África do Sul, o Mundo num só País

O ‘apartheid’ acabou! Nos tempos tenebrosos do regime racista eram proibidos os casais inter-raciais. Na época essas garotas brancas seriam condenadas a muitos anos de cadeia. Os rapazes negros, embora a lei previsse a mesma pena, na verdade seriam linchados no mesmo instante, naquele exato local. Hoje elas e eles são livres pra viverem seu Amor.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 25 de maio de 2017

Mensagem-Portal sobre a África do Sul (ao fim do texto ancoro as ligações pras demais postagens da série).

Vamos falar sobre a luta secular pra pôr fim ao regime de discriminação racial.

No Novo Milênio, sob democracia, novos desafios:

Reduzir a violência urbana, que está na estratosfera, e também a desigualdade social, igualmente gigante.

1989: ‘apartheid’ vigente, praia em Durbã só pra brancos. Placa em inglês, africâner e zulu. Na língua nativa dos negros, ‘Durbã’ se chama ‘Ethekwini‘, breve falo mais em outra mensagem. Essa e outras imagens vieram da Wikipédia, créditos atribuídos como pedido.

Imensa maioria das fotos de minha autoria. As que vierem de outras fontes identifico na legenda.

PARTE 1: ‘APARTHEID’, INÍCIO E FINAL

A ida a África do Sul foi minha primeira viagem inter-continental. Eu nunca fui a Europa ou a Ásia. Digo, indo a África do Sul de certa forma eu estive também na Inglaterra, Índia e Califórnia/EUA.

Pelo seguinte: a República da África do Sul (abreviada R.A.S.) tem enorme população branca e indiana.

Os descendentes de indianos estão reunidos basicamente em Durbã.

Dos quase 3,5 milhões de habitantes dessa região metropolitana, meio milhão têm ascendência na Índia (o que inclui os atuais Paquistão e Bangladesh, e esses 2 são majoritariamente muçulmanos, já falo mais disso)

O que torna Durbã ‘a maior cidade indiana do mundo fora da Índia‘.

A influência dos europeus é ainda maior. Os brancos são 10% da população sul-africana. Mas eles estão concentrados nas classes média-alta e elite.

Por um século ademais eles tiveram hegemonia absoluta na África do Sul impondo o ‘apartheid’ (‘manter separado’ em africâner, ‘heid’ tem raiz parecida com a palavra inglesa ‘hold’).

Orla de Durbã, hoje. Negros e brancos caminham juntos e brincam como irmãos. Claro que nem tudo é perfeito, mas comparado com o que era… Outro detalhe: veja como os brancos na África do Sul são brancos mesmo, loiros de olhos claros.

O regime que oprimiu as outras raças oficialmente começou em 1948, mas na prática desde que os colonizadores europeus pisaram lá em massa, em fins do século 19 – e início dos massacres data do século 17 .

Mais abaixo falamos melhor disso. Aqui, dando essa primeira pincelada, obviamente não é difícil entender que os brancos moldaram a África do Sul a sua imagem e semelhança, em todos as dimensões.

Tem mais: os europeus que foram pra lá são norte-europeus (‘normandos’), bem diferentes física e culturalmente dos sul-europeus (‘latinos’) que povoaram a América Latina.

Nelson Mandela, Avatar Sul-Africano, ‘Pai da Pátria’. Cultuado como santo por lá, esse quadro está na casa que fiquei na Cid. do Cabo.

Os brancos da sul-africanos têm a pele bem alva, quase sem mistura de sangue de outras raças. A maioria das pessoas têm olhos claros, verdes ou azuis.

Urbanisticamente falando, a África do Sul é totalmente parte da Anglosfera: pouca gente mora em prédios altos. Assim as cidades têm pouquíssimos edifícios, geralmente se resumem aos que são comerciais no Centro.

E mais uma leva de prédios residenciais na beira-mar (nas cidades que têm mar, óbvio. As que não têm aí menos prédios ainda).

Os ricos e a burguesia moram em subúrbios exatamente iguais aos dos EUA, só casas em ruas sem-saída, sem comércio na vizinhança.

Tem mais. Na Cidade do Cabo, quem tem dinheiro mora nos morros, os pobres no plano. Como na Califórnia-EUA.

Resumindo: se você esteve nos EUA, você sabe como são as cidades da África do Sul.

1-Antigas províncias (estados) da África do Sul do ‘apartheid’: Cabo (que ocupava mais da metade do país); Estado Livre Laranja; Trasnvaal (esses 2 eram ex-repúblicas africâneres que foram incorporadas ao Império Britânico na Guerra Anglo-Boer); e Natal; 2-As mesmas províncias com os ‘bantustões’; 3-Re-organização pós-‘apartheid’: Estado Livre Laranja vira apenas ‘Estado Livre’, cai a referência a Holanda; Natal vira Kwa-Zulu Natal (nesses dois só muda o nome, as fronteiras não se alteram nada ou quase nada); o Cabo é dividido em três, agora são Cabo Oriental, Cabo Ocidental e Cabo do Norte; Transvaal é dividido em quatro: Gauteng ao redor de Joanesburgo e Pretória, a menor mas a mais povoada província sul-africana; Noroeste; e Transvaal do Norte e Transvaal do Leste; 4-Como é hoje: Transvaal do Norte vira Limpopo, a capital também tem nome alterado de Pieterburg pra Polokwane; Transvaal do Leste se torna Mpumalanga; e a capital do Noroeste tem o nome mudado de Mmabatho pra Mafikeng. Mmabatho e Mafikeng são dois municípios que pertencem a mesma cidade, apenas antes a sede do governo era num e agora é no outro.

Óbvio, na RAS há muitas e muitas favelas miseráveis, nos EUA não. Mas de resto é igual.

Durbã é de certa forma exceção. Digo, ali há também os subúrbios a moda ianque, tanto planos quanto em ladeiras.

Mas em Durbã há favelas no morro. Por isso a ‘América na África’ – breve texto específico.

E existem também muitos prédios altos tanto a beira-mar quanto num morro de classe média-alta bem perto do Centro.

E obviamente a maioria negra e ‘de cor’, livre do ‘apartheid’ há mais de 2 décadas, vem se fazendo ouvir, inclusive economicamente.

Por quase oito décadas os indianos foram tão pobres e explorados quanto os negros nativos.

Desde que foram levados da Índia pra serem semi-escravos do Império Britânico, até o terceiro quarto do século 20.

Mas há 4 décadas os indianos vêm ascendendo muito na escala social.

Eles também sofreram ‘apartheid’. Só que quando o regime racista viu que ia cair, flexibilizou a opressão contra os indianos ainda nos anos 80.

Jornal no idioma zulu. Comprei num mercadinho dum bairro popular de Durbã. O caixa era negro. Perguntei “que língua é essa?” Ele não sabia. Veja bem, um negro, e não é que ele não sabia traduzir. Não sabia sequer que idioma era. Quem me informou foi o anfitrião do apartamento que fiquei, que é indiano e muçulmano. Eis a torre de babel que é a África do Sul…

Assim uma massa dos descendentes asiáticos pôde ‘pular o muro’ da discriminação e migrar pros subúrbios que oferecem vida mais confortável. De forma que em Durbã especialmente há uma alta e média-burguesia indiana, há subúrbios de elevado estrato em que eles predominam.

Com a queda do ‘apartheid’ em 1994, vários negros seguiram o mesmo caminho.

Hoje há uma pequena elite e uma numerosa classe média-alta formada por africanos nativos.

É comum subúrbios de ricos a moda ianque habitados por negros, e você os vê aos montes dirigindo os carrões mais caros, BMW’s, Mercedes, Audis, a lista toda.

………..

Ademais, há muitos brancos pobres, de classe trabalhadora. Nas favelas e piores bairros mais afastados a população é 100% de negros. Na elite são 90% brancos.

Ou seja, os extremos são segregados. A classe ‘E’ só tem negros, a classe ‘A’ ainda é um privilégio quase que exclusivo dos brancos.

Mas toda classe média, as classes ‘B’, ‘C’ e ‘D’, tem gente de todas as raças.

Museu do ‘Apartheid‘, Joanesburgo: filma só o caveirão do regime racista, que a polícia usava pra entrar nas favelas negras quando havia distúrbios. Faz parecer pequenos seus similares do Chile e Colômbia.

Você vê brancos em serviços braçais/repetitivos, como encanadores, balconistas, que não exigem estudo e pagam pouco.

Se pegar um ônibus pra periferia, você já está nos bairros humildes, onde moram os assalariados em casas e apartamentos simples, desprovidos de qualquer luxo.

E ainda há descendentes de europeus no busão.

Só quando no terminal você troca pro alimentador que vai pras favelas e piores cohabs é que só há negros.

E, repito, o contrário também é verdadeiro, também vemos hoje muitos africanos nativos de pele bem escura em posições de destaque.

Democracia! Soweto, Joanesburgo, África do Sul, 2017: parte dos negros ascendeu a alta e média-alta burguesias. Veja a picape que esse aqui dirige. É comum hoje ver Homens e Mulheres negros no comando dessas máquinas. Nos tempo do regime racista eles nem eram considerados seres humanos.

Negros morando em mansões que contam com piscinas e com empregadas (também negras, claro) de uniforme.

Observe a foto ao lado, que vale por mil palavras.

……….

A África do Sul tem 55 milhões de habitantes. As 4 maiores cidades são as únicas que ultrapassam 1 milhão.

Eis a população delas, incluindo região metropolitana (censo de 2011, dados do sítio citypopulation.de):

– Joanesburgo, 7,8 milhões (segundo outras fontes, já chega a 10 milhões);

– Cidade do Cabo, 3,4 milhões (4 milhões pela Wikipédia);

Eis a prova: essas crianças negras não estão rezando. É que na época do ‘apartheid’ muitas escolas negras sequer tinham carteiras, os alunos tinham que escrever no chão. As 2 imagens no Museu do ‘Apartheid’ (essa e a do caveirão) são de autoria de meus familiares.

– Durbã, 2,7 milhões (3,3 milhões, idem).

Pretória, 1,7 milhão.

Eu pude conhecer todas elas.

………

A África do Sul é uma colcha de retalhos linguística. São nada menos que 11 idiomas oficiais.

O inglês é universal, a ‘língua franca’, o único falado por todos os seus habitantes, de todas as raças.

Nos tempos do ‘apartheid’ eram duas línguas oficiais, as faladas pelos brancos.

Bairro Baía ‘Hout’, extremo sul da Cidade do Cabo. Uma foca bem grande interage com o público, ao fundo a marina e as montanhas. Mais uma clicada pelos membros de minha família, a última. Daqui pra baixo tudo de minha autoria.

Além do inglês obviamente o africâner, que é um dialeto do holandês (na verdade se assemelha muito ao holandês medieval).

Ainda hoje o africâner é mais falado que o inglês como língua materna, entre os euro-descendentes.

Com a democracia, os idiomas que os negros usam também ganharam ‘status’ oficial. Embora sejam nove, as mais comuns são o xhosa e o zulu.

Todas moedas da África do Sul trazem no verso a inscrição no nome da nação em duas línguas.

Nas notas está escrito ‘Banco Central da África do Sul’ em inglês na frente (no original ‘Reserve Bank’, ‘Banco da Reserva [Financeira]’ ou ‘Banco do Tesouro’, se preferir. Passei em frente a sede dele em Pretória).

Ir a África do Sul é como ir a Inglaterra. Praça Gandhi, que é o terminal central do Metrobus em Joanesburgo. 2-Andares Volvo Marcopolo de fabricação brasileira se prepara pra levar a galera pros distantes subúrbios da metrópole. Como comentou um colega, os pobres estão subindo na vida, “vendo o mundo pelo alto”. Fiz uma matéria completa sobre o transporte na África do Sul, passado e presente, dá uma olhada.

E atrás novamente em 2 línguas:

Na de 10 rands em africâner e uma língua negra, nas demais sempre idiomas nativos africanos.

Entre os brancos, mais gente fala africâner como língua-mãe que inglês.

Mas quem fala inglês só fala inglês, é mono-língue, não entende nenhum outro idioma.

E isso vale pros negros e brancos.

Assim, os que têm o africâner ou idiomas nativos da África como 1ª língua têm que saber também inglês.

Sejam da raça que for, quando as pessoas estão somente entre os da sua etnia  falam em sua própria língua.

Especialmente em casa, mas também num círculo fechado de amigos.

Templo hindu no Centro de Durbã: visitar a África do Sul é como ir a Índia.

Quando é preciso falar com mais gente, por exemplo no trabalho, todos se comunicam em inglês.

Obviamente, como dito, algumas pessoas brancas e negras já têm essa como língua-mãe, aí a usam mesmo em casa. 

Os que falam africâner se concentram no Costa Ocidental. Na Cidade do Cabo, o africâner é a 1ª língua de nada menos que 22% da população.

A imensa maioria brancos, mas embora mais raro há uns poucos negros que a usam também, pois foram educados nela na época do ‘apartheid’.

A ‘Riviera’ da Cidade do Cabo: ir a África do Sul é como ir as parte mais bonitas do Mediterrâneo (Itália, ou Grécia).

Nessa cidade o inglês predomina amplamente pois é o idioma nativo da maior parte dos negros. Digo, dos ‘mulatos’.

No Oeste da RAS são majoritários os que se auto-denominam ‘mestiços’ ou ‘mulatos’ no censo.

Eles são negros, e assim eram considerados pelo ‘apartheid’, certamente. Mas já houve grande miscigenação entre as diferentes tribos nativas africanas.

Pela mistura, a conexão com as línguas africanas se perdeu, aí eles usam o inglês, praticamente todos, e uns poucos o africâner, como já dito.

‘Woodstoock’, Cidade do Cabo: região de classe média na ladeira, com casinhas geminadas. Na África do Sul você se sente em em São Francisco, Califórnia/EUA.

A língua negra mais falada no Cabo é o xhosa, com apenas 2,7 % da população que a usam em casa.

Já a Costa Oriental sul-africana é território dos ingleses, sempre foi, desde a colonização.

Em Durbã apenas 3% dos habitantes têm o africâner como idioma-materno.

O Leste do país é de maioria negra, inclusive estatisticamente.

Quero dizer com isso que no censo as pessoas se definem assim, como ‘negros’, e não como ‘mulatos’ ou ‘mestiços’.

Bairro ‘Baía do Campo’, Cidade do Cabo. Reduto da elite, com mansões no morro. Eu estava na África do Sul, mas parecia que era em ‘Beverly Hills’ ou ‘Hollywood’, em Los Angeles, também na Califórnia/EUA.

Por isso o zulu é o 1º idioma de um terço da população. Mesmo o xhosa é o escolhido de 6%, mais que o dobro do Cabo.

O Cabo é, definitivamente, a cidade mais integrada racialmente, a mais multi-cultural, da África do Sul e diria de toda África.

Ali, os brancos são 1/3 das pessoas, portanto há inclusive muito mais brancos pobres.

Em Joanesburgo e Durbã os brancos são somente 12 e 15%, respectivamente, aí só numerosos nas classes alta é média-alta.

Bem, em Durbã há quase o dobro de indianos que brancos, pra você ter uma ideia.

Muçulmanas na praia em Durbã. 3 delas estão de burca negra que só mostra os olhos, 1 delas com o rosto a vista. Na África do Sul. Mas se me dissessem que eu estava no Afeganistão não teria como duvidar. Os muçulmanos entram no mar de roupas em Durbã, tanto Homens quanto Mulheres. Bem, pessoas de outras raças/religiões também fazem o mesmo nessa cidade, é tradição local.

Já veremos como isso se desdobra em outras dimensões. Na linguística, a Cidade do Cabo é a única tri-língue.

As comunicações da prefeitura são em inglês, xhosa e africâner. O lema da cidade é: “Progredindo. Todos Juntos.”

……..

Todos Juntos. Um lema bonito. Evidente que na prática as coisas não são tão simples, ainda há imensos problemas. Mas no passado foi ainda pior.

Como estamos falando do ser humano, que infelizmente sempre foi e ainda é belicoso por natureza, as raças brigam muito.

Tanto umas contra as outras como entre si, dentro de suas próprias etnias.

Na África do Sul não é diferente. Alias, ali foram inventadas duas coisas macabras pra humanidade:

Na África do Sul são os ricos que moram nos morros, como na Califórnia. Os pobres vivem em favelas, conjuntos geminados ou cohabs de pequenos prédios (pombais), a construção varia mas sempre no plano. Porém Durbã é exceção. Há bairros de elite nas encostas, sim. Mas também há muitas favelas, como nas periferias do Rio, SP, BH-MG, Salvador-BA, partes de Curitiba, Colômbia, México, Chile, Bolívia, Peru Venezuela. Durbã é a ‘América na África’ (foto via ‘Google’ Mapas).

O campo de concentração (depois amplamente usado na Europa por Hitler, Stalin e outros);

E o ‘micro-ondas’, quando uma pessoa é presa dentro de pneus encharcados com gasolina sobre os quais é ateado fogo.

Hoje a raça branca já não agride tanto ela mesma:

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial já são 70 anos sem que um país da Europa Ocidental invada outro, fato inédito em sua violenta história.

E bota ‘violenta’ nisso, por milênios culminando a 2ª Guerra os brancos se combateram violentamente entre si, pra ver quem amealhava mais poder sobre os outros.

Não quer dizer que os brancos se tornaram pacíficos, apenas agora eles atacam outras raças, geralmente de países mais fracos que não podem se defender.

Montanha-Mesa, Cidade do Cabo: bondinho sobe um morro famoso, símbolo da cidade e do país. Me lembrei muitíssimo de quando fui ao Rio de Janeiro.

Vide as intervenções dos EUA (em vários casos em conluio com Inglaterra e França) no Iraque, Líbia e Síria.

Mais de 2 milhões morreram nessas guerras, mais de 10 milhões ficaram amputados/ viúvas(os)/órfãos/refugiados internou ou externos.

Então, não, os brancos não passaram a ser brandos. Apenas agora eles agridem aos outros como sempre fizeram, mas entre eles mesmos não mais.

Mas no passado não foi assim, a raça branca duelava muito, e de forma muito violenta, inclusive dentro de seus próprios povos.

Golfistas na Zona Norte da Cidade do Cabo. Os ricos da África do Sul adoram golfe, há cem vezes mais campos desse esporte lá que no Brasil. Nos EUA é exatamente igual. É a ‘Anglosfera’.

A África do Sul não passou imune a essa situação.

Desde o século 17 ingleses e holandeses brigaram entre si, e contra os negros nativos, pra poderem dominar o país.

Os negros resistiram bravamente, derrotando os invasores brancos em várias ocasiões.

Porém evidentemente os europeus tinham armas muito, mas muito superiores aos africanos, e acabaram prevalecendo.

Por exemplo, o Rei Zulu Shaka ficou famoso por inventar uma lança afiada.

Gostou da Mercedes da Isabel??? E que tal a do ‘Vegeta‘, que é conversível. O Wilson é mais modesto e se contenta com um modelo mais simples, enquanto no Centro de Durbã alguém está ouvindo ‘Rumores’. Vocês entenderam, né? Na África do Sul, como nos EUA, você pode escolher a placa do teu carro. Tem mais. Lá eles a-d-o-r-a-m Mercedes e BMW, é paixão nacional. Não só os ricos, os pobres também. Veja que na foto maior, aquele belo anoitecer em Joanesburgo, eu também estou numa Mercedes, a estrelinha ressaltada em amarelo. Em outra mensagem falarei melhor disso.

Que lhe garantiu a vitória em numerosas batalhas contra outras tribos negras, desprovidas dessa tecnologia (justiça seja feita e não vamos idealizar, a raça negra também massacrou seus próprios irmãos, e infelizmente a situação persiste, como veremos mais adiante).

Mas contra os rifles e canhões brancos suas lanças e escudos pouco puderam fazer, além de retardar um pouco a queda.

Em 1679 foi inaugurado pelos africâneres o forte conhecido como ‘Castelo da Boa Esperança’.

Trata-se da primeira construção europeia na África do Sul, na época a beira-mar, hoje depois de sucessivos aterros está a centenas de metros da orla.

O que garantiu pouco mais de um século de domínio.

Porém em 1795 a Inglaterra exige a rendição da Colônia (holandesa) do Cabo e sua anexação ao Império Britânico.

Os holandeses se negam, e resistem o quanto podem mas o Cabo cai acuado por invasão de enorme esquadra da Real Marinha Inglesa.

Em 1804 a Holanda brevemente retoma o controle, mas dois anos depois em nova invasão a Inglaterra assume em definitivo o comando da Cidade do Cabo e da colônia que o circunda, o que a princípio incluía até a atual Namíbia.

E eis a prova: Atlântida, subúrbio do Extremo Norte na Grande Cid. do Cabo. Moradia muito pobre, mas tem um Mercedes velho na garagem. No Paraguai (e vários páises árabes) a paixão por essa marca é a mesma. Mas tem mais: casa de madeira? E com toras na horizontal? Por acaso viemos parar no Caribe, ou no Sul dos EUA???

Assim os holandeses vão pro interior e ali estabelecem duas repúblicas independentes

Entre os Rios Laranja (‘Oranje’ no original holandês/africâner, a cor da Casa Real Holandesa e daí o uniforme da seleção desse país) e Vaal é criado o ‘Estado Livre Laranja’ (‘Orange Free State’ em inglês).

E após o Rio Vaal a República Sul-Africana, também chamada de ‘República do Transvaal’.

Não confunda, obviamente, a ‘República Sul-Africana’ holandesa/ africâner/boer com o país atual, já vamos chegar lá e ver como a presente República da África do Sul foi formada.

Primeiro voltemos ao século 19. Os holandeses foram derrotados no litoral, perderam o Cabo em 1795 e Natal, do outro lado, já era bastião inglês.

Ainda Atlântida, Cid. do Cabo: residência muito pobre de alvenaria, rua de terra, sozinha no quintal grande, sem laje e sem muro. Me belisca: ou eu estou sonhando ou eu voltei mesmo ao Paraguai!!

Assim migraram e no fundão do interior fundaram suas duas repúblicas independentes que, sendo o ser humano como é, também guerrearam entre si.

Mas o perigo maior estava por vir. Em 1877 a Inglaterra anexa também o Estado Livre Laranja e a República do Transvaal.

Em 1880 os colonizadores ‘boeres’ (holandeses) se revoltam, e estoura a Primeira Guerra Anglo-Boer.

Ela dura apenas 4 meses, até o começo do ano seguinte com vitória boer, as repúblicas holandesas reconquistam a independência.

Não dura muito. Em 1886 é descoberto ouro na região, e daí fundada a cidade de Joanesburgo.

Soweto, Joanesburgo. Favelas com casas de zinco. Me deu a nítida sensação de estar de volta aos morros de Valparaíso, Chile.

Obviamente a Coroa Britânica não vai deixar que outros enriqueçam com o metal. Assim em 1899 se inicia a Segunda Guerra Anglo-Boer.

Agora a luta foi renhida e cruel. A Inglaterra está disposta a ganhar a qualquer custo. E por isso lança mão de uma nova técnica:

Prende a população civil das cidades inimigas conquistadas em campos de concentração, especialmente Mulheres e crianças.

Voltamos a Atlântida, Cabo. Mas continuamos no Chile. Puxadinho no Prédio??? Você já sabe, é a marca registrada da Zona Oeste de Santiago, fotografei vários assim.

Veja mais abaixo a foto (busque pela legenda), tropas inglesas se dirigem com cavalaria e canhões pra ocupar a nascente cidade de Joanesburgo.

Conhecendo a crueldade inglesa, os comandantes de Joanesburgo optam por entregar a cidade sem lutar.

Não teve jeito, a Inglaterra conquistas as repúblicas boêres e unifica a África do Sul sob seu comando, como uma colônia.

Em 1909 é decretada independência formal pelo parlamento inglês, com a consequente criação da União Sul-Africana em 1910.

Plátanos na Zona Norte de Joanesburgo. Na África do Sul você se sente no Canadá ou em partes frias da América do Sul, como Campos do Jordão-SP, S. Catarina, Argentina ou Chile.

Mas a “independência” é apenas no papel, literalmente ‘pra inglês ver’.

A África do Sul continua colônia inglesa, apenas em 1931 vem a independência de fato.

De 1931 a 1960 a África do Sul fica na mesma situação que o Canadá, Austrália e Nova Zelândia estão até hoje: é independente na prática. Mas o chefe de estado ainda é a rainha (ou rei) da Grã-Bretanha.

