, existem outras cores e marcas – em Pretória especificamente há muitas Volkswagen, e nas outras cidades também há variações.

Na tomada a direita, em Joanesburgo, vemos 3 verdes.

Mas se você vir uma van, a chance que seja alva e dessa montadora japonesa é 90%.

Em terra de gente negra, o transporte é branco”.

Cid. do Cabo. Também Z/ Central, mas aqui não no Centrão e sim na orla, num bairro bem caro.

Não só na África do Sul, em boa parte do continente é assim, é uma vibração africana.

E isso se refletiu na mais africana das cidades brasileiras, que é Salvador óbvio.

Durante 2 décadas (anos 90-quase meio da década de 10) a capital baiana passou por uma ‘padronização informal’.

Sem que o poder público exigisse, voluntariamente a maioria das viações de ônibus adotaram pinturas em que o branco cobria a maior parte da lataria.

Na Av. Vitória (bairro ‘Woodstoock’, bem mais popular mas também Zona Central do Cabo), ônibus e vans duelam por público. O povo prefere as vans, pouco mais caro mas vai sentado.

Haviam detalhes (na ‘saia’ e em faixas) que as diferenciavam, ainda assim no veículo predominava o alvo.

Depois que estudei a África entendi o porquê, esse modelo veio de lá.

Voltando a RAS (“República da África do Sul”), o custo médio de uma viagem em van é 17 Rands.

Com o câmbio é quase 4 Rands pra 1 Real, isso dá R$ 4,30.

A passagem de ônibus em Curitiba é R$ 4,25, portanto você vê que é equivalente. Os valores são sempre de maio.17, quando estive lá.

Claro que varia conforme a cidade, e dentro da cidade conforme a linha. Mas a média é essa.

EM GAUTENG, LINGUAGEM DE SURDO-MUDOS –

Em Durbã e na Cidade do Cabo, o cobrador vem gritando na janela o destino da van, como também ocorre na América.

No Cabo, em todos os para-brisas há também uma placa com a mesma informação (comprovamos tudo isso ao lado).

Putco, viação que opera linhas não-integradas em Joanesburgo (onde cliquei esse Tribus), Pretória e outras cidades da região.

Portanto não há como confundir, até um estrangeiro pode pegar uma van lá, e foi o que eu fiz.

Em Durbã, algumas poucas vans tem a placa com itinerário no vidro, a maioria não. Mas o cobrador anunciando aos brados não falha nunca, de qualquer forma não tem como errar.

Também andei de van em Durbã, mas não por minha vontade, foi uma situação atípica.

Eu fui pra periferia de trem, aquele que funciona precariamente, no decorrer da matéria descrevo incluso com fotos como foi minha ‘descida as trevas’, e não é modo de falar, é literal.

Nas próximas 2 imagens vemos Pretória: Marcopolo brasileiro do sistema integrado Areyeng. A direita a estação.

Desembarquei numa periferia, e subi um morro favelizado a pé. Quando estava quase entrando na estação pra voltar pro Centro, a polícia me abordou. Irei contar essa história com detalhes na próxima postagem.

Aqui, pra tornar curta uma longa aventura, eles não permitiram que eu voltasse de trem, e me deram uma carona – no camburão! – até outra parte do bairro, onde me puseram numa van pra que eu fizesse a viagem de retorno.

Portanto mesmo sem ter planejado, andei de van em Durbã também.

Voltando ao que dizia antes, em Durbã e no Cabo o cobrador informa aos berros o destino, no Cabo sempre e em Durbã as vezes essa mesma informação vem no vidro.

No estado de Gauteng (Joanesburgo e Pretória), entretanto, não há os avisos nem o sonoro e nem o visual. Nada. Não tem placa no vidro, nem ninguém te avisando o destino.

Você está no ponto de parada, passam dezenas de vans indo pra lugares diferentes, mas você aparentemente não tem como saber qual linha cada uma delas cumpre.

Ainda em Pretória, um velho Mercedão 2-andares permanece na ativa. Essa linha é não-integrada.

Aquilo me intrigou. Oras, alguma forma de identificação teria que ter, obviamente.

Alguém sugeriu que em determinada avenida todas as linhas vão pro mesmo lugar, hipótese que descartei imediatamente. “Certamente não é dessa forma”, eu disse a pessoa.

Salão de um buso ‘Golden Arrow’, Cid. do Cabo. 5 fileiras de bancos (3 a direita, 2 a esquerda), resultando que o corredor é minúsculo. Como pro embarque e desembarque só há 1 porta, a circulação interna é péssima no horário de pico.

A cidade é enorme, e não há como fazer essa especialização, tem que haver troncos de transporte, e portanto por boa parte do itinerário destinos diferentes compartilham do mesmo trajeto”.

A solução foi inquirir um morador local. Perguntamos ao taxista: “se não há placa nem cobrador indicando o itinerário, como o passageiro pode saber pra onde a van vai?” Ele nos explicou:

É o passageiro quem informa ao motorista pra onde ele quer ir, com um sinal com os dedos. O motorista para ou não conforme ele esteja ou não cumprindo aquela linha que o passageiro precisa tomar.”

E esses sinais são feitos na linguagem de surdo-mudos. No cartaz abaixo eu estou exemplificando aleatoriamente (não são os signos corretos, é só pra vocês pegarem o jeito):

Se o passageiro levanta um dedo ele quer ir pro Centro; 2 dedos, até a estação de trens; se ele deita a mão na horizontal, vai pra determinada cidade da região metropolitana.

Loucura, não? Rolou uma reversão de polaridade, pois vai na mão inversa:

Pça. Gandhi, Centrão de Joanesburgo. De dentro do 2-andares fotografei 2 Torinos (esses de 1 andar) da Metrobus. O de trás inteiro adesivado. Essa aberração em várias partes do Brasil foi proibida mas em outras ainda existe. No Chile e México, entre outros, igualmente é permitido.

É o passageiro quem indica o trajeto, e o motorista quem precisa ler a comunicação.

O que torna o sistema impermeável pra forasteiros. Só quem pega a van todos os dias no mesmo local sabe o código, pois óbvio, ele não é único pra toda metrópole, varia pra cada corredor.

Por exemplo (mais uma vez, falo aleatoriamente só pra pegarmos o pé da situação), na Zona Oeste 1 dedo pode indicar que você vai pra Soweto, enquanto na Zona Norte pra Sandton, e na Zona Central pra Praça Gandhi, bem no Centrão da metrópole.

Assim, mesmo um negro que nasceu e morou toda a vida em Joanesburgo só conhece o sinal das linhas que ele pega cotidianamente.

Gente sendo transportada em caçambas abertas.

Se ele é da Zona Oeste, e for pegar uma van nas Zonas Sul ou Leste, ou mesmo na própria Oeste mas em outro bairro, seu conhecimento não servirá de nada, pois cada corredor tem seu código próprio.

Terá que perguntar a quem já está no ponto. Felizmente esse é o menor dos problemas.

Formiguinhas: o modal de transporte mais antigo da humanidade ainda é muito usado na África do Sul. Quero dizer o seguinte: muita gente volta pra casa a pé, caminhando mais de uma hora sob sol. Fotos na Zona Norte de Joanesburgo, no fim do texto eu descrevo em detalhes.

O sul-africano é extremamente cordial (sobre o que também falo melhor nesse texto), e está sempre disposto a ajudar os outros.

Quem tem boca vai a Roma, e quem tem boca não pega a van errada em Joburgo (apelido de Joanesburgo) e Pretória. Mas é preciso perguntar.

Pois a rede de vans desenvolveu uma linguagem própria, vedada a intrusos. Curioso, não?

Já estudei o sistema de transporte de muitas dezenas de países (alguns visitei, a imensa maioria pela internet) e nunca tinha visto um ‘sistema fechado’ como esse.

Torino Mercedes: ‘Rea Vaya’, Centro de Joanesburgo.

Mas assim é, tudo tem a 1ª vez. Se funciona bem pra eles, quem somos nós pra termos ideias ‘melhores’?

Ônibus modernos: articulados, embarque pré-pago em nível em estações fechada, corredores exclusivos, especialização com linhas-tronco e alimentadores.

Existem na Cidade do Cabo, Joanesburgo e Pretória. Infelizmente Durbã ainda não passou por essa modernização.

Na Cidade do Cabo se chama no original em inglês ‘My Citi’, obviamente ‘Minha Cidade’, mas com ‘i’ no fim ao invés de ‘y’.

Tribus da KZT no Terminal Central não-integrado de Durbã.

Você passa o cartão na entrada e na saída, pois paga por quilômetro utilizado (em várias cidades do mundo ônibus e metrôs são assim também, em Valparaíso/Chile comprovei pessoalmente, em Seul/Coreia do Sul li pela internet).

É de primeiríssimo mundo, e utilizado pela classe média, de todas as raças.

Nas linhas que servem os bairros mais abastados, você vê mais brancos que negros nos micro-ônibus, situação única na África do Sul.

Sim, o Cabo é a cidade mais branca da África do Sul e de toda África, 1/3 de seus moradores são euro-descendentes, em Durbã e Joanesburgo a participação deles é metade da do Cabo.

Colagem mostra o mesmo terminal. Serve também de garagem, camelódromo e abrigo de sem-tetos. Vide no fim do texto descrição do que ocorre ali.

Mas o Cabo é disparado a cidade mais integrada da África do Sul, você vê brancos andando nas ruas do Centro aos montes.

Parece que está na Europa ou América (não me refiro aos EUA, ou pelo menos não somente aos EUA, América é um continente).

No Centro de Durbã e Joanesburgo não há brancos. Nenhum, nada, zero, inexistente.

Pois não é uma questão de quantidade, e sem de qualidade. Embora menos que no Cabo, há mais de um milhão de brancos tanto em Durbã quanto Joanesburgo. 

Nas próximas 7 vemos a Estação Central de Trens de Durbã: sombria (literalmente) viagem no ‘Metrorail’.  Fica no subterrâneo, e quase não tem iluminação, o breu é total.

As praias de Durbã são integradas, ali você vê o quão numerosos são os caucasianos na cidade.

Nos subúrbios elitizados a moda ianque afastados da Zona Central, os brancos são maioria nas ruas, vi isso pessoalmente em Sandton, Z/N de Joanesburgo.

E, há exceções evidente, mas no geral você também vê pouquíssimos brancos nos ônibus urbanos de Joanesburgo e Durbã.

Pois o sistema não chega com a qualidade necessária aos bairros mais elitizados.

Claro, a linha que só percorre o trajeto entre o Centro e a orla em Durbã (da qual falo abaixo), nessa há vários euro-descendentes.

Repito pra ficar claro, ou melhor dizendo, está escuro pra cacete, Uma cena trevosa.

O mesmo vale pros alimentadores do Gautrem em Joanesburgo. São as exceções que confirmam a regra, até porque ambas são linhas integradas.

No geral, em Joanesburgo e Durbã, a classe média agora multi-racial usa carro, os pobres (quase todos negros, alguns poucos brancos, em Durbã há também indianos) usam ônibus.

No Cabo é diferente. Como seu sistema de ônibus é moderníssimo e não deve nada aos melhores da América e Europa, a classe média o utiliza.

Modernos articulados ligam o Centro a terminais na periferia, em corredores exclusivos e com estações com embarque em plataformas elevadas.

Vejam com com vossos próprios olhos, em dia útil não quase ninguém na Estação Central de Durbã, e são umas 10 plataformas enfileiradas.

Eles têm 3 portas a direita (pois na África do Sul é mão inglesa, mas as estações são no fluxo contrário do tráfego, como os ligeirinhos de Curitiba).

Os que fazem linhas somente em corredores não têm portas na esquerda.

Mas em alguns pontos mais afastados da cidade ainda não há corredores exclusivos, então mesmo articulados têm que ter portas a esquerda, no nível da rua.

Ônibus de tamanho normal puxam as linhas de média demanda.

2 portas a direita pra usar nas estações, mas 1 a esquerda, pois eles também são usados nas linhas alimentadoras mais carregadas.

Estou me repetindo pra enfatizar bem: estação escura e pouquíssimo utilizada, aqui consegui achar uns gatos pingados.

E os micros se encarregam das linhas menos movimentadas. 1 porta em cada lado, elevada a direita e rebaixada a esquerda.

Olhe, se a linha é servida por micro não é uma questão de tamanho do trajeto, nem se é central ou não.

Mas sim do número de passageiros, no caso da ‘Riviera’ e dos morros entram também outros fatores na logística.

Explico. Há linhas que servem os bairros centrais, abastados. Boa parte deles são em morros.

A Cidade do Cabo parece a Califórnia, a elite e alta-burguesia é que moram em ladeiras, os pobres ficam nas partes planas da cidade.

Veja, quando subi no vagão só havia eu. Depois vieram mais umas 2 ou 3 pessoas.

Você conhece (mesmo que somente por fotos e filmes) como é São Francisco ou ‘Hollywood/Beverly Hills’ em Los Angeles (obviamente ambas na Califórnia/EUA)?

Então, a Cidade do Cabo é exatamente igual.

No bairro ‘Baía do Campo’, de elite na Zona Sul do Cabo, eu me senti em Hollywood, só faltou me deparar com o Robert de Niro.

Fiquei hospedado em ‘Woodstock’, na Zona Central da mesma cidade.

Pra piorar, o trem andou 2 estações e recolheu. Desci nessa outra, que também estava deserta. Os prédios ao fundo ficam no bairro ‘Musgrave’, a ‘Cidade Alta’ de Durbã, uma região de classe média-alta (que também visitei) num morro logo ao lado do Centro.

