“O Número da Besta”: Buenos Aires, Argentina

Obelisco: na frente tudo é belo, turistas tiram fotos. É o ‘Lado A’ de B. Aires.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 18 de março de 2018

Ouça ouvindo “Número da Besta”, do ‘Iron Maiden’. Ao fim da matéria explico porque fiz essa relação.

Nossa série sobre a Argentina chega a capital.

Vamos falar um pouco do que observei na cidade.

Com isso recapitulando algumas coisas já ditas em outras mensagens da série. Adicionando muitas informações novas, é claro.

As fotos são na maior parte inéditas, quase todas de minha autoria.

As que forem baixada da internet eu identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

…..

Mas veja por trás do Obelisco, sem-tetos dormem em pleno dia. Esse é o ‘Lado B’, o que ninguém quer ver.

Hoje, 18 de março de 2018, faz exatamente um ano que eu fiz esse desenho ao lado:

‘Marília e Maurílio’ dançando tango (em comemoração ao aniversário que subo essa matéria).

E fiz lá, direto do Centro de Buenos Aires, ou melhor, do ‘Micro-Centro’.

Estava vendo o Obelisco de minha janela enquanto traçava as linhas desse casal em preto-&-branco.

Esse mesmo Obelisco que é o cartão-postal-mor, a imagem-arquétipo de Buenos Aires.

Boca x Ríver – ou seria ‘Voka x Ríber’?: Buenos Aires É Futebol (r), são 24 Libertadores ganhas por essa cidade (incluindo região metropolitana e subúrbios próximos). O Brasil inteiro tem 18, contando todas as cidades. Precisa dizer mais?

Todos conhecem essa imagem, mesmo quem nunca pisou na Argentina.

O que eu não conhecia antes de ir pessoalmente é essa escultura feita com vegetação.

Que na frente dele forma em letras gigantes as iniciais da cidade, B.A. .

E mais a bandeira da ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’. Esse é o novo nome oficial.

Antigamente a ‘Capital Federal’, o povo ainda diz assim. E por que ‘autônoma’?

Belo fim-de-tarde em Vicente Lopes, rico município da Zona Norte colado a capital.

Porque não pertence a nenhum estado (lá os estados se chamam ‘províncias’, o sabes).

Nomenclatura a parte, o Obelisco, a frente dele, é obviamente o ponto mais procurado do país pros turistas.

Que tiram fotos com ele como cenário. Quando eu passei lá ocorria exatamente isso:

O rapaz posa sob a bandeira enquanto o grupo que o acompanha faz o registro, confira a primeira imagem da matéria.

“Bs. Aires, Cidade da Erva”: eles tomam chimarrão literalmente em toda parte, é oni-presente. Em família, numa roda só de gurias….

Mas veja o outro lado – literalmente. No calçadão sem-tetos dormem em pleno dia.

A Argentina atravessa severa crise social, política, econômica, todas as dimensões. E essa imagem sintetiza isso.

Agora, justiça seja feita, nesse ponto (pessoas morando nas ruas) o Brasil está pior.

Bem pertinho, o bairro de Nunhes (do ‘Monumental de Nuñez’), também Z/N, mas dentro da Capital Federal.

Muito pior, sem comparação possível.

Na Argentina existem sem-tetos mas numa proporção ‘normal’.

Digamos assim né, se é que isso pode ser consideradonormal.

A título de comparação, existem mendigos também no Chile, os vi e fotografei.

Mas muito poucos, pelo menos na capital é bem raro.

Do outro lado da cidade: favela da Vila 21, Zona Sul, município de B. Aires. Lá, como aqui, vão cada vez subindo mais lajes pra morar mais gente no mesmo espaço.

Na África do Sul existem mais moradores de rua (incluso vários brancos, ainda que a maioria negros) que na Argentina, mas bem menos que no Brasil.

Não sei se há algum país que esteja pior que o nosso nesse quesito, infelizmente.

Aqui a situação está catastrófica, parece que passamos por uma hecatombe nuclear.

Em Curitiba o problema está alarmante, em todos os bairros agora há aglomerações de pessoas que vivem nas ruas.

Metrô de Buenos Aires, de 1913: 1° da América Latina, 1° do Hemisfério Sul, 1° entre todos países de língua espanhola.

E no Centro então a coisa está tenebrosa, mesmo de dia e a noite é melhor não comentar.

Agora, fui a São Paulo no fim de janeiro de 18, e me assustei. Realmente eu me assustei com o que vi:

A Zona Central de Sampa está…me faltam palavras pra definir. Está macabra.

Em B. Aires nos ônibus o itinerário está em letras garrafais (em Lima-Peru também!).

Confira matéria completa com muitas fotos. Hoje nosso tema é a Argentina.

Só falei pra podermos comparar:

A crise no vizinho país está brava, muitas coisas estão até mais complicadas que no Brasil.

Mas no ponto dos sem-tetos aqui é infinitamente pior.

Casas típicas da Argentina, as portas saem direto na rua. No Chile e Nordeste Brasileiro é assim também, mas no Brasil mais pra periferia. Nos outros países tanto periferia quanto classe-média (o caso aqui).

Isso exposto, bora de volta pra lá. Claro que gente na Argentina há morando nas ruas. Fotografei alguns atrás do Obelisco.

E na mesma região, do outro lado da 9 de Julho (onde ficamos hospedados) havia uma família inteira.

Eles improvisaram uma ‘casa’ de papelão em plena calçada, tinha espaço até pros cachorros – e isso no Micro-Centro!

Outro dia andava eu tirando fotos entre o Retiro e a Recoleta.

O Retiro é bem o Centrão da cidade mesmo, onde estão os terminais de transporte, de todos os modais.

Mas a Recoleta é um bairro de elite, colado ao Centro, coisa que no Brasil não existe mais há décadas.

Na Recoleta estão alguns dos prédios mais caros da Argentina.

Casa Rosada, sede da presidência.

(Ao lado de Porto Madeiro e Palermo, que são vizinhos a ela, então é tudo a mesma região.)

Mas embaixo do viaduto havia um cidadão argentino que não era tão afortunado, pra dizer o mínimo.

Casa Rosada, ao fundo Porto Madeiro, como notam novo e riquíssimo bairro da Zona Central. Na próximas 7 imagens vamos então apreciar Porto Madeiro e seus arranha-céus.

Esse não tinha um apê de ‘um por andar’ que vale alguns milhões de pesos. Longe disso. 

Se abrigava sob as alças de um viaduto (fotografei sua ‘casa’, busque pela legenda).

Ele também tinha cachorro, esse bicho é mesmo o ‘melhor amigo do Homem e da Mulher’, nunca abandonam seus donos não importam em que condições.

Me pediu dinheiro, dei-lhe 2 pesos, equivalente a somente R$ 0,30, e disse “só tenho isso, irmão”. 

Ele exultou de felicidade, respondeu “pelo menos já posso comprar um cigarro“.

Pra que não tem nada o pouco é muito. Dureza, né?

São os Lados ‘A’ e ‘B’ da Argentina literalmente lado-a-lado..

Porto Madeiro era parte do porto da cidade, daí o nome. Tiraram os navios do canal, e colocaram no lugar prédios, restaurantes e lojas de luxo. Os antigos guindastes ficaram pra dar um charme, né?

…………

Buenos Aires não tem Zona Leste, porque essa é o mar.

Ou melhor dizendo, o Delta do Rio da Prata, que é tão largo que parece mar.

Os ricos e a alta burguesia habitam majoritariamente as Zonas Central e Norte da capital e sua região metropolitana.

Um guindaste visto mais de perto. Note o empréstimo de bicicletas (já fotografei o mesmo em SP capital, Santos-SP, Chile e México.

Enquanto as favelas e demais ‘partes quentes da cidade’, se é que me entendes, se concentram nas Zonas Sul e Oeste.

‘CABA’ X ‘AMBA’, AS DUAS FACES DA MESMA METRÓPOLE: 

UMA É A ‘EUROPA NA AMÉRICA’, E DEPOIS DO VIADUTO/PONTE ‘AMÉRICA DE CORPO & ALMA’.

A maioria das pessoas no Brasil não conhece as siglas ‘Caba’ e ‘Amba’. Começamos pela primeira.

‘CABA’, A “EUROPA NA AMÉRICA”: NA “CAPITAL FEDERAL” COM CERTEZA –

Buenos Aires tem a fama de ser uma cidade europeizada, como todos sabem.

É verdade, o mito corresponde ao fato? Sim e não. 

Não carregam mais navio ali. Agora é a morada da alta burguesia e elite.

Depende do que alguém entende como “Buenos Aires”.

Politicamente, a Região Central da metrópole é a Capital Federal.

A ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’ no termo mais moderno (cujas iniciais formam a sigla ‘CABA’).

As ruas da parte nova (e residencial) de Porto Madeiro têm nomes de Mulheres.

Ali, fato. Sim, Buenos Aires é europeia. Totalmente.

Muito mais que Curitiba, que é a capital mais branca do Brasil.

Muito mais. A classe média-alta curitibana é formada majoritariamente por pessoas que aqui no Brasil consideramos ‘brancos’, verdade.

Mas nunca te esqueças que os ‘brancos’ brasileiros, em sua maioria, não seriam considerados brancos na Europa e EUA.

Com o ‘Parque das Mulheres Argentinas‘ fechamos essa sequência de Porto Madeiro.

Mesmo os de melhor padrão social, porque entre os ‘brancos’ brasileiros boa parte tem mistura de raças.

Mesmo com pele mais clara, a imensa maioria tem um pouco de sangue das raças escuras.

No Hemisfério Norte, pra pessoa ser ‘branca’ não pode ter mistura de raças não-europeias.

Prédio no Centro (perto de Porto Madeiro), adornado por Netuno, ‘Rei dos Mares’ – versão masculina e nórdica do papel que Iemanjá cumpre na mitologia brasileira.

No Brasil não somos tão rigorosos. Pelo exemplo é mais fácil entender.  

Busque na internet a imagem do general e ex-secretário de estado ianque Colin Powell.

Nos EUA, Powell é negro, ele mesmo se define assim.

No Brasil, caso ele fosse da burguesia ou elite (como é), nós o chamaríamos de branco.

Se você entende isso, a classe média-alta curitibana é formada por pessoas que na sua imensa maioria tem a cutis clara.

Favela em frente ao estádio do São Lourenço (note o poste pintado com as cores do clube), Zona Oeste.

Já os olhos e cabelos variam amplamente, por todo espectro, mas boa parte deles são mestiços, ‘brancos’ no Brasil, nos EUA e Europa não.

Então. A burguesia de Buenos Aires, é de imensa maioria de brancos.

Falo aqui somente da Capital Federal – sem incluir a região metropolitana portanto.

Nesse critério seus habitantes são brancos mesmo.

Seus cabelos são loiros ou ruivos, e os olhos também são claros.

“Passeador de cachorro“, profissão típica de Buenos Aires.

Eu estava num restaurante do Centro de Buenos Aires.

Na mesa ao lado havia um grupo grande, de perto de 10 pessoas.

Quase todos eram brancos, mas brancos pelo padrão europeu.

A pele deles parecia um leite de tão despigmentada. Olhos e cabelos igualmente claros, ou ruivos.

Aqui em Curitiba não é assim, repito.

Próximas 2: um belo parque bem no Centro.

Na África do Sul ocorre o mesmo que na Argentina, até mais intenso:

Os brancos sul-africanos são claríssimos, parecem fantasmas de tão alvos que são.

Na África do Sul a miscigenação é próxima de zero.

até porque até uma geração atrás era proibido relações sexuais entre raças diferentes.

Agora é permitido, vimos (e fotografei) vários casais inter-raciais nas orlas de Durbã e Cidade do Cabo.

Mas as coisas mudam devagar, óbvio.

Ainda ali perto, uma avenida onde mora a elite e alta-burguesia em pleno Centrão (no Brasil você não vê isso).

Eles são ‘vários’ se você considerar que até a geração dos pais desses jovens não havia nenhum.

Entretanto 99% dos casais sul-africanos ainda são intra-raciais, ou seja, de pessoas de mesma raça.

Portanto os brancos da África do Sul são iguais aos brancos da Holanda, Inglaterra, Alemanha e França, de onde eles vieram.

Principalmente os dois primeiros, mas as duas últimas nações também contribuíram.

Na Argentina nunca houve apartheid’, então a miscigenação é maior que na África do Sul.  Bem maior.

Bem próximo está a Faculdade de Direito.

Porém muito menor que no Brasil – entre a burguesia, na periferia é outra história, já chego lá.

Agora, na burguesia é assim.

Entre os habitantes endinheirados da Capital Federal argentina, imensa maioria de brancos.

Na mesma região, um sem-teto se abriga sob o viaduto. É o Lado ‘A’ e ‘B’ lado-a-lado.

E, repetindo, brancos caucasianos mesmo, pessoas normandas.

São alvos iguais aos europeus e diferentes de nós brasileiros, enfatizo mas uma vez porque em nosso país o conceito é mais ‘flexível’.

Mas cruze o Riachuelo ou a Auto-Pista General Paz e verá como a coisa muda.

Próximas 6: os vizinhos bairros de Palermo e Recoleta, a parte mais rica da cidade entre o Centro e o começo da Z/Norte.

JÁ A AMBA É A ‘AMÉRICA NA EUROPA SUL-AMERICANA’: NO SUBÚRBIO O POVÃO É MESTIÇO –

A burguesia argentina é majoritariamente euro-descendente.

E sem mistura de sangue, uma verdadeira ‘Europa na América’.

Mas a periferia é completamente diferente.

Entre o povão é onde a Argentina se reconcilia com a América.

Região bastante arborizada.

Onde a Argentina é América de Corpo-&-Alma.

O que quis dizer por ‘cruze o Riachuelo ou a Auto-Pista’ é “vá pra região metropolitana”.

Se ‘Caba’ é a Capital Federal, ‘Amba’ é a sigla de ‘Área Metropolitana de Buenos Aires.

Mas nem é preciso ir pra outro município (e estado da federação).

Se você for ao bairros proletários mais afastados, mais ainda dentro da Capital Federal (ou nas favelas, mesmo no Centro), aí os brancos puros já são ínfima minoria.  

A mestiçagem agora impera. Isso já na periferia de Buenos Aires. Fiz um desenho que resume a questão:

Retratei duas amigas argentinas, uma loira e uma índia, se uma imagem vale por mil palavras.

E se pegar estrada mais ainda. O interior é bem mais escuro que a capital.

Muito mais, sem comparação possível.

É gritante a diferença de altura entre os edifícios mais antigos

Breve levanto por ar a matéria sobre Córdoba, aí os que ainda não tiveram a chance de ir até lá vão comprovar. 

No interior a Argentina é como todo o resto da América Latina (Brasil, Colômbia, Paraguai, Chile, México, Bolívia, etc): com mestiçagem mesmo na classe média.

Agora, na capital é como falei, muito parecido com Europa/EUA, a raça caucasiana (sem mistura) é amplamente majoritária entre a classe dirigente. Isso já disse.

e os mais modernos, esses muitos passam dos 40 andares. Em Santos-SP constatei o mesmo.

Mas a periferia de Buenos Aires é miscigenada. Totalmente.

Nos subúrbios da metrópole, nas quebradas, nas favelas tanto mais centrais quanto afastadas, aí é tudo ‘junto e misturado’.

No dia que cheguei, fui a um jogo de futebol, São Lourenço x Atlético-PR.

(Nota: eu sou de Curitiba mas não sou atleticano.

Não torço pra clube nenhum exceto o Nacional da Colômbia, como já disse muitas vezes.

Fui nessa partida porque foi a que foi possível, a que ocorreu quando estava lá.

“Jeitinho Argentino”??? A placa e a faixa deixam claro que não pode estacionar ali, porque é rota de ônibus. Poucos se importam….

Minha primeira ideia era assistir uma peleja local do campeonato argentino, mas não deu certo.

Então fui ver o CAP, mas sem ser torcedor dessa agremiação.

Portanto não inicie aqui uma discussão clubística porque não é o espaço pra isso.

Portal no Zoológico de Buenos Aires, no rico bairro de Palermo, começo da Z/Norte perto do Centro.

Também já assisti um jogo do Coxa longe de Curitiba.

Lá em Belo Horizonte-MG no caso, então estou 1×1, neutro na disputa dos rivais da capital).

Já volto ao tema da composição racial, entenderão onde quero chegar.

Mais um pequeno adendo, já que falamos do esporte mais popular do planeta:

Buenos Aires é futebol. São nada menos que 24 Libertadores concentrada numa única cidade.

(Nessa conta incluindo região metropolitana e ‘La Plata’, que é fora da Grande Buenos Aires.

Mas ainda assim um subúrbio próximo, como São Paulo e Jundiaí.)

Ponte sobre o Riachuelo (visto  esq.). Saí do município de Buenos Aires, que é a Capital Federal (o D.F. deles) e entrei em Avellaneda, no estado (ou ‘província’ no jargão local) de Buenos Aires.

Então ir a Buenos Aires e não ir ao estádio é como ir a Roma-Itália e não ver o papa.

Alias o atual papa que é argentino como sabem é torcedor declarado desse São Lourenço que vi ‘in’ loco’.

Ainda não fui a Roma, não fui a Europa nessa encarnação, exceto na ficção. Mas fui a Buenos Aires, e fui ao estádio.

Enfim, já fiz matéria completa sobre o futebol argentino, onde conto com detalhes incluso com muitas fotos.

Aqui nosso tema é a composição racial da periferia de Buenos Aires.

Então eu estava no lugar certo pra analisar isso, o São Lourenço é um time suburbano, popular.

O time da burguesia é o River Plate, o Boca o do povão. Claro que é uma generalização, e toda generalização é imprecisa.

“Buenos Aires, Cidade da Pizza”. No Centrão são centenas de pizzarias, uma ao lado da outra, de todos os tamanhos e pra todos os orçamentos. Eles adoram esse prato tanto quanto no Brasil, mas a receita é diferente. No Brasil é mais apreciada a massa mais fina, e misturar todos os ingredientes possíveis. No cardápio há dezenas de opções (em alguns casos centenas!), e cada um deles com muitos ingredientes, cada um cria como quer, você pede 2, 3 ou 4 sabores na mesma pizza. Na Argentina é completamente diferente, lá eles são tradicionalistas, as recitas de pizza basicamente se mantém as mesmas que vieram da Itália. Funciona assim: a massa é grossa e não há misturas. São 2 ingredientes, 3 no máximo. É delicioso, pra quem gosta de queijo é divino. Veja a foto, há um mar de queijo derretido transbordando, como um rio transborda quando chove muito. Mas é queijo, cebola e só, umas azeitonas no meio no máximo. Não é como aqui, que é queijo, cebola, azeitona por tudo, e mais presunto, ovo, tomate, molho de tomate, frango, catupiry, quatro queijos, milho, atum, tudo isso em diversas combinações mas sempre pelo menos 5 ou 6 deles juntos. Não. Em Buenos Aires é queijo (um queijo, não quatro) e mais alguma coisa, uma coisa só. Queijo e presunto. Se entra o tomate, sai o presunto. Essa é queijo e cebola. Tá bom pra ti? Pra mim está ó-ti-mo!!!, sinto saudades.

Evidente que há muitos burgueses que torcem pro Boca, e o River tem muitos fãs na periferia. Evidente que sim.

Anda assim, nas favelas e loteamentos de quebrada no subúrbio o Boca tem 2/3 da torcida ou mais, e na burguesia é o River quem domina inconteste.

São esses dois quem tem torcida gigante a nível nacional. Os demais são muito fortes no entorno de seus estádios.

Mas conforme vai se afastando vai se diluindo.

O São Lourenço é um desses casos, típico time suburbano. Um dos grandes do país? Sim. Mas ainda suburbano.