Em 1961 em plebiscito nacional (apenas os brancos puderam votar) por pequena margem são cortados em definitivo os laços com a Inglaterra.

Casa com dezenas de painéis solares na Zona Norte de Joanesburgo. Na África do Sul o uso da energia do Sol está mil vezes mais avançado que no Brasil. Casas de todas as classes sociais, inclusive cohabs muito pobres (veremos fotos em outra postagem), fazem uso intenso desse modal. Com tanto cuidado com a Natureza, eu me senti na Alemanha.

Proclamada a ‘República da África do Sul’, a monarca em Londres enfim deixa de ser a chefe de estado sul-africano.

A província de Natal (atual Kwa-Zulu/Natal depois da incorporação do bantustão Kwa-Zulu) foi a única a votar ‘não’, pois ali os ingleses sendo maioria queriam permanecer ligados formalmente a Inglaterra.

Alias a rixa entre ingleses e africâneres na África do Sul é antiga. Em tempos passados, resolvida via aprisionamento da população civil rival em campos de concentração.

Hoje a situação é mais pacífica mas um certo ressentimento permanece. 

Derivado de modos diferentes de verem sua permanência na África, uma situação temporária pra uns e permanente pra outros.

Já que é pra falar da vibração Norte-Europeia, segura essa: a costa da Cidade do Cabo já sofreu sucessivos aterros, tomando espaço do mar. Veja essa imagem (desculpe a coluna na frente, eu estava dentro do terminal de ônibus e o painel é fora, não tive como evitar). As ruas são a área urbanizada da cidade em 1884, hoje é cem vezes maior, isso é apenas o Centro atualmente. Aquela estrela bem no meio é o Castelo da Boa Esperança, fortaleza construída pelos holandeses, já explicada acima. Até o fim do século 19 ela ainda era a beira-mar, a costa então era a linha azul-escura. Em 1920 já havia o primeiro aterro, a costa está naquela linha de azul de tom médio. E em 2013 muito mais terra havia sido tomada do Oceano, o terminal que eu estou está identificado por aquele ponto vermelho. Portanto um século atrás eu estaria dentro do mar nesse exato local. É como se eu estivesse na Holanda. Bem, a África do Sul e muito mais a Cidade do Cabo foram colonizados (também) por holandeses.

Explico. Os africâneres chamam os ingleses pejorativamente, perdão pelo termo chulo, de ‘pinto de sal’.

Isso quer dizer o seguinte. Os africâneres se veem como ‘descendentes de holandeses’, e não como ainda sendo holandeses.

Claro que valorizam sua cultura – até demais, tanto que a impuseram a força aos negros por um século.

Mas os africâneres cortaram seus laços atuais com a Holanda, com a Europa em geral. Eles agora se definem como sul-africanos.

Já os ingleses se recusam a cortar seus laços com a Inglaterra, e ficam numa ‘lealdade dividida’.

Não sabem ser sul-africanos de corpo & alma, pois ainda querem permanecer súditos da rainha.

Mesmo tendo nascido, sido criados e morado toda vida na África, se recusam a deixar ir seus laços com a ilha do outro lado do planeta da qual vieram seus bisavós.

Por isso têm o, desculpe novamente, ‘pinto de sal’.

Pois segundo os aficâneres, os ingleses ficam com um pé na Europa, outro na África, daí seu genital molha no mar e se torna salgado.

……….

Bem, após a matança da Guerra Anglo-Boer da virada do século 19 pro 20, os brancos entenderam que estavam condenados a viver juntos no mesmo país.

Como já dito, os ricos da África do Sul moram como os dos EUA: em casas (geralmente sobrados) nos subúrbios com calmas ruas sem saída, gramados a frente, se possível sem muro. Aqui é Z/N da Cidade do Cabo, perto da Praia da Lagoa e Praia do Pôr-do-Sol. Note a ausência de calçadas.

Independente de gostar ou não da Inglaterra. Portanto se uniram pra oprimir os negros e demais pessoas “de cor”.

Repito que oficialmente o ‘apartheid’ iniciou em 1948. Mas na prática desde o século 19. Lembre-se:

Quando chegaram a África do Sul vindos da Índia (ambos então parte do Império Britânico) os indianos eram tão pobres quantos os negros nativos.

E tinham os mesmos direitos que eles, ou seja nenhum.

As repúblicas “livres” Laranja e do Transvaal só eram livres pros brancos.

No Transvaal inclusive a lei dizia que não-brancos não podem ocupar cargos nem na administração pública nem nas igrejas.

Em Durbã, garotos de uma escola vão jogar bola na praia. Negros e brancos juntos, pois a legislação racista acabou. Aqui quero chamar a atenção novamente pro fato que na África do Sul os brancos são sempre alvíssimos, pele, olhos e cabelos – todos na foto são loiros! Não são mestiços, morenos como os ‘brancos’ do Sul da Europa e América Latina. Na África do Sul (nesse ponto ao menos) você está no Norte da Europa: Holanda, Alemanha, Inglaterra e Escandinávia.

Os indianos que foram morar no Transvaal tinham por lei que residir em bairros (na verdade favelas) exclusivos pra eles, designados pelas autoridades.

Além disso, eles não podiam trabalhar na mineração, e tampouco andar nas calçadas, tinham que caminhar pelo meio das ruas. E toda essa legislação data de 1885.

No Estado “Livre” Laranja era ainda pior. O governo branco simplesmente baniu a entrada de indianos.

Nenhum indiano podia morar no Estado Laranja, e mesmo pra atravessá-lo de passagem era necessário um visto especial.

Depois que a Inglaterra bateu as repúblicas boêres em 1902 e as incorporou a sua colônia sul-africana a situação permaneceu inalterada.

Cidade Alta’ de Durbã, um bairro (‘Musgrave‘, pronuncia ‘Mâsgreive’) num morro de classe alta e média-alta na Zona Central. Ir a África do Sul é como ir a Alemanha (ou a Joinville-SC). Nem todos os morros de Durbã são tão elitizados, como já vimos acima.

Afinal, mesmo em Natal (que era possessão inglesa) a situação era a mesma.

Ainda em 1888 foram formuladas leis que obrigavam os indianos a terem autorização da polícia (‘passes’) pra circular pela cidade.

E em toda África do Sul, boer ou inglesa, antes ou depois da Guerra Anglo-Boer, as pessoas ‘de cor’ não podiam entrar em diversos locais públicos.

Isso valia pra negros, indianos, chineses e qualquer não-europeu.

Pra você se sentir mesmo no Norte da Europa: comprei na Cidade do Cabo, mas o leite vem escrito em holandês. Na verdade africâner, que oficialmente é uma língua, mas na prática um dialeto do holandês (80% das palavras são idênticas nos dois idiomas, ou tem mínimas diferenças de grafia). 99,99% dos alimentos na África do Sul vem escritos em inglês, que é a língua que todos os seus habitantes (de todas as raças) falam. Muitas vezes em inglês, português e francês pra ser exportado pra toda África. Mas em africâner nenhum, apenas esse laticínio quis ressaltar sua origem dessa forma. As caixinhas de papelão do longa vida são bi-língues inglês e africâner, os saquinhos de plástico são também nos dois idiomas, mas não na mesma embalagem. Cada saquinho é ou em inglês ou africâner.

Eles nem sequer podiam caminhar pelas calçadas, precisavam ir pelo meio da rua com risco iminente de atropelamento.

Muita gente não sabe, mas aquele que foi batizado ao nascer Mohandas Gandhi viveu 21 anos na África do Sul. E foram os primeiros anos de sua vida adulta.

Ali ele iniciou sua luta política, e ali na África do Sul ele se tornou conhecido como ‘Mahatma’ Gandhi.

Uma pista pra quem não conhece a língua sânscrita. ‘Maha’ = ‘Grande’; ‘Atma’ = ‘Alma’. Logo ‘Mahatma’ significa ‘A Grande Alma’, ou se preferir algo similar a ‘Iluminado’, ‘Ungido’, pra usar as terminologias budista e cristã.

Gandhi era de família abastada, por isso na juventude foi estudar advocacia em Londres, nada menos que a capital do império que subjugava tanto a Índia quanto a África do Sul.

Ao retornar formado pra casa, um de seus primeiros trabalhos foi ser enviado a Durbã pra representar alguns ricos comerciantes muçulmanos indianos.

(Algumas notas. A ‘Índia’ de então incluía os atuais Bangladesh e Paquistão, logo muitos eram muçulmanos, situação que ainda persiste até hoje.

A África do Sul tem enorme comunidade muçulmana. Parte dela é formada por imigrantes [negros] de outros países da África, e também por sul-africanos negros convertidos.

Entretanto o grosso é de ‘indianos’, assim chamados, mas se os outros países já fosse independentes seriam conhecidos como bengalis ou paquistaneses.

Assim como no Brasil o termo ‘turco’ se refere basicamente a sírios e libaneses, então sob jugo do Império Otomano [turco]. Em várias partes do mundo as fronteiras de um século e pouco atrás eram diferentes das atuais.

Segundo, embora a imensa maioria dos indianos da África do Sul fosse pobre, evidentemente haviam também representantes da elite, que estavam ali por sua livre vontade.)

Zona Norte, Cidade do Cabo, perto da praia: subúrbio rico na lagoa, cada casa pode ter seu cais e barco particular. Nos EUA (especialmente na Flórida) é assim também.

Gandhi aportou em 1893, pra passar poucos meses. O que ele não sabia é que brevemente um acontecimento mudaria sua vida pra sempre.

E por ele Ser um Grande Avatar da Humanidade por consequência cambiaria também a trajetória do planeta.

Sendo de família de posses, e representando clientes idem, nada mais natural que ele viajasse de primeira classe nos trens.

Porém ainda nesse mesmo ano ele fazia uma viagem ferroviária, quando foi solicitado a sair da primeira classe, por não ser branco.

Eis meu almoço num domingo (de pouco Sol) na Beira-Mar de Durbã: arroz indiano, bastante apimentado. Bota bastante nisso! Na África eu comi como no Sul da Ásia.

Gandhi se recusou, afinal ele pagara a passagem, tanto quanto os euro-descendentes que se incomodaram em sentar ao lado de um asiático. E era advogado, conhecia a lei e seus direitos.

Pois bem. Assim o trem parou e ele foi posto pra fora, simplesmente porque sua pele era escura.

E teve que retornar a pé pra cidade, Pietmaritzburg (que era e ainda é capital de Natal, agora Kwa-Zulu Natal).

Ali morreu Mohandas Gandhi, o advogado que pensava em representar seus clientes, e Nasceu Mahatma Gandhi:

O Avatar cuja missão na Terra era lutar contras as injustiças, onde elas ocorressem. Seu ‘cliente’ a partir dali era a Humanidade.

Logo em frente ao restaurante, no calçadão da ‘Praia Norte’ de Durbã (mais chique que a ‘Praia Sul’, depois explico melhor) você pode andar de riquixá, uma carroça que é puxada não por um animal mas por um ser humano. Antes de domesticarem os cavalos, eram assim que as classes se diferenciavam: os ricos se locomoviam sentados, puxados por outras pessoas. A pequena classe-média e a imensa maioria de pobres andava a pé, enquanto que os miseráveis eram vendidos como escravos e eles quem puxavam os outros. Isso a milênios atrás, então ao ver essa cena eu atravessei um portal não só do espaço mas também do tempo. Trata-se de uma pitada da Índia enxertada na África. Bem, a água que vemos ao fundo é do Oceano Indiano (ou ‘Índico’), então não está tão longe assim. África do Sul, 2017 d.C.. Mas, cá entre nós, parece a Índia 5.000 antes do Cristo.

Tanto que Gandhi já se preparava pra deixar a África do Sul e voltar a Índia em definitivo, em fins do mesmo ano de 1893.

A rica comunidade indiana de Durbã organizou uma festa de despedida.

E ele já estava de malas prontas e passagem de navio comprada pra deixar a África.

Mas informaram Gandhi que o parlamento branco de Natal preparava um pacotaço de leis racista contra os indianos, além das leis que estavam em vigor e não eram poucas.

Pediram a ele que ficasse e liderasse a luta contra a discriminação. Gandhi disse:

“Fico. Contem comigo”. Assim, uma estada de pouco meses se ampliou pra mais de 2 décadas.

Provavelmente Gandhi não teria ficado se não tivesse sido enxotado do trem como um leproso ou um bicho peçoenhento, mesmo tendo direito de ir na 1ª classe.

Ele ficou. A África do Sul mudou Gandhi, e depois ele mudou a África do Sul, a Índia, o Império Britânico e toda Terra.

Pois foi figura-chave no movimento pra Conscientizar as pessoas que era errado nações mais poderosas subjugarem as mais fracas.

Centrão de Joanesburgo: imóvel abandonado todo grafitado com o ‘alfabeto’ criado em Nova Iorque. Se você pensou que estamos no Bronx (bairro pobre e negro dessa cidade ianque, como se sabe), você não está de todo errado. Joanesburgo é a única cidade da África do Sul que tem pichação e grafite, mesmo assim bem menos que na América Latina e EUA. Nas demais metrópoles sul-africanas quase inexistente.

Ainda em Durbã fundou e liderou uma frente de combate ao racismo.

Depois mudou-se pra Joanesburgo, onde organizou uma marcha que serviu de treino pra famosa ‘Marcha do Sal’ feita depois na Índia, que foi a pá de cal no domínio injusto britânico por lá.

Gandhi foi preso 4 vezes na África do Sul, e no total cumpriu 7 meses encarcerado nos presídios sul-africanos.

Foi mais um ensaio pro que viria na Índia, onde ele viveria mais de 3 anos e meio atrás das grades.

……….

Em Durbã, Gandhi foi vizinho de um dos fundadores do Congresso Nacional Africano (CNA, em inglês ANC), John Langalibalele Dube.

“Bronx a Beira-Mar”: continuamos na vibração nova-iorquina. Na África do Sul há favelas e bairros pobres afastados do Centro das cidades (literalmente na ‘periferia’) como na América Latina? Sim, há. Mas também é muito comum o gueto central, modelo que predomina na Europa, EUA e Anglosfera. Fiquei no bairro ‘Praia Sul’, em Durbã. É exatamente esse caso. O prédio que veem na imagem é vizinho ao que me hospedei, mesma quadra. Trata-se de quitinetes pra massa, classe trabalhadora. É integrado, moram brancos, mas imensa maioria de negros e indianos. E, surpresa, na quadra do mar. Na ‘Praia Sul’ não há alta burguesia nem elite, só povão e no máximo pequena burguesia. A ‘Praia Norte’ é mais cara, ali há edifícios de alto padrão. Mas na ‘Praia Sul’ não, é um gueto na orla, daí o apelido que eu dei.

Ambos trocaram muitas ideias e se influenciaram mutuamente.

Afinal tanto indianos quanto negros sofriam da mesma repressão.

Agora, se qualitativamente os migrantes da Ásia igualmente eram discriminados, óbvio que quantitativamente os nativos da África foram as maiores vítimas do regime racista.

Se já existia antes de 1948, a partir dessa data com a oficialização o ‘apartheid’ só veio a piorar.

Entre 1949 e 50 a legislação básica racista foi delineada: foram aprovadas as leis proibiam primeiro casamentos entre brancos e não-brancos, e depois qualquer relação sexual.

As penas de prisão eram de até 7 anos pros membros dos dois sexos.

Mas no caso de um Homem negro ser apanhado com uma Mulher branca, a punição mais provável era mais imediata, o linchamento nas mãos da multidão.

Igualmente veio a lei de ‘classificação populacional’. Cada sul-africano foi enquadrado em uma das 4 categorias, ‘branco’, ‘negro’, ‘mestiço’ ou ‘indiano’.

Na prática a 1ª denominava os brancos, e as outras 3 o que coletivamente eram os ‘não-brancos’.

Eu fui ao Bronx original (NY), em 1996. De volta a África, outra da Praia Sul, Durbã, o “Bronx a Beira-Mar”.  A galera tem que congregar na rua, não há espaços de lazer nem no prédio nem no bairro (exceto o calçadão da orla).

Na teoria todas as raças deveriam permanecer separadas.

Só que o que ocorria era que o estado pouco se importavam quando os não-brancos interagiam entre si.

Apenas o relacionamento entre os brancos e qualquer pessoa ‘de cor’ é que era severamente regulado.

Sempre em favor do branco evidentemente.

Mais do que classificar, a lei estabelecia juridicamente em quis áreas do país cada raça podia viver.

Bairro da elite na Z/N de Joanesburgo, África do Sul. Só mansões residenciais, sem comércio. Detalhe: sem calçadas em qualquer lado da rua. Se você já foi aos EUA, sabe que lá é assim também, esses dois países não são feitos pra andar a pé, só de carro.

Houveram mais de 3 milhões de deslocamentos forçados, quando alguém vivia numa área que foi designada pra outra raça.

As vezes uma família já estava a séculos numa região. Pouco importava.

Policiais fortemente armados apareciam ao amanhecer, todos só tinham tempo de carregar o que pudesse ser levado nas mãos.

A seguir as pessoas eram postas em caminhões e relocadas pra onde o governo determinasse.

A imensa maioria dos relocados eram de negros, mas os indianos também passaram por isso. E houveram raríssimos casos em que alguns brancos também tiveram que se mudar contra a vontade.

Acima falamos em esportes, e em anglosfera. Garotos alvos como a neve jogam ‘rugby’ na praia em Durbã. Se eu estivesse na Inglaterra, Austrália ou Nova Zelândia a cena seria a mesma. Pela herança inglesa, a África do Sul se parece muito até com a Oceania!

Pois suas terras ficaram dentro do território pra onde o governo expeliria os negros após expulsá-los das cidades.

Por exemplo: nenhum negro poderia residir dentro dos limites do município de Joanesburgo.

Exatamente por isso eles se formaram sua base em Soweto (sigla de ‘Assentamento Sudoeste’ em inglês), que era na região metropolitana.

Quando o ‘apartheid’ acabou os municípios foram unificados dentro da mesma prefeitura metropolitana.

E hoje Soweto faz parte de Joanesburgo com muito orgulho, pelo papel ativo que desempenhou na resistência.

Subúrbios elitizados de Joanesburgo: “Estate” significa ‘bairro’. Daí veio o termo ‘Real Estate’, (‘imobiliária’), usado tanto na Inglaterra quanto EUA. Agora, somente ‘Estate’ como ‘bairro’, na Inglaterra e África do Sul sim mas nos EUA não.

(Nota: a África do Sul, como os EUA, tem ativa uma 4ª esfera administrativa que não existe no Brasil, a da ‘prefeitura metropolitana’, o ‘condado’ nos EUA.

No nosso país, existem as ‘regiões metropolitanas’ mas eles não têm administração própria, são os governos estaduais quem cuidam delas, nem sempre de forma eficaz.

Na África do Sul, ao contrário, existe uma esfera de governo específica.

Pois bem. A prefeitura metropolitana de Joanesburgo incorpora Soweto e diversos outros subúrbios [ricos e pobres, majoritariamente negros, brancos ou mistos] sob o mesmo corpo executivo/legislativo.

Assim, Soweto e Joanesburgo, embora permaneçam municípios separados numa esfera menor, fazem parte da mesma cidade mesmo juridicamente. Volta o texto original.)

Mais herança inglesa. Restaurante no Centro de Pretória serve ‘peixe & batatas-fritas‘. O prato mais popular das Ilhas Britânicas também é o preferido de milhões de sul-africanos.

Logo a seguir foram criados os ‘bantustões’, onde os negros deveriam residir, sendo expulsos da África do Sul.

‘Bantu’ é a raiz etno-linguística a que pertencem os negros sul-africanos.

‘Istão’ significa ‘terra’ em persa e idiomas vizinhos, por isso tantos países na Ásia Central se chamam ‘Paquistão’, ‘Afeganistão’, ‘Tajiquistão’, ‘Casaquistão’, etc.

O ‘bantustão’ portanto é a ‘terra dos bantus’, e ali eles devem viver, deixando a África do Sul pros brancos, era a lógica do regime.

A princípio esse era o nome oficial do programa, depois alterado pra ‘terra-natal’.

A ideia inicial dos cabeças do ‘apartheid’ era relocar, amigavelmente ou a força se preciso, todos os negros pra algum dos bantustões.

Agora a herança ianque, Mc Donald’s também no Centro de Pretória. A África do Sul adora a ‘comida-rápida’ dos EUA, todas as cadeias ianques são oni-presentes lá. Especialmente a KFC, que vende frango frito. Como os negros do Caribe e do Sul dos EUA, os sul-africanos amam essa receita. Mas, bem, aí provavelmente foi na mão contrária, os negros de certo já comiam carne de galinha encharcada em muita gordura de má qualidade (o colesterol foi pra estratosfera!) na África antes de virem pra América.

Aí eles exerceriam seus direitos políticos ali, parando de reivindicar o voto ou qualquer outra coisa na África do Sul.

Porém rapidamente a elite branca viu que esse plano não seria possível.

Posto que os brancos são uma pequena parte da população sul-africana, e ainda por cima concentrados na elite.

Logo, a economia sul-africana entraria em colapso sem a mão-de-obra negra, e não iria demorar.

Assim os brancos desistiram de remover a força todos os negros, mas não desistiram de negar-lhes a cidadania sul-africana.

Cada Homem e Mulher negro foi denominado cidadão de algum dos 10 bantustões, contra sua vontade. E portanto numa canetada deixaram de serem sul-africanos.

A classificação era arbitrária e superficial. Muitos negros foram denominados ‘cidadãos’ de um bantustão que eles não tinham qualquer ligação.

“Velho Oeste Ianque”? Quase! Na verdade Centro de Joanesburgo. Essa também foi uma cidade fundada na ‘Corrida ao Ouro’, que surgiu quando esse metal foi descoberto na região, mais ou menos na mesma época de suas congêneres nos EUA (2ª metade do século 19). O trenzinho da mina está ali pra lembrar essa origem.

Pois eram habitados por tribos diversas da sua. Ao serem removidos pra lá, aí sim eles se tornaram estrangeiros nesse ‘país’. 

País que só existia na cabeça dos que faziam o ‘apartheid’ e de seus colaboradores negros, os caciques da tribos que administravam o bantustão.

Oras, o bem-estar dos negros expulsos da RAS não era o objetivo desse repatriamento, e sim sua desaparição, se não física ao menos política.

Dos milhões de negros que foram relocados a força, centenas de milhares foram pra terras que eles nunca haviam pisado, e onde não tinham nenhum parente.

Dizendo de novo, não por caridade mas por impossibilidade prática o regime cancelou o plano de deportar todos os negros pros bantustões.

Centrão de Durbã (muitos camelôs, falo melhor da região em breve): propaganda muçulmana escrita – também – em árabe. Aqui a África do Sul lembrou muito a Arábia Saudita.

Mas ainda assim retirou a cidadania sul-africana de todos eles.

Os negros poderiam então continuar vivendo e trabalhando na África do Sul, mas como ‘trabalhadores convidados’.

Precisavam de uma autorização especial pra ter sua casa, que obviamente só poderia ser nos bairros exclusivos pra negros, onde os serviços públicos eram praticamente inexistentes.

Ademais, precisavam de um ‘passe’ expedido pela polícia, e ele só valia pra circularem no bairro que trabalhavam. Camburões da polícia circulavam nos elegantes bairros brancos, exigindo o ‘passe’ dos negros.

Centro Novo da Cidade do Cabo, um bairro planejado que está sendo construído agora pra classe alta e média-alta, no coração da cidade. Me senti de volta a Buenos Aires-Argentina (que visitei 1 mês antes), onde ocorreu exatamente o mesmo com a implantação do Porto Madeiro, 2 décadas atrás. Mas peraí: morar em frente a um canal, onde a rua é água e você chega de barco em casa (como esse rapaz poderia estar fazendo)? Por acaso estamos em Veneza/Itália??? Ou (se você substituir o rio por mar) quem sabe em Bombinhas-SC?

Os que não tinham, ou estava vencido ou fora do território, eram presos imediatamente.

Numa canetada, os negros viraram estrangeiros em seu próprio país, na terra que eles residem a dezenas de milênios.

Além disso, as Mulheres negras eram ainda mais perseguidas.

Em muitos casos apenas o marido recebia autorização pra trabalhar, e portanto pra entrar nas cidades.

As esposas e crianças ficavam numa espécie de prisão domiciliar no bantustão.