Ali parecia demais que eu havia me tele-transportado pra São Francisco, porque é idêntico.

Então. As linhas alimentadoras que servem a Baía do Campo e ‘Woodstock’ naturalmente são servidas por micros.

Primeiro porque ficaria difícil ônibus grande fazer todas aquelas curvas em ladeira, muitas ruas são estreitas e sinuosas.

Segundo porque a demanda é menor. Como em todos os lugares do mundo uma parte dos burgueses sul-africanos usam transporte público se ele for eficiente.

Próximas 3: Centro de Joanesburgo (nessa cidade não andei de trens, só fotografei). Aqui a Estação Parque, a Central, principal da cidade, tri-modal ferroviária: ‘Metrorail’, Gautrem e trem de longa distância.

Mas mesmo assim não em grande número, a maioria sempre irá preferir o conforto de seus próprios automóveis de bancos estofados e ar-condicionado.

Na orla da Zona Sul é o mesmo. Nesse caso a distância pega, é muito longe do Centro, poucos usam ônibus.

A região da ‘Riviera do Cabo‘ é belíssima, uma sinuosa estrada se espreme entre as montanhas e o mar.

Mansões dos multi-milionários (com teleféricos particulares) ocupam as íngremes ladeiras, muitos Porches pelas ruas.

É uma beleza indescritível, tem que ver pra crer, por isso percorri a pé a Riviera pra produzir um ensaio fotográfico.

Aqui e próxima a esquerda: Estação Faraday, também Centro de Joburgo, essa é só trem de subúrbio.

Mas, não é difícil entender o porquê, ali não há como pôr ônibus grandes, os micros dão conta do recado.

Como dito, você passa o cartão quando entra. E quando sai de novo.

Como as catracas têm GPS, o sistema calcula a quilometragem que você percorreu, e cobra de acordo.

Essa cobrança multi-nivelada não é tão injusta como parece a primeira vista por nós brasileiros.

Final de tarde de um dia útil, o ônibus 2-andares já mostrado acima estava lotado até a boca, foi dificílimo sair dele de tão cheio. Mas na Estação Faraday não havia ninguém pra tomar o trem.

Vale lembrar que as cidades sul-africanas são diferentes das brasileiras, pois aqui seguimos o modelo americano (do continente América) de urbanismo.

Enquanto a África do Sul se espelha na escola anglo-ianque. 

Portanto, na África do Sul os subúrbios mais distantes são abastados, como já disse muitas vezes e é notório.

Consequentemente, os mais pobres vivem em bairros relativamente centrais.

Assim a quilometragem que eles usam do ônibus não é tão elevada, a tarifa não sai cara pra eles.

Portanto você só embarca se possuir cartão com crédito, cada um tem que ter o seu.

Próximas 5: estação de trens ‘Woodstock’, Zona Central da Cidade do Cabo (ao fundo as montanhas características).

Mas é feito na hora nas estações, fácil e rápido de conseguir e recarregar.

Nos pontos, em todos na Zona Central e nas principais avenidas na periferia, há uma tabela de horários.

Você chega e já sabe exatamente quantos minutos faltam pro busão aportar.

Assim se vê que ainda têm 20 minutos, pode ir a esquina tomar um sorvete, por exemplo, não precisa ficar de pé ali.

Em várias paradas há também mapas, locais e da rede como um todo.

Repare os mesmos detalhes: 1) a linha é ‘2531’. Pra onde vai esse trem? Só quem pega ele todo dia sabe; 2) a estação está deserta, num dia útil; 3) agora que o ‘apartheid’ acabou, não há grade no vidro.

O sistema de transporte ‘Minha Cidade’ do Cabo é amplo.

Vai até Atlântida, que fica a 40 km, já é uma pequena cidade do interior.

Próxima a metrópole mas não fisicamente ligada a ela, é preciso pegar estrada.

Atlântida é pobre, conjuntinhos humildes de casas e prédios, mas sem favelas.

Então, e mesmo esse distante pedaço da Grande Cidade do Cabo, já no limite entre subúrbio da metrópole e interior, é servido por ônibus integrado da rede.

Na foto anterior era depois do almoço, ninguém na estação. Nessa é 6 da tarde, pleno horário de pico, tem meia dúzia de gente esperando o trem pra periferia. Aqui e nas 2 a seguir, repare no belo Pôr-do-Sol !

Nos horários de pico há busos diretos do Centro pra Atlântida. 

Nos demais horários e FDS é preciso baldear em um terminal no meio do caminho.

Em outros bairros ocorre o mesmo, linhas diretas quando há mais movimento, seccionadas nos horários de menor demanda. Mas isso é assim no mundo todo, óbvio.

Tudo somado, o sistema da Cidade do Cabo é excelente, eu tiro o chapéu.

Mas, também por ainda estar no começo, há várias partes da cidade que ainda não são servidas por esse modal mais moderno, ou são servidas de forma insuficiente.

Ali, as vans ainda predominam, secundadas pelos ônibus não-integrados.

Falamos do “Minha Cidade” no Cabo porque é disparado o que melhor funciona, então me centrei nele.

Joanesburgo e Pretória têm sistemas similares.

Em Joburgo se chama chamado ‘Rea Vaya’ (“estamos em movimento” na gíria de um dialeto local).

Fomos até Soweto com ele, comprando a passagem unitária como relatado abaixo.

Não há problemas pra adquirir o bilhete como em Pretória, e onde existe a rede funciona bem.

Próximas 4: continuamos na Cidade do Cabo, mas agora na Estação Central – que também é um camelódromo !!

Porém a rede é pequena. Diversos bairros de Joanesburgo não contam ainda com ela.

Proporcionalmente ao tamanho das cidades, o ‘Rea Vaya’ é bem menor que o ‘Minha Cidade’ do Cabo.

Estão corrigindo isso, há várias obras de ampliação do Rea Vaya em andamento, mas por enquanto é assim que tá.

Em Joanesburgo não sei se o cartão definitivo de plástico é feito ali.

Sempre igual, quase ninguém esperando o trem.

Mas nas bilheterias das próprias estações é possível comprar um cartão de papel que vale só pra uma viagem.

É um pouco mais caro, mas você não fica na mão. Foi o que fizemos.

Ainda assim, igualmente você tem que apresentar o bilhete na catraca na hora de sair da estação ou do ônibus. No Cabo também é possível comprar essa passagem pra só 1 deslocamento.

Ainda a Estação Central do Cabo, um trem grafitado. Joanesburgo é a única cidade da África do Sul que tem pichação e grafite nas ruas, e também nos trens. No Cabo e Durbã, nas ruas quase nada, nos trens há um pouco.

Em Pretória o sistema se chama Areyeng. Não há articulados. Sem problemas, a cidade é bem menor então se dispensam mesmo os sanfonados.

Entretanto, não é possível pagar a passagem na bilheteria da estação sem o cartão.

E ele não é vendido ali, nem o definitivo nem um provisório pra uma viagem. Isso é uma falha do sistema.

Nós indicaram onde se comprava, mas a fila virava a esquina, cena desanimadora.

Mesma foto que aparece os camelôs, mas agora com o foco no trem: 1) a linha é 3522, você sabe o destino? Eu também não, só quem usa todo dia decorou qual nº é o seu; e 2) Essa é uma velha locomotiva da época do ‘apartheid‘: quando haviam revoltas, a galera apedrejava o transporte coletivo. Por isso as grades nas janelas. Hoje não é mais assim, suba a página e veja que os trens novos não têm mais grades, a África do Sul embora com altos índices de violência avançou na busca da paz.

Portanto em Pretória nós não pudemos testar o sistema de ônibus mais moderno, acabamos andando num ônibus alimentador do Gautrem, que é um sistema a parte.

NA ÁFRICA DO SUL, QUEM VIAJA DE AVIÃO SUBSIDIA O TRANSPORTE PÚBLICO

Certamente o Gautrem é o transporte público mais moderno da África do Sul, pois ele seria moderno até na Alemanha!

Entre os ônibus, o posto é da rede “Minha Cidade” do Cabo, que também é de nível global, emparelhando com os melhores da Europa, América e Leste da Ásia.

E o Gautrem e o ‘Minha Cidade’ têm algo em comum além de seu alto nível de excelência:

Ambos são integrados ao modal aéreo, têm estações nos respectivos aeroportos internacionais.

Mas pra usar essa comodidade é preciso abrir bem a carteira.

Nas outras cidades 90% das vans são Toyota. Em Pretória, embora a maioria seja dessa marca japonesa, pelo menos um terço a quase metade é Volkswagen, além dessa colorida atrás vem outra VW branca. Estamos em frente ao Banco Central Sul-Africano, que emite o Rand, moeda oficial do país e mais 3 nações vizinhas.

A passagem de quem usa a Estação Aeroporto tanto do Gautrem quanto do ‘Minha Cidade’ é muito, mas muito mais cara que a tarifa convencional.

E não é uma questão de distância, mas sim de uma opção mesmo de política pública de quem tem dinheiro pra viajar de avião ajudar a subsidiar o custo do transporte coletivo de quem não tem esse privilégio.

Sim, tanto no Gautrem como no Minha Cidade a tarifa é calculada conforme a distância e horário que você usa.

Porém pra usar a Estação Aeroporto em ambos há um asterisco na tabela de preços. Ali, repito, não entra no cálculo o número de quilômetros rodados.

Mas sim o fato deliberado que o poder público decidiu que quem tem mais vai ajudar quem tem menos.

Passes de transporte na África do Sul,  anotei cidade e modal, amplie pra ver.

Pois você pode ir muito mais longe, mas se não for pro aeroporto pagará mais barato.

Exemplificando é mais fácil visualizar (um Real vale mais ou menos 4 Rands [maio.17], eu já fiz as conversões pra facilitar):

Do Centro de Joanesburgo ao subúrbio de Sandton sai 8 Reais no pico e R$ 5,75 fora dele.

Pra ir ao Aeroporto é muito mais caro, do Centro até ali são 37 reais.

No entanto, quase em frente ao aeroporto, apenas cruzando a rodovia, há estação Rhodesfield.

Se você descer nela, dá só 12,50 reais, ou seja 1/3 do preço.

Terminal Central de vans na Cid. do Cabo, com a Montanha-Mesa ao fundo. Essa vai pro distante subúrbio de Atlântida.

Muita gente faz isso, desce em Rhodesfield (de mala e tudo) e cruza a rodovia a pé, pela passarela.

Economiza 50 reais na ida e volta.

No Cabo não tem Gautrem – obviamente, pois até o nome (‘Gautrain’ no original) indica que ele pertence ao estado de Gauteng.

Enquanto a Cidade do Cabo fica no Cabo Ocidental. Mas pra ir de ônibus ‘Minha Cidade’ ao aeroporto é o mesmo esquema:

Fui a Atlântida de ônibus, aqui o terminal.

Bem mais caro que a tarifa normal. Estávamos em 3 pessoas. Pra chegarmos de busão pra Zona Central sairia 90 reais.

Fomos de táxi (clandestino, em outra mensagem breve eu conto mais), ficou 10 reais mais barato.

Voltando ao Gautrem, já que estamos falando de suas tarifas. Como já dito e ilustrado no decorrer da página, essa companhia ferroviária opera seus próprios ônibus alimentadores.

Você pode usar só o ônibus, só o trem ou ambos. Só o trem já dei alguns preços acima como exemplos.

Articulado Tribus da ‘Golden Arrow’, Cid. do Cabo.

Se você pegar somente o buso, custa R$ 5,25 no horário de pico e 3,50 fora dele.

Mas usando os dois modais, o ônibus sai por R$ 2 no pico, e apenas 30 centavos nos outros horários.

……..

Durbã ainda não revolucionou seu transporte coletivo, o negócio ali ainda está bastante atrasado.

Essa foi baixada da internet: articulado do ‘Rea Vaya’, Joanesburgo.

Há ônibus grandes, até mesmo uns poucos articulados.

Mas não há corredores exclusivos, integração, setorização entre linhas-tronco e alimentadoras, o trem é grosseiramente sub-utilizado pois funciona de modo horroroso.

Resultado: algumas poucas vilas e bairros são servidos por ônibus em linhas radiais (Centro-bairro em linha reta).

Todos vão pro Centro, se sobrepondo nas grandes avenidas e portanto concorrendo entre si.

Além de gerar congestionamentos e poluição.

Numa colagem (fonte: sítio Bus-Planet, créditos mantidos), vemos 5 ônibus dos anos 80 pra 90, ‘apartheid’ ainda vigorava. Daí todos com grades nos vidros, Detalhes: as 4 fotos acima são da cidade de Porto Elizabete, que eu não tive a oportunidade de visitar. Os 2 de baixo são da Cidade do Cabo, a antiga pintura da ‘Golden Arrow/Flecha Dourada’, quando ela era, bom, dourada! O da esquerda não está em linha regular, está escrito em inglês, africâner e (prov.) xhosa algo como ‘Cartão-Transporte’. O da direita sim, de partida pro bairro ‘Mowbray’.

Mas o grosso do transporte é por vans. Nessas obviamente todos os problemas se repetem ampliados:

Somente linhas radiais, nada de integração.

Se você quiser ir de um bairro pra outro tem que pagar duas vezes.

Além do custo ao passageiro, isso gera um custo a cidade.

Pois forma-se um caos na Zona Central.

Ela fica apinhada com um mar de vans brancas disputando passageiros entre si e contra os poucos ônibus que há.

