Joanesburgo, a “Metrópole Global Africana”

gauteng: o menor estado (província) da áfrica do sul: mas seu centro populacional, econômico e político

Panorâmica do Centro de Joanesburgo. Como as cidades da África do Sul seguem o padrão urbanístico ianque, há poucos prédios altos, quase todos comerciais. Exceto quando indicado, as fotos mostram sempre Joanesburgo. Quando for de outra cidade eu aviso explicitamente, estamos combinados.

Por Maurílio Mendes – O Mensageiro

Publicado em 20 de abril de 2018

Maioria das imagens de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

Seguindo nossa série sobre a África do Sul, vamos falar hoje sobre sua maior cidade, Joanesburgo.

Gauteng é o menor estado da África do Sul. Tem apenas 18 mil km2, menor portanto que Sergipe, o menor estado brasileiro, que conta com 21 mil k2.

Mas Gauteng é o estado mais populoso, rico e desenvolvido. O Centro populacional, econômico e político da nação. 

Infelizmente é preciso dizer: o Centrão está muitíssimo decadente, virou um gueto gigante. Em certas partes há muita sujeira.

A Cidade do Cabo é mais conhecida, mais turística, e definitivamente mais bela.

Mas o coração industrial e comercial do país ainda é Joanesburgo, como dito e é notório a maior cidade sul-africana – pros íntimos chamada ‘Joburgo’. Ela também é a capital estadual de Gauteng.

Pretória, a capital executiva do país, é praticamente um subúrbio de Joanesburgo. E, não nos esqueçamos, pela colonização inglesa as cidades sul-africanas são muito parecidas com as dos EUA.

Não há brancos no Centro de Joanesburgo. Não há, zero, nenhum mesmo. Veja o povo no Centro da cidade. No Cabo e Pretória é diferente, ali os Centros são integrados. Mas os de Joburgo e Durbã são auto-segregados, os brancos simplesmente não pisam ali.

Assim, quando eu falo na série africana ‘subúrbio’ não é periferia, como no Brasil.

Mas ao contrário, é no mesmo sentido estadunidense, reduto da elite e classe média-alta.

A população sul-africana é 55 milhões de pessoas. Dessas, cerca de 8 milhões vivem na Grande Joanesburgo.

Outras estatísticas já colocam acima de 10 esse número. Se você incluir Pretória, são 13 milhões. Bem, 13 milhões é exatamente a população do estado de Gauteng.

O ‘Novo Centro’ de Joanesburgo é o subúrbio (no sentido ianque do termo) de Sandton, na Zona Norte. Ali estão a sede das corporações, a bolsa de valores. É o metro quadrado comercial mais caro de toda África.

Afinal você pode ampliar a escala dessa forma e considerar como Grande Joanesburgo todas as cidades num raio de 70 km do Centro desta.

Aí realmente todos os municípios do estado passam a ser parte da região metropolitana da capital, por ele ser pequeno em área.  Já voltamos a falar da divisão política sul-africana.

Agora, apenas pra pôr no contexto, o sítio ‘City Population’ (em inglês e alemão), especializado em estatísticas do mundo todo, coloca a população de ‘Joburgo’ exatamente nessa cifra de 13 milhões.

De ser assim, Joanesburgo é a 26ª maior cidade do mundo, empatada com o Rio de Janeiro.

Praça da Igreja, Centro de Pretória, epi-centro político da nação, o equivalente sul-africano da Praça dos 3 Poderes no Brasil, do Zócalo mexicano e da Praça de Maio argentina. Na época da antiga República do TransVaal (país independente estabelecido pelos descendentes de holandeses no século 19, engolido pela Inglaterra quando esta venceu a 2ª Guerra dos Bôeres) o palácio presidencial era nessa praça.

E a 3ª metrópole do continente africano, atrás de Cairo (Egito) e Lagos (Nigéria), ambas com 18 milhões cada.

Mas Joanesburgo certamente é muito mais rica e desenvolvida que ambas.

O Cairo é uma das cidades do mundo que mais recebem turistas, por conta das Pirâmides.

E Lagos concentra sua economia na exploração de recursos minerais, como petróleo e diamantes.

Mas a parte desses dois respectivos carros-chefes, a economia do Cairo e Lagos é ainda bastante sub-desenvolvida, as condições sociais idem.

Joanesburgo é bem mais rica, industrializada, de economia diversificada, e tem uma burguesia média e alta infinitamente maior, sem comparação possível.

Daí o apelido da cidade, a “Metrópole Global Africana”.

Agora o Palácio Presidencial é umas quadras pra cima, já saindo da Zona Central. Bem em frente há um leão estilizado, que faz as vezes de um banco. No destaque um outro mais realista, bem no Centrão (fotografei um parecido no Pq. Barigüi, em Ctba.).

Querendo dizer que a cidade está no mesmo nível de Nova Iorque-EUA, Moscou-Rússia, Londres-Inglaterra, Paris-França, Pequim e Xangai (ambas na China) e Tóquio-Japão.

Obviamente não chega a tanto. Mas ainda assim é o principal centro financeiro e industrial da África.

Digamos que Joanesburgo têm uma importância similar a São Paulo, Rio, Cidade do México, Buenos Aires (Argentina), Seul (Coreia do Sul), Teerã (Irã), Mumbai (a ex-Bombaim, Índia), Jacarta (Indonésia), Cingapura, Bancoque (Tailândia), entre outras.

Ou seja, a nível global mesmo Joanesburgo está num segundo patamar, ao lado das capitais financeiras de outros países que são influentes em termos regionais sim mas planetários não é pra tanto.

Voltamos a ver Joanesburgo. Nas próximas 7, o Centrão da cidade, com o que ele tem de peculiar e de barra pesada. Aqui: vendedor de perucas no mercadão. Muitas africanas têm dificuldade em cuidar dos cabelos, porque eles são muito crespos. Várias radicalizam, raspam a cabeça e passa a usar peruca. Bem, esse é um camelô, em plena via pública, e veja quantas opções de modelos. Por aí você avalia o tamanho da demanda.

Entretanto não se pode negar que Joburgo é uma metrópole importante sim, a mais importante de toda África.

Não quer dizer que não hajam problemas. Ao contrário, eles são muitos, já falaremos deles.

Ainda assim, o subúrbio de Santon, na Zona Norte da Grande Joanesburgo, tem o metro quadrado mais caro da África. Os prédios comerciais mais valorizados do continente estão ali.

Tanto dinheiro e tanta riqueza concentrados num espaço pequeno. Sandton é rico porque Joanesburgo e região são muito ricos. São, repito, apenas 18 mil km2 no estado de Gauteng.

A África do Sul tem mais 8 estados. O maior deles disparado é o Cabo Setentrional, com 372 mil km2. Todas as outras sete unidades da federação oscilam entre 75 e 168 km2.

..

Cabeleireiros trabalham em plena via pública no Centrão! Sim, é o que você está vendo: o ‘salão’ se resuma a duas cadeiras na calçada, não há sequer uma tenda pra cobrir. Os africanos em geral, e as africanas ainda muito mais, cuidam muito de seus cabelos. Os Homens a maioria usa bem curto ou mesmo raspado, mas as Mulheres fazem tranças, apliques, chapinhas….No Centrão e nas periferias cabeleireiro (geralmente por conta própria) é a profissão mais comum da África do Sul, disparado.

Na África do Sul os estados se chamam ‘províncias‘ (como na Argentina, que visitei um mês antes).

Na época do finado e nada saudoso ‘apartheid’, a divisão política era diferente. Pra começar a conversa haviam os ‘bantustões’.

Tratava-se de guetos rurais que o regime racista dizia serem ‘países independentes’. Nenhuma outra nação do mundo inteiro ratificou esse circo, por razões que a extrema opressão racial estava por demais evidente.

Mas os dirigentes racistas insistiam. Um dia eles pretenderam confinar toda população negra nos bantustões, quisessem os negros ou não.

Mesmo quando viu que não era viável deportar a força dezenas de milhões de pessoas, a farsa das ‘nações soberanas’ que seriam os bantustões permaneceu:

A África do Sul na época chegou até a trocar ‘embaixadas’ com alguns bantustões.

Não é só cortar (e trançar, e alisar….) o cabelo que você pode fazer nas calçadas. O Centrão Velho de Joanesburgo é um camelódromo gigante.

Contra todas as evidências, o regime branco racista do ‘apartheid’ mantinha a ficção que os bantustões eram ‘países’ independentes.

E que portanto todos os negros deveriam exercer seus direitos políticos neles.

Os negros que “optassem por permanecer” na África do Sul seriam então tratados como “estrangeiros”, como ‘trabalhadores convidados’ em solo sul-africano.

Pode isso, um povo que já está numa terra a milênios ser declarado ‘estrangeiro’ em sua própria nação? Pois foi o que o regime do ‘apartheid’ fez.

E, acrescentemos, as semelhanças com o que Israel faz agora são evidentes. Essa situação não pode perdurar pra sempre.

Na África do Sul no final dos anos 70 e por todo os anos 80 explodiram revoltas e protestos contra o ‘apartheid’, feitos por negros e brancos, dentro do país e a nível global.

Prédio abandonado. Joanesburgo é a única cidade da África do Sul que tem grafite e pichação em larga escala. Ainda assim, muito, mas muito menos que na América (Brasil, EUA, México, Colômbia, República Dominicana, Chile). Em Joanesburgo, se nosso continente for a base de comparação, há bem pouca ‘arte’ nos muros. Mas existe. No Cabo, Durbã e Pretória é praticamente inexistente.

O regime a princípio partiu pra linha-dura, mas não teve jeito, teve que ceder.

Mandela foi solto em 1990, e 4 anos depois se tornou o primeiro presidente negro sul-africano.

De lá pra cá todos os seus sucessores são também negros, e nada mais natural, se os negros e mulatos formam 90% da população.

Já contei essa história com mais detalhes na abertura da série.

Aqui fiz uma breve recapitulação pra voltarmos a falar das atuais províncias (estados) sul-africanas.

Haviam os bantustões, onde o ‘apartheid’ pretendeu um dia confinar todos os negros. Depois da queda do regime racista eles foram incorporados ao território sul-africano.

Rea Vaya (“estamos em movimento”, na gíria local), moderna rede de ônibus expressos – canaletas [corredores] exclusivas, articulados, embarque em nível pré-pago em futuristas estações elevadas. Funciona bem, onde existe. Fomos do Centro a Soweto, na Zona Oeste, nesses ônibus (esse aqui um Marcopolo brasileiro). O problema é que são pouquíssimas linhas, grosseiramente insuficiente pruma metrópole de quase 10 milhões e que não tem metrô, só trem. Estão corrigindo isso, outros corredores estão sendo construídos em várias avenidas da cidade.

Falando agora das províncias em que os apenas os brancos eram cidadãos (os negros e indianos que habitavam nelas não tinham direitos políticos), elas eram apenas 4 no regime racista:

Cabo (que ocupava 55% da área da nação, toda sua porção ocidental), Natal, Estado Livre Laranja (os africâneres são holandeses, e essa é a cor da família real da Holanda, vide o uniforme da seleção) e TransVaal.

Com a chegada da democracia, o Estado Livre Laranja e Natal quase não sofreram alteração nos territórios, apenas mudaram de nome:

Agora é só ‘Estado Livre’, o ‘Laranja’ se foi; e Natal, com a incorporação do bantustão de KwaZulu teve o nome fundido pra KwaZulu-Natal.

Mas as províncias do Cabo e TransVaal foram retalhadas. No Cabo surgiram 3, o nome se manteve, apenas acrescentou-se a posição geográfica: Cabo Setentrional, Cabo Oriental, Cabo Ocidental.

Pela rede de transportes ser ineficiente, quem move o povão mesmo são as vans, quase todas elas brancas – mas os motoristas/ proprietários são os negros. Alias eles tiveram que fazer uma guerra pra poderem entrar no Centro e nos bairros ricos, onde estão os empregos. Um conflito sangrento mesmo, morreu muita gente, entrou pra história da África do Sul como “As Guerras do Transporte”. Bem, os africanos nativos venceram, e o dinheiro do deslocamento diário da massa trabalhadora agora fica dentro da comunidade. Veja um mar alvo de vans no Centrão de Joburgo, levando os proletários de volta pras suas distantes periferias no fim-de-tarde.

Na antiga província de TransVaal (tinha esse nome pois fica após o Rio Vaal, pra quem vem do litoral) tudo mudou, agora são 4 estados onde antes era um. Gauteng ficou com as maiores cidades, a parte mais rica e populosa, quase não tem área rural.

Ao redor dela se desmembraram os estados do Noroeste, Limpopo e Mpumalanga. Essas últimas 3 províncias (oriundas da Província do TransVaal, repetindo) e mais o Cabo Setentrional (vindo da Província do Cabo) não têm cidades grandes.

As quatro maiores cidades sul-africanas, as que têm mais de 1 milhão cada, são Joanesburgo, Cidade do Cabo (Cabo Ocidental), Durbã  (Kwa-Zulu-Natal) e Pretória, visitei todas elas.

Depois vem, pela ordem (não tive a oportunidade de ver pessoalmente nenhuma): Porto Elizabete (876 mil), Pietermaritzburg (475 mil, KwaZulu-Natal), Blomfontein (464 mil, Estado Livre, a capital judicial da nação) e Londres Leste (295 mil, ela e Porto Elizabete são no Cabo Oriental, e ambas no Oceano Índico).

Joanesburgo e Pretória ficam em Gauteng, e por alguns parâmetros são consideradas parte de uma mesma cidade. Faz sentido. São muito perto. Apenas 65 km as separam. 1 hora e 15 minutos dirigindo (já detalho mais esses pontos). Pretória é ao norte de Joanesburgo.

“Joburgo”, apelido oficial de Joanesburgo. E a BMW é uma paixão sul-africana, mesmo na periferia.

E a parte rica de Joburgo é a Zona Norte e a Zona Leste, claro há alguns bolsões de miséria (inclusive fui num dos mais famosos, chamado Alexandra) porque é 3° mundo. Mas no geral o padrão na Z/N e Z/L é alto.

Nas Zonas Oeste e Sul está a periferia. Não por acaso a periferia mais emblemática da cidade – e de todo continente africano, uma das mais do planeta – se chama ‘Soweto’, que são as iniciais em inglês de ‘Assentamento Sudoeste’.

Mas da perifa falamos depois. Aqui o foco é a parte verde da metrópole, onde moram os burgueses, até o fim do ‘apartheid’ só brancos, hoje ao lado deles há uma emergente burguesia negra.

Museu do ‘Apartheid’ (tomada de autoria de meus familiares): nos tristes tempos do regime racista, esse era o ‘caveirão’. Como notam, um verdadeiro tanque de guerra, que quando haviam revoltas adentrava nos bairros negros passando por cima de tudo e de todos.

A urbanização é no modelo estadunidense, ou seja a classe média quase não mora em prédios, só em casas, naquelas ruas sem saída arborizadas que você vê tanto nos filmes dos EUA.

Portanto a cidade vai se espalhando, ocupando uma área enorme.

Assim, os subúrbios mais boreais de Joanesburgo emendam nos subúrbios mais austrais de Pretória.

Há vários casos em que dentro da mesma casa o marido trabalha em Joburgo, a esposa em Pretória ou vice-versa.

Por isso se você quiser adotar uma classificação mais ampla dá pra dizer que Pretória é um subúrbio da Grande Joanesburgo.

Joanesburgo é fogo, mano! Não é modo de falar. A luta contra o ‘apartheid’ se centrou ali. Mas se os negros por vezes se uniram pra derrubar o inimigo, em outras oportunidades brigaram violentamente entre si. Aqui, um militante negro é queimado vivo por outro, de partido rival – lá as alianças são geralmente étnicas, zulus de um lado, xhozas de outro, e quando eles se desentendem você está vendo o resultado. Muito sangue correu pro ‘apartheid’ cair, e repito, diversas vezes negros matando negros. Bem, o ‘micro-ondas‘ (não o da sua cozinha, mas sim o ato brutal de incendiar um inimigo vivo entre pneus), depois tão popularizado pelos conflitos entre traficantes do Rio, foi inventado na África do Sul. Triste, mito triste (foto extraída do livro “O Clube do Bangue-Bangue”).

Como é no estilo ianque de vida, as pessoas são acostumadíssimas a dirigir 20, 30 ou 40 quilômetros pra chegar a seu trampo, e a mesma distância na volta.

Alias se você quiser dispensar o carro desde 2010 é possível.

Por conta da Copa do Mundo de futebol que foi lá – a 1ª por enquanto única da África – Pretória e Joanesburgo agora são ligadas pelo moderníssimo Gautrem.

Já fiz matéria específica sobre o transporte coletivo na África do Sul, em que os dois grandes destaques são o Gautrem e a rede integrada de ônibus da Cidade do Cabo.

descrevi tudo em detalhes, com dezenas de fotos. Aqui, resumindo, a parte rica da Grande Joanesburgo são as Zonas Leste e Norte.

Oras, na Z/L está o Aeroporto Internacional Tambo, principal porta de entrada de todo Sul da África incluindo países vizinhos.

E a norte está Pretória, que é a capital executiva do país – a África do Sul tem 3 capitais:

O Congresso fica na Cidade do Cabo e o Supremo Tribunal na pequena cidade de Bloemfontein, no interior (no Estado Livre, como já dito).

Colagem mostra o Centro de Joanesburgo. Em sentido horário: mercado ao ar-livre, ressaltei a bandeira de Gana; Prédio com o endereço bi-língue em inglês e africâner, herança do ‘apartheid’; muitas vezes há muita sujeira nas ruas, é tanto lixo que essa escadaria (que dava acesso a uma estação de trem) foi desativada. E isso em pleno Centro da cidade! Vi essa mesma cena na Grande Buenos Aires (uma escada na estação de trem interditada, porque virou depósito de lixo clandestino e abrigo de sem-tetos), mas pelo menos na Argentina eu estava bem na periferia, perto de Cidadela, na Zona Oeste, uma das partes mas barra-pesadas da cidade. Aqui em Joanesburgo é em no coração do Centro!, pode isso? E no destaque uma muçulmana de véu e tudo, cena muito comum lá.

Portanto o Gautrem tem um trajeto limitado, sim. Deveria ser bem maior.

Mas estrategicamente localizado, interliga o Centro de Joanesburgo, o aeroporto, os subúrbios da Z/N (dos quais o principal é Sandton, já descrevo melhor) e alguns da Z/L , Pretória.

Tudo unido por esse trem, que, olhe, tem padrão de primeiríssimo mundo.

Gostaria que as principais cidades brasileiras tivessem seus aeroportos conectados ao Centro dessa forma.

O Gautrem não deve nada ao que opera na China, Japão e Alemanha. É de cair o queixo. E não serve só pra quem vai viajar.

Ele conecta toda porção boreal e parte da oriental da Grande Joanesburgo, Pretória incluída, como acabo de dizer e é notório.

Assim dezenas de milhares de pessoas de classe-média, que têm carrões caros, passaram a deixar eles em casa durante a semana, e vão trabalhar de transporte coletivo.

Até porque o Gautrem tem um sistema de ônibus alimentadores integrados, se você pegar ônibus + trem tem um bom desconto, a passagem não pesa no bolso.

Mesmo pra quem mora mais longe e não tem alimentador, o Gautrem oferece integração trem + carro.

Revista inglesa de negócios publica sua radiografia anual sobre a economia e política na África. O presidente da China ocupa o dobro de espaço que seu colega dos EUA. Não é preciso argumentar além disso pra entender que rumo o planeta está tomando no século 21.

Todas as estações do subúrbio têm edifícios-garagem anexos, você pode contratar o serviço por mês que sai bem mais em conta.

Vai de carro até ali, de trem até o Centro de Pretória Joanesburgo, ou mais comumente até Sandton.

Na volta o trajeto inverso, volta guiando pra casa. Em vez de dirigir 50 km por dia dirige 10, e sai muito mais barato. Intensamente usado.

……….

Ainda assim, claro que a imensa maioria das pessoas ainda opta pelo transporte individual que queima mais carbono, garantindo a destruição do meio-ambiente.  

Estamos falando do ser humano, afinal. Por isso um trajeto de 65 quilômetros leva uma hora e quinze, porque o trânsito é muito intenso.

E lá eles medem as distâncias em quilômetros mesmo, e não em milhas. É curioso isso, sabe?

A África do Sul é colonização inglesa. Você dirige pela esquerda, obviamente a chamada ‘mão inglesa’.

Eles (os brancos pelo menos) adoram ‘rugby’ e críquete, esportes que só são populares na Inglaterra e suas ex-colônias como Austrália e Nova Zelândia.

Filma o padrão das casas do subúrbio de ‘SaxonWold’, Zona Norte. Tá bom pra ti?

No caso do ‘rugby’ é jogado um pouco na França também, mas é do lado da Inglaterra.  

E tanto negros quanto brancos sul-africanos adoram futebol, como na Inglaterra e inverso dos EUA. 

Não só nos esportes. Como dito nas legendas das fotos, os sul-africanos amam ‘peixe-com-batata’, o prato nacional inglês.

Nos EUA essa receita é quase ignorada, o prato nacional estadunidense é o ‘Big Mac’ (que, justiça seja feita, também é muito apreciado na África e na própria Inglaterra).

Cenas das auto-estrdas urbanas, os prédios da Zona Central ao fundo. Nos destaques uma flor, e grades no viaduto pra não jogarem pedras nos carros da pista inferior visando assaltá-los. A África do Sul é bela mas também é fera! Bem, pra ser justo, aqui na América não é diferente, tanto América Latina (Brasil incluído, claro) quanto já presenciei a mesma cena nos EUA.

Na linguagem é o mesmo. A escrita e a pronúncia do inglês sul-africano é totalmente britânica. Totalmente.

Eles escrevem ‘centre’, por exemplo, como na Grã-Bretanha, enquanto nos EUA é ‘center’.

Isso, dos dois lados do Oceano, pra ‘centro de lazer’, ‘centro de estudos’, ‘centro de compras’.

Já o Centro da cidade é o ‘CBD’ (‘Central Business District’) na Inglaterra, África do Sul e outras ex-colônias britânicas.

Esse termo, essa sigla, não existe nos EUA, ali é ‘DownTown’.

Digamos que numa roda estejam três pessoas conversando, um ianque, um inglês e um sul-africano.

Você vai claramente distinguir o nativo dos EUA, mas entre os outros dois você vai ter dificuldades de diferenciar quem veio daonde. 

Joanesburgo foi uma cidade fundada pela e pra mineração de ouro, no fim do século 19.

Ressaltei tudo isso pra dizer o seguinte:

A África do Sul se parece muito mais com a Inglaterra que os EUA. Muito mais, sem comparação possível.

Mas a África do Sul adota o sistema métrico de medidas, e não o inglês.

As distâncias na África do Sul são calculadas em quilômetros, não em milhas. O peso dos secos e molhados em quilos e litros, não em libras ou onças.

Auto-estrada dentro da cidade, os prédios do Centro ao fundo. Como as cidades sul-africanas são no estilo urbanístico estadunidense, eles são acostumados a dirigir grandes distâncias todos os dias.

Os EUA rejeitaram muito do que veio de sua pátria-fundadora: o lado que os carros andam nas ruas, os esportes, a língua eles mudaram o quanto puderam. Mas o sistema de libras e milhas eles mantiveram.

Na África do Sul é o inverso. Mantiveram intacta boa parte da herança colonial nas outras dimensões, mas adotaram o sistema métrico.

Digo, mais ou menos. Eles medem em quilômetros? Sim. Mas eles pensam em quilômetros? Não.

E como eles pensam? Como eles medem a distância de uma cidade a outra? Em minutos.

Próximas 4: os subúrbios da Zona Norte, a parte rica e arborizada de Joanesburgo. A estrada que vimos acima a esquerda liga o Centro a eles.

Eles não dizem: “Pretória fica a 65 quilômetros de Joanesburgo”.

