Juvevê, a “Nascente da Zona Norte”

Hospital São Lucas, Juvevê: marco zero da An. Garibaldi e da Munhoz da Rocha.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 10 de dezembro de 2017

Maioria das imagens de minha autoria. As que não forem eu identifico nas legendas ou no corpo do texto.

…….

Nosso tema de hoje é o bairro do Juvevê, na divisa entre as Zonas Central e Norte de Curitiba.

Vamos dar uma pincelada também nos vizinhos Ahú e Centro Cívico.

Uma boa oportunidade pra gente relembrar o passado da região.

Panorâmica do Ahú, virada pros anos 70. A esquerda na imagem o Juvevê, ao fundo Alto da Glória e Centro.

Ali começa a Zona Norte, é sua nascente. Mas mais que isso.

No Juvevê estão também a nascente de 3 das principais vias da Z/N:

A Avenida Paraná começa na divisa do Juvevê com o Cabral.

Onde há a Igreja do Cabral e um tubo antes do terminal de mesmo nome. Isso muita gente sabe.

Ruas em estrela, traço do Juvevê (e também do Boqueirão, Z/S). Essa foto é via ‘Google Mapas’.

Mas retornando mais um tubo em direção ao Centro veremos que o Juvevê justifica a alcunha de ‘Nascente da Zona Norte’ em mais uma dimensão:

A Erasto Gaertner (que começa Munhoz da Rocha e termina Monteiro Tourinho) e a Anita Garibaldi são duas das principais avenidas de Curitiba.

Um ícone cai: em dezembro de 17 o Mercadorama do Juvevê deixou de existir. Por décadas foi um emblema do bairro, mas se tornou ‘Wal Mart’ (essa mega-corporação estadunidense já era proprietária da rede a tempos). Flagrei a mudança, quando o logo do Mercadorama com seu ‘M’ inconfundível já estava jogado no lixo. Coisas da Vida!

E elas cortam partes opostas e distantes da Zona Norte. Mas pouquíssima gente sabe que elas nascem exatamente no mesmo ponto, uma em frente a outra:

Em frente ao Hospital São Lucas, no Juvevê. Você conhecia esse fato?

Se sim, você também é um ‘urbenauta’, um profundo conhecedor da urbe, da metrópole, em seus mínimos detalhes.

Entretanto, repito, a imensa maioria das pessoas não sabe. Mas assim é. Veja a 1ª foto da página. O hospital já citado. Destaquei nos detalhes:

A minha direita, a placa do marco zero da Avenida Anita Garibaldi. A esquerda, do outro lado da via do Expresso. a do marco zero da Munhoz da Rocha.

Ambas no mesmo ponto da João Gualberto, a quadra cuja sua numeração vai de 1770 a 1910, fato também realçado nas tomadas.

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Já voltamos a essa questão. Antes vamos, em tomadas antigas (várias delas ainda em preto-&-branco), voltarmos no tempo.

Viajaremos pros anos 60 e 70, antes e logo depois da construção do ‘Sistema Trinário’:

A via segregada do ônibus Expresso no meio, ladeada por duas estreitas pistas laterais de carros pro tráfego local.

E a uma quadra de distância pra cada lado, as ‘vias rápidas’, pro trânsito pesado de automóveis e demais linhas de ônibus.

Segura essa: rara imagem da Avenida João Gualberto ainda sem a canaleta nos anos 60 (fonte: Curitiba Antiga).

Curitiba e Lima no Peru disputam qual foi a cidade que inaugurou a primeira canaleta exclusiva pra ônibus do planeta.

Ambos os sistemas ficaram prontos no meio dos anos 70.  Depois a capital peruana parou de investir em transporte coletivo.

Assim por quase 30 anos (do fim dos anos 80 ao começo da década de 10) a coisa foi confusa em Lima, no transporte coletivo e múltiplas outras dimensões.

Tanto que nessa década de 10 mesmo que ainda estamos (essa postagem é de dez.17) ainda circulavam lá Monoblocos produzidos nos anos 80.

Típica rua interna do bairro.

Agora Lima despertou e modernizou seu transporte coletivo, concluiu seu metrô que estava inacabado e inoperante.

Também retomou a operação dos corredores de ônibus, reformando e modernizando o sistema que igualmente esteve mal-utilizado por décadas, após um início glorioso.

O início da Anita: em sua primeira quadra é um calçadão.

Mas a história do transporte peruano contaremos com mais detalhes quem sabe em outro dia. Aqui nosso tema é Curitiba.

Dei essa pincelada somente por isso, já que vamos falar da inauguração dos sistema Expresso, ressaltei que o Peru teve a mesma iniciativa na mesma época.

Vimos acima a descida da João Gualberto (pra quem vem do Cabral, a subida pra quem vem do Centro) ainda sem a canaleta. A tomada é dos anos 60.

E a foto que veio antes dela foi tirada um pouco depois no meio dos 70, a pista exclusiva já pronta mas ainda utilizada por ônibus convencionais.

O começo da M. da Rocha: aberto aos carros mas quase sem trânsito.

Entre 74 e 76, ônibus convencionais operaram as atuais linhas de Expresso pela canaleta recém-inaugurada ou mesmo em fase de obras.

Esse busos ainda tinham entrada por trás, pintura livre (num padrão com listras horizontais em verde e amarelo) e motor dianteiro.

Nas obras da canaleta, e mesmo logo após a inauguração delas, eles primeiro fizeram improvisados as atuais linhas de Expresso.

Mesmo depois que chegaram os ônibus próprios do novo modal (vermelhos, embarque dianteiro, motor atrás e bancos de lado, costas pra janela e virados pro salão), por um tempo o velho e o novo co-existiram.

Quase no mesmo local, contraste entre o antigo e o novo. O casarão é tombado: no início do século 20 foi um armazém. Até recentemente era uma funerária, que se mudou pro Centro. Agora está vago (na verdade dizem que uma senhora reside no andar superior).

A partir de 77, quando aportaram ainda mais levas de Expressos propriamente ditos, é que foi tudo padronizado no vermelhão.