Digo, há em Durbã o sistema ‘People Mover’ (algo como ‘Move-o-Povo’).

É o começo da modernização dos ônibus na cidade. São todos novos, com piso baixo.

E são as únicas linhas integradas:

Você paga mais caro, e têm que solicitar ao motorista (que também é o cobrador).

Mas é possível comprar um passe válido pro dia inteiro.

Os dois extremos da linha 109 da Cid. do Cabo. Aqui parada no ponto inicial no Centro, o terminal Adderley . . .

Aí você pode entrar em qualquer buso do ‘Move-Povo’, quantas vezes quiser, até a meia-noite.

(Nota: faleia ‘1/2 noite’ como força do hábito. Na verdade a última viagem do ‘People Mover’ é bem antes disso, no máximo as 22h, por ser um serviço mais elitizado.)

Porém não há corredor exclusivo, articulados e muito menos estações com embarque pré-pago em nível.

São apenas 3 linhas, uma percorre as imediações da beira-mar e outras duas ligam a orla ao Centro.

. . . e agora no ponto final, no distante bairro da Baía Hout (no ponto um muçulmano praticante, que incluso cobre a cabeça).

Ônibus não-integrados:

Todas as cidades sul-africanas ainda contam com esse modal.

Diversas viações com pintura livre, fazendo linhas radiais (Centro-periferia) não-integradas.

Portanto não há linhas circulares que interliguem as diferentes partes da cidade sem passar pelo Centro.

Se você precisa ir de um bairro a outro tem que pagar duas vezes.

Já que abrimos o baú, vamos ver mais duas fotos antigas, ambas igualmente baixadas da rede, da época que a África do Sul tinha tróleibus. Aqui em Joanesburgo: virada dos 80 pros 90, finzinho do ‘apartheid’, só brancos podiam usar esse tribus, troleibus e 2-andares, tudo junto e misturado!

Há viações enormes como ‘Golden Arrow’ (‘Flecha Dourada’) na Cidade do Cabo e a Putco em Joanesburgo, Pretória e diversas outras cidades da região.

Essas duas citadas acima têm centenas ou mesmo milhares de ônibus, atendem dezenas de linhas.

E outras bem menores, que só fazem uma ou duas linhas, e têm de somente 1 a 5 ou 10 veículos na frota, e tudo que há no meio entre esses extremos.

Não tem muito o que descrever, é pintura livre, ônibus de apenas uma porta, você compra a passagem do motorista que também é o cobrador.

Nesses busos você igualmente paga conforme a distância percorrida:

Durbã, bem antes, década de 50. Mesma cena, tribus, 2-andares e trólei, também só pra caucasianos, o ‘apartheid‘ oficial estava em seus primeiros anos.

O motorista pergunta até onde você vai e cobra de acordo, te dá um bilhetinho de papel com essas informações impressas.

Há alguns articulados nas linhas de maior demanda, isso em nas 3 cidades, Cabo, Joanesburgo e Durbã.

Trem de subúrbio com padrão de primeiro mundo:

Liga Joanesburgo a seus subúrbios ao norte, e até o aeroporto e a capital Pretória.

Não estou brincando nem exagerando. O Gautrem tem nada menos que 98,6% de pontualidade, ritmo norte-europeu ou leste-asiático.

As poltronas são anatômicas e estofadas, e não há super-lotação.

As cidades da África do Sul, urbanisticamente falando, são iguais as dos EUA.

Próximas 2: ônibus não-integrados de Pretória.

Claro, há inúmeras favelas miseráveis que não existem nos EUA. 

Mas o resto é igual, os ricos e a classe média-alta moram em subúrbios só de casas afastados do Centro.

A parte mais rica de Joanesburgo é a Zona Norte.

Na época do infeliz ‘apartheid’, os subúrbios elitizados eram 100% brancos.

Pretória também é conhecida como Tshwane, abaixo explico a razão.

Hoje são mistos, há numerosa classe média e média-alta negra.

O ‘apartheid’ político acabou, e por isso os bairros de elite hoje contam com numerosa participação negra.

Mas o ‘apartheid’ econômico permanece. Se preferir de outra forma, a África do Sul continua um país de 3º mundo.

Portanto uma ilha que é a minoria que pertence a burguesia (agora composta por brancos e negros) está cercada por oceano de pessoas da classe trabalhadora, a imensa maioria negros.

Viação ‘Country Cruiser‘ (“cruza a nação”, ou “cruza o sertão”, a palavra ‘country’ pode ser tanto ‘país’ quanto ‘campo, interior’). A frente sujeira e comércio pra lá de informal. Assim você flagra como é o Centrão de Durbã. Sentiu o drama?

Pro transporte, que é que nos interessa aqui, a malha do Gautrem é pequena. Mas concentrada exatamente na parte rica da cidade.

Ademais, ônibus alimentadores ligam (com tarifa integrada) os bairros do entorno a estação férrea.

Portanto permite que agora a classe média e média-alta possa também usar trens pra ir trabalhar.

Isso é cidadania. País rico e justo não é o que pobre usa transporte individual, mas o que o burguês usa transporte coletivo.

Claro, é só um começo. Numa nação ainda extremamente injusta como a África do Sul, são poucos os casos que a burguesia usa trem e ônibus.

Ainda Pretória, integrado do Areyeng. Carroceria fabricada pela Caio no Brasil, vai desmontada de navio e é finalizada pela Busmark 2000 na África do Sul, que muda alguns detalhes como o farol em relação ao modelo que circula aqui.

Mas é um bom começo. Até 2010/2012 (anos da inauguração gradual do Gautrem) nem isso existia.

Tem mais: como já dito, o Gautrem tem sua rede de ônibus alimentadores. Esses também são novos

Óbvio que nem tudo é perfeito, a ‘revolução’ ainda está nos estágios iniciais.

O Gautrem é de primeiríssimo mundo, o verdadeiro ‘Estado de Arte’.

Mas a malha é pequena, há somente duas linhas:

Uma grande linha norte-sul de Joanesburgo a Pretória (passando pelos subúrbios a moda ianque onde mora a classe média-alta na Z/N de Joanesburgo).

Garagens de ônibus. Na imagem anotei as cidades.

Ela e se interliga a um outro ramal leste-oeste, que une a linha-tronco ao aeroporto internacional e os subúrbios que ficam circunvizinhos a ele (na Z/L mas próxima a Z/N).

Obviamente é muito pouco pra uma metrópole que tem de 7 a segundo algumas fontes já 10 milhões de habitantes.

Próximas 2: Transportes Durbã. Aqui um Torino brasileiro.

Isso somente na Grande Joanesburgo, e se adicionarmos a Grande Pretória (que é muito próxima) dá de pelo menos 10 a 12 milhões de pessoas nessa megalópole estendida.

Ademais o Gautrem se concentra na parte rica da cidade, ignora a periferia.

Trens de subúrbio precários (‘Metrorail’): existem em todas as metrópoles, Joanesburgo, Pretória, Cidade do Cabo, Durbã, Porto Elizabete e Londres do Leste.

Mesma viação, outro modelo, ao lado de 2 vans.

Mas em todas elas a qualidade é péssima. No Cabo e Durbã comprovei pessoalmente. É disso que falarei agora.

“DESCIDA A ESCURIDÃO”: A SOMBRIA (LITERALMENTE) VIAGEM NO ‘METRORAIL’

Estação Central de Pretória, como a de Joburgo tri-modal férrea: Gautrem, ‘Metrorail’ e trem de longa distância.

Vou documentar minha viagem nos trens de subúrbio (‘Merorail’).

Eles são horríveis, em todas as cidades, ninguém usa exceto quem não tem escolha.

Já foi difícil comprar o bilhete, você tem que informar onde vai descer.

Mas eu e o bilheteiro não nos entendíamos, meu inglês não é tão bom – e nem o dele, eu acrescentaria.

Não confunda: no texto ao lado falo da estação do ‘Metrorail’ de Durbã. Na imagem a estação do ‘Metrorail’ de Pretória, com trem executivo pra Joanesburgo (falo sobre ele abaixo).

Tive que mostrar o mapa, uma passageira na fila ajudou, no fim foi, entrei na estação.

Quando vi a escada pra descer a plataforma, achei que era engano:

Estava tão escura que parecia que a estação estivesse fechada.

Mas era ali mesmo. Chegando lá embaixo, veja (nas fotos mais pro alto da página) que breu total na plataforma . . . .

Eu era estrangeiro, tom de pele diferente dos nativos (portanto todos viam que eu era turista).

Estava praticamente sozinho naquele lugar que os próprios moradores locais não têm coragem de pisar.

Joanesburgo, Viação Gauteng, que também possui articulados. Linha – não-integrada – escrita numa placa no vidro, letreiro eletrônico apagado. Mais pra cima no texto já comentei sobre isso.

Em partes da estação um forte cheiro de mijo pois os banheiros estavam trancados com cadeado.

Todo mundo falou pra eu não ir, porque era perigoso demais, era o retrato do inferno.

Ao chegar ali, vi que as pessoas têm razão em evitar o ‘Metrorail’. Pensei: “Caramba, é de fato macabro.

Mas não vou desistir, afinal, se não for perigoso, não é jornalismo.

Vou prosseguir e cumprir a missão que me propus, e Deus Pai e Mãe me ajudará e me Iluminará na tarefa”.

De fato Ele/Ela me Guiou e protegeu, poucos horas depois fui parar num camburão da polícia. Mas não me aconteceu nada de ruim, foi só uma experiência exótica, já está no ar a matéria em que dou todos os detalhes.

Terminal dos alimentadores do Gautrem na Estação de Pretória. Há ônibus com só 1 e com 2 portas.

Bem, de volta a Estação de Central dos trens de Durbã, só mesmo o Criador pra Iluminar aquele local.

Porque se depender da Cia. Férrea da África do Sul (chamada ‘Prasa’, numa sigla em inglês) tá difícil.

Ela parece não achar necessário pôr mais lâmpadas na plataforma onde as pessoas esperam a condução.

Alimentador do Gautrem (em meio a muitas vans) no Centro de Pretória. Alias no letreiro diz “Pta. CBD”. ‘Pta’ é Pretória, óbvio. CBD é o termo inglês que significa ‘Centro da Cidade’, é a sigla de ‘Central Business District‘. Nos EUA se fala ‘Downtown’, não? Então, em várias ex-colônias britânicas se diz ‘CBD’.

Repito, é no subterrâneo. Pra alguém acessar tem que ir em sentido descendente pelas escadas.

E há pouquíssima iluminação artificial. Resultando que é literalmente uma ‘descida a escuridão’, não é modo de falar.

Cheguei e havia um trem parado. Mas não vi ninguém entrando, espiei pela porta não tinha ninguém dentro.

Então não seria eu o primeiro a entrar, eu era mais ‘peixe fora d’água’ impossível.

Estação do Areyeng em Pretória.

Vai que o trem ia recolher, sei lá. Ele partiu quase vazio, eu fiquei na plataforma, também quase vazia e muito escura.

Perto de meia-hora depois chegou outro. Aí já haviam mais umas 4 ou 5 pessoas nos bancos aguardando.

Entrei, vagão deserto, depois subiram mais algumas poucas pessoas, bem menos de 10.

Cidade do Cabo. Nos pontos nas avenidas principais do ‘Minha Cidade’ há mapas (também usando o termo ‘CBD’, destaquei) e tabela de horários.

O trem andou 2 estações e recolheu, todo mundo teve que descer.

O fiscal que deu essa informação era branco.

Sinal que há brancos pobres, que fazem trabalho braçal, nessa nação.

Na estação onde tive que ficar esperando mais quase uma hora por outro trem.

Joanesburgo (tirei as fotos contra a luz, assim a definição saiu baixa): acima 2 alimentadores Gauteng, Caios brasileiros, um tem 2 portas (raro na África do Sul) e outro somente 1. Abaixo, em branco, linhas convencionais não-integradas. A esquerda viação independente Amogelang, Torino brasileiro. A direita um Putco (que já vimos mais pra cima na pintura tradicional laranja. Sabe-se lá porque, esse ‘carro’ está descorado).

Novamente, não há ninguém nas plataformas.

Depois peguei o trem errado, porque na África do Sul o letreiro do trem não traz o destino, mas sim um código.

Um número, que só quem pega todo dia sabe pra onde está indo aquela composição.

Pelo menos aí o trem (errado) que tomei estava mais cheio, algumas dezenas de pessoas, pra não ficar tão sub-utilizado. Camelôs vendem de tudo lá dentro.

As estações assustam, principalmente as desertas e sem iluminação. Mas dentro do trem em si, olhe, não é nada diferente do que temos no Brasil.

Andei várias vezes nos trens de subúrbio de São Paulo nos anos 90 (eu era um adolescente), quando eles ainda não haviam sido modernizados.

A situação era idêntica da África hoje, quem podia evitava.

Mato a cobra e mostro o pau: eis mais um Putco na Z/N de Joanesburgo, esse na decoração de escolha normal da viação.

Atualmente os trens da CPTM melhoraram bastante, mas algumas linhas (as pra Franco da Rocha e Itapevi certamente) ainda estão longe do padrão ideal.

Tudo somado, nesse quesito também o Brasil está bem próximo da África do Sul.

……..

A rede de Metrorail é bem extensa no Cabo, Durbã e Joanesburgo/Pretória (nessas duas últimas é uma só rede, pois as cidades são próximas).

Putco em Pretória.

Todas com várias linhas que se cruzam formando uma malha.