Nada disso. Eles falam “Pretória fica a uma hora e quinze de Joanesburgo”. Eles medem a distância não pela dimensão espacial, mas pela temporal.

Pelo tempo que a pessoa passa com a bunda no carro pra chegar de uma cidade a outra.

Nisso são iguais aos ianques (nunca fui a Europa, então não sei como é na Inglaterra).

Fomos de mini-van do hotel no Centro de Joanesburgo ao Aeroporto Tambo.

Perguntei a distância ao motorista, que era negro. Ele disse: “40 minutos”.

Perguntei: “em quilômetros?”. Ele respondeu: “não sei, aqui nós só sabemos calcular em tempo de viagem”.

O padrão das casas é esse, mansões que ocupam quadra inteira, ou quase.

………..

MAMAS & PAPAS”: NA ÁFRICA DO SUL TODOS DE CABELO BRANCO SÃO ‘MAMÃES’ E ‘PAPAIS’

Alias houve um choque cultural nesse mesmo trajeto que descrevo.

Viajávamos eu, minha mãe e uma amiga dela, que não tem filhos.

Há muitos plátanos – a árvore típica do Canadá e de Campos do Jordão-SP. No outono (quando estive lá) formam-se vários tapetes de folhas.

Os negros, como se sabe, são uma raça de sangue-quente, abertos, calorosos, totalmente o oposto da frieza nórdica que caracteriza os caucasianos.

Os negros adoram conversar, pegam amizade rápido. Íamos na mini-van. O motorista chamava as duas Mulheres de ‘mamas’.

Quando eu informei a ele que uma delas não era mãe (não apenas não era minha mãe; ela não teve filhos nessa encarnação) ele foi enfático pedindo pra eu não corrigi-lo.

Explicou: “aqui na África todas as Mulheres mais velhas são Mamas. E todos os Homens mais velhos são Papas. É uma forma de respeito”. Entendi. É o equivalente do ‘dona’ e ‘seo’ do português, como em ‘Dona Maria’ e ‘Sêo Jorge’.

20 de abril de 2017: desenho feito e levantado pra rede lá de Joanesburgo. Exatamente 1 ano depois essa atual postagem sobe ao ar.

Depois dessa explicação, o desenho que fiz e levantei pro ar lá do Centro de Joanesburgo se tornou ainda mais válido (dir.). E eles se chama, como seria diferente?, exatamente “Mama-África”!

Tá certo. Vivendo e Aprendendo…

………..

DA ‘CIDADE DE JOÃO’ A ‘CIDADE DE JÓ’.

Joanesburgo quer dizer ‘Cidade de João’ (abaixo falo mais disso), algo como ‘Joanópolis’. Mas como seu apelido é ‘Joburgo’, acabou se tornando a ‘Cidade de Jó’ (ou de ‘Jô’).

Seja como for, ela foi fundada numa ‘corrida ao ouro’. No fim do século 19, na mesma época do ‘Velho-Oeste’ Estadunidense, e exatamente da mesma maneira. Se você viu filmes de faroeste, sabe como foi.

Como já escrevi com mais detalhes, a colonização branca da África do Sul começou pelo litoral.

Em 1679 os holandeses erguem o Forte da Boa Esperança na Cidade do Cabo (1ª construção europeia em toda África), pensando assim garantir a posse da Colônia do Cabo da Boa Esperança.

O moderníssimo Gautrem liga Joanesburgo a Pretória. Aqui estamos quase chegando exatamente a Pretória, fomos de Uber pela rodovia e voltamos nesse trem.

E por um século funciona. Mas no fim do século 18 a Inglaterra chega com grande esquadra, e exige a capitulação do Cabo.

Os holandeses resistem bravamente, mas a marinha inglesa não era conhecida como ‘Soberana dos 7 Mares’ a toa.

Após sangrentos combates navais, o Cabo cai sob jugo da Coroa Britânica.

Parte dos holandeses ruma ao interior. Estabelecem duas repúblicas independentes em 1852 e 1854:

Respectivamente a República Sul-Africana (não confundir com o país atual, que é a República da África do Sul) e o Estado Livre Laranja.

Já que falamos no passado, na história, essa era a bandeira da África do Sul na era do ‘apartheid’ (r). Trazia dentro dela a bandeira do Reino Unido, e das duas repúblicas independentes fundadas pelo africâneres (holandeses) que o próprio Reino Unido derrotou na Guerra do Bôeres, e incorporou a força a seu império: a República do TransVaal e o Estado Livre Laranja.

O Estado Livre fica antes do Rio Vaal, e a República Sul-Africana depois, por isso comumente referida como ‘República do TransVaal’.

Em 1855 Pretória é fundada, pra ser a capital da ‘República do TransVaal’. O nome da cidade ao contrário do que alguns poderiam pensar nada tem a ver com a palavra ‘preto’.

Pretória não é ‘Cidade dos Negros’, exatamente ao contrário, por um século e meio Pretória foi ‘a Cidade dos Brancos’, representou a opressão contra a raça negra que a fez escrava em seu próprio país.

Digo, agora na democracia desde 94 todos os ocupantes da sala principal no Palácio Presidencial são negros, mas por muito tempo os africanos nativos só entravam no Palácio pra fazer a limpeza e servir água e cafezinho.

Pretória é uma homenagem ao holandês André Pretório (eu aportugueso todos os nomes, lembre-se), que derrotou os zulus na famosa ‘Batalha do Rio Sangrento’, e estabeleceu o domínio europeu nesse pedaço da África.

Bandeira atual da África do Sul democrática, pós-‘apartheid’, na Cidade do Cabo, com a Mesa-Montanha ao fundo  (r): mantiveram as faixas azul e vermelha (quase alaranjada) da herança europeia, e introduziram um ‘y’ horizontal nas cores preta, amarela e verde, que combinadas com o vermelho representam a raça negra.

O filho de André, Martino Pretório, foi o 1º presidente da ‘República do TransVaal’. Ele comprou algumas fazendas, e em 1855 construiu e inaugurou Pretória como capital.

Em 1880 a Inglaterra exige a anexação das duas repúblicas holandesas no sul da África.

Com a negação delas, vem a primeira ‘Guerra dos Bôeres’, que a Inglaterra perde.

A República do TransVaal e o Estado Livre Laranja permanecem independentes.

Em 1886 Joanesburgo é fundada, por conta da mineração de ouro como já dito.

Em 1899 a Inglaterra retorna com força total, e decide praticar ‘terra-arrasada’ pra forçar os africâneres (holandeses) a se renderem.

Voltamos pra Joanesburgo. ‘Casas’ de zinco em Soweto, Zona Oeste. As favelas sul-africanas são chamadas de ‘Cidades de Lata’, pois os barracos são de metal (no Chile também é comum).

Aí, como dito acima, que a Coroa Britânica inventa o campo de concentração, trancafiando ali dezenas de milhares de Mulheres e crianças.

A batalha foi sangrenta mas os boêres perderam. As Repúblicas do TransVaal e do Estado Livre Laranja viram colônias do Império Britânico, ‘onde jamais o sol se punha’.

Quando foi formada a moderna África do Sul (ainda dependente do Império Britânico), em 1910, a antiga República do Transvaal virou o estado (província) do TransVaal, o Estado Livre Laranja manteve o nome mas também virou uma província da República da África do Sul.

Do outro lado da metrópole a situação é bem mais amena, digamos assim. Vemos os subúrbios dos milionários na Zona Norte de Joanesburgo. Só mansões, muitas ruas sequer têm calçadas pois ninguém passa a pé ali.

E, relembrando, a África do Sul foi colônia da Inglaterra até 1931. Assim ainda por mais 2 décadas manteve-se a Rainha inglesa Elizabete como chefe de estado.

(Nota: essa situação permanece no Canadá, Austrália e Nova Zelândia – essas 2 nações insulares da Oceania até hoje têm a bandeira do Reino Unido dentro de suas respectivas bandeiras, e a causa é essa.

Esses 3 países são independentes na prática sim, mas no papel ainda pertencem ao Reino Unido.)

Então. Quando se tornou independente em 1931, a África do Sul igualmente estava atrelada ao Reino Unido.

As únicas pessoas que você nas ruas são os empregados das mansões. Essas duas moças simpáticas trabalham na casa em frente, estão no seu horário de lanche (veja a Coca-Cola aberta) e foram tomar um ar. Quando viram que eu tirava fotos pediram pra eu clicar elas também. Está aqui, atendido o pedido. Os negros sul-africanos são muito quentes e calorosos, adoram interagir com estranhos. Em Durbã e Pretória também aconteceu de pessoas pedirem pra serem fotografadas ao me verem de câmera na mão.

Em 1960 organizou-se um plebiscito onde se perguntava se queriam a decretação da república (só os brancos puderam votar, era o ápice do ‘apartheid’).

Em todas as províncias exceto em Natal o ‘sim’ ganhou. Veja os resultados:

Estado Livre Laranja: sim, 76% (ali a presença holandesa era a mais forte como até o nome indica, a inglesa mais fraca, até hoje a proporção se mantém);

TransVaal: sim, 55% (grande presença inglesa, ainda assim maioria africâner [holandesa]);

Cabo da Boa Esperança: sim, 50,2% (praticamente empatado, refletindo o equilíbrio entre africâneres e ingleses);

Natal: não, 73% (o Natal é o reduto dos ingleses, ali há poucos africâneres, historicamente e hoje menos ainda.

A língua africâner é inexistente na comunicação oficial de Durbã [no governo e mídia], falada privadamente por algumas famílias, mas em público não);

África do Sudoeste: sim, 62%.

Nota sobre o último tópico: a não ser que tenha estudado história da África, você não conhece essa província (estado) da África do Sul. Natural. Hoje a antiga “África do Sudoeste” é a nação independente da Namíbia.

Linha de prédios do Centro (tirei de um quadro que há num hotel, nesse caso vazio).

Era colônia alemã. Em 1915, no embalo da 1ª Guerra Mundial (que a Alemanha perdeu) a Inglaterra incorpora o território a África do Sul, que também era colônia sua como vimos acima.

Quando a África do Sul ficou independente de fato em 1931 – e depois de direito em 1961, após o plebiscito delineado acima – manteve a África do Sudoeste como colônia.

Antes ambas pertencentes ao Reino Unido. Quando a África do Sul se separa a ‘África de Sudoeste’ vai junto no pacote. Tirando a opressão aos negros nativos, entre os brancos a adaptação é suave. Afinal, etnicamente –  e até linguisticamente – holandeses e alemães têm grandes semelhanças.

Bairro da Riviera, essa não é da do Cabo, e sim da Zona Norte de Joanesburgo. Detaquei o sufixo da internet: ‘co.za’.

O africâner é um dialeto do holandês. E a língua holandesa pro sua vez derivou da alemã num passado já remoto.

Mas ainda são bem parecidas (como os idiomas português e o italiano são parecidos).

Por exemplo, ‘cidade’ em alemão é ‘stadt’. Em holandês e africâner, ‘stad’.

Assim, ficou fácil pros africâneres colonizarem a vizinha África do Sudoeste também, depois que os alemães já haviam se imposto ali.

‘Peixe-com-Batatas-Fritas’ no Centro de Pretória. O prato nacional da Inglaterra é extremamente apreciado na África do Sul também. Bem, a Inglaterra é uma ilha pequena, nada dista mais que algumas dezenas de quilômetros do mar. Já Gauteng é bem distante do litoral. Mas o gosto trazido pelos colonizadores pegou ali também.

A ‘África do Sudoeste’ se separou da África do Sul apenas em 1990.

Adotando o nome de Namíbia pra começar sua vida como nação a parte,

Quando já sopravam fortemente os ventos que derrubariam o ‘apartheid’ (esse foi o ano em que Mandela foi solto, por exemplo) 

Digo, relativa independência. Pois a moeda da Namíbia é o Rand sul-africano.

A mesma da África do Sul? Exatamente, o Rand é emitido e controlado pelo Banco Central da África do Sul (passei na frente dele em Pretória, e fotografei-o, imagem logo abaixo).

Oras, não é difícil entender que uma nação que tem sua moeda emitida e controlada por outra ainda não deixou de ser colônia onde mais importa, que é a economia.

Ainda no Centrão de Pretória, aquele arranha-céu é a sede do Banco Central sul-africano. Em primeiro plano duas vans, no resto do país as da marca Toyota são quase oni-presentes. Em Gauteng (Joanesburgo e Pretória) há muitas VolksWagen também. Vemos uma de cada marca nessa imagem, a rubra é VW.

Além disso, entre as línguas oficiais dessa jovem pátria ainda estão o alemão e o africâner, além do inglês e 6 idiomas nativos africanos.

Seja como for, no papel a Namíbia é soberana desde 1990.

Mas em 1961 ela era oficialmente parte da África do Sul, e votou a favor da separação total da Inglaterra.

………

Já que falamos em línguas. Os domínios de internet na África do Sul geralmente tem o sufixo ‘co.za’. No Brasil é ‘com.br’.

Você sabe o porque do ‘co’, sem o ‘m’, e do ‘z’? Trata-se mais uma vez de influência dos dois grupos de europeus majoritários no país.

Já que voltamos ao transporte coletivo, em Joanesburgo e Pretória nas vans não há indicação de qual linha cumprem, nem verbal nem escrita. É o passageiro quem sinaliza pra onde quer ir, fazendo sinal com as mãos como linguagem surdo-muda. Se a van for por bairro que ele quer, o motorista encosta. Senão passa direto.

Nos EUA, e por consequência na maior parte do mundo, o domínio comercial é denominado ‘com’. Porém no Reino Unido se usa ‘co’.

E as vezes invertida a ordem, ‘uk.co’. A África do Sul aderiu também ao ‘co’, excluindo o ‘m’.

E o ‘z’ vem do holandês. ‘Sul’ em holandês – e por consequência também em africâner – é ‘zuid’. ‘

Zuid-Korea’ é a Coreia do Sul. ‘Zuid-Afrika’, portanto, a África do Sul.

Tudo somado: “tal empresa.co.za”.

De volta a Joanesburgo, vamos ver 3 estádios, Esse é onde foi disputada a Copa do Mundo de 2010, na divisa das Zonas Central, Oeste e Sul, entre o Centro e Soweto.

……….

Como prometido, explicando sobre os nomes das cidades. De Pretória já escrevemos acima.

Joanesburgo é obviamente ‘a Cidade de João’, que se escreve ‘Johannes’ (e se pronuncia algo como ‘iórrãnes’) em holandês e africâner, que é como todos sabem um dialeto do idioma holandês.

Mas qual João a cidade foi batizada em homenagem?

Não se sabe. Logo que Joanesburgo foi fundada a região passou por duas guerras entre ingleses e africâneres pelo domínio da região, as chamadas ‘Guerras dos Bôeres’.

Esse é em Soweto, Zona Oeste. Os negros da África do Sul amam futebol, e detestam ‘rugby’. Os dois times mais populares de futebol do país são de Soweto, os Piratas de Orlando e o ‘Kaiser Chiefs’ – foi neles que a banda inglesa se inspirou pra criar seu nome, ela quem copiou o time africano, e não o contrário. Durante a Copa, esse Estádio de Orlando (nome do bairro) foi usado como CT de algumas seleções.

Alias foi nessa oportunidade que a Inglaterra inventou o campo de concentração.

Já falamos com mais detalhes da violenta história sul-africana em outra postagem.

Pro nosso tema de hoje, houveram muitas confusões no período – guerras sempre envolvem pilhagens, tumultos generalizados e incêndios, você sabe como é.

Alguns feitos pelas tropas inimigas, outros pela população que tem fome, e outros ainda por quadrilhas de criminosos.

Assim, no meio desse caos, os arquivos oficiais que registraram a fundação da cidade se perderam. João, óbvio. Mas qual João? Ninguém sabe.

Também na Z/Central mas do lado oposto, na divisa com as Zonas Norte e Leste, está o Parque Ellis, geralmente de rugby, mas recebe partidas de futebol, também hospedou jogos da Copa de 2010.

Segundo a Wikipédia, há assim 5 Homens chamados ‘João’ que podem ter sido os homenageados: 

Christiaan Johannes Joubert, secretário do governador-geral Hendrik Dercksen, responsável pela mineração.

Não custa lembrar que a extração de minérios era não apenas a principal atividade econômica.

Mas nas primeiras décadas a própria razão da cidade existir;

Catador de papel no bairro ‘Wynberg’, Z/N.

Stephanus Johannes Paulus Kruger (mais conhecido como Paulo Kuger), presidente da República Sul-Africana entre 1883 – 1900.

Nota: mais uma vez, não confundir com a atual República da África do Sul.

Kruger foi presidente do que era um país independente, mas que depois foi incorporado pela Inglaterra se tornou a ex-província (estado) do Transvaal na era do ‘apartheid’.

Próximas 7: Sandton , o ‘Centro Novo’ de Joanesburgo, um subúrbio da Z/Norte. Pra ali foram as sedes das corporações depois que o Centrão ficou inviável.

E a província do TransVaal por sua vez foi desmembrada nos atuais estados de Gauteng, Noroeste, Limpopo e Mpumalanga.

Desculpe ter que ficar enfatizando esses fatos repetidamente. Mas como há essa confusão de nomes, acaba sendo necessário.

Johannes Meyer, um dos primeiros colonizadores, que teve papel destacado no governo, é outra possibilidade; ainda são lembrados:

Johannes Rissik;

– e Johannes Joubert.

Vemos um busão (fabricado pela Caio aqui no Brasil) alimentador do Gautrem. Essa rede de transporte coletivo a burguesia usa, pois é barato, limpo, seguro, rápido e eficiente. Pena que sejam poucas linhas. A frente mais duas vans, essas são as preferidas do povão.

Esses dois últimos fizeram parte de uma comissão que foi a Inglaterra pra negociar a regularização da concessão de companhias mineradoras.

………..

Já que falamos acima mais um pouco da questão automobilística: o VolksWagen Golf é o carro mais vendido da história da África do Sul, com 577 mil unidades.

Considerando que a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a mais ou menos 2,3 milhões de vendagem no Brasil.

Nota importante: hoje a indústria automobilística partiu pra uma estratégia desonesta, a de não aposentar mais os nomes dos modelos.

O desenho muda demais, ou seja, não é o mesmo carro. Mas tem o mesmo nome de mercado, praquele termo aparecer na estatística como um dos mais vendidos da história.

Visualizando é mais fácil entender. Pense no modelo do que chamam “Gol” atual no Brasil. Agora se lembre de como era o Gol nos anos 80. 

Essa simples comparação visual basta pra ficar claro que não é o mesmo modelo. O desenho da carroceria se alterou profundamente. E o que caracteriza um modelo senão seu desenho?

O “Gol” atual não é o mesmo modelo do Gol pioneiro, é simples assim.

O bairro comercial mais rico da África”, dizem os anúncios imobiliários.

A denominação foi mantida pra distorcer as estatísticas, mas se não é o mesmo modelo não é o mesmo carro.

O mesmo acontece com o “Uno” e diversos nomes de vários fabricantes.

Por isso, quando eu classifico os carros mais vendidos da história, eu reconheço como mesmo modelo apenas os veículos que têm o mesmo desenho de carroceria.

Claro que alguns detalhes podem mudar, como tamanho das lanternas e janelas. Evidente.

Agora, a carroceria tem que ser a mesma. Oras, quem vai negar que o Fusca manteve sempre o mesmo desenho, de 1938 quando surgiu na Alemanha a 2003 quando deixou de existir no México? 

Ninguém, é óbvio. Por isso, com 21 milhões de unidades produzidas com idêntica carroceria, o ‘Fuca’ ainda é o carro mais vendido da história da Terra, em termos reais, mentiras propagandológicas a parte.

Sandton já concentra muita riqueza, e vai concentrar ainda mais. Veja quanto prédios sendo erguidos lado-a-lado. Cada vez mais a burguesia muda seus escritórios pra ali, incluindo a crescente burguesia negra.

Pois bem. Isto bem esclarecido, o Golf é o carro mais vendido da história da África do Sul.

Foram 577 mil exemplares, repetindo. Isso em 31 anos, de 1978 a 2009.

577 milhares de cópias do mesmo carro, com o mesmo desenho, o Golf 1, que foi produzido na Alemanha de 1974 a 1983, e na África do Sul, digo novamente, de 78 a 2009.

Esse Golf 1 não foi vendido no Brasil, então se você não for um aficcionado automobilista provavelmente não o conhece.

Mas nem todo mundo que trampa em Santon é bem de vida. A classe operária (copeiras, porteiros, balconistas, etc.) almoça um salgado nessa “praça de alimentação” ao ar-livre – isso quem não leva marmita.

Ele era quadradão, como eram os carros dos anos 70, quando ele foi projetado.

Ou melhor, ele é quadradão. Pois na África do Sul ainda há centenas de milhares deles circulando

Afinal, quando escrevo esse texto (2018) os mais novos ainda sequer completaram uma década de uso.

Vá num morro, numa favela plana, num loteamento de periferia ou num gueto central da África do Sul.

E no fim-de-tarde quem pode volta a pé pra casa. Estamos falando de uma caminhada de uma hora a hora e meia pra ida, mesmo tempo pra volta. A periferia da África do Sul é muito pobre, orçamento apertado, cada trocado ajuda. Eu acompanhei a galera nesse dia, fomos de Sandton a Alexandra a pé (claro, cada um foi pro seu bairro, eu segui a turma de Alexandra).

O ‘carro do povo’ ali ainda é o Golf modelo 1, e ainda o será por mais duas décadas pelo menos.

Façamos uma recapitulação comparando os dois modelos mais vendidos da história da VolksWagen.

Na Alemanha, o Fusca começou em 1938. O primeiro Golf (modelo 1, óbvio) saiu da fábrica em 1974.

Estava iniciada a transição. Assim, em 1978 a Alemanha deixa de produzir Fuscas.

Em 1983, a Alemanha aposenta o Golf 1 e lança o Golf 2.

Museu de História Natural em Pretória, no jardim há vários esqueletos de dinossauros.

Na África do Sul o Fusca começa em 1951, e se encerra em 1979, um ano depois da Alemanha, portanto.

Foram feitas 288 mil unidades do Fuquinha em solo sul-africano.

O Fusca foi aposentado na África do Sul apenas um ano depois do lançamento do Golf 1 por ali.

Próximas 9: Centro de Pretória.

A ‘baratinha’ foi um sucesso na África do Sul, são comuns até hoje, quase 4 décadas após o fim da produção.

Vi Fuscas nas 3 cidades que estive, Joanesburgo, Durbã e Cidade do Cabo, daí você calcula o quanto foi popular.

Mas o Golf lá foi um sucesso maior ainda, vendeu mais que o dobro de seu antecessor. Já voltamos a África do Sul.

Apenas pra pôr o Brasil no contexto, onde o Fusca foi feito de 1959 a 1986, com mais um breve espasmo de 1994 a 96. Foram vendidos aqui 3,3 milhões de Fuscas.

E em nossa Pátria Amada não houve Golf 1 nem 2. O Golf só chegou aqui em 1995, já no modelo 3, que era bem mais redondo que o 1 – repito, não são o mesmo carro, só o nome é igual.

E como aqui havia o Gol, o Golf era um carro mais luxuoso, um degrau acima.

O basicão era o Gol, o Golf era pra quem podia pagar um pouco mais e queria mais conforto, mais acessórios, melhor acabamento.

Por isso, quando digo aos colegas brasileiros que o Golf é o carro mais vendido da história da África do Sul, algumas pessoas têm dificuldade de assimilar.

Pois, de forma natural, pensam no Golf brasileiro, que estreou aqui já tardiamente e visando um público de mais elevado poder aquisitivo.

De volta a África. Lá nunca houve Gol, que alias foi desenhado no Brasil segundo li na internet agora.

Na África do Sul o Golf era o basicão, era o carro do povo, o modelo mais barato e portanto o mais vendido.

Recapitulando, o Golf 1 estreou na Alemanha em 1974, e aposentou o Fusca em 1978.