Já fiz matéria específica sobre o transporte de Curitiba nos anos 70, 80 e 90.

Onde tudo isso é explicado com imensa riqueza de detalhes, incluso com dezenas de fotos, confira.

…………

Isto posto, enxerto aqui o emeio de um colega que foi criado na divisa entre Ahú e Juvevê.

Como ele mesmo explicou, o prédio que ele morou fica no Ahú.

Mas a ‘vida social’ de sua família (compras, etc.) era feita no Juvevê. Reproduzo parte de suas palavras:

”   A Manoel Eufrásio é uma rua muito agradável, apesar do movimento intenso.

No casarão há placa antiga, de quando o idioma português tinha outra grafia.

Nos anos 80, acredite, essa era também uma rua onde se jogava bola.

Exatamente no ponto em frente à entrada do Parque Pinheiros e do Chácara Juvevê (a propósito, o lançamento desse empreendimento foi nos anos 70).

A Rua Emílio Cornelsen, então, nem se fala. Até 1992, mais ou menos, era uma rua sem saída.

Ela acabava num terreno baldio logo depois do meu ex-prédio (que é um dos primeiros dessa via).

A foto panorâmica do Ahú (mais pro topo da página, a direita) capturei da internet há anos, do sítio da Construtora Galvão.

Ela foi a responsável por vários desses conjuntos de apartamentos dessa região.

As ruas em estrela – 3 vias se cruzam, ao invés de 2: onde há pouco movimento fizeram essas praças (as flores da região estão nessa outra mensagem).

O primeiro deles foi justamente o que chamei de Parque Pinheiros.

Esse é famoso por sua torre grande de 15 andares e mais os quatro ou cinco menores de seis andares.

Creio que foram entregues em 1972 ou 1973.

Logo depois veio o Edifício Colibri e mais os dois menores ao lado.

Isso em 1976, com apartamentos construídos segundo a mesma planta do anterior.

Onde há mais trânsito é na raça – com 3 vias se encontrando, é perigoso cruzar as preferenciais. No meio da vemos a Via Rápida (sentido bairro). Destaquei com as flechas brancas: os dois carros que vêm nas transversais têm que cuidar não apenas dos que estão na preferencial, mas também um do outro. E ainda poderiam estar vindo carros em mais 2 lados. 3 ruas se encontram, sendo uma mão única e duas de mão dupla: pode acontecer de virem carros em 5 direções pra cruzar a mesma esquina simultaneamente. Quem planejou isso achou que era genial, mas se mostrou ser uma lambança daquelas!! Repito, no Boqueirão é igual. Em ambos os bairros aos poucos estão corrigindo (implantando rotatórias ou fazendo uma via sair em outra antes de ambas cruzarem a maior de todas), mas levará tempo até acertar tudo.

No fim dos anos 80, surgiram esses maiores da Manoel Eufrásio e aqueles azuis já no lado direito da Emílio.

Esses últimos sendo projetos para a elite da época, apartamentos de 4 quartos mais dependência de empregada.

Construído no mais alto padrão de acabamento e arquitetura disponíveis.

Os da Manoel Eufrásio, de cor avermelhada, já eram mais voltados para a classe média.

Pude comprovar uma vez que a planta dos apartamentos é praticamente a mesma dos dois conjuntos anteriores.

Apenas com uma ou outra modernização estrutural.

Voltando a falar da panorâmica em p-&b: imagino ser entre 1969 e 1970.

Pode-se notar que nem mesmo a Emílio Cornelsen está traçada, embora já exista uma clareira bem no início dela.

Restaurante homenageia a Pátria Amada.

Os edifícios do Parque Pinheiros já estão sendo levantados.

Estimei esses anos porque descobri que o Colégio Loureiro Fernandes foi inaugurado em 1968.

Pelo visto antes da própria Rua Marechal Mallet ser traçada na frente dessa citada escola.

 Além de que não se pode ver o Conjunto Residencial Juvevê, inagurado em 1970 na esquina da João Gualberto com a Constantino Marochi, já quase no Alto da Glória.

Próximas 2: casas de madeira pois é Sul do Brasil. No detalhe notamos que no edifício ao fundo alguém também ostentou a bandeira brasileira.

O mais interessante dessa foto, no entanto é ver que a rápida que liga ao Centro ainda não existe.

Repare bem, a Anita Garibaldi termina na João Gualberto.

Bem em frente ao Hospital São Lucas (à esquerda na foto, ponto já tão comentado nessa matéria), e nada parece cruzar ela antes.

A Campos Sales, aparentemente, começava junto à Manoel Eufrásio.

Provavelmente a “rápida” cortou aquele mato só naquela gestão do Jaime Lerner em que os expressos começaram a rodar, ali por 1974.   ”

Próximas 4: fotos feitas a partir do Juvevê, mas mostram casas e prédios no vizinho Ahú.

…………….

Aqui se encerram os preciosos apontamentos desse colega, volto eu, O. M. . Vamos a minha resposta a ele:

A rua que divide Juvevê e Ahú não é a Emílio Cornelsen como constatastes, mas a própria Manoel Eufrásio. 

Sim, é certo que na virada pros anos 70 as ‘Vias Rápidas’ não existiam, surgiram junto com as canaletas, e não por outro motivo Lerner chamou de ‘Sistema Trinário’.

Mais uma transição. Ainda existem velhas casas de madeira (em alguns casos com a fachada em alvenaria). Mas ao fundo já vemos subindo mais um prédio baixo de classe-média.

Lembra que nos primeiros Expressos (aqueles Marcopolo Venezas e Nimbus Haraganos) vinha a flecha tripla que mostrava justamente isso, antes do ‘Cidade de Curitiba’ surgir?

E por que essa matéria se chama “Nascente da Zona Norte”? 

Repetindo o que já foi dito acima (esse emeio circulou antes da postagem, foi o protótipo dela):

Oras, porque pouquíssima gente sabe, quase ninguém na verdade, que 3 das principais avenidas da Z/N nascem no mesmo ponto.

