Khayelitsha É África: só eu e Deus na “Zona de Perigo”

Durbã, África do Sul, abril de 2017: pela 1ª vez na vida andei de camburão – mas eu não fui preso, os policias me deram uma ‘carona’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de setembro de 2017

Maioria das imagens batida pessoalmente por mim (incluso essa ao lado, dentro do camburão da polícia em Durbã – não é brincadeira nem montagem!)

Identifico na legenda o que veio da internet.

……

Galera, custou mas solto mais uma matéria. E não qualquer uma, vamos relatar minhas voltas na ‘Zona Vermelha’ da África do Sul.

África do Sul é fogo, mano!!! Não é maneira de falar. O ”Micro-Ondas” (prender uma pessoa entre pneus e incendiar), depois tão popularizado pelas favelas cariocas, foi inventado lá. Soweto, 1990, ainda no ‘apartheid’: um negro queima outro negro. Xhosas e Zulus se mataram entre si violentamente no fim do regime racista. Embora bem amenizadas, as guerras de negros x negros ainda persistem. Essas fotos em P-&-B com legendas vieram do livro “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original). Abaixo a página a capa e mais detalhes. Aqui já valeu pra abrirmos os trabalhos, pra vocês saberem com que vibração estamos lidando.

PARTE 2: DEMOCRACIA – MAS O PAÍS AINDA SANGRA

Bota ‘vermelha’ nisso. Na África do Sul a violência urbana está na estratosfera, exatamente como no Brasil.

Em 2015 a Cidade do Cabo teve mais de 2,4 mil assassinatos. São 3,7 milhões de habitantes, portanto taxa de 65 por 100 mil.

O Cabo é uma cidades mais lindas do mundo, já mostrei um pouco nessa matéria, breve subirá outra.

Mas com esses números dignos de uma guerra, também uma das mais violentas do planeta, ao lado de Fortaleza-CE e Maceió-AL no Brasil, Baltimore, Detroit e Nova Orleans nos EUA, e várias metrópoles da Colômbia, Venezuela, México e América Central.

Joanesburgo e Durbã estão um pouco menos pior. A violência ainda é altíssima, em ambas além de 30 por 100 mil.

O que as coloca próximas ou um pouco acima do que acontece em Belo Horizonte-MG, Curitiba, Porto Alegre-RS, e o Rio de Janeiro.

(Ressalto que os dados que eu tenho do Rio são de 2014, e infelizmente houve piora de 3 anos pra cá.)

Quase pousando: veja o tamanho das favelas que cercam o Aeroporto na Cidade do Cabo. Todas as casas são de zinco, as famosíssimas ‘Cidades de Lata’ sul-africanas.

Tudo somado, vemos que África do Sul e Brasil estão empatados nessa triste competição. O pânico que as pessoas sentem aqui e lá também é o mesmo.

Andei até de camburão em Durbã, e está relacionado a esse pavor da violência. Mas já chegamos lá. Vamos antes fazer uma recapitulação de como a coisa atingiu nesse ponto:

O ‘apartheid’ oficialmente durou de 1948 a 1994, menos de meio século. Mas na prática 1 século inteiro.

Desde que os brancos pisaram lá, em fins do século 19, existiram leis que proibiam os não-brancos (negros, indianos, chineses) de ocuparem cargos públicos e no clero.

Outra favela da Cidade do Cabo, agora ao nível do solo: um ‘duplex’ de latão.

Em alguns lugares os não-brancos não podiam nem mesmo usar as calçadas, tinham que andar pelo meio das ruas dividindo espaço com os carros.

E numa república africâner (o Estado Livre Laranja, holandês, que depois virou um estado da África do Sul quando os ingleses invadiram) os indianos não podiam sequer residir. O Estado era ‘Livre de Indianos’.

Somente pra eles atravessarem o estado de passagem já era necessário um visto especial.

Favela em Soweto, Joanesburgo, no mesmo modal. Atrás uma cohab que já visava urbanizar o bairro, mas novas invasões tornam a missão ‘o Trabalho de Sísifo‘. Mais pra baixo na página veremos mais fotos desse local. Imagina como é morar numa casa de metal com teto baixo, sem forro e sem janelas. Um pouco quente no verão, será? Quase um ‘micro-ondas’.

Inclusive foi por causa disso que Gandhi (sim, ‘aquele’ Gandhi) viveu 21 anos na África do Sul.

E ali começou sua militância – o plano inicial era ficar apenas uns meses e não se envolver com política.

Mas ele se envolveu porque já havia ‘apartheid’, embora sem esse nome.

Nesses 3 exemplos acima estou falando da virada do século 19 pro 20, meio século antes do ‘apartheid’ oficial portanto.

Claro, depois que esse veio, aí tudo piorou de vez.

Aqui e a esquerda: ‘Cracolândia’ nos trilhos de trem no Centrão de Durbã. Os nóias já moram nessas barracas, é a ‘Cohab da Droga’.

Contei essa história com muito mais detalhes em matéria específica. Aqui o que nos importa é: por todo século 20 os negros (e também os indianos) resistiram ao regime racista.

Nos anos 60 o CNA (Congresso Nacional Africano) iniciou uma ofensiva capitaneada por Nélson Mandela.

Os ‘robozinhos’ saem de buracos nas paredes, como ratos.

Mas logo esse grande líder (que depois viria a ser o primeiro presidente negro sul-africano) foi preso, junto com outros cabeças da resistência negra.

Assim a primeira metade dos anos 70 foi calma. Uma calma injusta, óbvio, os negros como escravos em sua própria terra.

Paz sem voz não é paz, é medo”, como alguém bem definiu.

Klaarwater, Grande Durbã: na maior parte das favelas sul-africanas não há qualquer saneamento, as casas não têm água, que precisa ser buscada numa bica na entrada da favela – Lata d’Água na Cabeça.

Em 1976 explode a ‘Revolta Estudantil de Soweto’, Joanesburgo. A partir daí a África do Sul nunca mais se acalmou.

E já se vão 41 anos no momento que levanto essa matéria pro ar. Em 1984 nova revolta eclode. Assim, na segunda metade dos anos 80 a coisa explode de vez.

O ‘apartheid’, na pessoa do presidente P. W. Botha, abole algumas leis racistas, como por exemplo a que proibia casamentos inter-raciais, e a que impedia negros de possuírem casas na maior parte do território sul-africano.

Também Durbã (essa via ‘Google Mapas’): aqui fica claro, a torneira pro pessoal pegar água. Em verde os banheiros químicos, aqueles que no Brasil são alugados pra obras. As favelas da África do Sul não têm redes de saneamento básico, enfatizo outra vez, então colocam isso aí como paliativo, pra não ser ao ar-livre mesmo. E o esgoto correndo a céu aberto.

Em compensação, o regime racista parte pra ofensiva total contra a resistência negra.

Internamente milhares sobre milhares de ativistas são presos e severamente torturados, dezenas ou mesmo centenas assassinados.

Externamente, a Força Aérea Sul-Africana bombardeia vários países vizinhos, que abrigavam células de grupos políticos banidos na África do Sul.

Mas não adianta nada, a hora chegara. Em 1989 Botha, o “Grande Crocodilo” como era chamado, é afastado, por problemas de saúde.

Voltam as tomadas de minha autoria. Favela em Soweto, Joanesburgo. Novamente em verde os banheiros químicos.

Assume em seu lugar Frederico De Klerk (eu aportugueso os nomes sempre que possível, lembre-se). Ele inicia o desmantelamento do ‘apartheid‘:

Solta Mandela e vários outros presos políticos, legaliza os sindicatos, partidos e demais organizações negras, e prepara o caminho pra democracia.

Ainda Joanesburgo, mas agora na Zona Central: atrás da garagem da Metrobus, mais uma favela – de novo os banheiros químicos em verde.

A extrema-direita dos brancos racistas reage, e inicia uma campanha de terrorismo pra frear a abertura.

De Klerk, pra não levar a culpa sozinho caso a nação fosse esfacelada num banho de sangue, consulta a população num plebiscito (exclusivo pra brancos) se a transição deve continuar.

Felizmente a maioria dos brancos sul-africanos estavam cansados do ‘apartheid’, e referenda nas urnas a iniciativa de De Klerk.

No Centrão de Joburgo há muitos prédios vagos – vários deles invadidos, como esse aqui.

Assim o processo segue, e culmina na eleição de Mandela pra presidente em 1994.

Tudo isso já contei com mais detalhes antes, repetindo. O que é relevante pro nosso tema de hoje:

Na virada pros anos 90 os negros perdem a paciência de vez, e também partem pra ofensiva final.

Intensificam as ações políticas pra queda do ‘apartheid’, o que é excelente e justíssimo, óbvio.

Esse prédio popular (varais no teto, tradição sul-africana) também é atrás da garagem de ônibus.

É cristalinamente evidente que um povo oprimido tem todo o direito de lutar pra romper seus grilhões.

Porém há um efeito colateral: no ano de 1990 os negros iniciam uma guerra entre si. A África do Sul tem diversas tribos africanas na composição de sua população.

Basta dizer que são 11 línguas oficiais, o inglês e o africâner (dialeto do holandês) de origem europeia, as demais 9 são africanas nativas (todas elas agora representadas no dinheiro da nação).

Próximas 2: pedintes no Centro de Durbã. 90% dos sem-teto sul-africanos são negros. Nesse sinal haviam vários, mais alguns na transversal, mesmo sob chuva. Sejam da raça que forem, os que pedem esmola nos faróis do país sempre fazem esse mesmo gesto com as mãos juntas, dizendo ‘pelo Amor de Deus me ajude!’.

Então são várias etnias de negros. Mas as duas principais são o Zulu e o Xhosa.

E na reta final do ‘apartheid’, os negros compreensivelmente estavam no limite, por isso zulus e xhosas iniciam uma guerra uns contra os outros.

Sim, negros contra negros. A coisa foi muito sangrenta.

Houveram fins-de-semana em que os mortos se contaram as dezenas em cada uma das muitas favelas de Joanesburgo e demais cidades do país.

Embora minoria, há sem-tetos caucasianos na África do Sul. Em todas as cidades, mas notadamente em Durbã, onde vi vários, fotografei esse. A definição não ficou das melhores pois cliquei de um ônibus em movimento, e que ainda tinha película nos vidros, escurecendo a cena. Mas amplie e observe com cuidado e lerá que o cartaz dele inicia-se com “Please Help…”.

Sim, os negros também combateram as tropas do ‘apartheid’, óbvio. Mas igualmente se combateram entre si, encarniçadamente.

Eu não conhecia os detalhes dessa história, se quer saber. Mas no apartamento que eu fiquei em Joanesburgo havia um livro, chamado “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original).

Foi escrito por 2 fotojornalistas. Eles e outros 2 cobriram a guerra na África do Sul nos últimos 4 anos do ‘apartheid’ (1990/1994).

Um deles foi morto com um tiro exatamente no meio dessa guerra, com um tiro numa rua de Joanesburgo, em 1994.

Outro se afastou, se eu não me engano acabou se suicidando, não tenho certeza. O fato que ele saiu do grupo.

Sobraram 2, que escreveram o livro, publicando fotos de autoria dos 4 que trabalharam juntos no período crítico.

Eu não pude ler o livro, não houve tempo. A obra é extensa, e fiquei apenas 4 dias nesse apê, andando pelas ruas quase o tempo todo.

Se eu fosse dedicar o tempo necessário pra apreciar esse relato, não poderia eu mesmo ter feito minhas próprias investigações de campo.

Paciência. Se um dia achar esse livro no Brasil, ou na internet, o lerei. Lá na África não teve como. Mas eu fotografei as imagens mais impactantes, e as reproduzo aqui.

Uma imagem que correu o mundo (também do livro). Março de 1994: grupo da extrema direita foi se intrometer no regime de um bantustão. Esses 4 Homens foram executados pelas tropas do bantustão. 3 já estão caídos sem vida, mas o último ainda implora misericórdia, em vão.

Por essas chocantes cenas nós captamos o grau de ferocidade que foi liberado nas ruas sul-africanas no ocaso desse regime racista que jamais deveria ter existido pra conversa começar.

Muito sangue correu, tanto no enfrentamento de negros contra brancos, como dos próprios negros entre si.

O choque político entre as raças não existe mais. O ‘apartheid’ acabou. Os negros estão no poder político.

E uma porção significativa da população nativa de pele escura ascendeu a burguesia, há hoje bairros de elite habitados majoritariamente por negros.

No entanto as favelas ainda são 100% negras. Ou 98%.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo: assim é a reciclagem na África do Sul. Não há separação prévia, tudo é jogado junto, reciclável junto com lixo de cozinha e banheiro. Alguns infelizes miseráveis, que dependem disso pra sobreviver, têm que abrir as lixeiras, separar o que recicla (veja o grande saco branco aberto atrás dele, é ali que ele joga o que vai aproveitar), e fechar de novo. Digo, em alguns bairros ricos há coleta seletiva com separação prévia, mas é raro. No geral é como veem aqui.

Há algumas favelas formadas por brancos, mas são raríssimas. No geral elas são quase sempre reservadas aos de pele escura.

Compõe o problema que a África do Sul, sendo o país mais desenvolvido da África, recebe imigrantes ilegais de todo continente.

A convivência entre estrangeiros e sul-africanos nem sempre é pacífica, criou-se aí mais um foco de tensão de negros x negros.

A classe média é integrada, desde a classe média-baixa até na média-alta há negros e brancos (em Durbã também indianos).

A elite ainda é majoritariamente branca, e há sim brancos pobres (especialmente na Cidade do Cabo), embora minoria.

Ou seja, os brancos sul-africanos ainda detém grande parte dos privilégios econômicos que amealharam em um século de hegemonia tirânica.

Próximas 2: orla da Zona Sul da Cidade do Cabo (a “Riviera”). Um lugar belíssimo, mansões de milionários espremidas entre o morro e o mar. É de cair o queixo de tão lindo!, confira esse ensaio. Várias casas têm seu teleférico particular, é mole ou quer mais?

Ainda assim, a população branca sul-africana vem diminuindo, vários estão emigrando pra diversas partes da anglosfera (EUA, Inglaterra, Austrália).

Seja como for, criou-se uma acomodação entre negros e brancos. Malgrado a tensão política, não há derramamento de sangue atualmente.

O mesmo não se pode dizer entre os próprios negros. Entenda, não é uma questão racial, e sim social.

Não estou sendo racista, e dizendo que o branco é mais pacífico, exatamente o contrário é verdadeiro.

Mas a concentração de renda é altíssima. A mesmo cena, rapaz negro revira o lixo em busca de algo reciclável pra revender.

Primeiro, a raça branca é quem comanda o capitalismo global, e é a raça branca quem mata milhões em suas guerras de pilhagem mundo afora.

Apenas no Iraque foram mais de 2 milhões de mortos contando desde 1991 (alguns falam em 3), e no Vietnã mais de 4 milhões, pra citar apenas 2 guerras de agressão dos EUA.

Segundo, os brancos já se mataram muito entre si, na Europa e em toda parte. A história da Europa é de grande derramamento de sangue, até a Segunda Guerra Mundial.

Próximas 3: veremos 3 favelas diferentes em Soweto, Zona Oeste de Joanesburgo.

Apenas nas últimas décadas os europeus se acalmaram um pouco e não se matam tanto entre si.

Agora dirigem suas baterias contra países mais fracos que não podem se defender, como fizeram com a Líbia em 2011.

Além disso, no Sul do Brasil é sabido que  a periferia das grandes e médias cidades têm enorme contingente de euro-descendentes.

Observe as pedras pro telhado não voar com o vento, manifestação universal que eu também fotografei na Argentina (breve no ar).

E ali brancos matam brancos com a mesma frequência que negros matam negros na África do Sul.

O mesmo ocorre nos EUA, milhares de caucasianos são assassinados todo ano por outros caucasianos.

No passado, brancos guerrearam entre si de forma absolutamente brutal, na Europa e também na África.

Ainda Soweto. A frente uma invasão, as casas ao fundo não pertencem a favela. Destaquei o painel solar. Na África do Sul a reciclagem ainda engatinha. Em compensação, o uso de energia solar é mil vezes mais desenvolvido que no Brasil. Mesmo a periferia, mesmo na borda da favela.

Se alguém não sabe, foram os ingleses quem inventaram o campo de concentração. E inventaram na África do Sul, prendendo os holandeses na ‘Guerra dos Bôeres’.

Prendendo os civis, eu digo. Homens não-combatentes e Mulheres. A mãe de P. W. Botha (penúltimo [e ultra-racista] presidente branco sul-africano) foi encarcerada pelo Exército Britânico num campo de concentração.

Mesmo sendo do sexo feminino e não tomando parte nos combates. Ao lado dela foram outras dezenas de milhares.

Mesmo na África do Sul contemporânea, os brancos ainda cometem assassinatos entre si. Quando estava na Cidade do Cabo, a mídia sensacionalista deva grande destaque ao julgamento de um sul-africano de ascendência europeia.

Ele era acusado de ter chacinado toda sua família – com golpes de machado, nada menos. O para-atleta caucasiano sul-africano André Pistorious também foi condenado e preso por matar sua igualmente alvíssima namorada.

Próximas 10: vamos mostrar Atlântida (‘Atlantis’ no original). Uma cidade pequena e pobre. Ainda pertence a região metropolitana da Cidade do Cabo, mas é bem distante, são 40 km, é preciso pegar mais de 1 hora de estrada. Começo mais uma vez destacando o painel solar. Na África do Sul usar a energia do Sol não é brincadeira de burguês, quase um passatempo de de gente rica. Não. Veja a imagem, uma casa simples, na periferia de um subúrbio afastado e esquecido. Ainda assim, utilizando esse modal.

Escrevi todos os parágrafos acima pra mostrar que não, eu não sou racista. Não estou dizendo que os de pele clara são pacíficos ou civilizados, e que os de pele escura são brutalizados por serem instintivos.

É uma questão social, e não racial. Onde brancos habitam em grande número as favelas, se matam entre si em profusão, por exemplo aqui em Curitiba.

E nos bairros negros da alta-burguesia, na África do Sul ou toda parte, os homicídios são raríssimos quando não inexistentes.

Claro, também não estou dizendo que quem tem dinheiro é mais evoluído espiritualmente, porque o contrário geralmente é que é verdadeiro.

Quem acompanha meus textos há mais tempo sabe muito bem o que penso das Oligarquias, a ianque e todas as outras.

Apenas é um fato, os barões oligacarcas muitas vezes eliminam outros seres humanos, mas rarissimamente o fazem com as próprias mãos.

Periferia típica sul-africana (muito parecida com a do Paraguai). O carro é Golf, já falo mais disso

Podemos discutir filosoficamente as razões disso, mas não podemos negar que é assim.

As vezes acontece, recentemente os casos Nardoni e em 1988 o da ‘Rua Cuba’ no Brasil e o próprio Pistorious na África do Sul são as exceções que confirmam a regra.

Com essas poucas exceções, os bairros ricos e de classe média-alta quase não têm assassinatos, no continente do mundo que forem e habitados por qualquer raça.

Esses muros pré-moldados fazem sucesso lá. No Brasil idem. No bairro que fui criado (Santa Cândida, Z/N de Ctba) haviam casas que utilizavam.

Enquanto que as favelas e guetos são quase sempre violentos, em toda parte e independente do tom de pele majoritário.

……….

Desculpe toda essa justificativa, é só pra que não tenham a impressão errada e achem que sou racista ou qualquer coisa do tipo. Eu não sou. Apenas analiso os fatos. E os fatos são:

As favelas e periferias da África do Sul estão imersas em um banho de sangue.

Casa nº 64. A próxima a esquerda é a 62, e a 1ª a direita é a 66. Na África do Sul a numeração é diferente do Brasil. Bauru-SP segue um sistema único (também adotado na Colômbia), em que as quadras são numeradas, e aí as casas são contadas em relação a quadra e não a rua. Brasília-DF também criou um novo modal, digamos até um novo paradigma, pois Brasília é uma cidade peculiar em múltiplas dimensões. Mas no geral no Brasil as moradias são numeradas conforme a metragem da rua ou avenida. Na África do Sul é diferente, repito. De um lado da rua são as pares, do outro ímpares. Isso é igual no Brasil. Mas na África do Sul a numeração não segue metragem. A 1ª casa do lado ímpar é a ‘1’, depois vem a ‘3’, a seguir a ‘5’, e assim vai. Idem na outra face: a primeira casa é ‘2’, sua vizinha é a ‘4’, etc. Pra fechar esse tema, revelo que minha rua, a ‘Ciclovia’, segue o modelo sul-africano. Mas aqui é ocupação irregular (Canal Belém, Boqueirão), logo a numeração também é irregular.

O que começou como uma rebelião contra o ‘apartheid’ rapidamente desandou pra um violento acerto de contas entre as tribos negras, processo que embora amainado ainda não terminou.

Some-se a isso a violência comum, “que não envolve política”. Entre aspas porque todo processo social é político.

Quando países como África do Sul e Brasil (e boa parte da América Latina e também dos EUA) se tornam extramente violentos, as causas são políticas, e a solução também o será.

Mas por “não envolver política” eu digo por não envolver grupos e objetivos políticos, apenas quadrilhas comuns brigando por butins ou territórios.

Ou então cidadãos trabalhadores mas que quando embriagados/drogados matam suas esposas ou outros Homens no bar por motivos fúteis.

O resultado é esse aqui: Cidade do Cabo, 2.451 homicídios em 2015. Com uma população de 3,7 milhões, dá 65 mortes/ano por 100 mil moradores. Índices de guerra.

Nesse caso é a população da ‘prefeitura metropolitana’. A divisão política da África do Sul é diferente da nossa, lá há 4 esferas de governo, e não 3 como aqui.

O que seria o ‘condado’ dos EUA na África do Sul tem sua própria gestão, a ‘prefeitura metropolitana’ que citei acima.

Joanesburgo, 4,4 milhões, teve 1.344 mortes intencionais no mesmo ano, 30 por 100 mil.

Nesse caso não inclui toda região metropolitana, pois a Grande Joanesburgo já tem quase 10 milhões, bem mais de 8 com certeza.

O governo entregou uma casa de cohab, de alvenaria. O cara faz por conta no fundo um ‘puxadinho’, de papelão e madeirite.

Durbã teve 1.237 assassinatos no período. Com 3,4 milhões na ‘prefeitura metropolitana’ de eThekwini, temos 35 pra 100 mil.

(Nota: eis o nome nativo pra ‘Durbã’, assim mesmo, com a inicial minúscula e a letra maiúscula no meio da palavra, obviamente a gramática zulu é bem diferente da ocidental.)

Todas as grandes cidades sul-africanas são bastante violentas. Vou analisar só as 3 maiores. Vejamos como a coisa oscilou no decorrer das últimas décadas.

Há 3 termos pra dizer ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’ na África do Sul: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’. Outro detalhe: a Coca-Cola é oni-presente no país. Seu logo está em 90% das fachadas dos mercadinhos, mas não apenas isso. Seu braço é tão comprido que mesmo várias floriculturas, farmácias, enfim, estabelecimentos que não vendem alimentos como atividade principal, têm seu letreiro pago pela Coca-Cola. Falo melhor dos refris, incluso com fotos, em outra postagem (breve).

Primeiro, houve uma reversão de polaridade. Historicamente, entre as 3, Joanesburgo sempre foi a mais violenta, desde a era do ‘apartheid’.

E a Cidade do Cabo a mais calma. Agora houve uma inversão, como vimos.

Durbã, por outro lado, estava em segundo antes, e se mantém. As pontas é que trocaram de lado.

E crítica como a coisa está, já foi pior. A virada dos 80 pros 90, o apagar das luzes do ‘apartheid’, marcou a explosão da violência, que se manteve e se acentuou no mandato de Nélson Mandela.

Quando virou o milênio, Durbã tinha mais que o dobro, quase o triplo da violência atual. Chegou a registrar 80 assassinatos por 100 mil habitantes.

Ou seja, está crítico mas já foi muito, mas muito pior, calamitoso no sentido exato do termo.

Ainda estamos em Atlântida, próximo a Cid. do Cabo. Vamos ver agora as cohabs em pombais, que são muito comuns lá. Nesse caso, como o teto é com telhado e não com laje, o varal é no chão.

A mesma redução se deu em Joanesburgo. Já o Cabo ainda está por dar esse passo, ali a violência está no pico, infelizmente.

………

Comparemos com o Brasil, nesse caso os dados são de 2014:

Fortaleza, com 1.989 homicídios, tristemente ocupou o triste recorde de município mais violento do Brasil, em termos absolutos.

Proporcional a população, 73 por 100 mil, pior que a África do Sul.

Puxadinho no prédio, como também fazem no Chile.

Maceió é um pouco menos pior, 69/100 mil. No ano anterior fora mais sinistro.

Em 13 a capital de Alagoas teve nada menos que a pavorosa taxa de 81 assassinatos pra cada 100 mil habitantes.

Salvador em 14 teve 1.397 casos. Como a população é bem maior que a de Fortaleza, ficou em 48 por 100 mil.

Aqui fechamos Atlântida, na Gde. Cidade do Cabo. Muito, mas muito parecido com o Chile, me senti de volta em Maipú, Z/O de Santiago.

Em 2013 a capital da Bahia havia virado acima de 50.

Em São Luiz do Maranhão em 2013 foram quase 70 mortos por 100 mil habitantes, em 14 houve boa redução pra 61.

Ainda assim, apenas um pouco a menos que o aquilo que a Cidade do Cabo teve no ano seguinte.

Segura essa: clínica alerta contra “falsos médicos vendendo pílulas na rua e dizendo que trabalham aqui“. Em pleno Centrão de Joanesburgo. Isso também é a África do Sul, amigos!

Em Curitiba em 2014 houveram 30 mortes por 100 mil moradores. Índice altíssimo, apenas um pouco melhor que na África do Sul. Mas que já foi bem mais macabro.

No ano de 2010 Curitiba teve 979 assassinatos, o que fez com que o número por 100 mil ficasse em 55 (breve levanto pra rede levantamento detalhado desse desastroso período):

Atrás apenas de Maceió, João Pessoa-PB, Vitória-ES, Recife-PE e São Luiz.

Alias Maceió em 2010 virou acima de 100 por 100 mil, ou seja, eram tantas mortes lá que de cada mil maceioenses mais de um foi assassinado naquele ano.

Até a Força Nacional Federal teve que intervir pra baixar um pouco essa carnificina.

No Sudeste, Belo Horizonte teve 24 de seus moradores assassinados pra cada grupo de 100 mil em 2014, no Rio foram 20.

Sem-tetos dormem pelas ruas e praias do país. Na orla do Cabo uma Mulher branca, os demais africanos nativos.

Embora lamentavelmente na capital carioca tenha havido novo aumento de lá pra cá.

E São Paulo hoje é a capital menos violenta do Brasil, pelo menos no quesito de um ser humano tirar intencionalmente a vida de outro.

Foram 1.360 desses crimes em 2014. Mas divididos por 11 milhões de habitantes vemos que o índice é 11 por 100 mil, número que não faria feio na Europa.

Bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo, onde ficamos hospedados. Logo atrás de onde dorme o sem-teto da foto anterior mora uma família que mostra solidariedade a Palestina. Pelos negros sul-africanos (e também os indianos) terem sofrido por tanto tempo o ‘apartheid’, em várias partes há protestos pela forma com que Israel trata os palestinos. Organizações sionistas contra-atacam e espalham cartazes dizendo que Israel é “democracia”.

Nota: eu sei, em termos de roubos a maior metrópole brasileira continua violentíssima. Eu sei. Aqui falo somente do quesito de assassinatos.

Não é agradável quando alguém lhe tira seus bens de forma violenta – definitivamente não é.

Ainda assim é óbvio que ter a oportunidade encarnatória interrompida violentamente é bem mais traumático.

Então embora falte muito por fazer, precisamos reconhecer que pelo menos nesse ponto importantíssimo houve avanços.

Não apenas em São Paulo, diversas cidades brasileiras hoje estão mais calmas em relação aos anos 90 e 2000, mas SP teve a maior redução.

A capital paulista já teve 5 mil assassinatos por ano, hoje fica pouco acima do 1º milhar.

Bem, teve menos assassinatos que Durbã, cuja população é mais de 3 vezes menor.

……….

Brancos no Centro do Cabo, onde eles são muito comuns. No Centro do Durbã e Joanesburgo não há caucasianos. Simplesmente não há.

Portanto essa é a situação. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste Brasileiros são violentos, mas um pouco melhores que a África do Sul.

Enquanto que o Norte e Nordeste de nossa pátria têm no geral índices similares as maiores metrópoles sul-africanas.

Curiosamente, hoje a periferia da Cidade do Cabo é bem mais sangrenta que as de Durbã e Joanesburgo. Mas seu Centro é mais civilizado.

A Cidade do Cabo é cidade mais integrada da África do Sul. No Cabo você brancos aos montes no Centro. Aos montes.