Em 1983 foi a vez do próprio Golf 1 quadradão ser aposentado na Alemanha, substituído pelo Golf 2.

O plano inicial era aposentar o Gol 1 também na África do Sul, mas a situação tomou o rumo contrário.

O Golf 1 em seus 6 primeiros anos já se consolidara como sucesso absoluto de vendas em território sul-africano.

Tanto que a matriz alemã da Volks deu carta branca pra filial fazer algumas inovações.

Por exemplo, o Golf sul-africano foi lançado já na versão 4 portas, antes que isso acontecesse na Europa. Mas o melhor ainda estava por vir.

Enfatizando de novo, em 83 a matriz alemã encerra a produção do Golf 1, quando começa o Golf 2.

Ali igualmente existe muito comércio ambulante no calçadão.

O planejamento inicial determinava que a fábrica da África do Sul desse o mesmo passo no ano seguinte.

Mas nem tudo acontece como é planejado nos gabinetes, não é mesmo?

Exatamente no ano 84 explode em Joanesburgo a segunda grande revolta estudantil contra o ‘apartheid‘.

Já contamos com muito mais detalhes essa história antes.

Ao contrário de Joanesburgo e Durbã, no Centro de Pretória há brancos. Poucos, mas existem. Veja ponto de ônibus da época do ‘apartheid’, bi-língue em inglês e africâner.

Pro que nos interessa aqui que é só o ramo automobilístico, a comunidade internacional impõe um embargo a África do Sul.

Assim fica dificultada senão impossibilitada a importação de maquinário industrial.

Impedindo a modernização necessária nas máquinas da fábrica da Volks que seria necessária pro atualizar do Golf 1 pro 2.

As faixas vermelhas demarcam o corredor exclusivo de ônibus, Pretória também conta com esse modal moderno com embarque pré-pago em estações em nível.

Ademais, o boicote por motivos óbvios causa um empobrecimento geral de toda sociedade sul-africana. Certamente que tudo isso foi justo. Óbvio.

O boicote internacional foi muito útil pra auxiliar a luta dos negros (e de alguns brancos conscientes) que por fim derrubou o ‘apartheid’.

Então não estou lamentando o boicote, de forma alguma, foi justíssimo, uma forma de pressão totalmente apropriada.

Ainda assim, o efeito (desejado alias) foi esse, tornou mais difícil fazer negócios dentro da África do Sul.

Ainda na Z/Central de Pretória, pra quem não quer ‘peixe-com-batatas’ há milho cozido, preparado e servido na própria calçada. Nas ruas de todo país se vende muita banana também, você compra, descasca e come ali mesmo, já descarta a casca e está alimentado.

E isso tanto devido a falta de material adequando como devido a queda de poder aquisitivo da população.

Na guerra, um urubu é frango” diz o dito popular. Em momentos de crise, melhor não inventar, e fazer o básico, pois se o básico sair já está muito bom.

E foi isso que a Volks fez. Ao invés de lançar o Golf 2, relançou o Golf 1, dando uma repaginada nele.

O desenho da carroceria se manteve exatamente o mesmo.

Mas foi lançada uma versão que aqui no Brasil era conhecida como “Pé-de-Boi”: um carro mais cru, sem acessórios.

Mais uma do Palácio Presidencial.

Que cumpria o objetivo de permitir que as pessoas se deslocassem nele com conforto mas sem luxo.

O “Pé-de-Boi” não tinha tapetes, rádio, no painel só haviam os itens mais básicos. 

Tinha somente marcador de velocidade e da gasolina no tanque.

Portanto se excluiram ‘supérfluos’ como quem sabe o marcador de giros do motor e talvez até o odômetro.

Bem em frente ao Palácio começa (ou termina) a “Avenida do Governo”. Há uma praça, na esquina com a Rua Madiba, que é o apelido de Nélson Mandela. Um canhão adorna o local.

No Brasil alguns ‘Pé-de-Bois’ não tinham tampouco maçaneta externa do lado do passageiro:

O motorista precisava entrar primeiro e abrir por dentro a outra porta, não sei se na África foi assim também.

Não sei se o Golf ‘urubu-é-frango’ sul-africano tinha ou não maçaneta externa nas portas do passageiro.

O que sei é que era um ‘Pé-de-Boi’: um modelo que já deveria inclusive ter sido aposentado ganhou sobre-vida, desprovido de ‘luxo’, mantendo só o essencial.

Ia ser chamado ‘Econo-Golf’, pra ressaltar a economia. Mas pesquisas de mercado detectaram ser pouco atraente ao público esse nome. Foi batizado de ‘Golf-Citi’.

Voltamos ao Centro, esquina das Ruas Madiba (Mandela) e Steve Biko, ativista negro anti-‘apartheid’ que morreu torturado nas masmorras do regime racista, um mártir da liberdade negra que por décadas foi sonho e hoje é a realidade. Com essa encerramos (por hora) as imagens de Pretória.

Na África do Sul eles gostam de escrever ‘city’ com ‘i’ no final.

Basta ver que a rede integrada de ônibus da Cid. do Cabo se chama ‘My Citi’.

Seja como for, nasceu aí um campeão de vendas. Também pra baratear custos, ele só era produzido em 3 opções de pintura.

Um anúncio resuma a questão: “Golf Citi. Disponível em vermelho, amarelo e azul. Em verde não temos, infelizmente”.

Mais tarde, lançaram a versão preta, aí ficaram 4 possibilidades.

E fez sucesso, mesmo se restringindo a 3 (depois 4)  cores.

Voltamos a Joanesburgo. As sul-africanas negras levam seus bebês nas costas.

Somente o Golf-Citi vendeu 377 mil carros (equivalente a pouco mais de 1,5 milhão o Brasil).

Levando as vendas do Golf 1 na África do Sul (somando o Citi e os outros que tinham a mesma lataria mas mais acessórios) a 577 mil (o que daria 2,4 milhões em nosso mercado, como dito).

Vá num bairro popular do México. Verá uma profusão de Fuscas. Na África do Sul, em bairros de perfil social similar, um mar de Golfs, a maior parte deles Citis.

……

Eu não sou ligado a carros, sou busólogo e sou Caminhante, ando mais a pé e de transporte coletivo.

Colagem mostra um pouco dos hábitos alimentares sul-africanos: sendo um caldeirão de raças e culturas, a culinária tinha que refletir essa diversidade. Na geladeira do apê que fique em Joanesburgo haviam molhos e temperos de influência indiana, alemã e inglesa. A mostarda alemã diz ‘quente’, mas nem tanto assim, não diferente da mostarda escura holandesa que vende no Brasil. Mas a mostarda inglesa….não é quente, é fervendo. Aquilo é pimenta pura, eu comi um pouco no pão, até passei mal, fiquei vermelho como um pimentão, engasguei, saiam lágrimas dos olhos. Entendi porque os ingleses bateram os alemães nas duas guerras mundiais, porque seus culhões são (ou eram pelo menos) mais grossos; depois vemos um mel, embalagem em português pois é moçambicano; mercadinho com fachada da Pepsi no Centro de Pretória. Uma cena raríssima, a Coca-Cola é oni-presente no país e domina 99% dos letreiros de comércios. Existe Pepsi lá, eu tomei, mas é mais difícil achar – bem, no Brasil também é; registrei mais um peixe-com-batatas, esse em Joanesburgo; e fecho o giro com um alimento que é feito por uma corporação sul-africana no vizinho e pequeno país chamado Suazilândia. É uma das nações menos desenvolvidas do mundo, mediterrânea, totalmente dependente da África do Sul pra tudo. As indústrias sul-africanas abrem filiais lá pois os salários são mais baixos, os impostos, burocracia e direitos trabalhistas quase inexistentes. Destaquei o selo Halaal, que é o “Kosher dos Muçulmanos”. Na África do Sul há enorme comunidade islâmica, quase todos os alimentos são ‘Halaal’.

Por isso, um ano atrás (17), até eu fazer 40 anos, eu nunca na minha vida havia entrado em uma BMW.

E tampouco em um carro Mercedes – só nos ônibus, milhões de vezes.

Mas carros não. Pois essas marcas alemãs são caras no Brasil.

Eu não tenho amigos ricos, alias vários de meus camaradas ou nem sequer dirigem ou como eu o fazem muito raramente.

Mas na África do Sul Mercedes e BMW são mais baratos, mais comuns.

Andei pela primeira vez em ambos lá do outro lado do Oceano, já com mais de 40.

Outro modal que eu estreei em solo africano foi o Uber. Aqui no Brasil rarissimamente ando de táxi, o que inclui Uber.

Até porque nem tenho celular, não tenho como chamar o Uber. Mas lá na África andei várias vezes.

Inclusive ficamos hospedados no bairro ‘Killarney’, entre a Zona Central e a Norte de Joanesburgo. Chamamos um Uber pra ir ao Centro.

Quando chegávamos endereço desejado, ele falou: “eu deixo vocês na quadra de trás. Nessa rua tem muito taxista, e eles não aceitam Uber”.

É. Lá também tem esses conflitos, que também já presenciei na América.

Todos sabemos que estão ocorrendo confrontos de taxistas contra motoristas e passageiros do Uber no Brasil, inclusive aqui em Curitiba.

Em Buenos Aires, a entrada da Rodoviária do Retiro, no Centro da capital argentina, estava (março de 2017, um mês antes de eu ir a África) forrada de cartazes que diziam: “Uber: ilegal!”.

E na África essa situação se repete. Bem, esse é apenas um dos muitos conflitos que se desenrolam no Centro de Joanesburgo.

…………..

Universidade Nacional, chegando em Pretória.

Falar em mercado automobilístico, vamos citar outros sucessos de vendas na África do Sul:

Um é o Toyota Corolla (o modelo antigo deve ser o segundo ou terceiro carro mais vendido do país, atrás do Golf 1 e quem sabe do Fusca) os Mercedes antigos e as BMW’s.

Os veículos novos da Mercedes fazem sucesso lá também, sem dúvidas.

Voltando a Joburgo, na Zona Central, campus da Universidade de Joanesburgo.

Tanto os caríssimos mesmo quanto os destinados a média-burguesia.

Mas aqui quero chamar a atenção pra aqueles  Mercedes antigos, aqueles compridões, quem tem perto de 40 vai se lembrar:

Eram o luxo dos luxos no Brasil nos anos 80. A importação de carros era bem mais difícil, e entre os importados esse Mercedes liderava disparado. Era o topo de linha por aqui na época, rivalizados de perto pelos Alfa-Romeus.

Hotel de luxo no Centro de Joanesburgo abandonado, símbolo da decadência da região. Já contei a história completa aqui.

Mas tanto os Mercedes antigos quanto os Alfa-Romeus desapareceram a muito das ruas brasileiras.

Pois bem. Na África do Sul eles (os Mercedes velhos) ainda são comuns.

Na época do ‘apartheid’ era ‘carro de branco’, apenas os caucasianos podiam bancar, e nem todos eles, só os mais aburguesados.

(Nota: embora bem menos que os negros, existem os brancos pobres, trabalhadores braçais, na África do Sul.)

Quer saber por que a classe-média (inclusive a burguesia negra) abandonou o Centro Velho de Joanesburgo? Então eu vou mostrar. Foi porque ele virou um gueto gigante. Não tenho nada contra a periferia, exatamente ao contrário, eu não sou burguês, sou suburbano. Eu moraria nesse prédio na boa. Mas quem é burguês não curte muito esse estilo, digamos assim….

Voltando a nosso tema de hoje, vários desses Mercedes ainda circulam na África do Sul, enfatizo ainda mais uma vez.

É uma paixão do povo de lá, creio que no pós-‘apartheid’ compartilhada por todas as raças.

No Paraguai e nos países árabes (Palestina, Síria, Líbano, entre outros) é o mesmo.

Eles simplesmente adoram carros Mercedes, aqueles grandões, quadrados.

Adoram. Não importa se é velho, se está caindo aos pedaços – e alguns estão mesmo, não é modo de falar.

Não importa o ano e o estado de conservação. Importa que tenha a Estrelinha.

No Paraguai comprovei pessoalmente, quando estive lá em 2013.

Mas tem coisa pior. Repare nesse edifício. Está abandonado, a maioria dos apês em ruínas. Mas alguns estão habitados, tem gente que vive ali (destaquei as roupas no varal) por falta de opção.

Nos demais via internet. Alias os árabes e povos vizinhos como os persas amam também caminhões Mercedes-Benz.

Fiz matéria explicando com muitas dezenas de imagens a proliferação dos Mercedes de carga pesados no mundo. Recapitulemos onde eles tiveram mais penetração:

Alemanha e imediações no Norte da Europa (Holanda e Escandinávia especialmente), Cone Sul da América (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai), África Negra (incluída África do Sul, embora ela seja multi-racial), Equador e América Central, Oriente Médio (incluindo Irã) e Ásia de Monções (Indonésia, Malásia, em menor escala Tailândia).

Mas voltemos aos automóveis de passeio. Na África do Sul, Paraguai e Oriente Médio, e também no Brasil porque não dizermos?, o carro antigo, quadrado, foi uma coqueluche.

Com a diferença que no Brasil eles praticamente acabaram, nos demais ainda estão em grande número nas ruas. Sinal que eles amam os Mercedes mais que a gene, dura constatação….

Outra marca muito vendida na África do Sul é a BMW, como é notório. Creio que lá seja mais em conta que aqui.

Próximas 3: muitos camelôs por todo Centro Velho da cidade.

No Brasil, como todos sabem, B.M. (e Mercedes) é sinônimo de automóvel de luxo, uma limosine.

Na África do Sul esse mesmo modelo que aqui é caríssimo lá não tem preço tão astronômico. Claro que não é popular, não é pra tanto.

Rivalizar com o Golf-Citi? Nem pensar!!! Mas a BMW lá se não é dos modelos mais baratos tampouco é dos mais caros.

Essa constatação não é científica, é empírica. Digo isso pelo que observei, não consultei tabelas.

Vi várias (tanto ao vivo quanto via Visão de Rua do ‘Google Mapas’) BMW’s nas periferias, nos bairros de gente trabalhadora. Nas favelas não, mas um pouquinho acima delas sim.

Essa tirei de dentro do busão Rea Vaya, recém-chegado de Soweto.

Por exemplo, andava eu (esse via ‘Google Mapas’) por uma cohab bem na periferia de Durbã. Quebrada, irmão. Moradia de classe operária mesmo.

E haviam algumas B.M.’s nas ruas, paradas em casas simples, daquelas que o morador faz um puxadinho pra garagem na laje (as casas nesse caso são na ladeira, abaixo do nível da rua).

Cheguei inclusive a mostrar isso a minha ex-eposa (na época ainda éramos casados).

E uma imagem que resume a questão eu presenciei com meus próprios olhos, fui eu quem cliquei:

Ninguém recolhe o lixo nem corta o mato por aqui. E estamos no coração da cidade. Note mais 2 muçulmanas de véu.

Estava num bairro popular da Zona Central de Pretória. Havia uma serralheria nos fundos do terreno.

Negócio familiar, de alguém que trabalha sozinho ou com parentes, no máximo um ajudante de fora.

Tudo era bem simples, nos fundos de outra casa, a nada requintada placa que anuncia o negócio parecia pintada a mão.

Mas o carro parado na frente era…outra BMW. Coisa de sul-africano. Fotografei pra registrar pela eternidade (busque pela legenda).

Galera na fila pra embarcar nas vans no final de tarde, Centro de Joburgo.

………….

Já prosseguimos com o texto. Pausa pra uma foto-galeria mostrando a história de Joanesburgo.

Fotografei de quadros que estavam expostos no teto, logo a angulação não ajudou na iluminação.

O texto era tri-língue, inglês francês e africâner. Foi formulado no começo do século 20. Logo, quando falar ali em ‘anos 90’ (‘nineties’), são os anos 90 do século 19, e não o do 20, lembre-se disso.

Mas nem tudo são problemas. Há o Centro Novo, visto nessa e nas próximas 2 fotos. Esse é limpo, organizado, e pelo menos de dia, bastante seguro. Aqui a burguesia frequenta. Mas apenas a burguesia negra.

Como eu já delineei em mensagens anteriores e recapitulei nas legendas das fotos dessa atual matéria:

O Centrão Velho de Joburgo é um gueto gigante. Não há brancos ali. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Bem, na parte velha que está horrorosa, tenebrosa não há ninguém de classe-média, da raça que for.

Pois hoje, como já escrevi diversas vezes e é notório, existe uma nascente burguesia negra.

E ela não é despresível nem invisível, marca presença tanto numericamente quanto em termos de renda. É muito comum ver Homens e Mulheres negros e negras dirigindo carrões caríssimos:

Picapes, utilitários, BMW’s, Audis e Mercedes dos modelos mais luxuosos, e não somente dos que já se se popularizaram.

Pois bem. Esses burgueses negros também evitam a parte velha do Centrão. Tanto quanto seus colegas brancos. E compreensivelmente, porque em alguns locais a situação está de arrepiar:

Placa indica que nessa região são proibidos camelôs. É a parte nova e civilizada do Centro da cidade, um contraste total com a parte mais antiga.

Muito lixo, violência, camelôs por toda parte, prédios abandonados, invadidos, em certos pontos odor forte de urina. Situação tensa. Eu não exagero quando digo que é um ‘gueto’.

No gueto do Centrão só tem gente do povão, sem recursos. E todos de pele escura. Muitos nativos sul-africanos mesmo, mas muitos imigrantes de outros países da África.

A África do Sul é um país de 3º mundo, certamente, como estamos mostrando na série (ainda virá a matéria sobre Durbã, breve no ar).

Mas boa parte da África é de 4º ou mesmo 5º mundo. Se existir o 5º mundo, é nas partes mais esquecidas do Continente Negro que ele se manifesta.

Se você já conhece a situação, sabe o que estou dizendo. Mas se não, você não vai querer saber agora como são as condições de vida da maioria do povo na Libéria, Serra Leoa, Somália, Sudão do Sul, partes do Congo e Nigéria, entre outros. A coisa é de chorar.

Mercearia em Soweto, Zona Oeste.

Por isso a África do Sul drena imigrantes da África inteira. O chamado “1º mundo” (entre muitas aspas, porque sabemos bem como eles obtiveram e mantém sua riqueza) deveria agradecer muito a África do Sul.

Pois se esses africanos não estivessem ali estariam na Europa ou (mais raramente) EUA.

Colagem mostra o Centro de Pretória e imediações. Em sentido horário: 1) Mantiveram no nome que os brancos deram a cidade, mas a prefeitura metropolitana (como se fosse a do ‘condado’ nos EUA) foi rebatizada Tshwane, o nome negro da região; 2) pastor prega no Centrão. Ele gritava a plenos pulmões o Apocalipse. Ninguém lhe dava atenção; 3) mais um plátano; 4) tótem da Estação de trem de Pretória; 5) de volta ao Centrão, notamos os trilhos onde um dia passou bonde mas não mais a muito (fotografei o mesmo em Belém-PA, no Paraguai e Argentina). Destaquei no detalhe que o rapaz está com a camisa alvi-negra do time de futebol Orlando Piratas, de Joanesburgo; e o ‘Museu do TransVaal’ já no nome começa a preservar a história da região, esse era o nome do estado na época do ‘apartheid’, quando ele era bem maior.

Com todas as favelas e com todos os seus problemas, a periferia das metrópoles sul-africanas é muito, mas muito mais rica que os rincões isolados africanos.

O taxista nos contou que os imigrantes de nações mais pobres se espantam que a África do Sul conta com ruas e estradas – mesmo que nem sempre elas estejam no melhor estado de conservação.

No interiorzão africanos, muitas vezes nem isso há. Bem, nem estrada nem nada, em partes do Continente Negro as pessoas ainda vivem como a milênios atrás:

Em chochas no deserto ou na selva, criando cabras e contando apenas com Deus pra velar por elas.

Então a África do Sul conta com pequena comunidade lusófona entre os trabalhadores braçais (oriundos majoritariamente de Moçambique e Angola).

Eu mesmo conversei em português com um moçambicano, um pedreiro que reformava o prédio onde fiquei hospedado em Durbã.

Mas a comunidade mais comum de imigrantes é proveniente do Golfo da Guiné (o Oeste Africano). Os nigerianos tomaram conta do Centro de Joanesbuburgo, eles dizem por lá.

Próximas 3: Zona Central de Pretória.

‘Inclusive agora quase que monopolizando o tráfico de drogas’, acrescentam.

Evidente que a imensa maioria dos nigerianos que migram é honesta. Evidente.

Mas tenha em conta que bastam algumas dezenas de pessoas pra formar uma quadrilha que domina um território inteiro.

Certamente há algumas dezenas de milhares de nigerianos nos guetos da Zona Central de Joanesburgo.

Se 0,1% deles forem desonestos, já dá uma turma da pesada, e de fato assim ocorre.

Também é comum vermos bandeiras de Gana pela África do Sul, indicando que muitos ganeses estão por ali.

‘Pick’n Pay’ é uma rede nacional de mercados, e significa exatamente ‘Peg-&-Pag’, como existia no Brasil (essa só quem é “daquele tempo” vai lembrar…). De volta ao Centro de Pretória, na África do Sul a venda de bebida alcoólica é mais regulada que aqui, por isso muitas redes têm uma loja própria só pra isso. É o caso aqui.

Vi pessoalmente (e fotografei) uma delas no Mercadão Central de Joburgo. E via ‘Google Mapas’ presenciei outra numa favela da Cidade do Cabo.

……

Há uma parte do Centro de Joanesburgo limpa e segura, como já falamos acima.

Ali há sim pessoas de classe-média, mas mesmo assim só os de pele escura.

Os euro-descendentes não vão mesmo ao Centro, mesmo na parte agradável dele.

Olhe, as ruas são limpas e seguras, pelo menos durante o dia – já a noite é melhor não andar a pé ali, mas isso é igual no Brasil também.

Não há camelôs, não há lixo nas ruas, não há rodas de desocupados nas esquinas em frente aos bares e mercadinhos. 

Próximas 3: Soweto, a periferia mais emblemática da África, na Zona Oeste de Joanesburgo. Aqui uma favela, as ‘casas’ são de zinco. Em verde os banheiros químicos que o governo instala, pra não ser ao ar-livre mesmo.

Lojas e restaurantes caros se destinam senão a elite certamente a média e alta burguesia.

Homens e Mulheres da raça negra, elegantemente vestidos, ali trabalham e no almoço e fim-da-tarde comem e congregam nos restaurantes e lanchonetes.

Mas mesmo nessa parte limpa e elegante do Centro não há brancos.

Os caucasianos se auto-impuseram um ‘apartheid invertido’, e não pisam mais no Centro, incluindo onde ele é limpo e seguro.

A África do Sul está fazendo um esforço hercúleo pra urbanizar as favelas, já construiu milhões de moradias decentes por todo país. A casa é de alvenaria, porque foi entregue assim. Mas quando faz um puxadinho….o cara volta pro zinco! Você sai da ‘Cidade de Lata’, mas ela não sai de você!!

Os euro-descendentes migraram prum ‘Novo Centro’ que eles implantaram na Zona Norte da cidade.

Há um subúrbio (no sentido ianque do termo) chamado Sandton.

É ali que os brancos trabalham, pois eles moram na região.

Claro, não só brancos. Não há mais ‘apartheid’, felizmente, então ninguém pode ser impedido de entrar em parte alguma por causa de sua raça. 

Ademais, digo ainda mais uma vez, existe uma burguesia negra.

Outra favela em Soweto, note quanta pedra nos telhados pra eles não irem com o vento.

E eles também trabalham em Sandton, afinal é onde o dinheiro está.

Então há negros em Sandton. Evidente que sim. Mas nesse bairro os brancos ainda são numerosos, creio que ainda a maioria, pois se concentram ali.

A bolsa de valores da África do Sul, por exemplo, foi há muito transferida do Centrão pra Sandton. Todos os hotéis mais caros e centros de convenções e de compras, idem.