Nas duas cidades que ficam no estado do Cabo Oriental (Porto Elizabete e Londres Leste) só há uma linha em cada.

O ‘Metrorail’ era o ‘trem dos negros’ na época do ‘apartheid’, agora é o ‘trem dos pobres’ – que no ‘Metrorail’ são todos negros então  especificamente nesse caso nada mudou ainda.

Pois com o regime de segregação racial oficial, os negros (e indianos em Durbã) eram os pobres, os brancos eram a burguesia.

Joanesburgo, 20/04/17. No Centrão um Torino brasileiro da Metrobus.

Como já dito muitas vezes, na era ‘pós-apartheid’, a burguesia é multi-racial, brancos, negros e indianos (esses últimos só são numerosos em Durbã).

Mas a periferia ainda é quase toda negra, as piores favelas 100% negras.

Mas mesmo nessas piores favelas quem pode vai de van (‘táxi’). Só usa o ‘Metrorail’ quem não tem mesmo dinheiro pra ir de van.

Z/N de Joanesburgo, Metrobus da Caio com “chapéu”, decoração que faz sucesso no Chile, México e em São Paulo, mas em Curitiba só se vier usado de fora. Já expliquei, a Busmark finaliza a montagem lá na África, mudando alguns detalhes, mas é um Caio.

Alguns dizem que no modal ferroviário o ‘apartheid’ continua.

Fizeram o Gautrem que liga os subúrbios ricos de Joanesburgo e Pretória ao aeroporto.

Sinceramente, vendo o anúncio do Gautrem tive que dar alguma razão a esses críticos:

Como podem ver em foto mais pra cima na página (busque pela legenda), o cartaz só mostra as conexões pra Pretória e Sandton.

Portanto ignora o Joanesburgo e sua Estação Central, chamada “Parque”.

Oras, Sandton é digamos “o Novo Centro” de Joanesburgo.

Nas mesmas duas pinturas, Metrobus em Pretória.

Partes do Centrão de Joanesburgo sofrem com severa decadência urbana. Falei disso melhor com muitas fotos em outra postagem.

Aqui, pra irmos adiantando, resumo que, as corporações retiraram suas sedes do Centrão.

Joanesburgo, viação Stabus. ‘Stadt’ é ‘cidade’ em alemão. A língua holandesa num passado remoto se originou na alemã. Assim, em holandês e africâner (dialeto do holandês) ‘cidade’ é ‘stad’, daí o nome da companhia.

E transferiram pra Sandton, um antigo subúrbio que acabou se tornando o novo núcleo econômico da cidade, ao menos pros brancos.

Em Sandton os brancos são maioria nas ruas, ou ao menos perto disso, pois é ali que eles trabalham. Pois bem.

Voltando ao transporte que é o que nos importa hoje, o anúncio do Gautrem só mostrava a conexão até Sandton e ignorava por completo Joanesburgo, que queiram ou não ainda é a maior cidade do país.

Há a linha até o Centro de Joanesburgo. Na hora de construir o Gautrem, a cidade não foi menosprezada.

Dois busos brasileiros (Marcopolo e Caio) da Stabus em Pretória. Vocês enenderam, não? As empresas de que operam em Joanesburgo o fazem também em Pretória, as duas cidades são muito próximas.

Mas o foi na hora de anunciar o serviço. Só falam de Sandton, como se só Sandton importasse.

Bem, no trajeto Aeroporto-Sandton há muitos negros no Gautrem, mas os passageiros caucasianos são mais numerosos.

Em Sandton a maioria dos brancos desembarca, dali eles vão de carro (as estações têm estacionamento justamente pra atrair esse público) ou táxi pra suas casas que são em subúrbios elitizados próximos.

Mais um Marcopolo brasileiro, do “Minha Cidade” no Cabo. A porta da esquerda pra embarque/desembarque na rua, a direita 2 elevadas pra uso nas estações.

De Santon ao Centro de Joanesburgo os negros predominam amplamente no trem, e segundo esses ativistas é por isso que esse trecho não foi considerado digno de aparecer na propaganda.

Repito, não há como lhes quitar uma boa dose de razão.

………

Já que tocamos no ponto do ‘apartheid’. Viram acima que a região metropolitana de Pretória agora se chama “Tshwane”. Vamos entender o porque:

Quando o ‘apartheid’ acabou, os negros exigiram que os estados, ruas e cidades tivessem também nomes africanos, e não somente europeus.

Colagem com vários ‘Golden Arrow‘, também do Cabo como já sabem.

Como não dava pra renomear todas as cidades, acharam um meio termo curioso:

A cidade  continua sendo ‘Pretória’, mas a região metropolitana agora é ‘Tshwane’.

E na África do Sul como já dito a região metropolitana é a 4ª esfera administrativa (como o ‘condado’ nos EUA), tem sua própria prefeitura, ao contrário do Brasil.

Próximas 4: o Terminal Central da Cid. do Cabo, onde param as linhas convencionais, não-integradas. Aqui e a direita só os brancos e verdes da ‘Golden Arrow’.

Em Durbã é o mesmo, a cidade ainda é Durbã, mas a prefeitura metropolitana é de ‘eThekwini’. 

O nome ‘Pretória‘  ao contrário do que alguns imaginam nada tem a ver com a palavra ‘preto’. Exatamente ao contrário:

Homenageia André Pretorius, um holandês (africâner) branco que massacrou os nativos zulus pra ajudar a estabelecer o domínio branco na África do Sul.

…….

Busque nas legendas mais pra cima a foto do trem executivo Pretória/Joanesburgo.

Alias, nem todo ‘Metrorail’ é ruim. Esse serviço específico (notem a locomotiva moderna) tem qualidade, pois ali é concorrência direta com o Gautrem:

As linhas têm os mesmos pontos inicial/final e correm lado-a-lado.

Os azul-claros da viação Sibanye.

Então se o ‘Metrorail’ for péssimo como nos outros ramais aí que ninguém usa mesmo.

Esse ‘Metrorail’ é o único de padrão melhor, a exceção que confirma a regra.

Portanto:

Em Joanesburgo:

Busos de ambas as empresas citadas acima.

– Trem moderno com ônibus alimentadores (infelizmente malha pequena);

– Trem suburbano precário;

– Rede de ônibus integrada moderna (reduzida mas em ampliação);

– Ônibus 2-andares (isso não necessariamente é bom, leia abaixo o que achei da experiência);

Idem. Ao fundo as montanhas. Na África do Sul a maioria dos ônibus tem pequena porta a direita, de uso somente do motorista. Há uns buracos na lataria pra ele apoiar os pés pra entrar e sair.

Na Cidade do Cabo:

– Trem suburbano precário;

Rede de ônibus integrada moderna (bastante ampla);

Em Durbã:

– Somente trem suburbano precário, não há outras melhorias exceto em semente;

Veja mais pra cima na página (busque pela legenda) fotos do Terminal Central (não-integrado) de Durbã:

Entre dois busos da empresa Umlazi, vários sem-teto dormem. Essa ainda é a realidade do transporte nessa cidade.

Quadro das linhas. Aqui encerramos as fotos do terminal não-integrado do Cabo.

Como as pessoas se locomovem muito mais de vans (que eles chamam ‘táxis’), há pouca demanda pra ônibus.

Resultando que muitos busões no meio do dia ficam parados, o terminal serve mais de garagem, camelódromo, salão de bilhar (vi 3 mesas de sinuca).

E – como notam – abrigo dos moradores de rua. Fechamos Durbã.

Em Pretória:

– Trem moderno com ônibus alimentadores (infelizmente malha pequena);

– Trem suburbano precário;

De dentro da estação de trens, o Centro de Durbã.

– Rede de ônibus integrada moderna (adequada ao tamanho da cidade);

Ônibus 2-andares.

Claro, todas as cidades têm vans e ônibus não-integrados, alguns até articulados

Pra gente ir encerrando, como dito acima em Joanesburgo e Pretória ainda há algumas linhas de ônibus servidas por veículos 2-andares, mais uma herança inglesa.

Pontos em Pretória e Durbã.

Em Pretória só vi um desses veículos, e bem antigo.

Mas em Joanesburgo ainda são vários, a maioria brasileiros, fabricados pela Marcopolo.

Vários  sim, mas comparativamente ao tamanho da cidade são poucos.

Colagem mostra a Mynah, viação de Durbã. Nos detalhes a ave que é símbolo da empresa, e abaixo dela a ‘capelinha’ no vidro, o marcador que mostra o número da linha. A direita embaixo mais um Torino brasuca.

Felizmente. Ônibus 2-andares é ideal pra linhas turísticas, quando são poucos passageiros endinheirados que estão passeando, sem horário a cumprir.

Aí só vai gente sentada, reduzindo os problemas de circulação.

Vou dizer com todas as letras: ônibus 2-andares não são adequados pro transporte de massas, de linhas carregadas usadas pendularmente pela classe trabalhadora.

Pra essas linhas é preciso articulados, que não têm escada, aí você dinamiza o fluxo no interior do veículo:

Todo mundo entra pela frente e vai se dirigindo pra trás, onde há muito espaço pra se acomodar e várias opções pra sair.

Acabaram as fotos da África do Sul. Aproveitando o embalo, vamos mostrar um pouco da modernização em outras partes do continente. As fotos, repito a ligação, vieram do sítio Bus-Planet. Começamos pela Etiópia. Essa nação,uma das mais pobres da África e da Terra, antigamente tinha seus ônibus caindo aos pedaços – não é modo de falar. A China chegou pra ajudar. Agora circulam ali modernos articulados com letreiro eletrônico. Você conta nos dedos de uma mão os países africanos com articulados: além da África do Sul, sei da Tunísia. Talvez tenham mais um ou dois, mas não mais que isso. Desde 2015 a Etiópia entrou no clube, graças a China.

Pois num 2-andares a escada toma boa parte do espaço do salão interior, onde é feito o embarque/desembarque e cobrança de passagem.

Ademais, a própria escada já é um gargalo de circulação, se alguém está subindo e outro vem descendo, quem sobe tem que recuar.

Pra piorar mais ainda, a imensa maioria dos ônibus  sul-africanos só tem uma porta. Você imagina o cenário: dia útil, 5 e pouco da tarde. 

Praça Gandhi, onde fica o Terminal Central das linhas não-integradas de Joanesburgo.

Chega o busão 2-andares. O próprio motorista é o cobrador.

Ele tem que perguntar onde cada um vai (pois a tarifa é conforme a distância percorrida).

Depois pegar teu dinheiro, devolver o troco e o bilhetinho que comprova que você pagou o valor certo.

Até Adis-Abeba tem metrô! Na verdade um VLT. Construído e operado (a princípio) pela China. Já escrevi amplamente sobre a transformação da Etiópia, leia a matéria. Envolve muito mais que o transporte, essa nação africana é o símbolo da mudança do eixo da Terra, dos EUA/Europa pra China/Eurásia (Rússia, Índia e região).

Você vai lá pra cima, pois o vagão de baixo é minúsculo, o motorista a frente, a escada no meio e o motor atrás, quase não sobra espaço pros passageiros.

Chega a hora de descer e você tem que ir se espremendo no corredor e na escada.

Tem gente sentada nos degraus, o vagão de baixo está lotado até o limite, não cabe mais uma pessoas sequer. 

E só tem uma única porta lá na frente, você tem que ir achando um espacinho, pedindo licença, empurrando.

Na verdade, 90% das cidades da África nem mesmo contam com ônibus de tamanho normal, o transporte é sempre por vans, moto-táxis e no interior em caçamba de caminhão. 1/3 dos países não têm nenhum ônibus grande sequer em linhas regulares, nenhum no país inteiro. E na maioria das nações da África eles só existem na capital e no máximo na maior cidade do interior. Exemplifiquemos por Ruanda, que pra agravar tudo nos anos 90 ainda passou por um genocídio tenebroso, digno de Pol Pot. No século 20 até os anos 80, Ruanda tinha alguns ônibus grandes na capital, situação que espelhava todo continente. Mas o genocídio nesse caso particular e mais os “ajustes” do FMI em diversos países minaram essa realidade. Dos anos 90 até 2013, Ruanda só contava com vans no transporte coletivo, como visto acima.

Pra piorar, como só tem uma porta, tem gente que acabou de entrar e vem no sentido contrário.

Com muita luta você enfim desce. Ufa!!! A sensação é a de sair do inferno. Eu passei por isso, pra poder lhes contar como é.

Andar em ônibus 2-andares pra linhas de massa é um pesadelo. São Paulo e mais 3 cidades (o subúrbio metropolitano de Osasco, na Zona Oeste da Grande São Paulo, Goiânia-GO e Recife-PE) fizeram o teste.

Eu era criança, mas cheguei a andar várias vezes no 2-andares paulistanos. Foi horroroso, e isso que no Brasil o buso tinha 3 portas. Imagine na África que é uma só.

Agora, por outro lado em 2015 pra ir do Centro ao Aeroporto de Santiago/Chile eu fui de 2-andares. Trata-se de uma linha diferenciada, prum público de maior poder aquisitivo.

Aí sem problemas, o buso vai vazio, você sobe e desce com calma a escada, e circula no salão sem atropelar ninguém nem ser atropelado.

Depois da virada do milênio (de 2006 a 2011) houveram tentativas de modernizar o transporte, e foram re-introduzidos ônibus grandes na capital Quigali. Mas não deu certo, não aguentaram a pressão das vans, e quebraram. Em 2013, entretanto, o governo lançou com força total um plano de modernização do transporte em Quigali. Com ajuda de quem? Obviamente da China. Hoje, Ruanda voltou a ter ônibus grandes em circulação, o que já é luxo na África. E são todos chineses.