Fotografei uma viatura no Centro de Durbã. Vejam o que é o ‘6º Sentido’: já visitei centenas e quem sabe milhares de cidades em boa parte do Brasil, vários países da América e agora África. Nunca havia fotografado um carro de polícia, porque esse não é um tema que me interesse estudar. Em Durbã, o fiz. Mal sabia eu que 2 dias depois estaria dentro de um deles, coisa que igualmente nunca havia me ocorrido. Digo, eu não sabia conscientemente, mas de alguma maneira, em outra dimensão, eu sabia, e por isso houve a foto. É possível prever o futuro, não?

Não apenas o brancos ainda moram no Centro, como também trabalham ali, e não têm medo de sair as ruas.

Em Pretória, ainda que em escala menor, a situação se repete. Retratei na foto acima a direita.

Já em Joanesburgo e Durbã é completamente o oposto. Não há brancos nos Centrões de Joanesburgo e Durbã. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Logicamente toda regra tem exceção. Se você for muitas vezes ao Centro dessas metrópoles, muito de vez em quando você vai trombar com um euro-descendente, é evidente.

Vai acontecer, não é proibido, então a norma não é absoluta. Mas será raríssimo, é mais fácil você achar uma nota elevada de dinheiro que uma família de brancos no núcleo central dessas metrópoles.

Digo, há alguns sem-teto brancos, especialmente em Durbã. A imensa maioria dos sem-tetos sul-africanos são negros, eu diria que 95%.

Não deu outra. Aqui estou eu, pela 1ª vez na vida dentro de uma jaula. Mais abaixo no texto dou os detalhes.

Porém há alguns caucasianos. Fotografei uma Mulher sem-teto que dormia numa praia da Cidade do Cabo, viram acima.

Mas, digo ainda mas uma vez, em Durbã foi a cidade que mais vi moradores de rua euro-descendentes, de pele alva. Vários.

Inclusive eu andava por uma rua da parte barra-pesada do Centrão de Durbã, e um sem-teto branco, sem que eu pedisse, veio me orientar:

Os sul-africanos são muito calorosos, e gostam que tirem fotos deles. No Centro de Pretória, quando essa moça viu que eu clicava a cidade, pediu que eu registrasse seu retrato, situação que se repetiu em Durbã e Joanesburgo. Atrás dela a vitrine mostrava vestidos de noiva. Ela disse “aqui não, porque eu já sou casada”. Demos uns passos pro lado e “1, 2, 3, diga ‘xis’ “, e aqui está ela, fazendo poses com as mãos e tudo mais.

“Não entre nessa rua, é muito perigoso”, ele apontou numa direção na esquina. “Muito perigoso”, enfatizou.

Além dele, vi outros mendigos caucasianos nessa cidade, um deles morava sob as marquises no mesmo bairro que ficamos.

Claro, mesmo em Durbã a imensa maioria dos que não têm casa são negros. Apenas ali há uma minoria significativa de brancos, que não vi nas outras cidades.

Isso estou falando de moradores de rua. Eles são (praticamente) os únicos brancos no Centrão de Durbã.

As praias de Durbã são plenamente integradas, negros, brancos, indianos, todos estão ali, incluso há casais inter-raciais.

Estava num restaurante da orla de Durbã, e era curioso. Nas próximas 4 mesas haviam 2 famílias de negros, 1 de brancos e 1 de indianos.

Nas areias, dentro d’água e no calçadão todos convivem em plena harmonia.

Fotografei a direita uma escola particular que levou seus alunos de pele alvíssima pra uma aividade a beira-mar.

Mas no Centrão, só negros e indianos, nenhum branco (exceto sem-tetos, aqui não me refiro a eles).

Joanesburgo não tem mar, então não vi nenhum branco no Centro, nem mesmo dormindo nas ruas.

Comércio atendendo gradeado em Joanesburgo. Mesmo de dia, mesmo no Centrocomo na Colômbia (nota: a cliente tinha um defeito físico na cabeça, por isso ocultei ainda que ela estivesse de costas).

E, sim, boa parte do Centrão de Joburgo está bem detonado, ali nem os negros de classe média vão, só a ralé.

Vou explicar pra vocês entenderem. O Centrão de Joanesburgo pode ser dividido em 2 partes, Centro Velho e Centro Novo.

O Centro Velho é horroroso. Um gueto enorme. Muito lixo nas ruas, muito crime, forte cheiro de urina em algumas partes, casas e prédios abandonados, vários deles invadidos.

Camelôs, confusão total. Ali, repito, nem mesmo os negros que são de classe média têm coragem de frequentar. É só povão mesmo, muitos deles nem são sul-africanos:

Por toda Soweto essas placas de rua contam a história do ‘apartheid‘. Amplie pra ler, o nome (acrônimo de ‘South-Western Township’, algo como ‘Assentamento Sudoeste‘) foi escolhido em 1963 após um debate de 4 anos. Em 68 decidiram que as Mulheres não poderiam ser proprietárias de casas. Não pude ler ou fotografar mais porque não andamos a pé em Soweto, fomos de ônibus urbano normal, sem qualquer guia ou acompanhante, mas nem saímos do terminal, dali retornamos ao Centro. Essas foram as que consegui clicar do veículo em movimento. Pude ler de relance que outra placa dizia “Um lugar onde se passava fome”.

Nigerianos principalmente, mas imigrantes também de vários outros países africanos tomaram conta de vários quarteirões pra si.

Em muitas ocasiões a convivência com os sul-africanos não é pacífica, diversas campanhas contra a xenofobia tentam pacificar os ânimos, nem sempre com sucesso.

Já o Centro Novo de Joanesburgo é limpo e civilizado. Hotéis, restaurantes e comércio sofisticados garantem uma freguesia requintada:

Homens e Mulheres em roupas e carros caros. Ali, os camelôs são proibidos, e os garis deixam ruas e jardins impecáveis.

Mas mesmo nessa parte agradável e mais segura não há brancos, só negros.

Aqui e a direita, catadores de material reciclável. Esse em Soweto, Joanesburgo – a frente dele as oni-presentes vans, quase todas são brancas e Toyota como essa.

E não é que não existam brancos na Grande Joanesburgo. Ao contrário, são 1,5 milhão de Homens e Mulheres de ascendência europeia.

Isso se você aceitar a cifra de 10 milhões de habitantes, que eu acho que é correta.

É que os brancos de Joanesburgo se impuseram um auto-‘apartheid’:

Vivem e trabalham nos subúrbios a moda ianque nas Zonas Norte e Leste da cidade, deixando o Oeste, Sul e o Centro pros negros.

Mesma cena em Pretória, catador de lixo perto de van Toyota branca. Embora ali essa marca também predomine, em Pretória – e somente em Pretória – há expressiva minoria Volkswagen, curiosamente cliquei 2 da mesma cor.

(Nota: não muito diferente dos brancos de Acapulco. Os ricos – única classe social que os brancos são maioria no México – moram e trabalham nos subúrbios próximos ao aeroporto. 

Acapulco é uma baía cercada e portanto emoldurada por uma serra. A elite mora ‘do outro lado do morro’, e jamais cruza a montanha.

Pra não se misturar com o povão, que tem pele bem escura mas não como afro-descendente, e sim índios, amero-descendente.)

Cracolândia no Centro de Durbã – ao perceber minha atividade jornalística, um noiado correu até mim e intimou: “Ei, ei, por quê essas fotos? Qual o problema?” Rapidamente lhe dei alguns trocados e ele se acalmou.

Atravessamos o Oceano de novo, de volta a Joburgo. Não por acaso SoWeTo’ é a sigla em inglês pra ‘South-Western Townshp’ (Assentamento Sudoeste).

Pois no ‘apartheid’ o Sul e o Oeste eram onde moravam os africanos nativos.

Mas na época do regime racista, os brancos trabalhavam no Centro, pois a polícia altamente militarizada ‘mantinha os negros no seu lugar’.

Depois da democratização essa intensa repressão não foi mais possível, os negros tomaram posse de suas cidades e passaram a usufruir mais o Centrão.

Antes eles trabalhavam ali, mas qualquer aglomeração de negros fora do local de trabalho era debandada de forma rápida pelas forças de segurança. Agora os africanos nativos são livres pra circularem e se associarem onde e como quiserem. Em ‘retaliação’, hoje são os brancos quem não pisam mais por ali.

Sim, com a ascensão de uma recém-surgida alta-burguesia negra, as mesmas divisões de classe surgiram dentro da raça negra:

Também Centrão de Durbã. A África do Sul está num movimento de substituir os nomes de rua europeus por africanos. Nessa esquina os dois logradouros já cambiaram: a “Doctor Pixley KaSeme Street” é a antiga ‘West St.’. Cruzando aqui com a “Dorothy Nyembe Street”, que antes se chamava ‘Gardiner St.’

Os mais ricos ficam de um lado do Centro, os mais pobres junto com os imigrantes de outros países da África de outro.

A cor da pele pode ser a mesma, mas como a classe é diferente, fica cada um na sua, num ‘mini-apartheid’ interno.

Mas em relação aos brancos a divisão espacial é ainda mais acentuada. Se entre negros pobres e ricos cada um fica no seu lugar no Centro, os brancos não vão mais ao Centro, enfatizo ainda mais uma vez.

Os brancos atualmente trabalham em Sandton, um subúrbio da Zona Norte a moda ianque que é o ‘Novo Centro’ de Joburgo, ao menos pros de pele clara.

Evidente, há negros em Sandton também, agora não se pode mais impedir a entrada deles em qualquer parte. Mas ali ainda há maioria branca.

No Centro de Pretória esse movimento fica ainda mais evidente. Risca ‘Church St.’, não existe mais. A via agora se chama “Stanza Bopape St.”. A transversal é a Rua Steve Biko. Como nessa a mudança é mais antiga as pessoas já assimilaram, não existe a denominação anterior. Mas obviamente essa via (que já existia, é antiga pois estamos bem no Centrão) não tinha esse nome no tempo do ‘apartheid’, uma vez que Steve Biko era inimigo do regime, alias foi severamente torturado e morreu em consequências dos ferimentos que sofreu nas delegacias da polícia política racista (‘SAP’) sul-africana.

No Centrão, seja na parte limpa ou na suja, não há brancos, digo de novo pra encerrarmos Joanesburgo. Agora, no Centrão do Cabo há, e aos montes.

Pelo que lhe falei, Joburgo e Durbã são segregadas. Não legalmente, e agora invertido. Os brancos podem ir ao Centro se quiserem, mas preferem ‘não, obrigado’.

Viajei por via aérea de Joanesburgo a Durbã. No avião e no aeroporto, os brancos eram maioria.

Pois entre a classe média-alta nessas duas cidades os euro-descendentes ainda são maioria, embora não mais oni-presentes como antes.

Apenas optaram pela auto-segregação. ‘Consciência pesada deles’, me disseram os negros quando perguntei do tema.

A Cidade do Cabo não é segregada, disse tudo isso pra chegar a esse ponto.

Os brancos não apenas trabalham no Centro, como transitam sem medo pelas ruas. Mais: eles ainda moram nas imediações.

De volta a Durbã. Na Zona Central da cidade há esse centro administrativo que congrega diversas secretarias municipais. Antigamente na ‘Rua do Forte Velho’, que homenageava a fortaleza construída pelos ingleses, que lhes ajudou a vencer várias guerras contra os holandeses e os negros. O prédio continua no mesmo lugar, mas a avenida agora se chama “K. E. Masinga Rd”. Outro detalhe é idioma. Notam que a construção pública, da época do ‘apartheid’, era bi-língue em inglês e africâner. Porém depois da democratização baniram o africâner de Durbã, toda comunicação visual é em inglês e zulu. As placas antigas permanecem, mas nas novas não existe mais africâner, reitero. Um ‘apartheid’ invertido, antes o africâner era compulsório, o zulu banido, agora é ao contrário. Não precisa proscrever uma pra outra entrar, a comunicação poderia ser tri-língue, inglês, zulu e africâner, contemplando a todos. Alias, o semáforo em frente a esse prédio é assim, a única placa tri-língue que vi em toda Durbã, além da fachada de um quartel do exército.

Coloco isso porque os brancos vão as praias do Centro de Durbã, mas não residem nem remotamente perto. Vão de carro.

No Centro do Cabo é diferente. Digo, a maior parte  dos de pele clara moram em subúrbios segregados – não politicamente mas em termos econômicos:

Não é proibido por lei um negro morar nesse bairros de elite. Simplesmente a maioria deles não têm dinheiro pra fazê-lo.

Então, retomando, boa porção da classe média euro-descendente vive em subúrbios afastados, e, sim, se locomovem de automóvel até seus escritórios no Centro.

Mas não todos. Está sendo feito um bairro pra ricos, muito parecido com o Porto Madeiro de Buenos Aires, se você conhece a capital argentina.

São elegantes prédios com canais artificiais entre eles, o que permite aos moradores remarem estando literalmente na porta de suas casas. Uma ‘Veneza (Itália) moderna’.

Dando um tempo pra política e vendo coisas mais belas e amenas. E bota beleza nisso!! Emoldurada por esse belíssimo firmamento celeste, a Mesa-Montanha – que é um ‘Chacra de Gaia’, a Mãe-Terra, se você tem ‘ouvidos de ouvir’. Aos pés dela, pra levar a galera até a bilheteria do teleférico, um buso do sistema de transportes ‘Minha Cidade’. Céu e um moderno ônibus, tudo azulmesma cena que fotografei no Chile, apenas lá era articulado e aqui micro.

Os brancos sul-africanos adoram caiaques, se você não sabe. Vi vários praticando esse esporte, nas praias do Cabo e Durbã, e nos subúrbios abastados de todas as cidades.

Pois bem. A Cidade do Cabo não apenas é a menos segregada de todas, como ela quer des-segredar ainda mais.

Por isso está fazendo esse bairro pra elite, em pleno Centro. Como a elite ainda é majoritariamente branca, isso mostra que o Cabo quer mais brancos em seu Centro.

Vamos colocar de forma mais apropriada: não é uma questão de raça, mas de classe. O Cabo quer os ricos morando no Centro. Uma boa parcela deles serão brancos.

Mas com o crescimento expressivo da alta-burguesia negra (que tende a aumentar e se consolidar nas próximas décadas) vários dos habitantes desses prédios de luxo serão negros.

Agora com céu nublado, mais uma tomada do bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo. A herança norte-europeia (inglesa e holandesa) está evidente no conjuntinho de casas alinhadas. A cidade é numa península, alias é exatamente o que ‘cabo’ quer dizer. Por isso, em qualquer parte das Zonas Sul e Central (e começo da Leste e Norte, não existe Z/O pois seria dentro do mar) você vê a cadeia de montanhas como espetacular pano de fundo.

Segregação econômica sem dúvidas, pois a África do Sul é 3º Mundo.

Mas racial não. Se você pode pagar, brancos, negros, mulatos, indianos, orientais, todos são bem-vindos ao Centro do Cabo.

É a situação ideal? Óbvio que não. Mas considere o passado da África do Sul (em que a lei separava brancos de negros, mestiços e indianos, com privilégios pros primeiros).

E compare com as outras cidades sul-africanas atuais (auto-segregação imposta pelos brancos).

Além disso, por seguir o modelo de urbanização ianque, geralmente os ricos e a classe-média alta moram muito longe do Centro, e só se locomovem de automóvel.

O mesmo céu sem nuvens, e de novo um ônibus, agora 2-andares. Centro de Joanesburgo: Praça Gandhi, o terminal das linhas (não-integradas) da viação Metrobus, proprietária desse Volvo/ Marcopolo brasileiro, que dorme na garagem que vimos acima, em cujos fundos há a favela.

Ali no Cabo estão atraindo pessoas que, ao contrário, muitos deles darão prioridade pro deslocamento a pé, de bicicleta e mesmo de ônibus. Sim, existe a segregação econômica.

Mas sem segregação racial nem espacial, gente com bastante dinheiro de todas as raças vai a pé trabalhar, pois é só atravessar a rua. Os tons de pele convivem e não queimam carbono.

Dentro das atuais condições, é um avanço. Não podemos deixar a utopia travar o avanço do que é possível nesse momento. Pois esse avanço será a semente de avanços maiores no futuro.

O Centrão da Cidade do Cabo tem partes feias e sujas, claro, é uma metrópole conturbada e injusta de 3º Mundo.

Mas é muito mais limpo e seguro que os Joanesburgo e Durbã, sem comparação possível. E por isso a classe média, de todas as raças, se sente a vontade por ali.

………

Edifício abandonado do Hotel Carlton, o símbolo da decadência do Centro de Joanesburgo. Inaugurado em 1903 num antigo prédio de 6 andares, era um dos hotéis mais luxuosos da África e mesmo do planeta – por exemplo, mais de um século atrás foi o primeiro do país a oferecer o serviço de telefone no quarto, além de uma forma rudimentar de ar-condicionado. Na década de 60 decidiram construir um enorme complexo, com esse prédio de 30 andares pro hotel, um edifício comercial anexo com 50 andares, e mais um centro de compras. Tudo foi inaugurado em 1972. Dez anos mais tarde, ainda fizeram um anexo de luxo do outro lado da rua, ocupando mais uma construção de 6 andares, uma passarela suspensa sobre o rua os interligava. A história do Carlton é gloriosa, em 1947 recebeu a família real inglesa: o rei Jorge 6º e sua esposa a rainha Elizabete, e suas filhas, as princesas Elizabete (a atual rainha) e Margarete. Entre políticos e cantores euro-estadunidenses, foram hóspedes do Carlton: Henry Kissinger, François Mitterrand, Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Whitney Houston and Mick Jagger, entre outros. Nos salões do Carlton ocorreram momentos-chaves tanto do ‘apartheid’ que tentava se manter como de sua queda. Foi ali que o primeiro-ministro linha-dura do regime racista P. W. Botha anunciou um plano ‘de união nacional’ (só entre brancos, claro) pra tentar salvar o ‘status quo’, em 1979. Não deu certo, na década de 80 a oposição interna e externa ao ‘apartheid’ chegou no auge, quando Botha como último cartucho extinguiu o parlamentarismo e se auto-nomeou presidente com plenos poderes, o que também não funcionou. Mandela foi solto e eleito presidente. E foi ali no Carlton que, em 1994, Mandela fez a ‘convenção da vitória após ser eleito, anunciando a nova era que amanhecia na África do Sul.Tudo isso mostra a importância desse hotel pra cidade e mesmo nação. Mas nos anos 80 o boicote ao ‘apartheid’ minou o fluxo de turistas. Depois da democratização acharam que a coisa melhoraria, mas aí foi a decadência urbana quem cobrou seu pedágio. O Centro de Joanesburgo hoje é um grande gueto. Quase ninguém de classe média tem coragem de ir ali, sejam moradores da cidade e muito menos turistas. Em dezembro de 1997, o Carlton veio a pique e cerrou as portas. Um semestre depois o anexo de luxo do outro lado da rua também encerrou as atividades. Permanecem abertos o centro de compras com sua praça de alimentação, e o edifício de 50 andares que abriga os escritórios – no alto dele há um mirante, foi dali que cliquei a garagem de ônibus que viram mais pro alto da página. Como triste lembrança, o mirante ainda está decorado com muitas fotos que mostram a construção e operação do hotel nos seus dias de glória, agora só um passado distante. É uma pena.

Há partes do Centrão de Joanesburgo que a situação é desesperadora, no melhor sentido do termo. Por isso o Hotel Carlton (dir.) não aguentou o baque e fechou as portas em 1997.

O mesmo vale pra Durbã. Alguns prédios dessa cidade têm na portaria portas giratórias de metal enormes.

Aquelas que no Brasil só são encontradas nas estações de trem de subúrbios e na portaria das fábricas.

Sabe como é, não? Têm barras de ferro de cima a baixo e só gira num sentido, não há como fazê-la voltar ou ela trava, pra evitar evasões. Então.

Em Durbã, repito, alguns prédios contam com esse equipamento, em pleno Centro, pra impedir a entrada de ladrões e sem-tetos.

Andava eu pelo Centrão dessa cidade. Vocês viram nas imagens da Cracolândia que há nos trilhos. A coisa é horrorosa, o mais forte sobrevive.

E não apenas ali. Nas ruas de uma parte abandonada próxima a estação de trens o mesmo se repete, embora não tão concentrado.

Então, e é aqui que eu entro na história. Sou cascudo em circular e mesmo em fotografar as regiões mais barra-pesadas de várias cidades da América e agora também da África.

Sou sensato e bom observador, sei avaliar o local e momento mais seguros de puxar a máquina discretamente, clicar e rapidamente guardar o equipamento.

Foi assim que já documentei de forma ricamente ilustrada várias favelas, periferias e bocas-do-lixo nesses 2 continentes acima citados. E nunca havia sido abordado agressivamente por ninguém.

Muitas vezes as pessoas perceberam que eu estava fotografando, algumas até falaram comigo, mas nunca ninguém me tirando satisfações – digo, isso me refiro aos moradores.

Com as forças de segurança várias vezes os encontros foram tensos:

Em Buenos Aires a polícia me cercou com 5 agentes (4 Homens e 1 Mulher), revistaram meu equipamento e apagaram algumas imagens, como já contei antes.

Em Joinville-SC também tive que entregar partes de um filme, nesse caso ainda era analógico. Em Durbã mesmo eu fui pro camburão, como descreverei abaixo.

No México e Paraguai soldados do exército armados com metralhadoras rispidamente me indicaram que eu ‘circulasse‘.

Pois entrara em locais proibidos, de segurança nacional – mas não havia placas indicando, eu não tinha como saber. Enfim, entre outros casos, esses são só alguns exemplos.

Mas sem contar policiais e seguranças, nunca ninguém havia me abordado violentamente. Até esse dia em Durbã.

Eu fotografava a Cracolândia do Centro, e um noiado percebeu. Ele correu até mim e intimou: “Ei, ei, qual é o problema?? Por que você está tirando fotos???”

Felizmente eu sei falar com a malandragem. Moro numa favela de Curitiba, se alguém não sabe. Imediatamente eu tirei uma moeda de 10 Rands do bolso e passei pra ele.

Ao lado conto algumas situações barra-pesada que passei em Durbã. Pra contrastar, cenas mais amenas da mesma cidade. O Mercado Indiano de Durbã é um carnaval de cores, cheiros e sabores, como não poderia deixar de ser em tudo que vem da Índia. Um tempero, em especial, me chamou a atenção: trata-se do “Exterminador de Sogra”!!! Tá bom pra ti ou quer mais???? Pra contrastar, a mesma banca vendia o “Amor de Sogra”.

Dá pouco mais de R$ 2, mas pra um viciado e morador de rua qualquer trocado ajuda, não é mesmo?

Aí ele já se acalmou. Eu lhe disse: “não há nenhum problema, não é nada com vocês. Sou um jornalista do Brasil, e só quero mostrar pras pessoas do meu país como é a África.”

“Não é nada com vocês”, repeti. Ele, satisfeito mais com o dinheiro que com a explicação, me liberou.

A África do Sul é uma mistura urbanística entre EUA/Anglosfera x América Latina. Então há guetos centrais, como nos EUA e Europa, e periféricos, como no Brasil e América Latina.

Rinoceronte esculpido em areia na ‘Praia Norte’ de Durbã. É bem mais elitizada que a ‘Praia Sul’, onde fiquei hospedado. Também não é difícil, a ‘Praia Sul’ ainda que na orla (óbvio, como o nome indica) é ao lado do porto e perto do Centrão. A ‘Sul’ eu apelidei de ‘Bronx a Beira-Mar’, porque o perfil sócio-econômico e racial é o mesmo desse que é o mais pobre dos 5 distritos de Nova Iorque/EUA. Mesmo exatamente em frente a praia não moram ricos, é povão mesmo. Já a ‘Praia Norte’ já é saindo pros subúrbios a moda ianque, onde residem os ricos. E por isso ali há edifícios caros, pra alta burguesia. Resultando que a ‘Praia Sul’ é ótima pra você entrar no mar mesmo (fiz isso todos os dias exceto um que choveu) e tem bons restaurantes. Mas fora isso não há badalação. Já a ‘Praia Norte’ é agitada – feirinha de artesanato, dezenas de restaurantes, muito mais que na ‘Sul’, e, uma das atrações é esse cara que molda de tudo na areia: paquidermes, pessoas, cidades, objetos. Ele esculpe inclusive propaganda de empresas que bancam seu trabalho, ao fundo um exemplo. Se você for a Durbã não deixe de conferir, recomendo! Outro detalhe: vê várias pessoas de roupa no mar? É tradição em Durbã, especialmente entre os muçulmanos, mas gente de outras etnias também faz o mesmo.

Acima o apuro que passei no gueto central de Durbã. Agora vamos pra periferia da mesma cidade, onde a chapa foi ainda mais quente.

………….

Como eu falei melhor na matéria sobre transportes, todas as grandes cidades da África do Sul têm um sistema de trens de subúrbio.

Operados pela viação férrea estatal ‘Metro-Rail’. Era o antigo ‘trem dos pretos’ na época do ‘apartheid’,

Agora na democracia é ‘trem dos pobres’. Que nos bairros mais degradados são 99,9% negros.

Então pouco mudou, antes a segregação era política e econômica, hoje é só econômica.

O ‘Metro-Rail’ é horroroso. Péssimo, muito ruim mesmo.

Só pega quem não pode mesmo pagar vans (lá chamadas ‘táxis’) ou ônibus, nessa ordem.

Como já expliquei, as vans (quase todas Toyotas e quase todas brancas, embora haja outras marcas e cores) são o principal meio de transporte da África do Sul.

Foi preciso literalmente uma guerra pra que elas pudessem chegar ao Centro e aos bairros dos ricos onde estão os empregos, mas hoje é assim.

Também na ‘Praia Norte’ de Durbã. Uma multidão de ‘indianos‘, ali é área deles. Entre aspas porque quando a Inglaterra levou os ‘indianos’ pra África do Sul a Índia incluía Paquistão e Bangladesh, que são muçulmanos. Por isso boa parte dos ‘indianos’ sul-africanos não são hindus, mas muçulmanos – portanto comem carne. Entre os religiosos praticantes, tanto Homens quanto Mulheres cobrem a cabeça, embora pro sexo masculino essa seja a única exigência, já pro feminino todo corpo tem que ficar oculto, incluso pra muitas o rosto, só os olhos escapam da burca. Outro detalhe: veja a lata própria pra lixo reciclável, separado do orgânico. Só existe mesmo na orla e em pouquíssimos lugares frequentados pela burguesia. Quando íamos embora de Durbã, fui a praia colocar o lixo reciclável que havíamos separado numa dessas lixeiras. O porteiro do prédio achou que eu ia despejar tudo na areia, simplesmente. Por aí vocês veem que a ‘cultura da reciclagem’ ainda não chegou lá.

Em Joanesburgo e Pretória há o Gautrem, esse sim de qualidade de 1º Mundo, alias Primeiríssimo Mundo.

Mas a linha é pequena, e só existe nessas duas cidades. Quem mora perto do pequeno traçado dele o utiliza intensamente.

Mas poucos têm o privilégio. Por isso chamado pelos detratores de ‘trem dos brancos’. Evidente, ficou pronto em 2010, 16 anos depois do fim do ‘apartheid’.

O Grautrem nunca foi segregado por raça, negros o utilizam livremente desde seu primeiro dia de operação.

O que esses críticos querem dizer, e não sem alguma razão, é que o Gautrem é o ‘trem dos ricos’, pois só serve os bairros abastados, onde os brancos são maioria.

Então, repito, o Gautrem é bom. Mais que bom, é ótimo. Mas poucos têm a chance de utilizá-lo todos os dias.

Isso mesmo na metrópole estendida Joanesburgo/Pretória. E ninguém em outras cidades, pois elas não contam com nada parecido.

Então o povão vai de ‘táxi’, por isso querendo dizer de vans, lembre-se. Depois disso os ônibus são a opção mais usada.

Centro da Cidade do Cabo.

Nas poucas linhas já melhor estruturadas, tanto pela burguesia quanto pelo proletariado.

Nos bairros mais afastados, só há linhas de ônibus não-integradas, que por isso são menos utilizadas mas ainda assim têm seu nicho de mercado.

E por último, como última escolha mesmo, vêm os trens de subúrbio da ‘Metro-Rail’. Esses só pegam mesmo quem não pode pagar qualquer outro meio de deslocamento.

Centro de Pretória.

Pra começar a conversa, são extremamente perigosos. Arrastões são rotineiros, muitas vezes com vítimas fatais. Apedrejamentos também são frequentes.

Pois bem. Em Durbã e no Cabo eu andei de trem. Sozinho, só eu e Deus. E nas 3 cidades entrei nas favelas.

Todo mundo dizia “pelo-Amor-de-Deus, não faça isso. É perigoso demais, vão te matar, etc.”

Centro de Durbã.

E de fato é perigoso. Mas . . . se não for perigoso não é jornalismo. Se for muito confortável, só editar textos em frente ao computador, não é jornalismo, é relações-públicas.

Porque é perigoso é que eu fui, pra poder lhes contar, pra poder mostrar como são as favelas e trens da África, pra quem não teve a oportunidade de entrar neles.