Colagem mostra um pouco do que vemos nas ruas de Joanesburgo, incluindo a rodovia pra Pretória (em sentido horário a partir do carro preto): 1) o Golf modelo 1, automóvel mais vendido da história da África do Sul; 2) belo ‘Galaxão’ antigo; 3) Toyota Corolla do modelo antigo, também mito popular por lá; 4) na África do Sul eles amam carros Mercedes. São tantos que acabei andando neles pela 1ª vez em minha vida; 5) ao lado de um Audi escuro vemos um Mercedes branco daqueles antigos, quadradões. Ainda há vários deles circulando; 6) caminhão bi-trem, também bastante frequentes nas estradas (99% dos caminhões sul-africanos são cara-chata, e 90% são brancos); e ao centro um ônibus 2-andares da Metrobus.

Explorando novamente a região via ‘Google Mapas’ um ano depois que estive fisicamente nela, constatei alguns anúncios que comprovam o ‘espírito’ de Sandton.

Um deles dizia: “invista no bairro que tem o metro quadrado mais valorizado de toda África.”

E outro era da BMW. Estava grafado: “O Lobo de Todas as Ruas”.

Uma referência ao o filme “O Lobo da Rua do Muro”, que mostra como é por dentro o esquema de pilhagem global que é conhecido como ‘bolsa de valores’.

Em inglês forma um trocadilho, pois o título da película é “The Wolf of Wall Street”.

O cartaz da montadora alemã anunciava seu produto como “The Wolf of All Streets”.

É mole? O filme denuncia a ganância e a imoralidade da Rua do Muro. Mas pros publicitários que bolaram a campanha essas são virtudes (????).

Assim é o ser humano….

…………

Mais uma pausa pra outras duas foto-galerias.

Iniciamos pelas linhas de prédios do Centro de Joanesburgo, fotografados a nível do solo. A direita a mesma cena mas cliquei do alto de um daqueles arranha-céus.

E agora os subúrbios da Zona Norte. Algumas partes de elite, outras de classe-média, e há bairros mais populares.

Nas próximas 2, de volta ao Centro de Pretória: aqui uma imagem reflete bem os contrastes da África do Sul. Um possante Mercedes do modelo novo, bem caro, cruza com um outro ‘carro’, esse de tração humana, trata-se de um catador de papel.

Bem, como já contei antes, bem perto desse riquíssimo subúrbio de Sandton há uma grande favela chamada Alexandra (lá pronuncia ‘Alec-zandra’).

Uma boca-quente, um dos pontos mais problemáticos da cidade, e isso desde os tempos do ‘apartheid’.

Mais uma vez: é evidente que a imensa maioria dos Homens e Mulheres de Alexandra (e de qualquer favela) são trabalhadores honrados e dignos.

Eu sei muito bem disso, ninguém precisa me falar.

Morei 15 anos numa favela de Curitiba (trata-se do Canal Belém, no bairro do Boqueirão, na Zona Sul).

Serralheria na Zona Central de Pretória, negócio pequeno, nos fundos, o barracão precário, é um lutador, o cara se vira como pode mesmo. Mas o carro é BMW.

Então sei. A imensa maioria são pessoas decentes, que lutam contra muitas dificuldades pra sustentarem suas famílias, mas não esmorecem e nunca perdem a Fé em Deus.

Ainda assim em toda favela existem criminosos, e isso também é um fato, que não adianta tapar sol com peneira.

Em Alexandra é assim também. Pra fecharmos o texto que já está bem longo, vou resumir  aqui uma história que já relatei mais detalhadamente em outra postagem.

Mas o final da matéria será inédito, ainda não contei em parte alguma.

No fim-de-tarde, uma fila de trabalhadores braçais saem de Sandton, e vão a pé pra suas casas pra economizar o VT.

São os peões da construção, jardineiros, porteiros, seguranças, copeiras, domésticas, cabeleireiras, depiladoras, balconistas, caixas, ascensoristas (ops, esse cargo não existe mais…), resumindo a galera que rala, ganha o pão de cada dia com o suor de seu rosto.

Próximas 3: Zona Norte de Joanesburgo, “a cidade que tem medo”. Fecharam a rua ao tráfego, exatamente como ocorre no Brasil.

Uma boa parte deles mora em Alexandra. Já havia mesmo planejado ir de Sandton a Alexandra.

Quando vendo o mapa fiz o roteiro desse meu rolê a pé, desse trabalho de campo pra ver como é a maior metrópole da África do Sul, o plano era exatamente esse mesmo.

Pra ver os dois lados. A elite e a favela. O bairro mais caro da África, bem perto de uma das piores favelas da cidade.

Então fui. Junto com a massa. Eu era o único de pele clara.

Já é um condomínio fechado, mas olhe quantas camadas de cerca elétrica.

(Nota: eu me considero ‘pardo’ por razões Espirituais, pois ‘branco’ é europeu, e eu não sou europeu.

Eu Sou Americano, do Continente América,  o que é classificado como ‘Hispânico’ nos EUA, o Latino, da Raça Latina. Ainda assim, minha tez é alva.)

Deixamos Sandton, fomos pelo acostamento da auto-estrada. Claro, os grupos vão se dividindo, cada um vai pro seu bairro.

Eu segui no embalo da galera que rumava a Alexandra.

Passamos pelo bairro de ‘Wynberg’, um subúrbio industrial, muitos barracões, um centro de compras popular. 

Na entrada dele há esse monumento curioso, visto a direita: uma Kombi queimada.

Subúrbios de Pretória.

Ao chegar na praça que divide ‘Wynberg’ de Alexandra…caramba, irmão!!!!

Tomei um tremendo choque. E não é pra menos. Me deparo com uma cena de guerra. Não é modo de falar.

A praça estava ocupada militarmente, por uns 30 ou mesmo mais camburões da polícia.

Embaixo do rodado de um deles, um corpo coberto com lençol.

Daqui até o fim: Zona Norte de Joanesburgo (foi ali que fiquei, por isso foi mais fotografada). Aqui o bairro de Alexandra, perto da favela que descrevo no texto.

Pensei que tinha havido um tiroteio. Mas depois lendo pelo jornal constatei que uma viatura atropelou e matou uma menina, pré-adolescente que voltava da escola.

Além daquela saturação na praça, todas as entradas da favela contavam com mais uma viatura fazendo pressão.

Os policiais cuidavam de salvar suas próprias vidas.

Dois anos antes (em 2015), ali em Joburgo mesmo, uma viatura atropelou dois jovens. A multidão fez justiça com as próprias mãos e queimou vivos os dois policiais. Não é maneira de falar.

Pichação na passarela, na saída pra Sandton e Pretória.

…………

Lamentável. Passei pela favela ocupada, saí de novo por ‘Wynberg’.

E peguei uma avenida em direção a parte mais central da Zona Norte, onde eu estava.

Vi a periferia da cidade e seus contrastes, agora fora da favela.

Parque Central de Sandton.

Os prédios, alguns bem cuidados e floridos, outros bem derrubados, comércio popular.

Um trânsito infernal na avenida, as pessoas nos pontos esperando vans e ônibus, aqueles que moram muito longe e não dá pra ir a pé.

O Sol se pondo. Era meu último dia na África. Como havia feito no Chile, eu ia caminhando e fazendo uma reflexão.

Aqui e a direita: na África do Sul eles usam infinitamente mais energia do Sol que no Brasil. Mil vezes mais, sem comparação possível. Casas de todos os padrões sociais têm painel solar. Veja esse conjuntão nas bordas da Zona Norte de Joanesburgo. Bem perifa, moradia da massa, sem luxo nenhum. Mas todas as residências com esse equipamento.

Agradecendo a Deus Pai e Mãe por ter me dado a oportunidade de conhecer outro continente.

Nessa parte mais periférica, muito povão nas ruas. Quando fui chegando a meu destino adentrei de novo na parte rica da cidade.

No estilo dos subúrbios ianques. Parecido com o bairro do Morumbi em São Paulo, pra quem conhece:

O bairro lá se chama ‘Houghton Estates’. Só mansão atrás de mansão. Cada vez mais ruas que foram fechadas ao tráfego.

Botaram grades, você não entra mais se não for morador (ou explicitamente convidado de um morador).

Uma colagem, o da Z/N é no mesmo bairro a esquerda. Mas veja o mesmo na Zona Oeste, em Soweto. A quantia de pedras em cima do telhado não deixa dúvidas a qual classe social aquelas moradias pertencem. Mas ao lado das pedras…painel solar!

Ninguém passa a pé nessas ruas, eu andava sozinho, só eu e Deus.

Nas vias internas não há comércio, não há linhas de ônibus, não há nada.

As calçadas (onde elas existem, que nem sempre é o caso) absolutamente desertas.

Eu andava as vezes mais de uma hora sem cruzar com ninguém.

Mas as ruas cheias de carros, e carros caros. O dia virando noite.

África do Sul em Preto-&-Branco. No fundo, um subúrbio de altíssimo padrão, onde mora a alta burguesia, que ainda é majoritariamente branca (embora não mais exclusivamente assim). Na frente um cartaz do McDonald’s anuncia o…. McFlava. Peraí, que tal de ‘McFlava’ é esse???? Trata-se da palavra ‘flavour’ (‘sabor’) em ebonês, um dialeto do inglês que é falado pelos negros mais jovens e menos instruídos da África (não apenas África do Sul, todo país anglófono como Nigéria idem), EUA, e nações do Caribe insulares de colonização britânica como Jamaica. O Ebonês tem gramática mais simples, menos preposições, abrevia-se muito, muita gíria. Uma de suas principais características é que eles não conseguem falar o ‘r’ no final das palavras, por isso o ‘flavour’ vira ‘flava’.

Cheguei na auto-estrada, já próximo do bairro que em que fiquei hospedado.

Quase lá. Bastava somente contornar um campo de golfe e chegava em casa.

Estava cansado (foram 6 horas caminhando sem parar, percorri uma boa parte da Zona Norte de Joanesburgo a pé) mas feliz pela missão cumprida.

Havia visto tudo. Os subúrbios ricos e de classe média. A periferia. As favelas. Até dentro de camburão eu andei em Durbã, como já contei no outro texto.

Ali em Joburgo mesmo, o contraste agudo, o Centrão que virou gueto com seus arranha-céus abandonados, nenhum branco nas ruas.

Sandton, o ‘Novo Centro’, com seus arranha-céus, todos eles ocupados a preço de ouro, o metro quadrado mais caro da África.

A favela de Alexandra, ocupada militarmente pra rapaziada não fazer micro-ondas com os policiais.

Muita gente nas ruas em toda periferia, mas ali no local que estava cercado pela polícia nem dava pra andar.

Centro do subúrbio de ‘Rosebank’. Entre o Centro e Sandton, cumpre a mesma função que esse último, mas numa escala menor.

Pois a multidão obviamente se aglomerou pra acompanhar a perícia retirar o corpo.

Em Hougton, a mesma cena que eu já havia visto em ‘Rosebank’ e ‘Saxonwold’, na ida:

Redutos de milionários, ruas cheias de carro mas ninguém a pé, andava mais de um hora antes de cruzar com alguém.

Ia lembrando de tudo isso, no acostamento da rodovia, já de noite, ao lado do campo de golfe.

Há muitos deles na África do Sul, centenas de vezes mais que no Brasil.

Placa bi-língue (inglês de um lado, africâner de outro), herança do ‘apartheid‘.

Pela herança inglesa, a burguesia sul-africana adora golfe.

Cada subúrbio deles tem vários campos, como nos EUA e totalmente diferente do Brasil, repetindo.

Ou seja, um reduto da elite. Mas pra completar o contraste, pra resumir numa imagem os paradoxos que esse país chamado África do Sul:

Viram na foto anterior que o Sol está se pondo. Fechamos com duas imagens da região. Era meu último dia na África. O Sol (Logos) encerrava mais um ciclo de trabalho, e eu também.

Encostados na grade havia um acampamento de sem-tetos.

E quatro ou cinco deles se aqueciam em volta de uma fogueira.

Encostados, repito, na grade que vetava sua passagem prum ambiente que fisicamente estava perto.

Mas em termos sociais parecia outra galáxia, o campo de golfe dos bem-nascidos e bem-conectados.

Aquilo era a África do Sul.

Onde a parte mais tecnológica e rica do Norte da Europa se encontra com a parte mais miserável do Golfo da Guiné. Inglaterra e Holanda separadas por uma cerca de Libéria e Serra Leoa.

Definitivamente….o mundo num só país!!!

Eu encerro meu caso. Que Deus Abençoe a todos.

“Deus proverá”

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Encanto Multi-Dimensional: a Cidade do Cabo (e do Vinho), um Chacra da Terra

A ‘Mesa-Montanha’ – um Chacra da Terra – é conectada ao Centro e ao resto da cidade pelo moderno sistema de transporte.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de fevereiro de 2018

Quase todas as imagens de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’, de rede. Créditos mantidos quando impresso nas fotos.

Seguindo nossa série sobre a África do Sul, hoje vamos falar mais a fundo sobre a Cidade do Cabo.

Joanesburgo, sobre quem escrevi com mais detalhes em postagem específica, é a maior metrópole do país, e seu epi-centro econômico e político.

Uma cidade muito rica: mansão nos ‘Subúrbios da Zona Norte’ ostenta Audis prateados – “um é pouco, dois é bom“.

Os destinos políticos do país são basicamente decididos em ‘Joburgo’. Fato.

A luta pra derrubar o ‘apartheid’ (desde a ápoca de Gandhi), por exemplo, foi centrada ali.

Mas em múltiplas dimensões o Cabo é principal cidade da África do Sul. Citemos algumas:

– Pra conversa começar, é certamente a cidade mais bonita do país, e uma das mais bonitas do mundo, espremida entre o morro e o mar;

Mas de altíssima concentração de renda: entre as Zonas Norte e Leste, flagrei essa favela, um das muitas da cidade.

– É disparado o principal destino turístico sul-africano. E acredito que o 2° de toda África atrás de Cairo no Egito;

Sediando o Congresso, é uma das capitais da nação (O Chile tem 2 capitais: Santiago executiva e judiciária, Valparaíso parlamentar.

Na África do Sul são 3: em Pretória o Palácio Presidencial, o Cabo capital legislativa, o Supremo Tribunal é na pequena cidade de Bloemfontein);

É a cidade mais integrada da África do Sul hoje. Ali, negros e brancos convivem em (relativa) harmonia. Entre parênteses o ‘relativa’ porque claro que nem tudo no Cabo é um mar-de-rosas.

Castelo do Cabo, feito pelos holandeses em 1679, primeira construção europeia na África. Pra compensar tantos séculos de domínio caucasiano, em abril de 17 havia uma exposição de “História Des-colonizada da 2ª Guerra”.

Mas nas outras metrópoles sul-africanas a coisa é pior. Muito pior, nos Centrões de Durbã e Joanesburgo há um ‘apartheid invertido’: simplesmente não há brancos;

A Cidade do Cabo é tri-língue. Toda comunicação oficial é em inglês, africâner e xhoza.

Veja a direita a porta de um ônibus, ao fundo belo Pôr-do-Sol: integraram os negros, mas sem oprimir os brancos.

No resto da África do Sul, lamentavelmente, não houve essa sensatez:

Ali eles sumariamente eliminaram o africâner da maior parte da comunicação governamental.

Substituindo-o pelos idiomas negros nativos. Novamente vemos o ‘apartheid invertido’ em ação;

– Mas não é só questão de raça, e sim também de classe: o Centro da Cidade do Cabo é civilizado.

O ponto mais marcante do Cabo é que não importa onde você esteja na cidade, você sempre enxerga as montanhas ao fundo. Aqui o Centrão.

Portanto, frequentado – e habitado! – pela classe média, tanto brancos quanto a nascente burguesia negra.

Nos Centrões de Durbã e Jonesburgo, mais uma vez, não funciona dessa forma, abaixo explico melhor;

– Pela corrente de mar gelada que vem do Polo Sul, a Cidade do Cabo tem no geral temperatura amena, contando com verões suaves e invernos frios, em plena costa africana.

Região de classe média-alta próxima ao bairro ‘Woodstock’, Zona Central.

O que a torna diferenciada da maioria das grandes cidades do continente, nesse quesito também;

– Somando clima e herança europeia: a Cidade do Cabo também é uma “Cidade do Vinho”.

Nisso se parece com Mendonça, na Argentina (que visitei um mês antes e sobre a qual igualmente ainda escreverei melhor, em breve);

O sistema de transporte por ônibus da Cidade do Cabo é exemplar, certamente o melhor da África e um dos melhores do mundo.

Indo pra Zona Norte, em primeiro plano o ‘Distrito Industrial’.

Muito bom mesmo,  no mesmo nível dos mais avançados da Europa, Ásia e América –  e eis um assunto que entendo a fundo;

– Por último, mas não menos importante: a Cidade do Cabo é um ‘Chacra da Mãe-Terra:

A Mesa-Montanha cumpre um papel fundamental na rede etérica que equilibra a Energia do planeta.

O riquíssimo bairro “Ponta Verde”, colado ao Centro (com seu famoso trenzinho de brinquedo do parque de diversões).

Quem conhece Ciência Oculta sabe o que estou falando;

Assim, eis a Cidade do Cabo: um epi-centro de suma importância, na 3ª e igualmente na 4ª e 5ª Dimensões.

…………..

Então falemos um pouco mais sobre a cidade, com isso recapitulando um pouco do que já foi escrito nas outras mensagens da série e adicionando novas impressões.

A Cidade do Cabo foi construída, como seu nome já entrega, ao redor de um cabo.

Agora indo pra Zona Sul.

E o que é um ‘cabo’, geograficamente falando? Um península onde a terra avança sobre o mar.

Como esse cabo é montanhoso, a cena mais marcante da Cidade do Cabo é essa (como a legenda já falou):

Não importa em que parte da cidade você esteja, sempre enxerga a serra emoldurando ao fundo.

Bairro (de elite, veja mais um Audi) ‘Campo da Baía’, começo da Zona Sul.

Os primeiros europeus a pisarem na África do Sul foram os portugueses, a caminho da Índia.

A cidade de Durbã (que também terá uma matéria própria, em breve) foi fundada como ‘Porto Natal’.

Os ingleses, quando conquistaram a região, a denominaram – numa hibridização dos idiomas – de ‘Port Natal’.

E o estado a qual ela pertence se chamou ‘Natal’ até o fim do ‘apartheid’.

Aí houve a incorporação do bantustão de KwaZulu, e o estado atualmente se denomina KwaZulu-Natal, pra agradar negros e brancos.

Extremidade da Zona Sul, bairro ‘Baía Hout’, também de alto padrão.

Veja que a palavra ‘Natal’, em português mesmo, permanece até hoje.

Mas da Costa Leste sul-africana trataremos outro dia. Hoje nosso tema é a Costa Oeste.

Até a metade do milênio passado não havia como ir da Europa ao Oriente por via marítima.

Assim as elites europeias, pra importar as especiarias e demais produtos orientais, tinham que recorrer a intermediários árabes.

Nesse mesmo ‘Baía Hout’, outra favela.

Esses comerciantes operavam pela ‘Rota da Seda’ (que agora a China está fazendo uma nova versão).

No século 15, Portugal foi a primeira nação a chegar a Índia pelo mar, contornando a África – obviamente o Canal de Suez não existia.

E pra isso tiveram que passar pelo ‘Cabo da Boa Esperança’, que separa os Oceanos Atlântico e Índico.

Khayelitscha (r), bairro de periferia (com várias favelas) na extremidade da Zona Leste.

Exatamente onde hoje está a Cidade do Cabo, já voltamos pra ela.

Aqui, traçando mais um paralelo histórico, pouco depois os portugueses foram os primeiros europeus a chegarem a América.

(Ao menos oficialmente, alguns dizem que os ‘vikings’ da Escandinávia já havia estado aqui milênios antes.

Nossa bandeira na África; ao fundo sempre as famosas montanhas do Cabo.

Mas como disso ainda não há registros incontestáveis, cristalizou-se no consciente coletivo que foi mesmo Portugal o pioneiro.)

Primeiros a contornar a África, primeiros a cruzar um grande Oceano como o Atlântico.

Definitivamente os lusos dominaram os mares na virada do milênio passado.

Trata-se da Honra-Maior de Portugal, seu próprio mito formador, e por isso em tudo que é português reproduz-se as caravelas.

(Veja o escudo do Vasco da Gama, por exemplo, alias Vasco foi outro navegador.)

Vinho sul-africano com rótulo em português.

No caminho pra África, a Coroa Portuguesa deixou raízes na costa africana, é lógico.

E eles estiveram no Cabo, também. A ‘Mesa-Montanha’, símbolo-mor da cidade, era então chamada de ‘Taboa do Cabo’.

Mais que isso: não é só uma curiosidade histórica, as sementes lusas germinaram e ainda rendem frutos na África do Sul.

Até hoje usam-se termos em português nas fachadas, no Cabo particularmente no ramo da alimentação. Não apenas ali:

prédios com nome em português, fotografei um deles no bairro da Costa Verde, Zona Central do Cabo, um dos mais ricos da cidade.

Em Pretória flagrei a palavra ‘Munitoria’ num espaço público. Portanto esse fenômeno está arraigado em toda África do Sul.

A rede de lanchonetes Nando’s (um ‘Mc Donald’s local’) está presente em todas as maiores cidades sul-africanas.

Linha-Turismo da Cidade do Cabo.

E, bem, Nando’s mesmo já é em português, e eles colocam ‘Bom Dia’ em todas as suas lojas.

Mas na Cidade do Cabo a presença de termos em português é especialmente forte, principalmente como nome de restaurantes.

Veja a colagem acima a esquerda. Especialmente restaurantes na Cid. do Cabo, repetindo.

Mas também exemplos em fachadas de estabelecimentos de outras atividades, e em outras cidades.

Estádio em que houve jogos da Copa/2010; no terreno ao redor um campo de golfe.

A direita um rótulo de vinho. E, não, esse não está assim por ser ‘pra exportação’.

É fato, a maioria dos alimentos produzidos na África do Sul têm rótulo tri-língue, em inglês, francês e português, pois assim pode ser exportado pra África inteira.

Mas aqui não é esse o caso. Até porque não foi exportado, fotografei-o dentro da África do Sul mesmo.

Subúrbios da Z/N: na parte rica da cidade, Mulher branca se exercita numa bicicleta (atrás mais um campo de golfe).

Em Durbã cliquei frases em português no Centrão. Alguém me disse: “ah, deve ter sido um angolano ou moçambicano quem pichou”.

Pode ser. Aquela era a cracolândia de Durbã, não muito longe de onde um noiado me abordou e tive um diálogo tenso com ele.

Então pode ser que nas redondezas morem alguns trabalhadores braçais imigrantes dos países lusófonos africanos.

Não longe dali, mas na porção de periferia do Cabo, negros são transportados em caçambas e compram em feiras em que os produtos ficam expostos no chão. É a África do Sul em Preto-&-Branco, meu irmão . . . P.S.: na vitrine da concessionária 2 Fuscas, carro que a Cid. do Cabo adora!

Alias, em Durbã mesmo falei em português com um deles, eu entrei no elevador e havia 3 negros.

Pedreiros, reformavam o prédio. Eles dialogavam em inglês.

Me perguntaram, e quando informei ser brasileiro, conversei eu e um deles em português, ele era moçambicano.

Então, sim, há alguns falantes lusófonos na África do Sul.

Mas são pouquíssimos, e se concentram na classe operária.

Aérea da cidade (r). Ao fundo a Mesa-Montanha, a esquerda o Centro e depois o porto, aquela bola é o estádio, a frente dele o bairro da Ponta Verde.

Na classe média, porém, quase não há sul-africanos que saibam o idioma com o qual estou escrevendo esse texto.

E mesmo assim há prédios de luxo e muitos, muitos restaurantes que o utilizam. Por que? Porque é chique, oras.