O mesmo vale pras diversas ‘Linhas Turismo’, já andei várias vezes nesses 2-andares aqui em Curitiba, e em 2012 também na Cidade do México

……..

Claro, muita gente é transportada ainda em caçambas de caminhonetes, sem nenhuma proteção.

Vi e fotografei o mesmo em vários países da América Latina, incluso no Brasil.

Tem mais, o modal mais antigo de transporte da humanidade ainda é amplamente usado na África do Sul: ir a pé.

Quem vive longe vai do trabalho pra casa (pela ordem de preferência) de van, ônibus ou trem.

Quigali foi dividida em 4 regiões. Cada uma tem uma cor, aqui vemos 2 delas. Atualmente a capital de Ruanda além de ônibus grandes tem pintura padronizada, horário e itinerário regulamentados. Na época das vans, nas grandes avenidas no horário de pico haviam centenas delas enfileiradas, brigando pelos passageiros. Mas nos bairros mais distantes em qualquer horário, e na cidade toda a noite e nos fins-de-semana, não havia opções de transporte público. Agora os ônibus circulam por toda parte, das 6 da manhã as 10 da noite, todos os dias.

Mas quem mora até 10 km do trampo volta caminhando. Sim, caminhando. 

Andar 1 hora a hora e meia, ralar o dia inteiro, e depois mais 60 a 90 minutos camelando é o padrão lá, muito mais comum que se pensa.

Presenciei isso pessoalmente. Fim de tarde, cheguei no subúrbio elitizado de Sandton. Na verdade trata-se do ‘Centro Novo’ de Joburgo. 

Como dito acima, o Centrão enfrenta severa decadência urbana, assim as corporações transferiram suas sedes pra Sandton.

Os prédios comerciais que importam estão todos ali, no Centrão é só comércio popular.

Por isso fui conhecer Sandton, e dali iria pra favela de Alexandra, que fica próxima. “Próxima” eu quero dizer que são 6 km, 1 hora a pé.

Esse busão exemplifica a mudança de Ruanda. Foi importado usado de Portugal, onde pertencia a um time de futebol. E foi posto pra rodar sem sequer ser repintando. Com a modernização de 2013, ele pelo menos teve sua pintura padronizada no padrão de Quigali (exceto o escudo, que mantiveram). Até 2014 fez linha regular, aí transferido pra ‘Escolar’.

E a pé a galera foi. Quando deixava Sandton, notei uma fila indiana enorme de trabalhadores negros.

Me juntei a eles, e lá fomos nós, caminhando, num agradável fim-de-tarde em Joanesburgo.

Acessamos a rodovia e continuamos, pelo acostamento.

Éramos uma fila de formiguinhas. Eu era o único de pele clara, o único turista.

Todos os demais era gente que pegou no pesado o dia todo.

E aí depois de ganhar o dia com o suor de seu rosto resolveram poupar o dinheiro do VT.

Antigas cooperativas de van puderam continuar no sistema, mas agora têm que cumprir horário e itinerário, e não mais operar quando e onde dá na telha. No Centro só são permitidos ônibus grandes e micro-ônibus. As vans continuam na ativa, mas só fazem as linhas alimentadoras na periferia que sobem os morros, vilas e favelas, além das rotas no subúrbio afastado semi-rural.

Qualquer trocado a mais no orçamento ajuda.

A África é  pobre. Sim, Joburgo é uma das cidades mais ricas do continente.

Mas Alexandra é um de seus bairros mais pobres, em verdade uma grande favela.

Depois, em outra avenida, vi que muito mais gente fazia o mesmo.

Eles estavam em outros trajetos, indo pra outros bairros. O destino era distinto mas o meio de chegar lá ra o mesmo.

É, filho. Essa ainda é realidade de milhões. Caminhar, depender das próprias pernas.

Reversão de polaridade: partes da África com padrão de Curitiba, partes de Curitiba com padrão da África. Segura essa bomba: na Z/Oeste, aos domingos a prefeitura de Curitiba fundiu 3 alimentadores em 1 linha: Augusta, S. José e V. Marqueto. Assim 1 carro faz o serviço de 3, o intervalo entre as viagens é de 1 hora e 24 minutos – tabela ‘rural’ em plena zona urbana, alias no bairro mais povoado da metrópole. A África evolui, Curitiba involui….

Se a crise apertar no Brasil e outros continentes, eu vi o nosso futuro aquele dia em Joanesburgo.

……..

Pra arrematar: nenhuma cidade da África do Sul (e nem de toda África) tem tróleibus atualmente.

Tiveram no passado, e era tróleibus, 2-andares e Tribus tudo num só. Mas acabou.

E nenhuma cidade sul-africana tem metrô ou VLT, que é um ‘metrô leve’.

Esse modal existe em outras partes da África.

Inclusive a ex-miserável Etiópia, como visto acima.

Portanto nesse quesito a desenvolvida África do Sul come poeira.

……..

Que Deus Pai e Mãe Abençoe a África, e todos os Homens e Mulheres da Terra.

Ele/Ela proverá.

“Trovão Azul” & “Domingo no Parque”, em B.H.

Metal em Minas.

Por Maurílio Mendes, o Mensageiro

Publicado em 26 de junho de 2017

Um Maurílio metaleiro, e mineiro. Morador de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Pegando condução pra ir pra Zona Oeste. Mas não qualquer coisa, e sim um Trovão Azul da época que ‘Volvo era Volvo’.

Tem mais: um Amélia que era “Ônibus de Verdade“.

Tem mais ainda: no saudoso padrão Metrobel, e “em frente ao parque”.

Em uma das muitas matérias sobre busologia no sítio, publiquei a foto ao lado (extraída da página Bus MG).

Pensando Nela . . .

Um colega, que morou em BH, se emocionou em lembrar sua infância. Foi ele quem falou que a tomada foi feita “em frente do Parque”.

Quando eu disse que desenharia a cena, novas recordações afloraram em sua mente. Eis suas palavras:

”   Rá, era demais ouvir a resfolegante respiração deles, bem mais ágeis e rápidos do que seria de se supor, descendo a ladeira!

Ah, e os cheiros? Final da tarde, começando a abrir as florzinhas “damas da noite”, aquele cheiro açucarado, o piso de ardósia, e os  Mercedões rugindo pela rua…

 Oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais!   “

Daí o título, fazendo alusão a outras postagens: “Trovão Azul” e “Domingo no Parque“.

………..

Enfim. Maurílio está indo pra Z/O de B.H. pra ver sua namorada Marília, que também é roqueira. Ademais, ela é uma menina que adora pintar o cabelo de rosa. Ou as vezes de azul.

Um Amor em Rosa & Azul. Mas as roupas de ambos são pretas, pois a trilha sonora é o bom e velho ‘Rock’n Roll’.

Vamos pro Oeste, galera.

o ‘apartheid’ acabou.

Próxima parada, África do Sul.

Por 40 anos (1948-1988 aprox.), durante o infame regime racista, eram proibidos por lei os relacionamentos entre um Homem e uma Mulher de raças distintas.

Camisa do Kaiser Chiefs, time mais popular da África do Sul – os negros adoram futebol.

A legislação previa longas penas de prisão pra ambos, mas na prática um negro que ‘ousasse’ sequer pegar na mão de uma branca seria linchado ou executado no mesmo momento.

Já escrevi em detalhes sobre esse triste período da história sul-africana. Mas hoje tudo isso é passado, as pessoas são livres pra viverem seu Amor, independente dos tons de pele serem diferentes.

Inclusive fotografei vários casais inter-raciais nas orlas de Durbã e da Cidade do Cabo. Agora minha versão com as próprias mãos da mesma cena.

A Marília loira é africâner, o que significa que étnica, cultural e linguisticamente ela é holandesa. Enquanto que seu marido, o  Maurílio sul-africano, está com a camisa do time mais popular do país, o Kaiser Chiefs.

Muitos conhecem a banda inglesa Kaiser Chiefs. O que várias pessoas não sabem é que os músicos britânicos se inspiraram no clube africano, homenageando-o. Assim é. Kaiser Chiefs (auri-negro, ou seja, amarelo-&-preto) e Orlando Pirates (alvi-negro)  são as preferências nacionais, os que dividem a massa na África do Sul.

“Café-com-Leite”.

E eles fazem o maior clássico de Soweto (são ambos dali), de Joanesburgo e de toda nação. É o ‘derby’ (no termo em inglês ) nacional.

Novamente contrário a imagem distorcida que muitos têm, a África do Sul ama futebol. A maioria negra com certeza. Sim, os brancos se dividem entre o ‘rugby’ e o futebol, com preferência pelo primeiro mas muitos gostam também do segundo.

Porém os nativos africanos não têm coração partido, não têm lealdade dividida. Pra eles, o esporte preferido é disparado o futebol, como é na maior parte do continente e do planeta.

Já desenhei Maurílio com camisas (ou adereços como boné e tatuagens) de times da Colômbia, México, Equador, Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai, França, Itália e Alemanha. Agora é a vez do ‘Continente-Mãe’ da Humanidade. 

do oriente ao ocidente

Muçulmana devota. Mas extremamente feminina e vaidosa, colorida da cabeça aos pés.

Vamos na mão inversa agora. Acima mostramos uma descendente de holandeses fora da Europa, numa nação de pele majoritariamente escura. Vejamos o outro lado da moeda, mais um casal inter-racial.

Ela é mais clara, ele é pardo. Mas que compartilham a mesma religião, são muçulmanos. Nasceram e moram em Amsterdã, a capital dos ‘Países Baixos’.

Os ancestrais deles vieram do Oriente: da Turquia, Afeganistão, Indonésia, enfim, algum país islâmico da Ásia.

Mas a Marília e Maurílio retratados aqui são tão holandeses quanto os moinhos de vento, os aterros no mar e os canais de Amsterdã (alias eles passam na ponte sobre um deles).

Uma vez que os europeus nativos não querem mais ter filhos, têm que importar mão-de-obra. Assim os bairros proletários centrais das grandes cidades oeste-europeias estão ficando um pouco mais coloridos, digamos assim.

Num ponto de ônibus da Cidade do Cabo, África do Sul, fotografei um muçulmano muito parecido com o ‘Maurílio’ holandês que eu desenhei: esse de carne-&-osso também é descendente de asiáticos (nesse caso Índia, Paquistão ou Bangladesh), tem pele parda, cobre a cabeça e usa roupas ocidentais (calça).

Já desenhei uma Marília holandesa da gema, etnicamente falando, sobre essa mesma ponte de Amsterdã. Aquela é ruiva, olhos azuis, a pele alva como a neve, e anda de bicicleta. 

Uma holandesa “típica”?? Bem, até o século 20 certamente a que tem tez e olhos claríssimos era o próprio retrato da Holanda.

No século 21, entretanto, essa de turbante é tão representativa quanto, ao menos na Zona Central de Amsterdã, Roterdã e as outras grandes cidades.

O Maurílio muçulmano também cobre a cabeça, e a barba enorme, quase até o peito mas sem bigode, igualmente é representativa de seu grupo étnico.

Mudemos o foco pra Mulher, pois a Energia Feminina é sempre mais bela e colorida que a Masculina, na dimensão do vestuário certamente:

Essa holandesa de ascendência na Ásia segue os preceitos ortodoxos de sua religião, por isso os membros e a cabeça são cobertos, só os parentes dentro da casa podem ver seus cabelos e seus braços.

Ainda assim, o lenço e o vestido são multi-coloridos, e ela está maquiada e com as unhas – do pé e da mão – pintadas.

A Holanda – e a Europa – estão mudando !!

Pois Marília, na raça, continente ou religião que for, nunca deixa de ser extremamente feminina em sua aparência.

É possível uma Mulher ser muçulmana praticante, e ainda assim vaidosa.

Seu turbante florido materializa um estado de espírito, o ‘encontro de dois mundos’, o islâmico e o feminino, do qual essa Marília é a síntese.

“Deus proverá”

Servir & Proteger

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 8 de junho de 2017

Maurílio bombeiro.

Ao lado em ação.

Lutando pra extinguir as chamas que eclodiram num prédio em alguma parte da cidade.

E a direita um retrato 3×4. 

Missão cumprida, o incêndio está debelado.

Vidas e patrimônio foram preservados, graças a ação desses que realmente se dedicam a ‘Servir & Proteger’ a sociedade.

Aí, numa hora de descontração, foi registrada essa cena dele sorrindo, pra consagrar pela Eternidade.

“na pequena água”: um momento místico de união com deus mãe e pai

Apagado o fogo, podemos serenar a mente dessa preocupação.

E assim podemos nos focar numa Energia um pouco mais Feminina.

Marília está numa chácara, numa pequena fazenda.

E ali ela foi ao campo colher flores.

Com raiz e tudo, pois depois ela vai enxertar os ramos no jardim que há na soleira de sua casa.

Ao passar sobre o riacho, ela se lembrou que um pouco rio abaixo há uma pequena cachoeira.

Aí Marília não teve dúvidas: deixou suas roupas e o cesto de flores na margem, e entrou se banhar nela.

O dia está frio, tanto que o vestido e blusa são longos, cobrindo toda a extensão de suas pernas e braços.

E a água está gelada, claro, pois é um riacho de serra, cheio de pedras.

Mas não importa. Esse momento pra Marília é Místico, quase uma Auto-Iniciação se quiser ver assim.

De maneira que esse estado de Espírito transcende qualquer sensação material.