O conjuntos Chac. Juvevê e Pq. Pinheiros (ambos no Ahú, como dito) em 2014. O prédio que veem em obras já está pronto.

A Anita Garibaldi e a Munhoz da Rocha (depois Erasto Gaertner e Monteiro Tourinho) têm seu marco zero no exato mesmo lugar.

Em frente ao Hospital São Lucas na esquina da Manoel Eufrásio com a João Gualberto.

Isso já foi amplamente analisado. Agora vamos as novidades:

Em sua primeira quadra elas quase não têm tráfego. Bem, a 1ª quadra da Anita é calçadão.

Na Chácara Juvevê, mais uma bandeira nacional. Mas a foto é em 2014, na Copa (antes do vexatório 7×1): a Zona Norte em dia de jogo do Brasil.

Aí então o fluxo de veículos motorizados é zero mesmo, excetuando o acesso as garagens.

No local há inclusive uma feira noturna as 3ªs-feiras.

Do outro lado da J. Gualberto a situação não é tão diferente assim:

A quadra inaugural da Munhoz da Rocha é uma via calma, de paralelepípedos.

Mais uma das ‘alamedas’ (ruas arborizadas) internas do Juvevê.

Ela contorna o Hospital São Lucas já tão citado. Ali os carros podem passar a vontade, mas pouquíssimos o fazem. É uma rua bem tranquila.

Se ela não fosse ladeira e nosso colega criado na Emílio Cornelsen ainda morasse na região, ele poderia até hoje jogar bola no comecinho da Munhoz da Rocha.

Agora que estou morando no Juvevê, eu me juntaria a ele: bota 4 pedras fazendo as vezes de traves, um time de camisas, outro sem, 5 vira, 10 acaba e vamos nessa!

Próximas 2: a divisa com o Ahú. Estou no Juvevê, e os edifícios mais ao fundo também. Mas os prédios em 1º plano ficam já nesse vizinho bairro.

…….

Agora, se na 1ª quadra a Anita e a Munhoz da Rocha são calmas, calmíssimas, logo a seguir a situação se altera diametralmente:

Posto que aí a Anita e a Munhoz da Rocha são a Via Rápida por pouco mais de uma quadra (uma em cada Rápida, claro), antes de embicarem em rumos  opostos.

Você sabia disso, que a Anita Garibaldi e a Munhoz da Rocha são Vias Rápidas?

Nesse caso ainda estou no Juvevê mas só aparece o Ahú na imagem.

Se sim, novamente você é a minoria, a imensa maioria desconhece esse detalhe.

A Anita Garibaldi é a Rápida que vem pro Centro, no trecho daquela descida em que no alto havia a fábrica da Tip-Top.

Já a Munhoz da Rocha é a Rápida que vai pro bairro, logo após a subida onde fica o asilo São Vicente de Paulo.

……..

Um rápido relance no vizinho Centro Cívico. Vemos na colagem, da esq. p/ dir.: 1- “Reforço Escolar” (o emeio com a foto fez sucesso!); 2- Táxi de Pomerode, Santa Catarina, em frente ao ‘Museu do Olho’; e 3- a Rua Mateus Leme agora tem sentido único, em direção ao bairro. Inauguraram o binário com a Nilo Peçanha, que volta pro Centro – quando tirei essas fotos (dez.17), estava na 1ª semana da novidade.

A João Gualberto testemunha a nascente compartilhada da Anita e da Munhoz, como já dito muitas vezes e é notório. Isso em sua última quadra.

Aquela que leva a numeração de 1770 a 1910 como a placa comprovou, enfatizando novamente.

Ao concluir essa subida, chegamos a Praça São Paulo da Cruz, onde está a Igreja do Cabral.

Pois ali é justamente a divisa entre Juvevê e Cabral.

Amanhece no Juvevê, 2014. Vemos o mesmo Hospital São Lucas (foto de autoria de um colega).

Muda o nome do bairro, a avenida permanece a mesma mas igualmente cambia de denominação:

A partir dali começa a Avenida Paraná, nome que ela manterá até a Igreja de Santa Cândida, quando se tornará a Estrada Nova de Colombo (“Rodovia da Uva”).

……….

A Zona Norte é dividida em 2 setores:

– Pilarzinho e entorno, região até 2010 atendida pela finada Viação Marechal. Ali as linhas de ônibus começam com ‘1’. Por exemplo, o Jd. Kosmos é a 169, o Primavera 171;

– Boa Vista, Barreirinha, Santa Cândida, Abranches, Bacacheri e imediações. Até a “licitação” de 2010, essa era a área original de atuação da Viação Glória.

Prédios do Juvevê num gelado “Anoitecer na Zona Norte”, junho de 2014.

Onde as linhas começam pelo ainda pelo nº ‘1’ no Abranches, mas a partir da Barreirinha com ‘2’. Por ex. o Cabral-Osório é a 201, o N. Sra. de Nazaré 280.

Um dia ainda escreverei uma matéria mostrando o sistema na numeração das linhas de Ctba e São Paulo. Mas por hora de volta a nosso tema de hoje:

Pois bem. Como dito, as linhas pro Abranches embora já fossem da Glória desde décadas ainda começam com ‘1’.

O “Céu de Curitiba” emoldurando seus espigões. Em 1º plano o Juvevê, onde estou. Ao fundo enxergamos o Alto da XV e Cristo Rei, que ficam entre as Zonas Leste e Central (confira em qual ‘zona’ fica cada um dos 75 bairros de Curitiba).

Da parte ‘2’ da Z/N, as 3 principais avenidas são Munhoz da Rocha/E. Gaertner, Anita Garibaldi e Av. Paraná.

E dizendo ainda mais uma vez, todas começam juntas, no Juvevê, a ‘nascente’ delas.

Portanto o título está plenamente justificado. Digo, as duas primeiras juntas mesmo, frente-a-frente. E uma quadra depois somente a Av. Paraná.

No caso da Anita e M. da Rocha,  sua primeira quadra é calma, sua segunda quadra é via rápida (outro fato pouco conhecido).