Mesmo nos poucos bairros urbanos que era autorizada a presença permanente feminina, as Mulheres não podiam por lei serem proprietárias de uma casa.

Ou seja, sua presença nas cidades estava condicionada ao casamento, fosse esse bom ou ruim.

Não é segredo pra ninguém que na época a nefasta prática do marido bater na esposa era ainda mais generalizada que hoje.

Bando de aves que me parecem flamingos e pelicanos curtem o Pôr-do-Sol numa das muitas lagoas da Zona Norte da Cidade do Cabo. Haviam várias outras espécies, entre elas um animal rosa lindíssimo, mas essas fotos não focaram, tirei de dentro de um ônibus em alta velocidade e eles estavam distantes. Em outras mensagens solto mais tomadas das aves africanas, inclusive uma bela revoada. Aqui que nos importa é: você está dentro da cidade, mas vê o tempo todo pássaros exóticos em bandos? A África do Sul também tem um pouco da Amazônia.

O que muitas vezes gerava uma escolha difícil as negras:

Ficarem confinadas em áreas rurais remotas onde as oportunidades de renda e educação eram zero, ou morar numa favela ao lado de um marido que abusa delas.

…….

Obviamente a comunidade negra resistiu. Nelson Mandela era sua figura mais emblemática, e por isso ficou 27 anos preso.

Mandela passou muito tempo na solitária, e ele e todos os outros presos eram obrigados a ficar quebrando pedras durante todo dia. Não é figura de linguagem.

Obviamente o trabalho deles não servia pra nada, mas era um fim em si mesmo, o de tornar a vida dos prisioneiros o mais dura possível, literalmente.

Mandela também é um Avatar, uma das ‘Grandes Almas’ da Humanidade. Homem inteligente e conciliador, se formou na cadeia num curso a distância promovido por uma universidade inglesa.

Também estudou africâner pra se comunicar com os carcereiros, o que ocasionou em certa simpatia por parte deles.

Já que falamos de nossa Pátria Amada: a África do Sul tem uma relação curiosa com o idioma que usamos aqui. Ninguém fala português lá, exceto imigrantes de ex-colônias lusas na África. Ainda assim, diversas coisas na África do Sul são escritas em português, como se estivéssemos no Brasil. Num muro no Centrão de Durbã (perto da Estação de Trem) alguém pichou “Tem Suicida”. Alguns especularam que foi um moçambicano ou angolano . . .

Mandela prioriza a não-violência, e buscava a colaboração dos brancos que se opunham ao ‘apartheid’.

Mas ele entendia também que se o regime repressor fechasse absolutamente todas as portas pra oposição pacífica, um pouco de violência se tornava necessária pra chamar a atenção pras reivindicações e forçar o governo a negociar.

Na prisão Mandela e os membros de seu grupo, o CNA, conviveram com os presos do grupo BPC, a qual Steve Biko pertencia. 

O BPC era mais radical, e rejeitava colaboração com os brancos mesmo que eles se opusessem ao ‘apartheid’, pois segundo Biko isso ‘domesticava a resistência negra’.

Biko negava ser racista anti-branco, teve amigos euro-descendentes incluindo um jornalista que escreveu sua biografia.

. . . mas veja esse prédio. A beira-mar, num dos bairros mais caros da Cidade do Cabo (aqui não é gueto, nem um pouco parecido com a ‘Praia Sul’ de Durbã). Não foi angolano quem nomeou e mora nele, (nada contra os angolanos, você entende o que quero dizer). E mesmo assim o nome está em português. Há muitos outros exemplos, especialmente no ramo da alimentação mas não somente. Em outra postagem mostro mais fotos e falamos melhor da linguística. Aqui o que nos importa é os brasileiros nos sentimos em casa na África do Sul.

Além de ter se relacionado sexualmente com algumas Mulheres caucasianas.

Mas ele alegava, não sem razão, que os brancos propunham estratégias muito suaves pra combater o ‘apartheid’, que não faziam sentido aos negros e não iriam aliviar seu problema. Disse Biko:

O branco controla o ‘apartheid’, e pretende através de outra corrente controlar também a luta anti-‘apartheid’.

Assim o negro se torna cada vez mais marginalizado, mesmo dentro do movimento pra derrubar o regime do qual ele é a maior vítima”.

O mesmo Biko arrematou sua filosofia: “o branco liberal não é inimigo, é um amigo. Mas as estratégias de combate dos negros devem ser formuladas pelos próprios negros”.

Mandela, ao contrário, aceitava qualquer ajuda, viesse ela de quem fosse. Mas ele respeitava a posição de Biko e seus camaradas, vendo neles soldados da mesma causa, e tinha também bom relacionamento com eles atrás das grades.

………

Alias nosso país descobriu alguns nichos em que é o que fazemos considerado ‘estado de arte’, a própria excelência, a referência do setor. Famoso é o caso em que academias ao redor do planeta dizem ensinar ‘Jiu-jitsu Brasileiro’, sendo verdade ou não. Numa vibração mais feminina, esse salão de beleza no Centro de Durbã promete deixar as africanas “com o cabelo das brasileiras“. Outros salões prometiam o mesmo na depilação.

Com a prisão de Mandela e outros nos anos 60 a resistência perdeu força. Assim o começo dos anos 70 foi calmo.

Uma calma injusta, claro, os negros escravos dentro de sua própria terra (“paz sem voz não é paz, é medo“, como alguém definiu).

A situação breve se alteraria. A ‘calma injusta’ logo cederia lugar a justa revolta de quem era oprimido em seu próprio continente pelos que vieram de outro continente.

Os negros não tinham mesmo direito a terem aulas em suas línguas nativas.

Ademais, a educação era precaríssima, nem carteiras muitos deles não tinham.

Assim eles queriam ao menos ter as poucas aulas a que tinham direito em inglês.

O regime racista, entretanto, pretendia obrigar a universalização do idioma africâner.

Mesmo contra a vontade dos negros, que viam no africâner a materialização linguística do ‘apartheid’.

Centrinho da ‘Praia Sul’ de Durbã. Repito os detalhes que já apontei acima: 1) Trata-se de um bairro ainda que na orla mas mesmo assim popular, pro povão e não pra burguesia; 2) Durbã tem mais prédios altos que as outras cidades sul-africanas; 3) O inglês na África é britânico, e por isso grafado ‘Centre‘. Nos EUA se escreve ‘Center‘, como você sabe.

Natural, ao impor sua língua a força em outro povo, os boeres queriam mostrar aos negros mais uma vez que eles, os negros, não eram seres humanos.

E assim cada vez que abrissem a boca se lembrariam que eles não podiam sequer escolher a língua com a qual se comunicavam.

Exatamente porque era cruel é que o ‘apartheid’ não abriu mão.

No meio da década o ministério da educação determinou que metade das disciplinas seriam em africâner, quisessem os negros ou não.

Aí atingiu o limite, Soweto explodiu no ‘Motim Linguístico de 76’.

Os estudantes negros se recusaram a ver essas aulas na língua do opressor, daquele que os tornou estrangeiros dentro de seu próprio país.

Ainda Zona Central de Durbã: posto de gasolina embaixo de um prédio. Lá é comum, vi vários. Só presenciei isso em outras duas cidades, Porto Alegre-RS e Buenos Aires. Definitivamente a África do Sul tem também um pezinho na América Latina . . .

E saíram as ruas, bradando “queremos aulas em inglês”, e cantando as músicas de seus povos.

A revolta foi pacífica. Mas a polícia foi chamada e abriu fogo na multidão, matando oficialmente perto de 170 pessoas, várias delas adolescentes.

Números não-oficiais falam em 700 mortos apenas em Soweto, a seguir a revolta se espalhou pelo país com muito mais de mil vítimas fatais.

A África do Sul entrou num turbilhão que não se acalmou mais.

Ufa! Definitivamente a África do Sul é mesmo ‘O Mundo num só País’. Mas pra gente não esquecer que estamos na África, agora vamos ver algumas coisas típicas de lá, ou que existem também em outras partes do 3º Mundo mas certamente na África igualmente. Pra começar: cabras dentro da cidade, nesse caso numa das periferias de Durbã. É a cabra quem mantém a África viva, pois é uma espécie muito resistente, que precisa de pouca água. E tem mil-&-uma-utilidades. Desse animal se extrai comida, couro, meio de transporte, guarda a casa (se invadir seu território eles são bravos como um ‘pit-bull’), fornece renda, companhia e ocupação as pessoas. Nos demais países as África Negra (Senegal, Gana, Botsuana, Lesoto, Suazilândia por exemplo) os caprinos são oni-presentes nos bairros mais humildes, mesmo no Centro das cidades. Quase todas as casas têm um cercadinho pra criação deles. Como a África do Sul é bem mais rica que todos eles, as cabras não passam nem perto das Zonas Centrais das cidades, mesmo os guetos mais pobres. Mas nas favelas mais afastadas do subúrbios as vemos. Aqui no bairro ‘Klaarwater’, um dos morros pobres que cercam Durbã. Vi esses bichos, vivos,  a venda também na Gde. João Pessoa-PB.

Em 1977, Steve Biko foi preso, severamente torturado (permaneceu 20 dias nu e acorrentado, ao ser transferido foi também nu).

A seguir morreu na cadeia em decorrência das lesões.

Os movimentos negros viram que era hora de intensificar as ações, pra forçar a queda do regime.

Ao mesmo tempo, muitos brancos sul-africanos que eram contra o ‘apartheid’ e pessoas de diversas raças em vários países também aumentaram a pressão sobre o governo com ações de conscientização global sobre a injustiça que era a África do Sul.

O regime sentiu os golpes, e partiu pro contra-ataque. Ainda em 1976 decretou a ‘independência’ de 4 dos 10 bantustões.

A partir de agora eles eram oficialmente ‘países independentes’, e ali é que os negros deveriam viver e procurar votar em quem lhes aprouvesse.

Deixando de uma vez de exigir o mesmo da África do Sul, de onde ‘nem eram cidadãos’ segundo o discurso oficial.

Pra reforçar a farsa os cabeças do ‘apartheid’ tiveram a desfaçatez de abrirem embaixadas sul-africanas nas capitais desses ‘países’. Ninguém engoliu.

Nenhuma nação do mundo reconheceu os bantustões como pátrias a parte, todo mundo vendo a jogada pelo que era:

Uma covarde tentativa de mascarar a realidade e adiar o inevitável, que era conceder plenos direitos a população negra.

Pessoas viajando sem proteção nas caçambas. Muito comum na África do Sul, e também no México, Colômbia e República Dominicana. Embora menos frequente, vi e fotografei também na Argentina (breve sobe pro ar). No Brasil e Chile, ao menos nas grandes cidades, foi comum no passado, hoje quase não maisainda ocorre mas é raro. Voltando a África do Sul, essa é uma nação de paradoxos. O transporte lá vai desde o mais precário como notam aqui até trens moderníssimos, que não fariam feio no Japão, China, Alemanha ou Suíça.

Outra farsa foi, numa tentativa de ‘dividir pra dominar’, no começo dos anos 80 criar um parlamento ‘tricameral’. Até então o parlamento oficial sempre fora exclusivo branco, não-brancos não podiam votar nem se candidatar.

Como os negros eram maioria da população oprimida, e a resistência ao regime buscava unificar os oprimidos, o ‘apartheid’ criou um ‘parlamento’ pros indianos e outro pros mestiços/mulatos.

Oficialmente ‘negros’, ou os que se definem como ‘mulatos’, na prática são todos negros. E boa parte dos indianos também têm a pele marrom.

Vimos casais inter-raciais em Durbã em que você tinha que ver o cabelo e o nariz pra saber qual dos dois tinha ascendência asiática, e qual africana, pois o tom da tez era sempre bem carregado na melanina.

Mesmo a maioria dos indianos que não são tão escuros quanto os africanos certamente o são muito, mas muito mais pardos que os alvíssimos brancos normandos sul-africanos.

Bairros caros da orla da Cidade do Cabo. ‘Esplanade’ e ‘Promenade’ são palavras do inglês britânico pra designar o que nós chamamos de ‘Beira-Mar’. Por curiosidade, os equivalentes no idioma espanhol: no Paraguai e Argentina o termo é ‘Costanera’, no México ‘Costera’, e no Caribe o ‘Malecón’.

E até o fim dos anos 70, na época já há quase um século portanto, os brancos tratavam todos os não-brancos como um mesmo ‘pacote’, e assim teriam continuado a fazê-lo se dependesse de sua escolha, pois desprezavam todos igualmente.

Agora, com o ‘apartheid’ na defensiva a criação do um ‘parlamento’ de fachada sem qualquer poder real (pros indianos e mulatos sim mas não pros negros) não visava demonstrar qualquer apreço ou mudança de opinião dos brancos sobre aqueles que eles concederam essa ‘bênção’.

Sua jogada intentava apenas dividir a resistência, rachando-a no meio ao isolar os dois grupos ‘agraciados’ dos oficialmente negros.

Na teoria cada parlamento cuidaria dos assuntos relativos a suas respectivas raças – a África do Sul era então parlamentarista, o cargo de presidente era apenas formal. E os assuntos que dissessem respeito ao país como um todo teriam que ser decididos “em conjunto”.

Duas fotos da virada do século 19 pro 20: o escritório de direito do jovem advogado Mahatma Gandhi em Joanesburgo, 1905 (originada da Wikipédia, créditos mantidos).

No entanto, através de diversas artimanhas o parlamento dos brancos continuava a ser o único que tinha poder de fato.

Se houvesse consenso se louvava a ‘participação democrática’ de indianos e mestiços.

Mas em caso de divergências a casa dos caucasianos dava sempre a palavra final no que era importante.

Era outra jogada de cartas marcadas, uma tentativa de se criar um ‘bantustão’ legislativo pros mulatos e indianos, e assim, digo de novo pois é o óbvio, afastá-los da resistência.

Além disso queriam acalmar também os brancos sul-africanos anti-apartheid e a comunidade internacional, dizendo que as ‘reformas’ (que não reformavam nada na prática) haviam ‘se iniciado’. 

Pouco antes, na 2ª Guerra Anglo-Boer, tropas inglesas se dirigem pra ocupar Joanesburgo. Num acordo a cidade se entregou sem resistir, evitando o banho de sangue.

Mais uma vez, não colou. Numa eleição, apenas 6% dos indianos foram votar.

E a nos outros países a pressão pra boicotar a África do Sul só aumentava.

Os grupos negros também partiam pra ações cada vez mais ousadas, incluso com táticas de guerrilha, pra tornar os bairros negros ingovernáveis e forçar mudanças:

Em 1984 explode nova revolta em Soweto.

Cidade do Cabo, oficialmente tri-língue: inglês, xhosa e africâner. Essa é a porta de um ônibus. Inverti a imagem no computador, como nota pela data, senão o resto da foto é quem sairia da direita pra esquerda.

Em desespero, nesse mesmo ano o regime aboliu o parlamentarismo e adotou o presidencialismo.

Onde um Homem implanta as ações que achar necessárias sem longas discussões legislativas.

A África do Sul, como dito, era parlamentarista desde a independência da Inglaterra, em 1960. Não mais.

O primeiro-ministro Pieter Williem Botha (conhecido como P.W. Botha) extingue seu próprio cargo e assume a presidência.

Em 1986 decreta estado de emergência. Logo a seguir a força aérea sul-africana bombardeia as capitais dos países vizinhos Zâmbia, Botsuana e Zimbábue, por eles abrigarem exilados sul-africanos que lutavam contra o ‘apartheid’.

Terreno do ‘Forte Velho’ de Durbã, construído pelos ingleses em 1812. Hoje um parque/museu.

Nenhuma dessas ações adianta nada, o momento chegara. As ações do ‘apartheid’ apenas apressam seu fim.

Acuado, Botha desmantela algumas das piores leis racistas, como as que proibiam casamentos e bairros inter-raciais.

Mas lança uma cruzada contra todos os ativistas negros. Milhares de pessoas são presas sem mandato e severamente torturadas.

Mais um casal inter-racial, ele negro ela loirinha. Os pombinhos vinham de mãos dadas, curtindo o belo entardecer a Beira-Mar perto do centro da Cidade do Cabo. Aí ela largou da mão dele pra mexer no celular, daí imagens em duas escalas.

Rotineiramente a polícia abre fogo em manifestantes desarmados, centenas morrem. Ao mesmo tempo, a África do Sul está isolada econômica e culturalmente na comunidade internacional.

O banimento dos times e seleções sul-africanas “exclusivas pra brancos” de qualquer participação internacional esportiva, em todas as modalidades, era uma realidade.

Isso doía na Alma dos atletas. Os brancos provavam de seu próprio remédio, e isso abriu os olhos de muitos deles.

Botha se declara sempre favorável ao ‘apartheid’, que segundo ele faz parte das leis naturais e portanto é permanente, a resistência ao regime é fútil. Mas as coisas saem do controle, inclusive em sua própria saúde.

Praça no Centro de Joanesburgo decorada com estátuas de uma família de veados, me refiro ao bicho claro. Nos detalhes em outra escala: na quadra não há trave, só cestas. Então a galera bate um basquete. E ao fundo enorme bandeira sul-africana que há num prédio, observe no canto de cima direito da imagem maior o azul que compõe a parte interior do pavilhão.

Em 1989, Botha sofre um derrame e é obrigado a sair da presidência. Assume o reformista Frederik de Klerk.

No ano seguinte ele legaliza os grupos de oposição e liberta Mandela, entre outros.

Saturada de um século de opressão sendo meio século de forma aberta, a África do Sul entra em caos.

Grupos de extrema-direita partem pra campanhas terroristas, assassinando ativistas que lutavam pelo fim do regime racista.

As favelas negras entram em um turbilhão de violência que durou uma década, em sua fase mais intensa – porque embora amenizado o problema permanece grave até hoje.

Muita gente não sabe disso, mas os negros sul-africanos adoram futebol. Veja, ainda na mesma praça (note a bandeira ao fundo). Se a quadra não tem trave, eles improvisam um campinho em qualquer espaço vago. O que vale é a bola rolar de pé-em-pé. Muitos, repito, pensam que na África do Sul “o esporte nacional é o ‘rugby’ “. É um clichê, e não poderia ser mais falso. De fato, os brancos gostam, e se dividem entre futebol e ‘rugby’. Porém os negros, que são a imensa maioria do país,  não dão qualquer bola pro ‘rugby’, é só no futeba mesmo.

E como vemos pelas fotos de um livro (que serão levantadas pra página em breve), muitas vezes os negros se matavam entre si de forma feroz, com pedras e pauladas, ou queimando vivos seus adversários.

Eu disse que o ‘micro-ondas’ foi inventado na África do Sul. Ou pelo menos popularizado pro mundo todo lá, trazido de alguma guerra civil da África.

Diante de tantos problemas, de Klerk organiza em 1992 plebiscito pra que a população decida por ela mesma se as reformas devem prosseguir.

Só os brancos podem votar, ainda estamos no ‘apartheid’, mesmo que em seus últimos dias. Botha, seu antecessor na presidência, faz vigorosa campanha pelo ‘não’.

Novamente sai derrotado. Com vitória esmadora do ‘sim’, a abertura prossegue – até porque não há mais como voltar atrás.

O muito ricos (quase todos brancos) jogam também polo. Funcionário apara a grama. Só nesse clube na ‘Riviera do Cabosão 3 campos seguidos, ou seja, tem bastante gente que curte esse esporte elitizado lá. Mas também fala sério: tem coisa melhor que jogar vendo essa água cristalina do Atlântico ao fundo??

Portanto em 27 de abril de 1994 ocorrem as primeiras eleições democráticas. Mandela é eleito o primeiro presidente democrático da África do Sul, cargo que ocupa até 1999.

………

O ‘apartheid’ político acabou, partido Congresso Nacional Africano de Mandela está no poder desde 94.

O ‘apartheid’ econômico e cultural se amenizou, parte dos negros ascenderam a alta-burguesia.

Tem mais: hoje há bairros com mansões onde eles predominam. E as 9 línguas bantus mais populares são idiomas oficiais da África do Sul.

Mas diversos problemas permanecem, não os menores deles índices astronômicos de violência urbana e desigualdade social.

Nota de 100 rands com a inscrição ‘Banco Central da África do Sul’ em 2 idiomas bantus (negros). Acabaram os tempos em que apenas inglês e africâner eram as línguas oficiais, e pior, o governo queria empurras o africâner goela abaixo nos negros, sem que fosse do interesse deles se comunicar nesse idioma.

Além disso, em várias cidades os brancos agora se impuseram um ‘auto-apartheid’ e não andam nas ruas do Centro de Durbã e Joanesburgo, ali só vemos pessoas ‘de cor’.

Se tudo fosse pouco, há um novo turbilhão varrendo a nação, alguns querem derrubar o presidente Jacob Zuma, outros querem que ele permaneça até o fim do mandato.

Essa distensão está gerando grande instabilidade política, situação que conhecemos bem no Brasil.

São os desafios do novo milênio, agora sob democracia.

A queda do ‘apartheid’ não foi o fim da luta por uma África do Sul mais justa, mas o começo. Muito resta por fazer. É isso que veremos no próximo texto.

Continua…

……

Outras matérias da série:

Da “Guerra dos Táxis” ao Gautrem: (julho.17):  O transporte na África do Sul, da barbárie (as “Guerras do Transporte”, e não é figura de linguagem, o sangue correu e ainda corre)  ao moderníssimo (o Gautrem, a esquerda).

Na ‘época do apartheid’ o dinheiro sul-africano vinha somente em inglês e africâner. Essa é de 94, justo o ano de transição pra democracia. No apê que fiquei em Joanesburgo, havia um pote com centenas de moedas e notas, algumas raríssimas, de vários países da África e Ásia. Fotografei e atualizei a matéria sobre a grana.

“Mama-África”, um desenho: Marília e Maurílio africanos, em Soweto. Produzido e levantado pro ar em Joanesburgo, 20/04/2017. Abrimos a Série da África lá da África.

A Riviera do Cabo (maio.17): Ensaio fotográfico mostrando a orla da Zona Sul da Cidade do Cabo.

Que é uma das cidades mais lindas do mundo e esse é seu pedaço mais encantador. Definitivamente “palavras não são necessárias“.

Solo Sagrado (também maio.17): Mais desenhos: Maurílio beijando o chão dessa mesma Beira-Mar da Cidade do Cabo, mas já na Zona Central;

Uma Marília indiana no mar em Durbã – de roupa e tudo!, como é tradição na cidade. Ela está de vestido verde floral, o biquíni por baixo; Além de mais um de Marília no Brasil.

“Deus proverá”

Solo Sagrado

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 11 de maio de 2017

Maurílio na Cidade do Cabo, África do Sul. É notório que a Montanha-Mesa ali localizada é um chacra da Mãe-Terra.

Os Estudantes Sabem o que isso significa: um Portal de Energias, um encontro entre dimensões. Bem, é exatamente isso que é essa cidade. No Cabo da Boa Esperança que a nomeia é onde os Oceanos Atlântico e Índico se unem.

Portanto ali é o “Encontro das Águas”, e também o Encontro entre o Leste e o Oeste do Planeta.

Diante dessa Vibração tão Forte, Maurílio se ajoelhou e beijou o Solo Sagrado da Terra-Mãe-África. Mama-África, é claro.

Sim, há na orla da Cidade do Cabo aquele óculos gigante, que vemos a esquerda no desenho e na foto acima.

a flor do amor

Continuamos no ‘Solo Sagrado’, falando do Amor a terra e a Terra.

Marília se casou jovem, ainda adolescente. E então foi morar numa casa simples da periferia.

Ela foi feliz nesse lugar, ao lado do seu marido e dos filhos que nasceram e cresceram ali.

Mas depois eles se mudaram de cidade, e Marília ficou muitos anos sem voltar ao bairro em que residiu. 

Um dia, numa visita a sua cidade-natal, ela já com 40 e poucos anos passou em frente a mesma casa que ela viveu.

E onde passou tão bons momentos do início de sua vida adulta.

Estava vaga, sem ninguém morando. Aí Marília teve uma ideia:

Foi a uma floricultura e comprou um broto de rosas.

A seguir ela plantou as rosas na frente da casa. Pra simbolizar que ali sua Energia Feminina se Abriu.

Consagrando o local onde o Amor entre uma Mulher e um Homem teve sua Florada.

a diva de durbã

De volta a África do Sul. E da Terra pra Água.