Muito forte ali na divisa da Zona Oeste com a Sul onde está sediado, e bem menos em outras partes da cidade.

E bota ‘subúrbio’ nisso. Bem em frente ao estádio há uma favela bem chamativa.

Uma das maiores e mais perigosas de Buenos Aires (veja as fotos, busque pela legenda).

Todos me alertaram que o local é violento, do taxista ao rapaz da vendinha que fui tentar carregar o cartão do ônibus, aos outros torcedores a quem pedi informação:

“Não ande pelas ruas. Não ande. O bairro aqui é sinistro, vão te roubar com certeza.”

Não consegui mesmo recarregar o cartão, tratei de entrar logo no estádio, aceitei o conselho, fiquei bem quietinho lá dentro, em segurança.

Vicente Lopes, Z/N.

Enfim, falei tudo isso pra chegar aqui: fiquei acompanhando o “aquecimento” da banda da torcida organizada (‘barra-brava’) do S.L..

Foi regado a muito churrasco popular (um pão com bife extremamente gorduroso) e maconha.

É um time do povo, a maioria dos torcedores é do bairro e bairros vizinhos. Uma região pobre, esquecida e perigosa da cidade, como já dito.

Caminhão detonado por pichadores no Centro. Fotografei o mesmo no México, República Dominicana e Chile.

Portanto eu estava no ponto ideal pra traçar um raio-x do povão, da classe operária, da periferia da urbe.

E o que eu via me dava a impressão que estava na divisa da Europa com Ásia:

Turquia, Geórgia, Romênia, Bulgária, Armênia, Azerbaijão, aqueles lados.

Os garotos da torcida oscilavam entre o alvíssimo ao pardo.

A macabra Esma, onde foi o ‘Dops argentino’ (r). Dali saíram os famosos ‘Voos da Morte’. A ditadura lá matou 30 mil pessoas, proporcional a população foi 120 vezes pior que no Brasil. A Argentina anda não se curou do trauma.

Cabelos geralmente mais lisos, porque a Argentina tem muito poucos afro-descendentes.

Haviam brancos, alguns de pele bem clara, e loiros e ruivos como a burguesia é majoritariamente assim.

Então primeiro, nem tudo mundo no estádio é de periferia, há gente de classe-média.

Segundo, nem toda periferia é mestiça, claro que em Buenos Aires há muitos pobres caucasianos.

De pele cor-de-leite. Incluso nas favelas.

E agora veio outra crise política gravíssima. A Argentina passa por uma insurreição que visa derrubar o presidente Macri. Todos os dias avenidas são bloqueadas, estão havendo apedrejamentos do transporte coletivo, a coisa está bem séria. Uma nação em ebulição.

Agora, entre o povão os mestiços entre brancos e índios são maioria.

Por essa mistura, o tipo físico se parece com o dos povos que rodeiam o Mar Negro, como dito:

O portenho burguês típico é loiro ou ruivo, sempre de olhos e pele claros, como dito e é notório.

A crise não é só política, é também econômica. A miséria aumentou muito na Argentina, é comum ver pessoas revirando as latas de lixo, como na Grécia.

Já o bonarense médio tem cabelo preto e liso, e pele também morena, cor-de-cobre.

(Esses são os gentílicos, já que tocamos no assunto:

‘Portenho’ da Capital Federal, ‘bonarense’ da ‘Província’, do subúrbio metropolitano. Sigamos.)

A tez do bonarense (agora você já sabe o que é isso) é mais pra clara que pra escura.

Reflexo da crise: no Centro há vários comércios fechados. Flagrei 3 em sequência.

Mais clara que a média do Chile e Colômbia.

E muito mais clara que a média da Bolívia e México, óbvio.

Ainda assim, resumo dessa forma:

Na Argentina, ou pelo menos em sua capital, a questão de raça é mais forte que no Brasil.

Entre os que têm renda e educação relativamente elevadas, há mestiços.

Mais 2 do Centro. Essa perto da 9 de Julho.

Mas os caucasianos sem mistura predominam amplamente.

Entre a massa, o povo, há muitos brancos puros, é certo.

Entretanto os mestiços ali são maioria. Tudo somado:

Na verdade algumas fotos que denominei ‘Centro’ mostram a Recoleta. Como São Paulo (e ao contrário de Curitiba e do Rio), Bs. Aires não tem um bairro chamado ‘Centro’. O Centro deles é a ‘Comuna 1’ e parte da Comuna 2 (exatamente a Recoleta).

A Argentina é um país miscigenado, muito mais que as pessoas pensam.

É que as pessoas confundem ‘Argentina’ com a Zona Central da capital.

Mesmo seus subúrbios são mais escuros, e mais ainda interior, ressaltando mais uma vez.

A Argentina é mais clara que o Chile? Sim. Mas mais escura que o Paraguai.

Ee o fato que o Paraguai certamente é bem mais pobre não altera em nada esse dado.

Como nunca estive no Uruguai (exceto mais uma vez na ficção), não posso incluir essa nação na comparação. 

Principais municípios da Grande Buenos Aires (adesivo de manutenção do elevador).

……….

Nas favelas de Buenos Aires, 40% dos moradores são estrangeiros.

Especialmente paraguaios e bolivianos, mas há alguns peruanos e colombianos também.

Paraguai e Bolívia têm colônias enormes de expatriados na capital argentina.

Em Buenos Aires, vendinha ou mercearia é chamada ‘kiosco‘, com ‘k’ (vem da palavra ‘quiosque’). Sempre, independente do bairro. Pode ser no Centrão, na burguesia, periferia ou favela, é o ‘kiosco’. No interior nem sempre. As vezes sim, nos bairros mais ricos sim, mas nas periferias das cidades do interior argentino há outros termos, breve levanto essas matérias pra rede também.

Trabalhando na construção civil e outros serviços braçais.

No estrangeiro, bolivianos e paraguaios estão numa situação difícil econômica (moram em favelas) e politicamente (geralmente ilegais).

Assim eles têm que achar um meio de conviver senão com amor pelo menos em harmonia.

E até cooperarem, pois estão no mesmo barco. Digo isso pelo seguinte:

Quando não são expatriados, quando estão cada um na sua terra-natal, bolivianos e paraguaios geralmente se odeiam encarniçadamente.

Natural. Paraguai e Bolívia travaram uma das guerras mais sangrentas da história, no século 20, a “Guerra do Chaco”.

Mais uma do cartão-postal do país. Os argentinos gostam tanto de futebol que até aqui, sob o Obelisco e no canteiro da 9 de Julho (uma das avenidas mais movimentadas da cidade) eles batem uma bola.

Conhecido no Paraguai como “a Guerra Total”, o embate terminou com vitória paraguaia.

O estádio Defensores do Chaco tem esse nome por causa do conflito.

Alias ele participou do esforço de guerra:

Virou paiol de munição enquanto duraram as hostilidades.

A guerra foi sinistra, dois países muito pobres e que já tinham sido destroçados em guerras anteriores.

Próximas 3 (via ‘Google Mapas’): já que tocamos nesse esporte, apresento-lhes o “Forte Apache”, conjunto na periferia de Buenos Aires onde Tévez (aquele que jogou no Corinthians) foi criado. Nota que o bairro não tem coleta de lixo.

Eles se combateram em condições extremamente hostis.

O Chaco é desértico. Os soldados marchavam por horas sob sol escaldante, as vezes descalços.

Epidemias, fome e sede mataram mais combatentes que as balas inimigas.

O Paraguai venceu a guerra, manteve ¾ do Chaco, a Bolívia ficou com ¼ como apaziguamento.

Fica no município de Cidadela, Zona Oeste da Grande Buenos Aires. Oficialmente se chama Conjunto “Exército dos Andes”, mas todo mudo só conhece por ”Forte Apache”. No destaque um carro queimado que estava nas imediações. Uma obra estranha, tentaram fazer um estilo futurista quando misturaram vários estilos arquitetônicos, prédios de diferentes tamanhos, que se conectam pelos andares mais altos. Ficou bom o resultado? Responde você.

Mas ainda não houve o perdão, de parte a parte.

Bolivianos e paraguaios tem uma antipatia mútua muito forte.

Isso quando cada um está ‘em seu quadrado’, em seu próprio país.

Quando convivem nas favelas e periferias de Buenos Aires, têm que se entender.

E se organizarem pra melhorar as condições de vidas de todos na comunidade:

Estrangeiros e argentinos pobres do interior, estão todos ali, no apuro, precisam lutar juntos.

Pois a elite argentina (como todas as elites) não se importa com os desfavorecidos pelo sistema, sejam compatriotas ou imigrantes.

Inexplicavelmente o Forte Apache não tem coleta de lixo, pois não é uma favela (eu sei, você pensou “só parece uma”). Depois falam em reduzir as epidemias…..

Por isso nas quebradas de B. Aires paraguaios e bolivianos convivem bem, sem maiores conflitos.

Realmente a dificuldade abranda corações, sem dúvida.

Alias, já dissemos acima e é notório, o Ríver é o time da classe média-alta, o Boca do povão.

Por isso, há uma brincadeira que hoje o ‘politicamente correto’ não permite que seja dito dentro dos estádios.

Próximas 5: Vicente Lopes.

Mas nas redes sociais rola, nas pichações nos muros também:

A torcida do Ríver ‘acusa’ o Boca de “ter a maior torcida da Bolívia”, referência óbvia a massa imigrante.

As vezes incluem o Paraguai também no chiste.

Então Buenos Aires ficou assim: uma cidade europeizada, mas também latino-americana.

Estive lá num fim-de-tarde, como já sabem.

Pegou um pouco das características de cada um desses povos.    

As vezes os portenhos são rígidos como os caucasianos europeus. Quem já foi a Argentina sabe:

Em muitas oportunidades os comerciantes lá se negam a dar troco, preferem perder a venda.

Anoitecendo….as últimas fotos do dia. Essa é uma arquitetura típica argentina.

No caixa eletrônico saem muitas notas de 50 Pesos (8 Reais).

Você tenta pagar uma compra de 15 Pesos com ela, o caixa (geralmente o dono do negócio) recusa, opta por deixar de faturar.

Como você só tem nota de 50, fica na mão, não podia antes nem pegar um ônibus.

(Lá não tem cobrador, tinha que ser valor exato em dinheiro, agora é no cartão.)

A solução é comprar nas lojas de chineses.

Portas direto na rua, outro traço indelével.

Esse nunca perdem negócio, nunca reclamam de dar troco.

Falando agora da latinidade, de um ponto negativo dela.

Assim com existe o “Jeitinho Brasileiro”, há o “Jeitinho Argentino” de se lidar com as coisas. 

E funciona da mesma forma, infelizmente. O argentino é tão malandro quanto o brasileiro, é a triste realidade.

Centro empresarial importante da cidade.

Viram o carro parado exatamente embaixo da placa de “proibido estacionar”. Essa imagem é na capital.

Em Mendonça, eu esperava o ônibus bem no Centro. Ponto lotado, várias linha passam ali. 

A cada minuto, dois minutos no máximo, para um buso, sobe, desce gente.

E é difícil achar vaga pra estacionar no Centro, como sabem.

Pois bem. Uma burguesa não se fez de rogada.

Parou o carro grande e caro dela exatamente no ponto de ônibus.

As causas da crise: a Argentina já foi muito mais industrializada, mas muitas fábricas fecharam. Aqui barracão abandonado em Avellaneda, Zona Sul da Grande Bs. Aires.

Trancou, saiu com calma. Ficou uns 10 minutos numa loja.   

Enquanto isso os ônibus tiveram que parar em fila dupla, os passageiros correndo risco subindo e descendo no meio da rua.

Tudo porque a madame não quis pagar estacionamento.

Ela voltou pra carrão, nem sequer olhou pras pessoas que estavam ali pra pedir desculpas, entrou e arrancou.

Aqui e a direita: Centro de Buenos Aires.

No México fotografei o mesmo, o ponto de ônibus ocupado por carros.

Alias no México é pior, os micros só andam de porta aberta.. 

…….

Seja como for. Buenos Aires tem grande população imigrante sul-americana. Pela ordem:

São muitos paraguaios, muitos bolivianos, muitos uruguaios, poucos peruanos, poucos colombianos.

Santiago do Chile, com quem Buenos Aires faz um ‘jogo de espelhos’, tem (pela ordem):

Muitos bolivianos, muitos peruanos, poucos colombianos, uruguaios e paraguaios são quase inexistentes.

Próximas 3: famosa feira de artesanato de São Telmo, na Zona Central.

Já retomamos com tudo a comparação com o Chile. Agora falemos de Buenos Aires:

Os uruguaios se concentram entre a classe-média. Mas são muitos.

Há 3 milhões de uruguaios no Uruguai mesmo. 

E quase 1,5 milhão de uruguaios na Argentina.

Sim, é isso, quase um terço dos uruguaios cruzou o Prata e se assentou na nação ao lado.

A imensa maioria na Grande Buenos Aires, que é perto:

Casal dança tango em praça pública.

3 horas de barco e poucos minutos de avião.

A economia uruguaia decaiu muito, depois que as indústrias (principalmente frigoríficos e tecelagem) fecharam, e daí esse êxodo em massa.

A Argentina é bem maior e bem mais rica, especialmente a capital.

Então há grande oferta de trabalho pra classe-média uruguaia qualificada.

Como são países muito próximos, tanto física quanto culturalmente, muitos uruguaios optaram por se estabelecer ali.

Próximas 3: bairro São Telmo e imediações, Zona Central, o entorno da feirinha. Uma parte antiga da cidade.

Assim em alguns bares da Zona Central de B. Aires quando jogam Boca x Penharol ou Ríver x Nacional.

(Ou outras combinações de times das capitais, você entendeu), a torcida é quase meio-a-meio.

Entre os paraguaios que vivem na Argentina há muito povão, mas muita classe-média também.

E pelo mesmo motivo, intensa proximidade física e cultural.

Com os bolivianos é o contrário dos uruguaios.

Quase todos os bolivianos que lutam na Argentina são de periferia, são quase inexistentes na burguesia.

Essas três nacionalidades acima concentram o grosso dos estrangeiros.

os peruanos e colombianos de Buenos Aires, que são bem mais raros, se concentram também na periferia.

BUENOS AIRES, CIDADE DA CUMBIA –

O Chaco – na Argentina chamado ‘Pampa’ – é a “Grande Planície Central Sul-Americana”.

Pega Uruguai e Paraguai inteiros, quase toda Argentina (o Sul dela, mais frio, é a Patagônia) e o Sul da Bolívia.

Apagões são frequentes em Buenos Aires, leia o pedido no metrô. A crise é multi-dimensional na Argentina.

E a Cumbia é a música do Chaco. Exemplificar é mais fácil que explicar. Ouça:

https://www.youtube.com/watch?v=-shpxdvBWwQ

https://www.youtube.com/watch?v=xzSlYVa2SvA

Numa delas diz “cumbia paraguaia”, mas o ritmo é sempre igual, seja do Paraguai, Argentina ou Bolívia.

É o sertanejo deles. Digo, há uma versão um pouco mais acelerada, com mais ‘remix’, que se chama ‘cumbia villera’ no original, significa ‘cumbia de favela’ ou ‘do subúrbio’.

O desemprego é muito alto, cada um se vir como pode. O metrô está cheio de camelôs, igual no Brasil.

Ali seria o equivalente ao ‘rap’. Toda América adora ‘rap’, EUA, México, América Central, Caribe, Brasil, Chile, Venezuela, Colômbia.

Digo, quase toda América. Porque a Argentina e seus vizinhos menores (Paraguai, Uruguai, Bolívia) não gostam.

Quando eles querem uma música mais pesada, mais agressiva, a ‘cumbia villera’ é a escolha.

E quando querem mais romantismo, se sintonizam na cumbia tradicional.

Por ‘A’ ou por ‘B’, só dá cumbia.

E, bem, as favelas e subúrbios de Buenos Aires são habitados por argentinos do interior e por bolivianos e paraguaios.

Catador de papel no Centro de B. Aires.

Os argentinos mais humildes que incham as favelas da capital vieram a maior parte do Norte do país que é mais pobre.

Ou seja, são oriundos exatamente do coração do Pampa, na fronteira com os vizinhos Paraguai e Bolívia.

E vivem lado a lado com esses estrangeiros, que vieram de regiões próximas, do outro lado das fronteiras mas a cultura é parecida.

Aqui e a esquerda: camelôs africanos no Centro de Buenos Aires. A Argentina teve escravidão africana, como no Brasil. No meio do século 19 Buenos Aires (que então era bem menor, a grande imigração europeia ainda não havia chegado) chegou a ter um terço de sua população negra. Mas aí os negros foram mandados desarmados pras linhas de frente na ‘Guerra do Paraguai’. Os paraguaios descarregavam toda pólvora neles, e foram genocidados na Argentina. O Brasil fez o mesmo, que fique claro. Mas aqui haviam muito mais escravos, por isso os negros continuaram numerosos em nossa pátria. Voltando ao país vizinho, após esse massacre por mais de um século Buenos Aires teve pouquíssimos negros. Agora eles voltaram, imigrando da África. Esses dois na Av. 9 de Julho, o garoto usa uma camisa de Mandela no mapa de seu continente-natal, pra não deixar dúvidas.

Tudo somado: nas periferias de Buenos Aires, independente da nacionalidade, quase todos vieram do Chaco/Pampa.

Portanto ali só dá cumbia. Eu voltava de trem dos subúrbios metropolitanos, ouvindo rádio.

É impressionante a quantia de estações dedicadas a cumbia.

Uma hora a cantora mandou ‘um beijo a todos um cumbeiros’.

Ela foi específica, dedicou a música a todos os fãs da cumbia na:

“Bolívia, Argentina, Brasil (São Paulo tem uma grande comunidade boliviana) e Chile”.

O Paraguai também adora cumbia. Ela não citou esse país porque é boliviana, o ressentimento ainda fala mais alto.

E ao meu lado vinha um boliviano (ele mesmo se identificou assim, não estou chutando).

E esses aqui no Retiro, em frente as estações centrais de trem (suburbano e longa distância) e ônibus (igualmente urbanos e longa distância – destaquei com a flecha o letreiro ‘Terminal de Omnibus’ da Rodoviária do Retiro). Há muitos camelôs (tanto argentinos quanto estrangeiros, africanos, paraguaios e bolivianos) ali, mas quem foi alguns anos trás disse que antigamente era muito pior.

Contava sua saga na Argentina, as dificuldades que passou, e sua luta pra vencer.

Não foi o único boliviano que me deparei na cidade.

No primeiro dia que cheguei fui ao jogo São Lourenço x CAP, repetindo.

Tentei recarregar o cartão de ônibus, andando num bairro bem popular, ao lado de uma grande favela.

Entrei numa vendinha. Tudo isso já contei. Agora as novidades.

A mercearia era gradeada, o cara te atendia parecendo estar num presídio, pra evitar assaltos.

Próximas 2: Centro do subúrbio metropolitano de Avellaneda. Era sábado fim-de-tarde/começo de noite, havia uma festa nessa praça, com banda e tudo.

E era um índio, bem escuro, logo vi que não era argentino.  

Sim, a periferia de Buenos Aires é mais mestiça que a burguesia.

Mas esse garoto destoava mesmo disso. Perguntei a ele: “você é argentino?” Ele respondeu:

“Sim, nasci aqui. Mas meus pais são bolivianos, fui criado na Bolívia, agora voltei”.

Expliquei que sou jornalista, pedi permissão pra fotografar, ele assentiu.

Quase todos os ônibus de Buenos Aires (como em São Paulo) têm motor traseiro.

É isso, amigos. Nos trens, subúrbios e favelas de Buenos Aires, eu me senti em La Paz, Bolívia, onde nunca estive, ou também de volta a Assunção-Paraguai, que visitei em 2013.