Bairro ‘Musgrave‘ (pronuncia: ‘Mâsgreive’), na Cidade Alta de Durbã, um morro de classe média-alta da Zona Central. Não há ricos e alta-burguesia no Centro de Curbã, mas bem pertinho dele, sim. Durbã é a ‘América na África’, porque urbanisticamente é a cidade que mais se parece com América Latina. Sim, há ali o modelo ianque de guetos centrais e ricos morando em subúrbios afastados, muitos deles nos morros como na Califórnia. Mas em Durbã há favelas nos morros da periferia, e bairros caros na Zona Central – ambas as coisas inexistem em todo resto da África do Sul (a Cid. do Cabo tenta trazer os ricos pro Centro mas o projeto ainda se inicia).

Disse numa legenda acima que eu entrei no mar em Durbã todos os dias, exceto o que choveu. Mas não foi só por causa do clima que deixei de ir a praia.

Eu já havia reservado esse dia pro trem, fizesse o tempo que fizesse. Assim, saí de casa sob tempestade.

Estiava as vezes, depois voltava a aumentar o toró, mas choveu a manhã inteira (veja as imagens mais pra cima dos pedintes nos sinais com capas).

Peguei o ônibus pro Centro, e dali subi a pé a antiga Rua Berea (atualmente a Rua Rei Dinuzulu, mas todo mundo chama pelo nome antigo, incluso os negros).

Cheguei a ‘Cidade Alta’ (esq.). Depois desci a ladeira pro Centrão. Debaixo de forte temporal. Fiquei ensopado, claro, mas não importo, gosto de chuva.

Me dirigi a Estação Central de Durbã (2 tomadas abaixo). Cara, só eu, tendo essa missão peculiar nesse planeta, pra encarar. O bagulho é louco.

 Literalmente, uma “Descida a Escuridão”, como já relatei com detalhes e muito mais fotos nessa mensagem.

As imagens valem por mil palavras. É escuro, é perigoso, é sujo, o cheiro de mijo toma conta de algumas partes da estação.

E por isso quem pode evita. Eu, não podendo deixar de ser quem sou, fui lá. Pra poder lhes dar esse relato. Os problemas começaram na hora de comprar o bilhete. Pois você tem que informar o destino já que a tarifa é calculada conforme a distância.

Vi pelo mapa um bairro que queria ir, mas não sabia informar direito ao cobrador – meu inglês não é dos melhores, e nem o dele eu acrescentaria.

Puxei o mapa, mostrei a ele, e com ajuda de uma passageira atrás de mim na fila, consegui afinal comprar o tíquete.

Estádio de críquete (esporte de preferência dos brancos) na Zona Central de Durbã. Há um aviso na entrada alertando que “qualquer manifestação de racismo será severamente punida no rigor da lei”.

Cheguei a plataforma praticamente vazia (esq.), havia um trem parado mas ninguém dentro, e ninguém entrava, e não seria eu, mais forasteiro impossível, a ser o primeiro.

Esperei quase meia-hora, veio outro trem. Eu e mais umas 4 pessoas entramos. Andou duas estações, recolheu, tivemos que descer.

Espero mais 40 minutos em outra estação também quase deserta, chega outro trem. Esse um pouco mais cheio.

Chego na estação que queria, desço. Mas na África do Sul os trens não trazem no letreiro o nome do destino, mas um número.

Só quem pega sempre sabe o destino de uma composição por esse código. Com tudo pra atrapalhar e nada pra ajudar, peguei um trem distinto daquele que eu havia pago.

Praia na Zona Norte da Cidade do Cabo, sempre com a Mesa-Montanha ao fundo. Vazia porque o mar é gelado, não tem como entrar. Os poucos frequentadores era todos brancos, pois ali é um subúrbio a moda ianque de milionários (em outra postagens subo fotos do bairro).

Assim, na hora de sair da estação o fiscal conferiu minha passagem e disse que estava errada.

Era evidente a todos que eu era estrangeiro, era a única pessoa de pele clara de toda estação.

Disse a ele: “eu sou do Brasil, e comprei a passagem incorreta por falha na comunicação, desculpe.”

“Então você tem que comprar o bilhete certo, referente ao trecho que usou”, ele informou.

Próximas 9: Soweto, Joanesburgo (no detalhe a auto-estrada). A periferia da África do Sul, pela herança inglesa, se compõe inteira de conjuntinhos com as casas todas iguais (em Santiago igual, mas no interior do Chile completamente diferente). O governo sul-africano está fazendo um esforço hercúleo pra erradicar as favelas, não negamos. O resultado é esse.

“Sem problemas, vamos a bilheteria que eu faço isso agora”. Fomos. Nosso diálogo foi em inglês.

Chegando ao balcão, o fiscal e o bilheteiro passaram a conversar entre eles em sua língua africana nativa, eu não entendia uma palavra.

Após alguns minutos de argumentos e contra-argumentos, me falaram que afinal eu não precisava pagar de novo.

Viram que não houve má-fé de minha parte. E como haveria? Até os moradores locais fogem desse trem como o diabo da cruz.

Não seria eu, turista de outro continente, que tentaria lograr a companhia local em alguns centavos. Era óbvio que comprei a passagem errada por engano, e não intencionalmente.

Estávamos no meio de uma das favelas mais barra-pesadas da Grande Durbã, onde se mata gente por qualquer motivo e mesmo sem qualquer motivo.

Eles ficaram de cabelo em pé quando disse que eu era do Brasil, que não conhecia ninguém ali, e iria apenas dar umas voltas no bairro a esmo, tirando fotos.

Mais uma vez: o governo entregou uma cohab, em alvenaria. Mas o puxadinho é de latão. Antes, quando ali era favela, as casas eram de zinco. Assim, o costume de construir nesse modal ficou fortemente enraizado na Consciente Coletivo do povão sul-africano.

O bilheteiro abriu a urna que servia de lixo, e revirou papel por papel as passagens já usadas por outros passageiros.

Até que achou uma que coincidia com o trecho que eu usei. Me deu, e disse: “quando você voltar me entregue”.

Insisti novamente em pagar, ele disse que não era preciso, e que tomasse cuidado porque a vizinhança ali não era lugar de brincadeiras.

Klaarwater, eis o nome da vila de onde eu estava, se você quiser conferi no ‘Google Mapas’. É um bairro popular nas encostas do morro, com várias favelas.

Sabe, todo mundo que me via estava apavorado por eu ter ido de trem, e por eu estar ali. Mas eu não sentia medo. Ao contrário, estava tranquilo.

Digo, com tudo mundo o tempo todo te dizendo “é perigoso, é perigoso demais”, você fica meio apreensivo. Mas minha Alma tem muito claro o conceito de Missão de Vida.

Estar ali era estar cumprindo minha Missão, e ter essa certeza fazia com que eu não temesse. Andei pelas ladeiras de Klaarwater, tirando algumas fotos.

Os sul-africanos são muito educados e solícitos, e as crianças que saíam da escola me cumprimentavam:

“Como vai o senhor?” Respondia “vou bem, e você?”. Ou seja: não tive nenhum problema com os moradores do bairro. Os que falaram comigo o fizeram em tom amistoso.

Mesmo sem nunca terem me visto, e, repito, estando óbvio que eu era estrangeiro, que não era morador sequer do país, muito menos do bairro.

Aqui não é ‘puxadinho’. O governo fez uma cohab, mas nova invasão surgiu – com as moradias em zinco, claro.

Quando eu já me dirigia a estação de trem pra voltar ao Centro de Durbã, uma viatura da polícia encostou.

E me abordou de forma bastante ríspida. Eram um casal de policiais. Foi o Homem quem conduziu a conversa: “O que você faz aqui?”

Dei a mesma resposta que ao noiado, que é a mais pura Verdade, portanto nem teria como responder diferente:

A mesma cohab, vista na foto anterior e que já foi retratada mais pro alto na página.

Sou um jornalista do Brasil, e estou fazendo uma matéria sobre a África, pra mostrar como é Durbã as pessoas de meu país”.

“Quem você conhece aqui nesse bairro?”, ele continuava agressivo. Eu, inversamente, permanecia calmo, e respondi naturalmente:

“Não conheço ninguém senhor, eu sou do Brasil e nunca estive aqui antes”. “Como você chegou aqui?”, ele quis saber. “Eu vim pelo trem”.

“Pelo trem???”, ele só não caiu pra trás porque estava sentado. “Você veio de Durbã sozinho pelo trem, e não conhece ninguém aqui?”

Isso é Soweto: outra favela surgiu – nessa as casas são de madeirite. Na frente uma van – Toyota e branca, sempre. Essa é do modelo antigo, e tem uma ‘saia’ amarela. Ao lado uma perua BMW caríssima. Ou seja: agora Soweto também tem alta-burguesia. No ‘apartheid’ os negros eram todos pobres, pois escravos do regime. Na democracia a concentração de renda que antes era somente inter-racial agora se repete dentro da raça negra, igualmente.

Ele precisava confirmar porque lhe parecia inacreditável. Certamente nunca vira nada nem remotamente parecido. “É exatamente isso, senhor”, respondi.

Revistou minha mochila, e ao constatar que não havia nada ilegal, se acalmou. Aí ambos já haviam descido do carro.

A Mulher policial falou comigo pela primeira vez. “Você está liberado, pode pegar o trem, se acha que é seguro”.

Disse a ela: “Senhora, sim, eu vim pelo trem, e vou voltar com ele. Não vejo qualquer problema”.

Foi o gatilho que detonou uma reação instintiva. Mais uma vez começou o sermão, que eu já havia ouvido dezenas de vezes na África do Sul, sempre que mencionei a palavra “trem”.

Falando em carros e em Soweto, uma concessionária Toyota e Volkswagen (que dominam o ramo de vans e de carros pequenos, respectivamente) com o nome do bairro.

“Não vê problema? Esse trem é perigoso demais. Você não conhece, vão te roubar com certeza, pode ser que te matem. Olhe, você não pode pegar esse trem”.

Ela se contra-disse, pois na frase anterior acabara de dizer que eu era livre pra fazer isso, se assim o quisesse.

Confabulou com o colega dela, e chegaram a uma solução. Aí foi o Homem quem disse, abrindo a porta traseira, e me indicando o camburão onde vão os presos:

Próximas 5: agora favelas da Cidade do Cabo. Essa é no extremo da Zona Sul, no bairro Baía Hout, de classe elevada. A frente dela há um campo de refugiados da ONU. Bem, boa parte dos habitantes dessa favela são imigrantes de outros países africanos, mesmo público-alvo da ONU. Então temos frente-a-frente dois grupos de refugiados africanos, a diferença é que uns têm esse status oficialmente, e outros não.

“Entre aí, que nós vamos te levar a outra parte do bairro, até o ponto de táxis, e de táxi você volta pra Durbã em segurança”.

Perguntei: “você está me prendendo?” Ele respondeu: “não, eu vou te ajudar. Pode entrar tranquilo”. Ele já havia me dito antes que eu estava liberado, e ali falou de novo.

Achei que ele queria mesmo me dar uma carona, e, bem, o único lugar era na caçapa, no banco da frente só haviam dois lugares, já ocupados.

Por isso, e por não querer entrar em confronto com um policial sul-africano numa das favelas mais perigosas da África do Sul, pedi a Deus Pai e Mãe que me protegesse.

E entrei no recinto destinado aos detidos. A seguir por fora ele passou a tranca. Eu não estava preso. Mas que a impressão era essa, isso era mesmo.

Essa é no lado oposto da cidade, no extremo da Zona Norte, a caminho de Atlântida. Favela bem precária, sem luz nem mesmo gatos, sem água nem mesmo nas torneiras comunitárias. Fica entre a rodovia e o mar, sobre as dunas. Em verde os banheiros químicos. A cena é igual aos acampamentos dos beduínos no Deserto de Neguev, Israel.

Não fui só eu que senti assim. Os ‘manos’ da vila, que observavam a situação, explodiram em gargalhadas.

Não é difícil entender o porque. Eles já viram – e participaram – daquela cena centenas de vezes: a polícia vem na quebrada e leva alguém embora na parte traseira da viatura.

Muitas vezes eram eles mesmos que foram levados ‘pra dar uma volta’, gerando uma estada de muita dor na delegacia, muitas vezes de várias semanas ou meses.

As próximas 3 mostram uma favela na Zona Leste da Cidade do Cabo, na estrada que leva pro aeroporto e pra Khayelitsha, a “Zona de Perigo”. Saiu azulada porque na pressa eu não abaixei os vidros do carro, que tinham película. A esquerda na imagem os banheiros químicos, ao centro um VW Golf – o carro mais vendido da história da África do Sul, falo disso melhor em outra postagem em breve – e a direita um Toyota.

E quando não eram eles mesmos a entrar na gaiola, eram seus vizinhos, parentes e amigos próximos. Ou seja, a mesma dor.

Por isso foi um alívio pra eles verem isso acontecer com alguém de fora.

Que eles não conheciam, e portanto não se importavam. Eu não fora preso, mas que essa era a impressão, certamente era.

Daí natural a reação desses jovens negros africanos, oprimidos por um sistema injusto, descontando toda essa tensão reprimida em risos.

Mas os policiais cumpriram sua palavra. Realmente eles me levaram a um ponto de van, e dali eu embarquei pro Centro.

As casas majoritariamente de zinco, o segundo material mais usado é madeirite e papelão.

Valeu pelo ineditismo de entrar num compartimento dos detentos, mas não passou disso, uma experiência curiosa.

Eu compreendo a agressividade inicial da abordagem. Afinal, minha presença ali era absolutamente heterodoxa.

Klaarwater não é turística, digamos assim. Falando mais claramente, é um bairro violentíssimo.

Repare na van (no meio da imagem), ganha-pão de algum morador. Por isso os negros fizeram uma guerra pra poderem utilizar seus ‘táxis’ pela cidade toda: pra receita do transporte ficar na própria comunidade.

(Nota: Soweto, em Joanesburgo, é turística. Nos tempos do ‘apartheid’ era até proibido estrangeiros e brancos sul-africanos irem ao bairro, e pouca gente tinha interesse.

Mas hoje há interesse, querem ver onde Mandela e outros moraram e lutaram. Assim agências de viagens promovem excursões, que custam bem caro – até por isso dispensamos e fomos de ônibus urbano normal.

Soweto é periferia, é violento, mas é famoso, por isso  gente de grana, nacionais e de outros países, vão até lá – num processo similar ao que contece com a Rocinha, na Zona Sul do Rio.

Antiga Rua Berea, Zona Central de Durbã. Atualmente a ‘Rei Dinuzulu’, mas todo mundo usa o nome anterior, que se deve a que ela liga o Centro ao subúrbio de Berea, que apesar de ser outro município ainda é Zona Central da Grande Durbã – já que na África do Sul, como nos EUA, os municípios são menores que no Brasil. Destaquei o logo do ‘Shoprite’, uma das maiores redes de supermercados do país, uma corruptela de ‘Shop Right’ (‘Compre Certo’).

Em Soweto os policiais estão acostumados a ver turistas. Klaarwater não é famosa, não há excursões pra lá.

Se Soweto é a Rocinha, Klaarwater equivale as periferias mais afastadas da Baixada Fluminense, digamos assim.)

Por tudo isso, a princípio, ao ver um estrangeiro de outra raça no bairro, natural que eles suspeitassem de má-intenção.

Verificar o porque de eu estar ali era exatamente o trabalho deles

Ele me abordou de forma tensa pois a ‘Lei das Ruas’ impõe assim, se ele não usar sua autoridade a perde.

Não estou defendendo nenhuma forma de violência, que fique claro. A polícia existe pra prender (em flagrante ou com mandato), e aí a Justiça assume o caso.

Assembleia Legislativa do Estado de Gauteng, Centro de Joanesburgo. Curiosamente, o prédio é parecido com a Assembleia estadual de Córdoba/Argentina, que eu também fotografei.

As forças de segurança não devem jamais torturar ou agredir ninguém, mesmo suspeitos de crimes.

Agora, falar um pouco grosso é inevitável, ou a ‘malandragem’ nem permitiria a revista.

Assim foi na África. O policial fez o que ele é pago pra fazer.

Mas ele jamais me agrediu, física e nem mesmo verbalmente. Pediu que eu abrisse minha mochila, o que eu mesmo fiz.

Quando acatei sua ordem, ele nem mesmo me revistou, pra conferir se eu estava armado.

Na mesma auto-estrada da Z/L do Cabo, as cohabs que o governo vem fazendo pra urbanizar as invasões. Sempre com painel solar – mesmo nas piores periferias, como notam.

Ao aceitar que a minha versão, apesar de insólita a princípio era a mais pura Verdade, eles passaram a me ajudar.

(E era, aqui está a matéria, escrever sobre a periferia da África era o único motivo pelo qual fui a Klaarwater.)

Nunca na vida deles os policiais haviam visto um turista estrangeiro naquelas bandas, muito menos que tenha ido sozinho.

De trem, sem um contato no local, e – espanto dos espantos – eu não tenho celular! Logo não poderia pedir socorro se algo desse errado.

Nunca faltam os puxadinhos !!!

Era eu e Deus, mesmo!!! Fé Total na Proteção Divina, em que aquilo era minha Missão, logo Deus Pai e Mãe iria me proteger.

E a proteção veio, mesmo de forma insólita, mesmo das pessoas que a princípio me viram com desconfiança.

………

Próximas 15: Klaarwater, morro na periferia da Grande Durbã, onde a polícia me deu uma ‘carona‘. No ‘container’ vermelho uma mercearia.

Os sul-africanos são extremamente educados e solícitos. Ao perceberem que alguém precisa de ajuda eles voluntariamente abordam a pessoa e se oferecem pra auxiliar.

Aconteceu muitas e muitas vezes conosco, quando nos viam nos bairros mais perigosos, os moradores locais vinham e nos orientavam como sair dali.

Em Joanesburgo foi o mesmo. Estávamos no terminal de ônibus de Soweto, um rapaz veio e nos orientou: “Pra onde vocês querem ir?”. Ao informarmos que era de volta pro Centro, ele indicou a plataforma.

Durbã é a única cidade grande da África do Sul que tem favelas em encostas, como na América Latina. Em Joanesburgo e Pretória não há morros, e no Cabo são os milionários que moram nas ladeiras, como nos EUA e Mônaco.

O ônibus chegou ao ponto final num bairro da Zona Central mas já além do Centrão, entretanto nós não descemos.

Não conhecíamos a cidade, e conversávamos com o mapa na mão, falando em português obviamente.

Analisávamos onde seria o melhor lugar pra voltarmos ao bairro de Killarney, no começo da Zona Norte, onde estávamos hospedados.

O motorista do ônibus saiu de seu posto e veio falar conosco, pra ajudar. Dissemos que desceríamos em determinado ponto do Centro. Ao chegar ali, mais uma vez ele encostou o veículo e veio até o fundo do mesmo, gentilmente nos lembrar que era ali era o destino pretendido.

Eis a vendinha mostrada mais pra cima. Como muitos sul-africanos nas favelas já moram no zinco, estão acostumados, digamos assim. Com grade na janela pra prevenir assaltos

Na Cidade do Cabo aconteceu mais uma vez. Alias, na África do Sul pela primeira vez andei em vários modais:

Num camburão, no Uber (que eu nunca havia utilizado no Brasil), em táxi clandestino e em carros das marcas Mercedes e BMW. Esses 3 últimos conto em outra postagem, que o texto já está longo demais.

Por isso, pra caminhar pro fechamento, um dia na Cidade do Cabo pegamos o Uber pra ir a praia. Uma praia num bairro de gente muito rica, num subúrbio a moda ianque na Zona Norte da cidade.

Também descrevo melhor o bairro e minha curtíssima entrada no mar absolutamente gelado noutra mensagem, breve. Aqui basta dizer que cada sobrado é cotado na casa dos milhões de reais.

Mas eu conversando com o motorista do Uber (que lá os negros chamam de ‘Uba’, também me estenderei posteriormente sobre a linguagem, veem que a série ainda vai longe) disse que a tarde eu iria no bairro de Khayelitsha, na periferia, pra contrastar, pra conhecer os dois lados.

Klaarwater, Durbã. Mas lembra Tamandaré, na Z/n da Gde. Ctba. Ou partes de BH, Rio, Salvador, P. Alegre ou Floripa, não?

Pronuncia-se ‘Calítcha’ ou ‘Calítia’. É um dos bairros mais perigosos da Cidade do Cabo e de todo planeta.

Leva mais de uma hora pra chegar de ônibus, e isso que a maior parte do trajeto é pela auto-estrada, ou seja, diretão, o latão vai sem paradas seja em pontos ou sinais.

Só começa o pinga-pinga quando ele sai da rodovia e entra no bairro. Já  conto essa parte.

Antes, recordando, ainda pela manhã eu contei ao motorista (negro) que iria a Khayelitsha, e que em Durbã já havia visitado bairros parecidos, um deles o Klaarwater onde andei na viatura.

Já viram na abertura da página que as casas da favela não têm água. Também não há banheiros, são construídas fossas com casinha fora da construção principal. Nesse bairro o governo ainda não pôs banheiros químicos.

O rapaz se entusiasmou: “Ah, pelo menos você vai conhecer a África de Verdade!!!”

“Porque 99% dos turistas vem ao Cabo, e só conhecem o aeroporto, os ‘shoppings’, a Mesa-Montanha e os bairros dos ricos – isso não é de fato vir a África”.

Realmente. A Cidade do Cabo, em sua Zona Central, conta com enorme presença de brancos. É a mais pura verdade. você não se sente plenamente na África.

E sim na Europa (todas as metrópoles oeste-europeias hoje têm grande leva de imigrantes africanos, o sabem) ou em partes da América (Colômbia, Equador, Brasil ou EUA, entre outros) em que há consolidada a mistura entre negros e brancos.

Aqui eu me lembrei de Colombo, também na Z/N da Grande Curitiba.

Eles dizem isso lá. Presenciei quando, aos pés da Mesa-Montanha, um morador local, mulato, puxou conversa com duas meninas alemãs.

Elas conheciam a África sozinhas, como mochileiras. Ele falou textualmente a elas: “Vocês vão gostar da Cid. do Cabo. É África, mas não parece”.

Pois bem. Khaeylitsha É África. 100% África, e parece África e somente África. Um bairro enorme e miserável.

Distante, tudo é precário, violência urbana na estratosfera, fizeram várias cohabs pra urbanizar as favelas, mas novas invasões surgem o tempo todo, tornando o trabalho hercúleo e permanente.

Nunca faltam as pedras e pneus dos telhados.

Sabe a missão de Sísifo de empurrar eternamente uma grande pedra morro acima, e assim que ele conclui ela roda ladeira abaixo, obrigando ao eterno recomeço?

Então, urbanizar as favelas da África é o mesmo. Até aqui o que descrevi de Khayelitsha é exatamente igual a América Latina.

De São Paulo a Argentina a BH a Belém a Curitiba ao Chile ao México e a Colômbia, República Dominicana, Paraguai e toda parte, essa é nossa realidade.

Mais uma vez, o banheiro fora da casa, na verdade uma fossa, como foi no interiorzão do Brasil até o século 20. Na África do Sul urbana em pleno século 21 ainda é assim.

Mas na América Latina as periferias têm muitas raças misturadas. Sempre há brancos, negros e índios, e proporções variadas conforme o país e mesmo a parte do país.

Em Khayelitsha só moram negros. Khayelitsha É África, de Corpo e Alma. Além de tudo que descrevi acima, é um bairro extremamente denso.

Puxadinhos nas cohabs, que são universais, tornam praticamente impossível distinguir onde já foi urbanizado de onde nunca foi, fica tudo com cara de favela.

Não tenho nada contra as favelas, eu moro numa delas, e moro porque quis morar.

Claro que não faltariam as moradias em latão.

Da mesma forma, eu fui a Klaarwater, Soweto, Khayelitsha, e muitas outras quebradas desse país sabendo o que ia encontrar, e fui exatamente por isso. A favela não me assusta.

Ainda assim, em Khayelitsha a coisa é muito densa, são centenas de milhares de pessoas se espremendo sem quase nenhuma infra-estrutura.

As casas chegam quase na via pública, as ruas ficam cheias de gente, o tempo todo. E eu era o único que não era negro. Eu não me defino como ‘branco’ pois isso significa ‘europeu’, e eu não sou europeu, sou Americano.

A raça pra mim é algo tão físico como cultural. Assim, eu não sou ‘branco’, Sou Americano.

De qualquer forma minha pele é clara. Aí, em Khayelitsha ficava evidente não apenas que eu não era do bairro, como também que eu não era do país.

Já visitei favelas horrorosas na América, tanto no Brasil como em vários países. Mas aqui, pela mistura de raças, eu posso andar incógnito. Me embrenho entre os becos e vielas, pois olhando pra mim as pessoas não percebem que sou de fora.

Ao menos enquanto não há diálogo. Resultando que se eu não falar com ninguém na rua, e na maioria das vezes eu não falo, ninguém descobre minha ‘identidade secreta’. Em Khayelitsha eu não tinha essa proteção.

Todos viam imediatamente que eu era um turista estrangeiro andando sozinho. Sendo assim um alvo fácil pra ladrões. Não é uma questão do bairro ser pobre o não, e sim de ter muvuca nas ruas.

Klaarwater em Durbã, Soweto em Joanesburgo, e Atlântida na própria região metropolitana da Cidade do Cabo, são tão pobres quanto. Mas são menos densos.

Nesses outros, eu andava nas ruas ou nos ônibus, e viam que eu não era dali, mas não haviam grupos numerosos de pessoas aglomeradas.

Então eu senti confiança pra circular livremente em qualquer parte e até pra fotografar extensamente. Digo, em Soweto não saí do ônibus, mas dentro dele fotografei a vontade.

E mesmo conversamos com alguns moradores do local que tinham curiosidade em saber como é o Brasil. A interação foi amistosa e tranquila. Em Khayelitsha preferi não fotografar mesmo no ônibus, e muito menos na via pública.

Tudo se somou, um lugar muito pobre, a raça diferente, e muita galera nas esquinas. 99% dos moradores de Khayelitsha são honestos e trabalhadores.

Ganham duramente seu pão com o suor de seus rostos, não tenho qualquer dúvida disso. E por isso fui ver onde eles moram. Quase todos vocês que leem esse relato nunca tinham ouvido falar desse bairro, tenho certeza.

Então, inaugurar o nome ‘Khayelitsha’ na mente dos leitores é minha homenagem aos Filhos e Filhas da Mãe-África, que tanto lutam e sofrem.

Eu Amo a Favela, mais que isso, Eu Sou a Favela. E por isso não temi ir Khayelistha, nome que causa arrepios a burguesia do Cabo, mesmo aos burgueses negros. Mas a mim não, por isso fui.

Ainda assim, mesmo com 99% de seus moradores honestos, não vamos negar que Khayelitsha e todas as outras quebradas da África do Sul têm suas gangues, e gangues muito violentas.

Terrenos bastante inclinados, o conjunto de casas forma uma escadinha.

O número de assassinatos diários nessa nação não deixa dúvidas desse triste fato. Também não tapemos o sol com a peneira, porque o Amor não pode cegar.

Tanto é assim que na auto-estrada que cruza o litoral austral da África do Sul (o trecho urbano dela é a via de acesso aos subúrbios a leste do Cabo) os avisos eletrônicos dizem textualmente:

“Zona de Perigo. Não pare na rodovia. Se precisar de ajuda ligue pra tal número”. Que aí o pedágio manda uma escolta armada, pra você poder consertar seu carro em segurança.

Assim, explicitamente, com todas as letras: “Zona de Perigo” (‘Danger Zone’ no original). E não sem motivo.

Interrompo Klaarwater pra mostrar a Cidade do Cabo, a rodovia que leva a Khayelischa (e depois dela ao litoral austral) com inúmeras favelas as margens. Daí a “Zona de Perigo” (imagem baixada da rede, crédito mantido).

As margens da pista estão inúmeras favelas, além de algumas cohabs já urbanizadas, mas também violentas (imagem ao lado).

Se um carro de alto padrão encostar ali, as chances são grandes que surja uma galera pra depenar o motorista e sua família, afinal os ladrões estão ‘em casa’.

Após cometido o roubo (e quem sabe algo pior) basta se embrenhar de novo nos becos da favela que está a alguns metros.

E será difícil pra polícia achá-los, terá que ser feita grande operação, com vítimas, que vai aumentar ainda mais a tensão.

Próximas 3: volta Klaarwater, Durbã.

O melhor mesmo é evitar e não parar sozinho no acostamento, sob hipótese nenhuma. Teu carro quebrou? Se possível siga até um posto de gasolina ou praça do pedágio.

Na pior das hipóteses, ligue imediatamente pedindo ajuda, em poucos minutos a polícia virá protegê-lo. E isso vale pra brancos e negros. Os ladrões não são racistas, se quiser ver assim.

Se um burguês negro parar ali com um carro ou caminhonete na marca dos centenas de milhares de Rands (dezenas de milhares de reais), será roubado da mesma forma.