Por isso: no Brasil falamos português, e os edifícios e as vitrines das lojas da burguesia são em inglês.

Bondinho sobe pra Mesa-Montanha.

Na África do Sul é inverso, eles falam (entre outras línguas) o inglês, mas dá ‘status’ usar alguns termos em português.

Como é a Vida, não? Deus é um cara Gozador, e por vontade Dele/Dela tudo mesmo é relativo no Universo

………..

Os portugueses passaram por ali, mas não ficaram. Visavam o Oriente, onde também estabeleceram colônias: Macau que só devolvida a China em 1999, Timor Leste se separou de Portugal em 1975 (e da Indonésia, que o anexou, em 2002).

Colagem (você percebe a emenda) mostra a cidade de cima. Onde há os edifícios altos (comerciais) é o Centro, lá chamado por isso pelo termo britânico ‘C.B.D.’, ‘Central Business District’. Vemos o estádio e logo após ele, encoberto pela montanha, a Ponta Verde. A Cidade do Cabo é bela…

Mumbai, na Índia, era chamada até há pouco de Bombaim. Na verdade o nome não mudou, apenas a grafia. ‘Mumbai’ é como os indianos pronunciavam ‘Bombaim’.

E qual a origem do nome ‘Bombaim’? Por sua vez, já uma corruptela de ‘Boa Baía’, que é como os portugueses chamaram o entreposto que eles fundaram ali.

Falei tudo isso pra mostrar que os portugueses passaram pela África do Sul antes de qualquer outro povo europeu.

…mas também é fera!!! Agora filma as “Cidades de Lata” – o nome é porque nas favelas sul-africanas os barracos são de zinco, parede e telhados. Essa aqui eu cliquei do avião, portanto nas cercanias do Aeroporto, Zona Leste.

Mas ali eles não tiveram interesse em derrotar os nativos e fixar uma colônia. Miravam mais longe.

Assim os primeiros brancos a colonizarem a região foram os holandeses, subjugando os negros habitantes originais da terra.

Em 1679 a Coroa Holandesa concluiu o ‘Castelo da Boa Esperança‘ – pra guarnecer o Cabo da Boa Esperança, que ela considerava sua posse agora.

O Castelo, assim, é a primeira construção europeia de toda África, marcando assim o início da colonização caucasiana do Continente Negro.

Quando foi inaugurado, no fim do século 17, era um forte a beira-mar. Mas com sucessivos aterros hoje o Castelo está algumas centenas de metros terra adentro.

Caminhão 11-13 Mercedão que eu ainda consegui flagrar, mesmo estando num ônibus em movimento e sem estar com a câmera preparada (veja a janela do busão). O bichão é preto e bicudo, cena do passado. Hoje (quase) todos os caminhões da África do Sul são brancos e cara-chata.

Nisso o Cabo apenas imita a própria Holanda, afinal foi colonizada por holandeses – e pra isso subjugando militarmente os negros. 

Mas não tardaria, e os holandeses provariam de seu próprio remédio amargo: o Castelo da Boa Esperança garantiu a posse da Colônia do Cabo por um século apenas.

Em fins do século 18, a Inglaterra chega e exige a capitulação.

Os holandeses resistem, a Real Marinha Britânica reforça o ataque com enorme esquadra, e o Cabo cai, passando pra Inglaterra.

Parte dos holandeses migra pro interior, derrotando os negros e fundando colônias:

Estaleiro ao lado do Centro.

A do Estado Livre Laranja (a cor Real holandesa, lembre-se do uniforme da seleção de futebol) e do Trans-Vaal, como o nome indica após o Rio Vaal (conhecida como ‘República Sul-Africana’, não confundir com o país atual que é a ‘República da África do Sul’).

Na virada do século 19 pro 20, a rivalidade anglo-holandesa na África do Sul volta a ferver, e estouram as duas ‘Guerras dos Bôeres’.

Foi nessa ocasião que a Inglaterra inventa o campo de concentração, prendendo nele civis, os Homens não-combatentes, junto com as Mulheres, crianças e velhos.

O famoso farol do rico bairro da Ponta Verde. É útil a noite. De dia, a Mesa-Montanha é um farol natural, vista a dezenas de kms mar adentro.

Viu? No consciente coletivo Hitler, Stalin, Mao e Pol Pot é quem estão associados a palavra ‘campo de concentração’, e de fato eles fizeram intensivo uso desse instrumento.

Mas quem o criou foi a Inglaterra, nunca te esqueças disso, porque isso a maioria das pessoas ignora.

No fim a Inglaterra bate novamente no campo de batalha os descendentes de holandeses, e unifica toda África do Sul como sua colônia.

Próximas 6: a orla na Ponta Verde. Aqui, a burguesia fazendo exercício no calçadão (“nem parece que estamos na África”, na definição de um morador negro local).

Isso cria um ressentimento intenso entre os ingleses e os bôeres (africâneres, os sul-africanos de ascendência holandesa), que persiste até hoje.

Apenas pra consolidar o ‘apartheid’ contra a resistência negra é que africâneres e ingleses se unem na África do Sul, enfim se descobrindo como ‘brancos’ em comum.

Ou seja, quando os negros foram dizimados no campo de batalha, os europeus brigaram ferozmente entre si, inclusive encerrando civis no campo de concentração.

Apenas quando os negros se levantaram de novo é que os brancos se uniram, subitamente valorizando mais as coisas que os uniam que as que os separavam.

Essa parceria entre os descendentes de europeus se acentuou mais ainda no fim do século 20.

A partir da ‘Revolta Estudantil de Soweto em 76′, que foi duplicada em 1984, o ‘apartheid’ entra na defensiva.

Os negros renovam sua ofensiva, agora apoiada pela opinião pública internacional e mesmo uma porção significativa dos brancos sul-africanos.

Aí, pra tentar impedir a queda do regime racista, as elites inglesas e africâneres juntam suas forças.

Nesse trecho não dá pra entrar direito no mar, a água é gelada e há musgos. Mas as pessoas aproveitam pra caminhar na areia.

Não adianta nada, o fim chegara, em 1990 Mandela é libertado, e em 1994 ele assume como 1º presidente negro da nação.

Alias Mandela estava preso, como sabem, num presídio de segurança máxima localizado na Ilha Robben, na costa da Cidade do Cabo.

Então o regime racista caiu, felizmente. Já contamos essa história com mais detalhes antes.

Um pai levou o filho pra molhar os pés, observados por uma colônia de gaivotas.

Aqui, é apenas pra reforçar o fato que os europeus brigaram violentamente entre si, na África também. Violentamente. E ficou até hoje um ressentimento.

Até hoje os africâneres lembram das crueldades que os ingleses fizeram contra eles.

Eles só não tocam no ponto que eles fizeram exatamente o mesmo contra os negros, mas essa já é outra história.

Ainda a orla central do Cabo, na África do Sul (como nos EUA) você pode personalizar a placa de seu carro – a verde que diz ‘ZN’ não é ‘Zona Norte’ óbvio, mas Zulu/Natal, ou seja, esse veículo cinza cruzou todo país de ponta-a-ponta. E o outro carro é um Novo Fusca.

Até porque, como dito, após os negros terem tomado o poder eles, os negros, se vingaram.

E impuseram algumas medidas de ‘apartheid invertido contra os brancos:

No Cabo não, mas nas outras cidades baniram o africâner da comunicação oficial.

E no Cabo e toda parte impuseram ‘cotas raciais’, mesmo na iniciativa privada e muito mais na governamental.

Cotas raciais era exatamente o que ‘apartheid’ fazia, porém a favor dos brancos.

Com mais essa colagem, fechamos (por hora) a Ponta Verde. Eu disse que o parque da Beira-Mar tem uma arte peculiar, veja essa curiosíssima estátua de um rinoceronte, vide a próxima foto pra explicação; Depois observamos um casal, ele entrou no mar pra praticar um esporte em que você rema de pé num caiaque, modalidade muito popular (entre os brancos) na África do Sul. Sua esposa/namorada o espera na areia; E por fim placas, nos detalhes as cenas ampliadas.

Assim, quando os negros fazem o mesmo, ninguém chama de ‘apartheid’. Mas é.

O ser humano é sempre o ser humano, e o poder cega e corrompe. Negros, brancos, todos são iguais.

Não estou tomando partido de nenhum lado, apenas relatando o óbvio:

Quando oprimidos, todas as raças clamam por ‘justiça’.

Mas uma vez no poder todas as raças agem igualmente de forma desumana:

Você só identifica o paquiderme de longe (r). A estátua tem várias camadas, apenas quando você atinge essa distância elas se encaixam pra fazer sentido. De mais perto fica desconexo, abstrato

Exigem e se possível impõem privilégios pra si mesmas. O poder corrompe.

…………

Enfim, contei tudo isso pra mostrar que a Cidade do Cabo é a Gênese e ainda hoje o Zênite dos africêneres (holandeses) na África do Sul.

Como a língua africâner é um dialeto da holandesa, podemos dizer que o Cabo é a maior cidade holandesa fora da Holanda, assim como Durbã é maior cidade indiana fora da Índia.

Um pouco mais da periferia, então. Estamos na auto-estrada, indo pra Atlântida, afastado município da Zona Norte. Mas aqui ainda é dentro da Cidade do Cabo. Nas dunas, entre a rodovia e o mar, uma miserável favela surgiu: casas de zinco no meio da areia, sem água, luz ou saneamento básico (aquelas caixas em verde são banheiros químicos que o governo instalou pra não ser ao ar-livre mesmo). Parecem os acampamentos dos beduínos na Palestina.

Na Cid. do Cabo o africâner não foi banido, como já dito várias vezes. Até porque o africâner é a língua-mãe de 75% dos ‘mulatos’, os xhoza. Se você vê os xhozas e é leigo, pensa que são negros.

Mas eles se definem assim, como ‘mulatos’ e não como ‘negros’. Ainda assim, na classificação brasileira eles seriam negros. E falam africâner, como sua primeira língua, veja você.

Há quase o dobro de ‘mulatos’ (que aqui no Brasil nós consideraríamos negros, eles têm a pele bem escura)  usando o africâner como idioma-materno, 4,8 milhões (3/4 do total de ‘mulatos’, como dito) que brancos, 2,7 milhões (60% dos total de caucasianos).

Entretanto, se considerarmos os que oficialmente se denominam ‘negros’, quase não há falantes se africâner como 1ª língua, só 1,5% deles, 600 mil pessoas. Esse é o outro ponto de atrito entre ‘negros’ e ‘mulatos’, abaixo falo mais disso.

Maurílio beijando o ‘Solo Sagrado’ da orla central do Cabo (desenhei até a escultura do óculos ao fundo).

Aqui dizíamos que as cidade do Cabo é mais integrada racialmente da África do Sul. De fato, os brancos tampouco se auto-baniram do Centro, ao contrário de Durbã e Joanesburgo.

Na verdade não é uma questão só de raça, mas também de classe. A classe-média sul-africana é integrada, desde a classe média-baixa até a alta burguesia.

A elite ainda é majoritariamente branca, as favelas ainda são 98% negras (exceto quando indicado, quando eu uso o termo ‘negro’ eu quero dizer ‘africano nativo’, portanto isso inclui tanto os que se auto-definem como ‘negros’ oficialmente como os que se dizem ‘mulatos’).

Agora estamos em Atlântida, Grande Cid. do Cabo. Curiosamente, as casas proletárias da África do Sul lembram as do Paraguai.

Mas na classe média, em todos os seus sub-estratos, negros e brancos (em Durbã também indianos) hoje convivem em razoável harmonia.

Trabalham juntos, e se casam entre si. Vimos vários casais inter-raciais na orla de Durbã.

O que mostra que se o nível de renda e educação é similar já não há mais aquele racismo arraigado e intrínseco da época do ‘apartheid’.

Agora a divisão é mais de classe que raça, repito. Na classe média há brancos, negros (em menor parte também indianos), inclusive compartilhando a mesma cama em alguns casos.

Ainda Atlântida, uma mercearia (‘tuck shop’ no termo local).

Mas a burguesia, da raça que for e hoje todas estão presentes, em Joanesburgo e Durbã não frequenta mais o Centrão.

Ali só há povão, apenas negros em Joburgo, negros e indianos em Durbã.

Os burgueses, sejam brancos, negros ou indianos, moram e trabalham em seus subúrbios exclusivos, longe do Centro.

Mas na Cidade do Cabo é diferente. Essa é a única cidade mais integrada da África do Sul. Logo ao lado do Centrão há o bairro da Ponta Verde (‘Green Point’ no original).

Colagem mostra comércio em diversos bairros do Cabo. Algumas notas: 1) Há 3 termos pra ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’ – o termo ‘ette’ indica diminutivo, como ‘disquete’ é um disco pequeno, ‘superette’ é um mercado pequeno; 2) Os indianos dominam boa parte das mercearias da Cid. do Cabo, por isso os nomes com referência ao Islã (o que chamam de ‘indianos’ na África do Sul inclui também paquistaneses e bengalis, que são muçulmanos); 3) a Coca-Cola é oni-presente na África do Sul, seu nome estampa não apenas praticamente 100% das fachadas de mercadinhos, lanchonetes e restaurantes populares, como também está presente em estabelecimentos que nem vendem comida ou bebida, como floriculturas, fliperamas e farmácias; e 4) Pegando carona no ‘superette’, essa lavanderia (‘laundry’ em inglês) se denominou ‘laundrette’, a ‘pequena lavanderia’.

Um local da alta burguesia, com carros caros.

(Alias uma nota sobre isso. Eu não participo da fetichização dos automóveis, bem ao contrário.

Não tenho carro, e me desloco basicamente de ônibus e a pé.

Então aqui quando estou citando as marcas BMW, Audi, Porsche, Mercedes, não é pra cultuá-las, porque exatamente ao contrário já tirei todas do pedestal.

Mas cito apenas pra que dimensionem o padrão de renda. Me perguntaram se “existem ricos na África”. Respondi: “E como!!”)

Voltemos. O bairro da Ponta Verde é de alta burguesia, tipo a Gávea no Rio. E ele é vizinho ao Centro.

Em Durbã, que também é litoral, o bairro da orla colado ao Centro é exatamente o inverso:

Uma região periférica, totalmente proletária, que por isso apelidei de ‘Bronx a Beira-Mar, referência óbvia a Nova Iorque/EUA.

Em Durbã, a orla chique já é bem longe do Centro, não dá pra ir pé certamente, a não ser que alguém esteja disposto a caminhar entre uma hora e meia a duas horas.

Próximas 2: panorâmicas tiradas do alto da Mesa-Montanha. Aqui o Centro e Porto.

Mas no Cabo não. Em 15 minutos andando você sai do Centrão e está num reduto extremamente elitizado.

Mais que isso: entre a ‘Ponta Verde’ e o Centro está surgindo um novo bairro de elite, com canais.

Num projeto similar ao de Porto Madeiro em Buenos Aires/Argentina.

Do outro lado do Centro está ‘Woodstock’, onde fiquei hospedado. O bairro é dividido ao meio pela Avenida Vitória.

Girando a câmera pra esquerda, o rico bairro de Campo da Baía (‘Camps Bay’ no original), em duas escalas – e no detalhe um roedor que vive nas pedras no topo da montanha.

Entre ela e o porto, onde está a linha de trem é bem popular, em alguns pontos quase um gueto, ou inclusive pode tirar o ‘quase’.

Tanto que na Vitória mesmo há bastante povão, a massa mesmo. Mas da Vitória pra cima é diferente.

E ‘pra cima’ tanto na geografia física quanto na humana. Topograficamente, é literal, você vai subindo um morro.

Em mais uma colagem, vamos ver alguns detalhes da África do Sul. Lá (e na Argentina também) os extintores são vermelhos, como no Brasil. Parece óbvio, não? Pensamos que é assim em todo lugar. Mas não é. Na Colômbia os extintores são multi-coloridos, há os verde, amarelos, e … até os vermelhos, depende da categoria. Agora um ponto em que os extintores da África do Sul (e, novamente, também os da Argentina) são diferentes dos do Brasil: nesses 2 países eles são tri-modais. Ou seja, categorias A, B e C num único aparelho. Você vê um fogo, não precisa se preocupar em saber se o que está queimando é papel ou a caixa de força do prédio, e nem precisa ler rótulo, qualquer extintor serve pra todos os tipos de incêndio. Bem mais inteligente, concorda? Falando de outra coisa, ‘rua-sem-saída’ na África do Sul e ‘Cul-de-Sac’. E, como já mostrei melhor antes, na ‘Riviera do Cabo’ as garagens de alguns prédios são no teto.

Porém, socialmente você também vai ascendendo. A parte alta de ‘Woodstock’ hoje é um bairro de classe média-alta, habitado por todas as raças mas majoritariamente por brancos.

Essa nova configuração é recente. Até depois da virada do milênio, todo ‘Woodstock’ (dos dois lados da Vitória, a parte alta e baixa igualmente) era proletário, um bairro de periferia.

Na última década e meia passou por agudo processo de aburguesação, e verdade seja dita, o que também levou a um embranquecimento. Sim, hoje há burguesia negra, e ela está presente ali.

Mas os brancos ainda são mais numerosos nas classe elevadas, por isso ‘Woodstock’ hoje está mais caro, e mais claro. O perfil não é tão elevado quanto na Ponta Verde, verdade.

Seja como for, dos dois lados o Centro do Cabo é cercado por bairros burgueses, de alto padrão – e está surgindo mais um, e esse de altíssimo padrão.

Nas outras cidades sul-africanas isso não ocorre, jamais. A África do Sul, como já dito, tem o modelo anglo-ianque de urbanização:

A classe média fugiu da Zona Central a décadas, e vive em subúrbios afastados exclusivamente residenciais, algumas vezes em conjuntos que as casas são todas iguais (nem sempre, em muitos casos cada um faz a sua como deseja).

O que nunca se altera é que o deslocamento das pessoas se dá exclusivamente via automóvel, até mesmo pra comprar pão é preciso ir motorizado.

Na África do Sul os brancos adoram ‘rugby’, mas eles jogam também futebol. Os negros, por sua vez, adoram futebol, mas detestam ‘rugby‘, jogam basquete sim mas ‘rugby’ jamais, pelo menos entre o povão. O que gera uma situação curiosa. Você sabe a classe social de um bairro só olhando pra trave na sua cancha de esportes. Nas caras escolas particulares da elite e alta burguesia, os campos só tem trave de ‘rugby’ (aquele ‘y’, igual a do ‘futebol americano’). Nas periferias, os campos inversamente só tem a trave de futebol, como os nossos aqui. E na classe-média? Bom, aí a trave é mista, bi-modal, um ‘h’, que permite fazer tanto o gol do futebol quanto o de ‘rugby’.

Não preciso descrever como é. Se você já esteve nos EUA (ou Inglaterra), você já viu com seus próprios olhos.

E mesmo quem nunca cruzou o oceano conhece o padrão pelos filmes.

A África do Sul é assim também. Só que pior. Nos EUA/Inglaterra, os brancos vivem no subúrbio.

Mas trabalham no Centro. Claro, há muitos ‘centros empresariais’ nos subúrbios também.

Mas ele ainda não sufocaram o Centrão. Durante o dia, no horário comercial, você vê uma multidão de brancos de classe-média no núcleo central das cidades anglo-ianques.

Sim, no fim do expediente (no máximo depois do choppinho de descontração no bar) eles pegam seus carrões e vão embora, pela auto-estrada.

A noite e nos fins-de-semana são poucos os caucasianos no Centro.

Na Cidade do Cabo, em qualquer parte da cidade que você esteja, é comum as revoadas de pássaros, pois além do mar há inúmeras lagoas com vegetação natural em torno.

Mas de segunda a sexta eles são muitos, em muitas cidades majoritários. Isso nos EUA/Inglaterra.

Na África do Sul é pior que isso, repito. Em Joanesburgo e Durbã, o Centro das metrópoles viraram guetos gigantes, e nem ninguém de classe-média (da raça que for) ousa pisar ali.

Ressalto de novo pra que fique claro. Uma geração após o fim do ‘apartheid’, surgiu uma ainda pequena mas extremamente pujante burguesia negra.

Próximas 10: o litoral da Zona Norte da Cidade do Cabo. Aqui na praia, obviamente. Ao fundo vemos os prédios do centro de um subúrbio da cidade (a moda dos subúrbios ianques, muita gente da burguesia não vai mais ao Centrão, vive e trabalha no subúrbio). E por que não tem ninguém na água (fora surfistas com roupa térmica)? Porque não dá pra entrar: por conta de uma corrente gelada que vem do Polo Sul, o mar na Costa Atlântica do Cabo é absurdamente gelado. Congelante mesmo, impossível ficar dentro. Entrei, mergulhei rapidamente 2 vezes somente pra sentir como é estar imerso no Atlântico em sua outra margem, e saí. Apenas nos meses mais quentes do verão talvez, mas fora isso sem chances (em Valparaíso no Chile é igual, e pelo mesmo motivo). De volta ao Cabo, isso é assim nas Zonas Norte e Sul. Na costa da Zona Leste é o Oceano Índico, e ali a água é quente. A Cidade do Cabo não tem Zona Oeste, pois (como em Porto Alegre-RS) o Centro está no ponto mais ocidental da cidade, a oeste dele só tem água.

Hoje, você vê negros dirigindo BMW’s, Audis, Mercedes, caminhonetes, utilitários, carros de alto calibre mesmo.

Mas os negros de padrão mais elevado, em Joburgo e Durbã, também se auto-segreram.

Eles tampouco querem contato com a massa:

Vivem em subúrbios a moda ianque (muitos com portões na entrada, só entra morador ou seus convidados).

E portanto essa burguesia negra não se mistura com a ralé no Centrão.

A classe fala mais alto que a raça, quanto de dinheiro cada um tem se sobrepõe ao fato que tem o mesmo tom de pele.

Perto do Centro e no próprio Centrão é a periferia deles, onde moram os pobres.

Bem, o próprio ‘Woodstock’ tinha esse perfil até pouco depois do ‘apartheid’.

Os ricos e mesmo a classe média-alta moram longe, muito longe.

Vimos a direita a “Praia do Pôr-do-Sol” (na Cidade do Cabo o Atlântico fica a oeste, então o Sol se põe no mar) – agora vamos ver as casas que são no bairro em frente a ela: a África do Sul tem o modelo de urbanização anglo-ianque, como dito. Os ricos moram em mansões (nunca em prédios, com raras exceções da Beira-Mar central), e sempre que possível sem muros – em se tratando da África do Sul, ressalte-se ‘sempre que possível’, muitas vezes não é. Mas essa não tem muro – e nem calçadas, ninguém anda a pé no bairro.

Bem protegidos pela distância – e na África do Sul também por patrulhas particulares armadas até os dentes.

Entretanto, enfatizo, a Cidade do Cabo é exceção – parcial, claro.

As imagens ao lado ilustram, mesmo no Cabo a imensa maioria dos burgueses vivem nos subúrbios a moda dos EUA.

Ainda assim, é a única cidade em que ainda existe burguesia no Centro.

Ali você vê muitos brancos, e também os negros que ascenderam na escala social.

Não apenas trabalhando, mas eles vivem ali, andam a pé fazendo compras, etc.

No resto da África do Sul (com exceção de Pretória, que é bem menor) isso seria uma miragem:

Essa aqui é em frente a praia mesmo, veja a areia no chão. Não há avenida beira-mar com barzinhos, comércio, trânsito, ônibus, porque o bairro é estritamente residencial de altíssimo padrão. Você só vê loiros de olhos claros na praia, parece que está na Suécia. O tráfego, transporte coletivo, comércio etc, são na avenida principal que é fora do bairro.

Em Durbã, os burgueses (de todas as raças) frequentam a praia, mesmo perto do Centro. Sim.

Mas eles moram bem distante, e vão de carro, param ao lado da areia.