E dá-lhe Cumbia!!!! Se Belo Horizonte, Fortaleza-CE ou mesmo as periferias de Curitiba são as “Cidades do Funk”, Buenos Aires é a “Cidade da Cumbia”!!

…………

Periferia típica de Buenos Aires, foto na Zona Sul. Saída direto na rua, grades na portas e janelas pra evitar arrombamentos, casas geminadas sem acabamento, eram térreas depois subiram a laje‘, varal no teto, e uma imagem de Jesus. A Argentina é um país bi-polar, a burguesia é quase toda materialista (são ateus), mas a periferia é muito católica. Muito mesmo.

BUENOS AIRES & SANTIAGO: O “JOGO DOS ESPELHOS” –

As capitais da Argentina e do Chile se refletem mutuamente, mas em formas invertidas, como um Yin-Yan em 3D.

(A.S.: Por ‘Americana’ me refiro sempre ao continente América, o que vem dos EUA é ‘ianque’ ou ‘estadunidense’, lembre-se disso.)

Explico: ambas são a ‘Europa na América’, mas em dimensões diferentes.

Santiago é fisicamente uma cidade europeia, em Espírito, em cultura, é totalmente Americana.

Buenos Aires é o contrário: totalmente Americana fisicamente (por isso digo Latino-Americana), mas bem mais Europeizada em Espírito, em cultura.

Avellaneda, Zona Sul metropolitana. Bairro de classe-média, mas as portas saem na rua também. O detalhe é essa grade no teto, suspensa no ar (a casa ao lado é bem mais baixa). Será que alguém acha que os ladrões vão aterrizar vindo do céu??

A crise na Argentina está brava, e além de aguda virou também crônica.

Buenos Aires se empobreceu muito, se coalhou de favelas, e favelas horrorosas.

A capital argentina hoje tem tantas favelas quanto qualquer cidade brasileira de mesmo porte.

E, repito, as favelas deles não devem nada as nossas, em densidade, falta de infra-estrutura e serviços públicos, etc.

Buenos Aires é América. No passado não foi, mas hoje é.

Subúrbio metropolitano de Avellaneda, com seus táxis brancos. No município de Buenos Aires os táxis são pretos com tetos amarelos, como sabe.

E como é! Fisicamente falando, é totalmente (Latino-) Americana.

Ainda assim, em sua burguesia predomina a raça caucasiana/ normanda, brancos mesmo sem mistura.

Resultando que culturalmente (pois é a burguesia quem determina o grosso da cultura) Buenos Aires é muito europeia, em Espírito, em seu jeito de ser.

Santiago é o contrário. A capital chilena passou por uma das maiores reformas urbanas já vistas na humanidade.

Do outro lado da cidade, anoitece no Centro do subúrbio metropolitano de Vicente Lopes, Zona Norte. O posto é Petrobrás.

Pinochet e seus sucessores literalmente refizeram a cidade.

Erradicaram e urbanizaram a maior parte das favelas.

Construíram literalmente milhões de casas novas. Não estou brincando nem exagerando.

A ênfase de re-urbanização foi só na capital Santiago.

O interior nem de longe tem o mesmo nível, exatamente ao contrário, suas periferias são cheias de favelas.

Próximas 2: seguimos em Vicente Lopes, vemos o parque a beira-mar da cidade. As pessoas aproveitam a temperatura amena pra se exercitar.

Nisso incluindo Valparaíso, que depois da ditadura se tornou capital legislativa, o Congresso foi re-aberto lá.

(Durante a era de Augusto Pinochet o Chile não teve Congresso, nem mesmo de fachada:

O ‘Generalíssimo’ dizia e estava dito, dispensava-se qualquer ratificação mesmo que simbólica.)

Da política chilena, seus conflitos do passado e do presente, já tratei com muito mais detalhes quando voltei de lá.

Vou contar o que vi nesse parque. Os chilenos adoram pingue-pongue, várias praças lá têm a mesa pra jogar. Os argentinos também gostam do tênis de mesa, não tanto quanto no Chile mas bem mais que no Brasil, a galera estava praticando. Mas presenciei também um esporte que nunca tinha visto, o fute-tênis, você conhece? O fute-vôlei é uma fusão do futebol com vôlei, não? O fute-tênis é uma fusão do tênis com o futebol. A quadra é de tênis, rede baixa, de metal. Ficam dois de cada lado, bola de futebol, joga-se com os pés. O ponto é como no tênis, quando a bola pinga duas vezes no chão, sendo a 1ª dentro da quadra adversária.  É….vivendo e aprendendo, conheci algo inédito.

Aqui só fiz esse adendo pra mostrar que Valparaíso, mesmo sendo também capital, nem de longe tem o mesmo nível de Santiago.

Nem pensar….Valparaíso é coalhada de favelas em morro. ‘Valpo’ é América de Corpo & Alma.

Mas Santiago, fisicamente, é europeia. Urbanisticamente falando, Santiago é uma cidade britânica.

A periferia santiaguina é formada quase que somente por conjuntinhos de casas geminadas, sejam térreas ou sobrados.

Na Zona Oeste há bastante predinhos de cohab, aqueles pombais baixos sem elevador.

Nas outras partes da cidade eles existem mais são bem mais raros, as casas predominam mesmo.

Sim, parece que você está na Inglaterra, Irlanda ou Escócia.

Bairro após bairro após bairro, um conjunto emenda no outro, que emenda no outro, que emenda no outro.

São raras as casas autóctones, as construídas pelo dono conforme seu gosto. Geralmente é padronizado.

Grafite no bairro Barracas, Zona Sul, que fica entre o Parque Patrícios, Nova Pompeia, bairro da Boca (que sedia o time multi-campeão) e o vizinho município de Avellaneda (que sedia o Racing e o Independente). Desculpe o dedo na câmera.

Claro, na periferia rolam puxadinhos, incluso em prédios (já falo mais disso).

E as favelas em Santiago então são raríssimas. Atenção:

Não estou dizendo que não existem. Sim, há favelas em Santiago. São poucas, mas existem.

Fui na maior delas, o Morro São Cristóvão, entre as Zonas Central e Norte.

Na Extremidade da Zona Sul, vi e fotografei mais algumas.

Próximas 3: famosa favela ‘Vila 21‘, que fica entre Barracas e Nova Pompeia, divisa com Avellaneda mas no município de B. Aires.

Então, repito, há favelas em Santiago.

Quem diz que não ou nem se deu o trabalho de ir a periferia ou está mesmo mentindo abertamente.

Mas são poucas, bem poucas. Santiago foi intensamente re-urbanizada.

E é agora uma cidade basicamente formada por conjuntos habitacionais, na sua classe proletária.

Avenida principal da vila, um buso (da linha 70) vem, outro vai.

Fisicamente, uma cidade europeia.

A questão é que Santiago tem o povo bem mais escuro que em Buenos Aires.

Mesmo a classe-média da capital chilena é mestiça, entre brancos e índios.

E na periferia isso só aumenta. Há brancos na periferia de Santiago?

Sim. Mas são poucos. A imensa maioria dos santiaguinos suburbanos são mesclados.

São uma mistura entre euro- e amero-descendentes.

O tom de pele varia, mas o cabelo quase sempre preto e liso, e os olhos levemente puxados.

Parecido com a Colômbia? Exatamente.

Filho de bolivianos que tem uma vendinha (‘kiosco’) perto do estádio do São Lourenço – gradeada pra evitar assaltos. Um aviso pede pra você “não esquecer de trazer sua própria sacola pra levar suas compras”. Em São Paulo quando você vai ao mercado é cobrado um valor pra cada sacola plástica, né? Então, Buenos Aires foi mais radical, simplesmente proibiram as sacolas plásticas, não pode mais e ponto final. Vale só pra capital federal. Nos subúrbios metropolitanos vi a galera saindo com a compra ainda nessas sacolinhas derivadas de petróleo.

Do “outro lado do morro” (os Andes) a América é diferente que do lado de cá.

Na burguesia, Buenos Aires e Santiago se parecem, é fato. Na periferia são completamente diferentes.

Completamente. Entre o povão, o Chile é um país andino.

Com isso, quero dizer que ele é mais parecido com a Colômbia, Venezuela, México, América Central e Peru que fisicamente estão longe que com a Argentina que está do lado.

(Sim, o Peru nem tão distante do Chile, mas ainda assim bem distante, especialmente do Centro físico do Chile, que é o Centro político, econômico e cultural da nação.) 

Paraguai e Uruguai são satélites culturais da Argentina. Ambos esses pequenos países enxergam a Argentina e sua cultura como um guia, como um irmão maior.

Mercado municipal de Buenos Aires.

Eles se parecem com ela e querem se parecer ainda mais.

O Chile não é assim. O Chile, entre sua cultura popular, não se parece com a Argentina nem almeja parecer.

Santiago, culturalmente, é América Latina pura, com tudo que isso implica.

Próximas 4: Recoleta, bairro de elite que ainda faz parte do Centro.

Alias em Santiago eu vi (e fotografei) algo que só existe lá: puxadinho no prédio.

Sim, é isso. O cara mora numa cohab, segundo ou terceiro andar.

E quer aumentar a casa, fazer mais um cômodo. Não se faz de rogado:

Bota uma estacas e faz mais uma sala, ao lado da que já existia.

O puxadinho fica precariamente suspenso por colunas improvisadíssimas.

No alto do prédio, meu irmão.

Se você nunca viu isso e acha que estou brincando, confira as fotos que tirei por lá.

Isso é bem revelador da cultura de Santiago. O improviso, traço típico da América, mais anti-europeu impossível.

Por isso. Entre o povão, a massa, Santiago é América pura. Mas fisicamente é europeia.

Buenos Aires é o contrário: com tantas favelas, é totalmente América.

Mas pelo predomínio caucasiano na burguesia, uma cidade de cultura europeia, repetindo.

Eis o “jogo dos espelho”, o reflexo invertido entre essas duas metrópoles.

……….

CONFLITOS EM LINIERS, “ZONA OESTE DE BS. AS.” –

Essa matéria concentra as fotos nas Zonas Central, Sul e Norte.

Buenos Aires não tem mesmo Zona Leste, porque essa é o Rio, digo de novo.

Grades sobre os cartazes, pra que não se colem outros cartazes por cima.

Mas não há fotos da Zona Oeste, exceto poucas em frente o estádio do São Lourenço.

Que ainda é na divisa com a Zona Sul.

Entretanto, eu fui a Zona Oeste. Ao coração dela.

A ausência de imagens se refere a que naquele dia minha câmera descarregou.

Em compensação, puxei pelo ‘Google Mapas’ as cenas de Forte Apache.

Próximas 2: o famoso calçadão da Rua Florida, no Centro. Repare o ‘Comuna 1’ escrito na placa, e mais um rapaz tocando em via pública.

(Fiz colagens, você percebe a emenda.

A intenção não é enganar ninguém, mas dar uma visão mais ampla do bairro.)

Eis o lugar que Carlitos Tévez (ex-Corinthians) foi criado. O ‘Forte’ é Z/O, e como é!

Na região metropolitana, eu não estive ali, conheço só virtualmente.

Mas já chegamos lá. Vamos seguindo a ordem, contando meu passeio conforme o fiz.

Desci na estação final da linha ‘A’ do metrô, quase chegando ao bairro Floresta.

Na Av. Rivadávia, importantíssimo eixo que conecta o Centro a parte ocidental da metrópole.

E aí fui seguindo a Rivadávia, as vezes entrava um pouco na parte residencial do bairro.

Praça de Maio, epi-centro político do país, onde as mães e avós resistiram a ditadura – que alias foi muito, mas muito pior que no Brasil. Também na Comuna 1. Vê que é aqui que começa a Avenida Rivadávia, cuja outra ponta percorri na Zona Oeste.

Aí passeava umas quadras pelas paralelas de ambos os lados.

Voltava pra avenida, sempre tendo ela como eixo.

Cheguei ao populoso e importante bairro de Liniers, que é o coração da Z/O como já dito.

Ainda dentro da capital federal, é uma transição da burguesia da Zona Central pro que virá mais a frente, a periferia da região metropolitana.

Assim Liniers é, como posso dizer, o começo da periferia.

Ali perto, também no ‘Micro-Centro’. E que raio é essa ‘Comuna 1’? O município de Buenos Aires é dividido em Comunas, como no Brasil dividimos em administrações regionais. Quase toda Zona Central é a 1. São vários bairros por comuna, com duas exceções: os bairros Recoleta e Palermo, que são os mais ricos da cidade, são cada um uma comuna individualmente, a 2 e a 3 respectivamente. A Av. Crámer, na Zona Norte, está na Comuna 13, destaquei. Já em Medelím-Colômbia, ‘Comuna’ significa favela, também são numeradas.

Majoritariamente de classe média-baixa, classe proletária, com algumas porções de burguesia do subúrbio.

Liniers, embora popular, não tem favelas, ao contrário de Vila Lugano ali perto, que é cercado de favelas por todo lado.

Incluindo duas favelas gigantes – uma delas a famosa ‘Cidade Oculta.

(Tem esse nome porque foi murada na ditadura Videla pra não ‘atrapalhar’ a vista de quem passava na avenida.)

Isso é Vila Lugano, onde eu não estive. Volto a falar de Liniers, onde passei.

Segui pela Rivadávia e paralelas. A cidade começa a mudar pra periferia:

O comércio começa a ficar mais popular, você começa a ver mais povão nas ruas.

Aqui e a direita em Avellaneda. Esse conjunto popular é bem perto dos estádios do Independente e do Racing (que são vizinhos). Alguns moradores desses prédios em dias de jogos aproveitam pra vender lanche, refri e cerveja pros torcedores

Começa a ver mais mestiços, embora claro que há também muitos brancos.

Naturalmente há muitos caucasianos na periferia de Buenos Aires, embora já não maioria como na burguesia.

Fim-de-tarde, um caos natural pelo horário de pico, as pessoas nos pontos de ônibus, trânsito pesado, outras se dirigem a estação de trem.

Em alguns pontos a Argentina parece que ainda está no meio do século 20:

Uma parte antiga, de periferia. Sempre as portas saindo direto na rua.

Em Córdoba ficamos num hotel grande, bem no Centro, que ocupa todo um prédio bem alto.

Pois bem. A chave ainda é de metal, você deixa na portaria quando sai.

Como era no Brasil décadas atrás, mas não mais há muito.

Em toda Argentina, em boa parte do comércio ainda não se aceita cartão de débito, você acredita?

Mais uma favela em frente o estádio do São Lourenço, fotografei de dentro dele, as cabeças são dos torcedores.

No Brasil isso parece outra galáxia.

As pessoas aqui pagam tudo no cartão, até a conta do pão na padaria que dá R$ 3 é saldada na maquininha do cartão de débito.

Então o fato que um país que tem fama de desenvolvido ainda não aceitar cartão em diversos lugares parece inacreditável.

A falta de infra-estrutura na Argentina está crítica. Veja essa importante avenida na Zona Sul, dentro da Capital Federal. Céu limpo, aquela fileira de água não é chuva, mas esgoto que corre a céu aberto. Ressalto o que está óbvio: uma avenida grande, com comércio aberto, num bairro de classe-média, não é favela recém-invadida, nem mesmo um loteamento do fundão da perifa. E mesmo assim a situação é essa que presencia! Vai vendo….

Mas é assim no momento que escrevo (2018, estive lá em 2017).

Retornando a Liniers, lá eu tive mais uma ‘volta no tempo‘.

A avenida Rivadávia é paralela a linha do trem, e logo elas se encontram, passam a correr lado-a-lado.

Pois bem. As balizas que fecham os cruzamentos com a linha férrea quando a composição passa ainda são operados manualmente!

Você acredita nisso? Pois é a realidade. Fica um guardinha a postos, quando o trem apita ele (a) vai lá e abaixa a cancela.

Voltando a Z/N (parte rica da cidade), outra vista do parque onde está o zoológico.

(Ambos os sexos têm essa ocupação, vi Homens e Mulheres de uniforme na função.)

É mole? Em pleno século 21, isso era pra estar automatizado faz tempo. Mas ainda haveria mais.

A Argentina vive aguda crise social, política, econômica, todas as dimensões.

Panorâmica da linha de prédios da Zona Norte.

O desemprego é alto, as ruas estão tomadas de camelôs mesmo na área central.

Muito mais na periferia, especialmente ali, perto de estações de trem.

Loja de vinhos na Zona Central. Com o aviso: “Somos fabricantes, somos de Mendonça”, a ‘Cidade do Vinho’.

Em alguns pontos era até difícil andar na calçada, nada diferente do que acontece no Brasil.

E aí o governo resolveu complicar ainda mais o que já estava bem difícil.

Na saída da estação Liniers havia uma galeria de lojas. Já na calçada, tinham umas 20 lojas.

Havia comércio de roupas populares, lanchonetes, essas coisas.

Aqui e a foto seguinte: periferia da Zona Sul metropolitana, Avellaneda e imediações.

Sabe-se lá o porque, decidiam embargar o estabelecimento.

Está tudo fechado e lacrado, com os avisos de ‘interditado’.

Porém as pessoas precisam trabalhar, não podem parar.

Precisam comer, essa necessidade não pode ser suspensa.

Uma parte antiga da cidade….

Nem mesmo enquanto se debatem questões técnicas legislativas, se ‘atende ou não ao plano diretor’, etc.  

Os antigos comerciantes do dia pra noite foram expulsos e perderam o direito de ocupar seus pontos.

(Alguns estavam a décadas ali, você nota que a construção é antiga.)

Próximas duas: Av. 9 de Julho, Zona Central.

Obviamente eles passaram a protestar. Haviam diversos cartazes dizendo:

“Não somos invasores, só queremos trabalhar”, “galeria fechada. Por quê?”, e assim vai.

Mas claro que não ficou só na retórica. Repito, as pessoas têm que comer todos os dias.

Então é preciso achar um meio de atender essa necessidade.

Se uma porta se fecha, é preciso abrir outra, essa é a lei da natureza.

Os antigos comerciantes que foram despejados de suas lojas montaram agora banquinhas, e atendem na calçada.

Exatamente em frente as suas lojas que estão fechadas, pra manter o mesmo público.

Tudo ficou mais precário, não? Antes eles eram regularizados, pagavam impostos.

Agora não pagam. Um país que está em crise fiscal gravíssima.

Outra de Vicente Lopes.

E ainda se dar ao luxo de desperdiçar receita é bem estranho, ultrapassa as raias da burrice.

O desconforto aumentou muito, tanto pra vendedores quanto compradores, especialmente quando chove.

A higiene também caiu, onde vendem alimentos.

A circulação se tornou mais difícil. E se tudo fosse pouco, antes os comerciantes eram todos argentinos.

Como o mexicano, o argentino é um povo musical, simplesmente ama a música. Por toda parte você vê gente tocando. Aqui na Zona Central, perto da feirinha de São Telmo.

Agora que se formou um camelódromo, os africanos se somaram a eles.

Veja bem, eu não tenho nada contra africanos, o oposto sendo verdadeiro.

Fui a Mama-África, e amei a experiência, foi um presente que a Grande Vida (Deus) me proporcionou. Nunca fui a Europa, mas fui a África.

Isso já revela que nutro um profundo Amor pela Raça Guerreira Negra Original.

Aqui e a esquerda: uma parte feia, lixo espalhado pelo Centro.

Não tenho nada contra sequer em relação aos camelôs africanos. Ao contrário. 

Quando eu era casado, uma de minhas alianças comprei de um camelô senegalês no Centro de Curitiba.

Então respeito o direito deles lutarem como podem pra sobreviver.

Nessa aqui a impressão é que estava dentro do latão e alguém revirou pra recolher alguma coisa.