Sem piedade ou ‘camaradagem de raça’. Bem, vimos nas fotos que negros matam negros com fogo, paus e pedras sem qualquer compaixão.

Mesmo se abstendo de motivos políticos, as taxas de homicídios sul-africanas são altíssimas, e em 95% dos casos o assassino é negro e a vítima também.

Khayelitsha e auto-estrada que dá acesso a ela é ‘Zona de Perigo’ mesmo, não é modo de falar. Portanto o aviso luminoso me chamou a atenção por ser tão explícito, mas não há como retificá-lo, de forma alguma.

Foram as próprias crianças que pediram que eu as fotografasse. Fechamos Klaarwater com chave de ouro: os meninos e meninas da vila, a África do Sul do amanhã. Há muitos problemas, mas há esperança: até 2 gerações atrás os negros não recebiam acesso a praticamente nenhuma educação formal (o pouquíssimo que eles tinham direito de estudar as classes não contavam sequer carteiras, ele precisavam escrever no chão). Agora eles têm escola pública com uniforme e refeições quentes. Falta muito pro ideal? Certamente. Mas já melhorou demais, isso também é certo.

Ainda assim, em Khaeylitsha, eu não senti medo de estar ali. Mas eu achei melhor não fotografar, pra não chamar ainda mais atenção. E também preferi não circular muito.

Muitos dos negros das favelas da África do Sul muitos nem são fluentes em inglês, arranham algumas palavras somente nessa língua.

Pois se comunicam basicamente em seus idiomas nativos. Seus empregos são braçais, com pouca ou nenhuma interação com o público, assim isso lhes basta.

Então até pra pedir uma orientação seria complicado. Tudo somado, eu fui observando essa realidade de dentro do ônibus.

Quando cheguei ao ponto final e desci, achei que era suficiente, que eu já havia ido onde quase nenhum estrangeiro turista ousara pisar até então.

Assim eu poderia retornar imediatamente, sem andar a pé pelo bairro. Busquei então a estação de trens.

Próximas 3: em sequência baixada da internet, Khayelitscha, Zona Leste da Cidade do Cabo. Em azul os banheiros químicos.

Sim, esses trens são perigosíssimos. Mas é como estar entre entre a fogueira e o caldeirão. Pelo menos no trem eu não precisaria pedir informações, mas pra pegar van ou ônibus sim.

E pra pedir informações iriam me perguntar porque eu estava ali. Afinal nunca nenhum deles imaginaria que um turista de outro continente iria de ônibus urbano a Khayelitsha.

Sozinho, sem conhecer ninguém, e sem celular. Esse diálogo, que seria extenso, poderia gerar uma aglomeração perigosa.

Eu estava no coração da ‘Zona de Perigo’, só eu e Deus. Então preferi optar pelo que julguei ser menos perigoso, e me dirigia a bilheteria da estação do ‘Metro-Rail’.

Deus Pai e Mãe mais uma vez não me abandonou, e mandou um anjo me proteger.

Esse Espírito Guardião se materializou na forma de uma linda moça negra sul-africana, chamada Mona Lisa.

As montanhas ao fundo, e a oni-presente Coca-Cola. Óbvio que estamos na Cid. do Cabo e na Áfr. do Sul.

Ela percebeu que eu era um ‘peixe fora d’água’ no meio da quebrada, e quando me viu indo pegar o trem, interveio.

“Ei moço, não pegue esse trem. É muito perigoso”, ela repetiu o que todos dizem na África.

Aí expliquei a situação, disse que eu era do Brasil e estava lá fazendo uma matéria sobre as periferias da África do Sul.

E que queria voltar pro Centro, mas como não conhecia outro meio, o trem me parecia a melhor – ou no mínimo a menos pior – de minhas opções.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo. Prédio de classe média, com porteiro e tudo. Sim, meio decadente, não nego. Mas ainda de classe média. E mesmo assim todos os apartamentos têm grades nas portas pra evitar arrombamentos. Idem em Durbã, a mesma situação. A África do Sul não é de brincadeira.

Ela então falou: “Vamos fazer o seguinte. Eu te levo até a estação de táxis”. Por isso ela quer dizer as vans, você sabe.

Mas Khayelitsha é tão distante do Centro que não tem linha de van direta até ele. É preciso pegar uma van ‘alimentadora’, que só fica dentro da vila.

Ela vai até o terminal central de Khayelitscha, e dali eu precisaria trocar – pagando novamente – pra outra van, que me levaria até o Centro.

Mona Lisa me explicava isso, que eu precisaria baldear no terminal. E disse: “eu falo com o motorista. Explico a situação, que você é estrangeiro.”

“E que precisa chegar ao Centro em segurança. Aí lá no terminal ele vai te mostrar qual a outra van você pega”. Assim foi feito, ela falou com o condutor num idioma negro nativo.

Antes disso, enquanto cruzamos a passarela que separava a estação de trens da estação de vans, contei minha missão.

Logo após os prédios de Killarney há um bairro de elite, só mansões mesmo. Veja, há uma grade na rua, outra perto da casa, e uma só abre quando a outra fecha. Precisa dizer mais?

Relatei que já havia ido a muitos bairros parecidos aqui na América, em meu próprio país e vários outros. Disse que pra mim era uma grande honra estar ali, no bairro dela.

Mona Lisa até se ofereceu pra então darmos uma volta maior pela redondeza, ela me acompanharia e com seu salvo-conduto não haveria o que temer.

Eu senti sinceridade nela, que queria mesmo me ajudar, e jamais me pôr numa armadilha. Mas pra não abusar da boa vontade da moça eu atalhei:

“O que eu já vi já foi suficiente. Já visitei Khayelitsha (o que quase nenhum morador do Cabo tem a coragem de fazer, muito menos os turistas), está bom.”

“Zuma tem que cair”, eis o mantra quase oni-presente no 1º semestre de 2017 na África do Sul. Aqui cartaz conclama pra manifestação no Centro de Pretória em abril, a marcha foi da Praça da Igreja-Matriz (marco zero da cidade) até o Palácio Presidencial, ainda na Z/C mas já saindo do Centro.

Me leve até o ponto do táxi, fale com o motorista pra ele me indicar a outra van, é melhor eu voltar pro Centro.  

Querida, muito obrigado por tudo que você está fazendo por mim, que Deus lhe pague.

Assim foi. Entrei na primeira van, que serpenteou nas estreitas ruas de Khayelitsha.

Pra compor o cenário, o motorista ouvia música africana de raiz, no idioma local. Não os enlatados dos EUA/Europa em inglês, mas a cultura deles.

Me senti num filme, sabe? Aquilo me emocionava, os pêlos do corpo se arrepiavam todos. Sim, em plena ‘Zona de Perigo’, pra alguns. Mas pra mim não houve qualquer ameaça.

Mesmo nas partes mais perigosas da África, fui bem acolhido, sempre. Quem me abordou foi sempre pra me ajudar, e isso valeu até pra polícia.

Cheguei a estação. O motorista cumpriu o pedido da querida menina Mona Lisa, e me falou “você pega o táxi nº 5 pra Cidade do Cabo”.

Agradeci. Nem era preciso esse cuidado, essa estação era sinalizada, ao contrário da primeira em que não havia qualquer indicação de destino.

Pichação nos subúrbios de elite a moda ianque na Z/N de Joanesburgo apela pro mesmo mote, mas aqui já ampliado: “Eles têm que cair”, diz a mensagem original. “Eles” se refere não apenas ao presidente Zuma, mas a todo seu grupo político. Bem, os defensores da situação contra-atacaram dizendo que “Nós temos que crescer“. A África do Sul enfrenta em 17, repito, a mesma situação que o Brasil passou em 16. A mídia está unânime contra o presidente. Até aqui não prova nada, as corporações da comunicação estão concentradas em pouquíssimas mãos dos Oligarcas, que nem sempre jogam limpo – ou só jogam sujo, falando mais claramente. Perguntei a 5 taxistas o que eles achavam dessa campanha. 4 disseram que Zuma “tem que ser removido do poder o mais rápido possível”, ecoando a mídia. Um deles teve uma visão dissonante: “sabe, é curioso, não? Existe esse grupo de nações, o BRICS, que está fazendo frente aos EUA. Será coincidência que exatamente esses países que incomodam os EUA vêm passando por esse processo de turbulência política? Antes foram vocês (no Brasil), agora a gente”. Pois é. Cada um que tire que suas próprias conclusões.

Mas só pra garantir, perguntei em inglês ao motorista da nova van se o destino era Cidade do Cabo, por isso querendo dizer o Centro da cidade.

“Cape Town, man!! That’s right”, ele respondeu bem alto, entusiasmado.

Sentei no banco da frente, a seu lado. Eles sempre ouvem música, mas esse preferiu os enlatados euro-ianques.

Estava bom pra mim, tudo estava bom, tudo tinha dado certo. Pegamos a rodovia, os mesmos avisos “não pare, zona de perigo”.

Um monte de favelas a minha volta. Quase atropelamos uns meninos que invadiram a pista atrás de uma bola, coisa de criança sem noção das leis da física.

Era meu último dia na Cidade do Cabo.

Vendo tudo aquilo, a luta multi-milenar daquele povo, a Saga da Raça Guerreira Negra Original, eu chorava de emoção.

Eu era também parte dessa Vibração, uma gota no Oceano que seja.

Fiz parte da África, e a África fez parte de mim. E assim será pela Eternidade, estaremos Unidos, Sempre e pra Todo Sempre. Mais que Amar a África, Eu Sou a África.

E por isso a Grande Vida (Deus Pai e Mãe) permitiu que eu fizesse 40 anos no Solo Sagrado Africano, que eu me ajoelhei e beijei como Prova de Amor.

Sede do CNA no Centro de Joanesburgo – o parido de Mandela.

Eu nunca fui a Europa, e nessa encarnação não irei. Eu não sou europeu, digo de novo. Sou Americano de Corpo e Alma, e em meu Coração Sou Africano também.

Sou parte da África, ela é parte de mim.

Eis o turbilhão de Sentimentos que jorravam pela minha Mente e Coração, sentado ali no banco dianteiro da van.

Vendo a Cidade do Cabo passar a meu lado, como numa produção cinematográfica.

Uma História de Amor.

Amo a África. E, pela forma gentil que fui tratado, mesmo em seus bairros mais perigosos (outros não tiveram a mesma sorte, e as fotos e a estatística falam por si mesmas), me Senti Amado de volta.

Num bairro pobre da Zona Central de Joanesburgo haviam várias bandeiras num muro. Entre as da Pátria Amada e a da África do Sul, encontramos a do Uruguai.

Lágrimas me corriam dos olhos, como já havia acontecido quando eu deixava a cidade de Medelím pra ir embora da Colômbia.

Chegando ao bairro de ‘Woodstock’, onde fiquei hospedado já na Zona Central, desci.

Terminava ali minha estada física nessa Cidade do Cabo que tanto Amei e Amarei pra sempre.

Jantei, no dia seguinte cedo rumei ao Aeroporto, passando pela mesma rodovia que corta a ‘Zona de Perigo’.

……….

Mas minha Saga nas periferias sul-africanas ainda não havia terminado.

Acima era só uma homenagem, sem consequências práticas. Mas no Centro de Pretória cliquei uma funerária. Ao lado dos serviços anunciados, bandeiras do território que ela atua, nações que fazem parte do Conselho de Desenvolvimento do Sul da África. De cima pra baixo, coluna da esquerda: Suazilândia; Moçambique; Lesoto; Zimbábue; Coluna da direita: Namíbia; Malauí; Botsuana; e fechando com a nação-sede, a África do Sul.

Minha última cena na África do Sul foi mesmo uma operação de guerra em Joanesburgo.

Fui visitar a favela de Alexandra (pronuncia Alec-zandra), na Zona Norte, a parte rica da cidade mas que tem essa ‘boca quente’.

E isso desde sempre, desde o ‘apartheid’ rolam conflitos violentos por lá, muitas vezes de negros contra negros.

Então mano, cheguei lá, caramba cara, a praça antes da favela tava ocupada por umas 40 viaturas da polícia, sem exagero.

E as entradas da favela todas elas trancadas com barricadas formadas pelos veículos policiais. Embaixo do rodado de uma viatura tinha um corpo coberto, com jornais ou um lençol.

Pensei que havia ocorrido um assassinato entre gangues da favela, ou então que tivessem matado um trabalhador num assalto, mas não sabia que a polícia estava envolvida.

Cactus em Joanesburgo. A África do Sul é muito seca, alias todo Sul da África (pra quem não ‘pegou’, obviamente África do Sul é o país. ‘Sul da África’ inclui essa nação e as nações vizinhas, pra alguns abarcando até o Congo). Seja como for, eu dizia que a água é muito valorizada na região, por ser rara. Quando estive lá (abril.17) a Cidade do Cabo enfrentava severo racionamento de água, os reservatórios tinham menos de 20% da capacidade, como já aconteceu em SP. Alias, um mês antes da África do Sul fui a Argentina. Esse vizinho nosso sul-americano também passava por racionamento, mas de energia elétrica. Já cliquei cactus também aqui em Ctba., Florianópolis, Chile, Argentina, e meus familiares na Colômbia.

Por isso não entendi porque um aparato de segurança tão grande, afinal Joanesburgo tem 1,3 mil homicídios/ano.

Se eles fossem isolar cada cena de crime com um efetivo desse tamanho, teriam que importar policiais da África inteira pra ajudar.

Depois fui ler no jornal, não foi assassinato, e a polícia estava envolvida. Uma viatura atropelou e matou uma menina adolescente que voltava da escola.

Por isso o corpo estava sob o eixo, e por isso uma operação de guerra: em 2015, num caso similar a polícia atropelou e matou 2 Homens.

A população fez justiça com as próprias mãos e queimou os 2 policiais vivos.

Por isso cercaram a praça e trancaram a favela com um contingente, digo de novo e não é exagero, digno de uma ocupação militar. Era uma ocupação militar.

……….

Aquele foi no fim-de-tarde de meu último dia em Joanesburgo, que foi também meu último dia na África.

Sintetizou bem o país, suas tensões, suas lutas. A luta contra o cruel ‘aparheid’ foi vencida, a democracia veio.

Falta agora vencer a tentação de usar a violência pra tentar resolver os problemas.

A violência não resolve nada, apenas agrava todas as dificuldades.

Fechamos com mais uma cena do livro Clube do Bangue-Bangue: ‘Dobsonville’, Soweto, Joanesburgo. 3 Homens tombam mortos numa chacina na guerra negros x negros. O lado uma placa informa “Lembre-se: a Vida não te deve nada – você é quem deve tudo a Vida !!!”. Encerro meu caso.

Mas essa luta apenas inicia. Por hora, a situação é essa aí: mais de 2 mil assassinatos por ano no Cabo somente.

E mais de mil e tantos em Durbã e em Joanesburgo, muitos milhares mais por todo país. Em 95% dos casos, um negro mata outro.

Ruas tingidas de vermelho, cenas de guerra.

Bang! Bang!

África do Sul, p*rra!!!

Só eu e Deus na ‘Zona de Perigo’,

Eu Sou o Mensageiro.

E Deus Pai e Mãe proverá.

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da ‘Guerra dos Táxis’ ao Gautrem: o transporte na África do Sul, da barbárie ao moderníssimo

Acima da manchete: Gautrem, de primeiríssimo mundo, que interliga Joanesburgo, Pretória e o aeroporto internacional. Aqui: sistema de ônibus ‘Minha Cidade’, no Cabo, que não fica atrás.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 1º de julho, 2017.

Maioria das imagens de minha autoria. Identifico nas legendas o que foi baixado da internet.

Vamos falar da rede de transportes na África do Sul. Esse é um país de contrastes, de paradoxos.

Faz parte da África, como até o nome indica, e é de maioria negra. Mas de certa forma ir a África do Sul é também como ir a Europa (os brancos de lá são brancos de verdade. Pele, cabelos e olhos muito claros. 90% são loiros, os olhos azuis e verdes predominam). 

Sendo uma ponte entre Europa e África, a África do Sul não poderia escapar de escapar de ter em si os dois mundos, com todos os conflitos que isso traz.

Rea Vaya‘, o equivalente em Joanesburgo. Funciona bem, mas a rede é muito pequena.

Em outra mensagem já falamos do infame ‘apartheid’, que findou em 1994 com a eleição de Mandela presidente.

No transporte esse paradoxo se manifesta da mesma forma. Encontramos desde os moderníssimos sistemas de ônibus e trens até gente sendo transportada em caçambas de caminhões.

E o pior: muito sangue correu. No período após o ‘apartheid’, os negros explodiram numa revolta que ficou conhecida como “as Guerras do Transporte”, ou ‘Guerra dos Táxis’ no original. Eles queriam o direito de gerir seu próprio transporte coletivo, e assim incendiaram centenas de ônibus.

Centrão de Joanesburgo: mas o modal mais usado do país são as vans (que eles chamam de ‘táxis’). Quase todas são brancas e Toyotas, mas não necessariamente.

E – é triste mas tenho que dizer – balearam e mataram diversos motoristas, quase todos também negros, em Durbã alguns indianos, que igualmente têm pele escura e igualmente foram vítimas do ‘apartheid’.

Quando estava em vigor o macabro regime racista, os negros não eram vistos como seres humanos, e isso dentro de sua própria terra.

Os bairros e favelas que os negros moravam muitas vezes não eram servidos por ônibus, haviam algumas linhas de trem – que eram e ainda são péssimas.

Av. Vitória, Cid. do Cabo, mesma cena. A frente um modelo novo, com farol quadrado o mais antigo, (quase) sempre Toyotas e alvas.

Porém da estação pra sua casa, e muitas vezes eram vários kms, eles tinham que ir a pé. Nos bairros que contavam com ônibus, a situação não mudava muito.

Os busões passavam pela rodovia (ou pela avenida principal em zonas mais urbanizadas) mas não entravam nas vilas.

Resumindo que a situação era a mesma do trem, uma longa caminhada do pouco transporte coletivo disponível até em casa.

Por isso, mesmo quando o ‘apartheid’ ainda vigia, os negros começaram uma rede de transportes própria: vans percorriam os meandros das vilas, favelas e em Durbã também os morros.

Em Pretória, a capital. Nessa aqui há a capelinha de ‘táxi’. “Patrocinado pela mamãe e papai”, diz o adesivo. Outro detalhe: a Toyota vende tanto na África do Sul que fez esse adereço, a bandeira personalizada.

E deixavam os moradores na estação de trem ou na rodovia, onde passava ônibus pro Centro, ou pras áreas industriais, ou pros subúrbios ricos.

Resumindo, ao descer da van operada informalmente também por um negro, a massa trabalhadora acessava enfim o transporte oficial pra seguir viagem pra onde estavam seus empregos.

O ‘apartheid’ tolerava essa situação, pois não prejudicava em nada os brancos, e amenizava um pouco o sofrimento da massa negra.

Entretanto, e entenda isso claramente, as vans não podiam sair do gueto. Da vila ao estação de trem ou ao trevo na rodovia, ok. Mas ali é o limite.

O transporte operado e gerenciado pelos próprios negros em hipótese alguma podia chegar ao Centro da cidade, e muito, mas muito menos, aos bairros ricos onde os brancos viviam.

Enquanto o ‘apartheid’ vigorou, os negros não tinham escolha, pois qualquer contestação era respondida de forma extremamente violenta pelo regime racista.

Gautrem no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, por isso a maioria dos passageiros são brancos.

Extremamente. Vocês viram o ‘caveirão’ que a polícia usava pra entrar nas favelas quando haviam distúrbios.

Pense que esse verdadeiro tanque de guerra era usado contra pessoas desarmadas pois os negros não podiam ter armas de fogo por razões óbvias.

Mas quando o ‘apartheid’ caiu, gradualmente desde o fim dos anos 80 e em definitivo em 1994, os negros bradaram:

“People Mover”, a semente da modernização de Durbã. Só 3 linhas curtas por enquanto.

“Agora é nossa vez! Queremos que nosso transporte seja gerido e gere receitas pro nosso próprio povo”.

Portanto os negros exigiam que suas vans, os ‘táxis’ em seu jargão, pudessem ir até o Centro.

Pra que dessa forma o negro usasse e pagasse uma condução só, ademais fizesse a viagem sentado.

Os donos das viações de ônibus resistiam, sejam brancos ou em Durbã muitas delas eram (e ainda são) de propriedade de indianos.

Centrão da Cidade do Cabo.

Sejam de que raça for, quem se beneficiava do ‘status quo’ naturalmente iria se opor a sua modificação.

Aí os negros partiram pra revolta armada. Incendiaram centenas de ônibus, em várias cidades do país.

Em casos mais extremos, metralharam os veículos em movimento, com os passageiros dentro.

Dezenas de pessoas morreram nos levantes, centenas mais ficaram feridas. A princípio o estado reprimiu. Mas a massa negra não iria ceder.

Tri-modal: na Cidade do Cabo, em 1º plano um trem de passageiros; no meio uma estação com ônibus articulado, e ao fundo o porto. Só faltou um avião. Na Argentina (breve no ar) eu fotografei o tetra-modal: pneus, trilhos, ar e água.

Após mais de um século de ‘apartheid’, sem nenhum direito em seu próprio continente, os negros decidiram que teriam direito em usar seu próprio meio de transporte.

Foi o poder público quem acabou cedendo. Era inevitável, que os negros conduziriam mesmo suas vans pelo itinerário que quisessem sendo legal ou não.

Assim as prefeituras resolveram legalizar as vans, optando pelo mal menor e cessando o banho de sangue que já estava grande demais.

Todas as grandes cidades da África do Sul têm um trem de subúrbio (chamado ‘Metrorail’) que é péssimo, e por isso quase não é utilizado. Em Durbã (local dessa foto) e na Cidade do Cabo eu andei, em Joanesburgo não deu tempo.

Com isso, várias viações menores quebraram, em Durbã várias empresas operadas de pai pra filho pelos indianos há 3 gerações acabaram saindo de atividade.

No país inteiro a situação se repetiu, embora aí os donos tivessem outras etnias. 

Escrevemos em outra mensagem que a história do transporte coletivo de Campinas-SP é tumultuada e violenta.

De fato assim é. Ocorreram ríspidos embates entre prefeitura, viações e perueiros, como muitos protestos, fechamento de avenidas e rodovias, e locautes.

O que se repetiu em diversos países da América Latina.

Sempre que o poder público tentou melhorar o sistema de ônibus, os operadores independentes dos micros protestaram, fecharam avenidas e garagens, entoaram palavras de ordem.

Estação de ônibus no Centro da Cid. do Cabo.

Presenciei esse movimento pessoalmente em Acapulco, México, 2012.

No Chile ocorreu o mesmo, na Colômbia e Peru foi ainda pior:

Muitas vezes sindicatos aliados a grupos criminosos incendiaram ônibus, do Transmilênio em Bogotá e da finada estatal peruana Enatru respectivamente.

Ônibus 2-andares (linha não-integrada) no Centro de Joanesburgo.“Praça Gandhi” é o Terminal Central. Só 1 porta, imagine como é circulação aí dentro no horário de pico? Um “Deus-nos-acuda”.

Mas em nenhum lugar da América a situação se compara ao que ocorreu na África do Sul.

Lá o termo “Guerras do Transporte” não é força de expressão, foi uma guerra mesmo com vários mortos.

A situação se amainou um pouco desde o pico na virada do milênio, mas não se encerrou.

As “Guerras do Transporte” continuam ceifando vidas, nesse país que é tão belo, mas também tão conflagrado, dividido, injusto e violento.

Veja, em 2015 (somente dois anos atrás portanto no momento que escrevo) mais uma vez os motoristas de vans partem pro ataque:

Fazem barricadas, apedrejam ônibus e mesmo disparam contra um ônibus em movimento, acertando uma passageira e segundo um relato também o motorista, que teria falecido no local.

http://www.news24.com/SouthAfrica/News/Putco-bus-shot-at-during-taxi-protest-20150703

No andar de cima até que estava tranquilo, o problema é o de baixo. Todos os passageiros são negros, com exceção de 1 Mulher branca. Nessa outra postagem há foto de mais um veículo 2-andares.

……

Então há gravíssimos problemas com violência política. Fato. 

Mas inquestionavelmente as coisas melhoraram muitíssimo na África do Sul. 

Na época do ‘apartheid’ as janelas dos ônibus e trens tinham que ser protegidas por grades (veja as fotos um pouco mais pra baixo na página).

Pra pelo menos o motorista não ser atingido por pedras e desgovernar o veículo.

Já que quando rolavam revoltas, atacavam ferozmente o transporte coletivo.

‘Golden Arrow‘ (‘Flecha Dourada’), a maior viação da Cidade do Cabo. Nas linhas não-integradas vigora a pintura livre. A mesma empresa opera também linhas integradas do ‘Minha Cidade’, aí com pintura padronizada.

Repito porque é importante, e já entenderão porque de tanta ênfase:

Atualmente os busos e trens da África do Sul não são mais assim, não é mais necessário.

Mas agora virá o choque: nos dias de hoje, a Argentina está igual a África do Sul no seu período mais sombrio.

Estão apedrejando ônibus e trens o tempo todo em Córdoba, Buenos Aires e demais cidades grandes de nossa vizinha nação, linhas estão sendo canceladas pra evitar os locais mais quentes.

E, sim, hoje os trens da Argentina têm grades na janelas, como nos seus tempos mais difíceis a África do Sul também os teve, mas não mais a muito.

Rolou uma ‘reversão de polaridade’. A África do Sul era sinônimo global de problemas políticos, e lá as coisas se acalmaram um pouco, tiraram a grade.

A Argentina, que era conhecida como uma nação próspera e tranquila, passou pela ‘ascensão e queda’, e precisou colocar as grades.

Claro que as coisas estão muito longe de serem perfeitas na África do Sul. Veja a foto a direita:

Interior de um ônibus da Golden Arrow, de linha não-integrada.

Aqui se paga em dinheiro, e o motorista é também o cobrador. Ele fica numa cabine blindada, pra evitar assaltos.

Há uma pequena janelinha pra ele pegar o dinheiro e te dar o troco e bilhete, como nas casas lotéricas (esq.).

O motorista entra e sai por uma porta de uso exclusivo, a direita do veículo.

…………

Apesar das ‘Guerras do Transporte’, Durbã ainda conta com dezenas de viações independentes.

Boa parte delas de propriedade de indianos, e eles adoram decorar seus ônibus.

Veja ao lado grafite que há na traseira de um deles. Clique pra ampliar, nessa escala você não está vendo nada.

É uma obra de arte: pintada a mão, cada buso tem uma gravura diferente, não é produção em série. Merece ser apreciada.

Agora filma a esquerda:

Colagem mostra dezenas de viações independentes de Durbã, sempre que eu identifiquei o nome anotei ao lado.

Nas raças escuras (o que inclui africanos, asiáticos e americanos) os donos gostam de personalizar ao máximo cada veículo.

Por exemplo a viação Dehal’s (de indianos) teve 3 ‘carros’ fotografados:

Um deles é o ‘Riquinho’, outro o ‘Esperto’, e mais um o ‘Sonhador’. Como se cada buso fosse vivo e tivesse sua própria personalidade.

Muito lixo nos trilhos em Durbã. Em outra postagem verão a cracolândia que há no local.

Outra coisa. Repare que o letreiro está sempre desativado, a linha vem numa placa no para-brisas.

Nos EUA, Anglosfera e Europa Ocidental a linha sempre vem no letreiro, nunca no para-brisas.

Em vários pontos da América Latina, África, Ásia e Europa Oriental o oposto, letreiro apagado, informação no vidro como aqui.

E no Brasil e outros países uma transição, a linha no letreiro mas o itinerário no para-brisas. Há lugares como a África do Sul em que os dois modelos convivem.

………

Falando agora especificamente do modal ferroviário: todas as grandes metrópoles do país têm extensa rede de trens de subúrbios.

No Aeroporto Tambo, cartaz do Gautrem só enfatiza as ligações pra Pretória e Sandtom, ignora Joanesburgo. Alguns dizem que “o Apartheid continua”. Abaixo explico o porquê.

Mas eles são tenebrosos, e não usados por ninguém exceto os mais miseráveis entre os miseráveis.

Lembram os similares que existem na Índia, Egito e Bangladesh, e todos foram construídos pelos ingleses.

Por outro lado, a capital administrativa do país (Pretória) é ligada a maior metrópole da nação (Joanesburgo) – e ambas ao aeroporto internacional da região – pelo moderníssimo Gautrem.

Próximas 7: vamos ver as vans, o modal mais popular do país. Fotografei o Centrão de diversas metrópoles inundado delas. Começo em Joanesburgo.

Esse sim parece um pedaço da Suíça, Suécia, China, Japão ou Alemanha transplantado pro solo africano.

Mas pra lembrar que estamos mesmo na África, o modal mais usado são as vans, que eles chamam de ‘táxi’, e que são quase todas brancas, embora existam as coloridas também.

Pra que as vans tivesse trânsito livre em toda parte, falando literal e figuradamente também, é que o sangue correu.

Durbã.