E aí eles curtem o dia ali, entram no mar e também tomam Sol, petiscam, almoçam/jantam nos bares e restaurantes, compram nos centros comerciais.

Mas, estou falando de Durbã lembre-se, eles nunca saem da orla.

Circulam pelo calçadão, mas jamais, em tempo algum, andam pelo bairro – nem mesmo pela Beira-Mar.

Mato a cobra e mostro o pau. ‘Praia do Pôr-do-Sol’, Zona Norte da Cidade do Cabo. Ao fundo o Centrão, emoldurado pela Mesa-Montanha. A direita uma família curte a praia (de roupas pois a água é tão gelada que não dá pra entrar, mesmo em dia de sol forte). Todos os frequentadores da praia tinham a mesma alvíssima tez.

Eu fiquei a duas quadras da praia em Durbã. Todos os apartamentos têm grades nas portas, como nas piores favelas e guetos brasileiros. Alguns prédios vão mais além:

Chegam ao extremo de ter aquelas portas giratórias de metal que barram quem não é autorizado (iguais as que existem nas estações de trem de subúrbio no Brasil) – e isso na Beira-Mar!!!

Então, no Cabo é bem diferente. Ali a orla ainda é chique e elegante, reservada aos que podem pagar muito.

Outro exemplo: sem muro, e sem calçada.

Claro, eu disse que a exceção é parcial. A imensa maioria dos burgueses do Cabo também moram em subúrbios – estamos na África do Sul, afinal.

Ainda assim, há uma porção deles próximo ao Centro, e mesmo já dentro dele.

E eles andam nas ruas, sem o medo iminente de serem sequestrados ou assassinados.

Pra que não reste dúvidas: sem calçadas dos dois lados, não há comércio no bairro, pra tudo tem que ser de carro. E que carros, hein? BMW, nesses bairros só dá as máquinas alemãs, Porsches, Mercedes e Audi também.

Some tudo: uma grande proporção de europeus; clima frio por causa da corrente marítima polar, um vale protegido por uma serra.

Resultado: a Cidade do Cabo é um centro vinícola de primeira qualidade, de mesmo nível de seus congêneres europeu e sul-americano.

Como um negro (mulato na verdade, falo disso abaixo) definiu a duas meninas alemãs mochileiras, que conheciam a África sozinhas e a pé:

Uma Mercedes. Vemos o nome do praia (e do bairro), e o nome da rua numa pedra no solo, traço típico da África do Sul. O condomínio geo-referenciou seu endereço.

A Cidade do Cabo é África. Mas não parece”. Rááá!!! Gostou dessa definição?

………….

Durbã, do outro lado do país, é o reduto dos ingleses, ali há pouquíssimos descendentes de holandeses.

E também dos zulus. Evidente que há outras etnias negras, porém essa é a predominante. Não por outro motivo por estado se chama KwaZulu-Natal.

De novo sem muro. Isso é que é vida, não acha?

No Cabo, inversamente, embora também hajam muitos ingleses, os africâneres que descendem dos holandeses são bastante numerosos e visíveis.

E, entre os negros, ali há poucos zulus, a maioria dos negros é de ascendência xhoza.

Alias, os xhoza nem mesmo se denominam ‘negros’, mas ‘mulatos’.

Essa mansão tem muros. Mas calçada … nem pensar, né?

Se você que é leigo nesses nuances anda na Cidade do Cabo, os negros sul-africanos se parecem dessa forma, como ‘negros’.

Entretanto, lá se eles se auto-definem de maneira diferente, majoritariamente como ‘mulatos’.

Segundo o Censo, os negros, assim oficialmente denominados, predominam no Leste e Norte do país, o reduto dos zulus e sothos, respectivamente.

Pra fecharmos as praias da Zona Norte, uma feirinha estilo brechó. Essa é chique, a beira-mar, bem diferente da que vimos acima na periferia. Claro que há negros, não há mais ‘apartheid’ e surgiu uma burguesia negra. Mas a maior parte dos frequentadores é branco.

Nas províncias (estado) do Cabo (hoje foram divididas em 3 após o fim do ‘apartheid’, antes uma só que pegava mais da metade [55%] da área do país, em sua porção ocidental) os xhoza são majoritários, como já dito.

E os xhoza, não sei se por suas raízes étnicas distintas, se declaram mestiços (‘coloured‘ no original) e não somente negros puros.

Na Cidade do Cabo mesmo há um pouco mais de ‘mulatos’ que ‘negros’, 42 contra 38%.

Ressalto que entre esses que se chamam ‘negros’ muitos não são originalmente da região, migraram pra lá pra trabalhar, alias boa parte dos migrantes são de outros países africanos.

que

Há uma burguesia negra, sim. Mas a maior parte dos negros ainda é da massa, do povão. Veja as ‘feirinhas’ deles – na verdade são camelódromos com maior ou menor grau de organização. As duas primeiras no Centro, a esquerda na praça central que é o terminal das (por ordem de utilização) vans, ônibus e trens – as lojas são em latões de carga de navios. Destaquei uma cabeleireira, como as negras precisam cuidar muito do cabelo pra ele crescer, há salões em plena via pública, esse ainda é no ‘container’, há os que só põe uma lona ou nem isso; a figura do meio no Centrão, e a última no bairro ‘Woodstock’, Zona Cenral.

Mas no interior das 3 províncias (estados) do Cabo (Cabo Oriental, Ocidental e do Norte, até o fim do ‘apartheid’ eram 1 só, repetindo) os ‘mulatos’ dominam amplamente.

É comum eles serem de pelo menos 60 até 90% da população, e isso da população total que inclui os brancos.

Porém fora dos 3 Cabos, os ‘mulatos’ começam a diminuir.

Nos municípios e cidades perto da divisa com os 3 Cabos eles muitas vezes ainda são 20% da população.

E quanto mais pro leste você vai indo, menos ‘mulatos’ vão tendo, longe da divisa com os Cabos é raro eles chegarem a 5% dos habitantes de qualquer lugar.

Vibrando na mesma frequência, agora a passarela da estação de trens de ‘Woodstock’ num belo fim-de-tarde (veja o Sol refletido na montanha): a galera se vira como pode.

Não é uma questão apenas de linguagem:

Os brancos, na virada dos anos 70 pros 80 tentavam impedir a queda do ‘apartheid’.

Aí eles criaram 2 ‘parlamentos’ de fachada, sem poder real, um pros indianos e outro pros mulatos.

Até então, só euro-descendentes podiam votar.

Ao estender esse direito a indianos e mulatos, mas ainda negando aos negros, a estratégia do regime racista era claramente ‘dividir pra dominar’:

Voltando pro Centrão: terminal de vans, o camelódromo com ‘containeres’ é em frente.

Dividir os que têm pele escura em duas categorias, de um lado indianos e mulatos que não têm poder real mas aparentemente o têm, na narrativa;

E de outro os negros, esses sem poder tanto na teoria quanto na prática.

O ‘apartheid’ enfim caiu mesmo, mas a rixa entre ‘negros’ e ‘mulatos’, bem explorada, aumentou.

Próximas 5: mais cenas do Centro, o busão da ‘Golden Arrow’ (um dia foi dourado mesmo!) tenta fazer alguma concorrência as vans – a frente dele 2-andares da Linha Turismo.

Zulus e xhozas, grosseiramente falando os que se denominam ‘negros’ e ‘mulatos’ respectivamente, se mataram violentamente nos tumultuados anos da queda do ‘apartheid’.

Você vê: houve uma ocasião que os brancos brigaram violentamente entre si.

Pois bem. Os negros fizeram o mesmo. Como eu disse, o ser humano é sempre o mesmo, a pele não torna ninguém melhor ou pior.

Sempre com as montanhas ao fundo.

Quando afloram disputas pelo poder, não há qualquer solidariedade real, apenas interesses.

Seja como for, assim é a Cidade do Cabo: reduto dos africâneres (descendentes de holandes) e dos xhozas que se dizem ‘mulatos’.

Durbã, do outro lado da nação, é o oposto: o bastião dos britânicos e dos zulus que se auto-denominam ‘negros’ puros.

No Centro do Cabo existem brancos, as raças se mesclam melhor.

No antigo Trans-Vaal, cujo núcleo é hoje Gauteng onde estão Joanesburgo e Pretória, é um meio-termo, uma zona de transição.

Tanto entre os brancos quanto negros há um equilíbrio entre as etnias ali.

Nesse caso, nenhuma predomina absoluta como nas pontas do país.

“Do nada a lugar nenhum”, esse viaduto está parado, dinheiro jogado no lixo. Veja aquele rapaz a esquerda, devia ser um guardador de carro, mas ao ver a oportunidade surgir, se metamorfoseou em guia turístico: quando percebeu que éramos turistas, se ofereceu pra nos levar na parte nova do Centro, onde estão fazendo conjuntos residenciais e comerciais de alto padrão, a algumas quadras dali. Seus serviços são pagos, claro. Demos a ele alguns Rands pela orientação.

Vejamos: na área rural de Gauteng e no vizinho Estado Livre (antigo ‘Estado Livre Laranja’) há muitos brancos africâneres fazendeiros.

Em alguns municípios majoritariamente rurais os brancos chegam a 40% da população.

E nesses lugares no interior em que os brancos conseguem ser mais de 1/3 até quase metade da população, a maioria é africâner, a minoria inglesa.

Mas nas metrópoles os brancos, de todas as etnias, nunca passam de 15% (20% em Pretória, que é um pouco menor).

Em Joanesburgo não há predomínio nem inglês nem africâner, ambos se fazem presentes em bom número.

Ou seja, em Gauteng há muito mais africâneres que em Durbã, mas (considerando só as cidades maiores, excluindo o interior) bem menos que no Cabo.

A direita na imagem, essa é a parte nova do Centro que falei (ainda está em obras, fez sucesso e sendo ampliada), prédios caríssimos com canais em frente, assim os brancos sul-africanos podem praticar um de seus esportes preferidos (esse caiaque que você rema em pé) sem sair de casa. A esquerda um outro na mesma modalidade, esse até com roupa própria pro frio (eu disse que a água é gelada) e na praia.

Quanto aos negros, fora dos 3 Cabos os xhozas são mais raros. Mas isso não significa que os zulus sejam hegemônicos.

Em Gauteng os negros da etnia sotho são mais numerosos que os zulus, por exemplo.

Há bem mais zulus que no Cabo, mas bem menos que em Durbã.

Como disse, nas pontas do país a coisa é mais polarizada entre as etnias.

No centro geográfico da África do Sul (centro-leste, na verdade) há um equilíbrio maior.

Você pode conferir todas as estatísticas na página da página da Wikipédia.

Próximas 4: ‘Woodstock’. A parte baixa do bairro, perto da linha do trem, ainda é periferia.

……..

A rivalidade leste-oeste na África do Sul respinga até na astronomia:

Em Durbã eles dizem: “o Sol nasce aqui”. No Cabo respondem:

“Pode ser. Mas pelo menos pra se pôr o Astro-Rei escolheu um lugar agradável”….rs.

Aqui e a direita: na parte alta, subindo a montanha, houve tremendo aburguesamento.

…………

O que mais podemos dizer?

Falamos nas legendas que a Cidade do Cabo tem um sistema de transporte público exemplar.

Não há metrô nem bonde moderno (VLT), e o sistema de trens de subúrbio funciona muito mal, como sempre na África do Sul.

Mas os ônibus . . . que belezura !!! Não devem nada pros melhores sistemas da América, Ásia e Europa.

Já fiz matéria específica sobre o transporte, onde conto tudo em detalhes com centenas de fotos, confira.

Próximas 2: Av. Vitória, que divide as 2 metades.

O destaque negativo é que infelizmente a Cidade do Cabo se tornou a cidade mais violenta da África do Sul, e uma das mais violentas do mundo.

Foram nada menos que 2,4 mil assassinatos em 2015, uma tristeza.

Só que as mortes se concentram quase todas entre os negros (daqui pra baixo quando eu usar o termo ‘negro’ quero dizer ‘africanos nativos’, tanto os que se denominam ‘negros’ mesmo como os ‘mulatos’) do fundão da periferia.

De forma que ninguém se importa muito, nem mesmo a burguesia negra.

Destaquei a rede nacional de mercados ‘Shoprite‘ (corruptela de ‘Shop Right’, ‘Compre Certo’).

OK, justiça seja feita, não é muito diferente do Brasil.

Apenas aqui nunca houve ‘apartheid’, então a questão é mais de classe que de raça.

Em São Paulo e no Sul do Brasil, a periferia sangra de maneira idêntica, e nessas partes a maioria dos mortos é branca.

Próximas 2: clube na orla da Zona Central, com piscinas públicas frequentadas pela classe-média.

Mas mesmo nas porções mais quentes do país, onde a maioria da periferia é mulata (ou em algumas partes negra), ainda há uma grande proporção de brancos.

E de Norte a Sul, todos, de todas as raças, sofrem juntos com a violência urbana, sob indiferença das classes mais elevadas. Isso no Brasil. 

Enquanto que na África do Sul a questão envolve além de classe a raça: 97% das vítimas de violência são negros, muitas vezes mortos por outros negros.

Novamente, sob a indiferença das classes mais elevadas, e parte da burguesia agora também é negra.

Antigamente, nos tempos do ‘apartheid’, Joanesburgo concentrava o grosso da violência urbana no país.

Sim, ‘Soweto’ liderou a resistência contra o regime racista. Mas ‘Soweto’ era, também, sinônimo de crimes cometidos de negros contra negros.

Quando a África do Sul se agitou a partir da segunda metade dos anos 70 pra derrubar de vez o ‘apartheid’, os negros por um lado se uniram pra lutar contra o inimigo.

Próximas 7: na mesma região, a Beira-Mar riquíssima da Ponta Verde e imediações (puxando a fila uma BMW, atrás um Audi).

Sim, verdade. Mas também é verdade que, na convulsão que a nação mergulhou, os negros cometeram muitos massacres contra os próprios negros.

E isso também se concentrou em Joanesburgo, muitas vezes em Soweto e imediações.

Mas houve matanças nos bairros e favelas negros em outras partes da cidade.

Durbã e a Cidade do Cabo, principalmente essa, eram mais calmas, não participaram tão intensamente dessa catarse.

Mas desde a queda do ‘apartheid’, a praga da violência urbana engolfou a África do Sul como uma peste negra.

São milhares de mortos em cada metrópole, a cada ano.

Em Joanesburgo a violência sempre foi alta, aumentou mais, mas desde então caiu um pouco.

Em Durbã era menos que Joanesburgo e mais que no Cabo, igualmente explodiu na virada do milênio.

Mas de lá pra cá também reduziu bem. Ainda bem alta, mas menos que já foi.

Na Cidade do Cabo, infelizmente, os índices de assassinatos ainda não baixaram desde que foram pra estratosfera duas décadas atrás.

Uma cidade tão linda, mas com uma periferia que sangra. Lembra muito o Rio de Janeiro, no melhor e no pior.

Também já fiz matéria específica sobre a periferia, onde falamos de tudo isso muito mais amplamente.

……….

Voltando a parte riquíssima da orla, acima vemos um complexo no que eles chamam de ‘Beira-Mar (‘WaterFront’). Há restaurantes, comércio, espetáculos culturais, diversas atrações pros turistas e pros moradores locais.

Dali sai a balsa pra ilha Robben, onde fica fica o antigo presídio (agora museu) onde Mandela foi preso.

Mandela foi solto, o ‘apartheid’ acabou, ele se tornou presidente. Assim, chega da falar de conflitos. Vamos falar da resolução de conflitos.

Fechamos a orla da Ponta Verde. ‘SABC‘ (‘South Africa Broadcasting Corporation’) é a rede pública de TV, a BBC deles.

O ‘apartheid’ durou praticamente um século. Oficialmente iniciou-se em 1949.

Mas na prática desde que os brancos conquistaram todo o país – pois até século 19 eles se restringiam mais ao litoral.

Então. Ao adentrar o interior e pôr todos os negros sob jugo europeu, na prática começou aí o ‘apartheid’.

Porto.

Não nos esqueçamos que Gandhi (que morou 21 anos na África do Sul) já foi preso por causa disso.

E a ‘Grande Alma’ esteve lá na virada do século 19 pra 20.

Tudo isso gerou um ódio profundo, enraizado. Os brancos eram ensinados desde sempre a odiar os não-brancos, pois seu sistema de privilégios dependia disso.

Indo pra Zona Norte, o Pq. Industrial.

Ódio gera mais ódio, como não é difícil imaginar.

Obviamente não sendo santos, os negros e (principalmente em Durbã) indianos, e também (os poucos que haviam) chineses passaram a odiar os brancos no retorno.

Mais que isso, as raças também se odiaram entre si.

Só que isso não é natural, é artificial. Disse o Grande Mestre Nélson Mandela:

Próximas 2: o rico bairro de Campo na Baía (‘Camps Bay’), no começo da Zona Sul.

“As pessoas não nascem odiando. Elas têm que ser ensinadas a odiar, e é isso que a sociedade faz”.

Ele continuou: “mas não precisa ser assim. Assim como são ensinadas a odiar, as pessoas podem ser ensinadas a Amar”.

Mandela dispensa apresentações. Ele também é uma ‘Grande Alma’, o ‘Pai Espiritual’ da África do Sul, arquétipo da moderna nação sul-africana.

Mandela esteve 27 anos preso no presídio que fica na Ilha Robben, no litoral da Cidade do Cabo, de segurança máxima, uma ‘Alcatraz africana’.

Fugir da Ilha Robben era impossível, além da segurança máxima em si mesma era numa ilha.

E como dissemos ainda contribui o fato que a água é congelante:

Próximas 3: uma parte de periferia na Zona Norte (na África do Sul os burgueses jamais moram em prédios altos, exceto em algumas partes da Beira-Mar.)

Se alguém ainda conseguisse driblar todas as grades e os guardas, provavelmente perecia de hipotermia caso conseguisse alcançar o continente a nado.

Então escapar era fora de cogitação. Mandela observava da cadeia a Mesa-Montanha, que é um chacra da Terra.

Mesmo quem não conhece Ciência Oculta entende o Poder dela – ao menos de dia a Mesa-Montanha é um farol natural:

Visível a dezenas de quilômetros, indica a todos os navios o caminho pro porto da cidade. Após semanas no mar, vê-la dá um alívio, a viagem chega ao fim.

O próprio Mandela declarou que a Mesa-Montanha lhe dava alento. Preso ali no ‘Cabo da Boa Esperança’, ele nunca perdeu a esperança.

Montanhas ao fundo, em qualquer parte da cidade.

E a vista do morro, ali, incólume, vencendo a passagem dos séculos, lhe mostrava que tudo um dia passa.

Portanto o ‘apartheid’ iria passar também.

Era preciso apenas aprender com o gigante de pedra a ter paciência.

………

A Mesa-Montanha é disparado o símbolo do Cabo.

Enorme é a fila pra subir em seu teleférico, e ter o privilégio de ver lá de cima toda a cidade, e o próprio cabo que divide Atlântico e Índico.

Próximas 5: bairros de classe média-alta centrais. Aqui as casas têm muro pois é muito dentro da cidade, não dá pra patrulha armada intimidar a passagem de não-moradores.

Estávamos lá, num dia de sol lindo. De repente, vimos dois menininhos brincando.

Correndo um atrás do outro entre as pessoas da fila, fazendo esconde-esconde, essas coisas.

Riam do fundo de suas almas infantis um pro outro.

Numa cena que faria sorrir até o mais sóbrio dos adultos.

Um dos meninos era negro, o outro branco. Tinham entre 4 e 5 anos.

Não se conheciam até então. Se viram na fila, e a identificação foi imediata.

Nem é preciso repetir que a Mesa-Montanha emoldura, sempre.

Se adoraram, pareciam mais amigos que se fossem primos e se conhecessem desde o nascimento.

Você via em seus olhares essa afeição mútua, essa afinidade sincera que só quem ‘pensa com o Coração’ pode identificar.

E um deles, repito, era escuro como o ébano, o outro era claro como marfim.

Mas pra eles a pele nunca importou, e sim a Sintonia de Almas.

Não tive como não me emocionar, e me emociono agora de novo, quase um ano depois, quando a cena me vem a mente mais uma vez.

Não tive como não lembrar e não prestar um tributo ao Grande Mandela. Bença, Mestre:

Ali, subindo a Mesa-Montanha, que é um Chacra da Terra, que Equilibra as Energias Sutis do planeta.

Em prédios mais baixos os burgueses moram (com 2 BMW’s o perfil fica óbvio).

Essa mesma montanha que deu esperança ao Mestre em seus dias mais sombrios.

Símbolo máxima da Cidade do Cabo da Boa Esperança que se formou a seus pés.

Realmente há esperança: as pessoas não nascem odiando. Elas são ensinadas a isso.

E elas podem ser ensinadas a Amar.

Esses meninos já Sabiam. 

Em Verdade vos digo que aquele que não se fizer criança de novo não adentrará no Reino dos Céus.”

Que todos os Mestres Abençoem o planeta Terra.

Orla da Cidade do Cabo: o ‘apartheid’ acabou, “Somos Todos Iguais”.

………

Depois disso nem há muito mais o que dizer.

Apenas mais imagens pra fechar. A “Riviera do Cabo”, que de tão bela já mereceu uma matéria específica, alias a que abriu a série.

E agora os subúrbios da Zona Norte, de classe média-alta a moda estadunidense.

“Deus Pai e Mãe proverá”

Khayelitsha É África: só eu e Deus na “Zona de Perigo”

Durbã, África do Sul, abril de 2017: pela 1ª vez na vida andei de camburão – mas eu não fui preso, os policias me deram uma ‘carona’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de setembro de 2017

Maioria das imagens batida pessoalmente por mim (incluso essa ao lado, dentro do camburão da polícia em Durbã – não é brincadeira nem montagem!)

Identifico na legenda o que veio da internet.

……

Galera, custou mas solto mais uma matéria. E não qualquer uma, vamos relatar minhas voltas na ‘Zona Vermelha’ da África do Sul.

África do Sul é fogo, mano!!! Não é maneira de falar. O ”Micro-Ondas” (prender uma pessoa entre pneus e incendiar), depois tão popularizado pelas favelas cariocas, foi inventado lá. Soweto, 1990, ainda no ‘apartheid’: um negro queima outro negro. Xhosas e Zulus se mataram entre si violentamente no fim do regime racista. Embora bem amenizadas, as guerras de negros x negros ainda persistem. Essas fotos em P-&-B com legendas vieram do livro “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original). Abaixo a página a capa e mais detalhes. Aqui já valeu pra abrirmos os trabalhos, pra vocês saberem com que vibração estamos lidando.

PARTE 2: DEMOCRACIA – MAS O PAÍS AINDA SANGRA

Bota ‘vermelha’ nisso. Na África do Sul a violência urbana está na estratosfera, exatamente como no Brasil.

Em 2015 a Cidade do Cabo teve mais de 2,4 mil assassinatos. São 3,7 milhões de habitantes, portanto taxa de 65 por 100 mil.

O Cabo é uma cidades mais lindas do mundo. Fiz duas matérias sobre ela, uma radiografia completa com dezenas de fotos e texto longo sobre todos os seus bairros, Centro, periferia e burguesia; e a outra um ensaio fotográfico na sua parte mais rica e mais bela, a “Riviera do Cabo”.

É bela mas é fera. Cenários cinematográficos convivem com cenas de terror, número de homicídios dignos de uma guerra, também uma das mais violentas do planeta, ao lado de Fortaleza-CE e Maceió-AL no Brasil, Baltimore, Detroit e Nova Orleans nos EUA, e várias metrópoles da Colômbia, Venezuela, México e América Central.

Joanesburgo e Durbã estão um pouco menos pior. A violência ainda é altíssima, em ambas além de 30 por 100 mil.

O que as coloca próximas ou um pouco acima do que acontece em Belo Horizonte-MG, Curitiba, Porto Alegre-RS, e o Rio de Janeiro (Ressalto que os dados que eu tenho do Rio são de 2014, e infelizmente houve piora de 3 anos pra cá).