Estou apenas descrevendo o caos que se tornou o entorno da Estação Liniers de trem.

E tudo porque alguém decidiu estupidamente embargar a galeria.

Todo esse conflito e confusão se processava exatamente em frente as lojas fechadas….

Não era mais fácil permitir o funcionamento do comércio regularizado?

Capelinha na rua em Porto Madeiro. A Argentina tem esse choque, a burguesia é majoritariamente materialista (são ateus), mas a classe trabalhadora ainda é bastante católica. Óbvio que P. Madeiro não é periferia, mas talvez esse altar ainda seja remanescente de quando ali era o porto.

Ia ser melhor pra todo mundo, comerciantes, clientes, pessoas que apenas querem passar pela calçada, e até pro governo, que iria arrecadar mais.

Podiam devolver as lojas aos antigos donos, afinal eles precisam de uma renda.

E se a legalidade se fecha são empurrados pra ilegalidade, mas continuam ali.

poderiam construir mais algumas lojas, pra contemplar também os africanos recém-chegados, dar a eles a chance de também serem cidadãos de fato.

Mas não. Não elevaram os africanos ao nível de cidadãos plenos. Foram na mão oposta.

Rebaixaram os argentinos ao mesmo nível dos africanos que são imigrantes ilegais.

Agora todos são ilegais, todos são camelôs sem licença, ao lado da galeria fechada que poderia estar sendo usada.

Algumas coisas são difíceis mesmo de entender

…….…

Flores. Ao fundo o novo – e riquíssimo – bairro de Porto Madeiro, já que falamos nele. Alias a alguns dias (publico em 18/03/18) foi Dia Da Mulher. O que isso tem a ver com B. Aires? Simples, muita gente não sabe, mas Porto Madeiro é dedicado as Mulheres. As ruas da parte nova e residencial têm nomes femininos, já mostrei acima. Um parque também. O outro parque é o ‘das Mulheres Argentinas’ (também fotografado) , e essa parte da ilha é ligada ao continente pela ‘Ponte da Mulher’.

Olhei pra cima. No alça do viaduto estava escrito: “Buenos Aires, Zona Oeste”.

Exatamente assim, o mesmo termo que usamos no Brasil.

Por que digo isso? Porque a palavra ‘zona’, no sentido de Zona Oeste, Zona Central, etc, só existe no Brasil, Argentina, Uruguai e mais raramente Paraguai.

No Chile, Colômbia, México, República Dominicana – esses tive oportunidade de ir, mas também nos demais [Equador, Venezuela, Peru, América Central] – é diferente:

No resto da América hispânica não há a palavra ‘zona’.

Um artista retratou a ‘Ponte da Mulher’.

Pro sul da cidade eles dizem simplesmente ‘o sul’, pro norte ‘o norte’.

Todo mundo entende que é nosso ‘Zona Sul’ e ‘Zona Norte’. O leste é o ‘Oriente’, em todos eles.

O oeste é o ‘Ocidente’ na América do Sul e Central (incluindo Caribe).

Mas no México ‘zona oeste’ eles dizem ‘o Poente’. Poético, não?

Próximas 7: o rico bairro de Nunhes (‘Nuñez’ no original) na Z/Norte. Essa é no município de B. Aires, mas perto da divisa com Vicente Lopes.

Isso nos demais países. Na Argentina (e Uruguai, as vezes também Paraguai) é igual no Brasil.

Por isso a inscrição no viaduto: “Buenos Aires, Zona Oeste”.

CRUZANDO A AUTO-PISTA: BEM-VINDO AO “VELHO-OESTE SELVAGEM” –

Liniers, como dito, é o começo da periferia, mas ainda classe-média.

Agora de dia. destaquei o itinerário das linhas de transporte coletivo.

Só que é o último bairro a oeste dentro do município de Buenos Aires, a ‘Capital Federal’.

Ali estão as oficinas da rede ferroviária argentina, então a cultura proletária é muito forte.

Os argentinos ainda são sindicalizados, ainda creem na literatura da ‘luta de classes’.

Então Liniers é assim. Um bairro operário em espírito, que tem um padrão de classe média-baixa em sua maioria.

Passando por baixo do viaduto da Auto-Pista General Paz entramos na região metropolitana, e mudamos também de estado.

Saímos do Distrito Federal, adentrando a Província de Buenos Aires, pros íntimos simplesmente “A Província”.

Em Buenos Aires, quando alguém usa esse termo, já está entendido que é a periferia, os subúrbios da capital.

A cidade é a mesma mas muda a unidade da federação.

Então. Saí de Liniers e da Capital Federal, entrei em Cidadela, na “Província”.

Essa parte da cidade é bem arborizada.

Agora você vai ver o que é Zona Oeste de verdade!

A Avenida Rivadávia continua, inclusive com mesmo nome e numeração, herda tudo que veio da capital.

Mas o perfil social começa a mudar. Em Cidadela…

Região de classe média-alta. Mas eis a típica arquitetura argentina, porta direto na rua.

(Nota: essa é a ‘municipalidad’ deles, que seria um município aqui no Brasil talvez, a divisão é diferente.

O ‘partido’ é 3 de Fevereiro, que seria um condado, como existe nos EUA e África do Sul).

Então estamos no município de Cidadela (‘Ciudadela’ no original), condado da ‘3 de Fevereiro’

(Outra nota: originalmente escrevi que o condado era ‘La Matanza’. Está errado.

Essa pichação também é em Nunhes. com essa fechamos a sequência nesse bairro da Z/N. Até a virada do milênio Buenos Ares quase não tinha pichações, exceto de torcidas de futebol e políticas. Agora surgiu um pouco, nesse estilo que vê aí. Mas infinitamente menos que no Brasil. Na Argentina não se picham prédios inteiros, andar por andar, nem os telhados de comércios.

O vizinho município de Ramos Mejía fica em ‘La Matanza’, mas Cidadela no 3 de Fevereiro. Corrigido).

A cidade começa a mudar, enfatizo. Surgem algumas favelas, que não existem em Liniers.

Entrei em duas delas, uma pequena ao lado de um viaduto e uma de tamanho médio.

Até o transporte coletivo muda na “Província”.

As linhas que passam pelo município de Buenos Aires  são servidas por ônibus mais novos, maiores, 3 portas e motor traseiro.

Conta de luz do apartamento que fiquei. Bairro: Micro-Centro. Trata-se de um termo local pra indicar a região entre o Congresso e a Praça de Maio, como o Obelisco bem ao meio como referência máxima.

(Isso tanto linhas municipais quanto as que ligam o Centro aos subúrbios metropolitanos.).

Já nas linhas internas metropolitanas (que não entram na Capital Federal) de menor demanda o nível não é o mesmo.

Nos deparamos com veículos mais velhos, menores, 2 portas e motor na frente.

Vamos ver mais cenas do Sol se pondo em lados opostos da metrópole. As duas primeiras em Avellaneda, Zona Sul.

Natural, é assim no mundo todo, os ônibus novos começam nas linhas principais e vão sendo repassados pro subúrbio conforme envelhecem.

Caminho mais um pouco, passo pela Estação Cidadela de trem, entro por dentro do bairro, sigo.

Quando chego na Estação seguinte, Ramos Mejía, está anoitecendo.

Fico por ali, subo na passarela, fico vendo o trânsito engarrafado.

Observo os ônibus voltando cheios da capital, e indo pra ela vazios – claro né, todo mundo já ralou e volta pra casa.

Carros, comércio ambulante, as pessoas passam apressadas lá embaixo e atrás de mim, vários prédios altos de classe-média.

E como pano de fundo o Sol se pondo, o céu mudando de cor, as luzes na rua começam a se destacar….

Fico ali uns minutinhos, parado, sozinho, quase que em meditação, sendo Um com o Criador.

E agora duas em Vicente Lopes, Zona Norte.

E agradeço a Ele/Ela pela chance de conhecer mais um país. Quase Zen.

……

Desço as escadas, é realmente uma queda de dimensão.

A Argentina está em caos, muitas obras ao mesmo tempo.

A estação de trem está em obras, muitos tapumes.

Tudo confuso, cartazes indicam onde é o embarque provisório.

Mas é difícil entender, ando de um lado pro outro, vou, volto, até sacar o lance.

Favela Vila 51, bairro Vila Lugano, Zona Oeste, também conhecida por ‘Cidade Oculta’ por ter sido murada na ditadura de Videla (imagem via ‘Google Mapas’).

E não é só porque eu sou turista. Os próprios locais também se atrapalham.

Uma moça, argentina, dali mesmo, me pergunta onde entra na estação

Explico: “é o que estou tentando entender também”. Ela opina “deve ser por ali”, no fim achamos a bilheteria.

Pego o trem, volto pro Centro. Está encerrada a Saga na Zona Oeste.

A rede de trens da Argentina é invejável, tanto linhas de subúrbio (esse caso) como longa distância.

Não há porque ficar circulando por ali a noite, especialmente quando as ruas ficam mais vazias. 

Primeiro, a noite já não dá mesmo pra ver tanta coisa.

Segundo, é uma ‘zona vermelha’ da cidade, se é que me entendes. É disso que falarei agora.

Flagrei em Avellaneda: veículo que que começou a vida como um ônibus sobre chassi de caminhão (bicudo pra ninguém duvidar que é um 11-13). Depois tiraram a carroceria de ônibus e lascaram um baú. Mas….mantiveram a porta de ônibus. Gostou dessa transgenia???

..

Não fui a parte mais ‘quente’ da Z/O. Não por medo.

De dia, eu entro em qualquer quebrada, em qualquer favela.

Em Buenos Aires mesmo entrei nas duas piores favelas da cidade, no Centro e Zona Sul, as Vilas 31 e 21, respectivamente.

Na Zona Oeste não fui ao pior pedaço dela porque faltou tempo, realmente.

De dia teria ido. Mas não fui. Deixa eu contar onde é:

Já que o tema é caminhões, ao fundo Porto Madeiro, a frente carretas Mercedes e Scania.

Na própria Cidadela, um pouco mais ao norte, está o Conjunto ‘Exército dos Andes’.

Mas todos conhecem como…o “Forte Apache”.

Onde Tévez criado, como já dito. Essa informação saiu na mídia a época.

O ‘Forte’ é um lugar cujo apenas a menção do nome já provoca arrepios a burguesia portenha.

Aqui e a direita: Forte Apache, Cidadela, Z/Oeste.

Notam pelas fotos, tem um projeto arquitetônico singular, futurista.

Parece um ‘Blade Runner’, um ‘Mad Max’.

Só nessa imagem vemos duas carcaças de carros, cemitério de metal ao ar livre.

Torres de diferentes tamanhos, as mais altas se conectam pelo alto por passarelas.

Mas o pior está embaixo. Não há coleta de lixo regular no local.

Mesmo entre os que rodam: a crise está brava! Na periferia a frota da Argentina parece a de Cuba.

Pela quantia de moradores, o caminhão tinha que passar todo dia, óbvio. Mas não passa. O lixo se acumula na rua.

Muitas carcaças de carros abandonados estão desovadas nas imediações.

(Bem, pilhas de lixo eu não vi pela Argentina. Mas carcaças de carro, é pela periferia inteira..

Essa é entre Palermo e Recoleta, também Zona Norte mas perto do Centro. Notam o céu muitas vezes azul, não? Buenos Aires é fria no outono, muito mais que no Pampa/Chaco (interior argentino e Paraguai). Estávamos lá em março, a noite esfriava. Mas no verão a capital é um forno. Quem pode escapa pro litoral, especialmente pra cidade de Mar do Prata.

Parece que estamos nos lugares mais desgraçados da África, Sul da Ásia e América Central.

Aí de vez em quando (semanalmente? Quinzenalmente?) passa um caminhão e recolhe.

E não tem porque ser assim. O Forte não é uma favela, é um conjunto.

Digo, há uma invasão numa das faces dele. Mas não é por causa disso. O lixo na rua não é o da favela.

Pois a favela está só de um lado, e o lixo se acumula por todas as partes do Forte Apache, em todas as suas faces.

O Forte não é uma favela. Mas de tão mal-cuidado acaba parecendo uma. E um lugar perigoso, também.

Em março de 17, quando estive na Argentina, li (e fotografei) um jornal que dizia: “uma onda que cresce – sequestraram 5 pessoas em 15 dias na Capital Federal”.

Próximas 3: favela da Vila 31, bem no Centrão – atrás os arranha-céus que a burguesia trabalha, um fica vendo o outro.

Dizia a notícia que os sequestros são no bairro Liniers e imediações, esse que acabamos de descrever.  

Sempre nas proximidades da Auto-Pista, pra facilitar a fuga.

E arrematava: “a polícia já sabe que a quadrilha tem sua base no conjunto Forte Apache, na Cidadela.”

Precisa dizer mais? Por isso essa parte da Zona Oeste é chamada lá de “Velho-Oeste Selvagem”. Porque é bangue-bangue.

Verdade, a violência urbana na Argentina é bem menor que no Brasil.

Mas Buenos Aires é uma cidade violenta. Menos que aqui? Sim, acabei de dizer.

Não há lá as mega-chacinas do tráfico, como em nossa pátria há aos montes.

Nas favelas e periferias de Buenos Aires matam muita gente, mas só no varejo:

Um num dia, dois no outro, na semana sequinte mais um.

10 a 20 de uma vez, só no Brasil, Colômbia, México, África do Sul, esses lugares mais ‘civilizados’.

Noturna do Obelisco iluminado.

Ainda assim, Buenos Aires está violenta. Bem mais do que era lá até duas décadas atrás. Bem mais, sem comparação possível.

Até pouco antes da virada do milênio, assaltos a mão armada aconteciam mas eram raros.

Latrocínios (matar pra roubar) praticamente inexistente, um a cada muitos meses no máximo.

Agora a chapa tá quente de verdade. O ‘paco’ chegou com tudo.

(Trata-se de uma droga pior que o craque, existe também em Brasília-DF e na Amazônia com o nome de merla)

Daqui até o final: periferia da Zona Sul de Buenos Aires, tanto municipal quanto metropolitana (são áreas próximas, basta cruzar o Riachuelo).

Destroçando as favelas e periferias. Fez um arregaço.

Não 2 dígitos de uma vez só como no Brasil.

Ainda assim, as favelas e quebradas portenhas (Capital Federal) e bonarenses (Província) também estão desovando cadáveres em ritmo alto.

Hoje não é mais seguro andar a pé a noite no Centro e bairros ricos, como um dia foi.

E os latrocínios se tornaram corriqueiros, não comovem mais, exceto a família da vítima.

Do lado esquerdo da rua, mais uma carreta Scania (o mercado de caminhões da Argentina – e também Paraguai – é muito parecido com o Brasil) e no direito notamos mais uma vez a falta de saneamento básico.

Buenos Aires mudou muito. Uma pena. Mas é a realidade deles agora, que conhecemos bem aqui.

………..

Promessa é dívida. Por que o título, “o Número da Besta”?

No meu último dia em Buenos Aires, fui conhecer a Feirinha de Artesanato de São Telmo.

Parecida com a do Largo da Ordem em Curitiba, pra quem conhece.

Próximas 3: Avellaneda, região metropolitana. Essa e a próxima no entorno do campo do Racing, com direito a a pichação de campanha política do clube.

Almoçamos num restaurante ‘descolado’. Comida boa, ambiente aconchegante. Mas bem caro. Por isso estava vazio. 

E….não aceita cartão, como é o padrão na Argentina. Tivemos que desembolsar uma boa quantia, e em efetivo. 

Apesar da conta salgada, foi um almoço agradável, o local é todo decorado com quadros, os pratos são gostosos.

E tudo regado ao bom e velho ‘rock’n roll’.

Aqui em frente ao estádio mesmo.

Já na hora de ir embora (e eu estava me despedindo da cidade também, lembre-se) fui dar uma volta, ver os quadros.

Começou a tocar essa música, “Number of the Beast” do ‘Iron Maiden’. Entrei em transe.

Parece que tive um ‘despertar’, como os místicos contam. Tudo se encaixou, entende?

Ainda Avellaneda, que se desenvolve bastante. Prédio de bom padrão e altura sendo erguido.

Foi a trilha sonora perfeita do momento. Deu um estalo em minha Alma. 

Pronto, associei pela Eternidade essa música a Buenos Aires.

Sempre que volto lá (pelo ‘Google Mapas’) puxo ela como pano de fundo. A cidade e a canção agora são um e o mesmo.

Buenos Aires É o Número da Besta!

Outros conjuntos novos subindo.

Está dito. Cada um que interprete como quiser porque fiz essa associação de maneira tão indelével.

..

Que Deus Ilumine a todos.

Ele/Ela proverá

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Com o Rei na Barriga

 princesa marília: dessa vez uma princesa de verdade, coroada

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 1° de março de 2018

Publicamos um desenho chamado “a Princesa e as Flores”, em que Marília se sentiu uma princesa.

Porque andou de carruagem em frente a um castelo, em Vinha do Mar, Grande Valparaíso, Chile.

Mas lá era apenas uma brincadeira. Ela apenas se sentiu Real, sem sê-lo de forma real (com o perdão do trocadilho).

Assim como quando visitou ‘Hollywood’ ela se sentiu uma Estrela de Cinema.

Apesar disso, o convite pra estrelar a próxima super-produção ao lado do Brad Pitt ainda não veio…..rs.

Mas essa aqui é uma princesa de Verdade, de alguma monarquia europeia.

Coroa na cabeça, e luvinhas brancas nas mãos.

Marília na Praia de Carneiros (Pernambuco), de biquíni amarelo.

Trata-se, claro, de mais uma encarnação passada de Marília.

Marília é filha do Rei e da Rainha. Como o Casal Real não teve filhos varões e Marília é a mais velha, um dia ela será a Rainha.

E seu marido o Rei (esse dote pesou bem na escolha dele por ela, não?).

Ela está grávida. Seu filho se for Homem um dia também será o Rei, sucedendo seu avô e pai.

Os pombinhos em Boa Viagem, Recife.

(Ou seu primeiro filho do sexo masculino, caso esse seja uma menina. Machismo, é certo. Mas é assim que funcionava.)

Daí o título, Marília está – literalmente – com o Rei na barriga!

ISSO QUE É VIDA: LUA-DE-MEL NO NORDESTE –

Após o ‘sim’ no altar, jogar o buquê, o ritual todo, Marília e Maurílio saíram em Lua-de-Mel. Primeiro foram a Pernambuco.

Acima a esquerda uma foto que ele tirou dela na Praia de Carneiros, no Litoral Sul do estado.

Os três primeiros desenhos (dois são o mesmo em diferentes escalas) são inéditos, feitos em fevereiro de 18.

Agora adiciono outros que tratam do mesmo tema. A direita eles na capital, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

De mãos dadas em Fortaleza, a cidade do Sol, do Mar, das lagoas, do ‘funk’, e dos ônibus azuis (e brancos).

O avião pousou na capital pernambucana, alias o aeroporto é também na Zona Sul, perto de Boa Viagem.

Na praia eles pediram a alguém que estava ao lado pra tirar o retrato, consagrando o momento.

Marília amarra bem o biquíni, antes que a onda leve e ela passe a maior vergonha de sua vida!

Cruzes!!!! Melhor nem pensar, né? “Deixa eu reforçar bem esse laço”, ela pensa.

……….

Do Recife eles foram descendo de ônibus, uma parada em Carneiros, que fica no município de Tamandaré (não confundir com Tamandaré aqui da Zona Norte da Grande Curitiba, obviamente)

Embarcando novamente, chegaram a Maceió. Aí foi ela quem fotografou ele, Maurílio bem tranquilo a sombra de um coqueiro na Praia de Pajuçara. Ô vidão, hein amigos? Quem não quer??

Esse retrato também é inédito (fev.18): uma Marília Chinesa.