Deu certo, as vans se impuseram como escolha da massa.

………..

Vamos resumir a situação:

Vans (quase sempre) brancas chamadas de ‘táxi’:

Pretória, o prédio ao fundo é o Banco Central (‘Banco da Reserva’) Sul-Africano.

Oni-presentes, o modal mais usado em todas as cidades da África do Sul e, aqui podemos generalizar, da África como um todo.

Quase todas são Toyota (tanto as antigas quanto as novas), e quase todas são brancas. 

Claro, existem outras cores e marcas – em Pretória especificamente há muitas Volkswagen, e nas outras cidades também há variações.

Na tomada a direita, em Joanesburgo, vemos 3 verdes.

Mas se você vir uma van, a chance que seja alva e dessa montadora japonesa é 90%.

Em terra de gente negra, o transporte é branco”.

Cid. do Cabo. Também Z/ Central, mas aqui não no Centrão e sim na orla, num bairro bem caro.

Não só na África do Sul, em boa parte do continente é assim, é uma vibração africana.

E isso se refletiu na mais africana das cidades brasileiras, que é Salvador óbvio.

Durante 2 décadas (anos 90-quase meio da década de 10) a capital baiana passou por uma ‘padronização informal’.

Sem que o poder público exigisse, voluntariamente a maioria das viações de ônibus adotaram pinturas em que o branco cobria a maior parte da lataria.

Na Av. Vitória (bairro ‘Woodstoock’, bem mais popular mas também Zona Central do Cabo), ônibus e vans duelam por público. O povo prefere as vans, pouco mais caro mas vai sentado.

Haviam detalhes (na ‘saia’ e em faixas) que as diferenciavam, ainda assim no veículo predominava o alvo.

Depois que estudei a África entendi o porquê, esse modelo veio de lá.

Voltando a RAS (“República da África do Sul”), o custo médio de uma viagem em van é 17 Rands.

Com o câmbio é quase 4 Rands pra 1 Real, isso dá R$ 4,30.

A passagem de ônibus em Curitiba é R$ 4,25, portanto você vê que é equivalente. Os valores são sempre de maio.17, quando estive lá.

Claro que varia conforme a cidade, e dentro da cidade conforme a linha. Mas a média é essa.

EM GAUTENG, LINGUAGEM DE SURDO-MUDOS –

Em Durbã e na Cidade do Cabo, o cobrador vem gritando na janela o destino da van, como também ocorre na América.

No Cabo, em todos os para-brisas há também uma placa com a mesma informação (comprovamos tudo isso ao lado).

Putco, viação que opera linhas não-integradas em Joanesburgo (onde cliquei esse Tribus), Pretória e outras cidades da região.

Portanto não há como confundir, até um estrangeiro pode pegar uma van lá, e foi o que eu fiz.

Em Durbã, algumas poucas vans tem a placa com itinerário no vidro, a maioria não. Mas o cobrador anunciando aos brados não falha nunca, de qualquer forma não tem como errar.

Também andei de van em Durbã, mas não por minha vontade, foi uma situação atípica.

Eu fui pra periferia de trem, aquele que funciona precariamente, no decorrer da matéria descrevo incluso com fotos como foi minha ‘descida as trevas’, e não é modo de falar, é literal.

Nas próximas 2 imagens vemos Pretória: Marcopolo brasileiro do sistema integrado Areyeng. A direita a estação.

Desembarquei numa periferia, e subi um morro favelizado a pé. Quando estava quase entrando na estação pra voltar pro Centro, a polícia me abordou. Irei contar essa história com detalhes na próxima postagem.

Aqui, pra tornar curta uma longa aventura, eles não permitiram que eu voltasse de trem, e me deram uma carona – no camburão! – até outra parte do bairro, onde me puseram numa van pra que eu fizesse a viagem de retorno.

Portanto mesmo sem ter planejado, andei de van em Durbã também.

Voltando ao que dizia antes, em Durbã e no Cabo o cobrador informa aos berros o destino, no Cabo sempre e em Durbã as vezes essa mesma informação vem no vidro.

No estado de Gauteng (Joanesburgo e Pretória), entretanto, não há os avisos nem o sonoro e nem o visual. Nada. Não tem placa no vidro, nem ninguém te avisando o destino.

Você está no ponto de parada, passam dezenas de vans indo pra lugares diferentes, mas você aparentemente não tem como saber qual linha cada uma delas cumpre.

Ainda em Pretória, um velho Mercedão 2-andares permanece na ativa. Essa linha é não-integrada.

Aquilo me intrigou. Oras, alguma forma de identificação teria que ter, obviamente.

Alguém sugeriu que em determinada avenida todas as linhas vão pro mesmo lugar, hipótese que descartei imediatamente. “Certamente não é dessa forma”, eu disse a pessoa.

Salão de um buso ‘Golden Arrow’, Cid. do Cabo. 5 fileiras de bancos (3 a direita, 2 a esquerda), resultando que o corredor é minúsculo. Como pro embarque e desembarque só há 1 porta, a circulação interna é péssima no horário de pico.

A cidade é enorme, e não há como fazer essa especialização, tem que haver troncos de transporte, e portanto por boa parte do itinerário destinos diferentes compartilham do mesmo trajeto”.

A solução foi inquirir um morador local. Perguntamos ao taxista: “se não há placa nem cobrador indicando o itinerário, como o passageiro pode saber pra onde a van vai?” Ele nos explicou:

É o passageiro quem informa ao motorista pra onde ele quer ir, com um sinal com os dedos. O motorista para ou não conforme ele esteja ou não cumprindo aquela linha que o passageiro precisa tomar.”

E esses sinais são feitos na linguagem de surdo-mudos. No cartaz abaixo eu estou exemplificando aleatoriamente (não são os signos corretos, é só pra vocês pegarem o jeito):

Se o passageiro levanta um dedo ele quer ir pro Centro; 2 dedos, até a estação de trens; se ele deita a mão na horizontal, vai pra determinada cidade da região metropolitana.

Loucura, não? Rolou uma reversão de polaridade, pois vai na mão inversa:

Pça. Gandhi, Centrão de Joanesburgo. De dentro do 2-andares fotografei 2 Torinos (esses de 1 andar) da Metrobus. O de trás inteiro adesivado. Essa aberração em várias partes do Brasil foi proibida mas em outras ainda existe. No Chile e México, entre outros, igualmente é permitido.

É o passageiro quem indica o trajeto, e o motorista quem precisa ler a comunicação.

O que torna o sistema impermeável pra forasteiros. Só quem pega a van todos os dias no mesmo local sabe o código, pois óbvio, ele não é único pra toda metrópole, varia pra cada corredor.

Por exemplo (mais uma vez, falo aleatoriamente só pra pegarmos o pé da situação), na Zona Oeste 1 dedo pode indicar que você vai pra Soweto, enquanto na Zona Norte pra Sandton, e na Zona Central pra Praça Gandhi, bem no Centrão da metrópole.

Assim, mesmo um negro que nasceu e morou toda a vida em Joanesburgo só conhece o sinal das linhas que ele pega cotidianamente.

Gente sendo transportada em caçambas abertas.

Se ele é da Zona Oeste, e for pegar uma van nas Zonas Sul ou Leste, ou mesmo na própria Oeste mas em outro bairro, seu conhecimento não servirá de nada, pois cada corredor tem seu código próprio.

Terá que perguntar a quem já está no ponto. Felizmente esse é o menor dos problemas.

Formiguinhas: o modal de transporte mais antigo da humanidade ainda é muito usado na África do Sul. Quero dizer o seguinte: muita gente volta pra casa a pé, caminhando mais de uma hora sob sol. Fotos na Zona Norte de Joanesburgo, no fim do texto eu descrevo em detalhes.

O sul-africano é extremamente cordial (sobre o que também falo melhor nesse texto), e está sempre disposto a ajudar os outros.

Quem tem boca vai a Roma, e quem tem boca não pega a van errada em Joburgo (apelido de Joanesburgo) e Pretória. Mas é preciso perguntar.

Pois a rede de vans desenvolveu uma linguagem própria, vedada a intrusos. Curioso, não?

Já estudei o sistema de transporte de muitas dezenas de países (alguns visitei, a imensa maioria pela internet) e nunca tinha visto um ‘sistema fechado’ como esse.

Torino Mercedes: ‘Rea Vaya’, Centro de Joanesburgo.

Mas assim é, tudo tem a 1ª vez. Se funciona bem pra eles, quem somos nós pra termos ideias ‘melhores’?

Ônibus modernos: articulados, embarque pré-pago em nível em estações fechada, corredores exclusivos, especialização com linhas-tronco e alimentadores.

Existem na Cidade do Cabo, Joanesburgo e Pretória. Infelizmente Durbã ainda não passou por essa modernização.

Na Cidade do Cabo se chama no original em inglês ‘My Citi’, obviamente ‘Minha Cidade’, mas com ‘i’ no fim ao invés de ‘y’.

Tribus da KZT no Terminal Central não-integrado de Durbã.

Você passa o cartão na entrada e na saída, pois paga por quilômetro utilizado (em várias cidades do mundo ônibus e metrôs são assim também, em Valparaíso/Chile comprovei pessoalmente, em Seul/Coreia do Sul li pela internet).

É de primeiríssimo mundo, e utilizado pela classe média, de todas as raças.

Nas linhas que servem os bairros mais abastados, você vê mais brancos que negros nos micro-ônibus, situação única na África do Sul.

Sim, o Cabo é a cidade mais branca da África do Sul e de toda África, 1/3 de seus moradores são euro-descendentes, em Durbã e Joanesburgo a participação deles é metade da do Cabo.

Colagem mostra o mesmo terminal. Serve também de garagem, camelódromo e abrigo de sem-tetos. Vide no fim do texto descrição do que ocorre ali.

Mas o Cabo é disparado a cidade mais integrada da África do Sul, você vê brancos andando nas ruas do Centro aos montes.

Parece que está na Europa ou América (não me refiro aos EUA, ou pelo menos não somente aos EUA, América é um continente).

No Centro de Durbã e Joanesburgo não há brancos. Nenhum, nada, zero, inexistente.

Pois não é uma questão de quantidade, e sem de qualidade. Embora menos que no Cabo, há mais de um milhão de brancos tanto em Durbã quanto Joanesburgo. 

Nas próximas 7 vemos a Estação Central de Trens de Durbã: sombria (literalmente) viagem no ‘Metrorail’.  Fica no subterrâneo, e quase não tem iluminação, o breu é total.

As praias de Durbã são integradas, ali você vê o quão numerosos são os caucasianos na cidade.

Nos subúrbios elitizados a moda ianque afastados da Zona Central, os brancos são maioria nas ruas, vi isso pessoalmente em Sandton, Z/N de Joanesburgo.

E, há exceções evidente, mas no geral você também vê pouquíssimos brancos nos ônibus urbanos de Joanesburgo e Durbã.

Pois o sistema não chega com a qualidade necessária aos bairros mais elitizados.

Claro, a linha que só percorre o trajeto entre o Centro e a orla em Durbã (da qual falo abaixo), nessa há vários euro-descendentes.

Repito pra ficar claro, ou melhor dizendo, está escuro pra cacete, Uma cena trevosa.

O mesmo vale pros alimentadores do Gautrem em Joanesburgo. São as exceções que confirmam a regra, até porque ambas são linhas integradas.

No geral, em Joanesburgo e Durbã, a classe média agora multi-racial usa carro, os pobres (quase todos negros, alguns poucos brancos, em Durbã há também indianos) usam ônibus.

No Cabo é diferente. Como seu sistema de ônibus é moderníssimo e não deve nada aos melhores da América e Europa, a classe média o utiliza.

Modernos articulados ligam o Centro a terminais na periferia, em corredores exclusivos e com estações com embarque em plataformas elevadas.

Vejam com com vossos próprios olhos, em dia útil não quase ninguém na Estação Central de Durbã, e são umas 10 plataformas enfileiradas.

Eles têm 3 portas a direita (pois na África do Sul é mão inglesa, mas as estações são no fluxo contrário do tráfego, como os ligeirinhos de Curitiba).

Os que fazem linhas somente em corredores não têm portas na esquerda.

Mas em alguns pontos mais afastados da cidade ainda não há corredores exclusivos, então mesmo articulados têm que ter portas a esquerda, no nível da rua.

Ônibus de tamanho normal puxam as linhas de média demanda.

2 portas a direita pra usar nas estações, mas 1 a esquerda, pois eles também são usados nas linhas alimentadoras mais carregadas.

Estou me repetindo pra enfatizar bem: estação escura e pouquíssimo utilizada, aqui consegui achar uns gatos pingados.

E os micros se encarregam das linhas menos movimentadas. 1 porta em cada lado, elevada a direita e rebaixada a esquerda.

Olhe, se a linha é servida por micro não é uma questão de tamanho do trajeto, nem se é central ou não.

Mas sim do número de passageiros, no caso da ‘Riviera’ e dos morros entram também outros fatores na logística.

Explico. Há linhas que servem os bairros centrais, abastados. Boa parte deles são em morros.

A Cidade do Cabo parece a Califórnia, a elite e alta-burguesia é que moram em ladeiras, os pobres ficam nas partes planas da cidade.

Veja, quando subi no vagão só havia eu. Depois vieram mais umas 2 ou 3 pessoas.

Você conhece (mesmo que somente por fotos e filmes) como é São Francisco ou ‘Hollywood/Beverly Hills’ em Los Angeles (obviamente ambas na Califórnia/EUA)?

Então, a Cidade do Cabo é exatamente igual.

No bairro ‘Baía do Campo’, de elite na Zona Sul do Cabo, eu me senti em Hollywood, só faltou me deparar com o Robert de Niro.

Fiquei hospedado em ‘Woodstock’, na Zona Central da mesma cidade.

Pra piorar, o trem andou 2 estações e recolheu. Desci nessa outra, que também estava deserta. Os prédios ao fundo ficam no bairro ‘Musgrave’, a ‘Cidade Alta’ de Durbã, uma região de classe média-alta (que também visitei) num morro logo ao lado do Centro.

Ali parecia demais que eu havia me tele-transportado pra São Francisco, porque é idêntico.

Então. As linhas alimentadoras que servem a Baía do Campo e ‘Woodstock’ naturalmente são servidas por micros.

Primeiro porque ficaria difícil ônibus grande fazer todas aquelas curvas em ladeira, muitas ruas são estreitas e sinuosas.

Segundo porque a demanda é menor. Como em todos os lugares do mundo uma parte dos burgueses sul-africanos usam transporte público se ele for eficiente.

Próximas 3: Centro de Joanesburgo (nessa cidade não andei de trens, só fotografei). Aqui a Estação Parque, a Central, principal da cidade, tri-modal ferroviária: ‘Metrorail’, Gautrem e trem de longa distância.

Mas mesmo assim não em grande número, a maioria sempre irá preferir o conforto de seus próprios automóveis de bancos estofados e ar-condicionado.

Na orla da Zona Sul é o mesmo. Nesse caso a distância pega, é muito longe do Centro, poucos usam ônibus.

A região da ‘Riviera do Cabo‘ é belíssima, uma sinuosa estrada se espreme entre as montanhas e o mar.

Mansões dos multi-milionários (com teleféricos particulares) ocupam as íngremes ladeiras, muitos Porches pelas ruas.

É uma beleza indescritível, tem que ver pra crer, por isso percorri a pé a Riviera pra produzir um ensaio fotográfico.

Aqui e próxima a esquerda: Estação Faraday, também Centro de Joburgo, essa é só trem de subúrbio.

Mas, não é difícil entender o porquê, ali não há como pôr ônibus grandes, os micros dão conta do recado.

Como dito, você passa o cartão quando entra. E quando sai de novo.

Como as catracas têm GPS, o sistema calcula a quilometragem que você percorreu, e cobra de acordo.

Essa cobrança multi-nivelada não é tão injusta como parece a primeira vista por nós brasileiros.

Final de tarde de um dia útil, o ônibus 2-andares já mostrado acima estava lotado até a boca, foi dificílimo sair dele de tão cheio. Mas na Estação Faraday não havia ninguém pra tomar o trem.

Vale lembrar que as cidades sul-africanas são diferentes das brasileiras, pois aqui seguimos o modelo americano (do continente América) de urbanismo.

Enquanto a África do Sul se espelha na escola anglo-ianque. 

Portanto, na África do Sul os subúrbios mais distantes são abastados, como já disse muitas vezes e é notório.

Consequentemente, os mais pobres vivem em bairros relativamente centrais.

Assim a quilometragem que eles usam do ônibus não é tão elevada, a tarifa não sai cara pra eles.

Portanto você só embarca se possuir cartão com crédito, cada um tem que ter o seu.

Próximas 5: estação de trens ‘Woodstock’, Zona Central da Cidade do Cabo (ao fundo as montanhas características).

Mas é feito na hora nas estações, fácil e rápido de conseguir e recarregar.

Nos pontos, em todos na Zona Central e nas principais avenidas na periferia, há uma tabela de horários.

Você chega e já sabe exatamente quantos minutos faltam pro busão aportar.

Assim se vê que ainda têm 20 minutos, pode ir a esquina tomar um sorvete, por exemplo, não precisa ficar de pé ali.

Em várias paradas há também mapas, locais e da rede como um todo.

Repare os mesmos detalhes: 1) a linha é ‘2531’. Pra onde vai esse trem? Só quem pega ele todo dia sabe; 2) a estação está deserta, num dia útil; 3) agora que o ‘apartheid’ acabou, não há grade no vidro.

O sistema de transporte ‘Minha Cidade’ do Cabo é amplo.

Vai até Atlântida, que fica a 40 km, já é uma pequena cidade do interior.

Próxima a metrópole mas não fisicamente ligada a ela, é preciso pegar estrada.

Atlântida é pobre, conjuntinhos humildes de casas e prédios, mas sem favelas.

Então, e mesmo esse distante pedaço da Grande Cidade do Cabo, já no limite entre subúrbio da metrópole e interior, é servido por ônibus integrado da rede.

Na foto anterior era depois do almoço, ninguém na estação. Nessa é 6 da tarde, pleno horário de pico, tem meia dúzia de gente esperando o trem pra periferia. Aqui e nas 2 a seguir, repare no belo Pôr-do-Sol !

Nos horários de pico há busos diretos do Centro pra Atlântida. 

Nos demais horários e FDS é preciso baldear em um terminal no meio do caminho.

Em outros bairros ocorre o mesmo, linhas diretas quando há mais movimento, seccionadas nos horários de menor demanda. Mas isso é assim no mundo todo, óbvio.

Tudo somado, o sistema da Cidade do Cabo é excelente, eu tiro o chapéu.

Mas, também por ainda estar no começo, há várias partes da cidade que ainda não são servidas por esse modal mais moderno, ou são servidas de forma insuficiente.

Ali, as vans ainda predominam, secundadas pelos ônibus não-integrados.

Falamos do “Minha Cidade” no Cabo porque é disparado o que melhor funciona, então me centrei nele.

Joanesburgo e Pretória têm sistemas similares.

Em Joburgo se chama chamado ‘Rea Vaya’ (“estamos em movimento” na gíria de um dialeto local).

Fomos até Soweto com ele, comprando a passagem unitária como relatado abaixo.

Não há problemas pra adquirir o bilhete como em Pretória, e onde existe a rede funciona bem.

Próximas 4: continuamos na Cidade do Cabo, mas agora na Estação Central – que também é um camelódromo !!

Porém a rede é pequena. Diversos bairros de Joanesburgo não contam ainda com ela.

Proporcionalmente ao tamanho das cidades, o ‘Rea Vaya’ é bem menor que o ‘Minha Cidade’ do Cabo.

Estão corrigindo isso, há várias obras de ampliação do Rea Vaya em andamento, mas por enquanto é assim que tá.

Em Joanesburgo não sei se o cartão definitivo de plástico é feito ali.

Sempre igual, quase ninguém esperando o trem.

Mas nas bilheterias das próprias estações é possível comprar um cartão de papel que vale só pra uma viagem.

É um pouco mais caro, mas você não fica na mão. Foi o que fizemos.

Ainda assim, igualmente você tem que apresentar o bilhete na catraca na hora de sair da estação ou do ônibus. No Cabo também é possível comprar essa passagem pra só 1 deslocamento.

Ainda a Estação Central do Cabo, um trem grafitado. Joanesburgo é a única cidade da África do Sul que tem pichação e grafite nas ruas, e também nos trens. No Cabo e Durbã, nas ruas quase nada, nos trens há um pouco.

Em Pretória o sistema se chama Areyeng. Não há articulados. Sem problemas, a cidade é bem menor então se dispensam mesmo os sanfonados.

Entretanto, não é possível pagar a passagem na bilheteria da estação sem o cartão.

E ele não é vendido ali, nem o definitivo nem um provisório pra uma viagem. Isso é uma falha do sistema.

Nós indicaram onde se comprava, mas a fila virava a esquina, cena desanimadora.

Mesma foto que aparece os camelôs, mas agora com o foco no trem: 1) a linha é 3522, você sabe o destino? Eu também não, só quem usa todo dia decorou qual nº é o seu; e 2) Essa é uma velha locomotiva da época do ‘apartheid‘: quando haviam revoltas, a galera apedrejava o transporte coletivo. Por isso as grades nas janelas. Hoje não é mais assim, suba a página e veja que os trens novos não têm mais grades, a África do Sul embora com altos índices de violência avançou na busca da paz.

Portanto em Pretória nós não pudemos testar o sistema de ônibus mais moderno, acabamos andando num ônibus alimentador do Gautrem, que é um sistema a parte.

NA ÁFRICA DO SUL, QUEM VIAJA DE AVIÃO SUBSIDIA O TRANSPORTE PÚBLICO

Certamente o Gautrem é o transporte público mais moderno da África do Sul, pois ele seria moderno até na Alemanha!

Entre os ônibus, o posto é da rede “Minha Cidade” do Cabo, que também é de nível global, emparelhando com os melhores da Europa, América e Leste da Ásia.

E o Gautrem e o ‘Minha Cidade’ têm algo em comum além de seu alto nível de excelência:

Ambos são integrados ao modal aéreo, têm estações nos respectivos aeroportos internacionais.

Mas pra usar essa comodidade é preciso abrir bem a carteira.

Nas outras cidades 90% das vans são Toyota. Em Pretória, embora a maioria seja dessa marca japonesa, pelo menos um terço a quase metade é Volkswagen, além dessa colorida atrás vem outra VW branca. Estamos em frente ao Banco Central Sul-Africano, que emite o Rand, moeda oficial do país e mais 3 nações vizinhas.

A passagem de quem usa a Estação Aeroporto tanto do Gautrem quanto do ‘Minha Cidade’ é muito, mas muito mais cara que a tarifa convencional.

E não é uma questão de distância, mas sim de uma opção mesmo de política pública de quem tem dinheiro pra viajar de avião ajudar a subsidiar o custo do transporte coletivo de quem não tem esse privilégio.

Sim, tanto no Gautrem como no Minha Cidade a tarifa é calculada conforme a distância e horário que você usa.

Porém pra usar a Estação Aeroporto em ambos há um asterisco na tabela de preços. Ali, repito, não entra no cálculo o número de quilômetros rodados.

Mas sim o fato deliberado que o poder público decidiu que quem tem mais vai ajudar quem tem menos.

Passes de transporte na África do Sul,  anotei cidade e modal, amplie pra ver.

Pois você pode ir muito mais longe, mas se não for pro aeroporto pagará mais barato.

Exemplificando é mais fácil visualizar (um Real vale mais ou menos 4 Rands [maio.17], eu já fiz as conversões pra facilitar):

Do Centro de Joanesburgo ao subúrbio de Sandton sai 8 Reais no pico e R$ 5,75 fora dele.

Pra ir ao Aeroporto é muito mais caro, do Centro até ali são 37 reais.

No entanto, quase em frente ao aeroporto, apenas cruzando a rodovia, há estação Rhodesfield.

Se você descer nela, dá só 12,50 reais, ou seja 1/3 do preço.

Terminal Central de vans na Cid. do Cabo, com a Montanha-Mesa ao fundo. Essa vai pro distante subúrbio de Atlântida.

Muita gente faz isso, desce em Rhodesfield (de mala e tudo) e cruza a rodovia a pé, pela passarela.

Economiza 50 reais na ida e volta.

No Cabo não tem Gautrem – obviamente, pois até o nome (‘Gautrain’ no original) indica que ele pertence ao estado de Gauteng.

Enquanto a Cidade do Cabo fica no Cabo Ocidental. Mas pra ir de ônibus ‘Minha Cidade’ ao aeroporto é o mesmo esquema:

Fui a Atlântida de ônibus, aqui o terminal.

Bem mais caro que a tarifa normal. Estávamos em 3 pessoas. Pra chegarmos de busão pra Zona Central sairia 90 reais.

Fomos de táxi (clandestino, em outra mensagem breve eu conto mais), ficou 10 reais mais barato.

Voltando ao Gautrem, já que estamos falando de suas tarifas. Como já dito e ilustrado no decorrer da página, essa companhia ferroviária opera seus próprios ônibus alimentadores.

Você pode usar só o ônibus, só o trem ou ambos. Só o trem já dei alguns preços acima como exemplos.

Articulado Tribus da ‘Golden Arrow’, Cid. do Cabo.

Se você pegar somente o buso, custa R$ 5,25 no horário de pico e 3,50 fora dele.

Mas usando os dois modais, o ônibus sai por R$ 2 no pico, e apenas 30 centavos nos outros horários.

……..

Durbã ainda não revolucionou seu transporte coletivo, o negócio ali ainda está bastante atrasado.

Essa foi baixada da internet: articulado do ‘Rea Vaya’, Joanesburgo.

Há ônibus grandes, até mesmo uns poucos articulados.

Mas não há corredores exclusivos, integração, setorização entre linhas-tronco e alimentadoras, o trem é grosseiramente sub-utilizado pois funciona de modo horroroso.

Resultado: algumas poucas vilas e bairros são servidos por ônibus em linhas radiais (Centro-bairro em linha reta).

Todos vão pro Centro, se sobrepondo nas grandes avenidas e portanto concorrendo entre si.

Além de gerar congestionamentos e poluição.

Numa colagem (fonte: sítio Bus-Planet, créditos mantidos), vemos 5 ônibus dos anos 80 pra 90, ‘apartheid’ ainda vigorava. Daí todos com grades nos vidros, Detalhes: as 4 fotos acima são da cidade de Porto Elizabete, que eu não tive a oportunidade de visitar. Os 2 de baixo são da Cidade do Cabo, a antiga pintura da ‘Golden Arrow/Flecha Dourada’, quando ela era, bom, dourada! O da esquerda não está em linha regular, está escrito em inglês, africâner e (prov.) xhosa algo como ‘Cartão-Transporte’. O da direita sim, de partida pro bairro ‘Mowbray’.

Mas o grosso do transporte é por vans. Nessas obviamente todos os problemas se repetem ampliados:

Somente linhas radiais, nada de integração.

Se você quiser ir de um bairro pra outro tem que pagar duas vezes.

Além do custo ao passageiro, isso gera um custo a cidade.

Pois forma-se um caos na Zona Central.

Ela fica apinhada com um mar de vans brancas disputando passageiros entre si e contra os poucos ônibus que há.

Digo, há em Durbã o sistema ‘People Mover’ (algo como ‘Move-o-Povo’).

É o começo da modernização dos ônibus na cidade. São todos novos, com piso baixo.

E são as únicas linhas integradas:

Você paga mais caro, e têm que solicitar ao motorista (que também é o cobrador).

Mas é possível comprar um passe válido pro dia inteiro.

Os dois extremos da linha 109 da Cid. do Cabo. Aqui parada no ponto inicial no Centro, o terminal Adderley . . .

Aí você pode entrar em qualquer buso do ‘Move-Povo’, quantas vezes quiser, até a meia-noite.

(Nota: faleia ‘1/2 noite’ como força do hábito. Na verdade a última viagem do ‘People Mover’ é bem antes disso, no máximo as 22h, por ser um serviço mais elitizado.)

Porém não há corredor exclusivo, articulados e muito menos estações com embarque pré-pago em nível.

São apenas 3 linhas, uma percorre as imediações da beira-mar e outras duas ligam a orla ao Centro.

. . . e agora no ponto final, no distante bairro da Baía Hout (no ponto um muçulmano praticante, que incluso cobre a cabeça).

Ônibus não-integrados:

Todas as cidades sul-africanas ainda contam com esse modal.

Diversas viações com pintura livre, fazendo linhas radiais (Centro-periferia) não-integradas.

Portanto não há linhas circulares que interliguem as diferentes partes da cidade sem passar pelo Centro.

Se você precisa ir de um bairro a outro tem que pagar duas vezes.

Já que abrimos o baú, vamos ver mais duas fotos antigas, ambas igualmente baixadas da rede, da época que a África do Sul tinha tróleibus. Aqui em Joanesburgo: virada dos 80 pros 90, finzinho do ‘apartheid’, só brancos podiam usar esse tribus, troleibus e 2-andares, tudo junto e misturado!