Uma vez que Deus não é somente ‘o Pai’, mas Pai e Mãe de todos os seres humanos, em verdade de tudo que há no Universo.

E a Água – assim como as Flores – representam a porção Feminina da Fonte Maior.

Assim nada mais natural que ao banhar nessas águas geladas Marília se Sinta Uma com o Criador, e com todo o Cosmos em suas Infinitas dimensões.

É como se a Filha retornasse a Casa Materno/Paterna após longa peregrinação.

Um Samadhi no Pequeno Rio.

Experiência que seu Grande Amor Maurílio também já vivenciou.

Namastê.

Hare Rama, Hare Sita.

Louvado é Deus Pai e Mãe.

a Curitiba que não sai na T.V.: Complexo da Caximba, ponta da Extremidade Sul

lado a, lado b: agora vejamos o ‘lado b’ da cidade

Ponto final do Vila Juliana – alimentador do Term. Pinheirinho – na Caximba: olhe quanta quiçaça (lixo e entulho) atrás do busão.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de junho de 2017

Em dezembro de 2016, andei (mais uma vez) na Linha Turismo. Que se concentra, além óbvio da Zona Central que foi onde a cidade começou, nas Zonas Oeste e Norte, as partes ricas da metrópole.

Daí eu produzi uma matéria chamada Linha Turismo, a Curitiba que sai na TV.

Vamos ver por trás do veículo: realmente um lixão clandestino, pois estamos numa das maiores e mais novas favelas da cidade, o ‘Complexo da Caximba‘.

Então agora pra fazer o contraste vamos ver exatamente o contrário, a Curitiba que não sai na TV: bem-vindo a Caximba, a extremidade da Zona Sul.

As imagens dizem tudo: esse pedaço esquecido e pouco famoso da cidade está inchando descontroladamente com seguidas invasões desde 2010.

Se tornando um dos maiores bolsões de miséria da capital do Paraná. A situação realmente é crítica e vem se agravando.

………

Em escala maior: novas casas estão sendo erguidas o tempo todo no local.

Fiz uma postagem dizendo que o Tatuquara é a ‘Extremidade Sul’ de Curitiba. Bem, entre os bairros que têm mais de 50 mil moradores e que já eram urbanos na virada do milênio ele certamente é o mais meridional.

Mas depois dele vêm mais dois, o Campo de Santana – até uma década e meia atrás a maior parte rural, poucas vilas urbanas, mas hoje quase 100% urbano pois foi o que mais cresceu na década passada;

Mapa do ‘Complexo da Caximba‘, em azul a parte antiga, laranja o que é mais recente.

E a seguir a Caximba, que é o que mais cresce (ao menos em termos proporcionais) atualmente.

A Caximba é o único bairro de Curitiba que dista mais de 20 km do Centro. Portanto a própria ponta da Extremidade Sul.

Até o começo dessa década a Caximba ainda era basicamente uma parte rural, conhecida da maioria dos curitibanos somente por abrigar o aterro sanitário (lixão).

O aterro saiu dali, a parte de lixo doméstico foi pra região metropolitana, pro município de Fazenda Rio Grande (que também é Zona Sul, alias perto da Caximba).

E o depósito de de resíduos dos hospitais ficou no município de Curitiba, mas foi transferido pra Zona Oeste, na divisa entre CIC e São Miguel, nos fundos do ‘complexo’ das Vilas Conquista e Sabará.

Os Extremos Sul e Oeste de Curitiba ainda são rurais – nessa mensagem todas as fotos foram feitas na Caximba, claro. Detalhe que o cara escreveu “alho” corretamente, mas hesitou e ‘corrigiu’ pra ”alio”.

Alias, já falei sobre isso com muitas fotos:

Em 2012 e de novo em 2015 houve grande onda de invasões na região do Sabará e imediações.

E por isso as pessoas estão morando em solo contaminado com lixo hospitalar.

De volta a Caximba que é nosso tema de hoje.

Ainda existe uma Caximba rural, onde bois e cavalos pastam despreocupadamente, e agricultores vendem hortaliças ‘direto da roça’.

Existe uma Caximba em que os terrenos são enormes, há várias olarias ativas.

Precisa dizer mais?

E uma parte da população do bairro emergiu a média-alta burguesia, morando em elegantes sobrados.

Ao lado disso, a baixada do Rio Barigui (sim, o mesmo que rio acima abriga o parque mais famoso e “chique” da cidade) vem sofrendo grandes invasões, como dito se tornando uma das partes mais miseráveis de Curitiba.

Em 2010 houve a maior das ocupações do local. Batizada a princípio ‘Território Nacional’, depois foi rebatizada com uma data, “29 de Outubro”, aquela que ela foi fundada.

Essa é uma fortíssima tradição na Zona Sul de Curitiba.

Aqui e a direita: nem todo mundo na Caximba é pobre, óbvio. Na via principal do bairro (a Estrada Del. Bruno José de Almeida, antiga ‘Estrada da Caximba’) há residências de alto padrão, quase todas de descendentes dos pioneiros imigrantes da Itália, que acabaram ‘subindo na vida’.

Na própria Caximba, ali ao lado, há a vila ‘1º de Setembro’, e na divisa do Ganchinho com o Sítio Cercado há a vila ’23 de Agosto’. Na Caximba já haviam algumas pequenas ocupações irregulares:

Notadamente a 1º de Setembro que acabo de citar (do lado esquerdo da rua que liga Curitiba a Araucária), e a ‘Sapolândia’ (do lado direito, essa já na margem do rio, e por isso o nome, pois obviamente a várzea alaga com frequência), além de outras menores.

Porém as vilas eram próximas mas não unidas, haviam grandes terrenos vagos entre elas. Terrenos que foram ocupados em 2010.

Assim todas essas vilas antigas e menores se fundiram com a nova e maior, formando o que os cariocas chamam de ‘complexo’, e os mineiros ‘aglomerado’.

Surgiu o Complexo da Caximba/Aglomerado da Caximba, pra usarmos o léxico do Sudeste do país.

Então, recapitulando. Em 2010 surgiu a invasão ‘Território Nacional, a seguir renomeada ’29 de Outubro’, nomes que os moradores usavam. Mas conhecida pela população em geral simplesmente a ‘Favela da Caximba’.

Olaria na Caximba. Nesse bairro e em vários outros no Extremo Sul (Campo de Santana, Umbará e Ganchinho) elas são comuns.

Com a princípio 150 famílias (o que dá perto de 500 pessoas), logo a invasão inchou pra 4 mil moradores.

Acompanhamos tudo isso em nosso canal de comunicação, os pioneiros entre os leitores receberam os relatos ainda no modal do emeio.

Com a promoção pro modal da página fiz uma grande matéria sobre as invasões em Curitiba, que englobou diversos emeios.

Em 2014 saiu com grande alarde na imprensa que foi feita a desocupação da área, sendo retiradas mil famílias. 

Próximas 2: transição entre cidade e campo. Fora da favela os terrenos são enormes, ainda que as casas sejam humildes, de madeira. Isso vale também pros vizinhos bairros do Extremo Sul citados acima.

Eu pensei que era o fim do ‘Complexo da Caximba’, que toda a parte invadida havia sido removida.

Que o ‘Território Nacional’ havia tido apenas 4 anos incompletos de vida.

Imaginei que a maior parte do bairro tivesse voltado a ser de terrenos desabitados, com área verde.

Nada poderia ter sido mais distante da realidade.

Em fins de 2016, navegando pelo ‘Google’ Mapas, vi que a maior parte da região invadida em 2010 continuava ocupada.

Casas mais pobres porém fora da favela, a maioria também de descendentes de italianos, mas esses não se aburguesaram.

Ou seja, continuava com um emaranhado de ruas de terra sem nome e sem iluminação pública.

E com casas (a imensa maioria de madeira pois é Sul do Brasil) muito pobres.

Quase todas sem pintura, em meio a lixo, esgoto a céu aberto, fiação clandestina de eletricidade (gatos).

Fui checar se a filmagem fora feita antes ou depois de 2014, portanto antes ou depois da desocupação.

Pois obviamente se estivesse datado entre 10, 11, 12 ou 13 retrataria uma situação que talvez não existisse mais.

Pinheiros, e tem até pesque-pague (‘pesqueiro’).

Mesmo se fosse de 2014 eu iria conferir o mês, pra saber se antes ou depois da reintegração de posse.

Mas a rua principal foi filmada em “janeiro de 2016”. E nas esquinas se via que as casas continuavam lá, indo fundo no bairro.

Então a ocupação da Caximba não acabou. De fato retiraram mil famílias, mas já haviam muito mais de o dobro disso, e o restante ficou.

Mais uma tomada de uma Caximba e uma Curitiba ainda com sítios e fazendas.

Ademais, depois de 2014 novas invasões ocorreram, se re-assentando no espaço que havia sido desocupado.

Fui até o local, de carro, com familiares. Nesse dia não pude fotografar, demos apenas rápida volta na favela.

Suficiente pra ter certeza, agora com meus próprios olhos: sim, o ‘Complexo da Caximba’ ainda existe e está cada vez maior.

Como disse, a ocupação que começou com 150 famílias 4 anos depois já tinha mais de 2 mil. Metade saiu a força, metade ficou. A favela perdeu parte de suas quadras mas não se extinguiu. 

O ‘Dia dos Chevrolets’. Pude clicar 3 dessas antigas máquinas na ativa. Produzidos nos anos 70 (veja um deles quando novo em Curitiba, “naquele tempo” em que os ônibus ainda eram pintura livre), pois a décadas essa marca estadunidense deixou de fabricar pesados no Brasil (na Colômbia permanece atuando). O da foto maior rodando, mais uma foto na Del. Bruno de Almeida, os outros 2 parados dentro do ‘Complexo da Caximba’. O marrom é o ‘Bigode Grosso’, e está a venda por 13 mil. Pechincha ou não?, você me diz. E o azul tem o para-choque amarrado com fio, certamente o encaixe já quebrou. Mas o bichão taí, lutando, nunca desiste ! Alma Forte!!!!

E como uma hidra em que se você corta uma cabeça surgem outras, de lá pra cá vários moradores desalojados em 2014 voltaram, e outros chegaram pela 1ª vez.

A invasão cresce a todo vapor, como as imagens deixam claríssimo. Agora enfim deu certo de eu ir a pé e sozinho pra poder captar essas cenas.

No meio de 2017 a própria prefeitura estimou a população do ‘Complexo da Caximba’ (somando as vilas novas e antigas) em 7 mil pessoas. Fora do ‘Complexo’ devem morar mais quase mil pessoas na Caximba.

Somando portanto 8 mil, ou perto disso. Até 2020 serão bem mais de 8 mil, se houverem novas invasões 9 ou já beirando 10 mil.

Como a Caximba tinha somente 2 mil habitantes no Censo de 2010, sua população será quadruplicada, quem sabe quase quintuplicada, nessa década.

Configurando-se assim o bairro de Curitiba que mais cresce entre os censos de 10 e 20, pelo menos no quesito proporcional.

………

2010: surge a ocupação na Caximba, a princípio chamada ‘Território Nacional’ (daí a bandeira da Pátria Amada), depois ’29 de Outubro’. Essa é a única foto baixada da rede, todas as demais de minha autoria.

Natural. Curitiba cresce para o Sul, como eu já retratei em detalhes.

Na década de 90, os bairros da cidade que mais aumentaram sua população foram (os números são dos censos de 91 e 00):

Sítio Cercado (Z/S), de 52 pra 102 mil. Simplesmente dobrou, e olhe que a base não era tão pequena, mesmo assim ganhou nada menos que 50 mil pessoas.

Tudo por causa da implantação pela prefeitura (Cohab) do Bairro Novo, em 1992, que se consolidou nos anos seguintes.

Assim vemos que o Sítio, nos anos 90, teve altíssimo crescimento tanto em termos absolutos como proporcionais;

Daqui até o fim todas as imagens retratam o ‘Complexo da Caximba’. Repare que a rua não tem iluminação pública, toda a fiação que puxa luz pras casas é clandestina.

Cidade Industrial, de 116 pra 157 mil. Também acima de 50 mil curitibanos a mais nesse bairro.

A Cidade Industrial fica em sua maior parte na Zona Oeste, mas sua ponta austral está na Zona Sul.

No crescimento absoluto empatou com o Sítio Cercado, mas no proporcional foi bastante elevado (superando os 40%) porém ainda assim bem menos que o Sítio, já que em 1991 a CIC já tinha além do dobro de pessoas que o Sítio Cercado;

Uberaba, de 35 pra 60 mil, agregando 25 mil. Também em grande parte devido a volumosa onda de invasões ocorrida entre 1996 e 1998, com pico em 98.

Tampouco existe rede de saneamento básico. O esgoto corre a céu aberto (com cheiro forte mesmo num dia gelado como aquele que fui lá, imagine no calor).

Entre os bairros que já abrigavam pelo menos 5 mil moradores, teve o terceiro maior crescimento proporcional, 70%.

O Uberaba fica na Zona Leste, mas divisa com a Zona Sul, feita pelo Rio Belém. Eu moro no Boqueirão, Zona Sul. Estou a menos de uma quadra do Uberaba;

Tatuquara, Zona Sul, de 8,1 pra 36 mil, sendo acrescidas quase 28 mil pessoas.

Entre os com já no mínimo 5 mil, maior crescimento proporcional, mais que quadruplicou;

Acima falei dos bairros mais populosos, que já tinham pelo menos 5 mil moradores, e mesmo assim incharam muito nos anos 90, acrescendo entre 25 a 50 mil novos moradores cada.