E de Alagoas foram, também por via aérea, pro Ceará. Novamente pediram a um outro banhista que os retratasse, molhando os pezinhos na Praia do Futuro, Zona Leste da capital Fortaleza.

O Casamento começou bem, não acha? Alias melhor não poderia ser…

………

Que Deus Ilumine a todos.

“Deus proverá”

Encanto Multi-Dimensional: a Cidade do Cabo (e do Vinho), um Chacra da Terra

A ‘Mesa-Montanha’ – um Chacra da Terra – é conectada ao Centro e ao resto da cidade pelo moderno sistema de transporte.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de fevereiro de 2018

Quase todas as imagens de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’, de rede. Créditos mantidos quando impresso nas fotos.

Seguindo nossa série sobre a África do Sul, hoje vamos falar mais a fundo sobre a Cidade do Cabo.

Joanesburgo, sobre quem escrevi com mais detalhes em postagem específica, é a maior metrópole do país, e seu epi-centro econômico e político.

Uma cidade muito rica: mansão nos ‘Subúrbios da Zona Norte’ ostenta Audis prateados – “um é pouco, dois é bom“.

Os destinos políticos do país são basicamente decididos em ‘Joburgo’. Fato.

A luta pra derrubar o ‘apartheid’ (desde a ápoca de Gandhi), por exemplo, foi centrada ali.

Mas em múltiplas dimensões o Cabo é principal cidade da África do Sul. Citemos algumas:

– Pra conversa começar, é certamente a cidade mais bonita do país, e uma das mais bonitas do mundo, espremida entre o morro e o mar;

Mas de altíssima concentração de renda: entre as Zonas Norte e Leste, flagrei essa favela, um das muitas da cidade.

– É disparado o principal destino turístico sul-africano. E acredito que o 2° de toda África atrás de Cairo no Egito;

Sediando o Congresso, é uma das capitais da nação (O Chile tem 2 capitais: Santiago executiva e judiciária, Valparaíso parlamentar.

Na África do Sul são 3: em Pretória o Palácio Presidencial, o Cabo capital legislativa, o Supremo Tribunal é na pequena cidade de Bloemfontein);

É a cidade mais integrada da África do Sul hoje. Ali, negros e brancos convivem em (relativa) harmonia. Entre parênteses o ‘relativa’ porque claro que nem tudo no Cabo é um mar-de-rosas.

Castelo do Cabo, feito pelos holandeses em 1679, primeira construção europeia na África. Pra compensar tantos séculos de domínio caucasiano, em abril de 17 havia uma exposição de “História Des-colonizada da 2ª Guerra”.

Mas nas outras metrópoles sul-africanas a coisa é pior. Muito pior, nos Centrões de Durbã e Joanesburgo há um ‘apartheid invertido’: simplesmente não há brancos;

A Cidade do Cabo é tri-língue. Toda comunicação oficial é em inglês, africâner e xhoza.

Veja a direita a porta de um ônibus, ao fundo belo Pôr-do-Sol: integraram os negros, mas sem oprimir os brancos.

No resto da África do Sul, lamentavelmente, não houve essa sensatez:

Ali eles sumariamente eliminaram o africâner da maior parte da comunicação governamental.

Substituindo-o pelos idiomas negros nativos. Novamente vemos o ‘apartheid invertido’ em ação;

– Mas não é só questão de raça, e sim também de classe: o Centro da Cidade do Cabo é civilizado.

O ponto mais marcante do Cabo é que não importa onde você esteja na cidade, você sempre enxerga as montanhas ao fundo. Aqui o Centrão.

Portanto, frequentado – e habitado! – pela classe média, tanto brancos quanto a nascente burguesia negra.

Nos Centrões de Durbã e Jonesburgo, mais uma vez, não funciona dessa forma, abaixo explico melhor;

– Pela corrente de mar gelada que vem do Polo Sul, a Cidade do Cabo tem no geral temperatura amena, contando com verões suaves e invernos frios, em plena costa africana.

Região de classe média-alta próxima ao bairro ‘Woodstock’, Zona Central.

O que a torna diferenciada da maioria das grandes cidades do continente, nesse quesito também;

– Somando clima e herança europeia: a Cidade do Cabo também é uma “Cidade do Vinho”.

Nisso se parece com Mendonça, na Argentina (que visitei um mês antes e sobre a qual igualmente ainda escreverei melhor, em breve);

O sistema de transporte por ônibus da Cidade do Cabo é exemplar, certamente o melhor da África e um dos melhores do mundo.

Indo pra Zona Norte, em primeiro plano o ‘Distrito Industrial’.

Muito bom mesmo,  no mesmo nível dos mais avançados da Europa, Ásia e América –  e eis um assunto que entendo a fundo;

– Por último, mas não menos importante: a Cidade do Cabo é um ‘Chacra da Mãe-Terra:

A Mesa-Montanha cumpre um papel fundamental na rede etérica que equilibra a Energia do planeta.

O riquíssimo bairro “Ponta Verde”, colado ao Centro (com seu famoso trenzinho de brinquedo do parque de diversões).

Quem conhece Ciência Oculta sabe o que estou falando;

Assim, eis a Cidade do Cabo: um epi-centro de suma importância, na 3ª e igualmente na 4ª e 5ª Dimensões.

…………..

Então falemos um pouco mais sobre a cidade, com isso recapitulando um pouco do que já foi escrito nas outras mensagens da série e adicionando novas impressões.

A Cidade do Cabo foi construída, como seu nome já entrega, ao redor de um cabo.

Agora indo pra Zona Sul.

E o que é um ‘cabo’, geograficamente falando? Um península onde a terra avança sobre o mar.

Como esse cabo é montanhoso, a cena mais marcante da Cidade do Cabo é essa (como a legenda já falou):

Não importa em que parte da cidade você esteja, sempre enxerga a serra emoldurando ao fundo.

Bairro (de elite, veja mais um Audi) ‘Campo da Baía’, começo da Zona Sul.

Os primeiros europeus a pisarem na África do Sul foram os portugueses, a caminho da Índia.

A cidade de Durbã (que também terá uma matéria própria, em breve) foi fundada como ‘Porto Natal’.

Os ingleses, quando conquistaram a região, a denominaram – numa hibridização dos idiomas – de ‘Port Natal’.

E o estado a qual ela pertence se chamou ‘Natal’ até o fim do ‘apartheid’.

Aí houve a incorporação do bantustão de KwaZulu, e o estado atualmente se denomina KwaZulu-Natal, pra agradar negros e brancos.

Extremidade da Zona Sul, bairro ‘Baía Hout’, também de alto padrão.

Veja que a palavra ‘Natal’, em português mesmo, permanece até hoje.

Mas da Costa Leste sul-africana trataremos outro dia. Hoje nosso tema é a Costa Oeste.

Até a metade do milênio passado não havia como ir da Europa ao Oriente por via marítima.

Assim as elites europeias, pra importar as especiarias e demais produtos orientais, tinham que recorrer a intermediários árabes.

Nesse mesmo ‘Baía Hout’, outra favela.

Esses comerciantes operavam pela ‘Rota da Seda’ (que agora a China está fazendo uma nova versão).

No século 15, Portugal foi a primeira nação a chegar a Índia pelo mar, contornando a África – obviamente o Canal de Suez não existia.

E pra isso tiveram que passar pelo ‘Cabo da Boa Esperança’, que separa os Oceanos Atlântico e Índico.

Khayelitscha (r), bairro de periferia (com várias favelas) na extremidade da Zona Leste.

Exatamente onde hoje está a Cidade do Cabo, já voltamos pra ela.

Aqui, traçando mais um paralelo histórico, pouco depois os portugueses foram os primeiros europeus a chegarem a América.

(Ao menos oficialmente, alguns dizem que os ‘vikings’ da Escandinávia já havia estado aqui milênios antes.

Nossa bandeira na África; ao fundo sempre as famosas montanhas do Cabo.

Mas como disso ainda não há registros incontestáveis, cristalizou-se no consciente coletivo que foi mesmo Portugal o pioneiro.)

Primeiros a contornar a África, primeiros a cruzar um grande Oceano como o Atlântico.

Definitivamente os lusos dominaram os mares na virada do milênio passado.

Trata-se da Honra-Maior de Portugal, seu próprio mito formador, e por isso em tudo que é português reproduz-se as caravelas.

(Veja o escudo do Vasco da Gama, por exemplo, alias Vasco foi outro navegador.)

Vinho sul-africano com rótulo em português.

No caminho pra África, a Coroa Portuguesa deixou raízes na costa africana, é lógico.

E eles estiveram no Cabo, também. A ‘Mesa-Montanha’, símbolo-mor da cidade, era então chamada de ‘Taboa do Cabo’.

Mais que isso: não é só uma curiosidade histórica, as sementes lusas germinaram e ainda rendem frutos na África do Sul.

Até hoje usam-se termos em português nas fachadas, no Cabo particularmente no ramo da alimentação. Não apenas ali:

prédios com nome em português, fotografei um deles no bairro da Costa Verde, Zona Central do Cabo, um dos mais ricos da cidade.

Em Pretória flagrei a palavra ‘Munitoria’ num espaço público. Portanto esse fenômeno está arraigado em toda África do Sul.

A rede de lanchonetes Nando’s (um ‘Mc Donald’s local’) está presente em todas as maiores cidades sul-africanas.

Linha-Turismo da Cidade do Cabo.

E, bem, Nando’s mesmo já é em português, e eles colocam ‘Bom Dia’ em todas as suas lojas.

Mas na Cidade do Cabo a presença de termos em português é especialmente forte, principalmente como nome de restaurantes.

Veja a colagem acima a esquerda. Especialmente restaurantes na Cid. do Cabo, repetindo.

Mas também exemplos em fachadas de estabelecimentos de outras atividades, e em outras cidades.

Estádio em que houve jogos da Copa/2010; no terreno ao redor um campo de golfe.

A direita um rótulo de vinho. E, não, esse não está assim por ser ‘pra exportação’.

É fato, a maioria dos alimentos produzidos na África do Sul têm rótulo tri-língue, em inglês, francês e português, pois assim pode ser exportado pra África inteira.

Mas aqui não é esse o caso. Até porque não foi exportado, fotografei-o dentro da África do Sul mesmo.

Subúrbios da Z/N: na parte rica da cidade, Mulher branca se exercita numa bicicleta (atrás mais um campo de golfe).

Em Durbã cliquei frases em português no Centrão. Alguém me disse: “ah, deve ter sido um angolano ou moçambicano quem pichou”.

Pode ser. Aquela era a cracolândia de Durbã, não muito longe de onde um noiado me abordou e tive um diálogo tenso com ele.

Então pode ser que nas redondezas morem alguns trabalhadores braçais imigrantes dos países lusófonos africanos.

Não longe dali, mas na porção de periferia do Cabo, negros são transportados em caçambas e compram em feiras em que os produtos ficam expostos no chão. É a África do Sul em Preto-&-Branco, meu irmão . . . P.S.: na vitrine da concessionária 2 Fuscas, carro que a Cid. do Cabo adora!

Alias, em Durbã mesmo falei em português com um deles, eu entrei no elevador e havia 3 negros.

Pedreiros, reformavam o prédio. Eles dialogavam em inglês.

Me perguntaram, e quando informei ser brasileiro, conversei eu e um deles em português, ele era moçambicano.

Então, sim, há alguns falantes lusófonos na África do Sul.

Mas são pouquíssimos, e se concentram na classe operária.

Aérea da cidade (r). Ao fundo a Mesa-Montanha, a esquerda o Centro e depois o porto, aquela bola é o estádio, a frente dele o bairro da Ponta Verde.

Na classe média, porém, quase não há sul-africanos que saibam o idioma com o qual estou escrevendo esse texto.

E mesmo assim há prédios de luxo e muitos, muitos restaurantes que o utilizam. Por que? Porque é chique, oras.

Por isso: no Brasil falamos português, e os edifícios e as vitrines das lojas da burguesia são em inglês.

Bondinho sobe pra Mesa-Montanha.

Na África do Sul é inverso, eles falam (entre outras línguas) o inglês, mas dá ‘status’ usar alguns termos em português.

Como é a Vida, não? Deus é um cara Gozador, e por vontade Dele/Dela tudo mesmo é relativo no Universo

………..

Os portugueses passaram por ali, mas não ficaram. Visavam o Oriente, onde também estabeleceram colônias: Macau que só devolvida a China em 1999, Timor Leste se separou de Portugal em 1975 (e da Indonésia, que o anexou, em 2002).

Colagem (você percebe a emenda) mostra a cidade de cima. Onde há os edifícios altos (comerciais) é o Centro, lá chamado por isso pelo termo britânico ‘C.B.D.’, ‘Central Business District’. Vemos o estádio e logo após ele, encoberto pela montanha, a Ponta Verde. A Cidade do Cabo é bela…

Mumbai, na Índia, era chamada até há pouco de Bombaim. Na verdade o nome não mudou, apenas a grafia. ‘Mumbai’ é como os indianos pronunciavam ‘Bombaim’.

E qual a origem do nome ‘Bombaim’? Por sua vez, já uma corruptela de ‘Boa Baía’, que é como os portugueses chamaram o entreposto que eles fundaram ali.

Falei tudo isso pra mostrar que os portugueses passaram pela África do Sul antes de qualquer outro povo europeu.

…mas também é fera!!! Agora filma as “Cidades de Lata” – o nome é porque nas favelas sul-africanas os barracos são de zinco, parede e telhados. Essa aqui eu cliquei do avião, portanto nas cercanias do Aeroporto, Zona Leste.

Mas ali eles não tiveram interesse em derrotar os nativos e fixar uma colônia. Miravam mais longe.

Assim os primeiros brancos a colonizarem a região foram os holandeses, subjugando os negros habitantes originais da terra.

Em 1679 a Coroa Holandesa concluiu o ‘Castelo da Boa Esperança‘ – pra guarnecer o Cabo da Boa Esperança, que ela considerava sua posse agora.

O Castelo, assim, é a primeira construção europeia de toda África, marcando assim o início da colonização caucasiana do Continente Negro.

Quando foi inaugurado, no fim do século 17, era um forte a beira-mar. Mas com sucessivos aterros hoje o Castelo está algumas centenas de metros terra adentro.

Caminhão 11-13 Mercedão que eu ainda consegui flagrar, mesmo estando num ônibus em movimento e sem estar com a câmera preparada (veja a janela do busão). O bichão é preto e bicudo, cena do passado. Hoje (quase) todos os caminhões da África do Sul são brancos e cara-chata.

Nisso o Cabo apenas imita a própria Holanda, afinal foi colonizada por holandeses – e pra isso subjugando militarmente os negros. 

Mas não tardaria, e os holandeses provariam de seu próprio remédio amargo: o Castelo da Boa Esperança garantiu a posse da Colônia do Cabo por um século apenas.

Em fins do século 18, a Inglaterra chega e exige a capitulação.

Os holandeses resistem, a Real Marinha Britânica reforça o ataque com enorme esquadra, e o Cabo cai, passando pra Inglaterra.

Parte dos holandeses migra pro interior, derrotando os negros e fundando colônias:

Estaleiro ao lado do Centro.

A do Estado Livre Laranja (a cor Real holandesa, lembre-se do uniforme da seleção de futebol) e do Trans-Vaal, como o nome indica após o Rio Vaal (conhecida como ‘República Sul-Africana’, não confundir com o país atual que é a ‘República da África do Sul’).

Na virada do século 19 pro 20, a rivalidade anglo-holandesa na África do Sul volta a ferver, e estouram as duas ‘Guerras dos Bôeres’.

Foi nessa ocasião que a Inglaterra inventa o campo de concentração, prendendo nele civis, os Homens não-combatentes, junto com as Mulheres, crianças e velhos.

O famoso farol do rico bairro da Ponta Verde. É útil a noite. De dia, a Mesa-Montanha é um farol natural, vista a dezenas de kms mar adentro.

Viu? No consciente coletivo Hitler, Stalin, Mao e Pol Pot é quem estão associados a palavra ‘campo de concentração’, e de fato eles fizeram intensivo uso desse instrumento.

Mas quem o criou foi a Inglaterra, nunca te esqueças disso, porque isso a maioria das pessoas ignora.

No fim a Inglaterra bate novamente no campo de batalha os descendentes de holandeses, e unifica toda África do Sul como sua colônia.

Próximas 6: a orla na Ponta Verde. Aqui, a burguesia fazendo exercício no calçadão (“nem parece que estamos na África”, na definição de um morador negro local).

Isso cria um ressentimento intenso entre os ingleses e os bôeres (africâneres, os sul-africanos de ascendência holandesa), que persiste até hoje.

Apenas pra consolidar o ‘apartheid’ contra a resistência negra é que africâneres e ingleses se unem na África do Sul, enfim se descobrindo como ‘brancos’ em comum.

Ou seja, quando os negros foram dizimados no campo de batalha, os europeus brigaram ferozmente entre si, inclusive encerrando civis no campo de concentração.

Apenas quando os negros se levantaram de novo é que os brancos se uniram, subitamente valorizando mais as coisas que os uniam que as que os separavam.

Essa parceria entre os descendentes de europeus se acentuou mais ainda no fim do século 20.

A partir da ‘Revolta Estudantil de Soweto em 76′, que foi duplicada em 1984, o ‘apartheid’ entra na defensiva.

Os negros renovam sua ofensiva, agora apoiada pela opinião pública internacional e mesmo uma porção significativa dos brancos sul-africanos.

Aí, pra tentar impedir a queda do regime racista, as elites inglesas e africâneres juntam suas forças.

Nesse trecho não dá pra entrar direito no mar, a água é gelada e há musgos. Mas as pessoas aproveitam pra caminhar na areia.

Não adianta nada, o fim chegara, em 1990 Mandela é libertado, e em 1994 ele assume como 1º presidente negro da nação.

Alias Mandela estava preso, como sabem, num presídio de segurança máxima localizado na Ilha Robben, na costa da Cidade do Cabo.

Então o regime racista caiu, felizmente. Já contamos essa história com mais detalhes antes.

Um pai levou o filho pra molhar os pés, observados por uma colônia de gaivotas.

Aqui, é apenas pra reforçar o fato que os europeus brigaram violentamente entre si, na África também. Violentamente. E ficou até hoje um ressentimento.

Até hoje os africâneres lembram das crueldades que os ingleses fizeram contra eles.

Eles só não tocam no ponto que eles fizeram exatamente o mesmo contra os negros, mas essa já é outra história.

Ainda a orla central do Cabo, na África do Sul (como nos EUA) você pode personalizar a placa de seu carro – a verde que diz ‘ZN’ não é ‘Zona Norte’ óbvio, mas Zulu/Natal, ou seja, esse veículo cinza cruzou todo país de ponta-a-ponta. E o outro carro é um Novo Fusca.

Até porque, como dito, após os negros terem tomado o poder eles, os negros, se vingaram.

E impuseram algumas medidas de ‘apartheid invertido contra os brancos:

No Cabo não, mas nas outras cidades baniram o africâner da comunicação oficial.

E no Cabo e toda parte impuseram ‘cotas raciais’, mesmo na iniciativa privada e muito mais na governamental.

Cotas raciais era exatamente o que ‘apartheid’ fazia, porém a favor dos brancos.

Com mais essa colagem, fechamos (por hora) a Ponta Verde. Eu disse que o parque da Beira-Mar tem uma arte peculiar, veja essa curiosíssima estátua de um rinoceronte, vide a próxima foto pra explicação; Depois observamos um casal, ele entrou no mar pra praticar um esporte em que você rema de pé num caiaque, modalidade muito popular (entre os brancos) na África do Sul. Sua esposa/namorada o espera na areia; E por fim placas, nos detalhes as cenas ampliadas.