Uma Marília Indiana, no Oceano Indiano (ou ‘Índico’). A “Diva de Durbã”.

Durbã é a maior cidade indiana fora da Índia. A colônia é enorme, fotografei até um templo hindu, breve jogo no ar.

E Durbã é no Oceano que nos chamamos de Índico, mas no inglês – que é a língua falada lá – se chama Oceano Indiano.

Tem mais: em Durbã é comum as pessoas entrarem no mar de roupas (situação que já presenciei em Acapulco-México). Por isso Marília de vestido florido, biquíni preto por baixo. De qualquer raça e até embaixo d’água Marília nunca perde o charme:

De roupa no mar. Mas com as unhas e bijuteria impecáveis. Sempre, né?

As unhas são invertidas, uma clara outra escura, e invertendo as mãos também, na direita o dedão é claro, na esquerda escuro.

(Nota: existe na internet uma menina que se denomina ‘a Diva de Durbã’. Meu desenho não se relaciona com o trabalho dela, exceto que eu confesso que me inspirei pelo nome.)

Solo Sagrado, Oceano Sagrado. Muito Respeito e Amor pela Mãe-África, e pela Mãe-Índia.

Nos mares do Cabo e Durbã, definitivamente Tudo se Alinha, Tudo se Encontra.

Hare Rama, Hare Sita = Louvado é Deus Pai e Mãe.

A Riviera do Cabo; palavras não são necessárias

Todas as imagens são da orla da Cidade do Cabo, África do Sul, abril de 2017.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 10 de maio de 2017

Abrimos a Série sobre a África.

Digo, a primeira mensagem foi feita lá mesmo em Joanesburgo, um desenho.

Mas de matérias maiores, com fotos e textos, começamos agora.

O funcionário do clube apara a grama do campo de polo. Mais tarde os ricaços montam em seus cavalos de raça e disputam mais uma partida, com o mar ao fundo.

E começamos bem, mostrando logo a parte mais bonita da África do Sul, a ‘Riviera do Cabo’.

Batizei a série ‘O Mundo num só País’, porque exatamente isso é que é essa nação, uma mistura de África, Europa e (em menor medida) até mesmo Ásia.

Esse era o lema oficial nos tempos do ‘apartheid’. O regime racista caiu, felizmente (esse texto já está no ar; breve falaremos sobre os desafios do novo milênio, sob democracia).

Mas a África do Sul continua sendo ‘O Mundo num só País’.

Por África do Sul você se sente na Inglaterra ou nos EUA, porque as cidades são dessa escola de urbanismo. Com exceção das favelas, é claro.

As montanhas, as mansões nas encostas a moda da Califórnia-EUA, e em 1º plano um ônibus da moderníssima rede de transportes ‘Minha Cidade’ (falo mais em outros textos).

No bairro que nos hospedamos na Cid. do Cabo – chamado ‘Woodstock’ – eu me sentia em São Francisco-EUA.

Eu nunca fui a essa metrópole ianque, mas de ver pelos filmes e ‘Google’ Mapas sei como é.

E no Cabo eu parecia que estava lá, de verdade. Pois era isso que meus olhos me diziam, pela sensação visual.

Eu precisava me lembrar ‘manualmente’, digamos assim, inserir na minha mente a informação racional que eu estava na África, porque a dimensão sensorial me dizia o contrário.

A garagem e a entrada são no telhado.

Curioso, não? Uma vez  eu estava na América – na República Dominicana – mas minha interpretação penta-sensorial (visual, térmica, sonora, olfativa, gustativa) me dizia que eu estava na África.

Dessa vez eu estava mesmo na África, mas parecia que estava aqui na América.

E a Cidade do Cabo é, primeiro, a cidade mais bonita da África do Sul, e uma das mais belas do planeta. Isso já disse.

Segundo, a Cidade do Cabo é mais integrada em termos raciais. Se preferir de outra forma, é a que há mais brancos pelas ruas do Centro e dos bairros de periferia.

As moradias são bem abaixo do nível da rua.

Em Durbã e Joanesburgo, não há brancos no Centro nem na periferia.

Eles só ficam nos subúrbios de classe média-alta e na praia (no caso de Durbã, Joanesburgo não tem mar).

Pretória tem vários brancos no Centro, é bem menos segregada que as outras duas acima.

Mas ainda são ínfima minoria, vemos com frequência mas ainda assim não é tão comum.

Esse é o acesso a uma praia pública, também por sinuosas escadarias.

Já na Cidade do Cabo é diferente. O Centrão, o começo da periferia e a orla são plenamente integrados, você vê pessoas de todas as raças de forma abundante.

Não é que Joanesburgo e Durbã tenham poucos brancos, exatamente ao contrário.

Eles são muitos, viajei de avião entre essas cidades, e ali os de pele alva eram maioria.

Mas os caucasianos se impuseram uma auto-segregação, moram e trabalham em subúrbios a moda ianque afastados da cidade.

Nas praias de Durbã, como dito, não há auto-segregação. Ali todas as raças convivem em harmonia. Mas só ali, os brancos não frequentam o Centrão.

Nessa é preciso subir muitos degraus pra acessar a casa. Dispensa a academia.

Como Joanesburgo não tem mar, se você não for aos bairros que os brancos moram você não vê brancos.

Entretanto, em Pretória e muito mais na Cidade do Cabo, a coisa é bem mais harmônica.

No Centro do Cabo você se sente na América (que é um continente, não me refiro aos EUA), ou na Europa, com pessoas de todas as raças andando lado-a-lado e convivendo nas ruas.

Terceiro, boa parte da orla do Cabo são espremidos pelas montanhas.  

Vai uma B.M.W., vem um Porsche. Pouco antes, dois Porsches se cruzaram.

Assim se nos bairros a leste do Centro eu me sentia na Califórnia, nos a oeste dele a sensação exata é a de estar nas partes mais bonitas do Mediterrâneo, na Itália ou nas Ilhas da Grécia.

Ruas sinuosas se equilibrando na encostas, mansões e prédios de milionários se espremendo entre o morro e o Oceano. Eu estava na “Riviera do Cabo”.

 Sem nunca ter ido fisicamente a Califórnia, no Cabo eu estava na Califórnia. E sem nunca ter ido a Europa (exceto na ficção) eu estava na Riviera, digo de novo.

Mais um Porsche. Um das maiores concentrações de milionários do mundo. Me perguntaram se na África existe riqueza. Respondi: “Viche! Você nem imagina quanto…”

Então me calo, porque já falei demais. Nem é preciso dizer nada, as imagens dizem tudo.

A série sobre a África será longa: já fiz mais um desenho de Maurílio beijando o solo da Cid. do Cabo, e de uma Marília indiana em Durbã. Nos demais textos descreverei com detalhes o que vi lá, em todas dimensões:

O transporte, futebol, urbanismo, favelas, o céu, as flores, os vários idiomas.

Contaremos sobre a campanha pra ‘impedir’ o presidente Zuma, a dolorosa luta contra o ‘apartheid’ e a difícil adaptação a democracia, a violência urbana.

Agora vem uma Mercedes preta. Só dá essas máquinas, você fica zonzo se tentar contar….

Não acabou não: veremos Durbã, Pretória, Joanesburgo incluindo Soweto, o Oceano Atlântico, o Oceano Índico (que têm seu encontro no Cabo da Boa Esperança).

Conto com detalhes a ‘carona’ que eu ganhei no camburão, os demais bairros da Cidade do Cabo. Tudo isso e muito mais, em breve.

Mas hoje, pra começarmos bem, a ‘Riviera do Cabo’. Palavras não são necessárias. Como eles dizem na África do Sul, “Aproveite”.

Está Aberta a Série. Que Deus Ilumine a todos.

“Deus proverá”

Tundra Nevada

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 27 de abril de 2017

Maurílio e Marília nas estepes da Sibéria, Rússia.

Sob uma nevasca muito forte, como notam.

Natural, eles estão no Polo Norte da Terra, bem acima do Círculo Polar Ártico.

………

Maurílio é acostumado a enfrentar temperaturas muito frias:

No Canadá ele fez até um boneco de neve.

Porém ali ele estava perto do Círculo Polar, mas ainda abaixo dele.

Em Labrador, no Canadá, está caindo neve. Mas bem pouquinho.

Em outra oportunidade ele foi esquiar de férias nos Alpes, na Áustria.

Dessa vez sequer está nevando, o céu está limpo.

Nevou a noite, e está bem frio. Mas de dia não.

…….

Na Ucrânia (que por décadas junto com a Rússia e e diversas outras nações eram parte do mesmo país, a URSS) fora onde ele havia visto a camada de neve mais grossa, cobriu até o carro.

Abra a postagem pra ver, ele conversando na língua nativa – no alfabeto cirílico!, oriental – com o dono da casa.

E Maurílio já havia ido a Rússia antes.

Bem, a imagem em frente as cúpulas multi-coloridas do Kremlin é auto-explicativa.

Aqui está bem frio, ele também está de touca, mas no momento o céu está limpo. Não vemos o chão, pra saber se há neve acumulada.

Falei tudo isso pra ressaltar o que vocês já perceberam: dessa vez na Sibéria é a nevasca mais forte de todas.

Está nevando durante o dia, com Sol. E não apenas a noite.

Pois se Labrador-Canadá é perto do Polo Norte, as estepes da tundra siberiana estão no Polo Norte. Não estão ‘próximas a ele’, mas são exatamente o próprio.

É a 1ª vez que desenho Marília na neve. Ela mora na capital mais fria do Brasil, Curitiba óbvio. Onde é absolutamente normal temperaturas próximas de 0º, mas neve é raríssimo, só 3 vezes em um século. A última em 2013 mas só no Extremo Sul da cidade com intensidade , no resto da metrópole quase nada ou mesmo nada (no interior foi diferente, nevou bem forte). Assim, vou nas laterais Marília toda encasacada no inverno curitibano. Os desenhos são de outras postagens, clique nas ligações em vermelho pra ver os originais onde ela aparece de corpo inteiro.

Mas Marília e Maurílio estão acostumados com o clima, que outros considerariam ‘hostil’.

Pra eles não, é harmônico e natural. Pois eles são esquimós. Daí a pele vermelha e os olhos puxados do casal a direita acima.

Eles não estão a turismo no Extremo Norte da Sibéria, não estão se encantando com a paisagem exótica, pois pra eles não é nada exótica, é sua terra-natal.

Nas regiões polares a agricultura não é possível, pelo frio intenso.

Resultando que obviamente os esquimós são caçadores, pois sua comida e vestuário são obtidos assim, daí a lança na mão de Maurílio.

Entretanto, leve em conta que os Esquimós Peles-Vermelhas vivem em Plena Harmonia com a Natureza, pois se veem como parte dela, Sendo Um com a Mãe-Terra.

Só matam o que for estritamente necessário pra não morrerem de fome e frio, exatamente como fazem os animais.

Oras, é conhecida a relação de Amor e Harmonia entre os Peles-Vermelhas e o bisão, que lhes serve de comida e abrigo contra o frio.

Exatamente por isso pra exterminar os índios os colonizadores europeus na América do Norte exterminaram primeiro o bisão.

No Ártico, a Palavra Vale. Olho-no-olho, não precisa contrato escrito. E a Harmonia entre tudo e todos é a Lei.

A maioria dos Homens e Mulheres das regiões temperadas e tropicais, bem ao contrário, tem na trapaça e ganância seu modo de vida.

Vivem a enganar – e sempre que possível explorar e mesmo matar desnecessariamente [veja a guerra das torcidas de futebol] – seus semelhantes.

E veem a Natureza como algo a ser domado e subjugado.

Tristes tempos, triste civilização. Mas . . . não precisa ser dessa forma grotesca.

Do Extremo geográfico da Terra vem a lição que nós podemos ser menos extremados na nossa visão.

E viver em Harmonia com todos os Irmãos e Irmãs, com a Natureza e com o Cosmos.

Que os Anjos digam Amém. No Ártico, é assim desde Sempre.

………

Mensagem produzida no Brasil mas levantada pra rede a partir da Cidade do Cabo, África do Sul.

“Deus proverá”

Mama-África

JOANESBURGO, ÁFRICA DO SULMarília e Maurílio em Soweto.

Toda rosa tem espinhos. Eles realçam a beleza da Flor.

Aqui na África o povo sabe disso melhor que ninguém. A luta foi árdua pra poderem ser livres, o jugo do ‘apartheid’ foi cruel.

Muito sangue correu, muitas lágrimas lustraram a pele escura dos Homens e Mulheres da Raça-Matriz da Terra. Mas a vitória veio.

Um grande ciclo se abriu pra África, e pra toda humanidade. E, pra esse humilde Mensageiro, um Grande Ciclo Alvoresceu em plena África.

Em 20 de abril de 2017 essa postagem sobe pro ar

Joanesburgo, África do Sul, Mãe-Africa, 2017. A Vida Continua. Sempre Continua.

Graças a Deus Mãe e Pai, que proveio e Proverá.

“Voka” x “Riber”: no futebol da Argentina, a guerra invadiu a linguística

“RiBer Plate”???? É assim que o Boca se refere ao inimigo, com ‘B‘ gigante, desde que ele disputou a série B em 2012. A torcida do River risca a letra ‘B’, óbvio. Pra devolver o favor eles grafam Boca como ‘Voka’, a pronúncia é a mesma. Abaixo falo melhor desses ‘câmbios consonantais’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 17 de abril de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. As que foram baixadas da internet eu identifico com um (r) de ‘rede’.

Como abri a série dizendo (e é notório), a Argentina foi  riquíssima pela maior parte do século 20, até algumas décadas depois da segunda guerra mundial.

Essa não é mais a realidade, agora ela é um país plenamente latino-americano, com tudo que isso representa.

Isso porque nos últimos 40 ou 50 anos houve uma decadência severa, e multi-dimensional: em termos econômicos, políticos, sociais e mesmo culturais.

Agora, existe um ponto que a Argentina não decaiu nem um pouco, o futebol. Ao contrário, nesse campo (literalmente) essa nação continua sendo a potência que sempre foi.

Aqui e acima da manchete: a cidade de Buenos Aires (incluindo os subúrbios) ganhou nada menos que 24 Libertadores. Pra sentir a Alma Portenha, fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense por essa competição. Eu não sou torcedor do CAP, já esclareço. Apenas esse foi o jogo que deu certo eu ir.

Argentina É futebol, eu disse na mensagem passada. Assim de fato a coisa se manifesta:

Das 57 Libertadores eles ganharam 24. E esse fluxo vencedor de títulos se mantém constante, desde que a competição começou em 1960.

Não é difícil entender as razões. A primeira é que realmente os caras sabem jogar bola. E a segunda é que a Argentina é um país bem menor que o Brasil, não tem campeonato estadual.

Terceiro, com o futebol concentrado desproporcionalmente na capital e seus subúrbios. Assim, ganhar o campeonato argentino é quase como ganhar aqui o campeonato estadual:

“Rei de Copas”: apenas o Independente de Avellaneda, também chamado “Diabo Rubro”, levou 7 Libertadores.

Os times que brigam pela taça são todos da mesma cidade, ou no máximo de cidades tão próximas que você vai de ônibus urbano ao estádio adversário.

Por isso, desde que a Libertadores começou eles dão a vida pra ganhá-la. Nas 3 primeiras décadas, o Brasil desprezou essa competição, que então ficou restrita a uma disputa entre Argentina e Uruguai.

Com uma população que é 20% da nossa, os argentinos ganharam 50% a mais de Copas Libertadores de clubes que o Brasil (24 x 17, os dados são sempre de abril.2017, quando faço o texto).

E quase 100% a mais de Copas América de seleções (14 x 8, embora nesse quesito específico eles estejam em jejum desde 1993, enquanto nesse período o Brasil levantou 4 canecos).

Claro, faça-se o adendo que na competição máxima de seleções que é a Copa do Mundo o Brasil é hegemônico não apenas continental como globalmente, foi campeão 5 vezes

“Mão de Deus“: nosso foco são as disputas entre clubes. Mas dando uma pincelada nas seleções, contra a Inglaterra em 1986 Maradona fez 2 gols épicos, um esse que vocês estão presenciando, só o juiz não viu. Como esse jogo foi no México, eu falo dele na postagem sobre o futebol mexicano.

Contra 2 do vizinho paíso último título deles foi no México em 1986, quando Maradona marcou até gol de mão (dir.).”

……….

Ainda assim na América o domínio alvi-celeste é incontestável. Que os argentinos sabem jogar é auto-explicativo. Falemos então da concentração na capital.

No Paraguai, Chile (nesses 2 já fiz matérias específicas sobre o tópico), Peru e Uruguai o modelo é exatamente o mesmo, se você fizer uma disputa metropolitana da capital mais alguns subúrbios, na prática eis o campeonato nacional.

Meu ingresso pra ver São Lourenço x “Paranaense”: como sabem, o CAP aqui em Curitiba é conhecido como “Atlético“, e nacionalmente “Atlético Paranaense” pra diferenciar do Atlético Mineiro. Mas na Argentina e por consequência nos demais países hispânicos, o CAP é o “Paranaense”. Não é difícil entender o porque, já que na Argentina quase todos os times se chamam ‘Clube Atlético’: Clube Atlético River Plate, Clube Atlético Boca Jrs., Clube Atlético Independente, Clube Atlético São Lourenço de Almagro, Clube Atlético Belgrano, Clube Atlético Talleres, etc. Dos 30 times na 1ª atualmente, nada menos que 21 são ‘Clube Atlético’, que assim é um prefixo, e não o nome do time. Aplicando a mesma lógica ao CAP, ficou como “Paranaense”.

Alias por um tempo houve na Argentina esse campeonato chamado ‘metropolitano’, e ele tinha a mesma importância do nacional.

Esse país já teve muitas formas de disputa em seu certame nacional, abaixo faremos um resumo das diversas fórmulas que já foram usadas.

Aqui, o que quero ressaltar é que na Argentina e várias outras pátrias acima citadas o futebol basicamente se resume a capital. Mas isso está longe de ser universal.

Na Colômbia e México o super-clássico nacional opõe capital x interior (repetindo o modelo europeu), como descrevi com detalhes em outras oportunidades. Alias os 3 títulos da Libertadores colombianos foram ganhos pelo interior.

No Equador, alguns dizem que o super-clássico nacional nem envolve a capital, é Barcelona x Emelec, ambos de Guayaquil – mas a única Libertadores equatoriana foi ganha pela capital Quito.

Enquanto na Bolívia a capital La Paz é o polo principal, os dois maiores vencedores são dali, mas o interior é muito forte também – por exemplo o único tetra-campeão boliviano é de Cochabamba.

Maurílio como torcedor do Independente. Abra a postagem pra ver o desenho inteiro, ele está trepado sobre o alambrado, que é como os líderes de torcida veem a partida na Argentina. Uma nota: eu traduzo sempre que que possível tudo pro português, alias nessa postagem mesmo vocês esse debate com um leitor que fez essa retificação.

…….

De volta a nosso foco de hoje. Citei esses países acima pra pôr no contexto, fazendo o contraste. Na Argentina, entretanto, esse esporte basicamente se resume a Buenos Aires e imediações.

Dos 30 participantes da 1ª divisão em 2017, 60% são da Grande Buenos Aires (“Bs. As.”) e da cidade de La Plata.

Leve em conta que em 2015 o campeonato argentino passou por massiva ampliação, exatamente pra aumentar a presença do interior.

Nesse ano de 20 passaram a ser 30 participantes. Logo, de 2 turnos reduziu pra turno único. Apenas os maiores clássicos de cada região se repetem pra inverter o mando.

Os clubes foram emparelhados em duplas contra seu maior rival: Boca x River, Independente x Racing, Rosário Central x Newell’s, etc; nas oportunidades em que não há um clássico da cidade aí vai contra o time da cidade mais perto.

Quando eram 20 times, quase 80% deles eram da capital, região metropolitana e La Plata, que não é região metropolitana mas quase. Exemplifico nos mapas.

Observe os mapas (confira a fonte deles aqui): quando eram apenas 20 times, quase 80% eram da capital. Pegamos o ano de 2008 como exemplo que é típico: apenas 6 do interior enfrentando 14 times de Buenos Aires  no campeonato ‘argentino’. Ou seria melhor dizer ‘campeonato portenho’?,

Um adendo. Como explicado na postagem anterior e é notório, o município de Bs. As. fica dentro da província de Buenos Aires, mas não pertence a ela.

Assim como quando o Rio era nossa capital até 1960 o município do Rio de Janeiro (então nosso D.F.) ficava dentro do estado do Rio de Janeiro mas não pertencia a ele.

Então. E La Plata é a capital da província (pra nós seria chamado ‘estado’) de Buenos Aires. Dista apenas 55 km da capital federal.

Não faz parte da área urbana da Grande Buenos Aires, mas está muito próxima, é um subúrbio estendido. La Plata tem com Buenos Aires mais ou menos a mesma relação que Jundiaí tem com São Paulo, se quiser ver assim.

Nesse texto sobre futebol quando eu falar “Buenos Aires” ou “capital” isso inclui a região metropolitana e mais a cidade de La Plata, que não é região metropolitana mas falta muito pouco pra isso. Esclarecido, vamos lá.

Em 2015 passaram a ser 30 times. Aí a capital ficou com ‘apenas’ 60% deles.

Entre os campeões a supremacia da capital é ainda mais pronunciada. Depois que iniciou-se o profissionalismo (de 1931 pra cá, muitas vezes eram 2 campeonatos no mesmo ano) foram 131 troféus.

121 deles conquistados por Buenos Aires, mais de 91% portanto. De cada 10 edições, 9 taças ficam na vizinhança.

Está claro: ganhar o campeonato argentino pros clubes da capital é como ganhar o paulista ou carioca pros clubes brasileiros. Logo é preciso alçar voos mais altos pra coisa ter alguma graça.

E qual é essa esfera mais alta? A Libertadores, evidente. Resultado: o Independente de Avellaneda tem 7, o Boca 6, Estudantes de La Plata 4, River Plate 3, pra citar somente os multi-campeões.

1960-1988: disputa particular uruguai x argentina
1989-presente: a decadência uruguaia sim; argentina não

Mural do Belgrano em Córdoba: manifestação oni-presente no vizinho Chile, comum em Córdoba já numa proporção menor e inexistente em Buenos Aires e demais cidades argentinas. Ou há muitos poucos, vejo na internet, mas ao vivo não presenciei, e rodei 4 dias na capital argentina.

O domínio já foi ainda mais acentuado. A Libertadores da América se divide em 2 períodos, 1960-1988; e 1989-presente.

Explico. Até o fim dos anos 80, Libertadores significava na prática “Campeão do Rio da Prata”.

Já que ela era pouco mais que uma ‘recopa’ entre argentinos e uruguaios.

Como se sabe, nas 3 primeiras décadas o Brasil desprezou a Liberta. Por exemplo, o Santos de Pelé venceu a 3ª e a 4ª edição da competição, sendo bi em 1962/63.

Postes pintados, também em Córdoba e também pela torcida do Belgrano. Em relação aos postes, repete-se o que falei dos murais na legenda anterior: no Chile em toda parte, em Córdoba um pouco, em Buenos Aires não há – nesse caso não vi sequer pela internet.

Mas depois o clube, numa decisão que se arrende amargamente até hoje, achou que era mais lucro excursionar pela Europa.

Resultando que preferiu não mais disputar esse campeonato, ou pelo menos não com o time principal.

Tivesse centrado forças no torneio continental americano, o Santos fatalmente seria tetra, penta e quem sabe até hexa campeão da Libertadores.

Não foi assim que ocorreu. O alvi-negro praiano e todos os outros times brasileiros voltaram as costas pro principal certame do continente.

Argentinos e uruguaios agradeceram, e o transformam numa disputa particular deles.

Idem, ibidem. Mural e poste na mesma cena.

Em 1988, de 29 taças a Argentina tinha 15 (mais da metade!!!), o Uruguai (que é uma nação muito pequena) nada menos que 8 (5 do Penharol e 3 do Nacional). 

O Brasil somente 5 (um terço da Argentina e bem menos que o Uruguai), o Paraguai 1, nenhum outro país havia vencido.

A coisa era tão aberta que por 12 anos seguidos (1964-75) a taça ficou alternando entre Buenos Aires e Montevidéu somente.

Próximas 2: pichações nas ruas de Córdoba.