Há viações enormes como ‘Golden Arrow’ (‘Flecha Dourada’) na Cidade do Cabo e a Putco em Joanesburgo, Pretória e diversas outras cidades da região.

Essas duas citadas acima têm centenas ou mesmo milhares de ônibus, atendem dezenas de linhas.

E outras bem menores, que só fazem uma ou duas linhas, e têm de somente 1 a 5 ou 10 veículos na frota, e tudo que há no meio entre esses extremos.

Não tem muito o que descrever, é pintura livre, ônibus de apenas uma porta, você compra a passagem do motorista que também é o cobrador.

Nesses busos você igualmente paga conforme a distância percorrida:

Durbã, bem antes, década de 50. Mesma cena, tribus, 2-andares e trólei, também só pra caucasianos, o ‘apartheid‘ oficial estava em seus primeiros anos.

O motorista pergunta até onde você vai e cobra de acordo, te dá um bilhetinho de papel com essas informações impressas.

Há alguns articulados nas linhas de maior demanda, isso em nas 3 cidades, Cabo, Joanesburgo e Durbã.

Trem de subúrbio com padrão de primeiro mundo:

Liga Joanesburgo a seus subúrbios ao norte, e até o aeroporto e a capital Pretória.

Não estou brincando nem exagerando. O Gautrem tem nada menos que 98,6% de pontualidade, ritmo norte-europeu ou leste-asiático.

As poltronas são anatômicas e estofadas, e não há super-lotação.

As cidades da África do Sul, urbanisticamente falando, são iguais as dos EUA.

Próximas 2: ônibus não-integrados de Pretória.

Claro, há inúmeras favelas miseráveis que não existem nos EUA. 

Mas o resto é igual, os ricos e a classe média-alta moram em subúrbios só de casas afastados do Centro.

A parte mais rica de Joanesburgo é a Zona Norte.

Na época do infeliz ‘apartheid’, os subúrbios elitizados eram 100% brancos.

Pretória também é conhecida como Tshwane, abaixo explico a razão.

Hoje são mistos, há numerosa classe média e média-alta negra.

O ‘apartheid’ político acabou, e por isso os bairros de elite hoje contam com numerosa participação negra.

Mas o ‘apartheid’ econômico permanece. Se preferir de outra forma, a África do Sul continua um país de 3º mundo.

Portanto uma ilha que é a minoria que pertence a burguesia (agora composta por brancos e negros) está cercada por oceano de pessoas da classe trabalhadora, a imensa maioria negros.

Viação ‘Country Cruiser‘ (“cruza a nação”, ou “cruza o sertão”, a palavra ‘country’ pode ser tanto ‘país’ quanto ‘campo, interior’). A frente sujeira e comércio pra lá de informal. Assim você flagra como é o Centrão de Durbã. Sentiu o drama?

Pro transporte, que é que nos interessa aqui, a malha do Gautrem é pequena. Mas concentrada exatamente na parte rica da cidade.

Ademais, ônibus alimentadores ligam (com tarifa integrada) os bairros do entorno a estação férrea.

Portanto permite que agora a classe média e média-alta possa também usar trens pra ir trabalhar.

Isso é cidadania. País rico e justo não é o que pobre usa transporte individual, mas o que o burguês usa transporte coletivo.

Claro, é só um começo. Numa nação ainda extremamente injusta como a África do Sul, são poucos os casos que a burguesia usa trem e ônibus.

Ainda Pretória, integrado do Areyeng. Carroceria fabricada pela Caio no Brasil, vai desmontada de navio e é finalizada pela Busmark 2000 na África do Sul, que muda alguns detalhes como o farol em relação ao modelo que circula aqui.

Mas é um bom começo. Até 2010/2012 (anos da inauguração gradual do Gautrem) nem isso existia.

Tem mais: como já dito, o Gautrem tem sua rede de ônibus alimentadores. Esses também são novos

Óbvio que nem tudo é perfeito, a ‘revolução’ ainda está nos estágios iniciais.

O Gautrem é de primeiríssimo mundo, o verdadeiro ‘Estado de Arte’.

Mas a malha é pequena, há somente duas linhas:

Uma grande linha norte-sul de Joanesburgo a Pretória (passando pelos subúrbios a moda ianque onde mora a classe média-alta na Z/N de Joanesburgo).

Garagens de ônibus. Na imagem anotei as cidades.

Ela e se interliga a um outro ramal leste-oeste, que une a linha-tronco ao aeroporto internacional e os subúrbios que ficam circunvizinhos a ele (na Z/L mas próxima a Z/N).

Obviamente é muito pouco pra uma metrópole que tem de 7 a segundo algumas fontes já 10 milhões de habitantes.

Próximas 2: Transportes Durbã. Aqui um Torino brasileiro.

Isso somente na Grande Joanesburgo, e se adicionarmos a Grande Pretória (que é muito próxima) dá de pelo menos 10 a 12 milhões de pessoas nessa megalópole estendida.

Ademais o Gautrem se concentra na parte rica da cidade, ignora a periferia.

Trens de subúrbio precários (‘Metrorail’): existem em todas as metrópoles, Joanesburgo, Pretória, Cidade do Cabo, Durbã, Porto Elizabete e Londres do Leste.

Mesma viação, outro modelo, ao lado de 2 vans.

Mas em todas elas a qualidade é péssima. No Cabo e Durbã comprovei pessoalmente. É disso que falarei agora.

“DESCIDA A ESCURIDÃO”: A SOMBRIA (LITERALMENTE) VIAGEM NO ‘METRORAIL’

Estação Central de Pretória, como a de Joburgo tri-modal férrea: Gautrem, ‘Metrorail’ e trem de longa distância.

Vou documentar minha viagem nos trens de subúrbio (‘Merorail’).

Eles são horríveis, em todas as cidades, ninguém usa exceto quem não tem escolha.

Já foi difícil comprar o bilhete, você tem que informar onde vai descer.

Mas eu e o bilheteiro não nos entendíamos, meu inglês não é tão bom – e nem o dele, eu acrescentaria.

Não confunda: no texto ao lado falo da estação do ‘Metrorail’ de Durbã. Na imagem a estação do ‘Metrorail’ de Pretória, com trem executivo pra Joanesburgo (falo sobre ele abaixo).

Tive que mostrar o mapa, uma passageira na fila ajudou, no fim foi, entrei na estação.

Quando vi a escada pra descer a plataforma, achei que era engano:

Estava tão escura que parecia que a estação estivesse fechada.

Mas era ali mesmo. Chegando lá embaixo, veja (nas fotos mais pro alto da página) que breu total na plataforma . . . .

Eu era estrangeiro, tom de pele diferente dos nativos (portanto todos viam que eu era turista).

Estava praticamente sozinho naquele lugar que os próprios moradores locais não têm coragem de pisar.

Joanesburgo, Viação Gauteng, que também possui articulados. Linha – não-integrada – escrita numa placa no vidro, letreiro eletrônico apagado. Mais pra cima no texto já comentei sobre isso.

Em partes da estação um forte cheiro de mijo pois os banheiros estavam trancados com cadeado.

Todo mundo falou pra eu não ir, porque era perigoso demais, era o retrato do inferno.

Ao chegar ali, vi que as pessoas têm razão em evitar o ‘Metrorail’. Pensei: “Caramba, é de fato macabro.

Mas não vou desistir, afinal, se não for perigoso, não é jornalismo.

Vou prosseguir e cumprir a missão que me propus, e Deus Pai e Mãe me ajudará e me Iluminará na tarefa”.

De fato Ele/Ela me Guiou e protegeu, poucos horas depois fui parar num camburão da polícia. Mas não me aconteceu nada de ruim, foi só uma experiência exótica, já está no ar a matéria em que dou todos os detalhes.

Terminal dos alimentadores do Gautrem na Estação de Pretória. Há ônibus com só 1 e com 2 portas.

Bem, de volta a Estação de Central dos trens de Durbã, só mesmo o Criador pra Iluminar aquele local.

Porque se depender da Cia. Férrea da África do Sul (chamada ‘Prasa’, numa sigla em inglês) tá difícil.

Ela parece não achar necessário pôr mais lâmpadas na plataforma onde as pessoas esperam a condução.

Alimentador do Gautrem (em meio a muitas vans) no Centro de Pretória. Alias no letreiro diz “Pta. CBD”. ‘Pta’ é Pretória, óbvio. CBD é o termo inglês que significa ‘Centro da Cidade’, é a sigla de ‘Central Business District‘. Nos EUA se fala ‘Downtown’, não? Então, em várias ex-colônias britânicas se diz ‘CBD’.

Repito, é no subterrâneo. Pra alguém acessar tem que ir em sentido descendente pelas escadas.

E há pouquíssima iluminação artificial. Resultando que é literalmente uma ‘descida a escuridão’, não é modo de falar.

Cheguei e havia um trem parado. Mas não vi ninguém entrando, espiei pela porta não tinha ninguém dentro.

Então não seria eu o primeiro a entrar, eu era mais ‘peixe fora d’água’ impossível.

Estação do Areyeng em Pretória.

Vai que o trem ia recolher, sei lá. Ele partiu quase vazio, eu fiquei na plataforma, também quase vazia e muito escura.

Perto de meia-hora depois chegou outro. Aí já haviam mais umas 4 ou 5 pessoas nos bancos aguardando.

Entrei, vagão deserto, depois subiram mais algumas poucas pessoas, bem menos de 10.

Cidade do Cabo. Nos pontos nas avenidas principais do ‘Minha Cidade’ há mapas (também usando o termo ‘CBD’, destaquei) e tabela de horários.

O trem andou 2 estações e recolheu, todo mundo teve que descer.

O fiscal que deu essa informação era branco.

Sinal que há brancos pobres, que fazem trabalho braçal, nessa nação.

Na estação onde tive que ficar esperando mais quase uma hora por outro trem.

Joanesburgo (tirei as fotos contra a luz, assim a definição saiu baixa): acima 2 alimentadores Gauteng, Caios brasileiros, um tem 2 portas (raro na África do Sul) e outro somente 1. Abaixo, em branco, linhas convencionais não-integradas. A esquerda viação independente Amogelang, Torino brasileiro. A direita um Putco (que já vimos mais pra cima na pintura tradicional laranja. Sabe-se lá porque, esse ‘carro’ está descorado).

Novamente, não há ninguém nas plataformas.

Depois peguei o trem errado, porque na África do Sul o letreiro do trem não traz o destino, mas sim um código.

Um número, que só quem pega todo dia sabe pra onde está indo aquela composição.

Pelo menos aí o trem (errado) que tomei estava mais cheio, algumas dezenas de pessoas, pra não ficar tão sub-utilizado. Camelôs vendem de tudo lá dentro.

As estações assustam, principalmente as desertas e sem iluminação. Mas dentro do trem em si, olhe, não é nada diferente do que temos no Brasil.

Andei várias vezes nos trens de subúrbio de São Paulo nos anos 90 (eu era um adolescente), quando eles ainda não haviam sido modernizados.

A situação era idêntica da África hoje, quem podia evitava.

Mato a cobra e mostro o pau: eis mais um Putco na Z/N de Joanesburgo, esse na decoração de escolha normal da viação.

Atualmente os trens da CPTM melhoraram bastante, mas algumas linhas (as pra Franco da Rocha e Itapevi certamente) ainda estão longe do padrão ideal.

Tudo somado, nesse quesito também o Brasil está bem próximo da África do Sul.

……..

A rede de Metrorail é bem extensa no Cabo, Durbã e Joanesburgo/Pretória (nessas duas últimas é uma só rede, pois as cidades são próximas).

Putco em Pretória.

Todas com várias linhas que se cruzam formando uma malha.

Nas duas cidades que ficam no estado do Cabo Oriental (Porto Elizabete e Londres Leste) só há uma linha em cada.

O ‘Metrorail’ era o ‘trem dos negros’ na época do ‘apartheid’, agora é o ‘trem dos pobres’ – que no ‘Metrorail’ são todos negros então  especificamente nesse caso nada mudou ainda.

Pois com o regime de segregação racial oficial, os negros (e indianos em Durbã) eram os pobres, os brancos eram a burguesia.

Joanesburgo, 20/04/17. No Centrão um Torino brasileiro da Metrobus.

Como já dito muitas vezes, na era ‘pós-apartheid’, a burguesia é multi-racial, brancos, negros e indianos (esses últimos só são numerosos em Durbã).

Mas a periferia ainda é quase toda negra, as piores favelas 100% negras.

Mas mesmo nessas piores favelas quem pode vai de van (‘táxi’). Só usa o ‘Metrorail’ quem não tem mesmo dinheiro pra ir de van.

Z/N de Joanesburgo, Metrobus da Caio com “chapéu”, decoração que faz sucesso no Chile, México e em São Paulo, mas em Curitiba só se vier usado de fora. Já expliquei, a Busmark finaliza a montagem lá na África, mudando alguns detalhes, mas é um Caio.

Alguns dizem que no modal ferroviário o ‘apartheid’ continua.

Fizeram o Gautrem que liga os subúrbios ricos de Joanesburgo e Pretória ao aeroporto.

Sinceramente, vendo o anúncio do Gautrem tive que dar alguma razão a esses críticos:

Como podem ver em foto mais pra cima na página (busque pela legenda), o cartaz só mostra as conexões pra Pretória e Sandton.

Portanto ignora o Joanesburgo e sua Estação Central, chamada “Parque”.

Oras, Sandton é digamos “o Novo Centro” de Joanesburgo.

Nas mesmas duas pinturas, Metrobus em Pretória.

Partes do Centrão de Joanesburgo sofrem com severa decadência urbana. Falei disso melhor com muitas fotos em outra postagem.

Aqui, pra irmos adiantando, resumo que, as corporações retiraram suas sedes do Centrão.

Joanesburgo, viação Stabus. ‘Stadt’ é ‘cidade’ em alemão. A língua holandesa num passado remoto se originou na alemã. Assim, em holandês e africâner (dialeto do holandês) ‘cidade’ é ‘stad’, daí o nome da companhia.

E transferiram pra Sandton, um antigo subúrbio que acabou se tornando o novo núcleo econômico da cidade, ao menos pros brancos.

Em Sandton os brancos são maioria nas ruas, ou ao menos perto disso, pois é ali que eles trabalham. Pois bem.

Voltando ao transporte que é o que nos importa hoje, o anúncio do Gautrem só mostrava a conexão até Sandton e ignorava por completo Joanesburgo, que queiram ou não ainda é a maior cidade do país.

Há a linha até o Centro de Joanesburgo. Na hora de construir o Gautrem, a cidade não foi menosprezada.

Dois busos brasileiros (Marcopolo e Caio) da Stabus em Pretória. Vocês enenderam, não? As empresas de que operam em Joanesburgo o fazem também em Pretória, as duas cidades são muito próximas.

Mas o foi na hora de anunciar o serviço. Só falam de Sandton, como se só Sandton importasse.

Bem, no trajeto Aeroporto-Sandton há muitos negros no Gautrem, mas os passageiros caucasianos são mais numerosos.

Em Sandton a maioria dos brancos desembarca, dali eles vão de carro (as estações têm estacionamento justamente pra atrair esse público) ou táxi pra suas casas que são em subúrbios elitizados próximos.

Mais um Marcopolo brasileiro, do “Minha Cidade” no Cabo. A porta da esquerda pra embarque/desembarque na rua, a direita 2 elevadas pra uso nas estações.

De Santon ao Centro de Joanesburgo os negros predominam amplamente no trem, e segundo esses ativistas é por isso que esse trecho não foi considerado digno de aparecer na propaganda.

Repito, não há como lhes quitar uma boa dose de razão.

………

Já que tocamos no ponto do ‘apartheid’. Viram acima que a região metropolitana de Pretória agora se chama “Tshwane”. Vamos entender o porque:

Quando o ‘apartheid’ acabou, os negros exigiram que os estados, ruas e cidades tivessem também nomes africanos, e não somente europeus.

Colagem com vários ‘Golden Arrow‘, também do Cabo como já sabem.

Como não dava pra renomear todas as cidades, acharam um meio termo curioso:

A cidade  continua sendo ‘Pretória’, mas a região metropolitana agora é ‘Tshwane’.

E na África do Sul como já dito a região metropolitana é a 4ª esfera administrativa (como o ‘condado’ nos EUA), tem sua própria prefeitura, ao contrário do Brasil.

Próximas 4: o Terminal Central da Cid. do Cabo, onde param as linhas convencionais, não-integradas. Aqui e a direita só os brancos e verdes da ‘Golden Arrow’.

Em Durbã é o mesmo, a cidade ainda é Durbã, mas a prefeitura metropolitana é de ‘eThekwini’. 

O nome ‘Pretória‘  ao contrário do que alguns imaginam nada tem a ver com a palavra ‘preto’. Exatamente ao contrário:

Homenageia André Pretorius, um holandês (africâner) branco que massacrou os nativos zulus pra ajudar a estabelecer o domínio branco na África do Sul.

…….

Busque nas legendas mais pra cima a foto do trem executivo Pretória/Joanesburgo.

Alias, nem todo ‘Metrorail’ é ruim. Esse serviço específico (notem a locomotiva moderna) tem qualidade, pois ali é concorrência direta com o Gautrem:

As linhas têm os mesmos pontos inicial/final e correm lado-a-lado.

Os azul-claros da viação Sibanye.

Então se o ‘Metrorail’ for péssimo como nos outros ramais aí que ninguém usa mesmo.

Esse ‘Metrorail’ é o único de padrão melhor, a exceção que confirma a regra.

Portanto:

Em Joanesburgo:

Busos de ambas as empresas citadas acima.

– Trem moderno com ônibus alimentadores (infelizmente malha pequena);

– Trem suburbano precário;

– Rede de ônibus integrada moderna (reduzida mas em ampliação);

– Ônibus 2-andares (isso não necessariamente é bom, leia abaixo o que achei da experiência);

Idem. Ao fundo as montanhas. Na África do Sul a maioria dos ônibus tem pequena porta a direita, de uso somente do motorista. Há uns buracos na lataria pra ele apoiar os pés pra entrar e sair.

Na Cidade do Cabo:

– Trem suburbano precário;

Rede de ônibus integrada moderna (bastante ampla);

Em Durbã:

– Somente trem suburbano precário, não há outras melhorias exceto em semente;

Veja mais pra cima na página (busque pela legenda) fotos do Terminal Central (não-integrado) de Durbã:

Entre dois busos da empresa Umlazi, vários sem-teto dormem. Essa ainda é a realidade do transporte nessa cidade.

Quadro das linhas. Aqui encerramos as fotos do terminal não-integrado do Cabo.

Como as pessoas se locomovem muito mais de vans (que eles chamam ‘táxis’), há pouca demanda pra ônibus.

Resultando que muitos busões no meio do dia ficam parados, o terminal serve mais de garagem, camelódromo, salão de bilhar (vi 3 mesas de sinuca).

E – como notam – abrigo dos moradores de rua. Fechamos Durbã.

Em Pretória:

– Trem moderno com ônibus alimentadores (infelizmente malha pequena);

– Trem suburbano precário;

De dentro da estação de trens, o Centro de Durbã.

– Rede de ônibus integrada moderna (adequada ao tamanho da cidade);

Ônibus 2-andares.

Claro, todas as cidades têm vans e ônibus não-integrados, alguns até articulados

Pra gente ir encerrando, como dito acima em Joanesburgo e Pretória ainda há algumas linhas de ônibus servidas por veículos 2-andares, mais uma herança inglesa.

Pontos em Pretória e Durbã.

Em Pretória só vi um desses veículos, e bem antigo.

Mas em Joanesburgo ainda são vários, a maioria brasileiros, fabricados pela Marcopolo.

Vários  sim, mas comparativamente ao tamanho da cidade são poucos.

Colagem mostra a Mynah, viação de Durbã. Nos detalhes a ave que é símbolo da empresa, e abaixo dela a ‘capelinha’ no vidro, o marcador que mostra o número da linha. A direita embaixo mais um Torino brasuca.

Felizmente. Ônibus 2-andares é ideal pra linhas turísticas, quando são poucos passageiros endinheirados que estão passeando, sem horário a cumprir.

Aí só vai gente sentada, reduzindo os problemas de circulação.

Vou dizer com todas as letras: ônibus 2-andares não são adequados pro transporte de massas, de linhas carregadas usadas pendularmente pela classe trabalhadora.

Pra essas linhas é preciso articulados, que não têm escada, aí você dinamiza o fluxo no interior do veículo:

Todo mundo entra pela frente e vai se dirigindo pra trás, onde há muito espaço pra se acomodar e várias opções pra sair.

Acabaram as fotos da África do Sul. Aproveitando o embalo, vamos mostrar um pouco da modernização em outras partes do continente. As fotos, repito a ligação, vieram do sítio Bus-Planet. Começamos pela Etiópia. Essa nação,uma das mais pobres da África e da Terra, antigamente tinha seus ônibus caindo aos pedaços – não é modo de falar. A China chegou pra ajudar. Agora circulam ali modernos articulados com letreiro eletrônico. Você conta nos dedos de uma mão os países africanos com articulados: além da África do Sul, sei da Tunísia. Talvez tenham mais um ou dois, mas não mais que isso. Desde 2015 a Etiópia entrou no clube, graças a China.

Pois num 2-andares a escada toma boa parte do espaço do salão interior, onde é feito o embarque/desembarque e cobrança de passagem.

Ademais, a própria escada já é um gargalo de circulação, se alguém está subindo e outro vem descendo, quem sobe tem que recuar.

Pra piorar mais ainda, a imensa maioria dos ônibus  sul-africanos só tem uma porta. Você imagina o cenário: dia útil, 5 e pouco da tarde. 

Praça Gandhi, onde fica o Terminal Central das linhas não-integradas de Joanesburgo.

Chega o busão 2-andares. O próprio motorista é o cobrador.

Ele tem que perguntar onde cada um vai (pois a tarifa é conforme a distância percorrida).

Depois pegar teu dinheiro, devolver o troco e o bilhetinho que comprova que você pagou o valor certo.

Até Adis-Abeba tem metrô! Na verdade um VLT. Construído e operado (a princípio) pela China. Já escrevi amplamente sobre a transformação da Etiópia, leia a matéria. Envolve muito mais que o transporte, essa nação africana é o símbolo da mudança do eixo da Terra, dos EUA/Europa pra China/Eurásia (Rússia, Índia e região).

Você vai lá pra cima, pois o vagão de baixo é minúsculo, o motorista a frente, a escada no meio e o motor atrás, quase não sobra espaço pros passageiros.

Chega a hora de descer e você tem que ir se espremendo no corredor e na escada.

Tem gente sentada nos degraus, o vagão de baixo está lotado até o limite, não cabe mais uma pessoas sequer. 

E só tem uma única porta lá na frente, você tem que ir achando um espacinho, pedindo licença, empurrando.

Na verdade, 90% das cidades da África nem mesmo contam com ônibus de tamanho normal, o transporte é sempre por vans, moto-táxis e no interior em caçamba de caminhão. 1/3 dos países não têm nenhum ônibus grande sequer em linhas regulares, nenhum no país inteiro. E na maioria das nações da África eles só existem na capital e no máximo na maior cidade do interior. Exemplifiquemos por Ruanda, que pra agravar tudo nos anos 90 ainda passou por um genocídio tenebroso, digno de Pol Pot. No século 20 até os anos 80, Ruanda tinha alguns ônibus grandes na capital, situação que espelhava todo continente. Mas o genocídio nesse caso particular e mais os “ajustes” do FMI em diversos países minaram essa realidade. Dos anos 90 até 2013, Ruanda só contava com vans no transporte coletivo, como visto acima.

Pra piorar, como só tem uma porta, tem gente que acabou de entrar e vem no sentido contrário.

Com muita luta você enfim desce. Ufa!!! A sensação é a de sair do inferno. Eu passei por isso, pra poder lhes contar como é.

Andar em ônibus 2-andares pra linhas de massa é um pesadelo. São Paulo e mais 3 cidades (o subúrbio metropolitano de Osasco, na Zona Oeste da Grande São Paulo, Goiânia-GO e Recife-PE) fizeram o teste.

Eu era criança, mas cheguei a andar várias vezes no 2-andares paulistanos. Foi horroroso, e isso que no Brasil o buso tinha 3 portas. Imagine na África que é uma só.

Agora, por outro lado em 2015 pra ir do Centro ao Aeroporto de Santiago/Chile eu fui de 2-andares. Trata-se de uma linha diferenciada, prum público de maior poder aquisitivo.

Aí sem problemas, o buso vai vazio, você sobe e desce com calma a escada, e circula no salão sem atropelar ninguém nem ser atropelado.

Depois da virada do milênio (de 2006 a 2011) houveram tentativas de modernizar o transporte, e foram re-introduzidos ônibus grandes na capital Quigali. Mas não deu certo, não aguentaram a pressão das vans, e quebraram. Em 2013, entretanto, o governo lançou com força total um plano de modernização do transporte em Quigali. Com ajuda de quem? Obviamente da China. Hoje, Ruanda voltou a ter ônibus grandes em circulação, o que já é luxo na África. E são todos chineses.

O mesmo vale pras diversas ‘Linhas Turismo’, já andei várias vezes nesses 2-andares aqui em Curitiba, e em 2012 também na Cidade do México

……..

Claro, muita gente é transportada ainda em caçambas de caminhonetes, sem nenhuma proteção.

Vi e fotografei o mesmo em vários países da América Latina, incluso no Brasil.

Tem mais, o modal mais antigo de transporte da humanidade ainda é amplamente usado na África do Sul: ir a pé.

Quem vive longe vai do trabalho pra casa (pela ordem de preferência) de van, ônibus ou trem.

Quigali foi dividida em 4 regiões. Cada uma tem uma cor, aqui vemos 2 delas. Atualmente a capital de Ruanda além de ônibus grandes tem pintura padronizada, horário e itinerário regulamentados. Na época das vans, nas grandes avenidas no horário de pico haviam centenas delas enfileiradas, brigando pelos passageiros. Mas nos bairros mais distantes em qualquer horário, e na cidade toda a noite e nos fins-de-semana, não havia opções de transporte público. Agora os ônibus circulam por toda parte, das 6 da manhã as 10 da noite, todos os dias.

Mas quem mora até 10 km do trampo volta caminhando. Sim, caminhando. 

Andar 1 hora a hora e meia, ralar o dia inteiro, e depois mais 60 a 90 minutos camelando é o padrão lá, muito mais comum que se pensa.

Presenciei isso pessoalmente. Fim de tarde, cheguei no subúrbio elitizado de Sandton. Na verdade trata-se do ‘Centro Novo’ de Joburgo. 

Como dito acima, o Centrão enfrenta severa decadência urbana, assim as corporações transferiram suas sedes pra Sandton.

Os prédios comerciais que importam estão todos ali, no Centrão é só comércio popular.

Por isso fui conhecer Sandton, e dali iria pra favela de Alexandra, que fica próxima. “Próxima” eu quero dizer que são 6 km, 1 hora a pé.

Esse busão exemplifica a mudança de Ruanda. Foi importado usado de Portugal, onde pertencia a um time de futebol. E foi posto pra rodar sem sequer ser repintando. Com a modernização de 2013, ele pelo menos teve sua pintura padronizada no padrão de Quigali (exceto o escudo, que mantiveram). Até 2014 fez linha regular, aí transferido pra ‘Escolar’.

E a pé a galera foi. Quando deixava Sandton, notei uma fila indiana enorme de trabalhadores negros.

Me juntei a eles, e lá fomos nós, caminhando, num agradável fim-de-tarde em Joanesburgo.

Acessamos a rodovia e continuamos, pelo acostamento.

Éramos uma fila de formiguinhas. Eu era o único de pele clara, o único turista.

Todos os demais era gente que pegou no pesado o dia todo.

E aí depois de ganhar o dia com o suor de seu rosto resolveram poupar o dinheiro do VT.

Antigas cooperativas de van puderam continuar no sistema, mas agora têm que cumprir horário e itinerário, e não mais operar quando e onde dá na telha. No Centro só são permitidos ônibus grandes e micro-ônibus. As vans continuam na ativa, mas só fazem as linhas alimentadoras na periferia que sobem os morros, vilas e favelas, além das rotas no subúrbio afastado semi-rural.

Qualquer trocado a mais no orçamento ajuda.

A África é  pobre. Sim, Joburgo é uma das cidades mais ricas do continente.

Mas Alexandra é um de seus bairros mais pobres, em verdade uma grande favela.

Depois, em outra avenida, vi que muito mais gente fazia o mesmo.

Eles estavam em outros trajetos, indo pra outros bairros. O destino era distinto mas o meio de chegar lá ra o mesmo.

É, filho. Essa ainda é realidade de milhões. Caminhar, depender das próprias pernas.

Reversão de polaridade: partes da África com padrão de Curitiba, partes de Curitiba com padrão da África. Segura essa bomba: na Z/Oeste, aos domingos a prefeitura de Curitiba fundiu 3 alimentadores em 1 linha: Augusta, S. José e V. Marqueto. Assim 1 carro faz o serviço de 3, o intervalo entre as viagens é de 1 hora e 24 minutos – tabela ‘rural’ em plena zona urbana, alias no bairro mais povoado da metrópole. A África evolui, Curitiba involui….