Assim, quando os negros fazem o mesmo, ninguém chama de ‘apartheid’. Mas é.

O ser humano é sempre o ser humano, e o poder cega e corrompe. Negros, brancos, todos são iguais.

Não estou tomando partido de nenhum lado, apenas relatando o óbvio:

Quando oprimidos, todas as raças clamam por ‘justiça’.

Mas uma vez no poder todas as raças agem igualmente de forma desumana:

Você só identifica o paquiderme de longe (r). A estátua tem várias camadas, apenas quando você atinge essa distância elas se encaixam pra fazer sentido. De mais perto fica desconexo, abstrato

Exigem e se possível impõem privilégios pra si mesmas. O poder corrompe.

…………

Enfim, contei tudo isso pra mostrar que a Cidade do Cabo é a Gênese e ainda hoje o Zênite dos africêneres (holandeses) na África do Sul.

Como a língua africâner é um dialeto da holandesa, podemos dizer que o Cabo é a maior cidade holandesa fora da Holanda, assim como Durbã é maior cidade indiana fora da Índia.

Um pouco mais da periferia, então. Estamos na auto-estrada, indo pra Atlântida, afastado município da Zona Norte. Mas aqui ainda é dentro da Cidade do Cabo. Nas dunas, entre a rodovia e o mar, uma miserável favela surgiu: casas de zinco no meio da areia, sem água, luz ou saneamento básico (aquelas caixas em verde são banheiros químicos que o governo instalou pra não ser ao ar-livre mesmo). Parecem os acampamentos dos beduínos na Palestina.

Na Cid. do Cabo o africâner não foi banido, como já dito várias vezes. Até porque o africâner é a língua-mãe de 75% dos ‘mulatos’, os xhoza. Se você vê os xhozas e é leigo, pensa que são negros.

Mas eles se definem assim, como ‘mulatos’ e não como ‘negros’. Ainda assim, na classificação brasileira eles seriam negros. E falam africâner, como sua primeira língua, veja você.

Há quase o dobro de ‘mulatos’ (que aqui no Brasil nós consideraríamos negros, eles têm a pele bem escura)  usando o africâner como idioma-materno, 4,8 milhões (3/4 do total de ‘mulatos’, como dito) que brancos, 2,7 milhões (60% dos total de caucasianos).

Entretanto, se considerarmos os que oficialmente se denominam ‘negros’, quase não há falantes se africâner como 1ª língua, só 1,5% deles, 600 mil pessoas. Esse é o outro ponto de atrito entre ‘negros’ e ‘mulatos’, abaixo falo mais disso.

Maurílio beijando o ‘Solo Sagrado’ da orla central do Cabo (desenhei até a escultura do óculos ao fundo).

Aqui dizíamos que as cidade do Cabo é mais integrada racialmente da África do Sul. De fato, os brancos tampouco se auto-baniram do Centro, ao contrário de Durbã e Joanesburgo.

Na verdade não é uma questão só de raça, mas também de classe. A classe-média sul-africana é integrada, desde a classe média-baixa até a alta burguesia.

A elite ainda é majoritariamente branca, as favelas ainda são 98% negras (exceto quando indicado, quando eu uso o termo ‘negro’ eu quero dizer ‘africano nativo’, portanto isso inclui tanto os que se auto-definem como ‘negros’ oficialmente como os que se dizem ‘mulatos’).

Agora estamos em Atlântida, Grande Cid. do Cabo. Curiosamente, as casas proletárias da África do Sul lembram as do Paraguai.

Mas na classe média, em todos os seus sub-estratos, negros e brancos (em Durbã também indianos) hoje convivem em razoável harmonia.

Trabalham juntos, e se casam entre si. Vimos vários casais inter-raciais na orla de Durbã.

O que mostra que se o nível de renda e educação é similar já não há mais aquele racismo arraigado e intrínseco da época do ‘apartheid’.

Agora a divisão é mais de classe que raça, repito. Na classe média há brancos, negros (em menor parte também indianos), inclusive compartilhando a mesma cama em alguns casos.

Ainda Atlântida, uma mercearia (‘tuck shop’ no termo local).

Mas a burguesia, da raça que for e hoje todas estão presentes, em Joanesburgo e Durbã não frequenta mais o Centrão.

Ali só há povão, apenas negros em Joburgo, negros e indianos em Durbã.

Os burgueses, sejam brancos, negros ou indianos, moram e trabalham em seus subúrbios exclusivos, longe do Centro.

Mas na Cidade do Cabo é diferente. Essa é a única cidade mais integrada da África do Sul. Logo ao lado do Centrão há o bairro da Ponta Verde (‘Green Point’ no original).

Colagem mostra comércio em diversos bairros do Cabo. Algumas notas: 1) Há 3 termos pra ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’ – o termo ‘ette’ indica diminutivo, como ‘disquete’ é um disco pequeno, ‘superette’ é um mercado pequeno; 2) Os indianos dominam boa parte das mercearias da Cid. do Cabo, por isso os nomes com referência ao Islã (o que chamam de ‘indianos’ na África do Sul inclui também paquistaneses e bengalis, que são muçulmanos); 3) a Coca-Cola é oni-presente na África do Sul, seu nome estampa não apenas praticamente 100% das fachadas de mercadinhos, lanchonetes e restaurantes populares, como também está presente em estabelecimentos que nem vendem comida ou bebida, como floriculturas, fliperamas e farmácias; e 4) Pegando carona no ‘superette’, essa lavanderia (‘laundry’ em inglês) se denominou ‘laundrette’, a ‘pequena lavanderia’.

Um local da alta burguesia, com carros caros.

(Alias uma nota sobre isso. Eu não participo da fetichização dos automóveis, bem ao contrário.

Não tenho carro, e me desloco basicamente de ônibus e a pé.

Então aqui quando estou citando as marcas BMW, Audi, Porsche, Mercedes, não é pra cultuá-las, porque exatamente ao contrário já tirei todas do pedestal.

Mas cito apenas pra que dimensionem o padrão de renda. Me perguntaram se “existem ricos na África”. Respondi: “E como!!”)

Voltemos. O bairro da Ponta Verde é de alta burguesia, tipo a Gávea no Rio. E ele é vizinho ao Centro.

Em Durbã, que também é litoral, o bairro da orla colado ao Centro é exatamente o inverso:

Uma região periférica, totalmente proletária, que por isso apelidei de ‘Bronx a Beira-Mar, referência óbvia a Nova Iorque/EUA.

Em Durbã, a orla chique já é bem longe do Centro, não dá pra ir pé certamente, a não ser que alguém esteja disposto a caminhar entre uma hora e meia a duas horas.

Próximas 2: panorâmicas tiradas do alto da Mesa-Montanha. Aqui o Centro e Porto.

Mas no Cabo não. Em 15 minutos andando você sai do Centrão e está num reduto extremamente elitizado.

Mais que isso: entre a ‘Ponta Verde’ e o Centro está surgindo um novo bairro de elite, com canais.

Num projeto similar ao de Porto Madeiro em Buenos Aires/Argentina.

Do outro lado do Centro está ‘Woodstock’, onde fiquei hospedado. O bairro é dividido ao meio pela Avenida Vitória.

Girando a câmera pra esquerda, o rico bairro de Campo da Baía (‘Camps Bay’ no original), em duas escalas – e no detalhe um roedor que vive nas pedras no topo da montanha.

Entre ela e o porto, onde está a linha de trem é bem popular, em alguns pontos quase um gueto, ou inclusive pode tirar o ‘quase’.

Tanto que na Vitória mesmo há bastante povão, a massa mesmo. Mas da Vitória pra cima é diferente.

E ‘pra cima’ tanto na geografia física quanto na humana. Topograficamente, é literal, você vai subindo um morro.

Em mais uma colagem, vamos ver alguns detalhes da África do Sul. Lá (e na Argentina também) os extintores são vermelhos, como no Brasil. Parece óbvio, não? Pensamos que é assim em todo lugar. Mas não é. Na Colômbia os extintores são multi-coloridos, há os verde, amarelos, e … até os vermelhos, depende da categoria. Agora um ponto em que os extintores da África do Sul (e, novamente, também os da Argentina) são diferentes dos do Brasil: nesses 2 países eles são tri-modais. Ou seja, categorias A, B e C num único aparelho. Você vê um fogo, não precisa se preocupar em saber se o que está queimando é papel ou a caixa de força do prédio, e nem precisa ler rótulo, qualquer extintor serve pra todos os tipos de incêndio. Bem mais inteligente, concorda? Falando de outra coisa, ‘rua-sem-saída’ na África do Sul e ‘Cul-de-Sac’. E, como já mostrei melhor antes, na ‘Riviera do Cabo’ as garagens de alguns prédios são no teto.

Porém, socialmente você também vai ascendendo. A parte alta de ‘Woodstock’ hoje é um bairro de classe média-alta, habitado por todas as raças mas majoritariamente por brancos.

Essa nova configuração é recente. Até depois da virada do milênio, todo ‘Woodstock’ (dos dois lados da Vitória, a parte alta e baixa igualmente) era proletário, um bairro de periferia.

Na última década e meia passou por agudo processo de aburguesação, e verdade seja dita, o que também levou a um embranquecimento. Sim, hoje há burguesia negra, e ela está presente ali.

Mas os brancos ainda são mais numerosos nas classe elevadas, por isso ‘Woodstock’ hoje está mais caro, e mais claro. O perfil não é tão elevado quanto na Ponta Verde, verdade.

Seja como for, dos dois lados o Centro do Cabo é cercado por bairros burgueses, de alto padrão – e está surgindo mais um, e esse de altíssimo padrão.

Nas outras cidades sul-africanas isso não ocorre, jamais. A África do Sul, como já dito, tem o modelo anglo-ianque de urbanização:

A classe média fugiu da Zona Central a décadas, e vive em subúrbios afastados exclusivamente residenciais, algumas vezes em conjuntos que as casas são todas iguais (nem sempre, em muitos casos cada um faz a sua como deseja).

O que nunca se altera é que o deslocamento das pessoas se dá exclusivamente via automóvel, até mesmo pra comprar pão é preciso ir motorizado.

Na África do Sul os brancos adoram ‘rugby’, mas eles jogam também futebol. Os negros, por sua vez, adoram futebol, mas detestam ‘rugby‘, jogam basquete sim mas ‘rugby’ jamais, pelo menos entre o povão. O que gera uma situação curiosa. Você sabe a classe social de um bairro só olhando pra trave na sua cancha de esportes. Nas caras escolas particulares da elite e alta burguesia, os campos só tem trave de ‘rugby’ (aquele ‘y’, igual a do ‘futebol americano’). Nas periferias, os campos inversamente só tem a trave de futebol, como os nossos aqui. E na classe-média? Bom, aí a trave é mista, bi-modal, um ‘h’, que permite fazer tanto o gol do futebol quanto o de ‘rugby’.

Não preciso descrever como é. Se você já esteve nos EUA (ou Inglaterra), você já viu com seus próprios olhos.

E mesmo quem nunca cruzou o oceano conhece o padrão pelos filmes.

A África do Sul é assim também. Só que pior. Nos EUA/Inglaterra, os brancos vivem no subúrbio.

Mas trabalham no Centro. Claro, há muitos ‘centros empresariais’ nos subúrbios também.

Mas ele ainda não sufocaram o Centrão. Durante o dia, no horário comercial, você vê uma multidão de brancos de classe-média no núcleo central das cidades anglo-ianques.

Sim, no fim do expediente (no máximo depois do choppinho de descontração no bar) eles pegam seus carrões e vão embora, pela auto-estrada.

A noite e nos fins-de-semana são poucos os caucasianos no Centro.

Na Cidade do Cabo, em qualquer parte da cidade que você esteja, é comum as revoadas de pássaros, pois além do mar há inúmeras lagoas com vegetação natural em torno.

Mas de segunda a sexta eles são muitos, em muitas cidades majoritários. Isso nos EUA/Inglaterra.

Na África do Sul é pior que isso, repito. Em Joanesburgo e Durbã, o Centro das metrópoles viraram guetos gigantes, e nem ninguém de classe-média (da raça que for) ousa pisar ali.

Ressalto de novo pra que fique claro. Uma geração após o fim do ‘apartheid’, surgiu uma ainda pequena mas extremamente pujante burguesia negra.

Próximas 10: o litoral da Zona Norte da Cidade do Cabo. Aqui na praia, obviamente. Ao fundo vemos os prédios do centro de um subúrbio da cidade (a moda dos subúrbios ianques, muita gente da burguesia não vai mais ao Centrão, vive e trabalha no subúrbio). E por que não tem ninguém na água (fora surfistas com roupa térmica)? Porque não dá pra entrar: por conta de uma corrente gelada que vem do Polo Sul, o mar na Costa Atlântica do Cabo é absurdamente gelado. Congelante mesmo, impossível ficar dentro. Entrei, mergulhei rapidamente 2 vezes somente pra sentir como é estar imerso no Atlântico em sua outra margem, e saí. Apenas nos meses mais quentes do verão talvez, mas fora isso sem chances (em Valparaíso no Chile é igual, e pelo mesmo motivo). De volta ao Cabo, isso é assim nas Zonas Norte e Sul. Na costa da Zona Leste é o Oceano Índico, e ali a água é quente. A Cidade do Cabo não tem Zona Oeste, pois (como em Porto Alegre-RS) o Centro está no ponto mais ocidental da cidade, a oeste dele só tem água.

Hoje, você vê negros dirigindo BMW’s, Audis, Mercedes, caminhonetes, utilitários, carros de alto calibre mesmo.

Mas os negros de padrão mais elevado, em Joburgo e Durbã, também se auto-segreram.

Eles tampouco querem contato com a massa:

Vivem em subúrbios a moda ianque (muitos com portões na entrada, só entra morador ou seus convidados).

E portanto essa burguesia negra não se mistura com a ralé no Centrão.

A classe fala mais alto que a raça, quanto de dinheiro cada um tem se sobrepõe ao fato que tem o mesmo tom de pele.

Perto do Centro e no próprio Centrão é a periferia deles, onde moram os pobres.

Bem, o próprio ‘Woodstock’ tinha esse perfil até pouco depois do ‘apartheid’.

Os ricos e mesmo a classe média-alta moram longe, muito longe.

Vimos a direita a “Praia do Pôr-do-Sol” (na Cidade do Cabo o Atlântico fica a oeste, então o Sol se põe no mar) – agora vamos ver as casas que são no bairro em frente a ela: a África do Sul tem o modelo de urbanização anglo-ianque, como dito. Os ricos moram em mansões (nunca em prédios, com raras exceções da Beira-Mar central), e sempre que possível sem muros – em se tratando da África do Sul, ressalte-se ‘sempre que possível’, muitas vezes não é. Mas essa não tem muro – e nem calçadas, ninguém anda a pé no bairro.

Bem protegidos pela distância – e na África do Sul também por patrulhas particulares armadas até os dentes.

Entretanto, enfatizo, a Cidade do Cabo é exceção – parcial, claro.

As imagens ao lado ilustram, mesmo no Cabo a imensa maioria dos burgueses vivem nos subúrbios a moda dos EUA.

Ainda assim, é a única cidade em que ainda existe burguesia no Centro.

Ali você vê muitos brancos, e também os negros que ascenderam na escala social.

Não apenas trabalhando, mas eles vivem ali, andam a pé fazendo compras, etc.

No resto da África do Sul (com exceção de Pretória, que é bem menor) isso seria uma miragem:

Essa aqui é em frente a praia mesmo, veja a areia no chão. Não há avenida beira-mar com barzinhos, comércio, trânsito, ônibus, porque o bairro é estritamente residencial de altíssimo padrão. Você só vê loiros de olhos claros na praia, parece que está na Suécia. O tráfego, transporte coletivo, comércio etc, são na avenida principal que é fora do bairro.

Em Durbã, os burgueses (de todas as raças) frequentam a praia, mesmo perto do Centro. Sim.

Mas eles moram bem distante, e vão de carro, param ao lado da areia.

E aí eles curtem o dia ali, entram no mar e também tomam Sol, petiscam, almoçam/jantam nos bares e restaurantes, compram nos centros comerciais.

Mas, estou falando de Durbã lembre-se, eles nunca saem da orla.

Circulam pelo calçadão, mas jamais, em tempo algum, andam pelo bairro – nem mesmo pela Beira-Mar.

Mato a cobra e mostro o pau. ‘Praia do Pôr-do-Sol’, Zona Norte da Cidade do Cabo. Ao fundo o Centrão, emoldurado pela Mesa-Montanha. A direita uma família curte a praia (de roupas pois a água é tão gelada que não dá pra entrar, mesmo em dia de sol forte). Todos os frequentadores da praia tinham a mesma alvíssima tez.

Eu fiquei a duas quadras da praia em Durbã. Todos os apartamentos têm grades nas portas, como nas piores favelas e guetos brasileiros. Alguns prédios vão mais além:

Chegam ao extremo de ter aquelas portas giratórias de metal que barram quem não é autorizado (iguais as que existem nas estações de trem de subúrbio no Brasil) – e isso na Beira-Mar!!!

Então, no Cabo é bem diferente. Ali a orla ainda é chique e elegante, reservada aos que podem pagar muito.

Outro exemplo: sem muro, e sem calçada.

Claro, eu disse que a exceção é parcial. A imensa maioria dos burgueses do Cabo também moram em subúrbios – estamos na África do Sul, afinal.

Ainda assim, há uma porção deles próximo ao Centro, e mesmo já dentro dele.

E eles andam nas ruas, sem o medo iminente de serem sequestrados ou assassinados.

Pra que não reste dúvidas: sem calçadas dos dois lados, não há comércio no bairro, pra tudo tem que ser de carro. E que carros, hein? BMW, nesses bairros só dá as máquinas alemãs, Porsches, Mercedes e Audi também.

Some tudo: uma grande proporção de europeus; clima frio por causa da corrente marítima polar, um vale protegido por uma serra.

Resultado: a Cidade do Cabo é um centro vinícola de primeira qualidade, de mesmo nível de seus congêneres europeu e sul-americano.

Como um negro (mulato na verdade, falo disso abaixo) definiu a duas meninas alemãs mochileiras, que conheciam a África sozinhas e a pé:

Uma Mercedes. Vemos o nome do praia (e do bairro), e o nome da rua numa pedra no solo, traço típico da África do Sul. O condomínio geo-referenciou seu endereço.

A Cidade do Cabo é África. Mas não parece”. Rááá!!! Gostou dessa definição?

………….

Durbã, do outro lado do país, é o reduto dos ingleses, ali há pouquíssimos descendentes de holandeses.

E também dos zulus. Evidente que há outras etnias negras, porém essa é a predominante. Não por outro motivo por estado se chama KwaZulu-Natal.

De novo sem muro. Isso é que é vida, não acha?

No Cabo, inversamente, embora também hajam muitos ingleses, os africâneres que descendem dos holandeses são bastante numerosos e visíveis.

E, entre os negros, ali há poucos zulus, a maioria dos negros é de ascendência xhoza.

Alias, os xhoza nem mesmo se denominam ‘negros’, mas ‘mulatos’.

Essa mansão tem muros. Mas calçada … nem pensar, né?

Se você que é leigo nesses nuances anda na Cidade do Cabo, os negros sul-africanos se parecem dessa forma, como ‘negros’.

Entretanto, lá se eles se auto-definem de maneira diferente, majoritariamente como ‘mulatos’.

Segundo o Censo, os negros, assim oficialmente denominados, predominam no Leste e Norte do país, o reduto dos zulus e sothos, respectivamente.

Pra fecharmos as praias da Zona Norte, uma feirinha estilo brechó. Essa é chique, a beira-mar, bem diferente da que vimos acima na periferia. Claro que há negros, não há mais ‘apartheid’ e surgiu uma burguesia negra. Mas a maior parte dos frequentadores é branco.