A partir da 3ª quadra aí sim elas tomam a forma que são conhecidas da massa. Isso já foi dito.

Esse Pôr-do-Sol no Juvevê é mais recente, de dezembro de 2017. Assim fechamos a matéria com chave de ouro.

Recapitulei pra traçarmos um paralelo com a Zona Sul, onde residi mais tempo em Ctba. (15 anos).

A Av. Brasília – que divide o Novo Mundo do Capão Razo – é exatamente assim também:

Tem a nascente pouco conhecida e também na Estrutural do Expresso, sua 1ª quadra é calma, é Via Rápida por umas quadras, depois embica pro bairro e toma sua forma conhecida.

1ª ATUALIZAÇÃO (AINDA EM DEZ.17) –

A partir dessa ao lado, e daqui até o final, nenhuma imagem é de minha autoria.

Duas que são de 2006 foram clicadas pelo mesmo camarada que mandou a panorâmica do Ahú em 1969/70 e contou um pouco a história do bairro.

Identifico quais são essas na legenda. As demais, mais antigas, ele puxou da internet.

A direita: aérea do Juvevê, 1973.

O ‘Sistema Trinário’ de Lerner (uma canaleta exclusiva do Expresso, duas pistas locais ao lado, e um binário de Vias Rápidas a uma quadra) já está pronto, ou ao menos em obras.

Av. João Gualberto, 1939. Não sei o que são essas motos, provavelmente um desfile militar – naquela época não existiam ‘moto-clubes’ como hoje.

Repare que o bairro praticamente não tinha prédios. A Rua Euzébio da Motta (1ª paralela a Rápida pela direita, pra quem vai no sentido Centro) ainda tinha trechos de terra.

Acima: estádio Couto Pereira ainda sem os anéis superiores nas curvas, mas já em uso. Foto dos anos 60.

Importante: como eu já expliquei antes, eu não torço pelo Coritiba F.C.

E nem nenhum outro time de futebolexceto o Atlético Nacional de Medelím-Colômbia.

Av. João Gualberto, 2006.

Portanto não inicie uma discussão futebolística que não é o caso aqui. Nosso foco é relembrar o passado da metrópole.

Se um dia eu tiver acesso a uma imagem antiga interessante da Baixada, Vila Capanema, Pinheirão ou qualquer outro estádio, eu publico também.

………

As imagens acima e ao lado são de 2006, e de autoria de nosso colega colaborador da página, como dito.

Eu relatei que naquele casarão funcionou uma funerária. Aqui a fachada ainda está pintada.

E a direita: a apenas 11 anos atrás (a postagem é de 17) ainda era rentável ter uma locadora, olhe o tamanho da ianque ‘BlockBuster’ na ocasião. As coisas mudam . . .

“Deu proverá”

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Khayelitsha É África: só eu e Deus na “Zona de Perigo”

Durbã, África do Sul, abril de 2017: pela 1ª vez na vida andei de camburão – mas eu não fui preso, os policias me deram uma ‘carona’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de setembro de 2017

Maioria das imagens batida pessoalmente por mim (incluso essa ao lado, dentro do camburão da polícia em Durbã – não é brincadeira nem montagem!)

Identifico na legenda o que veio da internet.

……

Galera, custou mas solto mais uma matéria. E não qualquer uma, vamos relatar minhas voltas na ‘Zona Vermelha’ da África do Sul.

África do Sul é fogo, mano!!! Não é maneira de falar. O ”Micro-Ondas” (prender uma pessoa entre pneus e incendiar), depois tão popularizado pelas favelas cariocas, foi inventado lá. Soweto, 1990, ainda no ‘apartheid’: um negro queima outro negro. Xhosas e Zulus se mataram entre si violentamente no fim do regime racista. Embora bem amenizadas, as guerras de negros x negros ainda persistem. Essas fotos em P-&-B com legendas vieram do livro “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original). Abaixo a página a capa e mais detalhes. Aqui já valeu pra abrirmos os trabalhos, pra vocês saberem com que vibração estamos lidando.

PARTE 2: DEMOCRACIA – MAS O PAÍS AINDA SANGRA

Bota ‘vermelha’ nisso. Na África do Sul a violência urbana está na estratosfera, exatamente como no Brasil.

Em 2015 a Cidade do Cabo teve mais de 2,4 mil assassinatos. São 3,7 milhões de habitantes, portanto taxa de 65 por 100 mil.

O Cabo é uma cidades mais lindas do mundo, já mostrei um pouco nessa matéria, breve subirá outra.

Mas com esses números dignos de uma guerra, também uma das mais violentas do planeta, ao lado de Fortaleza-CE e Maceió-AL no Brasil, Baltimore, Detroit e Nova Orleans nos EUA, e várias metrópoles da Colômbia, Venezuela, México e América Central.

Joanesburgo e Durbã estão um pouco menos pior. A violência ainda é altíssima, em ambas além de 30 por 100 mil.

O que as coloca próximas ou um pouco acima do que acontece em Belo Horizonte-MG, Curitiba, Porto Alegre-RS, e o Rio de Janeiro.

(Ressalto que os dados que eu tenho do Rio são de 2014, e infelizmente houve piora de 3 anos pra cá.)

Quase pousando: veja o tamanho das favelas que cercam o Aeroporto na Cidade do Cabo. Todas as casas são de zinco, as famosíssimas ‘Cidades de Lata’ sul-africanas.

Tudo somado, vemos que África do Sul e Brasil estão empatados nessa triste competição. O pânico que as pessoas sentem aqui e lá também é o mesmo.

Andei até de camburão em Durbã, e está relacionado a esse pavor da violência. Mas já chegamos lá. Vamos antes fazer uma recapitulação de como a coisa atingiu nesse ponto:

O ‘apartheid’ oficialmente durou de 1948 a 1994, menos de meio século. Mas na prática 1 século inteiro.

Desde que os brancos pisaram lá, em fins do século 19, existiram leis que proibiam os não-brancos (negros, indianos, chineses) de ocuparem cargos públicos e no clero.