Repetindo: sem rede de luz oficial – a noite um breu total -, fios clandestinos pras casas.

Malgrado a prefeitura negue de forma falsa, o município de Curitiba ainda conta com pequena Zona Rural em suas extremidades Oeste e Sul.

Como as fotos feitas na Caximba (Z/S) e Augusta e São Miguel (ambos Z/O) comprovem valendo mais que mil palavras.

Assim, obviamente haviam ali até o fim dos anos 80 vários bairros esparsamente habitados, com sua população contada em poucos milhares, ou mesmo na casa das centenas de pessoas em cada um.

E vários desses subúrbios que eram (e ainda são) a transição entre rural e urbano se tornaram mais urbanos na década de 90.

Lote a venda por 12 mil. Sem documentos, óbvio. Você não acha terreno escriturado no município de Curitiba por menos de 80 mil, mesmo nos bairros mais distantes.

Como a base inicial era baixa, eles tiveram logicamente altíssimo crescimento proporcional, malgrado terem ganho cada um apenas alguns milhares de habitantes.

O São Miguel teve o maior aumento em termos de porcentagem de toda cidade, de mil habitantes foi pra 4,9 mil, portanto praticamente quintuplicou.

Como já dito e é notório, S. Miguel é Zona Oeste. Mas não muito longe da Zona Sul, tanto que os alimentadores que o servem vão pra terminais da Z/S, ou ligam a Z/S a Z/O.

O Ganchinho, também Zona Sul, foi de 2,6 pra 7,3 mil. Bem mais que dobrou, não faltou muito pra triplicar.

Por toda a parte nova da invasão na baixada do rio se acham esses depósitos de entulho. Servem pra aterrar os terrenos, pois a terra originalmente é balofa (afunda ao pisar) e alagadiça. Natural, pois estamos na várzea do Barigüi.

A própria Caximba que vemos aqui triplicou na década de 90.

Tinha somente oitocentos e poucos moradores em 1991, ainda na casa dos 3 dígitos portanto. Em 2000 eram 2,4 mil caximbenses.

O Campo de Santana (que fisicamente fica entre Tatuquara e Caximba e assim obviamente também na Zona Sul) pulou de 4,1 pra 7,3 mil. Perto de 80% de aumento.

A base do C. de Santana já era bem maior que a da Caximba e S. Miguel. Enquanto esses outros dois oscilavam perto do 1º milhar, o Campo de Santana já tinha 4 vezes esse número.

Assim logicamente o crescimento proporcional foi menor.

Cena triste, amplie pra ver: pessoas reviram os resíduos, na busca de material reciclável. Mesmo nessas condições novas casas surgem o tempo todo, sinal que tem gente que necessita estar ali. Alguns dizem que Curitiba é de “primeiro mundo” . . . Piada sem graça! Alias, na Caximba me lembrei da Pratinha, uma das favelas mais miseráveis de Belém-PA.

Portanto dos 8 bairros que mais cresceram nos anos 90 (incluindo proporcional e absolutamente), 5 (Sítio Cercado, Tatuquara, Caximba, Ganchinho e Campo de Santana) ficam integralmente na Zona Sul.

Uberaba na Zona Leste, mas limítrofe a Sul. Cidade Industrial majoritariamente na Zona Oeste, mas um pequena porção também na Sul.

E São Miguel logo atrás da CIC, assim também na Z/O, mas não longe da Z/S.

Nenhum na Zona Norte, e nem mesmo na Z/O e Z/L mas próxima dela.

Próximas 2: sinalização não-oficial, feita pelos próprios moradores. Nessa placa imitaram o azul e o desenho da sinalização oficial, mas as letras são distintas.

…….

Após um grande pico nas décadas de 70, 80 e 90 (nesse ensaio analisamos somente a última dessas 3) o crescimento populacional de Curitiba arrefeceu bastante após a virada do milênio.

Essa situação que se repete na maioria das capitais do Centro-Sul. Falando especificamente da capital do Paraná:

Nos anos 90 dois bairros tiveram aumento de 50 mil pessoas cada, mais dois em pelo menos metade desse número.

Já na primeira década do milênio os quatro primeiros ganharam entre 12 a 20 mil, cada um deles. Respectivamente (nos censos de 2000 e 2010):

E aqui pintaram nas paredes. A rua principal da parte nova (de 2010) foi batizada “Av. do Comércio”. Aqui na esquina com a “1º de Setembro”. Essa, por sua vez, é a via principal de outra vila (nomeada com essa data) que já existia antes, e foi fundida com a nova invasão formando o ‘Complexo’. Detalhe: diz ‘cabeleireira‘, mas dentro há uma mesa de sinuca.

Campo de Santana, pulou de 7 pra 27 mil. Maior aumento absoluto e proporcional.

O único que atingiu 2 dezenas de milhares de novos habitantes, nada menos que quase quadruplicando sua população.

A razão pra isso que a partir de 2003 ali foi implantado o Rio Bonito.

Uma fazenda foi fracionada em milhares de lotes urbanos, se tornando parte da cidade.

Trata-se de um projeto similar ao Bairro Novo da década anterior, a única diferença é que o Rio Bonito é um empreendimento particular, e não da Cohab. 

Próximas 5: eu subi a rua 1º de Setembro. Quando saí da parte nova e entrei numa vila mais antiga que tem esse exato nome como já dito, a via passa a se chamar “Rua Principal”.

O vizinho Tatuquara continuou crescendo bem, e foi de 36 pra 52 mil curitibanos ali residentes.

Portanto 16 mil novos tatuquarenses em 10 anos, superando os 40% de aumento.

A Cidade Industrial veio logo atrás com 15 mil habitantes a mais, de 157 pra 172 mil. Se no absoluto quase empatou com o Tatuquara, no proporcional foi bem menor, por volta de 10%, pois a base era bem maior.

O auge do CIC foi antes, nos anos 80, quando o bairro ganhara impressionantes 70 mil novos moradores em apenas 10 anos.

Recorde que irá perdurar por toda história de Curitiba, e que também tornará o CIC pela eternidade o bairro mais populoso da cidade, salvo uma hecatombe nuclear.

Digo, do lado a direito da rua é a parte antiga, e que por isso já conta com rede de eletricidade oficial. A esquerda da via outra invasão bastante recente. Aqui já estamos numa parte mais alta, que não alaga. São muitas invasões pela região, umas recentes e outras não. Tudo agora ‘junto & misturado’.

– O Uberaba igualmente manteve um ritmo elevado por mais uma década, e pulou de 60 pra 72 mil pessoas ali vivendo.

12 mil a mais portanto, fechando a lista dos que aumentaram superando a dezena de milhar. No proporcional já não impressiona tanto, 20% de acréscimo.

– Afora o Campo de Santana que liderou no absoluto e proporcional, em termos percentuais depois vem a Augusta (Zona Oeste, ao lado do CIC e São Miguel) que passou de 3,6 pra 6,5 mil, crescendo mais de 80% na década.

A causa é que a prefeitura implantou ali diversas Cohabs, além de loteamentos particulares.

Houve também em 2003 uma grande invasão na divisa com o CIC, chamada inicialmente ‘Colina Verde’.

Postes de luz oficiais, sim. Mas também sem saneamento básico.

Também na Zona Oeste, o Mossunguê passou bem perto, faltou pouco pra atingir 70% de crescimento. Subiu de 5,6 pra 9,6 mil.

E nesse caso o crescimento foi majoritariamente na alta burguesia, classe alta e média-alta.

Como é sabido, ali foi implantado o que é conhecido pelo pomposo nome de ‘Ecoville’.

Trata-se da ‘Barra da Tijuca Curitibana’, um subúrbio afastado na Zona Oeste de prédios caros.

Só aqui não tem praia, óbvio (por curiosidade já que traçamos paralelos com o Rio, a ‘Copacabana Curitibana’ é o Parolin, na Zona Central – também sem mar, infelizmente).

De volta a Zona Sul, o Ganchinho subiu 50%, de 7,3 pra mais de 11 mil.

Igualmente emplacou a segunda década consecutiva se expandindo fortemente.

Ainda a “Rua Principal” da Vila 1º de Setembro.

Resumindo: um bairro da Zona Sul liderou com sobras tanto proporcional quanto absolutamente.

No absoluto, os que vem a seguir são ou na mesma Z/S (Tatuquara) ou respectivamente nas Zonas Oeste e Leste mas adjacentes ou com uma parte na Sul (CIC e Uberaba).

No proporcional, o 2º e 3º de maior elevação são na Zona Oeste, esses bem longe da parte austral da cidade. Mas a seguir mais Zona Sul.

Volta a parte nova na baixada do rio. Alias aqui e na próxima tomada exatamente o Barigüi, note que as construções as suas margens seguem incessantes.

………

E, disse tudo isso pra chegar aqui, a década de 10 ainda está longe de findar.

Mas é certo que a Caximba, que quadruplicará sua população nesses 10 anos, irá liderar no crescimento proporcional entre os 75 bairros (no absoluto vamos aguardar pra ver).

A esquerda na imagem Araucária. A direita Vila Sapolândia, Curitiba, uma vila anterior a 2010, mas que se uniu a parte nova no ‘Complexo da Caximba’.

Crescimento esse da Caximba que é conturbado, não restam dúvidas.

No ‘Complexo da Caximba’ a infra-estrutura é precaríssima, como notam e é notório pra quem conhece.

Bom, alguns criam que Curitiba estaria se ‘gentrificando’.

Mas 4 cenas da favela: sua alta densidade, os ‘gatos’, ruas de terra que enlameiam.

Ou seja, se aburguesando demasiadamente, empurrando a classe trabalhadora pra região metropolitana.

Nada pode ser mais distante da realidade, repito de novo.

Digo, sim, boa parte de Curitiba vem mesmo se aburguesando.

Mas na Caximba ainda há espaço pra pessoas das classes ‘D’ e ‘E’.

Aqueles que não podem pagar uma prestação habitacional e nem mesmo um aluguel barato.

Resumindo, aqueles que apenas sobrevivem primeiro, e depois, só depois de ter comida no prato, é que sonham em consumir qualquer supérfluo.

No Extremo Sul da cidade ainda há um local, apesar que bastante precário, que pode abrigar esses Homens e Mulheres que a sorte deserdou.

Curitiba cresce para o Sul. E nem sempre de forma ordeira, não custa enfatizar de novo.

Definitivamente, como dizem os ‘manos de rua’: “Zona Sul – aqui Curitiba é diferente”.

Vendo essas imagens, quem poderia duvidar???

Que Deus Pai e Mãe Ilumine a todos.

“Ele/Ela proverá” 

“Amiga, vamos a toalete?”

Amplie pra ler o diálogo delas.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Levantado pra rede em 29 de maio de 2017, com 2 desenhos inéditos e outro publicado (em emeio) em 26 de dezembro de 2013.

Todas as postagens de Marília são dedicadas as Mulheres.

Começamos pelo inédito, produzido em maio de 2017.

Hoje vamos retratar mais uma das características tipicamente femininas: a de ir ao banheiro em duplas.

Marília (de blusa preta e com o cabelo preso em coque) saiu com vários amigos, foram tomar umas cervejas.

No bar um rapaz gostou dela, e ficava olhando-a, esperando uma oportunidade pra conversarem. Marília percebeu, e gostou dele também. Mas como ela é muito tímida, não sabia o que fazer.

“Aaaaaiiii, amigaaaaahhh … Tou um pimentão de tanta vergonha!!!”, diz Marília.

Já foi bem pior, na adolescência ela era totalmente sem jeito pra se arrumar, quando recebeu uma ajuda de uma colega.

Agora pelo menos se produzir ela sabe. Mas nesse momento ficou com vergonha, não tinha ideia como agir.

E como ela não dava uma abertura, o rapaz também não iria chegar a mesa falar com ela no meio de uma roda.

Pois se for pra levar um fora tem que ser só a dois, e não em público obviamente.  Aí ficava esse impasse, ele olhando pra ela, Marília corava e tentava desviar o olhar. Resumindo, ambos viram que a atração era mútua mas a situação não saía do lugar.

Esse é o desenho de dezembro de 2013: Marília e sua amiga se arrumando pra sair. “Invejadas pelas Mulheres, Desejadas pelos Homens, lá vamos nós”, elas se divertem. Meio pretensioso, não? Bem, ‘garotas serão garotas’, como dizem.

A melhor amiga dela, percebendo o que estava rolando, chamou Marília pra irem juntas “retocar a maquiagem”. Propositadamente ela escolheu que ambas passassem perto do balcão, pra medirem a reação dele.

Assim, enquanto realçavam feminilidade frente ao espelho foi a hora da amiga confrontar Marília. “Mari, por acaso você não tá vendo que aquele gatinho tá vidrado em ti?”

Marília, como dito uma moça tímida, ficou rubra tal qual um tomate, e sentiu um calor por todo corpo como se estivesse num forno: “Ai amiga, eu tou achando que sim, mas … e se for só impressão???”

“Larga de ser boba, guria. Não notou que ele quase caiu da cadeira quando você passou perto dele???”, respondeu sua amiga, que a seguir arrematou:

“Faz o seguinte: eu volto pra mesa, e você vai pro balcão e pede uma cerveja. Joga um charme, solta teus cabelos, garanto que antes de você lembrar o número do teu RG ele já puxa a cadeira e senta do teu lado. Querida, nessa dúvida é que não dá pra ficar, teu coraçãozinho tá quase saindo pela boca de tanta emoção.