Nas províncias (estado) do Cabo (hoje foram divididas em 3 após o fim do ‘apartheid’, antes uma só que pegava mais da metade [55%] da área do país, em sua porção ocidental) os xhoza são majoritários, como já dito.

E os xhoza, não sei se por suas raízes étnicas distintas, se declaram mestiços (‘coloured‘ no original) e não somente negros puros.

Na Cidade do Cabo mesmo há um pouco mais de ‘mulatos’ que ‘negros’, 42 contra 38%.

Ressalto que entre esses que se chamam ‘negros’ muitos não são originalmente da região, migraram pra lá pra trabalhar, alias boa parte dos migrantes são de outros países africanos.

que

Há uma burguesia negra, sim. Mas a maior parte dos negros ainda é da massa, do povão. Veja as ‘feirinhas’ deles – na verdade são camelódromos com maior ou menor grau de organização. As duas primeiras no Centro, a esquerda na praça central que é o terminal das (por ordem de utilização) vans, ônibus e trens – as lojas são em latões de carga de navios. Destaquei uma cabeleireira, como as negras precisam cuidar muito do cabelo pra ele crescer, há salões em plena via pública, esse ainda é no ‘container’, há os que só põe uma lona ou nem isso; a figura do meio no Centrão, e a última no bairro ‘Woodstock’, Zona Cenral.

Mas no interior das 3 províncias (estados) do Cabo (Cabo Oriental, Ocidental e do Norte, até o fim do ‘apartheid’ eram 1 só, repetindo) os ‘mulatos’ dominam amplamente.

É comum eles serem de pelo menos 60 até 90% da população, e isso da população total que inclui os brancos.

Porém fora dos 3 Cabos, os ‘mulatos’ começam a diminuir.

Nos municípios e cidades perto da divisa com os 3 Cabos eles muitas vezes ainda são 20% da população.

E quanto mais pro leste você vai indo, menos ‘mulatos’ vão tendo, longe da divisa com os Cabos é raro eles chegarem a 5% dos habitantes de qualquer lugar.

Vibrando na mesma frequência, agora a passarela da estação de trens de ‘Woodstock’ num belo fim-de-tarde (veja o Sol refletido na montanha): a galera se vira como pode.

Não é uma questão apenas de linguagem:

Os brancos, na virada dos anos 70 pros 80 tentavam impedir a queda do ‘apartheid’.

Aí eles criaram 2 ‘parlamentos’ de fachada, sem poder real, um pros indianos e outro pros mulatos.

Até então, só euro-descendentes podiam votar.

Ao estender esse direito a indianos e mulatos, mas ainda negando aos negros, a estratégia do regime racista era claramente ‘dividir pra dominar’:

Voltando pro Centrão: terminal de vans, o camelódromo com ‘containeres’ é em frente.

Dividir os que têm pele escura em duas categorias, de um lado indianos e mulatos que não têm poder real mas aparentemente o têm, na narrativa;

E de outro os negros, esses sem poder tanto na teoria quanto na prática.

O ‘apartheid’ enfim caiu mesmo, mas a rixa entre ‘negros’ e ‘mulatos’, bem explorada, aumentou.

Próximas 5: mais cenas do Centro, o busão da ‘Golden Arrow’ (um dia foi dourado mesmo!) tenta fazer alguma concorrência as vans – a frente dele 2-andares da Linha Turismo.

Zulus e xhozas, grosseiramente falando os que se denominam ‘negros’ e ‘mulatos’ respectivamente, se mataram violentamente nos tumultuados anos da queda do ‘apartheid’.

Você vê: houve uma ocasião que os brancos brigaram violentamente entre si.

Pois bem. Os negros fizeram o mesmo. Como eu disse, o ser humano é sempre o mesmo, a pele não torna ninguém melhor ou pior.

Sempre com as montanhas ao fundo.

Quando afloram disputas pelo poder, não há qualquer solidariedade real, apenas interesses.

Seja como for, assim é a Cidade do Cabo: reduto dos africâneres (descendentes de holandes) e dos xhozas que se dizem ‘mulatos’.

Durbã, do outro lado da nação, é o oposto: o bastião dos britânicos e dos zulus que se auto-denominam ‘negros’ puros.

No Centro do Cabo existem brancos, as raças se mesclam melhor.

No antigo Trans-Vaal, cujo núcleo é hoje Gauteng onde estão Joanesburgo e Pretória, é um meio-termo, uma zona de transição.

Tanto entre os brancos quanto negros há um equilíbrio entre as etnias ali.

Nesse caso, nenhuma predomina absoluta como nas pontas do país.

“Do nada a lugar nenhum”, esse viaduto está parado, dinheiro jogado no lixo. Veja aquele rapaz a esquerda, devia ser um guardador de carro, mas ao ver a oportunidade surgir, se metamorfoseou em guia turístico: quando percebeu que éramos turistas, se ofereceu pra nos levar na parte nova do Centro, onde estão fazendo conjuntos residenciais e comerciais de alto padrão, a algumas quadras dali. Seus serviços são pagos, claro. Demos a ele alguns Rands pela orientação.

Vejamos: na área rural de Gauteng e no vizinho Estado Livre (antigo ‘Estado Livre Laranja’) há muitos brancos africâneres fazendeiros.

Em alguns municípios majoritariamente rurais os brancos chegam a 40% da população.

E nesses lugares no interior em que os brancos conseguem ser mais de 1/3 até quase metade da população, a maioria é africâner, a minoria inglesa.

Mas nas metrópoles os brancos, de todas as etnias, nunca passam de 15% (20% em Pretória, que é um pouco menor).

Em Joanesburgo não há predomínio nem inglês nem africâner, ambos se fazem presentes em bom número.

Ou seja, em Gauteng há muito mais africâneres que em Durbã, mas (considerando só as cidades maiores, excluindo o interior) bem menos que no Cabo.

A direita na imagem, essa é a parte nova do Centro que falei (ainda está em obras, fez sucesso e sendo ampliada), prédios caríssimos com canais em frente, assim os brancos sul-africanos podem praticar um de seus esportes preferidos (esse caiaque que você rema em pé) sem sair de casa. A esquerda um outro na mesma modalidade, esse até com roupa própria pro frio (eu disse que a água é gelada) e na praia.

Quanto aos negros, fora dos 3 Cabos os xhozas são mais raros. Mas isso não significa que os zulus sejam hegemônicos.

Em Gauteng os negros da etnia sotho são mais numerosos que os zulus, por exemplo.

Há bem mais zulus que no Cabo, mas bem menos que em Durbã.

Como disse, nas pontas do país a coisa é mais polarizada entre as etnias.

No centro geográfico da África do Sul (centro-leste, na verdade) há um equilíbrio maior.

Você pode conferir todas as estatísticas na página da página da Wikipédia.

Próximas 4: ‘Woodstock’. A parte baixa do bairro, perto da linha do trem, ainda é periferia.

……..

A rivalidade leste-oeste na África do Sul respinga até na astronomia:

Em Durbã eles dizem: “o Sol nasce aqui”. No Cabo respondem:

“Pode ser. Mas pelo menos pra se pôr o Astro-Rei escolheu um lugar agradável”….rs.

Aqui e a direita: na parte alta, subindo a montanha, houve tremendo aburguesamento.

…………

O que mais podemos dizer?

Falamos nas legendas que a Cidade do Cabo tem um sistema de transporte público exemplar.

Não há metrô nem bonde moderno (VLT), e o sistema de trens de subúrbio funciona muito mal, como sempre na África do Sul.

Mas os ônibus . . . que belezura !!! Não devem nada pros melhores sistemas da América, Ásia e Europa.

Já fiz matéria específica sobre o transporte, onde conto tudo em detalhes com centenas de fotos, confira.

Próximas 2: Av. Vitória, que divide as 2 metades.

O destaque negativo é que infelizmente a Cidade do Cabo se tornou a cidade mais violenta da África do Sul, e uma das mais violentas do mundo.

Foram nada menos que 2,4 mil assassinatos em 2015, uma tristeza.

Só que as mortes se concentram quase todas entre os negros (daqui pra baixo quando eu usar o termo ‘negro’ quero dizer ‘africanos nativos’, tanto os que se denominam ‘negros’ mesmo como os ‘mulatos’) do fundão da periferia.

De forma que ninguém se importa muito, nem mesmo a burguesia negra.

Destaquei a rede nacional de mercados ‘Shoprite‘ (corruptela de ‘Shop Right’, ‘Compre Certo’).

OK, justiça seja feita, não é muito diferente do Brasil.

Apenas aqui nunca houve ‘apartheid’, então a questão é mais de classe que de raça.

Em São Paulo e no Sul do Brasil, a periferia sangra de maneira idêntica, e nessas partes a maioria dos mortos é branca.

Próximas 2: clube na orla da Zona Central, com piscinas públicas frequentadas pela classe-média.

Mas mesmo nas porções mais quentes do país, onde a maioria da periferia é mulata (ou em algumas partes negra), ainda há uma grande proporção de brancos.

E de Norte a Sul, todos, de todas as raças, sofrem juntos com a violência urbana, sob indiferença das classes mais elevadas. Isso no Brasil. 

Enquanto que na África do Sul a questão envolve além de classe a raça: 97% das vítimas de violência são negros, muitas vezes mortos por outros negros.

Novamente, sob a indiferença das classes mais elevadas, e parte da burguesia agora também é negra.

Antigamente, nos tempos do ‘apartheid’, Joanesburgo concentrava o grosso da violência urbana no país.

Sim, ‘Soweto’ liderou a resistência contra o regime racista. Mas ‘Soweto’ era, também, sinônimo de crimes cometidos de negros contra negros.

Quando a África do Sul se agitou a partir da segunda metade dos anos 70 pra derrubar de vez o ‘apartheid’, os negros por um lado se uniram pra lutar contra o inimigo.

Próximas 7: na mesma região, a Beira-Mar riquíssima da Ponta Verde e imediações (puxando a fila uma BMW, atrás um Audi).

Sim, verdade. Mas também é verdade que, na convulsão que a nação mergulhou, os negros cometeram muitos massacres contra os próprios negros.

E isso também se concentrou em Joanesburgo, muitas vezes em Soweto e imediações.

Mas houve matanças nos bairros e favelas negros em outras partes da cidade.

Durbã e a Cidade do Cabo, principalmente essa, eram mais calmas, não participaram tão intensamente dessa catarse.

Mas desde a queda do ‘apartheid’, a praga da violência urbana engolfou a África do Sul como uma peste negra.

São milhares de mortos em cada metrópole, a cada ano.

Em Joanesburgo a violência sempre foi alta, aumentou mais, mas desde então caiu um pouco.

Em Durbã era menos que Joanesburgo e mais que no Cabo, igualmente explodiu na virada do milênio.

Mas de lá pra cá também reduziu bem. Ainda bem alta, mas menos que já foi.

Na Cidade do Cabo, infelizmente, os índices de assassinatos ainda não baixaram desde que foram pra estratosfera duas décadas atrás.

Uma cidade tão linda, mas com uma periferia que sangra. Lembra muito o Rio de Janeiro, no melhor e no pior.

Também já fiz matéria específica sobre a periferia, onde falamos de tudo isso muito mais amplamente.

……….

Voltando a parte riquíssima da orla, acima vemos um complexo no que eles chamam de ‘Beira-Mar (‘WaterFront’). Há restaurantes, comércio, espetáculos culturais, diversas atrações pros turistas e pros moradores locais.

Dali sai a balsa pra ilha Robben, onde fica fica o antigo presídio (agora museu) onde Mandela foi preso.

Mandela foi solto, o ‘apartheid’ acabou, ele se tornou presidente. Assim, chega da falar de conflitos. Vamos falar da resolução de conflitos.

Fechamos a orla da Ponta Verde. ‘SABC‘ (‘South Africa Broadcasting Corporation’) é a rede pública de TV, a BBC deles.

O ‘apartheid’ durou praticamente um século. Oficialmente iniciou-se em 1949.

Mas na prática desde que os brancos conquistaram todo o país – pois até século 19 eles se restringiam mais ao litoral.

Então. Ao adentrar o interior e pôr todos os negros sob jugo europeu, na prática começou aí o ‘apartheid’.

Porto.

Não nos esqueçamos que Gandhi (que morou 21 anos na África do Sul) já foi preso por causa disso.

E a ‘Grande Alma’ esteve lá na virada do século 19 pra 20.

Tudo isso gerou um ódio profundo, enraizado. Os brancos eram ensinados desde sempre a odiar os não-brancos, pois seu sistema de privilégios dependia disso.

Indo pra Zona Norte, o Pq. Industrial.

Ódio gera mais ódio, como não é difícil imaginar.

Obviamente não sendo santos, os negros e (principalmente em Durbã) indianos, e também (os poucos que haviam) chineses passaram a odiar os brancos no retorno.

Mais que isso, as raças também se odiaram entre si.

Só que isso não é natural, é artificial. Disse o Grande Mestre Nélson Mandela:

Próximas 2: o rico bairro de Campo na Baía (‘Camps Bay’), no começo da Zona Sul.

“As pessoas não nascem odiando. Elas têm que ser ensinadas a odiar, e é isso que a sociedade faz”.

Ele continuou: “mas não precisa ser assim. Assim como são ensinadas a odiar, as pessoas podem ser ensinadas a Amar”.

Mandela dispensa apresentações. Ele também é uma ‘Grande Alma’, o ‘Pai Espiritual’ da África do Sul, arquétipo da moderna nação sul-africana.

Mandela esteve 27 anos preso no presídio que fica na Ilha Robben, no litoral da Cidade do Cabo, de segurança máxima, uma ‘Alcatraz africana’.

Fugir da Ilha Robben era impossível, além da segurança máxima em si mesma era numa ilha.

E como dissemos ainda contribui o fato que a água é congelante:

Próximas 3: uma parte de periferia na Zona Norte (na África do Sul os burgueses jamais moram em prédios altos, exceto em algumas partes da Beira-Mar.)

Se alguém ainda conseguisse driblar todas as grades e os guardas, provavelmente perecia de hipotermia caso conseguisse alcançar o continente a nado.

Então escapar era fora de cogitação. Mandela observava da cadeia a Mesa-Montanha, que é um chacra da Terra.

Mesmo quem não conhece Ciência Oculta entende o Poder dela – ao menos de dia a Mesa-Montanha é um farol natural:

Visível a dezenas de quilômetros, indica a todos os navios o caminho pro porto da cidade. Após semanas no mar, vê-la dá um alívio, a viagem chega ao fim.

O próprio Mandela declarou que a Mesa-Montanha lhe dava alento. Preso ali no ‘Cabo da Boa Esperança’, ele nunca perdeu a esperança.

Montanhas ao fundo, em qualquer parte da cidade.

E a vista do morro, ali, incólume, vencendo a passagem dos séculos, lhe mostrava que tudo um dia passa.

Portanto o ‘apartheid’ iria passar também.

Era preciso apenas aprender com o gigante de pedra a ter paciência.

………

A Mesa-Montanha é disparado o símbolo do Cabo.

Enorme é a fila pra subir em seu teleférico, e ter o privilégio de ver lá de cima toda a cidade, e o próprio cabo que divide Atlântico e Índico.

Próximas 5: bairros de classe média-alta centrais. Aqui as casas têm muro pois é muito dentro da cidade, não dá pra patrulha armada intimidar a passagem de não-moradores.

Estávamos lá, num dia de sol lindo. De repente, vimos dois menininhos brincando.

Correndo um atrás do outro entre as pessoas da fila, fazendo esconde-esconde, essas coisas.

Riam do fundo de suas almas infantis um pro outro.

Numa cena que faria sorrir até o mais sóbrio dos adultos.

Um dos meninos era negro, o outro branco. Tinham entre 4 e 5 anos.

Não se conheciam até então. Se viram na fila, e a identificação foi imediata.

Nem é preciso repetir que a Mesa-Montanha emoldura, sempre.

Se adoraram, pareciam mais amigos que se fossem primos e se conhecessem desde o nascimento.

Você via em seus olhares essa afeição mútua, essa afinidade sincera que só quem ‘pensa com o Coração’ pode identificar.

E um deles, repito, era escuro como o ébano, o outro era claro como marfim.

Mas pra eles a pele nunca importou, e sim a Sintonia de Almas.

Não tive como não me emocionar, e me emociono agora de novo, quase um ano depois, quando a cena me vem a mente mais uma vez.

Não tive como não lembrar e não prestar um tributo ao Grande Mandela. Bença, Mestre:

Ali, subindo a Mesa-Montanha, que é um Chacra da Terra, que Equilibra as Energias Sutis do planeta.

Em prédios mais baixos os burgueses moram (com 2 BMW’s o perfil fica óbvio).

Essa mesma montanha que deu esperança ao Mestre em seus dias mais sombrios.

Símbolo máxima da Cidade do Cabo da Boa Esperança que se formou a seus pés.

Realmente há esperança: as pessoas não nascem odiando. Elas são ensinadas a isso.

E elas podem ser ensinadas a Amar.

Esses meninos já Sabiam. 

Em Verdade vos digo que aquele que não se fizer criança de novo não adentrará no Reino dos Céus.”

Que todos os Mestres Abençoem o planeta Terra.

Orla da Cidade do Cabo: o ‘apartheid’ acabou, “Somos Todos Iguais”.

………

Depois disso nem há muito mais o que dizer.

Apenas mais imagens pra fechar. A “Riviera do Cabo”, que de tão bela já mereceu uma matéria específica, alias a que abriu a série.

E agora os subúrbios da Zona Norte, de classe média-alta a moda estadunidense.

“Deus Pai e Mãe proverá”

a “Cidade Cinza”: fotografando a Zona Leste de São Paulo

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 7 de fevereiro, 2018.

Na verdade “fotografando a Vila Carrão”. Foi uma volta rápida, pelas Avenidas Aricanduva e Conselheiro Carrão e imediações.

Bem, ainda é Zona Leste, né? A amostra é pequena, verdade. Mesmo assim está aqui, minha primeira matéria na Z/L de Sampa.

Já há publicados retratos da Zona Sul e do Centro, e também da Zona Oeste. E mais um da área Central e Z/S, abaixo falo melhor disso.

A Zona Leste tem 3 cores de ônibus: amarelo (não-retratado nessa postagem), verde-escuro (dividido com a Zona Sul) e vermelho (a dísel exclusivos da Z/L, os tróleis rubros também compartilhados com a Z/S).

………..

E por que “a Cidade Cinza”? Por um alinhamento de fatores. Primeiro, e mais importante: oras, a Cidade de São Paulo é mesmo famosa por ser a própria “Selva de Pedra”.

Posto que é uma metrópole intensamente urbanizada, com poucas áreas verdes. E a Zona Leste, sendo subúrbio, tem ainda menos verde em suas ruas.

Olhe uma imagem de satélite da Grande SP (via ‘Google Mapas’, por exemplo).

Aí verá que o ponto em que as ruas são fartamente arborizadas é justamente a parte rica da cidade, a Zona Oeste e o começo da Zona Sul que lhe faz divisa.

A Zona Leste, a periferia da Zona Sul, a Zona Central (exceto os Jardins) e a Zona Norte (fora da parte que está avançando sobre a Serra da Cantareira) são ao contrário, todas elas têm poucos parques, e poucas árvores nas ruas.

……..

Mas o ensaio chama “Cidade Cinza” não apenas pelas coisas que foram criadas pelas mãos do Homem e da Mulher. Deus Pai e Mãe, o Criador Oni-Poderoso (e também um pouco Gozador) novamente fez mais uma das suas:

Apesar de ser verão, o dia estava fechado, o Firmamento todo nublado. Céu e Terra Vibrando na mesma Sintonia, ambos oscilando entre ’50 Tons de Cinza’.