Outra favela da Cidade do Cabo, agora ao nível do solo: um ‘duplex’ de latão.

Em alguns lugares os não-brancos não podiam nem mesmo usar as calçadas, tinham que andar pelo meio das ruas dividindo espaço com os carros.

E numa república africâner (o Estado Livre Laranja, holandês, que depois virou um estado da África do Sul quando os ingleses invadiram) os indianos não podiam sequer residir. O Estado era ‘Livre de Indianos’.

Somente pra eles atravessarem o estado de passagem já era necessário um visto especial.

Favela em Soweto, Joanesburgo, no mesmo modal. Atrás uma cohab que já visava urbanizar o bairro, mas novas invasões tornam a missão ‘o Trabalho de Sísifo‘. Mais pra baixo na página veremos mais fotos desse local. Imagina como é morar numa casa de metal com teto baixo, sem forro e sem janelas. Um pouco quente no verão, será? Quase um ‘micro-ondas’.

Inclusive foi por causa disso que Gandhi (sim, ‘aquele’ Gandhi) viveu 21 anos na África do Sul.

E ali começou sua militância – o plano inicial era ficar apenas uns meses e não se envolver com política.

Mas ele se envolveu porque já havia ‘apartheid’, embora sem esse nome.

Nesses 3 exemplos acima estou falando da virada do século 19 pro 20, meio século antes do ‘apartheid’ oficial portanto.

Claro, depois que esse veio, aí tudo piorou de vez.

Aqui e a esquerda: ‘Cracolândia’ nos trilhos de trem no Centrão de Durbã. Os nóias já moram nessas barracas, é a ‘Cohab da Droga’.

Contei essa história com muito mais detalhes em matéria específica. Aqui o que nos importa é: por todo século 20 os negros (e também os indianos) resistiram ao regime racista.

Nos anos 60 o CNA (Congresso Nacional Africano) iniciou uma ofensiva capitaneada por Nélson Mandela.

Os ‘robozinhos’ saem de buracos nas paredes, como ratos.

Mas logo esse grande líder (que depois viria a ser o primeiro presidente negro sul-africano) foi preso, junto com outros cabeças da resistência negra.

Assim a primeira metade dos anos 70 foi calma. Uma calma injusta, óbvio, os negros como escravos em sua própria terra.

Paz sem voz não é paz, é medo”, como alguém bem definiu.

Klaarwater, Grande Durbã: na maior parte das favelas sul-africanas não há qualquer saneamento, as casas não têm água, que precisa ser buscada numa bica na entrada da favela – Lata d’Água na Cabeça.

Em 1976 explode a ‘Revolta Estudantil de Soweto’, Joanesburgo. A partir daí a África do Sul nunca mais se acalmou.

E já se vão 41 anos no momento que levanto essa matéria pro ar. Em 1984 nova revolta eclode. Assim, na segunda metade dos anos 80 a coisa explode de vez.

O ‘apartheid’, na pessoa do presidente P. W. Botha, abole algumas leis racistas, como por exemplo a que proibia casamentos inter-raciais, e a que impedia negros de possuírem casas na maior parte do território sul-africano.

Também Durbã (essa via ‘Google Mapas’): aqui fica claro, a torneira pro pessoal pegar água. Em verde os banheiros químicos, aqueles que no Brasil são alugados pra obras. As favelas da África do Sul não têm redes de saneamento básico, enfatizo outra vez, então colocam isso aí como paliativo, pra não ser ao ar-livre mesmo. E o esgoto correndo a céu aberto.

Em compensação, o regime racista parte pra ofensiva total contra a resistência negra.

Internamente milhares sobre milhares de ativistas são presos e severamente torturados, dezenas ou mesmo centenas assassinados.

Externamente, a Força Aérea Sul-Africana bombardeia vários países vizinhos, que abrigavam células de grupos políticos banidos na África do Sul.

Mas não adianta nada, a hora chegara. Em 1989 Botha, o “Grande Crocodilo” como era chamado, é afastado, por problemas de saúde.

Voltam as tomadas de minha autoria. Favela em Soweto, Joanesburgo. Novamente em verde os banheiros químicos.

Assume em seu lugar Frederico De Klerk (eu aportugueso os nomes sempre que possível, lembre-se). Ele inicia o desmantelamento do ‘apartheid‘:

Solta Mandela e vários outros presos políticos, legaliza os sindicatos, partidos e demais organizações negras, e prepara o caminho pra democracia.

Ainda Joanesburgo, mas agora na Zona Central: atrás da garagem da Metrobus, mais uma favela – de novo os banheiros químicos em verde.

A extrema-direita dos brancos racistas reage, e inicia uma campanha de terrorismo pra frear a abertura.

De Klerk, pra não levar a culpa sozinho caso a nação fosse esfacelada num banho de sangue, consulta a população num plebiscito (exclusivo pra brancos) se a transição deve continuar.

Felizmente a maioria dos brancos sul-africanos estavam cansados do ‘apartheid’, e referenda nas urnas a iniciativa de De Klerk.

No Centrão de Joburgo há muitos prédios vagos – vários deles invadidos, como esse aqui.

Assim o processo segue, e culmina na eleição de Mandela pra presidente em 1994.

Tudo isso já contei com mais detalhes antes, repetindo. O que é relevante pro nosso tema de hoje:

Na virada pros anos 90 os negros perdem a paciência de vez, e também partem pra ofensiva final.

Intensificam as ações políticas pra queda do ‘apartheid’, o que é excelente e justíssimo, óbvio.

Esse prédio popular (varais no teto, tradição sul-africana) também é atrás da garagem de ônibus.

É cristalinamente evidente que um povo oprimido tem todo o direito de lutar pra romper seus grilhões.

Porém há um efeito colateral: no ano de 1990 os negros iniciam uma guerra entre si. A África do Sul tem diversas tribos africanas na composição de sua população.

Basta dizer que são 11 línguas oficiais, o inglês e o africâner (dialeto do holandês) de origem europeia, as demais 9 são africanas nativas (todas elas agora representadas no dinheiro da nação).