O Independente foi tetra seguido (72-75), o Estudantes de La Plata foi tri (68-70), sendo que em 1969/70 foi bi-campeão invicto. Todas essas façanhas permanecem inigualadas até hoje.

Porém, em 1989 a trajetória da Libertadores fez uma curva, que afetou o Uruguai negativamente e Brasil e mais 4 nações positivamente.

Em 1988, o Uruguai tinha 8 taças, o Brasil 5. Mais que isso: Brasil, Paraguai, Colômbia, Chile e Equador somados tinham apenas 6. De lá pra cá o Uruguai não ganhou mais nenhuma – já se vão 29 anos de jejum. Somados, esses 5 países acima deram 19 voltas olímpicas nesse espaço de tempo.

Aqui vemos homenagens aos dois clubes.Yuta’, que o torcedor do Belgrano gostaria de matar, significa polícia. No Chile o termo é o mesmo, e também do outro lado dos Andes alguns gostariam de eliminá-la.

O Brasil venceu 12, é o maior campeão do período (a Argentina levou mais 9). Colômbia 3, Paraguai 2, Chile e Equador 1 cada.

……..

Portanto: o Brasil, depois que voltou os olhos pra Libertadores, foi o vencedor dessas quase 3 décadas, 12 taças contra 9 da Argentina.

Como a diferença era de 3/1, a distância diminuiu muito mas eles seguem com larga vantagem.

O Raio se espalhou pelo continente. Essas 4 outras nações que somadas só haviam vestido a faixa uma única vez o fizeram mais 7 vezes, dessa forma multiplicando por 8 seu quinhão de conquistas.

Estádio Olímpico Mario Kempes, Zona Oeste de Córdoba, segundo maior do país, construído pra Copa de 78. No dia que fiz esse texto (Domingo de Páscoa/17) se enfrentaram ali Talleres x Belgrano pela 1ª divisão, o que não ocorria há 15 anos.

O Uruguai parou no tempo. Entrou numa decadência cruel. Mas a Argentina não decaiu (ao menos no futebol), é isso que quero apontar.

Os anos 90 e 10 (até 17, quando escrevo) foram de preponderância brasileira, é certo. Mas a primeira década do século foi novamente argentina com 5 títulos, sendo 4 só do Boca.

Quando Boca e River (ou ‘Voka’ e ‘Riber’, já falo dessa parte) disputam mais um super-clássico, estão em campo nada menos que 9 Libertadores.

Sede do Talleres (se pronuncia “Tachéres”) no Centro de Córdoba.’Taller’ significa ‘oficina’. Oficina de qualquer coisa, pode ser desde oficina mecânica até oficina de artesanato. No caso, são as oficinas de trens, pois o clube foi fundado pelos trabalhadores que operavam e consertavam as locomotivas. Da mesma forma, em Ponta Grossa-PR há o Operário Ferroviário, cujo estádio fica no bairro Oficinas (da ex-RFFSA), na Zona Sul.

Avellaneda é um subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia dois clubes, Independente e Racing. Pois bem.

Os dois já deram a volta olímpica no torneio máximo continental, o Independente nada menos que 7 vezes, ainda é o ‘Rei de Copas’. Até o ‘clássico suburbano’ opõe ambos times campeões da América. Isso é Buenos Aires, amigo.

……….

Agora, o futebol argentino não mingou com a virada pros anos 90. Mas seu maior campeão da Libertadores sim, esse murchou. O Independente tem 7 taças – mas a última foi no já distante ano de 1984.

Nesse ano, em que logrou sua sétima vitória, o River era virgem, nunca tinha ganho. O Boca tinha 2 taças.

Quando o novo milênio adentrou os dois maiores clubes argentinos estavam empatados, 2 pra cada.

Voltando a Buenos Aires, aqui está a sede do Racing no Centro de Avellaneda. Como o rival Independente jogava no dia e os estádios são a poucas centenas de metros dali, uma viatura da polícia faz a guarda, pra evitar problemas.

Aí veio a impressionante década de 2000. O Boca foi campeão 4 vezes, totalizando 6, bi em 2000/01, e de novo 03 e 07.

E com isso está nos calcanhares do Independente. O River, após quase 20 anos de jejum, levou de novo em 2015, e agora tem 3, ainda metade de seu arqui-rival.

……..

Em relação aos títulos nacionais, aí a vantagem é do River, que venceu 35 vezes, 10 a mais que o Boca que vem logo atrás. O Independente tem 14, São Lourenço 12, e o Vélez Sarsfield 10.

São os únicos que atingem os 2 dígitos. São Lourenço e Vélez ganharam a Libertadores uma vez, em 2014 e 1994 respectivamente.

Por ter sido mais vezes campeão argentino, o River Plate se diz “o maior da Argentina, muito longe dos outros”. Cada um diz o que quer, não necessariamente sendo verdade.

Pouco antes de clicar a imagem acima, eu passei em frente aos estádios. Aqui a multidão faz fila pra adentrar as arquibancadas do campo do Independente.

Na Argentina, o que conta é Libertadores, que o Boca tem o dobro. O certame nacional é chamado pejorativamente por lá de “navegação de cabotagem”.

Eu não tenho qualquer preferência pelo Boca, exatamente ao contrário, o time que tenho alguma simpatia na Argentina é o Independente.

Não gosto do Boca Juniors, nem um pouco, ressalto de novo. Só que números são números. ‘Só idiotas discutem com números’, diz o ditado.

A torcida do Boca é disparado a maior, com 30% dos argentinos sendo ‘xeneizes’, o apelido deles – é uma corrutela de ‘genoveses’.

Dando uns passos pra frente, não vemos mais o estádio do Independente, vermelho como o clube. Mas está óbvio que estamos na frente dele, pois ainda vemos a mesma galera na fila. Agora há o do rival Racing ao fundo, também nas cores do clube, nesse caso azul-claro.

O River vem logo a seguir com 20% da preferência nacional. A alcunha do River é ‘Milionário’.

São os dois gigantes, contra eles não há competição possível em termos de torcida. O 3º clube mais popular da Argentina é o Independente (o ‘Diabo Rubro’), escolha de 5% dos argentinos. 

Esse número já foi muito maior, a decadência do clube tem cobrado um alto preço, como é natural.

Repito, em 1984 o Diabo tinha 7 Libertadores, contra 2 do Boca e River somados. De lá pra cá não ganhou mais, e viu o Boca levar 4, o River mais 3.

O River não por acaso se auto-define como ‘o Milionário’. Foi fundado no bairro da Boca, o mesmo de seu arqui-rival.

Invertendo as posições: agora estou defronte o campo do Racing, ao fundo o do Independente, como as cores de cada um deixam claro.

Mas a muitas décadas se transferiu pra Zona Norte, que é a parte rica de Buenos Aires. O Boca é da Zona Sul, a porção pobre da cidade.

A Zona Norte, no município de Buenos Aires (ou seja, sem incluir região metropolitana), simplesmente não tem nenhuma favela.

Nenhuma. Buenos Aires está coalhada da favelas, e elas assustadoramente triplicaram nesse milênio. Todas nas Zonas Sul, Oeste e Central – Bs. As. não tem Zona Leste.

Camaradagem: o Racing abriu sua bilheteria pra torcida do rival Independente.

Abordei o assunto da miséria na capital argentina na outra postagem, com fotos, gráficos e mapas. Aqui só volto ao tema pra dizer que de fato o Boca é ‘time do povo’.

Enquanto o River domina entre os que tem mais acesso a renda e educação, e a localização dos estádios reflete isso.

Claro que a correspondência não é 100%. Muita gente prefere o River na periferia, e outros torcem pelo Boca mesmo sendo da elite e alta-burguesia. Não é 100%. Mesmo assim, nas favelas o Boca domina amplamente, alias de várias das enormes favelas da capital e região metropolitana dá pra ir a pé a ‘Bombonera’.

Os estádios são a 400 metros um do outro. E Avellaneda está inteira decorada com o ‘fantasminha vermelho da B‘, a torcida do Racing comemora o recente rebaixamento do Independente.

Essa preferência da massa, dos descamisados, se reflete nas demais quebradas e periferias pelo resto do país, independente da distância física pro estádio, é claro.

Já o ‘Monumental de Nunhez’ está incrustrado nos bairros mais elegantes e arborizados da cidade (na verdade fica no vizinho bairro de Belgrano, mas como é divisa com Nunhez, o nome pegou assim).

E esse extrato social elevado é o único em que o River tem maioria. Outra coisa: entre os mais velhos (acima de 60 anos) e entre as Mulheres o River também ganha. Quanto mais jovem e pobre, maior a distância a favor do Boca.

Ou seja: você está numa favela. Vem um garoto, de boné na cabeça. Ele usa uma camisa de futebol. A chance que seja do Boca ou do River é na proporção de 4 pra 1 a favor do Boca.

Mesmo recado na pichação: a “Guarda Imperial” Zona Oeste do Racing desenha o ‘B’ de chifres e escarlate, o Diabo caiu afinal.

………

A capital (com seus subúrbios) domina amplamente o futebol argentino. Levou todas as Libertadores do país, e 121 dos 131 títulos nacionais. Isso já disse.

O que quero adicionar aqui é que o interior da Argentina, em relação ao futebol, praticamente se resuma a uma única cidade: Rosário.

O interior ganhou 10 vezes, e todas as 10 por Rosário, 6 pelo Newell’s Old Boys e 4 pelo seu arqui-rival Rosário Central.

River x Boca (r), o ‘Super-Clássico‘ que para um país (esse aqui não se sabe se é de futebol ou polo aquático). Como dito na abertura, as tomadas com o ‘(r)’ são baixadas da internet.

Rosário também a única cidade do interior que chegou a final da Libertadores. 2 vezes (1988 e 92), ambas com o Newell’s. Perdeu ambas.

Mas essas façanhas são mais que suficiente pra colocar o Newell’s como maior time do interior da Argentina, disparado. E Rosário como a maior cidade do interior, ao menos quando o quesito é esse esporte.       

Novamente: não tenho qualquer preferência pelo Newell’s, apenas analiso os números. Por outro lado, o Rosário Central venceu a Copa Conmebol de 1995.

Como se lembra quem tem idade pra tanto, esse era um torneio secundário, uma espécie de 2ª divisão da Libertadores, precursor da atual Copa Sul-Americana que cumpre esse papel hoje.

Das 131 taças do certame nacional, Boca e River levaram juntos 60, quase 45% somente pra 2 times. O campeonato argentino não é apenas concentrado na capital, mas é concentrado nesse clássico.

A Argentina ganhou 3 vezes a Conmebol, e sempre com clubes menores, fora do circuito. O Talleres de Córdoba e o Lanús da Grande Buenos Aires também contam com essa façanha no currículo.

………

Córdoba é a maior cidade do interior, em termos de população. Rosário é a segunda, pouco atrás, e na sequência vem Mendonça.

Visitei Córdoba e Mendonça, infelizmente Rosário não deu pra ir. Mas pro futebol Córdoba e Mendonça são praticamente irrelevantes, alias todo o interior é irrelevante exceto Rosário.

Esse ano (2017) Córdoba terá seu clássico Talleres x Belgrano pela primeirona nacional. Fato raríssimo, faziam 15 anos que não ocorria.

Drones sobre o estádio no dia do jogo (r), . . . .

Esse times disputaram a 1ª divisão em 21 e 17 oportunidades respectivamente, mas em poucos anos os dois ao mesmo tempo.

O clássico foi disputado no dia que escrevo essas linhas, Domingo de Páscoa/17. Acabou empatado em 1×1, o que manteve o Belgrano em 29º e penúltimo lugar.

Pra completar o circo dos horrores pro clube, a torcida do Belgrano cometeu um crime monstruoso na arquibancada, atirou pelo vão da escada um rapaz de 26 anos, tudo foi filmado e as cenas correram o mundo.

Ele sofreu traumatismo craniano e acabou desencarnando no hospital. Pra piorar, depois descobriram que ele torcedor do próprio Belgrano, e não do rival Talleres como pensaram na hora. A briga não era por futebol, quem disse que o rapaz era da torcida inimiga mentiu por uma rixa antiga. Sem saber disso a ‘barra-brava’ do Belgrano assassinou um dos seus. ‘Fogo amigo’.

. . . um cara com a letra ‘B‘ na camisa na arquibancada (r), . . .

Bem, a violência nos estádios é universal na América Latina, quando estive na Colômbia vi cenas similares pela TV nos clássicos de Cali e Medelím.

E aqui no Brasil os cadáveres perecidos em guerras de torcidas se contam as centenas nessas últimas 3 décadas, numa realidade amaríssima.

Voltemos a Argentina. O Talleres subiu de novo somente esse ano, depois de 12 anos na 2ª e mesmo 3ª divisões.

Seu arqui-rival Belgrano está na 6ª temporada no torneio principal do país, mas deve cair esse ano. Quando eu estava na Argentina, vi pela TV o Belgrano vencer em casa o Racing de Avellaneda por 2×0. Era a sétima rodada, e foi somente a 1ª vitória do time cordobês.

. . . e infinitas pichações pela cidade: o Boca não cansa de relembrar ao River seu rebaixamento.

Até então eram 3 empates e 3 derrotas, estava em último. Com o triunfo subiu pra penúltimo, o que não ajuda muito. 4 semanas depois, se mantinha no mesmo lugar.

Na Grande Mendonça é ainda pior, só há um clube na primeira, o Godoy Cruz. Há muito a cidade não vê um clássico local pela série A argentina. 

Se serve de consolo, como dito acima o Talleres de Córdoba já venceu um torneio internacional, a Copa Conmebol de 1999.

A final, vejam vocês, foi contra o CSA de Alagoas. Também chegaram a semifinal o Desportivo Concepção do Chile e o São Raimundo do Amazonas. Foi a última edição da Copa Conmebol.

‘voka’ x ‘riber’; rosário ‘bentral’; e o ‘paranaense’ de ‘curitiva’

No idioma espanhol, como se sabe, não há a pronúncia da letra ‘v’. Se escrevendo com essa letra ou com ‘b’, pronuncia-se tudo como se fosse ‘b’.

Veja ao lado: nossa bagagem não chegou conosco a Buenos Aires, só 2 dias depois. Eis a reclamação no guichê da Gol feita no aeroporto central de Bs. As., o Aero-Parque.

A viação aérea é brasileira, mas essa ficha foi preenchida na Argentina, por um funcionário argentino da empresa.

Quando eu estava na Argentina, esse país enfrentou o Chile pelas eliminatórias no Monumental de Nunhez. O time da casa jogou muito mal, e venceu por 1×0 graças a um pênalti duvidoso (diz a própria imprensa local) aos 16 do 1º. Sete minutos antes anularam um gol do Chile. Vi pela TV em Córdoba.

Perguntou que cidade morávamos, e respondemos ‘Curitiba’. O rapaz não teve dúvidas: mandou ver ‘Curitivano papel, porque pra ele a pronúncia é idêntica.

Isto posto, podemos entender porque a briga das torcidas nesse país vizinho invadiu a linguística:

Além de mais títulos na Libertadores e maior número de fãs, o Boca é o único clube que nunca foi rebaixado, que sempre disputou a 1ª divisão do profissional.

O River lhe fazia companhia até 2011. Mas nesse ano caiu, e teve que jogar a série B. Resultado: desde então a torcida do Boca só grafa o River como ‘Riber’ Plate.

O que obviamente os ‘milionários’ odeiam. Volte ao topo da página e observe a primeira imagem, logo abaixo da manchete. Alguém do Boca grafou ‘RiBer’ no muro, propositadamente exagerando no ‘B’, que ficou gigante óbvio, pois é esse o ponto nevrálgico que enerva o inimigo. 

Córdoba: um torcedor do Talleres pintou o símbolo do clube sob a palavra ‘loucura’. Um rival do Belgrano profanou, dizendo ‘loucura de galinhas’. Na América Hispânica, é essa pecha que as torcidas tentam impôr sobre os adversários. Por isso o ‘T’ virou ‘G’, de ‘Galleres’, soma de ‘Talleres’ com ‘Gallinas’. ‘Peito Frio‘ também é uma expressão castelhana que quer dizer que o jogador não tem sangue quente, a camisa ‘não esquenta’ no peito, aí tanto faz ganhar ou perder.

Enervou mesmo. Algum torcedor do River foi lá e tentou com todas as suas forças riscar a letra ‘B’, como se sua vida – ou ao menos sua honra – dependesse de ocultar esse símbolo gráfico.

Não adianta nada, claro. Os boquenses continuam a proliferar o mantra ‘Riber’ por todas as partes da cidade, um pouco mais pra cima a esquerda mais um exemplo: “River vende fumo, você foi pra (série) B’, é o que está escrito nessa porta de loja.

Pra compensar, a torcida ‘milionária’ do River grafa o rival como ‘Voka’. A pronúncia é a mesma de ‘Boca’. Nesse caso não há correlações com rebaixamentos, já que infelizmente pro River o Boca jamais foi rebaixado.

Simplesmente se paga na mesma moeda. ‘Vocês distorcem a grafia do nosso time, nós distorcemos do seu’, é a lógica de quem criou e espalha o termo ‘Voka’.

Na Argentina, a briga futebolística definitivamente descambou pra dimensão da linguística. O combate é pra mudar as letras no nome do adversário. Os gramados, arquibancadas, ‘adesivos’ na internet (“memes”) e muros se tornaram muito pouco . . . .

Próximas 12: vamos ver mais algumas cenas que eu captei no Novo Gasômetro, estádio do São Lourenço na Z/Sul de B. Aires. Aqui a bateria da ‘Gloriosa’ no aquecimento. Por enquanto sem os saxofonistas.

……….

Não é só no Super-Clássico que essa situação acontece. Estive na Vila Carlos Paz, no interior da província de Córdoba.

A uma hora de ônibus da capital estadual, é uma espécie de ‘Campos do Jordão (SP)’ argentina.

Na verdade Carlos Paz é ainda mais bela que C. do Jordão, pois nessa cidade argentina além das montanhas há um rio que vira um lago bem no Centro.

Em Carlos Paz eu me senti na Suíça, se quer saber. Breve subo as fotos que tirei por lá. Aqui nosso tema é futebol. A Vila Carlos Paz está a 40 km do Centro de Córdoba, você faz um bate-volta, sai cedo e volta a noite se quiser.

No alambrado: na Argentina é assim que os cabeças da barra-brava (torcida organizada) veem o jogo, sempre trepados nas grades. Por isso desenhei Maurílio na mesma posição.

De Rosário a distância decuplica, ou seja são 400 km. Então é preciso pernoitar.

Mesmo assim, muitos rosarinos visitam Carlos Paz. Comprovei isso pelas pichações nos muros, a guerra entre as torcidas do Rosário Central e Newell’s Old Boys (sigla ‘N.O.B.’ nos pichos).

Pois bem. Exatamente na orla, na parte mais bonita da cidade, estava grafado Rosário “B”entral, com o ‘B’ bem grande e destacado.

Aí não tem a ver com a linguística. Simplesmente um torcedor do Newell’s ressaltava o recente rebaixamento do rival.

O Rosário já caiu 4 vezes, mas a última é bem recente, já em 2010, e ele levou 3 anos na série B.

Poucos minutos antes da bola rolar, a banda vai pra arquibancada. No destaque mais um rapaz agarrado a grade, eles ficam o jogo inteiro ali, e não somente pra pôr as faixas como alguém poderia pensar.

O Newell’s também já foi pra segundona, mas está ininterruptamente na primeira desde 1964.

……….

No Clássico Suburbano de Avellaneda o mesmo se repete. O Boca é o único que nunca caiu, repetindo. Até 2011, River e Independente de Avellaneda lhe faziam companhia.

O River teve que disputar a segundona em 2012. No ano que ele retornou pra primeira divisão, em 2013, foi a vez do Independente ser rebaixado. Agora todos caíram, exceto o Boca Juniors. 

Os famosos guarda-sóis não iriam mesmo faltar, nada é mais argentino que isso!

Em Avellaneda os dois rivais já estiveram na série B. O Racing foi rebaixado em 1983, e ficou 3 anos antes de voltar.

Os torcedores do Diabo Rubro até hoje comemoram essa data, vi camisetas alusivas a esse fato, dizendo “Proibido Esquecer”.

Porém agora a maré virou. Nessa década de 10 foi a vez do Independente jogar a segunda. Conseguiu subir no 1º ano.

Ainda assim, a torcida azul do Racing não perdoa, evidente. Avellaneda está inteira pichada com um fantasminha em vermelho com a letra ‘B’.

A foto acima da manchete.

Agora um detalhe curioso: a rivalidade entre Racing e Independente é acirradíssima dentro de campo.

E as pichações nos muros, camisetas e cânticos deixam claro. Mas fora dele os clubes se ajudam.

Os estádios são na mesma quadra, de um você vê o outro. Fui pra Zona Sul de Buenos Aires num sábado a tarde.

Conheci os bairros de Parque Patrícios, Nova Pompéia e Barracas, rumo a famosa favela da Vila 21.

Portão da ‘Cidade Esportiva‘ do S. Lourenço. Chovia muito, veja as capas amarelas.

Cruzei o Riachuelo, mudando de estado e município, do Distrito Federal pra Avellaneda, na província de Buenos Aires.

Chegando ao Centro de Avellaneda, vi uma multidão caminhando com camisas vermelhas, e logo concluí que iam ao jogo do Independente.

Resolvi acompanhá-los até o portão do estádio, embora eu não poderia entrar porque não tinha dinheiro suficiente.

Ainda assim me imiscuí entre a rapaziada e fui, pra pelo menos sentir o clima. Chegamos as imediações do ‘Estádio Libertadores da América’. Sim, esse é o nome oficial da praça desportiva, pra lembrar a todos quem é o ‘Rei de Copas’.

dentro do complexo, em 1º plano um campo de treinamento, ao fundo o estádio.

Mesmo não podendo passar pra arquibancada, foi bom estar ali. Camelôs e bares vendiam churrasco, sanduíches e cerveja.

A banda fazia o aquecimento, com seus bumbos e saxofones característicos. A galera bradava seus gritos de guerra.

Vi os ônibus que trouxeram os comboios do interior. Eram veículos na configuração urbana, com 2 (ou 3) portas e bancos fixos de acrílico.

Próximas 2: quando adentrei o estádio, 1 hora antes do jogo, por isso está vazio. Quando a bola rolou, as retas encheram. A curva oposta continuou vazia. Choveu muito, Buenos Aires tinha diversas vias sitiadas por protestos e na rodada anterior o São Lourenço levou 4×0 do Flamengo no Rio. Tudo isso afastou o público.

Imagine ficar horas e horas sentado naqueles tocos duros, haja paixão!

No Brasil, os comboios das torcidas são em ônibus de viagem, em que o banco é maior, estofado e reclina, um pouquinho que seja.

Como disse acima: os estádios são vizinhos. Eu estava ali, entre a massa vermelha, que adentrava os portões do campo do Independente.

Como pano de fundo da cena estava o estádio do Racing, que é maior.

Saí dali, me dirigindo ao Centro de Avellaneda. Já anoitecia, e como não poderia mesmo ir pra arquibancada queria aproveitar os últimos raios de Sol pra conhecer um pouco mais da cidade.

Repare nas barreiras na arquibancada, pra impedir a ‘avalanche’, comemoração do gol em que tudo mundo corria em direção ao alambrado, causando esmagamento.

Antes passei exatamente em frente o campo do rival Racing.

Os torcedores do Independente faziam o mesmo trajeto, mas no sentido oposto.

Pois bem. A bilheteria do Racing estava aberta. . . porém a serviço do ‘inimigo’.

Eram os torcedores do Independente quem compravam ingressos pra ver seu time.

Pois o Racing jogava fora na rodada, e não no mesmo dia, tudo pra evitar encontros das torcidas adversárias. 

Com a bola rolando. O São Lourenço, mandante, jogou com o uniforme titular escuro. O CAP, visitante, veio de branco.

O que ocorre é o seguinte. A polícia isolou várias quadras ao redor do estádio do Independente, só passava pela barreira quem já tinha ingresso em mãos.

Eu pude conhecer o estádio ao menos por fora porque eu vim mais cedo e por um acesso secundário, onde a polícia ainda não havia fechado.

Porém na avenida principal, a que vinha do Centro, estava interditado exceto pra quem já tinha o bilhete adquirido.

Tive que pedir licença pro policial, ele abriu pra mim a porta dos deficientes, pra que eu pudesse sair enquanto a multidão entrava. Como eu estava saindo, obviamente não houve complicações. Mas ninguém podia entrar sem ingresso.