Na pior das hipóteses, se ele não for falar contigo você leva a cerveja pra mesa e pelo menos desencana, curte o resto da noite sem ter um enfarte. Mas eu garanto pra ti que ele vai “.

E assim realmente se deu. A intuição feminina delas não furou. Logo Marília teve que retocar de novo o batom, porque esse borrou todo, se você entende o que eu digo…

cunhadinhas

Acima outro retrato inédito, portanto também de maio de 17.  Desenhei uma vez Marília com sua prima, na postagem que por isso se chamou “Priminhas”. Dessa vez vemos ela com outra Mulher de sua família. A esposa de seu irmão, portanto a sua cunhada.

Agora Marília já é casada. Mas seguimos na mesma frequência, ela sendo aconselhada e ajudada por uma outra Mulher mais experiente no traquejo com o Mundo Masculino.

A cunhada (de cabelo bi-color [rosa e violeta] e unhas idem, negras e brancas) e o sobrinho. Usando um maiô do Mickey que ela adora. (Já Marília tem uma blusa da Minnie).

Pois Marília está passando por uma crise em seu casamento. Pra espairecer um pouco e decidir o que fazer, ela pediu uma licença em seu trabalho e foi visitar seu irmão.

Marília mora no Sul da Alemanha, quase nos Alpes que fazem fronteira com a Áustria. É inverno na Europa, ela pegou o trem sob neve.

O irmão dela mora com a esposa e 3 filhos em Rostock, no Norte do mesmo país, onde o frio não é tão rigoroso.

Na verdade faz um veranico no Báltico, assim se o mar não esquentou a ponto de se banhar nele, ao menos dá pra molhar os pezinhos.

Ao contrário de Marília, seu irmão e a esposa estão vivendo muito bem. Eles se gostam, se respeitam, estão em harmonia.

A esposa é dona-de-casa. Como o marido está bem-empregado, ela decidiu ficar no lar curtindo e cuidando das 3 crianças que ainda são pequenas.

Marília admira a felicidade de sua cunhada, pois ela não está se sentindo numa fase tão colorida assim.

Assim nos 10 dias que passou lá, essa foi a rotina de Marília: de manhã as Mulheres ficavam em casa, faziam o almoço, essas coisas.

De tarde elas andavam pela cidade, várias vezes foram a praia. Aproveitaram o tempo juntas e falaram sobre “as coisas de Mulher”. Marília casara jovem, com o primeiro namorado, e por isso não tinha muita experiência com os Homens.

Rolou uma empatia feminina muito forte, sua cunhada era mais descolada e vivida. Não devemos julgar pela sua aparência escandalosa. Os cabelos são de menina, mas a Alma é de Mulher. E ela se compadeceu do sofrimento da outra. Gostou de Marília como se ela quem fosse sua irmã, e não irmã do marido.

Assim a cunhada falou sobre sua vida, coisas que nunca havia contado antes. Que hoje ela era feliz com o marido, mas que também já tinha tido crises no relacionamento.

Além disso, que antes dele já tinha tido namorados que ela insistia e coisa não andava, aí foi melhor romper. Saber de tudo isso animou Marília, ela viu que era possível ser feliz depois de um momento infeliz numa relação, quer ficassem juntos, quer não.

Panorâmica da orla de Rostock, Alemanha. Ao fundo a praia onde as cunhadas passaram bons momentos com as crianças (imagem via ‘Google’ Mapas).

Ao anoitecer o marido, irmão de Marília, chegava e todos jantavam juntos, no fim-de-semana ele a levou pra conhecer cidades próximas que ela nunca tinha ido.

Sua cunhada está de bem com a vida, bem-casada e bem-amada. Como ela ainda é jovem e não trabalha fora, pôde se dar ao luxo de pintar seu cabelo de rosa, com as pontas em violeta.

Marília está na vibração oposta, se sentindo mal-casada e mal-amada. Daí ela até aparou os cabelos, mal cobrem seu pescoço, pra simbolizar a poda de uma árvore que depois irá renascer.

………..

A Beira-Rio’ de Rostock, tão charmosa quanto a Beira-Mar. Foto puxada da rede, eu nunca fui a Europa.

Foram bons esses dias na praia. Ela descansou e refletiu bastante. Marília gostaria de ter um casamento como o de seu irmão:

Em que Homem e Mulher formam um conjunto Harmonioso. Mas ela sente que as coisas estão indo no rumo oposto.

Assim Marília resolveu que ao voltar pra casa vai conversar seriamente com seu marido. Caso ele esteja disposto ambos farão um esforço mútuo pra compreenderem um ao outro, e se entenderem,

Se der certo, prosseguirão juntos. Mas  do contrário cada um tomará seu próprio rumo.

Uma hora as lágrimas dela secam e ela, como a cobra que troca de pele, estará pronta pra recomeçar renovada. Uma coisa Marília já resolveu:

Em outra escala, as meninas se aprontando em casa pra irem ‘aprontar’ na rua.

Quando ela voltar a visitar seu irmão, cunhada e sobrinhos no verão (e aí puder se banhar no Oceano, como ela adora) ela não estará mais num casamento infeliz. Ou a relação estará sendo boa pra ambos, ou ela será de novo uma Mulher solteira. Vamos ver no que vai dar.

…….

Beijos em teu Coração de Mulher.

“Deus proverá”

África do Sul, o Mundo num só País

O ‘apartheid’ acabou! Nos tempos tenebrosos do regime racista eram proibidos os casais inter-raciais. Na época essas garotas brancas seriam condenadas a muitos anos de cadeia. Os rapazes negros, embora a lei previsse a mesma pena, na verdade seriam linchados no mesmo instante, naquele exato local. Hoje elas e eles são livres pra viverem seu Amor.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 25 de maio de 2017

Mensagem-Portal sobre a África do Sul (ao fim do texto ancoro as ligações pras demais postagens da série).

Vamos falar sobre a luta secular pra pôr fim ao regime de discriminação racial.

No Novo Milênio, sob democracia, novos desafios:

Reduzir a violência urbana, que está na estratosfera, e também a desigualdade social, igualmente gigante.

1989: ‘apartheid’ vigente, praia em Durbã só pra brancos. Placa em inglês, africâner e zulu. Na língua nativa dos negros, ‘Durbã’ se chama ‘Ethekwini‘, breve falo mais em outra mensagem. Essa e outras imagens vieram da Wikipédia, créditos atribuídos como pedido.

Imensa maioria das fotos de minha autoria. As que vierem de outras fontes identifico na legenda.

PARTE 1: ‘APARTHEID’, INÍCIO E FINAL

A ida a África do Sul foi minha primeira viagem inter-continental. Eu nunca fui a Europa ou a Ásia. Digo, indo a África do Sul de certa forma eu estive também na Inglaterra, Índia e Califórnia/EUA.

Pelo seguinte: a República da África do Sul (abreviada R.A.S.) tem enorme população branca e indiana.

Os descendentes de indianos estão reunidos basicamente em Durbã.

Dos quase 3,5 milhões de habitantes dessa região metropolitana, meio milhão têm ascendência na Índia (o que inclui os atuais Paquistão e Bangladesh, e esses 2 são majoritariamente muçulmanos, já falo mais disso)

O que torna Durbã ‘a maior cidade indiana do mundo fora da Índia‘.

A influência dos europeus é ainda maior. Os brancos são 10% da população sul-africana. Mas eles estão concentrados nas classes média-alta e elite.

Por um século ademais eles tiveram hegemonia absoluta na África do Sul impondo o ‘apartheid’ (‘manter separado’ em africâner, ‘heid’ tem raiz parecida com a palavra inglesa ‘hold’).

Orla de Durbã, hoje. Negros e brancos caminham juntos e brincam como irmãos. Claro que nem tudo é perfeito, mas comparado com o que era… Outro detalhe: veja como os brancos na África do Sul são brancos mesmo, loiros de olhos claros.

O regime que oprimiu as outras raças oficialmente começou em 1948, mas na prática desde que os colonizadores europeus pisaram lá em massa, em fins do século 19 – e início dos massacres data do século 17 .

Mais abaixo falamos melhor disso. Aqui, dando essa primeira pincelada, obviamente não é difícil entender que os brancos moldaram a África do Sul a sua imagem e semelhança, em todos as dimensões.

Tem mais: os europeus que foram pra lá são norte-europeus (‘normandos’), bem diferentes física e culturalmente dos sul-europeus (‘latinos’) que povoaram a América Latina.

Nelson Mandela, Avatar Sul-Africano, ‘Pai da Pátria’. Cultuado como santo por lá, esse quadro está na casa que fiquei na Cid. do Cabo.

Os brancos da sul-africanos têm a pele bem alva, quase sem mistura de sangue de outras raças. A maioria das pessoas têm olhos claros, verdes ou azuis.

Urbanisticamente falando, a África do Sul é totalmente parte da Anglosfera: pouca gente mora em prédios altos. Assim as cidades têm pouquíssimos edifícios, geralmente se resumem aos que são comerciais no Centro.

E mais uma leva de prédios residenciais na beira-mar (nas cidades que têm mar, óbvio. As que não têm aí menos prédios ainda).

Os ricos e a burguesia moram em subúrbios exatamente iguais aos dos EUA, só casas em ruas sem-saída, sem comércio na vizinhança.

Tem mais. Na Cidade do Cabo, quem tem dinheiro mora nos morros, os pobres no plano. Como na Califórnia-EUA.

Resumindo: se você esteve nos EUA, você sabe como são as cidades da África do Sul.

1-Antigas províncias (estados) da África do Sul do ‘apartheid’: Cabo (que ocupava mais da metade do país); Estado Livre Laranja; Trasnvaal (esses 2 eram ex-repúblicas africâneres que foram incorporadas ao Império Britânico na Guerra Anglo-Boer); e Natal; 2-As mesmas províncias com os ‘bantustões’; 3-Re-organização pós-‘apartheid’: Estado Livre Laranja vira apenas ‘Estado Livre’, cai a referência a Holanda; Natal vira Kwa-Zulu Natal (nesses dois só muda o nome, as fronteiras não se alteram nada ou quase nada); o Cabo é dividido em três, agora são Cabo Oriental, Cabo Ocidental e Cabo do Norte; Transvaal é dividido em quatro: Gauteng ao redor de Joanesburgo e Pretória, a menor mas a mais povoada província sul-africana; Noroeste; e Transvaal do Norte e Transvaal do Leste; 4-Como é hoje: Transvaal do Norte vira Limpopo, a capital também tem nome alterado de Pieterburg pra Polokwane; Transvaal do Leste se torna Mpumalanga; e a capital do Noroeste tem o nome mudado de Mmabatho pra Mafikeng. Mmabatho e Mafikeng são dois municípios que pertencem a mesma cidade, apenas antes a sede do governo era num e agora é no outro.

Óbvio, na RAS há muitas e muitas favelas miseráveis, nos EUA não. Mas de resto é igual.

Durbã é de certa forma exceção. Digo, ali há também os subúrbios a moda ianque, tanto planos quanto em ladeiras.

Mas em Durbã há favelas no morro. Por isso a ‘América na África’ – breve texto específico.

E existem também muitos prédios altos tanto a beira-mar quanto num morro de classe média-alta bem perto do Centro.

E obviamente a maioria negra e ‘de cor’, livre do ‘apartheid’ há mais de 2 décadas, vem se fazendo ouvir, inclusive economicamente.

Por quase oito décadas os indianos foram tão pobres e explorados quanto os negros nativos.

Desde que foram levados da Índia pra serem semi-escravos do Império Britânico, até o terceiro quarto do século 20.

Mas há 4 décadas os indianos vêm ascendendo muito na escala social.

Eles também sofreram ‘apartheid’. Só que quando o regime racista viu que ia cair, flexibilizou a opressão contra os indianos ainda nos anos 80.

Jornal no idioma zulu. Comprei num mercadinho dum bairro popular de Durbã. O caixa era negro. Perguntei “que língua é essa?” Ele não sabia. Veja bem, um negro, e não é que ele não sabia traduzir. Não sabia sequer que idioma era. Quem me informou foi o anfitrião do apartamento que fiquei, que é indiano e muçulmano. Eis a torre de babel que é a África do Sul…

Assim uma massa dos descendentes asiáticos pôde ‘pular o muro’ da discriminação e migrar pros subúrbios que oferecem vida mais confortável. De forma que em Durbã especialmente há uma alta e média-burguesia indiana, há subúrbios de elevado estrato em que eles predominam.

Com a queda do ‘apartheid’ em 1994, vários negros seguiram o mesmo caminho.

Hoje há uma pequena elite e uma numerosa classe média-alta formada por africanos nativos.

É comum subúrbios de ricos a moda ianque habitados por negros, e você os vê aos montes dirigindo os carrões mais caros, BMW’s, Mercedes, Audis, a lista toda.

………..

Ademais, há muitos brancos pobres, de classe trabalhadora. Nas favelas e piores bairros mais afastados a população é 100% de negros. Na elite são 90% brancos.

Ou seja, os extremos são segregados. A classe ‘E’ só tem negros, a classe ‘A’ ainda é um privilégio quase que exclusivo dos brancos.

Mas toda classe média, as classes ‘B’, ‘C’ e ‘D’, tem gente de todas as raças.

Museu do ‘Apartheid‘, Joanesburgo: filma só o caveirão do regime racista, que a polícia usava pra entrar nas favelas negras quando havia distúrbios. Faz parecer pequenos seus similares do Chile e Colômbia.