Próximas 2: pedintes no Centro de Durbã. 90% dos sem-teto sul-africanos são negros. Nesse sinal haviam vários, mais alguns na transversal, mesmo sob chuva. Sejam da raça que forem, os que pedem esmola nos faróis do país sempre fazem esse mesmo gesto com as mãos juntas, dizendo ‘pelo Amor de Deus me ajude!’.

Então são várias etnias de negros. Mas as duas principais são o Zulu e o Xhosa.

E na reta final do ‘apartheid’, os negros compreensivelmente estavam no limite, por isso zulus e xhosas iniciam uma guerra uns contra os outros.

Sim, negros contra negros. A coisa foi muito sangrenta.

Houveram fins-de-semana em que os mortos se contaram as dezenas em cada uma das muitas favelas de Joanesburgo e demais cidades do país.

Embora minoria, há sem-tetos caucasianos na África do Sul. Em todas as cidades, mas notadamente em Durbã, onde vi vários, fotografei esse. A definição não ficou das melhores pois cliquei de um ônibus em movimento, e que ainda tinha película nos vidros, escurecendo a cena. Mas amplie e observe com cuidado e lerá que o cartaz dele inicia-se com “Please Help…”.

Sim, os negros também combateram as tropas do ‘apartheid’, óbvio. Mas igualmente se combateram entre si, encarniçadamente.

Eu não conhecia os detalhes dessa história, se quer saber. Mas no apartamento que eu fiquei em Joanesburgo havia um livro, chamado “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original).

Foi escrito por 2 fotojornalistas. Eles e outros 2 cobriram a guerra na África do Sul nos últimos 4 anos do ‘apartheid’ (1990/1994).

Um deles foi morto com um tiro exatamente no meio dessa guerra, com um tiro numa rua de Joanesburgo, em 1994.

Outro se afastou, se eu não me engano acabou se suicidando, não tenho certeza. O fato que ele saiu do grupo.

Sobraram 2, que escreveram o livro, publicando fotos de autoria dos 4 que trabalharam juntos no período crítico.

Eu não pude ler o livro, não houve tempo. A obra é extensa, e fiquei apenas 4 dias nesse apê, andando pelas ruas quase o tempo todo.

Se eu fosse dedicar o tempo necessário pra apreciar esse relato, não poderia eu mesmo ter feito minhas próprias investigações de campo.

Paciência. Se um dia achar esse livro no Brasil, ou na internet, o lerei. Lá na África não teve como. Mas eu fotografei as imagens mais impactantes, e as reproduzo aqui.

Uma imagem que correu o mundo (também do livro). Março de 1994: grupo da extrema direita foi se intrometer no regime de um bantustão. Esses 4 Homens foram executados pelas tropas do bantustão. 3 já estão caídos sem vida, mas o último ainda implora misericórdia, em vão.

Por essas chocantes cenas nós captamos o grau de ferocidade que foi liberado nas ruas sul-africanas no ocaso desse regime racista que jamais deveria ter existido pra conversa começar.

Muito sangue correu, tanto no enfrentamento de negros contra brancos, como dos próprios negros entre si.

O choque político entre as raças não existe mais. O ‘apartheid’ acabou. Os negros estão no poder político.

E uma porção significativa da população nativa de pele escura ascendeu a burguesia, há hoje bairros de elite habitados majoritariamente por negros.

No entanto as favelas ainda são 100% negras. Ou 98%.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo: assim é a reciclagem na África do Sul. Não há separação prévia, tudo é jogado junto, reciclável junto com lixo de cozinha e banheiro. Alguns infelizes miseráveis, que dependem disso pra sobreviver, têm que abrir as lixeiras, separar o que recicla (veja o grande saco branco aberto atrás dele, é ali que ele joga o que vai aproveitar), e fechar de novo. Digo, em alguns bairros ricos há coleta seletiva com separação prévia, mas é raro. No geral é como veem aqui.

Há algumas favelas formadas por brancos, mas são raríssimas. No geral elas são quase sempre reservadas aos de pele escura.

Compõe o problema que a África do Sul, sendo o país mais desenvolvido da África, recebe imigrantes ilegais de todo continente.

A convivência entre estrangeiros e sul-africanos nem sempre é pacífica, criou-se aí mais um foco de tensão de negros x negros.

A classe média é integrada, desde a classe média-baixa até na média-alta há negros e brancos (em Durbã também indianos).

A elite ainda é majoritariamente branca, e há sim brancos pobres (especialmente na Cidade do Cabo), embora minoria.

Ou seja, os brancos sul-africanos ainda detém grande parte dos privilégios econômicos que amealharam em um século de hegemonia tirânica.

Próximas 2: orla da Zona Sul da Cidade do Cabo (a “Riviera”). Um lugar belíssimo, mansões de milionários espremidas entre o morro e o mar. É de cair o queixo de tão lindo!, confira esse ensaio. Várias casas têm seu teleférico particular, é mole ou quer mais?

Ainda assim, a população branca sul-africana vem diminuindo, vários estão emigrando pra diversas partes da anglosfera (EUA, Inglaterra, Austrália).

Seja como for, criou-se uma acomodação entre negros e brancos. Malgrado a tensão política, não há derramamento de sangue atualmente.

O mesmo não se pode dizer entre os próprios negros. Entenda, não é uma questão racial, e sim social.

Não estou sendo racista, e dizendo que o branco é mais pacífico, exatamente o contrário é verdadeiro.

Mas a concentração de renda é altíssima. A mesmo cena, rapaz negro revira o lixo em busca de algo reciclável pra revender.

Primeiro, a raça branca é quem comanda o capitalismo global, e é a raça branca quem mata milhões em suas guerras de pilhagem mundo afora.

Apenas no Iraque foram mais de 2 milhões de mortos contando desde 1991 (alguns falam em 3), e no Vietnã mais de 4 milhões, pra citar apenas 2 guerras de agressão dos EUA.

Segundo, os brancos já se mataram muito entre si, na Europa e em toda parte. A história da Europa é de grande derramamento de sangue, até a Segunda Guerra Mundial.