Em outra capital do Sudeste – no caso Belo Horizonte, Minas Gerais – eu “Abri o Raio Vermelho“.

Prédios, céu cinza e os fios de tróleibus.

De maneira análoga, definitivamente esse dia na Z/L de S.P. estávamos ”Abrindo o Raio Prateado”.

Eu ia pôr como título “Onde o Sol Nasce: a Zona Leste de SP”, obviamente fazendo uma analogia com o fato que o Astro-Rei se levanta no Oriente.

Mas já há uma postagem chamada “Onde o Sol Nasce: João Pessoa, Paraíba”pois esta é a cidade mais oriental de toda América.

Ademais, esse dia em Sampa não havia Sol. Então ficou assim. Está bom também. Deus sabe o que faz.

…….

Façamos uma observação importante. É fato, no geral a Z/L é mais periférica se comparada a Z/O e a porção central da Z/S.

Ainda assim, a Vila Carrão não é um bairro de periferia. Ao contrário, tem um perfil bem de classe-média, e a quantia de prédios altos de bom padrão atesta inequivocamente.

Eu não sabia disso, não conhecia tão a fundo a região, descobri ‘in loco’ nesse dia.

Próximas 3: Avenida e Córrego Aricanduva.

…………….

Cheguei em SP pela Rodoviária do Tietê. E dali fui a pé até Moema, Zona Sul.

Fotografando meu trajeto, o Bom Retiro, Centrão e Jardins. Vi o melhor e o pior de São Paulo, e registrei.

………..

Comentemos mais algumas imagens (busque pelas legendas). Abaixo a direita praça na Vila Carrão. Destaquei o canteiro.

Aqui e sobre a manchete: nas margens da Av. Aricanduva há ainda algumas pequenas favelas.

Logo depois dela , os edifícios, o Céu todo acinzentado, e . . . os fios que alimentam os ônibus elétricos.

Certa vez eu andava em Moscou/Rússia (via ‘Google Mapas’, eu nunca fui fisicamente a Europa) e vi cena similar.

Pensei: “Aqui passa tróleibus”. De fato passava, fotografei-o.

Belas flores na praça, pra dar um pouco de colorido a esse dia tão cinza.

De volta a SP, 2018, dessa vez em carne-&-osso. Ocorreu o mesmo. Vendo as ruas, sabia o trajeto das linhas que contam com esse modal não-poluente.

Até a virada do milênio, a capital paulista tinha a maior rede de tróleibus do mundo excluindo a ex-URSS e a China.

Não mais. Os tróleis foram extintos nas Zonas Norte e Oeste, e também na Sul exceto a região do Ipiranga.

A única parte de São Paulo que ainda conta com ônibus elétricos é justamente a Zona Leste (além do Corredor ABC [ou ‘ABD’], metropolitano, que no Terminal S. Mateus faz integração com o sistema municipal).

Mesma cena: os edifícios, horizonte nublado e a alimentação dos ônibus elétricos.

E, como dito, na rede municipal o Ipiranga na Z/S. Mas o Ipiranga é divisa com a Z/L, então é a mesma rede, um ‘prolongamento’ dela.

Vermelho é a cor dos ônibus da Zona Leste. Exatamente por isso os tróleis do Ipiranga também são rubros,

Abaixo um tróleibus. Destaquei, além do itinerário, o valor da tarifa (2018): R$ 4,00. Em Curitiba é 4,25. Mais caro.

Vão longe os tempos que o transporte de Ctba. era melhor que o de SP. Hoje não mais. Alias vão longe os dias que o transporte de Ctba. era modelo. Breve falo mais disso.

Tróleibus moderníssimo. Há alguns até Tribus.

E a última imagem mostra um ônibus a dísel na Avenida Aricanduva.

É um Caio, claro, encarroçadora que domina inconteste o mercado paulistano – alhures já expliquei o porquê.

Destaquei o itinerário. Vai do Terminal do Metrô Carrão ao Jardim Nova Vitória, via Jardim da Conquista.

Utiliza a Avenida Mateo Bei, assim o ponto final só pode ser no bairro de São Mateus, extremidade da Zona Leste.

Curiosos os nomes das ruas dos Jardins da Conquista e Nova Vitória. O buso passa pelas travessas “Vereda Tropical” e “Somos Todos Iguais”.

Somos Todos Iguais. Com isso bem estabelecido, creio que podemos bater o martelo e encerrar.

“Deus proverá”

o Carro do Povo

Cidade do Cabo, África do Sul, abril/17 (*).

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 28 de janeiro de 2018

Continuando nossa Sessão Retrô e de Transgenia Automotiva.

Hoje vamos homenagear o carro mais vendido da história do planeta Terra. Claro que só pode ser o nosso querido Fusca.

Acapulco, México, junho/12 (*). 2 táxi-Fuscas, na outra pista mais 1 entre os ‘caminhões’ Disco-Bus (ônibus urbanos).

Foram nada menos que 21 milhões de unidades, de 1938 a 2003 (nota: oficialmente o Toyota Corolla e o VW Golf têm maior vendagem. Explico no decorrer da matéria porque ainda considero o Fusca o campeão).

O ‘Fuca’ foi o primeiro automóvel de milhões de brasileiros, mesmo na classe média.

E nas periferias ainda é o meio de transporte de muitas famílias.

…………..

“Se meu Fusca falasse”, sucesso nas telas nos anos 70 e 80. Da Califórnia, claro.

Maioria das fotos puxadas da internet, créditos mantidos sempre que impressos nas imagens, e quando possível passo a ligação pra fonte

As de minha autoria identifico com um (*), como visto acima.

Já cliquei esse modelo em 2 continentes, 6 países, 13 cidades e 16 municípios (pois uma cidade pode conter vários municípios).

Alemanha, 1937: eis o protóptipo.

Logo detalhamos melhor onde foram essas tomadas.

………..

ATUALIZAÇÃO (FEV.18):

Nosso colega que é especialista em tudo que é motorizado  acertadamente apontou:

Berlim, 1938: inicia produção em série, celebrada em desfile no Portão de Brademburgo.

Existem tantos estudos acerca dele, quanto existem apelidos carinhosos para ele“.

Os estudos, a parte técnica, ficam por conta de quem entende.

Assim, esse camarada mais pra baixo na página fará sua valiosa contribuição dos aspectos técnicos.

Nessa atualização eu vou dar alguns apelidos do ‘Fuca’ ao redor do planeta.

Berlim, atual: desfile de Fuscas (a Kombi pegou carona) no exato mesmo local.

Quase todos, por causa da forma redonda do carro, giram em torno de 2 arquétipos:

  1. Insetos que tem a casca oval, como o Fusca (melhor dizendo, o veículo é quem copiou os animais, afinal os insetos estão no planeta centenas de milhões de anos antes do Homem e da Mulher): ‘Besouro’, ‘Baratinha’, Joaninha’, Escaravelo‘;
  2. Outras formas redondas como ‘Bolha’, ‘Bola’, etc.

Além de dezenas de novas fotos, com muitas transgenias curiosas.

Há aquelas que funcionam de maneira insólita, outras são só arte/curiosidade.

Algumas delas hilárias. Aqui ao lado vocês já filmam a “FusCarroça” (???????).

Essa veio diretamente da Etiópia, África (mais detalhes no decorrer da matéria).

Panzer, usado pela máquina de guerra do ‘Reich’.

Como notam, o motor tem exatamente ‘1 (hum) cavalo de potência’!!

A direita um Panzer, o Fusca adaptado pro modal militar, como a legenda já informou.

Vide explicações técnicas nas duas colaborações de um colega especialista em automotores, aquele que escreve em azul.

Ele fez 3 intervenções, uma no meio da matéria, outra ao pé dela (a 2ª atualização de fev.18) e a última na seção de comentários.

……..

“Fusca-Galinheiro”.

Vamo que vamo. Como é popularmente chamado o “Fusca” em (a fonte é uma matéria sobre esse carro na Etiópia):

Portugal – Carochas (exatamente o inseto ‘escaravelho’, que é um tipo de besouro);

EquadorPichirilo (gíria que significa um ‘carro antigo’ ou ‘pequeno’, no Equador especificamente sinônimo de ‘Fusca’);

“Churras-Fusca”.

Espanha – Escarabajo (mais uma vez o inseto ‘escaravelho’, ou ‘besouro’ se preferir);

Brasil – Fafá (Referência a cantora Fafá de Belém.

Entre outros apelidos que o ‘Fuca’ teve, evidente. Aqui damos uma leve panorâmica, sem a menor pretensão de esgotar o assunto);

Libera a pista pro ‘Fusca-Avião’ decolar !!!

Itália – Maggiolinos (‘Besouro’, de novo); 

Áustria – Kugel Porsche (‘Bola do Porsche’:

Como será melhor detalhado logo abaixo, o engenheiro Ferdinand Porsche foi um dos criadores do Fusca, além é claro de ter fundado a marca que leva seu nome);  

– Finlândia – Kuplas (‘Bolha’);

Curitiba tem a ‘Ópera de Arame’. Em algum lugar existe o “Fusca de Arame”.

Malásia – Kereta Kura-Kura (‘Carro Tartaruga’);

Polônia – Garbus (‘Corcunda’);

Alemanha – Käfer (‘Besouro’);

Romênia – Broasca (‘Sapo’);

Rússia – Juchek (Não sei o significado.

Pois na internet tanto na busca quanto na tradução nada aparece, talvez haja erro de grafia);

‘Fusca-Dodge’.

Eslovênia – Hrošč (Mais um ‘Besouro’);

Turquia – Vosvos (Idem, o mesmo ‘Besouro’);

– Israel – Hiposhit (O tradutor sugere a grafia חיפושית.

Sendo dessa forma, trata-se de ainda outro ‘Besouro‘. Aqui terei que fazer duas notas:

Propaganda da ‘Sprite’: Fusca-Bola-de-Basquete. Na Hungria pré-União Europeia.

1.) Quem sabe falar inglês notou aqui um trocadilho não muito agradável, fazer o quê?

Como estamos falando do hebraico isso não importa. Mas esclareço que:

2.) Talvez essa denominação ‘Besouro’ não seja realmente exata.

Está aqui havendo um conflito, uma  fonte de informações deficiente.

Fusca-Guincho.

Vide a explicação completa no pé da matéria.

Voltamos a dar os apelidos do ‘Fuquinha’ ao redor do globo terrestre.)

Iugoslávia Buba (Dou um doce pra quem adivinhar: mais outro ‘Besouro’);

Todo embolado. Que rolo, hein?

Cuba – Huevito (‘Fusca’ ali é ‘Ovinho’.

A Ilha fugiu do mais massificado que é o nome do inseto.);

EUA – Beetle (Já voltamos ao lugar-comum. ‘Beetle’ é ‘Besouro’.

Obviamente os EUA são a nação hegemônica culturalmente a nível planetário.

A mítica chave. Quem se lembra??

Então talvez a denominação estadunidense é que tenha inspirado tantos outros países a chamarem ‘Fusca’ de ‘Besouro’ ou ‘Escaravelho’, que também é um besouro.);

França – Coccinelle (‘Joaninha’. Outro inseto. Ao menos não é ‘besouro’ . . .);

Indonésia – Kodok (‘Sapo’, como na Romênia);

“Corrida Maluca”: de malucos pelo ‘Fuca’.

– Noruega – Bobla  (Tá ficando repetitivo, não? Na Noruega é igualmente ‘Besouro’);

AfeganistãoFulox-e-baqa-e (Não consegui o significado.

Novamente, pode ter havido erro na digitação ou mesmo na tradução original, desprezando letras ou símbolos não-existentes no Ocidente.)

‘Fusca-Aracnídeo’.

Egito – Elkhonfesas (Idem acima.)

………..

A história geral do ‘Fuque’ é essa:

1936: (3 anos depois de Hitler assumir) surge o projeto de fazer um carro barato e robusto, pra motorizar de vez a Alemanha.

Gostou dessa? Aqui em Curitiba, ao fundo um ligeirinho e placas de rua. Um “Fusca-Tartaruga”, pois leva a casa nas costas.

A inspiração no Ford T ianque é óbvia.

(Nota: depois da Segunda Guerra, a França também teve a mesma ideia, ali foi o Citröen C3 quem cumpriu essa função.)

De volta a nosso tema de hoje, o regime lutava pra re-erguer uma nação que estava arrasada.

Derrotada na 1ª Guerra, tinha que pagar vultuosas indenizações aos vencedores, o que gerava desemprego e enorme insatisfação.

A Alemanha se encontrava endividada, acabara de sair do caos político e econômico da ‘República de Weimar’.

Eis o “Fusca-Tartaruga“!!! Do modelo novo. Na Malásia Fusca é ‘Carro-Tartaruga’, não precisa dessa brincadeira . . .

Como sabem, foi nessa época que em terras  germânicas ocorreu uma das maiores hiper-inflações da história da humanidade, senão a maior.

Assim, o regime convocou a VolksWagen pra colaborar.

Prontamente governo e a montadora estavam alinhados numa ideia:

A de que o Fusca fosse o carro da massa, o veículo que toda família proletária alemã pudesse possuir.

Rodovia do Xisto (BR-476), na Lapa-PR, agosto de 16 (*): flagrei outro desfile de Fuscas. Ao fundo uma Cohab recém-inaugurada.

Barato e de fácil manutenção, o próprio motorista faria os reparos mais básicos.

“Carro do Povo” é isso e não há outro, alias já eu falo mais do nome.

Por hora sigamos a Linha do Tempo;

1937: sai da fábrica o primeiro protóptipo (imagem acima, busque pela legenda).

Cortado ao meio???

Detalhe: não tinha janela traseira (parecia um sarcófago!) e a porta abria ao contrário.

Repare que a maçaneta está na parte da frente da porta, perto do capô.

Sim, é isso, a dinâmica pra entrar no veículo era a inversa de hoje.

Fusca é um verdadeiro Dinossauro!!!

A falta de janela logo foi corrigida (Obviamente. Alias o protótipo tampouco tinha faróis traseiros):

Os primeiros da produção em série já contavam com uma área envidraçada nos fundos, que depois só cresceu.

No entanto a maçaneta invertida permaneceu, nesse primeiro momento.

Você entrava se contorcendo, contornando a direção. Um detalhe insignificante, em verdade.

Nomeei “Fusca/Tanque-de-guerra”, por causa da esteira, mas esse veículo não é militar. O colega especialista opinou (vide ‘comentários’) que “deve ser adaptado pra andar na neve”.

Na dureza material que era a Alemanha da guerra e pós-guerra, importante era ter um carro.

Logo fazer um esforço pra entrar nele era um privilégio e não um estorvo;

1938: começa a produção em escala industrial. A Volks e o regime celebraram em grande estilo.

É feito um desfile com pompa e circunstância no Portão de Brademburgo.

Que é, como sabem, o epi-centro político e cultural da capital da Alemanha, e por consequência de toda nação (equivalente ao ‘Zócalo’ do México).

O ‘Fusca/Tanque-de-Guerra’ de verdade. Digo, o de verdade é o Panzer já visto acima, esse  é uma brincadeira, na frente não tem esteira e sim roda normal. No pé da matéria (2ª atualização de fev.18) os detalhes dessa transgenia.

De volta a Berlim, já no século 21 vemos novo desfile de Fuscas no mesmo local.

E vários desses Fuscas dirigidos por Mulheres (por exemplo o conversível vermelho, o 2° a esquerda).

Até uma Kombi foi de embalo no evento. Entrona, né???;

1939-1945: Segunda Grande Guerra Mundial, produção interrompida.

Obviamente toda Alemanha entrou no esforço de guerra, ao fim malogrado.

Esse é adaptado a neve, sem dúvidas.

As fábricas deixaram de produzir material civil pra se concentrar em artefatos bélicos.

A VolksWagen não foi exceção, encerrou nesses anos a fabricação de automóveis pra fazer veículos militares.

Segunda metade dos anos 40 em diante: a VW volta a produzir Fucas a todo vapor.

Na tomada abaixo fábrica da matriz da corporação na Alemanha, 1947.

Repare que a janela traseira ainda era pequena e partida.

Inclusive o modelo se espalha pelo mundo. Em 1951 chega ao Brasil, a princípio importado.

Começa a ser produzido em nossa Pátria Amada no ano  de 1959.

Vinha do Mar (Grande Valparaíso), litoral do Chile, abril de 2015 (*).

Comecinho dos anos 70: ao chegar a marca de 17 milhões o Fusca passa o Ford T estadunidense.

E se torna o veículo mais produzido da história do planeta. Se não me engano foi em 1972 essa façanha.

No total foram 21 milhões de Fuscas, o que ainda o mantém como mais vendido da Terra de todos os tempos, na prática sim senão na frieza dos números.

Promessa é dívida: mais pra baixo no texto falo em detalhes o que quero dizer com isso. Por hora sigamos com a história do ‘Besourinho’.

Fusca/Rolls-Royce???

1978: a Alemanha, matriz da VolksWagen, produz seu último Fusca. 1938-1978, 40 anos de sucesso.

1986: a saga do Fusca chega ao fim também no Brasil. Sim, eu sei, ainda houve uma retomada.

A pedido do então presidente Itamar Franco voltou em 1994, indo até 1996.

O motor era atrás, muitos jovens não sabem disso, nunca viram carro assim.

Mas foi apenas um espasmo, foram poucas unidades produzidas.

Creio que pode podemos oficializar a data de 86 como o encerramento.

Assim, em terras brasucas, foi 1959-1986, 27 anos de série, depois acrescidos de mais 3 de ‘espasmo’.

2003: o último Fusca é fabricado no México, único país que ainda tinha produção ativa.

O México é a Pátria-Fusca por excelência.

‘O que é bom nunca acaba’: a Volks lançou o ‘Novo Fusca’. Esse de motor dianteiro.

Em Acapulco, no recente ano de 2012, a imensa maioria dos táxis ainda eram desse modelo.

Mato a cobra e mostro o pau: na imagem abaixo (via ‘Google Mapas’) 8 Fuscas juntos.

2014, Acá (apelido de Acapulco): 8 é demais???? É Fusca, p*rra!!! Respeito a quem merece, o negócio é demais!

Também pudera. Na ocasião de minha viagem os Fuscas mais novos ainda não tinham uma década de uso.

Na capital, a Cidade do México, ainda haviam bastante táxi-Fucas.

Porém já não eram maioria. Falo de 2012, não custa frisar de novo.

Mas por décadas táxi na Cid. do México era sinônimo de Fusca, quando eles eram pintados em verde-claro (imagem ao lado).

Dos anos 70 (pelo menos, talvez antes) ao comecinho desse milênio, você chamava um táxi no México D.F..

De cada 10 vezes em 9 vinha um Fusca. Nada mal, não?

Mais de 3 décadas de virtual oni-presença no modal de uma das maiores metrópoles do planeta.

Só o Fuca mesmo pra (mais) essa façanha! Tiro meu chapéu.

Andei de Fusca-Táxi tanto na capital quanto no litoral do México. Ademais, é claro, não se restringe aos táxis.

A mesma preponderância se repete nos carros particulares, e de forma ainda mais acentuada.

Nas periferias e morros de todas as cidades mexicanas o Fusca ainda era o automóvel mais popular, o que movia o México.

Veja acima: favela em morro na Zona Leste da Grande Cidade do México, 2012.

Bairro Pedregal, Cid. do México, junho/12 (*)

Me embrenhei pelas quebradas desse país, que está em guerra civil, e se o governo nega o fato não muda.

No centro dessa tomada há um Fusca branco. Ainda falo da foto a esquerda, mais pra cima, com ruas de terra e todas as casas em tijolo cinza.

Outro exemplo. Acima e ao lado (a mesma em 2 escalas), bairro Pedregal, também periferia da Cidade do México.