Torcida do Atlético-PR presente em Buenos Aires. Eles levaram 2 bandeiras do Brasil, infelizmente essas fotos desfocaram.

E quem não havia comprado não mais podia fazê-lo no estádio do Independente, já que a bilheteria fica dentro da zona fechada. Então como fazê-lo?

O Racing deu uma mãozinha, e abriu as suas próprias bilheterias aos que deixaram pra última hora. Uma camaradagem interessante, inimigos dentro das 4 linhas, parceiros fora delas.

……….

Fechamos (por hora) a sequência dentro do estádio do São Lourenço. São os saxofonistas, agora a orquestra está completa.

Qual o povo mais fanático por futebol no mundo? O argentino? Não, é o chileno.

Digo, na arquibancada são iguais. O torcedor argentino é passional, e suas ‘hinchadas’ são famosas por nunca pararem de cantar. De fato assim é.

Veja a prova: a própria torcida do São Lourenço levanta pra rede um vídeo de uma final que eles perderam por 3×0. O resultado dentro de campo importa menos, o fundamental é que o ‘alento’ na arquibancada nunca pare.

Fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense pela Libertadores, 3 dias antes desse sábado em Avellaneda. Já eu conto melhor. Aqui é só pra dizer que chovia a cântaros, o São Lourenço perdeu em casa, e passou o jogo inteiro perdendo, já que o gol do CAP foi logo aos 3 do primeiro.

Aqui e a direita: Zona Sul de Buenos Aires: a torcida do Furacão (esse é o nome do time, não é apelido) homenageia um de seus ídolos.

Ainda assim, a torcida do São Lourenço não parou um minuto de pular e cantar, a plenos pulmões. Voltando a pergunta que eu fiz, dentro do estádio não há diferença, fato. Mas nas ruas o chileno faz questão de se manifestar de forma mais expressiva.

Como eu já contei com muitas fotos quando retornei de lá, no Chile a guerra de torcidas é poste-a-poste. No Centro das cidades não porque a burguesia não se interessa por isso.

Mas assim que você entra nos bairros mais humildes – mesmo aqueles bem centrais, em que você pode ir a pé do Centrão e comprovei isso pessoalmente – e muito mais nas quebradas distantes do subúrbio, todos os postes do bairro são pintados com as cores de algum time.

Todos os postes, todos os bairros, todo o subúrbio e também a parte mais proletária da Zona Central. Além disso, são famosos mundialmente os ‘murais’ chilenos:

Furacão Capo” (chefão da máfia, e por analogia aqui o dono do bairro), e “São Silêncio de Amargo”, provocação ao vizinho São Lourenço de Almagro. Pelo futebol argentino ser muito centrado na Grade Buenos Aires, as rivalidades dos bairros ou municípios suburbanos vizinhos são as mais fortes. O Furacão é próprio time suburbano, como o Olaria, Bangu ou América no Rio. A torcida do Furacão tem birra com quem está mais perto, que é o São Lourenço, fazem ‘o clássico da Zona Sul’. Os fãs do Furacão pouco se importam com o Vélez Sarsfield, por exemplo, já que esse está distante, na Z/Oeste.

Grafites em que as torcidas expressam sua paixão com muitas cores, alguns obras de arte, outros bem toscos, mas todas as pinturas de muro inteiro servindo ao propósito de mostrar quem é ‘o dono’ daquele bairro.

Em Santiago e Valparaíso, os murais e postes decorados estão por toda parte, obras de todas as torcidas. Pois bem. Na Argentina não é assim. 

Em Buenos Aires e Mendonça há bastante pichações de futebol sim, como no Brasil. Mas murais e postes decorados não há.

Como informei na legenda acima: vejo fotos na internet dos murais de futebol em Buenos Aires. Então eles existem, sim. Mas em número reduzidíssimo.

Fiquei 4 dias em Buenos Aires, e o tempo todo circulando pela metrópole, Centro, burguesia e periferia. Não vi nenhum mural, nem mesmo perto dos estádios do São Lourenço e dos dois em Avellaneda.

Fiquei os mesmo 4 dias em Santiago, vi centenas de murais em diversos bairros, tantos que perdi a conta. Fotografei dezenas, ainda pude me dar ao luxo de excluir boa parte e só publicar os mais gráficos.

Rivalidade em Córdoba (r): o Estádio Mário Kempes (em tomadas do mesmo ângulo) ocupado pelas torcidas do Belgrano e Talleres, respectivamente.

Em apenas um dia e meio na Grande Valparaíso (esse município mais Vinha do Mar) vi mais murais que em nos 4 dias em Buenos Aires.

Então eles existem na capital argentina? Sim. Mas pouquíssimos. Os murais que eu fotografei do São Lourenço são dentro do estádio, sob a arquibancada. Na rua não existem.

Em Córdoba já muito mais que na capital. Em vários bairros há postes pintados e murais. Lembra mais o Chile, mas bem em proporção bem menor que do outro lado dos Andes.

Dentro desse mesmo campo, Talleres de camisa listrada, Belgrano com a mais clara.

Andei por vários bairros da periferia cordobesa, especialmente na Zona Oeste, inclusive passei exatamente em frente ao Estádio Olímpico de Córdoba ‘Mário Kempes’ que vemos nas 2 fotos a esquerda.

Que é o segundo maior da Argentina só após o Monumental de Nunhez do River Plate. E mesmo ali e nos bairros vizinhos não haviam grafites ou postes decorados.

Em vários outros lugares o mesmo se repetia, pichações certamente em abundância, mas outras manifestações mais elaboradas existentes mas bem mais raras.

Córdoba lembra um pouco a gana do Chile já de forma diluída, e nas outras cidades argentinas há muita pichação mas nada (ou quase nada) além disso.

……..

Zona Sul de Buenos Aires, mas no muro há pichação do Desportivo Cali da Colômbia. Isso é comum na América Hispânica, ver emblemas de times de outros países.

Como o mapa já informou: o campeonato profissional começou em 1931. Até 1938 apenas com times da Grande Buenos Aires e de La Plata, que dista apenas 55 km da capital, enfatizando de novo.

Em 39 é admitida a participação de equipes do interior da província de Buenos Aires, e também da província de Rosário, que é vizinha.

Ou seja, a importância de Rosário no futebol nacional é histórica, data de muitas décadas.

Em 1967 enfim é criado o torneio nacional, aberto a todos. A partir daí passam a ser dois campeonatos por ano.

O nacional e um outro chamado ‘metropolitano’, que continua a ser disputado somente pelos times de Buenos Aires (capital e interior) e Rosário.

Mas muito mais das equipes locais, é claro. Avellaneda, Zona Sul. As torcidas do Racing e Independente disputam quem comanda a distante Zona Oeste. Disse que os times pequenos têm rivalidades apenas locais, e assim é. Mas esses dois são grandes, logo têm torcida na cidade inteira, e também no interior. Por isso os clubes de Avellaneda discutem quem domina um outro município da região metropolitana, que fica a 22 km dali.

Como o futebol na Argentina é grosseiramente concentrado nessas praças na prática os dois torneios tinham a mesma importância.

Repetindo, Buenos Aires e Rosário detém 100% dos títulos, mesmo depois que a disputa foi aberta a outras cidades, o que já data de 1967 num campeonato e 1980 em ambos. 

Isso porque em 1980 o metropolitano passa a incluir 3 times de Córdoba, Talleres, Racing (o local, e não o de Buenos Aires óbvio) e Instituto.

Assim vai até 1985. Portanto, repetindo, no período 1967-85 são dois campeões por ano.

Na temporada 1985/86 é extinto o metropolitano, e tudo unificado no novo campeonato nacional, agora aberto a todos os clubes.

Próximas 5, ainda pelas ruas de Avellaneda. A pichação em letra clara é de futebol. C.A.I. (Independente) é quem assina, e ameaça: “Racing puto, aqui no bairro mando eu”. Em primeiro plano, em letra escura, outro conflito não relacionado ao futebol, alguém pede “Menos La Beriso, mais rock!”. ‘La Beriso’ é uma banda de música romântica que é dali de Avellaneda.

Por 6 anos, até 1991, houve apenas uma disputa por ano. De 1991/92 até 2012 voltam a ser duas disputas por ano, a ‘Abertura’ e ‘Fechamento’ (modelo que ainda é usado na maioria dos países sul-americanos).

Porém agora não há mais discriminação, os dois campeonatos são abertos a todos os times do país. A partir de 2014 volta a ser um torneio por ano, pra igualar o calendário europeu.

……….

Fecho a matéria contando como comecei minha visita ao país. No Chile ir ao jogo foi a última coisa que fiz no estrangeiro, na Argentina inverteu, foi a primeira.

“no bico do corvo”: ‘ciclone’ x ‘furacão’ no ‘templo divino’.

Chegamos a Buenos Aires uma quarta já do meio pro fim-da-tarde. Estávamos num inferno astral.

Estádio do Racing. Repare no esgoto que corre a céu aberto, a infra-estrutura na Argentina está precária, breve falo mais disso.

Nosso voo foi mudado em São Paulo, assim nossa bagagem não foi pra Argentina, como dito acima.

Tudo atrasou bastante, o próprio avião já pousou mais tarde, perdemos muito tempo na fila do câmbio e registrando a queixas das malas.

Pra piorar, a cidade estava em caos. Chovia adoidado, e a Argentina passa por uma rebelião (por enquanto basicamente pacífica, os episódios de violência existem mas nesse início de movimento não são fatais) que tenta derrubar o governo.

Tudo já foi descrito na primeira matéria da série, breve me aprofundo mais. 

Escudos do Independente: na parede . . .

Pro que nos importa aqui, haviam protestos fechando o tráfego pela cidade inteira. Tudo somado, entramos no apartamento que ficamos hospedados no Centrão já 5 da tarde, quando era pra ter sido logo depois do almoço.

Havia planejado ver São Lourenço x Atlético Paranaense. Não sou torcedor do CAP nem de qualquer outro clube, já disse muitas vezes.

Foi apenas o jogo que se abriu, que ocorreu enquanto eu estava lá, então fui. Assim como, pra equilibrar talvez, também já vi o Coxa em outra cidade, no Independência em Belo Horizonte-MG, 2012.

Outra coisa: na Argentina e toda América Hispânica o CAP não é chamado de ‘Atlético’, mas de ‘Paranaense’. Já expliquei o porque na legenda da foto do ingresso, no alto da página.

. . . e num velho caminhão. Colapso! A frota da Argentina parece a de Cuba. Breve dezenas de fotos.

De volta a Buenos Aires. O São Lourenço é um clube médio, já campeão da América, e tem mais de 10 títulos ‘de cabotagem’ (nacionais).

Mais ou menos no mesmo nível do Veléz Sarsfielda da Zona Oeste, e dos dois clubes de Avellaneda na Zona Sul.

Ou seja, a muitas léguas de River e Boca. Mas estava de bom tamanho. Se o São Lourenço não é gigante, também não é pequeno, então dava pra pegar o espírito.

Além disso, eu sendo de Curitiba seria interessante ver uma partida do Atlético em outro país, mesmo sem ser torcedor desse time. 

Caixa d’água no Centro de Avellaneda tem o nome de todos os times da cidade, desde os pequenos até os 2 grandes lado-a-lado. Os torcedores do Racing e Independente reciprocamente se auto-denominam ‘capo’ e seus rivais de ‘puto‘. E por que ‘Racing’, ‘Newell’s Old Boys’, ‘River Plate’, ou seja, tantos times com nome em inglês? É simples, já contei quando fui ao Chile, a imigração britânica foi infinitamente maior na Argentina e Chile que no Brasil. E os britânicos foram quem fundaram vários clubes nesses países.

Então lá fui eu rumo ao Gasômetro. Planejava chegar cedo ao apê, comer, trocar de roupa e com calma estudar o roteiro e ir ao estádio de transporte coletivo ou mesmo a pé.

Sou acostumado a caminhar muitas horas seguidas, então não só isso não seria um problema como seria uma solução, eu já ia conhecendo a cidade.

Deu tudo errado, e o planejamento foi literalmente por água abaixo. Estava só com uma camiseta, sem nenhum casaco. Sem almoço.

Pelo horário avançado, chuva pesada, horário de pico e mais a cidade estando sitiada pelos piqueteiros, tudo somado a meu desconhecimento das linhas de ônibus e metrô, não dava mais pra ir por conta própria.

Tive que pegar um táxi que cobrou bem caro, nada menos que 100 reais do Centro ao estádio, que não é tão distante assim, na Zona Sul da capital. 

Mas não desisti, persisti ‘contra tudo e contra todos’: Estava sem almoçar, só comera um sanduichinho minúsculo no avião. Eu como bastante, peso pouco mais de 100 kg.

Então praticamente em jejum há 12 horas, estava com fome mesmo. E muito, muito frio. Saí do Brasil apenas de camiseta, pois estava quente.

Buenos Aires esfria muito no fim-de-tarde no outono, todo mundo veste casacos, mas eu não tinha com o que me abrigar pois a mala não veio. Chovia demais. Então lá estava eu, com fome, roupa encharcada que o vento frio me dava a sensação de estar no Polo Sul (ou quem sabe no Polo Norte?).

Ufa!!! São Lourenço campeão da Libertadores/2014. Acabou a piada mais antiga do futebol da Argentina. As iniciais do Clube Atlético São Lourenço de Almagro são ‘C.A.S.L.A.’. Como ele era o único grande sem esse título, os rivais diziam que a sigla era de ‘Clube Ainda Sem Libertadores da América’. Agora não mais, informa o mural no estádio.

Se tudo fosse pouco, o entorno do estádio é uma parte bastante perigosa da cidade. Bem em frente há uma enorme favela, uma das maiores da capital, o que já ajuda compor o cenário. Todos recomendaram não andar pelas ruas sob risco iminente de ser roubado.

Assim, enfrentando fome, frio, chuva, possibilidade de assaltos e uma cidade paralisada por protestos, cheguei ao Novo Gasômetro, o estádio do São Lourenço. Fica no bairro portenho de Flores.

Alias falando em roubos, o estádio anterior era na época simplesmente ‘o Gasômetro’, mas o terreno foi confiscado pela ditadura militar, e hoje abriga um supermercado Carrefour.

Passei em frente, o taxista me mostrou o local e contou a história. O clube até hoje não perdoa a ‘mão-grande’, e quem perdoaria? Há um movimento muito forte pra que o espaço seja devolvido ao São Lourenço, e ali se erga novamente o estádio. “Voltaremos a Boedo”, é o mantra mais forte de sua torcida.

Ao lado uma imagem que resume a luta, um menino com a camisa do time no estacionamento do mercado. Quando seu pai tinha a mesma idade, nesse exato local era a entrada do estádio, veja o vídeo.

O time foi fundado em 1908, e sua antiga sede ficava no bairro de Almagro, daí o nome. Mas depois o bairro de Boedo foi seccionado de Almagro, por isso o São Lourenço de Almagro quer voltar a Boedo. Incluso já é lei municipal. Veremos se será cumprida.

Mais um grafite: São Lourenço é ‘o Corvo’. Também é conhecido como ‘Ciclone‘. Seu rival da Z/Sul é o Furacão, daí o clássico ‘Ciclone x Furacão’. Quando o CAP – que também é o ‘Furacão’ – jogou lá, o emparelhamento se repetiu. Em tempo: o Cerro Portenho de Assunção tem as mesmas cores, mesmo escudo e mesmo apelido de Ciclone, ‘clonou’ o S. Lourenço, prática comum no Paraguai.

Deixemos a história pra lá e falemos de 2017, quando fui ao Novo Gasômetro. Ainda precisava providenciar o ingresso. Bem, essa parte foi mais fácil que eu esperava.

Assim que entrei no complexo esportivo de propriedade do clube (que inclui também ginásio, piscinas, quadras de tênis e diversos outros campos usado pra treino) fui abordado por vários cambistas.

Como chovia muito – e portanto a audiência seria muito abaixo da esperada – eles desovavam as entradas pelo preço de custo. O que não era barato. Pra não-sócios (lá o termo é ‘convidado’) a entrada custa 400 pesos, ou seja 80 reais.

Fui a jogos no Chile e Paraguai, paguei o equivalente a 20 e 10 reais respectivamente.  Tudo bem que já passou um tempinho, fazem 2 anos que estive no Estádio da Praia Grande em Valparaíso e 4 no Defensores do Chaco em Assunção.

Voltando a Argentina, o jogo do Independente era ainda mais salgado, 50 reais pra não-sócios. O futebol na Argentina está todo voltado pra que apenas sócios frequentem as canchas. Pra você ser sócio do São Lourenço custa apenas 330 pesos ou 66 reais por mês, ou seja menos que um ingresso unitário pros não-sócios.

A mesma ave no ponto em frente ao estádio do ramal sudoeste do sistema de ônibus Metro-Bus. Em outra mensagem, breve, o transporte na Argentina.

Um detalhe importante: no Brasil, vários campos de futebol passaram pro um processo de modernização. E em muitos casos parecem teatros, com amplos estacionamentos, butiques, praças de alimentação e em alguns casos banheiros com mármore.

O exemplo é o Maracanã, que abrigou 200 mil pessoas, e hoje tem capacidade pra um terço disso, eliminaram a famosa geral que era onde ficava o povão, a massa folclórica de descamisados que vinha de trem.

Na América Hispânica, esse está longe de ser o caso. Os estádios não foram reformados, e ainda contam com a mesma parca estrutura de décadas atrás. No Gasômetro do São Lourenço o aquecimento da torcida é no vão embaixo da arquibancada, que está cheia de goteiras.

De volta a Avellaneda. Se o tema é transporte coletivo, agora segura essa: a massa do ‘Diabo Rubro’ chega ao estádio. Ao fundo o trem suburbano.

Pra se alimentar, há uma tosca lanchonete em que você se espreme num balcão de concreto pra comprar pão com bife ou linguiça, comida altamente calórica e gordurosa. E pra beber? Copos de plástico com Coca-Cola.

Cheguei ali ensopado, com frio e fome, como já expliquei. Não podia comer nada pois não tinha dinheiro.

A “Gloriosa”, a ‘barra-brava’ (torcida organizada) do São Lourenço, estava se agrupando, faltava hora e pouco pra bola rolar.

A princípio havia um forte cheiro de carne de segunda sendo assada, pois estávamos ao lado da lanchonete. Quando a rapaziada da Gloriosa formou a roda, o odor dominante foi substituído pelo de maconha.

Também em frente do campo do Independente.

A bateria começou a tocar. Os bumbos e pratos são no mesmo instrumento, ou seja um tambor com um prato colado acima.

O cara fica com um bastão na direita e outro prato na esquerda, e toca os dois ao mesmo tempo.

Poucos minutos antes do apito inicial, passamos pra arquibancada. Aí adentraram os saxofones. Toda torcida da Argentina conta com uma orquestra de saxofonistas.

Aqui e a esquerda: Racing x Independente, o ‘Clássico de Avellaneda’, ‘Clássico Suburbano‘, e também o ‘Clássico da Zona Sul’ – o metropolitano da Z/S, o municipal é São Lourenço x Furacão como dito acima.

Logo aos 3 minutos o time brasileiro abriu o placar, por ironia o tento foi marcado por um argentino (Lucho González), de cabeça.

Eu fotografava a torcida e não vi o gol, que acabou sendo o único da partida. No segundo tempo o time da casa bateu um pênalti pra fora.

Como dito acima, a torcida do São Lourenço cantou, pulou e batucou o tempo inteiro, mesmo numa noite fria e chuvosa, mesmo perdendo desde o começo.

Já havia passado pelo mesmo na Colômbia e Chile (no Paraguai fui ver um time pequeno, e o gigante Defensores do Chaco estava deserto. Além disso, nesse caso fiquei no lado oposto ao da torcida organizada).

Mas faltava vivê-lo na Argentina, em Buenos Aires, cidade que contando com os subúrbios concentra nada menos que 24 Libertadores. Valeu a pena enfrentar todas as dificuldades materiais.

É sempre um clima tenso. Jogadores de ambas as equipes se enfrentam ‘olho-no-olho‘ (r).

É uma experiência de arrepiar. De arrepiar, mano. Lágrimas de emoção escorriam dos olhos, e todos os pelos do corpo se eriçavam (veja o vídeo ligado mais pro alto na página pra saber como é a festa da torcida).

Eu ali, no ‘Templo Divino’ – me refiro a que o Papa é torcedor declarado do São Lourenço, há murais relativos a esse fato. ‘Contra tudo e contra todos’, eu chegara ali.

Frio, chuva, fome, forte cheiro de linguiça barata e de erva – ainda mais barata – no ar. Olhando pro lado, via os ‘prédios artesanais’ da favela em frente, que já atingem o 3º ou 4º andar.

No meio daquela massa que pulava e cantava, especialmente quando entoavam os cânticos relativos a conquista da Libertadores, sonho centenário do time enfim realizado. A bateria batendo forte.

“Agante Boca”, no Centro de Buenos Aires. Na verdade o autor quis dizer ‘aguante’, literalmente ‘aguente’, mas no léxico esportivo castelhano significa ‘torcida’. ‘No tienes aguante’ quer dizer ‘teu time não tem torcida’. Um rival adicionou o clássico ‘puto’.

É Transcendental. Buenos Aires É futebol. Naquele momento, eu tive uma espécie de ‘Samadhi’, se você sabe o que é isso. 

Captava a Essência da Alma Argentina, de seu Logos. E (por alguns momentos que fosse) eu era parte dela, era Um com essa Vibração. 

Se no dia seguinte cedo eu tivesse pegado um avião e voltado pro Brasil sem ter visto mais nada da Argentina, a viagem (com todos os seus inúmeros problemas até ali) já teria valido a pena.

…………

Que Deus Ilumine a Todos.

“Deus proverá

a Princesa e as Flores

”princesa”‘ marília: castelo, carruagem – e flores – na praia mais aristocrática do chile

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 14 de abril de 2017

Todas as postagens de Marília são dedicadas as Mulheres.

Marília foi ao Chile, e também a Joinville-SC (acima da manchete, fechamos a matéria com essa parte).

Portanto comecemos pelo outro país, que ela conheceu junto com seu Amado marido Maurílio.

Visitaram a Grande Valparaíso, o que inclui o famoso balneário de Vinha do Mar.

(Nota: eu traduzo tudo pro português, vocês sabem. ‘Vinha’ é fazenda de vinho, e não conjugação do verbo vir.)

Linguística a parte, Vinha é a praia mais aristocrática do Chile.

Dá uma olhada a direita o prédio que eu flagrei na beira-mar, tem seu lago particular.

“Vinha, a Cidade Bela”.

É ali que a elite da capital passa as férias, onde a ‘juventude dourada’ vai pra ver e ser vista no verão.

Enquanto ele foi dar uma volta em outras partes da cidade, ela foi conhecer essa orla que é toda cheia de flores.

De carruagem. E há um realmente castelo ornando uma pequena península.

Aí com tudo compondo esse ambiente de sonhos, Marília não pôde resistir em se sentir uma verdadeira princesa. E quem resistiria?

……..

Sobre a carruagem não é preciso explicar, várias cidades turísticas contam com elas.

Princesa Marília.

Já as vi pessoalmente além de Vinha em Nova Iorque-EUA no Parque Central, e andei numa delas em Acapulco-México.

E, sim, Vinha do Mar tem um castelo de verdade, que eu fotografei acima e desenhei a direita.

Foi inaugurado perto da virada do século 19 pro 20, por um imigrante alemão muito rico, que queria relembrar desse lado do Oceano um pouco de sua Europa natal.

Ele precisou de um alvará especial, pois no Chile como no Brasil é proibido construir diretamente na praia. Foi concedida, ele fez sua obra, e ali residiu até desencarnar.

Até os postes são floridos em Vinha do Mar. Em Bombinhas-SC, Brasil, também.

Sua viúva continuou na mansão-castelo, mas modificou-a, entre várias mudanças demoliu 2 de suas 3 torres originais, restou 1 de lembrança.

Após o desencarne dela também, o castelo alternou períodos vago com os que funcionou como museu.

E desde o começo de século 21 abriga órgãos da secretaria de turismo da prefeitura de Vinha do Mar.

………

A partir dessa imagem, já estamos vendo Joinville-SC (óbvio, pelo Portal), onde eu também desenhei Marília, abaixo.