Próximas 3: veremos 3 favelas diferentes em Soweto, Zona Oeste de Joanesburgo.

Apenas nas últimas décadas os europeus se acalmaram um pouco e não se matam tanto entre si.

Agora dirigem suas baterias contra países mais fracos que não podem se defender, como fizeram com a Líbia em 2011.

Além disso, no Sul do Brasil é sabido que  a periferia das grandes e médias cidades têm enorme contingente de euro-descendentes.

Observe as pedras pro telhado não voar com o vento, manifestação universal que eu também fotografei na Argentina (breve no ar).

E ali brancos matam brancos com a mesma frequência que negros matam negros na África do Sul.

O mesmo ocorre nos EUA, milhares de caucasianos são assassinados todo ano por outros caucasianos.

No passado, brancos guerrearam entre si de forma absolutamente brutal, na Europa e também na África.

Ainda Soweto. A frente uma invasão, as casas ao fundo não pertencem a favela. Destaquei o painel solar. Na África do Sul a reciclagem ainda engatinha. Em compensação, o uso de energia solar é mil vezes mais desenvolvido que no Brasil. Mesmo a periferia, mesmo na borda da favela.

Se alguém não sabe, foram os ingleses quem inventaram o campo de concentração. E inventaram na África do Sul, prendendo os holandeses na ‘Guerra dos Bôeres’.

Prendendo os civis, eu digo. Homens não-combatentes e Mulheres. A mãe de P. W. Botha (penúltimo [e ultra-racista] presidente branco sul-africano) foi encarcerada pelo Exército Britânico num campo de concentração.

Mesmo sendo do sexo feminino e não tomando parte nos combates. Ao lado dela foram outras dezenas de milhares.

Mesmo na África do Sul contemporânea, os brancos ainda cometem assassinatos entre si. Quando estava na Cidade do Cabo, a mídia sensacionalista deva grande destaque ao julgamento de um sul-africano de ascendência europeia.

Ele era acusado de ter chacinado toda sua família – com golpes de machado, nada menos. O para-atleta caucasiano sul-africano André Pistorious também foi condenado e preso por matar sua igualmente alvíssima namorada.

Próximas 10: vamos mostrar Atlântida (‘Atlantis’ no original). Uma cidade pequena e pobre. Ainda pertence a região metropolitana da Cidade do Cabo, mas é bem distante, são 40 km, é preciso pegar mais de 1 hora de estrada. Começo mais uma vez destacando o painel solar. Na África do Sul usar a energia do Sol não é brincadeira de burguês, quase um passatempo de de gente rica. Não. Veja a imagem, uma casa simples, na periferia de um subúrbio afastado e esquecido. Ainda assim, utilizando esse modal.

Escrevi todos os parágrafos acima pra mostrar que não, eu não sou racista. Não estou dizendo que os de pele clara são pacíficos ou civilizados, e que os de pele escura são brutalizados por serem instintivos.

É uma questão social, e não racial. Onde brancos habitam em grande número as favelas, se matam entre si em profusão, por exemplo aqui em Curitiba.

E nos bairros negros da alta-burguesia, na África do Sul ou toda parte, os homicídios são raríssimos quando não inexistentes.

Claro, também não estou dizendo que quem tem dinheiro é mais evoluído espiritualmente, porque o contrário geralmente é que é verdadeiro.

Quem acompanha meus textos há mais tempo sabe muito bem o que penso das Oligarquias, a ianque e todas as outras.

Apenas é um fato, os barões oligacarcas muitas vezes eliminam outros seres humanos, mas rarissimamente o fazem com as próprias mãos.

Periferia típica sul-africana (muito parecida com a do Paraguai). O carro é Golf, já falo mais disso

Podemos discutir filosoficamente as razões disso, mas não podemos negar que é assim.

As vezes acontece, recentemente os casos Nardoni e em 1988 o da ‘Rua Cuba’ no Brasil e o próprio Pistorious na África do Sul são as exceções que confirmam a regra.

Com essas poucas exceções, os bairros ricos e de classe média-alta quase não têm assassinatos, no continente do mundo que forem e habitados por qualquer raça.

Esses muros pré-moldados fazem sucesso lá. No Brasil idem. No bairro que fui criado (Santa Cândida, Z/N de Ctba) haviam casas que utilizavam.

Enquanto que as favelas e guetos são quase sempre violentos, em toda parte e independente do tom de pele majoritário.

……….

Desculpe toda essa justificativa, é só pra que não tenham a impressão errada e achem que sou racista ou qualquer coisa do tipo. Eu não sou. Apenas analiso os fatos. E os fatos são:

As favelas e periferias da África do Sul estão imersas em um banho de sangue.

Casa nº 64. A próxima a esquerda é a 62, e a 1ª a direita é a 66. Na África do Sul a numeração é diferente do Brasil. Bauru-SP segue um sistema único (também adotado na Colômbia), em que as quadras são numeradas, e aí as casas são contadas em relação a quadra e não a rua. Brasília-DF também criou um novo modal, digamos até um novo paradigma, pois Brasília é uma cidade peculiar em múltiplas dimensões. Mas no geral no Brasil as moradias são numeradas conforme a metragem da rua ou avenida. Na África do Sul é diferente, repito. De um lado da rua são as pares, do outro ímpares. Isso é igual no Brasil. Mas na África do Sul a numeração não segue metragem. A 1ª casa do lado ímpar é a ‘1’, depois vem a ‘3’, a seguir a ‘5’, e assim vai. Idem na outra face: a primeira casa é ‘2’, sua vizinha é a ‘4’, etc. Pra fechar esse tema, revelo que minha rua, a ‘Ciclovia’, segue o modelo sul-africano. Mas aqui é ocupação irregular (Canal Belém, Boqueirão), logo a numeração também é irregular.

O que começou como uma rebelião contra o ‘apartheid’ rapidamente desandou pra um violento acerto de contas entre as tribos negras, processo que embora amainado ainda não terminou.

Some-se a isso a violência comum, “que não envolve política”. Entre aspas porque todo processo social é político.