Quase pousando: veja o tamanho das favelas que cercam o Aeroporto na Cidade do Cabo. Todas as casas são de zinco, as famosíssimas ‘Cidades de Lata’ sul-africanas.

Tudo somado, vemos que África do Sul e Brasil estão empatados nessa triste competição. O pânico que as pessoas sentem aqui e lá também é o mesmo.

Andei até de camburão em Durbã, e está relacionado a esse pavor da violência. Mas já chegamos lá. Vamos antes fazer uma recapitulação de como a coisa atingiu nesse ponto:

O ‘apartheid’ oficialmente durou de 1948 a 1994, menos de meio século. Mas na prática 1 século inteiro.

Desde que os brancos pisaram lá, em fins do século 19, existiram leis que proibiam os não-brancos (negros, indianos, chineses) de ocuparem cargos públicos e no clero.

Outra favela da Cidade do Cabo, agora ao nível do solo: um ‘duplex’ de latão.

Em alguns lugares os não-brancos não podiam nem mesmo usar as calçadas, tinham que andar pelo meio das ruas dividindo espaço com os carros.

E numa república africâner (o Estado Livre Laranja, holandês, que depois virou um estado da África do Sul quando os ingleses invadiram) os indianos não podiam sequer residir. O Estado era ‘Livre de Indianos’.

Somente pra eles atravessarem o estado de passagem já era necessário um visto especial.

Favela em Soweto, Joanesburgo, no mesmo modal. Atrás uma cohab que já visava urbanizar o bairro, mas novas invasões tornam a missão ‘o Trabalho de Sísifo‘. Mais pra baixo na página veremos mais fotos desse local. Imagina como é morar numa casa de metal com teto baixo, sem forro e sem janelas. Um pouco quente no verão, será? Quase um ‘micro-ondas’.

Inclusive foi por causa disso que Gandhi (sim, ‘aquele’ Gandhi) viveu 21 anos na África do Sul.

E ali começou sua militância – o plano inicial era ficar apenas uns meses e não se envolver com política.

Mas ele se envolveu porque já havia ‘apartheid’, embora sem esse nome.

Nesses 3 exemplos acima estou falando da virada do século 19 pro 20, meio século antes do ‘apartheid’ oficial portanto.

Claro, depois que esse veio, aí tudo piorou de vez.

Aqui e a esquerda: ‘Cracolândia’ nos trilhos de trem no Centrão de Durbã. Os nóias já moram nessas barracas, é a ‘Cohab da Droga’.

Contei essa história com muito mais detalhes em matéria específica. Aqui o que nos importa é: por todo século 20 os negros (e também os indianos) resistiram ao regime racista.

Nos anos 60 o CNA (Congresso Nacional Africano) iniciou uma ofensiva capitaneada por Nélson Mandela.

Os ‘robozinhos’ saem de buracos nas paredes, como ratos.

Mas logo esse grande líder (que depois viria a ser o primeiro presidente negro sul-africano) foi preso, junto com outros cabeças da resistência negra.

Assim a primeira metade dos anos 70 foi calma. Uma calma injusta, óbvio, os negros como escravos em sua própria terra.

Paz sem voz não é paz, é medo”, como alguém bem definiu.

Klaarwater, Grande Durbã: na maior parte das favelas sul-africanas não há qualquer saneamento, as casas não têm água, que precisa ser buscada numa bica na entrada da favela – Lata d’Água na Cabeça.

Em 1976 explode a ‘Revolta Estudantil de Soweto’, Joanesburgo. A partir daí a África do Sul nunca mais se acalmou.

E já se vão 41 anos no momento que levanto essa matéria pro ar. Em 1984 nova revolta eclode. Assim, na segunda metade dos anos 80 a coisa explode de vez.

O ‘apartheid’, na pessoa do presidente P. W. Botha, abole algumas leis racistas, como por exemplo a que proibia casamentos inter-raciais, e a que impedia negros de possuírem casas na maior parte do território sul-africano.

Também Durbã (essa via ‘Google Mapas’): aqui fica claro, a torneira pro pessoal pegar água. Em verde os banheiros químicos, aqueles que no Brasil são alugados pra obras. As favelas da África do Sul não têm redes de saneamento básico, enfatizo outra vez, então colocam isso aí como paliativo, pra não ser ao ar-livre mesmo. E o esgoto correndo a céu aberto.

Em compensação, o regime racista parte pra ofensiva total contra a resistência negra.

Internamente milhares sobre milhares de ativistas são presos e severamente torturados, dezenas ou mesmo centenas assassinados.

Externamente, a Força Aérea Sul-Africana bombardeia vários países vizinhos, que abrigavam células de grupos políticos banidos na África do Sul.

Mas não adianta nada, a hora chegara. Em 1989 Botha, o “Grande Crocodilo” como era chamado, é afastado, por problemas de saúde.

Voltam as tomadas de minha autoria. Favela em Soweto, Joanesburgo. Novamente em verde os banheiros químicos.

Assume em seu lugar Frederico De Klerk (eu aportugueso os nomes sempre que possível, lembre-se). Ele inicia o desmantelamento do ‘apartheid‘:

Solta Mandela e vários outros presos políticos, legaliza os sindicatos, partidos e demais organizações negras, e prepara o caminho pra democracia.

Ainda Joanesburgo, mas agora na Zona Central: atrás da garagem da Metrobus, mais uma favela – de novo os banheiros químicos em verde.

A extrema-direita dos brancos racistas reage, e inicia uma campanha de terrorismo pra frear a abertura.

De Klerk, pra não levar a culpa sozinho caso a nação fosse esfacelada num banho de sangue, consulta a população num plebiscito (exclusivo pra brancos) se a transição deve continuar.

Felizmente a maioria dos brancos sul-africanos estavam cansados do ‘apartheid’, e referenda nas urnas a iniciativa de De Klerk.

No Centrão de Joburgo há muitos prédios vagos – vários deles invadidos, como esse aqui.

Assim o processo segue, e culmina na eleição de Mandela pra presidente em 1994.

Tudo isso já contei com mais detalhes antes, repetindo. O que é relevante pro nosso tema de hoje:

Na virada pros anos 90 os negros perdem a paciência de vez, e também partem pra ofensiva final.

Intensificam as ações políticas pra queda do ‘apartheid’, o que é excelente e justíssimo, óbvio.

Esse prédio popular (varais no teto, tradição sul-africana) também é atrás da garagem de ônibus.

É cristalinamente evidente que um povo oprimido tem todo o direito de lutar pra romper seus grilhões.

Porém há um efeito colateral: no ano de 1990 os negros iniciam uma guerra entre si. A África do Sul tem diversas tribos africanas na composição de sua população.

Basta dizer que são 11 línguas oficiais, o inglês e o africâner (dialeto do holandês) de origem europeia, as demais 9 são africanas nativas (todas elas agora representadas no dinheiro da nação).

Próximas 2: pedintes no Centro de Durbã. 90% dos sem-teto sul-africanos são negros. Nesse sinal haviam vários, mais alguns na transversal, mesmo sob chuva. Sejam da raça que forem, os que pedem esmola nos faróis do país sempre fazem esse mesmo gesto com as mãos juntas, dizendo ‘pelo Amor de Deus me ajude!’.

Então são várias etnias de negros. Mas as duas principais são o Zulu e o Xhosa.

E na reta final do ‘apartheid’, os negros compreensivelmente estavam no limite, por isso zulus e xhosas iniciam uma guerra uns contra os outros.

Sim, negros contra negros. A coisa foi muito sangrenta.

Houveram fins-de-semana em que os mortos se contaram as dezenas em cada uma das muitas favelas de Joanesburgo e demais cidades do país.

Embora minoria, há sem-tetos caucasianos na África do Sul. Em todas as cidades, mas notadamente em Durbã, onde vi vários, fotografei esse. A definição não ficou das melhores pois cliquei de um ônibus em movimento, e que ainda tinha película nos vidros, escurecendo a cena. Mas amplie e observe com cuidado e lerá que o cartaz dele inicia-se com “Please Help…”.

Sim, os negros também combateram as tropas do ‘apartheid’, óbvio. Mas igualmente se combateram entre si, encarniçadamente.

Eu não conhecia os detalhes dessa história, se quer saber. Mas no apartamento que eu fiquei em Joanesburgo havia um livro, chamado “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original).

Foi escrito por 2 fotojornalistas. Eles e outros 2 cobriram a guerra na África do Sul nos últimos 4 anos do ‘apartheid’ (1990/1994).

Um deles foi morto com um tiro exatamente no meio dessa guerra, com um tiro numa rua de Joanesburgo, em 1994.

Outro se afastou, se eu não me engano acabou se suicidando, não tenho certeza. O fato que ele saiu do grupo.

Sobraram 2, que escreveram o livro, publicando fotos de autoria dos 4 que trabalharam juntos no período crítico.

Eu não pude ler o livro, não houve tempo. A obra é extensa, e fiquei apenas 4 dias nesse apê, andando pelas ruas quase o tempo todo.

Se eu fosse dedicar o tempo necessário pra apreciar esse relato, não poderia eu mesmo ter feito minhas próprias investigações de campo.

Paciência. Se um dia achar esse livro no Brasil, ou na internet, o lerei. Lá na África não teve como. Mas eu fotografei as imagens mais impactantes, e as reproduzo aqui.

Uma imagem que correu o mundo (também do livro). Março de 1994: grupo da extrema direita foi se intrometer no regime de um bantustão. Esses 4 Homens foram executados pelas tropas do bantustão. 3 já estão caídos sem vida, mas o último ainda implora misericórdia, em vão.

Por essas chocantes cenas nós captamos o grau de ferocidade que foi liberado nas ruas sul-africanas no ocaso desse regime racista que jamais deveria ter existido pra conversa começar.

Muito sangue correu, tanto no enfrentamento de negros contra brancos, como dos próprios negros entre si.

O choque político entre as raças não existe mais. O ‘apartheid’ acabou. Os negros estão no poder político.

E uma porção significativa da população nativa de pele escura ascendeu a burguesia, há hoje bairros de elite habitados majoritariamente por negros.

No entanto as favelas ainda são 100% negras. Ou 98%.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo: assim é a reciclagem na África do Sul. Não há separação prévia, tudo é jogado junto, reciclável junto com lixo de cozinha e banheiro. Alguns infelizes miseráveis, que dependem disso pra sobreviver, têm que abrir as lixeiras, separar o que recicla (veja o grande saco branco aberto atrás dele, é ali que ele joga o que vai aproveitar), e fechar de novo. Digo, em alguns bairros ricos há coleta seletiva com separação prévia, mas é raro. No geral é como veem aqui.

Há algumas favelas formadas por brancos, mas são raríssimas. No geral elas são quase sempre reservadas aos de pele escura.

Compõe o problema que a África do Sul, sendo o país mais desenvolvido da África, recebe imigrantes ilegais de todo continente.

A convivência entre estrangeiros e sul-africanos nem sempre é pacífica, criou-se aí mais um foco de tensão de negros x negros.

A classe média é integrada, desde a classe média-baixa até na média-alta há negros e brancos (em Durbã também indianos).

A elite ainda é majoritariamente branca, e há sim brancos pobres (especialmente na Cidade do Cabo), embora minoria.

Ou seja, os brancos sul-africanos ainda detém grande parte dos privilégios econômicos que amealharam em um século de hegemonia tirânica.

Próximas 2: orla da Zona Sul da Cidade do Cabo (a “Riviera”). Um lugar belíssimo, mansões de milionários espremidas entre o morro e o mar. É de cair o queixo de tão lindo!, confira esse ensaio. Várias casas têm seu teleférico particular, é mole ou quer mais?

Ainda assim, a população branca sul-africana vem diminuindo, vários estão emigrando pra diversas partes da anglosfera (EUA, Inglaterra, Austrália).

Seja como for, criou-se uma acomodação entre negros e brancos. Malgrado a tensão política, não há derramamento de sangue atualmente.

O mesmo não se pode dizer entre os próprios negros. Entenda, não é uma questão racial, e sim social.

Não estou sendo racista, e dizendo que o branco é mais pacífico, exatamente o contrário é verdadeiro.

Mas a concentração de renda é altíssima. A mesmo cena, rapaz negro revira o lixo em busca de algo reciclável pra revender.

Primeiro, a raça branca é quem comanda o capitalismo global, e é a raça branca quem mata milhões em suas guerras de pilhagem mundo afora.

Apenas no Iraque foram mais de 2 milhões de mortos contando desde 1991 (alguns falam em 3), e no Vietnã mais de 4 milhões, pra citar apenas 2 guerras de agressão dos EUA.

Segundo, os brancos já se mataram muito entre si, na Europa e em toda parte. A história da Europa é de grande derramamento de sangue, até a Segunda Guerra Mundial.

Próximas 3: veremos 3 favelas diferentes em Soweto, Zona Oeste de Joanesburgo.

Apenas nas últimas décadas os europeus se acalmaram um pouco e não se matam tanto entre si.

Agora dirigem suas baterias contra países mais fracos que não podem se defender, como fizeram com a Líbia em 2011.

Além disso, no Sul do Brasil é sabido que  a periferia das grandes e médias cidades têm enorme contingente de euro-descendentes.

Observe as pedras pro telhado não voar com o vento, manifestação universal que eu também fotografei na Argentina (breve no ar).

E ali brancos matam brancos com a mesma frequência que negros matam negros na África do Sul.

O mesmo ocorre nos EUA, milhares de caucasianos são assassinados todo ano por outros caucasianos.

No passado, brancos guerrearam entre si de forma absolutamente brutal, na Europa e também na África.

Ainda Soweto. A frente uma invasão, as casas ao fundo não pertencem a favela. Destaquei o painel solar. Na África do Sul a reciclagem ainda engatinha. Em compensação, o uso de energia solar é mil vezes mais desenvolvido que no Brasil. Mesmo a periferia, mesmo na borda da favela.

Se alguém não sabe, foram os ingleses quem inventaram o campo de concentração. E inventaram na África do Sul, prendendo os holandeses na ‘Guerra dos Bôeres’.

Prendendo os civis, eu digo. Homens não-combatentes e Mulheres. A mãe de P. W. Botha (penúltimo [e ultra-racista] presidente branco sul-africano) foi encarcerada pelo Exército Britânico num campo de concentração.

Mesmo sendo do sexo feminino e não tomando parte nos combates. Ao lado dela foram outras dezenas de milhares.

Mesmo na África do Sul contemporânea, os brancos ainda cometem assassinatos entre si. Quando estava na Cidade do Cabo, a mídia sensacionalista deva grande destaque ao julgamento de um sul-africano de ascendência europeia.

Ele era acusado de ter chacinado toda sua família – com golpes de machado, nada menos. O para-atleta caucasiano sul-africano André Pistorious também foi condenado e preso por matar sua igualmente alvíssima namorada.

Próximas 10: vamos mostrar Atlântida (‘Atlantis’ no original). Uma cidade pequena e pobre. Ainda pertence a região metropolitana da Cidade do Cabo, mas é bem distante, são 40 km, é preciso pegar mais de 1 hora de estrada. Começo mais uma vez destacando o painel solar. Na África do Sul usar a energia do Sol não é brincadeira de burguês, quase um passatempo de de gente rica. Não. Veja a imagem, uma casa simples, na periferia de um subúrbio afastado e esquecido. Ainda assim, utilizando esse modal.

Escrevi todos os parágrafos acima pra mostrar que não, eu não sou racista. Não estou dizendo que os de pele clara são pacíficos ou civilizados, e que os de pele escura são brutalizados por serem instintivos.

É uma questão social, e não racial. Onde brancos habitam em grande número as favelas, se matam entre si em profusão, por exemplo aqui em Curitiba.

E nos bairros negros da alta-burguesia, na África do Sul ou toda parte, os homicídios são raríssimos quando não inexistentes.

Claro, também não estou dizendo que quem tem dinheiro é mais evoluído espiritualmente, porque o contrário geralmente é que é verdadeiro.

Quem acompanha meus textos há mais tempo sabe muito bem o que penso das Oligarquias, a ianque e todas as outras.

Apenas é um fato, os barões oligacarcas muitas vezes eliminam outros seres humanos, mas rarissimamente o fazem com as próprias mãos.

Periferia típica sul-africana (muito parecida com a do Paraguai). O carro é Golf, já falo mais disso

Podemos discutir filosoficamente as razões disso, mas não podemos negar que é assim.

As vezes acontece, recentemente os casos Nardoni e em 1988 o da ‘Rua Cuba’ no Brasil e o próprio Pistorious na África do Sul são as exceções que confirmam a regra.

Com essas poucas exceções, os bairros ricos e de classe média-alta quase não têm assassinatos, no continente do mundo que forem e habitados por qualquer raça.

Esses muros pré-moldados fazem sucesso lá. No Brasil idem. No bairro que fui criado (Santa Cândida, Z/N de Ctba) haviam casas que utilizavam.

Enquanto que as favelas e guetos são quase sempre violentos, em toda parte e independente do tom de pele majoritário.

……….

Desculpe toda essa justificativa, é só pra que não tenham a impressão errada e achem que sou racista ou qualquer coisa do tipo. Eu não sou. Apenas analiso os fatos. E os fatos são:

As favelas e periferias da África do Sul estão imersas em um banho de sangue.

Casa nº 64. A próxima a esquerda é a 62, e a 1ª a direita é a 66. Na África do Sul a numeração é diferente do Brasil. Bauru-SP segue um sistema único (também adotado na Colômbia), em que as quadras são numeradas, e aí as casas são contadas em relação a quadra e não a rua. Brasília-DF também criou um novo modal, digamos até um novo paradigma, pois Brasília é uma cidade peculiar em múltiplas dimensões. Mas no geral no Brasil as moradias são numeradas conforme a metragem da rua ou avenida. Na África do Sul é diferente, repito. De um lado da rua são as pares, do outro ímpares. Isso é igual no Brasil. Mas na África do Sul a numeração não segue metragem. A 1ª casa do lado ímpar é a ‘1’, depois vem a ‘3’, a seguir a ‘5’, e assim vai. Idem na outra face: a primeira casa é ‘2’, sua vizinha é a ‘4’, etc. Pra fechar esse tema, revelo que minha rua, a ‘Ciclovia’, segue o modelo sul-africano. Mas aqui é ocupação irregular (Canal Belém, Boqueirão), logo a numeração também é irregular.

O que começou como uma rebelião contra o ‘apartheid’ rapidamente desandou pra um violento acerto de contas entre as tribos negras, processo que embora amainado ainda não terminou.

Some-se a isso a violência comum, “que não envolve política”. Entre aspas porque todo processo social é político.

Quando países como África do Sul e Brasil (e boa parte da América Latina e também dos EUA) se tornam extramente violentos, as causas são políticas, e a solução também o será.

Mas por “não envolver política” eu digo por não envolver grupos e objetivos políticos, apenas quadrilhas comuns brigando por butins ou territórios.

Ou então cidadãos trabalhadores mas que quando embriagados/drogados matam suas esposas ou outros Homens no bar por motivos fúteis.

O resultado é esse aqui: Cidade do Cabo, 2.451 homicídios em 2015. Com uma população de 3,7 milhões, dá 65 mortes/ano por 100 mil moradores. Índices de guerra.

Nesse caso é a população da ‘prefeitura metropolitana’. A divisão política da África do Sul é diferente da nossa, lá há 4 esferas de governo, e não 3 como aqui.

O que seria o ‘condado’ dos EUA na África do Sul tem sua própria gestão, a ‘prefeitura metropolitana’ que citei acima.

Joanesburgo, 4,4 milhões, teve 1.344 mortes intencionais no mesmo ano, 30 por 100 mil.

Nesse caso não inclui toda região metropolitana, pois a Grande Joanesburgo já tem quase 10 milhões, bem mais de 8 com certeza.

O governo entregou uma casa de cohab, de alvenaria. O cara faz por conta no fundo um ‘puxadinho’, de papelão e madeirite.

Durbã teve 1.237 assassinatos no período. Com 3,4 milhões na ‘prefeitura metropolitana’ de eThekwini, temos 35 pra 100 mil.

(Nota: eis o nome nativo pra ‘Durbã’, assim mesmo, com a inicial minúscula e a letra maiúscula no meio da palavra, obviamente a gramática zulu é bem diferente da ocidental.)

Todas as grandes cidades sul-africanas são bastante violentas. Vou analisar só as 3 maiores. Vejamos como a coisa oscilou no decorrer das últimas décadas.

Há 3 termos pra dizer ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’ na África do Sul: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’. Outro detalhe: a Coca-Cola é oni-presente no país. Seu logo está em 90% das fachadas dos mercadinhos, mas não apenas isso. Seu braço é tão comprido que mesmo várias floriculturas, farmácias, enfim, estabelecimentos que não vendem alimentos como atividade principal, têm seu letreiro pago pela Coca-Cola. Falo melhor dos refris, incluso com fotos, em outra postagem (breve).

Primeiro, houve uma reversão de polaridade. Historicamente, entre as 3, Joanesburgo sempre foi a mais violenta, desde a era do ‘apartheid’.

E a Cidade do Cabo a mais calma. Agora houve uma inversão, como vimos.

Durbã, por outro lado, estava em segundo antes, e se mantém. As pontas é que trocaram de lado.

E crítica como a coisa está, já foi pior. A virada dos 80 pros 90, o apagar das luzes do ‘apartheid’, marcou a explosão da violência, que se manteve e se acentuou no mandato de Nélson Mandela.

Quando virou o milênio, Durbã tinha mais que o dobro, quase o triplo da violência atual. Chegou a registrar 80 assassinatos por 100 mil habitantes.

Ou seja, está crítico mas já foi muito, mas muito pior, calamitoso no sentido exato do termo.

Ainda estamos em Atlântida, próximo a Cid. do Cabo. Vamos ver agora as cohabs em pombais, que são muito comuns lá. Nesse caso, como o teto é com telhado e não com laje, o varal é no chão.

A mesma redução se deu em Joanesburgo. Já o Cabo ainda está por dar esse passo, ali a violência está no pico, infelizmente.

………

Comparemos com o Brasil, nesse caso os dados são de 2014:

Fortaleza, com 1.989 homicídios, tristemente ocupou o triste recorde de município mais violento do Brasil, em termos absolutos.

Proporcional a população, 73 por 100 mil, pior que a África do Sul.

Puxadinho no prédio, como também fazem no Chile.

Maceió é um pouco menos pior, 69/100 mil. No ano anterior fora mais sinistro.

Em 13 a capital de Alagoas teve nada menos que a pavorosa taxa de 81 assassinatos pra cada 100 mil habitantes.

Salvador em 14 teve 1.397 casos. Como a população é bem maior que a de Fortaleza, ficou em 48 por 100 mil.

Aqui fechamos Atlântida, na Gde. Cidade do Cabo. Muito, mas muito parecido com o Chile, me senti de volta em Maipú, Z/O de Santiago.

Em 2013 a capital da Bahia havia virado acima de 50.

Em São Luiz do Maranhão em 2013 foram quase 70 mortos por 100 mil habitantes, em 14 houve boa redução pra 61.

Ainda assim, apenas um pouco a menos que o aquilo que a Cidade do Cabo teve no ano seguinte.

Segura essa: clínica alerta contra “falsos médicos vendendo pílulas na rua e dizendo que trabalham aqui“. Em pleno Centrão de Joanesburgo. Isso também é a África do Sul, amigos!

Em Curitiba em 2014 houveram 30 mortes por 100 mil moradores. Índice altíssimo, apenas um pouco melhor que na África do Sul. Mas que já foi bem mais macabro.

No ano de 2010 Curitiba teve 979 assassinatos, o que fez com que o número por 100 mil ficasse em 55 (breve levanto pra rede levantamento detalhado desse desastroso período):

Atrás apenas de Maceió, João Pessoa-PB, Vitória-ES, Recife-PE e São Luiz.