Se a crise apertar no Brasil e outros continentes, eu vi o nosso futuro aquele dia em Joanesburgo.

……..

Pra arrematar: nenhuma cidade da África do Sul (e nem de toda África) tem tróleibus atualmente.

Tiveram no passado, e era tróleibus, 2-andares e Tribus tudo num só. Mas acabou.

E nenhuma cidade sul-africana tem metrô ou VLT, que é um ‘metrô leve’.

Esse modal existe em outras partes da África.

Inclusive a ex-miserável Etiópia, como visto acima.

Portanto nesse quesito a desenvolvida África do Sul come poeira.

……..

Que Deus Pai e Mãe Abençoe a África, e todos os Homens e Mulheres da Terra.

Ele/Ela proverá.

“Trovão Azul” & “Domingo no Parque”, em B.H.

Metal em Minas.

Por Maurílio Mendes, o Mensageiro

Publicado em 26 de junho de 2017

Um Maurílio metaleiro, e mineiro. Morador de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Pegando condução pra ir pra Zona Oeste. Mas não qualquer coisa, e sim um Trovão Azul da época que ‘Volvo era Volvo’.

Tem mais: um Amélia que era “Ônibus de Verdade“.

Tem mais ainda: no saudoso padrão Metrobel, e “em frente ao parque”.

Em uma das muitas matérias sobre busologia no sítio, publiquei a foto ao lado (extraída da página Bus MG).

Pensando Nela . . .

Um colega, que morou em BH, se emocionou em lembrar sua infância. Foi ele quem falou que a tomada foi feita “em frente do Parque”.

Quando eu disse que desenharia a cena, novas recordações afloraram em sua mente. Eis suas palavras:

”   Rá, era demais ouvir a resfolegante respiração deles, bem mais ágeis e rápidos do que seria de se supor, descendo a ladeira!

Ah, e os cheiros? Final da tarde, começando a abrir as florzinhas “damas da noite”, aquele cheiro açucarado, o piso de ardósia, e os  Mercedões rugindo pela rua…

 Oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais!   “

Daí o título, fazendo alusão a outras postagens: “Trovão Azul” e “Domingo no Parque“.

………..

Enfim. Maurílio está indo pra Z/O de B.H. pra ver sua namorada Marília, que também é roqueira. Ademais, ela é uma menina que adora pintar o cabelo de rosa. Ou as vezes de azul.

Um Amor em Rosa & Azul. Mas as roupas de ambos são pretas, pois a trilha sonora é o bom e velho ‘Rock’n Roll’.

Vamos pro Oeste, galera.

o ‘apartheid’ acabou.

Próxima parada, África do Sul.

Por 40 anos (1948-1988 aprox.), durante o infame regime racista, eram proibidos por lei os relacionamentos entre um Homem e uma Mulher de raças distintas.

Camisa do Kaiser Chiefs, time mais popular da África do Sul – os negros adoram futebol.

A legislação previa longas penas de prisão pra ambos, mas na prática um negro que ‘ousasse’ sequer pegar na mão de uma branca seria linchado ou executado no mesmo momento.

Já escrevi em detalhes sobre esse triste período da história sul-africana. Mas hoje tudo isso é passado, as pessoas são livres pra viverem seu Amor, independente dos tons de pele serem diferentes.

Inclusive fotografei vários casais inter-raciais nas orlas de Durbã e da Cidade do Cabo. Agora minha versão com as próprias mãos da mesma cena.

A Marília loira é africâner, o que significa que étnica, cultural e linguisticamente ela é holandesa. Enquanto que seu marido, o  Maurílio sul-africano, está com a camisa do time mais popular do país, o Kaiser Chiefs.

Muitos conhecem a banda inglesa Kaiser Chiefs. O que várias pessoas não sabem é que os músicos britânicos se inspiraram no clube africano, homenageando-o. Assim é. Kaiser Chiefs (auri-negro, ou seja, amarelo-&-preto) e Orlando Pirates (alvi-negro)  são as preferências nacionais, os que dividem a massa na África do Sul.

“Café-com-Leite”.

E eles fazem o maior clássico de Soweto (são ambos dali), de Joanesburgo e de toda nação. É o ‘derby’ (no termo em inglês ) nacional.

Novamente contrário a imagem distorcida que muitos têm, a África do Sul ama futebol. A maioria negra com certeza. Sim, os brancos se dividem entre o ‘rugby’ e o futebol, com preferência pelo primeiro mas muitos gostam também do segundo.

Porém os nativos africanos não têm coração partido, não têm lealdade dividida. Pra eles, o esporte preferido é disparado o futebol, como é na maior parte do continente e do planeta.

Já desenhei Maurílio com camisas (ou adereços como boné e tatuagens) de times da Colômbia, México, Equador, Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai, França, Itália e Alemanha. Agora é a vez do ‘Continente-Mãe’ da Humanidade. 

do oriente ao ocidente

Muçulmana devota. Mas extremamente feminina e vaidosa, colorida da cabeça aos pés.

Vamos na mão inversa agora. Acima mostramos uma descendente de holandeses fora da Europa, numa nação de pele majoritariamente escura. Vejamos o outro lado da moeda, mais um casal inter-racial.

Ela é mais clara, ele é pardo. Mas que compartilham a mesma religião, são muçulmanos. Nasceram e moram em Amsterdã, a capital dos ‘Países Baixos’.

Os ancestrais deles vieram do Oriente: da Turquia, Afeganistão, Indonésia, enfim, algum país islâmico da Ásia.

Mas a Marília e Maurílio retratados aqui são tão holandeses quanto os moinhos de vento, os aterros no mar e os canais de Amsterdã (alias eles passam na ponte sobre um deles).

Uma vez que os europeus nativos não querem mais ter filhos, têm que importar mão-de-obra. Assim os bairros proletários centrais das grandes cidades oeste-europeias estão ficando um pouco mais coloridos, digamos assim.

Num ponto de ônibus da Cidade do Cabo, África do Sul, fotografei um muçulmano muito parecido com o ‘Maurílio’ holandês que eu desenhei: esse de carne-&-osso também é descendente de asiáticos (nesse caso Índia, Paquistão ou Bangladesh), tem pele parda, cobre a cabeça e usa roupas ocidentais (calça).

Já desenhei uma Marília holandesa da gema, etnicamente falando, sobre essa mesma ponte de Amsterdã. Aquela é ruiva, olhos azuis, a pele alva como a neve, e anda de bicicleta. 

Uma holandesa “típica”?? Bem, até o século 20 certamente a que tem tez e olhos claríssimos era o próprio retrato da Holanda.

No século 21, entretanto, essa de turbante é tão representativa quanto, ao menos na Zona Central de Amsterdã, Roterdã e as outras grandes cidades.

O Maurílio muçulmano também cobre a cabeça, e a barba enorme, quase até o peito mas sem bigode, igualmente é representativa de seu grupo étnico.

Mudemos o foco pra Mulher, pois a Energia Feminina é sempre mais bela e colorida que a Masculina, na dimensão do vestuário certamente:

Essa holandesa de ascendência na Ásia segue os preceitos ortodoxos de sua religião, por isso os membros e a cabeça são cobertos, só os parentes dentro da casa podem ver seus cabelos e seus braços.

Ainda assim, o lenço e o vestido são multi-coloridos, e ela está maquiada e com as unhas – do pé e da mão – pintadas.

A Holanda – e a Europa – estão mudando !!

Pois Marília, na raça, continente ou religião que for, nunca deixa de ser extremamente feminina em sua aparência.

É possível uma Mulher ser muçulmana praticante, e ainda assim vaidosa.

Seu turbante florido materializa um estado de espírito, o ‘encontro de dois mundos’, o islâmico e o feminino, do qual essa Marília é a síntese.

“Deus proverá”

África do Sul, o Mundo num só País

O ‘apartheid’ acabou! Nos tempos tenebrosos do regime racista eram proibidos os casais inter-raciais. Na época essas garotas brancas seriam condenadas a muitos anos de cadeia. Os rapazes negros, embora a lei previsse a mesma pena, na verdade seriam linchados no mesmo instante, naquele exato local. Hoje elas e eles são livres pra viverem seu Amor.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 25 de maio de 2017

Mensagem-Portal sobre a África do Sul (ao fim do texto ancoro as ligações pras demais postagens da série).

Vamos falar sobre a luta secular pra pôr fim ao regime de discriminação racial.

No Novo Milênio, sob democracia, novos desafios:

Reduzir a violência urbana, que está na estratosfera, e também a desigualdade social, igualmente gigante.

1989: ‘apartheid’ vigente, praia em Durbã só pra brancos. Placa em inglês, africâner e zulu. Na língua nativa dos negros, ‘Durbã’ se chama ‘Ethekwini‘, breve falo mais em outra mensagem. Essa e outras imagens vieram da Wikipédia, créditos atribuídos como pedido.

Imensa maioria das fotos de minha autoria. As que vierem de outras fontes identifico na legenda.

PARTE 1: ‘APARTHEID’, INÍCIO E FINAL

A ida a África do Sul foi minha primeira viagem inter-continental. Eu nunca fui a Europa ou a Ásia. Digo, indo a África do Sul de certa forma eu estive também na Inglaterra, Índia e Califórnia/EUA.

Pelo seguinte: a República da África do Sul (abreviada R.A.S.) tem enorme população branca e indiana.

Os descendentes de indianos estão reunidos basicamente em Durbã.

Dos quase 3,5 milhões de habitantes dessa região metropolitana, meio milhão têm ascendência na Índia (o que inclui os atuais Paquistão e Bangladesh, e esses 2 são majoritariamente muçulmanos, já falo mais disso)

O que torna Durbã ‘a maior cidade indiana do mundo fora da Índia‘.

A influência dos europeus é ainda maior. Os brancos são 10% da população sul-africana. Mas eles estão concentrados nas classes média-alta e elite.

Por um século ademais eles tiveram hegemonia absoluta na África do Sul impondo o ‘apartheid’ (‘manter separado’ em africâner, ‘heid’ tem raiz parecida com a palavra inglesa ‘hold’).

Orla de Durbã, hoje. Negros e brancos caminham juntos e brincam como irmãos. Claro que nem tudo é perfeito, mas comparado com o que era… Outro detalhe: veja como os brancos na África do Sul são brancos mesmo, loiros de olhos claros.

O regime que oprimiu as outras raças oficialmente começou em 1948, mas na prática desde que os colonizadores europeus pisaram lá em massa, em fins do século 19 – e início dos massacres data do século 17 .

Mais abaixo falamos melhor disso. Aqui, dando essa primeira pincelada, obviamente não é difícil entender que os brancos moldaram a África do Sul a sua imagem e semelhança, em todos as dimensões.

Tem mais: os europeus que foram pra lá são norte-europeus (‘normandos’), bem diferentes física e culturalmente dos sul-europeus (‘latinos’) que povoaram a América Latina.

Nelson Mandela, Avatar Sul-Africano, ‘Pai da Pátria’. Cultuado como santo por lá, esse quadro está na casa que fiquei na Cid. do Cabo.

Os brancos da sul-africanos têm a pele bem alva, quase sem mistura de sangue de outras raças. A maioria das pessoas têm olhos claros, verdes ou azuis.

Urbanisticamente falando, a África do Sul é totalmente parte da Anglosfera: pouca gente mora em prédios altos. Assim as cidades têm pouquíssimos edifícios, geralmente se resumem aos que são comerciais no Centro.

E mais uma leva de prédios residenciais na beira-mar (nas cidades que têm mar, óbvio. As que não têm aí menos prédios ainda).

Os ricos e a burguesia moram em subúrbios exatamente iguais aos dos EUA, só casas em ruas sem-saída, sem comércio na vizinhança.

Tem mais. Na Cidade do Cabo, quem tem dinheiro mora nos morros, os pobres no plano. Como na Califórnia-EUA.

Resumindo: se você esteve nos EUA, você sabe como são as cidades da África do Sul.

1-Antigas províncias (estados) da África do Sul do ‘apartheid’: Cabo (que ocupava mais da metade do país); Estado Livre Laranja; Trasnvaal (esses 2 eram ex-repúblicas africâneres que foram incorporadas ao Império Britânico na Guerra Anglo-Boer); e Natal; 2-As mesmas províncias com os ‘bantustões’; 3-Re-organização pós-‘apartheid’: Estado Livre Laranja vira apenas ‘Estado Livre’, cai a referência a Holanda; Natal vira Kwa-Zulu Natal (nesses dois só muda o nome, as fronteiras não se alteram nada ou quase nada); o Cabo é dividido em três, agora são Cabo Oriental, Cabo Ocidental e Cabo do Norte; Transvaal é dividido em quatro: Gauteng ao redor de Joanesburgo e Pretória, a menor mas a mais povoada província sul-africana; Noroeste; e Transvaal do Norte e Transvaal do Leste; 4-Como é hoje: Transvaal do Norte vira Limpopo, a capital também tem nome alterado de Pieterburg pra Polokwane; Transvaal do Leste se torna Mpumalanga; e a capital do Noroeste tem o nome mudado de Mmabatho pra Mafikeng. Mmabatho e Mafikeng são dois municípios que pertencem a mesma cidade, apenas antes a sede do governo era num e agora é no outro.

Óbvio, na RAS há muitas e muitas favelas miseráveis, nos EUA não. Mas de resto é igual.

Durbã é de certa forma exceção. Digo, ali há também os subúrbios a moda ianque, tanto planos quanto em ladeiras.

Mas em Durbã há favelas no morro. Por isso a ‘América na África’ – breve texto específico.

E existem também muitos prédios altos tanto a beira-mar quanto num morro de classe média-alta bem perto do Centro.

E obviamente a maioria negra e ‘de cor’, livre do ‘apartheid’ há mais de 2 décadas, vem se fazendo ouvir, inclusive economicamente.

Por quase oito décadas os indianos foram tão pobres e explorados quanto os negros nativos.

Desde que foram levados da Índia pra serem semi-escravos do Império Britânico, até o terceiro quarto do século 20.

Mas há 4 décadas os indianos vêm ascendendo muito na escala social.

Eles também sofreram ‘apartheid’. Só que quando o regime racista viu que ia cair, flexibilizou a opressão contra os indianos ainda nos anos 80.

Jornal no idioma zulu. Comprei num mercadinho dum bairro popular de Durbã. O caixa era negro. Perguntei “que língua é essa?” Ele não sabia. Veja bem, um negro, e não é que ele não sabia traduzir. Não sabia sequer que idioma era. Quem me informou foi o anfitrião do apartamento que fiquei, que é indiano e muçulmano. Eis a torre de babel que é a África do Sul…

Assim uma massa dos descendentes asiáticos pôde ‘pular o muro’ da discriminação e migrar pros subúrbios que oferecem vida mais confortável. De forma que em Durbã especialmente há uma alta e média-burguesia indiana, há subúrbios de elevado estrato em que eles predominam.

Com a queda do ‘apartheid’ em 1994, vários negros seguiram o mesmo caminho.

Hoje há uma pequena elite e uma numerosa classe média-alta formada por africanos nativos.

É comum subúrbios de ricos a moda ianque habitados por negros, e você os vê aos montes dirigindo os carrões mais caros, BMW’s, Mercedes, Audis, a lista toda.

………..

Ademais, há muitos brancos pobres, de classe trabalhadora. Nas favelas e piores bairros mais afastados a população é 100% de negros. Na elite são 90% brancos.

Ou seja, os extremos são segregados. A classe ‘E’ só tem negros, a classe ‘A’ ainda é um privilégio quase que exclusivo dos brancos.

Mas toda classe média, as classes ‘B’, ‘C’ e ‘D’, tem gente de todas as raças.

Museu do ‘Apartheid‘, Joanesburgo: filma só o caveirão do regime racista, que a polícia usava pra entrar nas favelas negras quando havia distúrbios. Faz parecer pequenos seus similares do Chile e Colômbia.

Você vê brancos em serviços braçais/repetitivos, como encanadores, balconistas, que não exigem estudo e pagam pouco.

Se pegar um ônibus pra periferia, você já está nos bairros humildes, onde moram os assalariados em casas e apartamentos simples, desprovidos de qualquer luxo.

E ainda há descendentes de europeus no busão.

Só quando no terminal você troca pro alimentador que vai pras favelas e piores cohabs é que só há negros.

E, repito, o contrário também é verdadeiro, também vemos hoje muitos africanos nativos de pele bem escura em posições de destaque.

Democracia! Soweto, Joanesburgo, África do Sul, 2017: parte dos negros ascendeu a alta e média-alta burguesias. Veja a picape que esse aqui dirige. É comum hoje ver Homens e Mulheres negros no comando dessas máquinas. Nos tempo do regime racista eles nem eram considerados seres humanos.

Negros morando em mansões que contam com piscinas e com empregadas (também negras, claro) de uniforme.

Observe a foto ao lado, que vale por mil palavras.

……….

A África do Sul tem 55 milhões de habitantes. As 4 maiores cidades são as únicas que ultrapassam 1 milhão.

Eis a população delas, incluindo região metropolitana (censo de 2011, dados do sítio citypopulation.de):

– Joanesburgo, 7,8 milhões (segundo outras fontes, já chega a 10 milhões);

– Cidade do Cabo, 3,4 milhões (4 milhões pela Wikipédia);

Eis a prova: essas crianças negras não estão rezando. É que na época do ‘apartheid’ muitas escolas negras sequer tinham carteiras, os alunos tinham que escrever no chão. As 2 imagens no Museu do ‘Apartheid’ (essa e a do caveirão) são de autoria de meus familiares.

– Durbã, 2,7 milhões (3,3 milhões, idem).

Pretória, 1,7 milhão.

Eu pude conhecer todas elas.

………

A África do Sul é uma colcha de retalhos linguística. São nada menos que 11 idiomas oficiais.

O inglês é universal, a ‘língua franca’, o único falado por todos os seus habitantes, de todas as raças.

Nos tempos do ‘apartheid’ eram duas línguas oficiais, as faladas pelos brancos.

Bairro Baía ‘Hout’, extremo sul da Cidade do Cabo. Uma foca bem grande interage com o público, ao fundo a marina e as montanhas. Mais uma clicada pelos membros de minha família, a última. Daqui pra baixo tudo de minha autoria.

Além do inglês obviamente o africâner, que é um dialeto do holandês (na verdade se assemelha muito ao holandês medieval).

Ainda hoje o africâner é mais falado que o inglês como língua materna, entre os euro-descendentes.

Com a democracia, os idiomas que os negros usam também ganharam ‘status’ oficial. Embora sejam nove, as mais comuns são o xhosa e o zulu.

Todas moedas da África do Sul trazem no verso a inscrição no nome da nação em duas línguas.

Nas notas está escrito ‘Banco Central da África do Sul’ em inglês na frente (no original ‘Reserve Bank’, ‘Banco da Reserva [Financeira]’ ou ‘Banco do Tesouro’, se preferir. Passei em frente a sede dele em Pretória).

Ir a África do Sul é como ir a Inglaterra. Praça Gandhi, que é o terminal central do Metrobus em Joanesburgo. 2-Andares Volvo Marcopolo de fabricação brasileira se prepara pra levar a galera pros distantes subúrbios da metrópole. Como comentou um colega, os pobres estão subindo na vida, “vendo o mundo pelo alto”. Fiz uma matéria completa sobre o transporte na África do Sul, passado e presente, dá uma olhada.

E atrás novamente em 2 línguas:

Na de 10 rands em africâner e uma língua negra, nas demais sempre idiomas nativos africanos.

Entre os brancos, mais gente fala africâner como língua-mãe que inglês.

Mas quem fala inglês só fala inglês, é mono-língue, não entende nenhum outro idioma.

E isso vale pros negros e brancos.

Assim, os que têm o africâner ou idiomas nativos da África como 1ª língua têm que saber também inglês.

Sejam da raça que for, quando as pessoas estão somente entre os da sua etnia  falam em sua própria língua.

Especialmente em casa, mas também num círculo fechado de amigos.

Templo hindu no Centro de Durbã: visitar a África do Sul é como ir a Índia.

Quando é preciso falar com mais gente, por exemplo no trabalho, todos se comunicam em inglês.

Obviamente, como dito, algumas pessoas brancas e negras já têm essa como língua-mãe, aí a usam mesmo em casa. 

Os que falam africâner se concentram no Costa Ocidental. Na Cidade do Cabo, o africâner é a 1ª língua de nada menos que 22% da população.

A imensa maioria brancos, mas embora mais raro há uns poucos negros que a usam também, pois foram educados nela na época do ‘apartheid’.

A ‘Riviera’ da Cidade do Cabo: ir a África do Sul é como ir as parte mais bonitas do Mediterrâneo (Itália, ou Grécia).

Nessa cidade o inglês predomina amplamente pois é o idioma nativo da maior parte dos negros. Digo, dos ‘mulatos’.

No Oeste da RAS são majoritários os que se auto-denominam ‘mestiços’ ou ‘mulatos’ no censo.

Eles são negros, e assim eram considerados pelo ‘apartheid’, certamente. Mas já houve grande miscigenação entre as diferentes tribos nativas africanas.

Pela mistura, a conexão com as línguas africanas se perdeu, aí eles usam o inglês, praticamente todos, e uns poucos o africâner, como já dito.

‘Woodstoock’, Cidade do Cabo: região de classe média na ladeira, com casinhas geminadas. Na África do Sul você se sente em em São Francisco, Califórnia/EUA.

A língua negra mais falada no Cabo é o xhosa, com apenas 2,7 % da população que a usam em casa.

Já a Costa Oriental sul-africana é território dos ingleses, sempre foi, desde a colonização.

Em Durbã apenas 3% dos habitantes têm o africâner como idioma-materno.

O Leste do país é de maioria negra, inclusive estatisticamente.

Quero dizer com isso que no censo as pessoas se definem assim, como ‘negros’, e não como ‘mulatos’ ou ‘mestiços’.

Bairro ‘Baía do Campo’, Cidade do Cabo. Reduto da elite, com mansões no morro. Eu estava na África do Sul, mas parecia que era em ‘Beverly Hills’ ou ‘Hollywood’, em Los Angeles, também na Califórnia/EUA.

Por isso o zulu é o 1º idioma de um terço da população. Mesmo o xhosa é o escolhido de 6%, mais que o dobro do Cabo.

O Cabo é, definitivamente, a cidade mais integrada racialmente, a mais multi-cultural, da África do Sul e diria de toda África.

Ali, os brancos são 1/3 das pessoas, portanto há inclusive muito mais brancos pobres.

Em Joanesburgo e Durbã os brancos são somente 12 e 15%, respectivamente, aí só numerosos nas classes alta é média-alta.

Bem, em Durbã há quase o dobro de indianos que brancos, pra você ter uma ideia.

Muçulmanas na praia em Durbã. 3 delas estão de burca negra que só mostra os olhos, 1 delas com o rosto a vista. Na África do Sul. Mas se me dissessem que eu estava no Afeganistão não teria como duvidar. Os muçulmanos entram no mar de roupas em Durbã, tanto Homens quanto Mulheres. Bem, pessoas de outras raças/religiões também fazem o mesmo nessa cidade, é tradição local.

Já veremos como isso se desdobra em outras dimensões. Na linguística, a Cidade do Cabo é a única tri-língue.

As comunicações da prefeitura são em inglês, xhosa e africâner. O lema da cidade é: “Progredindo. Todos Juntos.”

……..

Todos Juntos. Um lema bonito. Evidente que na prática as coisas não são tão simples, ainda há imensos problemas. Mas no passado foi ainda pior.

Como estamos falando do ser humano, que infelizmente sempre foi e ainda é belicoso por natureza, as raças brigam muito.

Tanto umas contra as outras como entre si, dentro de suas próprias etnias.

Na África do Sul não é diferente. Alias, ali foram inventadas duas coisas macabras pra humanidade:

Na África do Sul são os ricos que moram nos morros, como na Califórnia. Os pobres vivem em favelas, conjuntos geminados ou cohabs de pequenos prédios (pombais), a construção varia mas sempre no plano. Porém Durbã é exceção. Há bairros de elite nas encostas, sim. Mas também há muitas favelas, como nas periferias do Rio, SP, BH-MG, Salvador-BA, partes de Curitiba, Colômbia, México, Chile, Bolívia, Peru Venezuela. Durbã é a ‘América na África’ (foto via ‘Google’ Mapas).

O campo de concentração (depois amplamente usado na Europa por Hitler, Stalin e outros);

E o ‘micro-ondas’, quando uma pessoa é presa dentro de pneus encharcados com gasolina sobre os quais é ateado fogo.

Hoje a raça branca já não agride tanto ela mesma:

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial já são 70 anos sem que um país da Europa Ocidental invada outro, fato inédito em sua violenta história.

E bota ‘violenta’ nisso, por milênios culminando a 2ª Guerra os brancos se combateram violentamente entre si, pra ver quem amealhava mais poder sobre os outros.

Não quer dizer que os brancos se tornaram pacíficos, apenas agora eles atacam outras raças, geralmente de países mais fracos que não podem se defender.

Montanha-Mesa, Cidade do Cabo: bondinho sobe um morro famoso, símbolo da cidade e do país. Me lembrei muitíssimo de quando fui ao Rio de Janeiro.

Vide as intervenções dos EUA (em vários casos em conluio com Inglaterra e França) no Iraque, Líbia e Síria.

Mais de 2 milhões morreram nessas guerras, mais de 10 milhões ficaram amputados/ viúvas(os)/órfãos/refugiados internou ou externos.

Então, não, os brancos não passaram a ser brandos. Apenas agora eles agridem aos outros como sempre fizeram, mas entre eles mesmos não mais.

Mas no passado não foi assim, a raça branca duelava muito, e de forma muito violenta, inclusive dentro de seus próprios povos.

Golfistas na Zona Norte da Cidade do Cabo. Os ricos da África do Sul adoram golfe, há cem vezes mais campos desse esporte lá que no Brasil. Nos EUA é exatamente igual. É a ‘Anglosfera’.

A África do Sul não passou imune a essa situação.

Desde o século 17 ingleses e holandeses brigaram entre si, e contra os negros nativos, pra poderem dominar o país.

Os negros resistiram bravamente, derrotando os invasores brancos em várias ocasiões.

Porém evidentemente os europeus tinham armas muito, mas muito superiores aos africanos, e acabaram prevalecendo.

Por exemplo, o Rei Zulu Shaka ficou famoso por inventar uma lança afiada.

Gostou da Mercedes da Isabel??? E que tal a do ‘Vegeta‘, que é conversível. O Wilson é mais modesto e se contenta com um modelo mais simples, enquanto no Centro de Durbã alguém está ouvindo ‘Rumores’. Vocês entenderam, né? Na África do Sul, como nos EUA, você pode escolher a placa do teu carro. Tem mais. Lá eles a-d-o-r-a-m Mercedes e BMW, é paixão nacional. Não só os ricos, os pobres também. Veja que na foto maior, aquele belo anoitecer em Joanesburgo, eu também estou numa Mercedes, a estrelinha ressaltada em amarelo. Em outra mensagem falarei melhor disso.

Que lhe garantiu a vitória em numerosas batalhas contra outras tribos negras, desprovidas dessa tecnologia (justiça seja feita e não vamos idealizar, a raça negra também massacrou seus próprios irmãos, e infelizmente a situação persiste, como veremos mais adiante).

Mas contra os rifles e canhões brancos suas lanças e escudos pouco puderam fazer, além de retardar um pouco a queda.

Em 1679 foi inaugurado pelos africâneres o forte conhecido como ‘Castelo da Boa Esperança’.

Trata-se da primeira construção europeia na África do Sul, na época a beira-mar, hoje depois de sucessivos aterros está a centenas de metros da orla.

O que garantiu pouco mais de um século de domínio.

Porém em 1795 a Inglaterra exige a rendição da Colônia (holandesa) do Cabo e sua anexação ao Império Britânico.

Os holandeses se negam, e resistem o quanto podem mas o Cabo cai acuado por invasão de enorme esquadra da Real Marinha Inglesa.

Em 1804 a Holanda brevemente retoma o controle, mas dois anos depois em nova invasão a Inglaterra assume em definitivo o comando da Cidade do Cabo e da colônia que o circunda, o que a princípio incluía até a atual Namíbia.

E eis a prova: Atlântida, subúrbio do Extremo Norte na Grande Cid. do Cabo. Moradia muito pobre, mas tem um Mercedes velho na garagem. No Paraguai (e vários páises árabes) a paixão por essa marca é a mesma. Mas tem mais: casa de madeira? E com toras na horizontal? Por acaso viemos parar no Caribe, ou no Sul dos EUA???

Assim os holandeses vão pro interior e ali estabelecem duas repúblicas independentes

Entre os Rios Laranja (‘Oranje’ no original holandês/africâner, a cor da Casa Real Holandesa e daí o uniforme da seleção desse país) e Vaal é criado o ‘Estado Livre Laranja’ (‘Orange Free State’ em inglês).