Enfim, agora já que já está explicado o castelo e carruagem, falemos da “princesa”.

Marília já havia tido essa sensação antes, quando foi a Los Angeles-EUA.

E, nas colinas de ‘Hollywood’, ela não teve como não se sentir uma das estrelas do cinema (a diferença é que aí o conto de fadas era contemporâneo, e não ‘uma volta no tempo‘).

Mas não pense que ela é uma menina bobinha, que vive num mundo de sonhos sem conhecer a realidade.

A ‘Rua das Palmeiras‘ no Centro de Joinville, sempre com muitas flores.

Exatamente ao contrário. Antes de ir a pra ‘Hollywood’, Marília foi no Centrão de Los Angeles, na Cracolândia, na ‘boca-do-lixo’ da cidade.

Que é uma das maiores concentrações de sem-tetos e viciados do mundo. Um ‘vale dos leprosos’ bíblico em pleno século 21.

Então Marília viu perfeitamente as injustiças do sistema, fez esse ‘dever de casa’, tem sua mente analítica bem crítica e desenvolvida. Precisamente por isso a postagem se chamou ‘o Luxo & o Lixo’.

Agora, o desenvolvimento da Razão não precisa matar a Emoção.

Tendo bem claro como as coisas são, não custa também a gente sonhar, de vez em quando se deixar levar pelo que elas poderiam ser.

Bem-Vindo a Cidade das Flores”, já é anunciado na entrada da cidade.

Assim foi em ‘Hollywood’, e assim foi no Chile. Marília estava ali, andando de carruagem, apenas apreciando a paisagem enquanto o cocheiro a conduz. E há bastante pra apreciar:

O castelo ao fundo. Vendo flores até quando você olha pra cima, no alto dos postes. Aquela praia em que as moradias têm seus lagos particulares.

Tudo foi compondo o cenário. Quem não gostaria de ser uma princesa, por alguns minutos que seja?

Depois de todo esse encanto, o dia continuou mágico: Marília encontrou de novo seu “príncipe”, pôs um biquíni – com a bandeira do Brasil – prendeu o cabelo em maria-chiquinha e foram ambos comer churros, nessa exata mesma praia que ela passou em frente de carruagem.

 a cidade das flores: joinville, santa catarina

Voltamos a Pátria Amada, e logo nessa parte tão bonita. Uma Marília joinvillense. Alguns se espantariam por eu ter retratado ela negra.

O nome comercial é fictício. Se houver uma loja chamada assim em Joinville ou qualquer outra cidade é somente uma coincidência, não estou fazendo propaganda.

Oras, embora a maioria dos moradores dessa cidade sejam de pele clara, uma minoria bastante significativa tem outro fenótipo. Muito mais do que você imagina vendo somente o estereótipo. 

O tempo passa. Após a primeira onda de colonização – de fato essa sim germânica – vieram outras, que mudaram a composição da população.

Uma porção elevada de Joinville é imigrante do interior do Paraná. Sendo que os antepassados desses norte-paranaenses vieram majoritariamente do Sudeste, especialmente São Paulo e Minas Gerais.

Por isso a Marília joinvillense cor-de-ébano. Pé-Vermelha de nascimento, e barriga-verde de coração.

………

Namorando um vestido na vitrine – que é adornada por muitas flores, mantendo a tradição alemã. Ela a-ado-ra comprar roupas, especialmente vestidos. Na medida certa, evidente. Ela nem carrega cartão de crédito, só de débito ou dinheiro vivo, assim não contrai dívidas, só leva o que pode pagar.

“Vou ficar lindinha de rosa!!!”

Como eu disse acima, Marília é bastante perspicaz. Ela não é uma garota estúpida, porque ela não é estúpida.

Mas . . . é uma garota. E portanto (sem exageros, claro) ela ama esse ritual de escolher, experimentar, e depois usar um vestido que lhe chama a atenção.

O desenvolvimento da Mente não precisa negar a Emoção, repito. A Mulher pode ser independente, segura de si. E ainda apreciar expressar a Energia Feminina, você não concorda?

……….

Beijos em teu Coração de Mulher.

“Deus Mãe e Pai proverá”

“Ascensão & Queda”: a Argentina vista por dentro

Obelisco da 9 de Julho, Centro de Buenos Aires, o cartão-postal do país.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de abril de 2017

Mensagem-Portal sobre a Argentina. Ao fim do texto ancoro as outras mensagens da série.

No fim do século 19, e por toda a primeira metade do 20, a Argentina era um país de primeiríssimo mundo.

Um verdadeiro pedaço da Europa em plena América.

Ops, mas veja atrás dele: sem-tetos dormem em plena luz do dia. Imagem que sintetiza a crise social que a Argentina atravessa.

Muito, mas muito acima de seus vizinhos latino-americanos com exceção do Uruguai (que é uma nação muito pequena, e portanto muito mais homogênea).

A ascensão foi intensa e notória.

Porém, as coisas mudam. Num processo que se iniciou após a 2ª guerra mundial e se acentuou rapidamente nas últimas décadas, a Argentina empobreceu visivelmente.

Hoje não há nada de europeu nela. É exatamente o mesmo padrão de toda América Latina, com tudo que isso representa.

Maior o voo, maior a queda, como dizem. A decadência também tem sido intensa e notória.

………..

Antes que os mais apressados corram pra corrigir o que eu não disse, eu não estou afirmando que a Argentina está mais pobre que o Brasil.

Abra matéria do jornal ‘La Nación’ que você vai se assustar (essa imagem e a próxima vieram dali). Em 2000, 100 mil pessoas moravam em favelas no município de Bs. As. . No censo de 2010 já se contabilizaram 160 mil, e as estimativas são que em 2017 já são 275 mil. Quase triplicou somente nesse milênio, portanto. Acima da manchete está a favela Vila 31, bem no Centrão da capital, aparecem os prédios chiques ao fundo.  Imagem que vale por mil palavras: a Vila 31 em 2001, e apenas 12 anos depois em 2013 com o quíntuplo do tamanho.

As duas nações estão mais ou menos no mesmo nível. A questão é que até 1970, digamos, a Argentina era 10 vezes mais rica que o Brasil.

Era notório o exemplo que os peões dos prédios que eram construídos em Buenos Aires comiam nas horas de almoço churrasco só com carne de primeira (alcatra, picanha, etc).

Tudo assado no próprio canteiro de obras, posto que a Argentina era e é grande produtora de gado, o que também barateava a matéria-prima.

Mas o principal é que a classe proletária de lá ganhava muito, mas infinitamente muito mais que a daqui na mesma época.

Já que então os operários da construção civil do Rio e SP moravam em barracos de papelão nas inúmeras favelas dessas cidades, e comiam geralmente arroz-&-feijão engrossado com muita farinha.

Precisa dizer mais??

Um ovo frito ou bife de carne de segunda já era um luxo que nem todos podiam dispôr.

Portanto a Argentina estava a anos-luz do Brasil, Colômbia, e muito a frente mesmo do Chile. Isso na primeira metade do século 20 e até as duas ou três décadas posteriores a segunda grande guerra.

Um exemplo vai selar a questão em definitivo: o metrô de Buenos Aires (abreviada ‘Bs. As.’) é de 1913. Um dos mais antigos do mundo.

O de Londres-Inglaterra foi eletrificado (e portanto a partir daí considerado metrô) em 1890. O de Paris-França é de 1900, Nova Iorque-EUA inaugurou o seu em 1904.

Vamos também mostrar as partes bonitas da Argentina, é óbvio. Aqui e a direita, a região dos bairros Palermo e Recoleta, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Portanto o metrô da capital argentina é apenas 13 mais novo que o da capital francesa, e veio menos de uma década depois da principal cidade estadunidense. 

Mais: o metrô de Buenos Aires (lá chamado ‘subte’, diminutivo de ‘subterrâneo’) foi o 1º de todo Hemisfério Sul, o 1º de toda América Latina.

E, se tudo fosse pouco, o 1º de um país de língua espanhola, pois mesmo o de Madri-Espanha chegou 6 anos depois dele.

O metrô de Lisboa-Portugal, que também é Europa Ocidental, só foi rodar em 1959.

Hoje a China tem os dois maiores sistemas de metrô do mundo, nas suas capitais política e econômica Pequim e Xangai.

Entretanto o metrô de Pequim é de 1965, e o de Xangai ainda mais novo, entrou em operação bem recentemente, em 1993. Já que estamos na Ásia, Tóquio-Japão fez o seu em 1927, e o de Seul-Coreia do Sul é de 1974.

Hoje esses dois sistemas são infinitamente maiores que os de Buenos Aires, mas os portenhos contaram com esse conforto 14 anos antes que os japoneses, e 61 anos antes dos coreanos.

Todas as cidades argentinas são bastante arborizadas, não tanto no Paraguai, ainda assim abundante. Seja na alta burguesia (esse caso aqui) quanto na periferia.

Somente no mesmo ano de 1974 o Brasil passou a contar com esse modal, quando São Paulo inaugurou sua primeira linha.

No México D.F. em 1969, pouquíssimo antes de SP e muitíssimo depois de Bs. As. . O primeiro e até agora único metrô da Colômbia, o de Medelím, data de apenas 1995.

Assim fica evidente o passado glorioso da Argentina. Muito próxima na Linha do Tempo de Londres, Nova Iorque e Paris, e a frente mesmo de Madri (a ex-colônia superou sua antiga metrópole).

E décadas e décadas a frente de Portugal, Brasil, México, China e Colômbia. No entanto essa não é mais a situação do país, exatamente o oposto sendo verdadeiro.

Argentina É futebol. Das 57 Libertadores, os caras ganharam nada menos que 24, ou seja, quase metade das taças ficou por lá. Pra sentir essa frequência, fui ao Novo Gasômetro conferir São Lourenço (o time do Papa e campeão de 2014) x Atlético Paranaense por esse torneio. Eu sou de Curitiba mas não sou torcedor do CAP, foi apenas o jogo que deu certo de eu ir, assim como já vi o Coxa fora de casa, em Belo Horizonte-MG, 2012.

Hoje Brasil e Argentina estão num nível parecido de ‘desfuncionalidade’ e de desigualdade social – isto é, muito elevado.

Mas antes não era assim. No passado o Brasil era ainda mais pobre e injusto, portanto houve uma melhora.

Não estou justificando o nível de desigualdade social em nosso país.

Alias em várias partes, de Fortaleza-CE a Florianópolis-SC e também aqui em Curitiba, já retratei bastante vezes o quão agudo é esse contraste.

Ainda assim, houve significativa redução da miséria em nosso país nas últimas duas décadas. Embora obviamente haja muito por fazer, diversas das favelas mais feias foram removidas/urbanizadas.

Quem conhece São Paulo, por exemplo, vai se lembrar que até o começo dos anos 2000 haviam diversas favelas miseráveis nas ilhas da Marginal Tietê (‘ilhas’ dos viadutos, e não do rio), por exemplo.

“Passeador de Cachorros”, outra cena que sintetiza a Alma Argentina. Provavelmente esse garoto não é o dono de todos esses animais, ao contrário, ele ganha dinheiro das madames pra dar um volta no parque com os bichinhos. Foto na Z/N da capital.

Essas pessoas foram transferidas pra apartamentos no estilo ‘Cingapura’, o que é uma melhora inegável.

Então ainda há seríssimos problemas, mas é fato que a situação se amenizou um pouco ultimamente no Brasil.

A Argentina vai na mão oposta, isso é que quero apontar.

Essa nação, que um dia foi muito rica e olhava toda a América Latina de cima (com exceção de seu pequeno vizinho Uruguai) hoje não tem mais esse privilégio.

Então a Argentina é mais pobre que o Brasil? Não, não é. Mas num passado recente, ela foi muitíssimo mais rica, e agora não é mais.

A Argentina é o pior país da América Latina em termos de estrutura social? Obviamente não. Porém um dia ela foi disparado o melhor, tanto que era pensada como a ‘Europa na América’.

E hoje ela está no mesmo nível dos vizinhos, a frente dos mais miseráveis é certo, mas não acima do Brasil, Chile, México e Colômbia, pra citar somente alguns.

E aqui mais uma: performance pública de tango na Feira de Artesanato de São Telmo, Centro Velho de Buenos Aires. Já fiz minha versão dessa cena com Marília & Maurílio.

A queda é real, e absolutamente palpável. Só que ‘quem foi rei nunca perde a majestade’.

Assim esse processo de câmbio, de uma nação rica e homogênea europeizada pra uma realidade totalmente latino-americana com tudo que isso representa, tem sido difícil de ser digerida pelos argentinos.

Resultado: a Argentina está numa convulsão social gravíssima, em múltiplas dimensões.

Chegamos lá, no meio de março.17, numa Buenos Aires em caos. Chovia muito, essa foi a contribuição da Mãe-Natureza.

Mas além do clima, e essa é a parte feita pelas mãos do Homem e da Mulher, a capital estava coalhada de protestos.

Com todo o Centro sitiado, diversas avenidas interrompidas por manifestações. Foram esss as ‘boas-vindas’ que recebemos. 

A direita exatamente a primeira cena que vimos no país, piqueteiros fechavam o tráfego na Avenida Nove de Julho, umas principais da cidade.

Na hora de irmos embora, na última noite esperávamos nosso ônibus na Rodoviária de Córdoba.

A confusão foi a noite inteira. Quase 10 da noite, quando retornei do estádio, a Praça de Maio continuava ocupada pelos manifestantes, com suas vias de acesso fechadas.

E nada dele chegar, já iam 45 minutos de atraso, estávamos preocupados pois no dia seguinte seria o voo pro Brasil saindo de Bs. As. .

Quando o veículo afinal encostou na plataforma, os funcionários explicaram:

O ônibus havia sido apedrejado ao passar perto de um protesto. Felizmente estava vazio e ninguém se feriu. E assim foi a despedida.

No dia seguinte, todo o Centro de Bs. As. permanecia sitiado, avisos pela cidade alertavam os motoristas pra evitarem as zonas de confronto. Pouco antes de eu tirar essa foto, 5 policiais me cercaram, revistaram minha câmera e exigiram que eu apagasse algumas imagens. Isso é estado de direito ou anarquia??

Da chegada a partida, uma síntese da crise que assola a Argentina, e que não irá terminar tão cedo, pois é um processo estrutural, que já dura décadas.

Após meteórica ascensão que fez a capital argentina ter metrô antes que sua antiga (e orgulhosa) metrópole, a readequação a realidade latino-americana, que será perene nesse século 21.

Não, a Argentina não retornará ao 1º mundo. E está vivendo ‘as dores do parto’ dessa nova frequência.

Bem-vinda a América, agora de corpo & alma, Argentina querida. Nós estávamos te aguardando, e a hora chegou. Agora que a ‘ilusão europeia’ se dissipou, definitivamente estamos todos no mesmo barco.

Insurreição: diversos grupos promovem um levante que visa ‘derrotar’ (derrubar) o presidente Maurício Macri. No mês seguinte (abril.17, quando produzo o texto) o caos continuava, com mais greves-gerais nacionais. Nem sempre os protestos são pacíficos, esse é o perigo.

………..

A série ainda vai longe, essa é apenas uma pequena introdução. Em outra mensagem (breve) falaremos melhor da conturbada situação política argentina, passado e pressente.

Desde a ‘guerra suja’ de Videla com suas ‘escolas’ e cidades ‘ocultas’, até o presente momento, em que Macri implantou uma política neo-liberal, soltando um ‘tarifaço‘ e arrocho nos salários.

Assim os movimentos sociais vem fazendo um movimento de insurreição pra derrubá-lo, como a imagem ao lado deixa nítido.

Fazendo uma leve pincelada no passado, a ditadura argentina foi crudelíssima, infinitamente pior que no Brasil.

Infinitamente, quem não estudou a fundo não tem noção do que ocorreu por lá. Em apenas 7 anos o regime desapareceu 30 mil pessoas.

No Brasil, calcula-se que tenham morrido no auge da repressão perto de mil pessoas.

A prova: em Córdoba, o trem suburbano passava dentro de um ‘assentamento’, a “Vila de Nylon” (ou ‘Náilon’ na pronúncia latinizada). Os comboios estavam sendo apedrejados com frequência, obrigando a suspender o serviço no trecho conturbado, agora ele opera da Estação Rodrigues do Busto (que já é na saída da cidade) até Cosquín no interior da província, evitando assim a parte mais problemática dentro da cidade de Córdoba.

Sendo que  nem todos foram mortos pelos militares, pois as guerrilhas também assassinaram gente em atos que eles denominavam ‘justiçamentos’.

Pois bem. Considere que a população argentina é um quinto da brasileira. Portanto os 30 mil mortos de lá equivaleriam a 150 mil aqui.

Resultando que a ditadura argentina foi 150 vezes mais letal que a brasileira, ou, ainda tirando 50% de brinde, nada menos que 100 vezes pior.

O regime de Videla se assemelha mais ao de Pol Pot que ao de Médici. Na Argentina os presos enfrentaram torturas inimagináveis aos brasileiros, que descreverei em texto futuro.

……….

Por hora, falemos um pouco mais sobre como é o país em termos gerais. A Argentina tem 44 milhões de habitantes.

Como eu já disse quando retornei da Colômbia:

Infelizmente apedrejamentos do transporte coletivo são comuns em Córdoba e toda Argentina. Na estação dessa cidade, flagrei um trem que tem o para-brisas gradeado. No auge dos ‘problemas’ do ‘Apartheid’ na África do Sul  os ônibus e trens eram assim, mas hoje não mais. Por aí você vê como está a Argentina atualmente. Logo ao lado eu vi uma locomotiva que não tinha proteção, e o vidro estava inteiro perfurado por pedras. Não deu pra fotografar porque a composição que eu estava já se encontrava em movimento.

Muitos brasileiros de classe média pensam erroneamente que a Argentina é o 2º país sul-americano em população, logo após o Brasil, pela Argentina ser mais próxima física e culturalmente do Centro-Sul Brasileiro.

Nada poderia ser mais distante da realidade. A Colômbia é quem ocupa esse posto, com 48 milhões de pessoas, 10% a mais que a Argentina portanto.

Voltando ao nosso vizinho a sudoeste. Na capital Buenos Aires (no ‘conurbado’, núcleo mais subúrbios metropolitanos) residem 14 milhões de argentinos.

Apenas no município de Buenos Aires (que no Brasil e México seria o ‘Distrito Federal‘, lá antes chamado ‘Capital Federal’, agora ”Cidade Autônoma de Bs. As.”) são 3 milhões.

Portanto outros 11 milhões vivem na mesma cidade que é a Grande Buenos Aires mas nos municípios da região metropolitana, que ficam em outro estado, a Província de Buenos Aires.

A todos os problemas políticos, some-se a criminalidade comum , que também está elevada. Em 2 semanas, houve 5 sequestros na Zona Oeste de Buenos Aires. Suspeita-se que todos cometidos pela mesma quadrilha, sediada no conjunto ‘Forte Apache‘ – sim, é onde Tévez foi criado. A onda de raptos não se resume a capital, nos jornais de Mendonça as notícias são as mesmas, como veremos em postagem futura. Uma “Terra em Convulsão”, sem dúvidas. . .

Já eu falo mais da divisão política da capital, da distinção entre a ‘Cidade Autônoma’ (C.A.B.A.) e os subúrbios metropolitanos da ‘Província’ (A.M.B.A.).

Por hora, vamos ao interior. A segunda maior cidade argentina é Córdoba – também se escreve ‘Córdova’, a pronúncia é a mesma.

Linguística a parte, a Grande Córdoba tem 1,5 milhão de pessoas, sendo quase todos (1,4 milhão) no município de Córdoba mesmo. Visitei essa cidade, e breve lanço matéria específica sobre ela.

Depois vem Rosário, que conta com 1,3 milhão de Homens e Mulheres. Ali não tive oportunidade de ir. 

E a seguir Mendonça, que acaba de ultrapassar 1 milhão. Nessa também fui e breve falaremos com muito mais detalhes, ricamente ilustrado.

São as únicas 4 cidades argentinas que abrigam mais de 1 milhão de habitantes (as estatísticas têm como fonte o sítio ‘City Population’, disponível em inglês e alemão.)

………

Córdoba, como acabo de dizer, quase não tem região metropolitana. Dos 1,5 milhão de pessoas, 1,4 miram no núcleo, o município de Córdoba mesmo. Repito a informação pra fazer o contraste com Mendonça, onde a situação é diametralmente oposta.

Dos 1 milhão de argentinos que moram na cidade que é a Grande Mendonça, apenas 119 mil vivem no município de Mendonça, pouco mais de 10% portanto.

É que o município de Mendonça é minúsculo em área, como o mapa deixa claro. 

Abrange apenas o Centrão e uma parte da Zona Oeste (onde ficam o estádio e a universidade) e outra da Zona Norte.

Mafalda é uma deusa neo-pagã em B. Aires, seu rosto está por toda parte, há quase uma relação de culto em relação a ela na cidade. Aqui na Feira de São Telmo. No interior não é assim, fora da capital ela é uma menina personagem de quadrinhos que muitas pessoas curtem, mas não um ícone a ser idolatrado.

Quase toda a área urbana da cidade fica em outros municípios. A capital estadual é apenas o 6º município mais populoso da Grande Mendonça, você acredita nisso?

Pois é a realidade. O município mais povoado da Grande Mendonça é Guaymallén, com 320 mil. Pega quase toda a Zona Leste da cidade.

Como acabo de dizer e é notório, o município da capital da província é muito pequeno.

Você está no marco zero de Mendonça, a ‘Praça de Armas’ da cidade do tempo da colonização espanhola (no México o ‘Zócalo’), ou seja em seu núcleo mesmo, onde há aquela fonte com a bandeira argentina.

Pois bem. Caminhe 9 quadras pra leste. Apenas nove quadras o que dá menos de 1 quilômetro, quinze minutos a pé.

Você ainda está na Zona Central da Grande Mendonça, mas não mais no município de Mendonça, e sim em Guaymallén. 

O plátano é uma árvore típica de lugares frios. Símbolo-mor do Canadá, estampa inclusive sua bandeira, e também representa Campos do Jordão-SP, a cidade mais alta do Brasil. Pois bem. Na Argentina ela também é muito comum, essa está no Centro de Bs. As., perto da Casa Rosada e Porto Madeiro.

Depois vem Las Heras, com 227 mil, que corresponde a maior parte da Zona Norte.

A seguir Godoy Cruz, 203 mil. Se espraia entre as Zonas Oeste e Sul de Mendonça.

Seu vizinho em área e número de habitantes é Maipú, onde vivem 193 mil pessoas. Parte da Zona Sul e a parte da Zona Leste.

O extremo da Zona Sul já fica em Luján de Cuyo, moradia de mais 137 mendoncinos.

Parece incrível mas é isso mesmo, o município de Mendonça é apenas o 6º mais populoso da cidade que é Mendonça.

No Brasil, temos um paralelo com essa situação no Espírito Santo.

Já que falamos nela, eis a Casa Rosada na Praça de Maio, sede da presidência da nação.

Pois o município de Vitória, capital do estado, é apenas o 4º mais populoso da Grande Vitória, atrás de Serra, Vila Velha e Cariacica.

……….

Agora vamos pra capital. Pra quem não conhece o sistema político argentino, é um pouco complicado definir ‘Buenos Aires’, pois isso pode se referir a 3 coisas distintas

O município de Buenos Aires. Equivalente ao nosso ‘Distrito Federal’;

A província de Buenos Aires. Como todos sabem, as ‘províncias’ seriam chamadas de ‘estados’ no Brasil, México e EUA, entre outros países;

Congresso Argentino, em outra parte do Centro. Até que o efeito da chuva ficou legal, não?

E a cidade que é a Grande Buenos Aires, o ‘Conurbado’.

O município de Buenos Aires é circundado pela província de Buenos Aires mas não faz parte dela, como o D.F. brasileiro está dentro de Goiás mas não pertence a esse estado.

No México ocorre, o mesmo, expliquei em detalhes quando voltei de lá, com o agravante que o termo ‘México’ designa 4 esferas diferentes:

A nação; o município da capital que é o Distrito Federal; o estado que o circunda mas de quem o DF não faz parte;

Continuando na mesma frequência, a Assembleia Legislativa do estado (‘província’) de Córdoba.

E por fim a cidade que é Grande México, núcleo mais subúrbios, que incluem todos os que moram no DF e parte dos que moram no ‘Estado do México’.