Alias Maceió em 2010 virou acima de 100 por 100 mil, ou seja, eram tantas mortes lá que de cada mil maceioenses mais de um foi assassinado naquele ano.

Até a Força Nacional Federal teve que intervir pra baixar um pouco essa carnificina.

No Sudeste, Belo Horizonte teve 24 de seus moradores assassinados pra cada grupo de 100 mil em 2014, no Rio foram 20.

Sem-tetos dormem pelas ruas e praias do país. Na orla do Cabo uma Mulher branca, os demais africanos nativos.

Embora lamentavelmente na capital carioca tenha havido novo aumento de lá pra cá.

E São Paulo hoje é a capital menos violenta do Brasil, pelo menos no quesito de um ser humano tirar intencionalmente a vida de outro.

Foram 1.360 desses crimes em 2014. Mas divididos por 11 milhões de habitantes vemos que o índice é 11 por 100 mil, número que não faria feio na Europa.

Bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo, onde ficamos hospedados. Logo atrás de onde dorme o sem-teto da foto anterior mora uma família que mostra solidariedade a Palestina. Pelos negros sul-africanos (e também os indianos) terem sofrido por tanto tempo o ‘apartheid’, em várias partes há protestos pela forma com que Israel trata os palestinos. Organizações sionistas contra-atacam e espalham cartazes dizendo que Israel é “democracia”.

Nota: eu sei, em termos de roubos a maior metrópole brasileira continua violentíssima. Eu sei. Aqui falo somente do quesito de assassinatos.

Não é agradável quando alguém lhe tira seus bens de forma violenta – definitivamente não é.

Ainda assim é óbvio que ter a oportunidade encarnatória interrompida violentamente é bem mais traumático.

Então embora falte muito por fazer, precisamos reconhecer que pelo menos nesse ponto importantíssimo houve avanços.

Não apenas em São Paulo, diversas cidades brasileiras hoje estão mais calmas em relação aos anos 90 e 2000, mas SP teve a maior redução.

A capital paulista já teve 5 mil assassinatos por ano, hoje fica pouco acima do 1º milhar.

Bem, teve menos assassinatos que Durbã, cuja população é mais de 3 vezes menor.

……….

Brancos no Centro do Cabo, onde eles são muito comuns. No Centro do Durbã e Joanesburgo não há caucasianos. Simplesmente não há.

Portanto essa é a situação. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste Brasileiros são violentos, mas um pouco melhores que a África do Sul.

Enquanto que o Norte e Nordeste de nossa pátria têm no geral índices similares as maiores metrópoles sul-africanas.

Curiosamente, hoje a periferia da Cidade do Cabo é bem mais sangrenta que as de Durbã e Joanesburgo. Mas seu Centro é mais civilizado.

A Cidade do Cabo é cidade mais integrada da África do Sul. No Cabo você brancos aos montes no Centro. Aos montes.

Fotografei uma viatura no Centro de Durbã. Vejam o que é o ‘6º Sentido’: já visitei centenas e quem sabe milhares de cidades em boa parte do Brasil, vários países da América e agora África. Nunca havia fotografado um carro de polícia, porque esse não é um tema que me interesse estudar. Em Durbã, o fiz. Mal sabia eu que 2 dias depois estaria dentro de um deles, coisa que igualmente nunca havia me ocorrido. Digo, eu não sabia conscientemente, mas de alguma maneira, em outra dimensão, eu sabia, e por isso houve a foto. É possível prever o futuro, não?

Não apenas o brancos ainda moram no Centro, como também trabalham ali, e não têm medo de sair as ruas.

Em Pretória, ainda que em escala menor, a situação se repete. Retratei na foto acima a direita.

Já em Joanesburgo e Durbã é completamente o oposto. Não há brancos nos Centrões de Joanesburgo e Durbã. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Logicamente toda regra tem exceção. Se você for muitas vezes ao Centro dessas metrópoles, muito de vez em quando você vai trombar com um euro-descendente, é evidente.

Vai acontecer, não é proibido, então a norma não é absoluta. Mas será raríssimo, é mais fácil você achar uma nota elevada de dinheiro que uma família de brancos no núcleo central dessas metrópoles.

Digo, há alguns sem-teto brancos, especialmente em Durbã. A imensa maioria dos sem-tetos sul-africanos são negros, eu diria que 95%.

Não deu outra. Aqui estou eu, pela 1ª vez na vida dentro de uma jaula. Mais abaixo no texto dou os detalhes.

Porém há alguns caucasianos. Fotografei uma Mulher sem-teto que dormia numa praia da Cidade do Cabo, viram acima.

Mas, digo ainda mas uma vez, em Durbã foi a cidade que mais vi moradores de rua euro-descendentes, de pele alva. Vários.

Inclusive eu andava por uma rua da parte barra-pesada do Centrão de Durbã, e um sem-teto branco, sem que eu pedisse, veio me orientar:

Os sul-africanos são muito calorosos, e gostam que tirem fotos deles. No Centro de Pretória, quando essa moça viu que eu clicava a cidade, pediu que eu registrasse seu retrato, situação que se repetiu em Durbã e Joanesburgo. Atrás dela a vitrine mostrava vestidos de noiva. Ela disse “aqui não, porque eu já sou casada”. Demos uns passos pro lado e “1, 2, 3, diga ‘xis’ “, e aqui está ela, fazendo poses com as mãos e tudo mais.

“Não entre nessa rua, é muito perigoso”, ele apontou numa direção na esquina. “Muito perigoso”, enfatizou.

Além dele, vi outros mendigos caucasianos nessa cidade, um deles morava sob as marquises no mesmo bairro que ficamos.

Claro, mesmo em Durbã a imensa maioria dos que não têm casa são negros. Apenas ali há uma minoria significativa de brancos, que não vi nas outras cidades.

Isso estou falando de moradores de rua. Eles são (praticamente) os únicos brancos no Centrão de Durbã.

As praias de Durbã são plenamente integradas, negros, brancos, indianos, todos estão ali, incluso há casais inter-raciais.

Estava num restaurante da orla de Durbã, e era curioso. Nas próximas 4 mesas haviam 2 famílias de negros, 1 de brancos e 1 de indianos.

Nas areias, dentro d’água e no calçadão todos convivem em plena harmonia.

Fotografei a direita uma escola particular que levou seus alunos de pele alvíssima pra uma aividade a beira-mar.

Mas no Centrão, só negros e indianos, nenhum branco (exceto sem-tetos, aqui não me refiro a eles).

Joanesburgo não tem mar, então não vi nenhum branco no Centro, nem mesmo dormindo nas ruas.

Comércio atendendo gradeado em Joanesburgo. Mesmo de dia, mesmo no Centrocomo na Colômbia (nota: a cliente tinha um defeito físico na cabeça, por isso ocultei ainda que ela estivesse de costas).

E, sim, boa parte do Centrão de Joburgo está bem detonado, ali nem os negros de classe média vão, só a ralé.

Vou explicar pra vocês entenderem. O Centrão de Joanesburgo pode ser dividido em 2 partes, Centro Velho e Centro Novo.

O Centro Velho é horroroso. Um gueto enorme. Muito lixo nas ruas, muito crime, forte cheiro de urina em algumas partes, casas e prédios abandonados, vários deles invadidos.

Camelôs, confusão total. Ali, repito, nem mesmo os negros que são de classe média têm coragem de frequentar. É só povão mesmo, muitos deles nem são sul-africanos:

Por toda Soweto essas placas de rua contam a história do ‘apartheid‘. Amplie pra ler, o nome (acrônimo de ‘South-Western Township’, algo como ‘Assentamento Sudoeste‘) foi escolhido em 1963 após um debate de 4 anos. Em 68 decidiram que as Mulheres não poderiam ser proprietárias de casas. Não pude ler ou fotografar mais porque não andamos a pé em Soweto, fomos de ônibus urbano normal, sem qualquer guia ou acompanhante, mas nem saímos do terminal, dali retornamos ao Centro. Essas foram as que consegui clicar do veículo em movimento. Pude ler de relance que outra placa dizia “Um lugar onde se passava fome”.

Nigerianos principalmente, mas imigrantes também de vários outros países africanos tomaram conta de vários quarteirões pra si.

Em muitas ocasiões a convivência com os sul-africanos não é pacífica, diversas campanhas contra a xenofobia tentam pacificar os ânimos, nem sempre com sucesso.

Já o Centro Novo de Joanesburgo é limpo e civilizado. Hotéis, restaurantes e comércio sofisticados garantem uma freguesia requintada:

Homens e Mulheres em roupas e carros caros. Ali, os camelôs são proibidos, e os garis deixam ruas e jardins impecáveis.

Mas mesmo nessa parte agradável e mais segura não há brancos, só negros.

Aqui e a direita, catadores de material reciclável. Esse em Soweto, Joanesburgo – a frente dele as oni-presentes vans, quase todas são brancas e Toyota como essa.

E não é que não existam brancos na Grande Joanesburgo. Ao contrário, são 1,5 milhão de Homens e Mulheres de ascendência europeia.

Isso se você aceitar a cifra de 10 milhões de habitantes, que eu acho que é correta.

É que os brancos de Joanesburgo se impuseram um auto-‘apartheid’:

Vivem e trabalham nos subúrbios a moda ianque nas Zonas Norte e Leste da cidade, deixando o Oeste, Sul e o Centro pros negros.

Mesma cena em Pretória, catador de lixo perto de van Toyota branca. Embora ali essa marca também predomine, em Pretória – e somente em Pretória – há expressiva minoria Volkswagen, curiosamente cliquei 2 da mesma cor.

(Nota: não muito diferente dos brancos de Acapulco. Os ricos – única classe social que os brancos são maioria no México – moram e trabalham nos subúrbios próximos ao aeroporto. 

Acapulco é uma baía cercada e portanto emoldurada por uma serra. A elite mora ‘do outro lado do morro’, e jamais cruza a montanha.

Pra não se misturar com o povão, que tem pele bem escura mas não como afro-descendente, e sim índios, amero-descendente.)

Cracolândia no Centro de Durbã – ao perceber minha atividade jornalística, um noiado correu até mim e intimou: “Ei, ei, por quê essas fotos? Qual o problema?” Rapidamente lhe dei alguns trocados e ele se acalmou.

Atravessamos o Oceano de novo, de volta a Joburgo. Não por acaso SoWeTo’ é a sigla em inglês pra ‘South-Western Townshp’ (Assentamento Sudoeste).

Pois no ‘apartheid’ o Sul e o Oeste eram onde moravam os africanos nativos.

Mas na época do regime racista, os brancos trabalhavam no Centro, pois a polícia altamente militarizada ‘mantinha os negros no seu lugar’.

Depois da democratização essa intensa repressão não foi mais possível, os negros tomaram posse de suas cidades e passaram a usufruir mais o Centrão.

Antes eles trabalhavam ali, mas qualquer aglomeração de negros fora do local de trabalho era debandada de forma rápida pelas forças de segurança. Agora os africanos nativos são livres pra circularem e se associarem onde e como quiserem. Em ‘retaliação’, hoje são os brancos quem não pisam mais por ali.

Sim, com a ascensão de uma recém-surgida alta-burguesia negra, as mesmas divisões de classe surgiram dentro da raça negra:

Também Centrão de Durbã. A África do Sul está num movimento de substituir os nomes de rua europeus por africanos. Nessa esquina os dois logradouros já cambiaram: a “Doctor Pixley KaSeme Street” é a antiga ‘West St.’. Cruzando aqui com a “Dorothy Nyembe Street”, que antes se chamava ‘Gardiner St.’

Os mais ricos ficam de um lado do Centro, os mais pobres junto com os imigrantes de outros países da África de outro.

A cor da pele pode ser a mesma, mas como a classe é diferente, fica cada um na sua, num ‘mini-apartheid’ interno.

Mas em relação aos brancos a divisão espacial é ainda mais acentuada. Se entre negros pobres e ricos cada um fica no seu lugar no Centro, os brancos não vão mais ao Centro, enfatizo ainda mais uma vez.

Os brancos atualmente trabalham em Sandton, um subúrbio da Zona Norte a moda ianque que é o ‘Novo Centro’ de Joburgo, ao menos pros de pele clara.

Evidente, há negros em Sandton também, agora não se pode mais impedir a entrada deles em qualquer parte. Mas ali ainda há maioria branca.

No Centro de Pretória esse movimento fica ainda mais evidente. Risca ‘Church St.’, não existe mais. A via agora se chama “Stanza Bopape St.”. A transversal é a Rua Steve Biko. Como nessa a mudança é mais antiga as pessoas já assimilaram, não existe a denominação anterior. Mas obviamente essa via (que já existia, é antiga pois estamos bem no Centrão) não tinha esse nome no tempo do ‘apartheid’, uma vez que Steve Biko era inimigo do regime, alias foi severamente torturado e morreu em consequências dos ferimentos que sofreu nas delegacias da polícia política racista (‘SAP’) sul-africana.

No Centrão, seja na parte limpa ou na suja, não há brancos, digo de novo pra encerrarmos Joanesburgo. Agora, no Centrão do Cabo há, e aos montes.

Pelo que lhe falei, Joburgo e Durbã são segregadas. Não legalmente, e agora invertido. Os brancos podem ir ao Centro se quiserem, mas preferem ‘não, obrigado’.

Viajei por via aérea de Joanesburgo a Durbã. No avião e no aeroporto, os brancos eram maioria.

Pois entre a classe média-alta nessas duas cidades os euro-descendentes ainda são maioria, embora não mais oni-presentes como antes.

Apenas optaram pela auto-segregação. ‘Consciência pesada deles’, me disseram os negros quando perguntei do tema.

A Cidade do Cabo não é segregada, disse tudo isso pra chegar a esse ponto.

Os brancos não apenas trabalham no Centro, como transitam sem medo pelas ruas. Mais: eles ainda moram nas imediações.

De volta a Durbã. Na Zona Central da cidade há esse centro administrativo que congrega diversas secretarias municipais. Antigamente na ‘Rua do Forte Velho’, que homenageava a fortaleza construída pelos ingleses, que lhes ajudou a vencer várias guerras contra os holandeses e os negros. O prédio continua no mesmo lugar, mas a avenida agora se chama “K. E. Masinga Rd”. Outro detalhe é idioma. Notam que a construção pública, da época do ‘apartheid’, era bi-língue em inglês e africâner. Porém depois da democratização baniram o africâner de Durbã, toda comunicação visual é em inglês e zulu. As placas antigas permanecem, mas nas novas não existe mais africâner, reitero. Um ‘apartheid’ invertido, antes o africâner era compulsório, o zulu banido, agora é ao contrário. Não precisa proscrever uma pra outra entrar, a comunicação poderia ser tri-língue, inglês, zulu e africâner, contemplando a todos. Alias, o semáforo em frente a esse prédio é assim, a única placa tri-língue que vi em toda Durbã, além da fachada de um quartel do exército.

Coloco isso porque os brancos vão as praias do Centro de Durbã, mas não residem nem remotamente perto. Vão de carro.

No Centro do Cabo é diferente. Digo, a maior parte  dos de pele clara moram em subúrbios segregados – não politicamente mas em termos econômicos:

Não é proibido por lei um negro morar nesse bairros de elite. Simplesmente a maioria deles não têm dinheiro pra fazê-lo.

Então, retomando, boa porção da classe média euro-descendente vive em subúrbios afastados, e, sim, se locomovem de automóvel até seus escritórios no Centro.

Mas não todos. Está sendo feito um bairro pra ricos, muito parecido com o Porto Madeiro de Buenos Aires, se você conhece a capital argentina.

São elegantes prédios com canais artificiais entre eles, o que permite aos moradores remarem estando literalmente na porta de suas casas. Uma ‘Veneza (Itália) moderna’.

Dando um tempo pra política e vendo coisas mais belas e amenas. E bota beleza nisso!! Emoldurada por esse belíssimo firmamento celeste, a Mesa-Montanha – que é um ‘Chacra de Gaia’, a Mãe-Terra, se você tem ‘ouvidos de ouvir’. Aos pés dela, pra levar a galera até a bilheteria do teleférico, um buso do sistema de transportes ‘Minha Cidade’. Céu e um moderno ônibus, tudo azulmesma cena que fotografei no Chile, apenas lá era articulado e aqui micro.

Os brancos sul-africanos adoram caiaques, se você não sabe. Vi vários praticando esse esporte, nas praias do Cabo e Durbã, e nos subúrbios abastados de todas as cidades.

Pois bem. A Cidade do Cabo não apenas é a menos segregada de todas, como ela quer des-segredar ainda mais.

Por isso está fazendo esse bairro pra elite, em pleno Centro. Como a elite ainda é majoritariamente branca, isso mostra que o Cabo quer mais brancos em seu Centro.

Vamos colocar de forma mais apropriada: não é uma questão de raça, mas de classe. O Cabo quer os ricos morando no Centro. Uma boa parcela deles serão brancos.

Mas com o crescimento expressivo da alta-burguesia negra (que tende a aumentar e se consolidar nas próximas décadas) vários dos habitantes desses prédios de luxo serão negros.

Agora com céu nublado, mais uma tomada do bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo. A herança norte-europeia (inglesa e holandesa) está evidente no conjuntinho de casas alinhadas. A cidade é numa península, alias é exatamente o que ‘cabo’ quer dizer. Por isso, em qualquer parte das Zonas Sul e Central (e começo da Leste e Norte, não existe Z/O pois seria dentro do mar) você vê a cadeia de montanhas como espetacular pano de fundo.

Segregação econômica sem dúvidas, pois a África do Sul é 3º Mundo.

Mas racial não. Se você pode pagar, brancos, negros, mulatos, indianos, orientais, todos são bem-vindos ao Centro do Cabo.

É a situação ideal? Óbvio que não. Mas considere o passado da África do Sul (em que a lei separava brancos de negros, mestiços e indianos, com privilégios pros primeiros).

E compare com as outras cidades sul-africanas atuais (auto-segregação imposta pelos brancos).

Além disso, por seguir o modelo de urbanização ianque, geralmente os ricos e a classe-média alta moram muito longe do Centro, e só se locomovem de automóvel.

O mesmo céu sem nuvens, e de novo um ônibus, agora 2-andares. Centro de Joanesburgo: Praça Gandhi, o terminal das linhas (não-integradas) da viação Metrobus, proprietária desse Volvo/ Marcopolo brasileiro, que dorme na garagem que vimos acima, em cujos fundos há a favela.

Ali no Cabo estão atraindo pessoas que, ao contrário, muitos deles darão prioridade pro deslocamento a pé, de bicicleta e mesmo de ônibus. Sim, existe a segregação econômica.

Mas sem segregação racial nem espacial, gente com bastante dinheiro de todas as raças vai a pé trabalhar, pois é só atravessar a rua. Os tons de pele convivem e não queimam carbono.

Dentro das atuais condições, é um avanço. Não podemos deixar a utopia travar o avanço do que é possível nesse momento. Pois esse avanço será a semente de avanços maiores no futuro.

O Centrão da Cidade do Cabo tem partes feias e sujas, claro, é uma metrópole conturbada e injusta de 3º Mundo.

Mas é muito mais limpo e seguro que os Joanesburgo e Durbã, sem comparação possível. E por isso a classe média, de todas as raças, se sente a vontade por ali.

………

Edifício abandonado do Hotel Carlton, o símbolo da decadência do Centro de Joanesburgo. Inaugurado em 1903 num antigo prédio de 6 andares, era um dos hotéis mais luxuosos da África e mesmo do planeta – por exemplo, mais de um século atrás foi o primeiro do país a oferecer o serviço de telefone no quarto, além de uma forma rudimentar de ar-condicionado. Na década de 60 decidiram construir um enorme complexo, com esse prédio de 30 andares pro hotel, um edifício comercial anexo com 50 andares, e mais um centro de compras. Tudo foi inaugurado em 1972. Dez anos mais tarde, ainda fizeram um anexo de luxo do outro lado da rua, ocupando mais uma construção de 6 andares, uma passarela suspensa sobre o rua os interligava. A história do Carlton é gloriosa, em 1947 recebeu a família real inglesa: o rei Jorge 6º e sua esposa a rainha Elizabete, e suas filhas, as princesas Elizabete (a atual rainha) e Margarete. Entre políticos e cantores euro-estadunidenses, foram hóspedes do Carlton: Henry Kissinger, François Mitterrand, Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Whitney Houston and Mick Jagger, entre outros. Nos salões do Carlton ocorreram momentos-chaves tanto do ‘apartheid’ que tentava se manter como de sua queda. Foi ali que o primeiro-ministro linha-dura do regime racista P. W. Botha anunciou um plano ‘de união nacional’ (só entre brancos, claro) pra tentar salvar o ‘status quo’, em 1979. Não deu certo, na década de 80 a oposição interna e externa ao ‘apartheid’ chegou no auge, quando Botha como último cartucho extinguiu o parlamentarismo e se auto-nomeou presidente com plenos poderes, o que também não funcionou. Mandela foi solto e eleito presidente. E foi ali no Carlton que, em 1994, Mandela fez a ‘convenção da vitória após ser eleito, anunciando a nova era que amanhecia na África do Sul.Tudo isso mostra a importância desse hotel pra cidade e mesmo nação. Mas nos anos 80 o boicote ao ‘apartheid’ minou o fluxo de turistas. Depois da democratização acharam que a coisa melhoraria, mas aí foi a decadência urbana quem cobrou seu pedágio. O Centro de Joanesburgo hoje é um grande gueto. Quase ninguém de classe média tem coragem de ir ali, sejam moradores da cidade e muito menos turistas. Em dezembro de 1997, o Carlton veio a pique e cerrou as portas. Um semestre depois o anexo de luxo do outro lado da rua também encerrou as atividades. Permanecem abertos o centro de compras com sua praça de alimentação, e o edifício de 50 andares que abriga os escritórios – no alto dele há um mirante, foi dali que cliquei a garagem de ônibus que viram mais pro alto da página. Como triste lembrança, o mirante ainda está decorado com muitas fotos que mostram a construção e operação do hotel nos seus dias de glória, agora só um passado distante. É uma pena.

Há partes do Centrão de Joanesburgo que a situação é desesperadora, no melhor sentido do termo. Por isso o Hotel Carlton (dir.) não aguentou o baque e fechou as portas em 1997.

O mesmo vale pra Durbã. Alguns prédios dessa cidade têm na portaria portas giratórias de metal enormes.

Aquelas que no Brasil só são encontradas nas estações de trem de subúrbios e na portaria das fábricas.

Sabe como é, não? Têm barras de ferro de cima a baixo e só gira num sentido, não há como fazê-la voltar ou ela trava, pra evitar evasões. Então.

Em Durbã, repito, alguns prédios contam com esse equipamento, em pleno Centro, pra impedir a entrada de ladrões e sem-tetos.

Andava eu pelo Centrão dessa cidade. Vocês viram nas imagens da Cracolândia que há nos trilhos. A coisa é horrorosa, o mais forte sobrevive.

E não apenas ali. Nas ruas de uma parte abandonada próxima a estação de trens o mesmo se repete, embora não tão concentrado.

Então, e é aqui que eu entro na história. Sou cascudo em circular e mesmo em fotografar as regiões mais barra-pesadas de várias cidades da América e agora também da África.

Sou sensato e bom observador, sei avaliar o local e momento mais seguros de puxar a máquina discretamente, clicar e rapidamente guardar o equipamento.

Foi assim que já documentei de forma ricamente ilustrada várias favelas, periferias e bocas-do-lixo nesses 2 continentes acima citados. E nunca havia sido abordado agressivamente por ninguém.

Muitas vezes as pessoas perceberam que eu estava fotografando, algumas até falaram comigo, mas nunca ninguém me tirando satisfações – digo, isso me refiro aos moradores.

Com as forças de segurança várias vezes os encontros foram tensos:

Em Buenos Aires a polícia me cercou com 5 agentes (4 Homens e 1 Mulher), revistaram meu equipamento e apagaram algumas imagens, como já contei antes.

Em