E após o Rio Vaal a República Sul-Africana, também chamada de ‘República do Transvaal’.

Não confunda, obviamente, a ‘República Sul-Africana’ holandesa/ africâner/boer com o país atual, já vamos chegar lá e ver como a presente República da África do Sul foi formada.

Primeiro voltemos ao século 19. Os holandeses foram derrotados no litoral, perderam o Cabo em 1795 e Natal, do outro lado, já era bastião inglês.

Ainda Atlântida, Cid. do Cabo: residência muito pobre de alvenaria, rua de terra, sozinha no quintal grande, sem laje e sem muro. Me belisca: ou eu estou sonhando ou eu voltei mesmo ao Paraguai!!

Assim migraram e no fundão do interior fundaram suas duas repúblicas independentes que, sendo o ser humano como é, também guerrearam entre si.

Mas o perigo maior estava por vir. Em 1877 a Inglaterra anexa também o Estado Livre Laranja e a República do Transvaal.

Em 1880 os colonizadores ‘boeres’ (holandeses) se revoltam, e estoura a Primeira Guerra Anglo-Boer.

Ela dura apenas 4 meses, até o começo do ano seguinte com vitória boer, as repúblicas holandesas reconquistam a independência.

Não dura muito. Em 1886 é descoberto ouro na região, e daí fundada a cidade de Joanesburgo.

Soweto, Joanesburgo. Favelas com casas de zinco. Me deu a nítida sensação de estar de volta aos morros de Valparaíso, Chile.

Obviamente a Coroa Britânica não vai deixar que outros enriqueçam com o metal. Assim em 1899 se inicia a Segunda Guerra Anglo-Boer.

Agora a luta foi renhida e cruel. A Inglaterra está disposta a ganhar a qualquer custo. E por isso lança mão de uma nova técnica:

Prende a população civil das cidades inimigas conquistadas em campos de concentração, especialmente Mulheres e crianças.

Voltamos a Atlântida, Cabo. Mas continuamos no Chile. Puxadinho no Prédio??? Você já sabe, é a marca registrada da Zona Oeste de Santiago, fotografei vários assim.

Veja mais abaixo a foto (busque pela legenda), tropas inglesas se dirigem com cavalaria e canhões pra ocupar a nascente cidade de Joanesburgo.

Conhecendo a crueldade inglesa, os comandantes de Joanesburgo optam por entregar a cidade sem lutar.

Não teve jeito, a Inglaterra conquistas as repúblicas boêres e unifica a África do Sul sob seu comando, como uma colônia.

Em 1909 é decretada independência formal pelo parlamento inglês, com a consequente criação da União Sul-Africana em 1910.

Plátanos na Zona Norte de Joanesburgo. Na África do Sul você se sente no Canadá ou em partes frias da América do Sul, como Campos do Jordão-SP, S. Catarina, Argentina ou Chile.

Mas a “independência” é apenas no papel, literalmente ‘pra inglês ver’.

A África do Sul continua colônia inglesa, apenas em 1931 vem a independência de fato.

De 1931 a 1960 a África do Sul fica na mesma situação que o Canadá, Austrália e Nova Zelândia estão até hoje: é independente na prática. Mas o chefe de estado ainda é a rainha (ou rei) da Grã-Bretanha.

Em 1961 em plebiscito nacional (apenas os brancos puderam votar) por pequena margem são cortados em definitivo os laços com a Inglaterra.

Casa com dezenas de painéis solares na Zona Norte de Joanesburgo. Na África do Sul o uso da energia do Sol está mil vezes mais avançado que no Brasil. Casas de todas as classes sociais, inclusive cohabs muito pobres (veremos fotos em outra postagem), fazem uso intenso desse modal. Com tanto cuidado com a Natureza, eu me senti na Alemanha.

Proclamada a ‘República da África do Sul’, a monarca em Londres enfim deixa de ser a chefe de estado sul-africano.

A província de Natal (atual Kwa-Zulu/Natal depois da incorporação do bantustão Kwa-Zulu) foi a única a votar ‘não’, pois ali os ingleses sendo maioria queriam permanecer ligados formalmente a Inglaterra.

Alias a rixa entre ingleses e africâneres na África do Sul é antiga. Em tempos passados, resolvida via aprisionamento da população civil rival em campos de concentração.

Hoje a situação é mais pacífica mas um certo ressentimento permanece. 

Derivado de modos diferentes de verem sua permanência na África, uma situação temporária pra uns e permanente pra outros.

Já que é pra falar da vibração Norte-Europeia, segura essa: a costa da Cidade do Cabo já sofreu sucessivos aterros, tomando espaço do mar. Veja essa imagem (desculpe a coluna na frente, eu estava dentro do terminal de ônibus e o painel é fora, não tive como evitar). As ruas são a área urbanizada da cidade em 1884, hoje é cem vezes maior, isso é apenas o Centro atualmente. Aquela estrela bem no meio é o Castelo da Boa Esperança, fortaleza construída pelos holandeses, já explicada acima. Até o fim do século 19 ela ainda era a beira-mar, a costa então era a linha azul-escura. Em 1920 já havia o primeiro aterro, a costa está naquela linha de azul de tom médio. E em 2013 muito mais terra havia sido tomada do Oceano, o terminal que eu estou está identificado por aquele ponto vermelho. Portanto um século atrás eu estaria dentro do mar nesse exato local. É como se eu estivesse na Holanda. Bem, a África do Sul e muito mais a Cidade do Cabo foram colonizados (também) por holandeses.

Explico. Os africâneres chamam os ingleses pejorativamente, perdão pelo termo chulo, de ‘pinto de sal’.

Isso quer dizer o seguinte. Os africâneres se veem como ‘descendentes de holandeses’, e não como ainda sendo holandeses.

Claro que valorizam sua cultura – até demais, tanto que a impuseram a força aos negros por um século.

Mas os africâneres cortaram seus laços atuais com a Holanda, com a Europa em geral. Eles agora se definem como sul-africanos.

Já os ingleses se recusam a cortar seus laços com a Inglaterra, e ficam numa ‘lealdade dividida’.

Não sabem ser sul-africanos de corpo & alma, pois ainda querem permanecer súditos da rainha.

Mesmo tendo nascido, sido criados e morado toda vida na África, se recusam a deixar ir seus laços com a ilha do outro lado do planeta da qual vieram seus bisavós.

Por isso têm o, desculpe novamente, ‘pinto de sal’.

Pois segundo os aficâneres, os ingleses ficam com um pé na Europa, outro na África, daí seu genital molha no mar e se torna salgado.

……….

Bem, após a matança da Guerra Anglo-Boer da virada do século 19 pro 20, os brancos entenderam que estavam condenados a viver juntos no mesmo país.

Como já dito, os ricos da África do Sul moram como os dos EUA: em casas (geralmente sobrados) nos subúrbios com calmas ruas sem saída, gramados a frente, se possível sem muro. Aqui é Z/N da Cidade do Cabo, perto da Praia da Lagoa e Praia do Pôr-do-Sol. Note a ausência de calçadas.

Independente de gostar ou não da Inglaterra. Portanto se uniram pra oprimir os negros e demais pessoas “de cor”.

Repito que oficialmente o ‘apartheid’ iniciou em 1948. Mas na prática desde o século 19. Lembre-se:

Quando chegaram a África do Sul vindos da Índia (ambos então parte do Império Britânico) os indianos eram tão pobres quantos os negros nativos.

E tinham os mesmos direitos que eles, ou seja nenhum.

As repúblicas “livres” Laranja e do Transvaal só eram livres pros brancos.

No Transvaal inclusive a lei dizia que não-brancos não podem ocupar cargos nem na administração pública nem nas igrejas.

Em Durbã, garotos de uma escola vão jogar bola na praia. Negros e brancos juntos, pois a legislação racista acabou. Aqui quero chamar a atenção novamente pro fato que na África do Sul os brancos são sempre alvíssimos, pele, olhos e cabelos – todos na foto são loiros! Não são mestiços, morenos como os ‘brancos’ do Sul da Europa e América Latina. Na África do Sul (nesse ponto ao menos) você está no Norte da Europa: Holanda, Alemanha, Inglaterra e Escandinávia.

Os indianos que foram morar no Transvaal tinham por lei que residir em bairros (na verdade favelas) exclusivos pra eles, designados pelas autoridades.

Além disso, eles não podiam trabalhar na mineração, e tampouco andar nas calçadas, tinham que caminhar pelo meio das ruas. E toda essa legislação data de 1885.

No Estado “Livre” Laranja era ainda pior. O governo branco simplesmente baniu a entrada de indianos.

Nenhum indiano podia morar no Estado Laranja, e mesmo pra atravessá-lo de passagem era necessário um visto especial.

Depois que a Inglaterra bateu as repúblicas boêres em 1902 e as incorporou a sua colônia sul-africana a situação permaneceu inalterada.

Cidade Alta’ de Durbã, um bairro (‘Musgrave‘, pronuncia ‘Mâsgreive’) num morro de classe alta e média-alta na Zona Central. Ir a África do Sul é como ir a Alemanha (ou a Joinville-SC). Nem todos os morros de Durbã são tão elitizados, como já vimos acima.

Afinal, mesmo em Natal (que era possessão inglesa) a situação era a mesma.

Ainda em 1888 foram formuladas leis que obrigavam os indianos a terem autorização da polícia (‘passes’) pra circular pela cidade.

E em toda África do Sul, boer ou inglesa, antes ou depois da Guerra Anglo-Boer, as pessoas ‘de cor’ não podiam entrar em diversos locais públicos.

Isso valia pra negros, indianos, chineses e qualquer não-europeu.

Pra você se sentir mesmo no Norte da Europa: comprei na Cidade do Cabo, mas o leite vem escrito em holandês. Na verdade africâner, que oficialmente é uma língua, mas na prática um dialeto do holandês (80% das palavras são idênticas nos dois idiomas, ou tem mínimas diferenças de grafia). 99,99% dos alimentos na África do Sul vem escritos em inglês, que é a língua que todos os seus habitantes (de todas as raças) falam. Muitas vezes em inglês, português e francês pra ser exportado pra toda África. Mas em africâner nenhum, apenas esse laticínio quis ressaltar sua origem dessa forma. As caixinhas de papelão do longa vida são bi-língues inglês e africâner, os saquinhos de plástico são também nos dois idiomas, mas não na mesma embalagem. Cada saquinho é ou em inglês ou africâner.

Eles nem sequer podiam caminhar pelas calçadas, precisavam ir pelo meio da rua com risco iminente de atropelamento.

Muita gente não sabe, mas aquele que foi batizado ao nascer Mohandas Gandhi viveu 21 anos na África do Sul. E foram os primeiros anos de sua vida adulta.

Ali ele iniciou sua luta política, e ali na África do Sul ele se tornou conhecido como ‘Mahatma’ Gandhi.

Uma pista pra quem não conhece a língua sânscrita. ‘Maha’ = ‘Grande’; ‘Atma’ = ‘Alma’. Logo ‘Mahatma’ significa ‘A Grande Alma’, ou se preferir algo similar a ‘Iluminado’, ‘Ungido’, pra usar as terminologias budista e cristã.

Gandhi era de família abastada, por isso na juventude foi estudar advocacia em Londres, nada menos que a capital do império que subjugava tanto a Índia quanto a África do Sul.

Ao retornar formado pra casa, um de seus primeiros trabalhos foi ser enviado a Durbã pra representar alguns ricos comerciantes muçulmanos indianos.

(Algumas notas. A ‘Índia’ de então incluía os atuais Bangladesh e Paquistão, logo muitos eram muçulmanos, situação que ainda persiste até hoje.

A África do Sul tem enorme comunidade muçulmana. Parte dela é formada por imigrantes [negros] de outros países da África, e também por sul-africanos negros convertidos.

Entretanto o grosso é de ‘indianos’, assim chamados, mas se os outros países já fosse independentes seriam conhecidos como bengalis ou paquistaneses.

Assim como no Brasil o termo ‘turco’ se refere basicamente a sírios e libaneses, então sob jugo do Império Otomano [turco]. Em várias partes do mundo as fronteiras de um século e pouco atrás eram diferentes das atuais.

Segundo, embora a imensa maioria dos indianos da África do Sul fosse pobre, evidentemente haviam também representantes da elite, que estavam ali por sua livre vontade.)

Zona Norte, Cidade do Cabo, perto da praia: subúrbio rico na lagoa, cada casa pode ter seu cais e barco particular. Nos EUA (especialmente na Flórida) é assim também.

Gandhi aportou em 1893, pra passar poucos meses. O que ele não sabia é que brevemente um acontecimento mudaria sua vida pra sempre.

E por ele Ser um Grande Avatar da Humanidade por consequência cambiaria também a trajetória do planeta.

Sendo de família de posses, e representando clientes idem, nada mais natural que ele viajasse de primeira classe nos trens.

Porém ainda nesse mesmo ano ele fazia uma viagem ferroviária, quando foi solicitado a sair da primeira classe, por não ser branco.

Eis meu almoço num domingo (de pouco Sol) na Beira-Mar de Durbã: arroz indiano, bastante apimentado. Bota bastante nisso! Na África eu comi como no Sul da Ásia.

Gandhi se recusou, afinal ele pagara a passagem, tanto quanto os euro-descendentes que se incomodaram em sentar ao lado de um asiático. E era advogado, conhecia a lei e seus direitos.

Pois bem. Assim o trem parou e ele foi posto pra fora, simplesmente porque sua pele era escura.

E teve que retornar a pé pra cidade, Pietmaritzburg (que era e ainda é capital de Natal, agora Kwa-Zulu Natal).

Ali morreu Mohandas Gandhi, o advogado que pensava em representar seus clientes, e Nasceu Mahatma Gandhi:

O Avatar cuja missão na Terra era lutar contras as injustiças, onde elas ocorressem. Seu ‘cliente’ a partir dali era a Humanidade.

Logo em frente ao restaurante, no calçadão da ‘Praia Norte’ de Durbã (mais chique que a ‘Praia Sul’, depois explico melhor) você pode andar de riquixá, uma carroça que é puxada não por um animal mas por um ser humano. Antes de domesticarem os cavalos, eram assim que as classes se diferenciavam: os ricos se locomoviam sentados, puxados por outras pessoas. A pequena classe-média e a imensa maioria de pobres andava a pé, enquanto que os miseráveis eram vendidos como escravos e eles quem puxavam os outros. Isso a milênios atrás, então ao ver essa cena eu atravessei um portal não só do espaço mas também do tempo. Trata-se de uma pitada da Índia enxertada na África. Bem, a água que vemos ao fundo é do Oceano Indiano (ou ‘Índico’), então não está tão longe assim. África do Sul, 2017 d.C.. Mas, cá entre nós, parece a Índia 5.000 antes do Cristo.

Tanto que Gandhi já se preparava pra deixar a África do Sul e voltar a Índia em definitivo, em fins do mesmo ano de 1893.

A rica comunidade indiana de Durbã organizou uma festa de despedida.

E ele já estava de malas prontas e passagem de navio comprada pra deixar a África.

Mas informaram Gandhi que o parlamento branco de Natal preparava um pacotaço de leis racista contra os indianos, além das leis que estavam em vigor e não eram poucas.

Pediram a ele que ficasse e liderasse a luta contra a discriminação. Gandhi disse:

“Fico. Contem comigo”. Assim, uma estada de pouco meses se ampliou pra mais de 2 décadas.

Provavelmente Gandhi não teria ficado se não tivesse sido enxotado do trem como um leproso ou um bicho peçoenhento, mesmo tendo direito de ir na 1ª classe.

Ele ficou. A África do Sul mudou Gandhi, e depois ele mudou a África do Sul, a Índia, o Império Britânico e toda Terra.

Pois foi figura-chave no movimento pra Conscientizar as pessoas que era errado nações mais poderosas subjugarem as mais fracas.

Centrão de Joanesburgo: imóvel abandonado todo grafitado com o ‘alfabeto’ criado em Nova Iorque. Se você pensou que estamos no Bronx (bairro pobre e negro dessa cidade ianque, como se sabe), você não está de todo errado. Joanesburgo é a única cidade da África do Sul que tem pichação e grafite, mesmo assim bem menos que na América Latina e EUA. Nas demais metrópoles sul-africanas quase inexistente.

Ainda em Durbã fundou e liderou uma frente de combate ao racismo.

Depois mudou-se pra Joanesburgo, onde organizou uma marcha que serviu de treino pra famosa ‘Marcha do Sal’ feita depois na Índia, que foi a pá de cal no domínio injusto britânico por lá.

Gandhi foi preso 4 vezes na África do Sul, e no total cumpriu 7 meses encarcerado nos presídios sul-africanos.

Foi mais um ensaio pro que viria na Índia, onde ele viveria mais de 3 anos e meio atrás das grades.

……….

Em Durbã, Gandhi foi vizinho de um dos fundadores do Congresso Nacional Africano (CNA, em inglês ANC), John Langalibalele Dube.

“Bronx a Beira-Mar”: continuamos na vibração nova-iorquina. Na África do Sul há favelas e bairros pobres afastados do Centro das cidades (literalmente na ‘periferia’) como na América Latina? Sim, há. Mas também é muito comum o gueto central, modelo que predomina na Europa, EUA e Anglosfera. Fiquei no bairro ‘Praia Sul’, em Durbã. É exatamente esse caso. O prédio que veem na imagem é vizinho ao que me hospedei, mesma quadra. Trata-se de quitinetes pra massa, classe trabalhadora. É integrado, moram brancos, mas imensa maioria de negros e indianos. E, surpresa, na quadra do mar. Na ‘Praia Sul’ não há alta burguesia nem elite, só povão e no máximo pequena burguesia. A ‘Praia Norte’ é mais cara, ali há edifícios de alto padrão. Mas na ‘Praia Sul’ não, é um gueto na orla, daí o apelido que eu dei.

Ambos trocaram muitas ideias e se influenciaram mutuamente.

Afinal tanto indianos quanto negros sofriam da mesma repressão.

Agora, se qualitativamente os migrantes da Ásia igualmente eram discriminados, óbvio que quantitativamente os nativos da África foram as maiores vítimas do regime racista.

Se já existia antes de 1948, a partir dessa data com a oficialização o ‘apartheid’ só veio a piorar.

Entre 1949 e 50 a legislação básica racista foi delineada: foram aprovadas as leis proibiam primeiro casamentos entre brancos e não-brancos, e depois qualquer relação sexual.

As penas de prisão eram de até 7 anos pros membros dos dois sexos.

Mas no caso de um Homem negro ser apanhado com uma Mulher branca, a punição mais provável era mais imediata, o linchamento nas mãos da multidão.

Igualmente veio a lei de ‘classificação populacional’. Cada sul-africano foi enquadrado em uma das 4 categorias, ‘branco’, ‘negro’, ‘mestiço’ ou ‘indiano’.

Na prática a 1ª denominava os brancos, e as outras 3 o que coletivamente eram os ‘não-brancos’.

Eu fui ao Bronx original (NY), em 1996. De volta a África, outra da Praia Sul, Durbã, o “Bronx a Beira-Mar”.  A galera tem que congregar na rua, não há espaços de lazer nem no prédio nem no bairro (exceto o calçadão da orla).

Na teoria todas as raças deveriam permanecer separadas.

Só que o que ocorria era que o estado pouco se importavam quando os não-brancos interagiam entre si.

Apenas o relacionamento entre os brancos e qualquer pessoa ‘de cor’ é que era severamente regulado.

Sempre em favor do branco evidentemente.

Mais do que classificar, a lei estabelecia juridicamente em quis áreas do país cada raça podia viver.

Bairro da elite na Z/N de Joanesburgo, África do Sul. Só mansões residenciais, sem comércio. Detalhe: sem calçadas em qualquer lado da rua. Se você já foi aos EUA, sabe que lá é assim também, esses dois países não são feitos pra andar a pé, só de carro.

Houveram mais de 3 milhões de deslocamentos forçados, quando alguém vivia numa área que foi designada pra outra raça.

As vezes uma família já estava a séculos numa região. Pouco importava.

Policiais fortemente armados apareciam ao amanhecer, todos só tinham tempo de carregar o que pudesse ser levado nas mãos.

A seguir as pessoas eram postas em caminhões e relocadas pra onde o governo determinasse.

A imensa maioria dos relocados eram de negros, mas os indianos também passaram por isso. E houveram raríssimos casos em que alguns brancos também tiveram que se mudar contra a vontade.

Acima falamos em esportes, e em anglosfera. Garotos alvos como a neve jogam ‘rugby’ na praia em Durbã. Se eu estivesse na Inglaterra, Austrália ou Nova Zelândia a cena seria a mesma. Pela herança inglesa, a África do Sul se parece muito até com a Oceania!

Pois suas terras ficaram dentro do território pra onde o governo expeliria os negros após expulsá-los das cidades.

Por exemplo: nenhum negro poderia residir dentro dos limites do município de Joanesburgo.

Exatamente por isso eles se formaram sua base em Soweto (sigla de ‘Assentamento Sudoeste’ em inglês), que era na região metropolitana.

Quando o ‘apartheid’ acabou os municípios foram unificados dentro da mesma prefeitura metropolitana.

E hoje Soweto faz parte de Joanesburgo com muito orgulho, pelo papel ativo que desempenhou na resistência.

Subúrbios elitizados de Joanesburgo: “Estate” significa ‘bairro’. Daí veio o termo ‘Real Estate’, (‘imobiliária’), usado tanto na Inglaterra quanto EUA. Agora, somente ‘Estate’ como ‘bairro’, na Inglaterra e África do Sul sim mas nos EUA não.

(Nota: a África do Sul, como os EUA, tem ativa uma 4ª esfera administrativa que não existe no Brasil, a da ‘prefeitura metropolitana’, o ‘condado’ nos EUA.

No nosso país, existem as ‘regiões metropolitanas’ mas eles não têm administração própria, são os governos estaduais quem cuidam delas, nem sempre de forma eficaz.

Na África do Sul, ao contrário, existe uma esfera de governo específica.

Pois bem. A prefeitura metropolitana de Joanesburgo incorpora Soweto e diversos outros subúrbios [ricos e pobres, majoritariamente negros, brancos ou mistos] sob o mesmo corpo executivo/legislativo.

Assim, Soweto e Joanesburgo, embora permaneçam municípios separados numa esfera menor, fazem parte da mesma cidade mesmo juridicamente. Volta o texto original.)

Mais herança inglesa. Restaurante no Centro de Pretória serve ‘peixe & batatas-fritas‘. O prato mais popular das Ilhas Britânicas também é o preferido de milhões de sul-africanos.

Logo a seguir foram criados os ‘bantustões’, onde os negros deveriam residir, sendo expulsos da África do Sul.

‘Bantu’ é a raiz etno-linguística a que pertencem os negros sul-africanos.

‘Istão’ significa ‘terra’ em persa e idiomas vizinhos, por isso tantos países na Ásia Central se chamam ‘Paquistão’, ‘Afeganistão’, ‘Tajiquistão’, ‘Casaquistão’, etc.

O ‘bantustão’ portanto é a ‘terra dos bantus’, e ali eles devem viver, deixando a África do Sul pros brancos, era a lógica do regime.

A princípio esse era o nome oficial do programa, depois alterado pra ‘terra-natal’.

A ideia inicial dos cabeças do ‘apartheid’ era relocar, amigavelmente ou a força se preciso, todos os negros pra algum dos bantustões.

Agora a herança ianque, Mc Donald’s também no Centro de Pretória. A África do Sul adora a ‘comida-rápida’ dos EUA, todas as cadeias ianques são oni-presentes lá. Especialmente a KFC, que vende frango frito. Como os negros do Caribe e do Sul dos EUA, os sul-africanos amam essa receita. Mas, bem, aí provavelmente foi na mão contrária, os negros de certo já comiam carne de galinha encharcada em muita gordura de má qualidade (o colesterol foi pra estratosfera!) na África antes de virem pra América.

Aí eles exerceriam seus direitos políticos ali, parando de reivindicar o voto ou qualquer outra coisa na África do Sul.

Porém rapidamente a elite branca viu que esse plano não seria possível.

Posto que os brancos são uma pequena parte da população sul-africana, e ainda por cima concentrados na elite.

Logo, a economia sul-africana entraria em colapso sem a mão-de-obra negra, e não iria demorar.

Assim os brancos desistiram de remover a força todos os negros, mas não desistiram de negar-lhes a cidadania sul-africana.

Cada Homem e Mulher negro foi denominado cidadão de algum dos 10 bantustões, contra sua vontade. E portanto numa canetada deixaram de serem sul-africanos.

A classificação era arbitrária e superficial. Muitos negros foram denominados ‘cidadãos’ de um bantustão que eles não tinham qualquer ligação.

“Velho Oeste Ianque”? Quase! Na verdade Centro de Joanesburgo. Essa também foi uma cidade fundada na ‘Corrida ao Ouro’, que surgiu quando esse metal foi descoberto na região, mais ou menos na mesma época de suas congêneres nos EUA (2ª metade do século 19). O trenzinho da mina está ali pra lembrar essa origem.

Pois eram habitados por tribos diversas da sua. Ao serem removidos pra lá, aí sim eles se tornaram estrangeiros nesse ‘país’. 

País que só existia na cabeça dos que faziam o ‘apartheid’ e de seus colaboradores negros, os caciques da tribos que administravam o bantustão.

Oras, o bem-estar dos negros expulsos da RAS não era o objetivo desse repatriamento, e sim sua desaparição, se não física ao menos política.

Dos milhões de negros que foram relocados a força, centenas de milhares foram pra terras que eles nunca haviam pisado, e onde não tinham nenhum parente.

Dizendo de novo, não por caridade mas por impossibilidade prática o regime cancelou o plano de deportar todos os negros pros bantustões.

Centrão de Durbã (muitos camelôs, falo melhor da região em breve): propaganda muçulmana escrita – também – em árabe. Aqui a África do Sul lembrou muito a Arábia Saudita.

Mas ainda assim retirou a cidadania sul-africana de todos eles.

Os negros poderiam então continuar vivendo e trabalhando na África do Sul, mas como ‘trabalhadores convidados’.

Precisavam de uma autorização especial pra ter sua casa, que obviamente só poderia ser nos bairros exclusivos pra negros, onde os serviços públicos eram praticamente inexistentes.

Ademais, precisavam de um ‘passe’ expedido pela polícia, e ele só valia pra circularem no bairro que trabalhavam. Camburões da polícia circulavam nos elegantes bairros brancos, exigindo o ‘passe’ dos negros.

Centro Novo da Cidade do Cabo, um bairro planejado que está sendo construído agora pra classe alta e média-alta, no coração da cidade. Me senti de volta a Buenos Aires-Argentina (que visitei 1 mês antes), onde ocorreu exatamente o mesmo com a implantação do Porto Madeiro, 2 décadas atrás. Mas peraí: morar em frente a um canal, onde a rua é água e você chega de barco em casa (como esse rapaz poderia estar fazendo)? Por acaso estamos em Veneza/Itália??? Ou (se você substituir o rio por mar) quem sabe em Bombinhas-SC?

Os que não tinham, ou estava vencido ou fora do território, eram presos imediatamente.

Numa canetada, os negros viraram estrangeiros em seu próprio país, na terra que eles residem a dezenas de milênios.

Além disso, as Mulheres negras eram ainda mais perseguidas.

Em muitos casos apenas o marido recebia autorização pra trabalhar, e portanto pra entrar nas cidades.

As esposas e crianças ficavam numa espécie de prisão domiciliar no bantustão.

Mesmo nos poucos bairros urbanos que era autorizada a presença permanente feminina, as Mulheres não podiam por lei serem proprietárias de uma casa.

Ou seja, sua presença nas cidades estava condicionada ao casamento, fosse esse bom ou ruim.

Não é segredo pra ninguém que na época a nefasta prática do marido bater na esposa era ainda mais generalizada que hoje.

Bando de aves que me parecem flamingos e pelicanos curtem o Pôr-do-Sol numa das muitas lagoas da Zona Norte da Cidade do Cabo. Haviam várias outras espécies, entre elas um animal rosa lindíssimo, mas essas fotos não focaram, tirei de dentro de um ônibus em alta velocidade e eles estavam distantes. Em outras mensagens solto mais tomadas das aves africanas, inclusive uma bela revoada. Aqui que nos importa é: você está dentro da cidade, mas vê o tempo todo pássaros exóticos em bandos? A África do Sul também tem um pouco da Amazônia.

O que muitas vezes gerava uma escolha difícil as negras:

Ficarem confinadas em áreas rurais remotas onde as oportunidades de renda e educação eram zero, ou morar numa favela ao lado de um marido que abusa delas.

…….

Obviamente a comunidade negra resistiu. Nelson Mandela era sua figura mais emblemática, e por isso ficou 27 anos preso.

Mandela passou muito tempo na solitária, e ele e todos os outros presos eram obrigados a ficar quebrando pedras durante todo dia. Não é figura de linguagem.

Obviamente o trabalho deles não servia pra nada, mas era um fim em si mesmo, o de tornar a vida dos prisioneiros o mais dura possível, literalmente.