Pra gente entender, ajuda muito relembrar como era a situação no Brasil até 20 de abril de 1960, ou seja, quando o Rio era nossa capital.

Havia o município do Rio de Janeiro, o ‘Distrito Federal’. Havia o estado do Rio de Janeiro, que circundava o DF mas não o abrangia, a capital era Niterói como sabem.

E por fim havia a cidade que era o Grande Rio, que compreendia núcleo mais subúrbios.

Esse incluía todo o DF (município do Rio de Janeiro) mais alguns subúrbios que ficavam no Estado do Rio de Janeiro, como Duque de Caxias, a própria Niterói e vários outros.

Quem morava nesses municípios obviamente vivia na mesma aglomeração urbana que os habitantes do Distrito Federal, malgrado a divisa estadual. Agora, havia também o interior do Estado do Rio.

O Rio Suquía corta toda cidade de Córdoba. Nos postes, a bandeira argentina.

Certamente os habitantes de Campos, Angra dos Reis, Volta Redonda, Petrópolis, entre muitas outras cidades, vivem no Estado do Rio de Janeiro, mas não no Grande Rio.

Voltando a Argentina, lá essa ainda é a realidade até hoje. Há o que moram no núcleo, o município de Buenos Aires.

Há os que moram em outro estado, a Província de Buenos Aires (ou simplesmente ‘a Província’ na linguagem popular) mas na mesma cidade que é a Grande Buenos Aires, nos subúrbios metropolitanos conurbados.

E há os que moram na Província de Buenos Aires mas não na Grande Buenos Aires, em cidades menores afastadas da capital ou mesmo no interior.

Jardim Botânico de Buenos Aires.

……

Repetindo, antigamente o município de Buenos Aires era conhecido como a ‘Capital Federal’, e hoje é a ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’.

O termo ‘autônoma’ se refere exatamente a que esse município não pertence a nenhum estado.

Já que tem autonomia em relação a essa esfera administrativa, situação exclusiva nessa pátria justamente por ser a capital dela.

A abreviação é ‘C.A.B.A.’, formada pelas iniciais, e esse termo é amplamente usado lá, mesmo no dia-a-dia sem conotação técnica, pra designar a capital. Exemplo numa pizzaria ao lado.

Na C.A.B.A. moram perto de 3 milhões de pessoas, número que se mantém mais ou menos estável há quase 50 anos, desde o censo de 1970.

Mas a cidade que é a Grande Buenos Aires tem hoje 14 milhões, portanto 11 vivem na ‘Província’. Aí é que está.

Anoitecer no Centro de Avellaneda, município na Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia o Independente e o Racing – ambos já ganharam a Libertadores, portanto em Bs. As. até o ‘clássico suburbano’ envolve dois campeões dessa competição máxima da América.

Em 1970, esse número era de também mais ou menos 3 milhões, resultando que foi multiplicado em quase 4 vezes nas últimas 5 décadas.

Oras, coloquemos no contexto histórico e geográfico. Obviamente a Zona Central, o núcleo, o Distrito Federal de uma capital tem o padrão de vida muito mais elevado que sua periferia.

Em 1970, a Argentina vivia os últimos espasmos de sua fase gloriosa anterior como integrante do 1º mundo.

Então os portenhos já tinham metrô a quase 6 décadas, enquanto nenhuma cidade brasileira contava com essa benfeitoria.

E nesse ano a divisão da Grande Buenos Aires era praticamente meio-a-meio: metade no núcleo, a Capital Federal. E metade nos subúrbios metropolitanos que ficam em outro estado.

Outro Pôr-do-Sol também na Região Metropolitana de Buenos Aires, mas agora do outro lado da metrópole: município de Vicente Lopes, Zona Norte.

Assim, não é difícil de ver que a capital argentina era, como suas equivalentes europeias, uma cidade majoritariamente de classe média.

Onde mesmo os peões de obra comiam picanha diariamente, evidenciando que já haviam adentrado a classe média-baixa.

Hoje a proporção núcleo/subúrbio inter-estadual se alterou pra uma proporção de mais de 4 pra 1 a favor do último.

Óbvio que nem todos os que moram na ‘Província’ são pobres.

Óbvio. Exatamente ao contrário, há subúrbios de altíssimo padrão, especialmente na Zona Norte mas também a Oeste e Sul.

“Trabalho em negro” significa “sem carteira assinada”. Em Córdoba mais de um terço dos trabalhadores está nessa condição de sub-emprego. Em algumas cidades chega quase a metade. Ainda assim, os índices oficiais de des/e sub-emprego baixaram em março. Os sindicatos dizem que as estatísticas foram fraudadas.

Acabamos de ver imagens do Centro de Vic. Lopes e Avellaneda. Breve detalho melhor esse ponto também, inclusive com muito mais fotos

Na divisa com a capital na Z/S e Z/O, e bem mais avançado na Z/N, vários municípios da Grande Buenos Aires tem um padrão de vida similar ao da capital.

Entretanto, também é óbvio que quando mais você se afastando do Centro, mais difícil a coisa vai ficando.

E como o subúrbio está inchando descontroladamente, natural que a pobreza esteja aumentando em níveis alarmantes.

Uma pequena parte desse aumento é de uma classe afluente, sim, mas o grosso é do povão, da classe proletária.

Fora que mesmo na parte riquíssima da Capital Federal as favelas têm se multiplicado como cogumelos após a chuva.

Resultado: a muito Buenos Aires não é mais majoritariamente de classe média.

Houve nova greve geral no começo de abril.17. O índice oficial caiu. Foram criados mais postos de trabalho, e mais gente está trabalhando? Não, exatamente ao contrário. Há cada vez menos empregos com carteira assinada, assim simplesmente as pessoas pararam de procurar ocupação formal. Foram trabalhar por conta, muitos como como camelôs ou flanelinhas.

Há muito isso virou passado, um sonho distante, que os mais velhos se lembram com agoniosa nostalgia, e os mais jovens não chegaram a vivenciar.

A Argentina de hoje, especialmente sua capital, tem pirâmide de concentração de renda exatamente igual a qualquer país da América Latina:

Alguns obscenamente ricos, uma pequena classe-média que está cada vez mais encolhendo, e uma massa de despossuídos, que apenas sobrevive ou as vezes nem isso.

‘mad max em mendonça’; e risco de vida triplo em buenos aires.

Catador de papel em Buenos Aires . . .

Obviamente fui conferir de perto essa transição, que não tem sido nada suave. Voltei a pé do Novas Quintas, o bairro mais ocidental de Mendonça, a pé até o Centro.

Deu quase 20 km, mais ou menos 4 horas de caminhada. Em outra mensagem conto melhor essa aventura.

Apenas como aperitivo, os bairros mais a Oeste da cidade estão a mais de 300 metros e nesse ponto extremo cerca de 400 metros mais altos que o Centro, logo você vê a metrópole inteira lá de cima.

Aqui o que nos importa é: atrás do Aero-Clube há uma nem tão pequena favela. As margens de um enorme canal, que nessa época do ano fica quase vazio, um mero riachinho, mas na primavera se torna um potente rio caudaloso.

. . . e flanelinhas em Mendonça. Oficialmente, essas pessoas não estão desempregadas, pois elas não buscam um emprego com carteira que sabem que não existe. Em tempos de crise, é assim que as estatísticas de desemprego baixam, na Argentina e toda parte.

Presenciei a mesma situação em Santiago do Chile, e o motivo é o mesmo: no verão, apenas os picos mais altos dos Andes se mantém nevados.

No outono a neve começa a se acumular na cadeia de montanhas.

No inverno toda a Cordilheira fica branca de neve, tão abundante a ponto de propiciar inclusive muitas estações de esqui como é notório.

E na primavera a neve derrete, escorre pra cidade, onde a água é usada pro consumo humano.

Duas cenas da favela na Zona Oeste de Menonça que eu passei ao lado. As fotos foram puxadas via ‘Google Mapas’ porque minha máquina ficou sem bateria.

Toda Mendonça é cortada por pequenos canais, pra levar pras casas a água resultante do desgelo dos Andes na primavera. Toda ela, Centro, classe média e subúrbios.

Em Santiago isso também ocorre mas apenas em pequenas partes da Zona Leste, no resto da cidade não.

Santiago e Mendonça ficam em países distintos, mas são muito próximas, física e principalmente culturalmente.

Natural, pois elas estão bem pertinho, uma em cada margem da montanha. Depois nós falamos disso mais detalhadamente.

Repare no esgoto correndo a céu aberto.

Aqui o que nos importa é: tanto Santiago quanto muito mais Mendonça têm rios intermitentes, isso é, que só existem em determinadas épocas do ano.

Na primavera, com toneladas de neve derretida descendo da Cordilheiras, esses cursos d’água se tornam colossais, se você cair neles será fatalmente arrastado pela correnteza e caso não seja exímio nadador não sobreviverá.

Também via ‘Google’, eis o canal do rio em Mendonça, que fica seco do verão ao outono. Em compensação, quase não tem água mas tem muito lixo, toneladas dele, formando um aterro sanitário clandestino.

Porém, do verão ao outono, são pequenos regatos d’água que até uma criança atravessa a pé sem qualquer risco.

Aqui voltamos a nossa narrativa. Eu desci as montanhas que cercam Mendonça a oeste. Saí atrás do Aero-Clube.

Atravessei um terreno baldio, cheio de cactos – por ser ao lado da montanha, o clima de Mendonça é semi-árido, parecido com o do Chile mas ainda mais pronunciado. Cheguei no canal concretado do rio.

Ou eu teria que voltar, ou pra seguir pro Centro teria que ir pelo canal. Como estive lá no outono não havia rio de fato, só um pequeno fiozinho de líquido.

Você conhece o Rio Los Angeles, que nomeia essa que é a segunda maior cidade ianque? ‘Hollywood adora filmar ali.

No texto ao lado sigo falando de Mendonça. Mas daqui pra baixo as fotos são todas na capital e de minha autoria. Nessa e a direita: Vila 21, na Zona Sul. Ainda no município de B. Aires, mas na extremidade de sua periferia.

Por exemplo, busque na internet a famosa cena de perseguição do filme ‘O Exterminador do Futuro’, estrelada por Schwarzenegger, que depois foi governador da Califórnia.

Pro que nos interessa aqui, mostra o canal concretado de um rio que está quase seco, e portanto dá para andar ou dirigir pelo que deveria ser o leito do curso aquático.

Então, em Mendonça a cena é a mesma: há uma enorme canaleta de concreto, que enche na primavera e esvazia no resto do ano. Como estava vazia, fui por ela.

Ao lado uma favela, uma das maiores da cidade – no resto da Argentina as concentrações de miséria são bem menores que na capital. 

Outra da Vila 21. Essa favela fica na margem do Riachuelo, que divide a Capital Federal de Avellaneda, município que como já dito fica em outro estado, a ‘Província’ de B. Aires.

As favelas de Buenos Aires são gigantescas, tanto em extensão quanto em densidade.

No interior a coisa é bem mais amena. Bem mais. Essa favela seria pequena na capital. Mas em Mendonça é uma das maiores senão mesmo a maior. 

Ali estava eu. Caminhando pelo leito cimentado do rio quase seco. De um lado um enorme muro, do Aero-Clube.

Do outro a favela. Mas o mais impressionante estava no chão e nas encostas de concreto:

Lixo, muito mas muito mesmo lixo e mais lixo. Toneladas de lixo, que são simplesmente descartadas no rio. Cachorros furavam os sacos procurando comida, crianças brincavam como se aquilo fosse um lindo parque.

Não confunda: a partir de agora e até o final veremos a Vila 31, que fica no Centrão, atrás do porto, das estações rodoviária e ferroviária, e não muito longe do aeroporto. A logística dos transportes é excelente, não (risos…)? Pena que a infra-estrutura na favela seja péssima.

E nas margens os precários barracos de papelão que são a moradia desses meninos e meninas e seus pais e mães.

Uma cena surreal, mas real. ‘Mad Max na Argentina’, como o episódio foi batizado. 

Estado inexistente, cada um toma sua sobrevivência e de sua família nas suas próprias mãos, da melhor forma que puder.

……….

Ainda bem que eu já estava escolado e curtido pelo que passara na capital, uns dias antes. Em Buenos Aires (como em Medelím, Colômbia) as favelas são numeradas. As duas mais famosas são as Vilas 21 e 31. Vimos a Vila 21 pelo decorrer da matéria, busque pelas legendas.

Clique pra ampliar que a imagem é muito comprida. A Vila 31 foi invadida no pátio ferroviário, como temos casos também em Curitiba e Fortaleza-CE, entre muitas outras.

É igualmente enorme e pavorosa, mas fica na periferia, Zona Sul, já na divisa de município – que lá também é divisa de estado.

Já a Favela Vila 31, retratada acima da manchete e depois em outras tomadas espalhadas pela página, fica exatamente no Centro de Buenos Aires.

Alias veem a linha de prédios da alta burguesia ao fundo de algumas tomadas. A Vila 31 é “a que não deixa o Centro dormir”. Quando a Vila se expande, o Centro se recolhe, se é que me entende . . .

………

Agora de mais perto, as casas da Vila avançando sobre o estacionamento de trens.

Corri um risco tri-dimensional pra captar essas imagens, enfrentando tráfico, tráfego e a polícia.

O país estava em convulsão exatamente naquele dia, simplesmente a Argentina passa por uma revolução que tenta derrubar a governo, não sabemos ainda se terão sucesso ou não mas estão tentando.

Logo a nação está em caos e as forças de segurança, consequentemente, estão em alerta máximo.

Pouco antes fui cercado por 5 policiais que revistaram minha câmera e exigiram que eu apagasse algumas imagens, como contei acima.

Situação explosiva (e de fato vem explodindo): milionários e miseráveis lado-a-lado, vendo um ao outro, nem sempre com pensamentos de amor e fraternidade óbvio, e isso vale pras duas mãos. Eis a imagem acima da manchete.

Ademais, eu tirei as fotos de cima de um viaduto, onde é proibido entrar caminhando, só permitido de carro.

Assim sequer há espaço pra pedestres, só pista pra veículos, que como estão numa auto-estrada vem em alta velocidade.

Mesmo sendo ilegal e perigosíssimo eu fui a pé, me esquivando do fluxo de carros, caminhões e motos na auto-estrada mais movimentada do país. Por aí vocês entendem porque desafiei a polícia e o tráfego.

Quanto ao tráfico, não é preciso explicar. A Vila 31 é a boca de drogas mais quente de toda Argentina, pois é que mais fatura, uma vez que está cercada do público consumidor de maior poder aquisitivo.

Assim, naturalmente é a boca mais bem protegida por soldados armados dos comandos de criminosos. Eles não permitem serem fotografados, por motivos óbvios.

A laje das favelas de B. Aires já atingiu o 5º ou 6º andar, as quebradas são idênticas as do Rio e SP. A 1ª vez que eu vi na internet fotos de B. Aires tive que conferir a digitação, porque a princípio me pareceram cenas cariocas.

Mas eu estava lá. Contra tudo e contra todos. Sozinho, a pé, sem celular, só eu e Deus.

Contra, reitero, a polícia, os bandidos e os carros e motos que passavam voando a pouquíssimos centímetros de minha humilde pessoa.

O barato é louco e arrepia na hora.

Valeu a pena. Missão é Missão, e vamos até o final.

Eu Sou O Mensageiro.

……..

Outras mensagens da série:

No canto esquerdo, o pequeno espaço que eu me espremi pra poder fotografar a favela. Veja que os carros avançam sobre a faixa o tempo todo, pois é proibido passar a pé ali.

“Voka” versus “Riber”????? (03/17): o futebol na Argentina. Eis uma dimensão que essa nação não decaiu, ao contrário das outras.

Dentro dos gramados os caras continuam no auge, comandando a Libertadores. E eu fui ao estádio, pra sentir o modo portenho de viver.

Detalhe: a briga das torcidas invadiu a linguística, daí a grafia ‘alternativa’ dos 2 arqui-rivais.

– “Perfume de Mulher: Desenho que mostra um casal dançando tango. Produzido e a postagem subiu pro ar lá no Centro de Buenos Aires, março de 2017.

– “No Topo do Mundo“: também é uma gravura, e também de 03/17, retratei de meu próprio punho as Mulheres dessa nação.

“Voka” e “Riber” se enfrentando sob muita chuva. Essa foto foi baixada da internet.

Oras, mas que Diabo!!!” – desenho de setembro de 2016, 6 meses antes da viagem, portanto.

Maurílio torcedor do Independente de Avellaneda. trepado no alambrado, que é como os argentinos assistem as partidas nos estádios.

“Deus proverá”

No Topo do Mundo !

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 30 de março de 2017

iniciei a publicação dos textos e fotos sobre o país vizinho.

Pra abrirmos a série, vamos mostrar como são as Mulheres da Argentina.

Pra conversa começar: a Argentina é um país muito menos branco do que alguém poderia pensar vendo a mídia oficial.

A classe média de Buenos Aires é majoritariamente caucasiana, é certo. Porém a nação não se resume a Zona Central da capital, isso é o que muitos não levam em conta.

Nos subúrbios de Buenos Aires, e no interior tanto na burguesia quanto mais ainda entre a classe operária, predominam os mestiços entre europeus e americanos.

Colagem mostra o que faz a cabeça das gurias de lá: echarpe/cachecol no pescoço, pulseiras em ambos os braços, e sapatos gigantes, sempre.

América é um continente, não um país, e portanto por ‘americanos’ eu me refiro aos nativos do continente.

De maneira que aqui vemos uma Marília argentina, ao lado de uma amiga. Uma das Mulheres é loira, a outra índia.

Alias (em Buenos Aires, no interior bem menos) as garotas muitas vezes andam assim pelas ruas, de braços dados.

Não tem nada a ver com lesbianismo, óbvio. É apenas sinal de uma amizade e cumplicidade profundas entre duas Almas encarnadas no sexo feminino.

………

Quando fui ao Chile, disse (e desenhei, duas vezes se uma fosse pouco) que as chilenas adoram echarpes/cachecóis e também meia-calça.

Pois bem. As argentinas não têm nem de longe a mesma fixação por meia-calça que suas colegas do outro lado dos Andes. Diria que na Argentina se usa essa peça na mesma proporção que no Brasil.

Porém, em relação a pôr um pouco de tecido enrolado no pescoço, as argentinas são exatamente iguais as chilenas.

Salto ou plataforma? Salto & plataforma, oras, por que ter que escolher???

A mulherada de lá simplesmente a-do-ra ficar chique e elegante dessa forma.

Pode ser um cachecol de lã, uma echarpe de pano. Não importa o material, mas tem que ter esse adereço, pra dar um charme.

É tão forte essa característica do povo que aparece até nos murais (esse acima é sobre a ditadura, tema que discorreremos melhor em outra mensagem).

Aqui o que nos importa é o vestuário. Isso também é mais forte na capital, até porque Buenos Aires é bem mais gelada que o pampa – como eu já lhes disse quando fui ao Paraguai.

A capital argentina estava com a temperatura muito parecida com Curitiba na mesma época (a viagem foi em março-17):

Somos argentinas: toda emperiquitadas (maria-chiquinha; enfeites diversos no cabelo; pulseiras; echarpes) e andamos de braços dados.

No meio do dia fazia um calorzinho, ao anoitecer o termômetro despencava.

Já em Córdoba e Mendonça mesmo a noite ainda estava quente, embora o inverno andino de Mendonça seja congelante, evidente.

Outros pontos marcantes na moda feminina, esses comuns na capital e interior:

As argentinas não gostam de serem baixinhas. Assim, elas usam plataformas gigantes.

Enormes mesmo, incluso é comum salto-alto e mais a plataforma, totalizando em alguns casos quase uns 15 cm a mais de altura!!!

Assim elas ficam por cima, ‘no topo do mundo’. Na Argentina não é preciso escolher entre salto e plataforma, usa-se os dois no mesmo sapato.

Veja como as argentinas amam seus cabelos: mural em Córdoba dedicado só a esse tema. Essa garota tem em ser ruiva a característica marcante de sua vida, o cabelo é mais volumoso que todo seu corpo somado! E essa era a menor das cabeleiras mostradas no muro, as demais atingiam mais de 10 metros!!! Rapunzel moderna . . .

Tem mais: elas usam pulseiras nos dois braços, simultaneamente. Geralmente eu desenho Marília assim, com adereços em ambos os pulsos.

Mas é uma caricatura, um exagero, posto que no Brasil é raríssimo ver uma Mulher dessa forma.

Na Argentina, entretanto, não é exagero, todos os dias você vê várias e várias delas com bijuterias tanto no braço direito quanto no esquerdo.

Ademais, as argentinas têm cabelos lindos, deslumbrantes. E o cabelo é a parte mais bonita e feminina de uma Mulher.

Assim, elas adoram inventar penteados e acessórios pra ressaltar seus fios espetaculares.As meninas (nesse caso específico me refiro as crianças) usam muito maria-chiquinha.

Resultado: quando elas ficam adultas, algumas delas continuam prendendo o cabelo dessa forma, dos dois lados da cabeça.

Atualizei a postagem da bandeira brasileira pela América, mostrando o pavilhão da Pátria Amada em frente ao Obelisco de B. Aires.

Muito mais comum que no Brasil, infinitamente mais. Também usam muito laços, e esses fios enfeitados com bolinhas coloridas.

…….

Está Aberta a série sobre a Argentina, com Chave de Ouro.

Que Deus Mãe e Pai Ilumine a essa nação, e a todos os Homens e Mulheres da Terra.

“Ela/Ele proverá”

Perfume de Mulher


Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 18 de março de 2017

BUENOS AIRES – Maurílio e Marília na Argentina. Dançando tango, é claro.

Obviamente, emprestei nome da mensagem de um filme muito conhecido.

Como sabem, em cuja uma das cenas mais famosas o Homem, que é cego, tira uma moça pra dançarem tango no meio do salão.

Na primeira matéria da série sobre a Argentina, fotografei um casal fazendo uma performance pública na Feira da São Telmo, Centro Velho da capital

Agora voltemos aos desenhos: ainda por conta do título, vamos ver Marília se arrumando pra essa noite. Pra estar bem perfumada na hora que seus corpos se unirem na dança.

…….

Passamos pra uma outra história, o casal de pombinhos andando de braços dados na rua.

Marília não está grávida. É que ela é uma Mulher muito fofinha, digamos assim.

No passado, a sociedade era muito machista, então o padrão de beleza era muito rigoroso com sexo feminino.

Nos Homens, era aceito com mais naturalidade um pouco de ‘barriga de cerveja’.

Mas as moças tinham que ter o corpo parecido com a Gisele Bündchen pra não serem ostracizadas.

Assim como era tabu uma Mulher ficar com um Homem muitos anos mais novo, enquanto que o contrário era visto com naturalidade.

A situação se alterou bastante. É claro que ainda estamos muito longe do ideal, mas os 2 tabus se amainaram consideravelmente.

Já que trata do mesmo tema, insiro desenho dos arquivos. Mais uma vez, Marília sendo rodopiada na pista de dança, nos braços de Maurílio. Essa postagem, que se chama ‘Baila Comigo’, foi publicada em dezembro de 2016.

Agora está ficando mais frequente vermos viúvas ou divorciadas com companheiros de 10, 15 ou 20 anos mais jovens que elas. Como os Homens sempre fizeram, alias.

Além disso, os Homens começam a descobrir o valor das ‘Grandes Mulheres’. Nada mais natural.

Uma garota pode ser charmosa, feminina, cativante, e ainda assim estar um pouco distante do que a mídia afirma que é o padrão “ideal”, o único aceitável, pra todas as pessoas.

As pessoas são diferentes, logo os corpos serão diferentes. É preciso centrar mais na essência e não somente na aparência.

Refletindo essa tendência, desenhei essa Marília. Ela é totalmente feminina, bastante vaidosa e por isso toda produzida:

De camiseta transparente e enfeitada com pedras brilhantes, brincos enormes e uma saia rodada vermelha que combina com a ‘lingerie’, que está visível através de sua blusinha branca.

Muitíssimo bem acompanhada de seu Amor Maurílio.

Veja que ele, ao contrário, tem os músculos bastante definidos.

Mas isso não impede que ele goste e deseje sua esposa do jeito que ela é.

Os opostos se atraem, quem sabe.

Sinal dos tempos . . .

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Mensagem levantada pra rede do Centro da Cidade de Buenos Aires, Argentina.

“Deus proverá”