Quando países como África do Sul e Brasil (e boa parte da América Latina e também dos EUA) se tornam extramente violentos, as causas são políticas, e a solução também o será.

Mas por “não envolver política” eu digo por não envolver grupos e objetivos políticos, apenas quadrilhas comuns brigando por butins ou territórios.

Ou então cidadãos trabalhadores mas que quando embriagados/drogados matam suas esposas ou outros Homens no bar por motivos fúteis.

O resultado é esse aqui: Cidade do Cabo, 2.451 homicídios em 2015. Com uma população de 3,7 milhões, dá 65 mortes/ano por 100 mil moradores. Índices de guerra.

Nesse caso é a população da ‘prefeitura metropolitana’. A divisão política da África do Sul é diferente da nossa, lá há 4 esferas de governo, e não 3 como aqui.

O que seria o ‘condado’ dos EUA na África do Sul tem sua própria gestão, a ‘prefeitura metropolitana’ que citei acima.

Joanesburgo, 4,4 milhões, teve 1.344 mortes intencionais no mesmo ano, 30 por 100 mil.

Nesse caso não inclui toda região metropolitana, pois a Grande Joanesburgo já tem quase 10 milhões, bem mais de 8 com certeza.

O governo entregou uma casa de cohab, de alvenaria. O cara faz por conta no fundo um ‘puxadinho’, de papelão e madeirite.

Durbã teve 1.237 assassinatos no período. Com 3,4 milhões na ‘prefeitura metropolitana’ de eThekwini, temos 35 pra 100 mil.

(Nota: eis o nome nativo pra ‘Durbã’, assim mesmo, com a inicial minúscula e a letra maiúscula no meio da palavra, obviamente a gramática zulu é bem diferente da ocidental.)

Todas as grandes cidades sul-africanas são bastante violentas. Vou analisar só as 3 maiores. Vejamos como a coisa oscilou no decorrer das últimas décadas.

Há 3 termos pra dizer ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’ na África do Sul: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’. Outro detalhe: a Coca-Cola é oni-presente no país. Seu logo está em 90% das fachadas dos mercadinhos, mas não apenas isso. Seu braço é tão comprido que mesmo várias floriculturas, farmácias, enfim, estabelecimentos que não vendem alimentos como atividade principal, têm seu letreiro pago pela Coca-Cola. Falo melhor dos refris, incluso com fotos, em outra postagem (breve).

Primeiro, houve uma reversão de polaridade. Historicamente, entre as 3, Joanesburgo sempre foi a mais violenta, desde a era do ‘apartheid’.

E a Cidade do Cabo a mais calma. Agora houve uma inversão, como vimos.

Durbã, por outro lado, estava em segundo antes, e se mantém. As pontas é que trocaram de lado.

E crítica como a coisa está, já foi pior. A virada dos 80 pros 90, o apagar das luzes do ‘apartheid’, marcou a explosão da violência, que se manteve e se acentuou no mandato de Nélson Mandela.

Quando virou o milênio, Durbã tinha mais que o dobro, quase o triplo da violência atual. Chegou a registrar 80 assassinatos por 100 mil habitantes.

Ou seja, está crítico mas já foi muito, mas muito pior, calamitoso no sentido exato do termo.

Ainda estamos em Atlântida, próximo a Cid. do Cabo. Vamos ver agora as cohabs em pombais, que são muito comuns lá. Nesse caso, como o teto é com telhado e não com laje, o varal é no chão.

A mesma redução se deu em Joanesburgo. Já o Cabo ainda está por dar esse passo, ali a violência está no pico, infelizmente.

………

Comparemos com o Brasil, nesse caso os dados são de 2014:

Fortaleza, com 1.989 homicídios, tristemente ocupou o triste recorde de município mais violento do Brasil, em termos absolutos.

Proporcional a população, 73 por 100 mil, pior que a África do Sul.

Puxadinho no prédio, como também fazem no Chile.

Maceió é um pouco menos pior, 69/100 mil. No ano anterior fora mais sinistro.

Em 13 a capital de Alagoas teve nada menos que a pavorosa taxa de 81 assassinatos pra cada 100 mil habitantes.

Salvador em 14 teve 1.397 casos. Como a população é bem maior que a de Fortaleza, ficou em 48 por 100 mil.

Aqui fechamos Atlântida, na Gde. Cidade do Cabo. Muito, mas muito parecido com o Chile, me senti de volta em Maipú, Z/O de Santiago.

Em 2013 a capital da Bahia havia virado acima de 50.

Em São Luiz do Maranhão em 2013 foram quase 70 mortos por 100 mil habitantes, em 14 houve boa redução pra 61.

Ainda assim, apenas um pouco a menos que o aquilo que a Cidade do Cabo teve no ano seguinte.

Segura essa: clínica alerta contra “falsos médicos vendendo pílulas na rua e dizendo que trabalham aqui“. Em pleno Centrão de Joanesburgo. Isso também é a África do Sul, amigos!

Em Curitiba em 2014 houveram 30 mortes por 100 mil moradores. Índice altíssimo, apenas um pouco melhor que na África do Sul. Mas que já foi bem mais macabro.

No ano de 2010 Curitiba teve 979 assassinatos, o que fez com que o número por 100 mil ficasse em 55 (breve levanto pra rede levantamento detalhado desse desastroso período):

Atrás apenas de Maceió, João Pessoa-PB, Vitória-ES, Recife-PE e São Luiz.

Alias Maceió em 2010 virou acima de 100 por 100 mil, ou seja, eram tantas mortes lá que de cada mil maceioenses mais de um foi assassinado naquele ano.

Até a Força Nacional Federal teve que intervir pra baixar um pouco essa carnificina.

No Sudeste, Belo Horizonte teve 24 de seus moradores assassinados pra cada grupo de 100 mil em 2014, no Rio foram 20.

Sem-tetos dormem pelas ruas e praias do país. Na orla do Cabo uma Mulher branca, os demais africanos nativos.

Embora lamentavelmente na capital carioca tenha havido novo aumento de lá pra cá.

E São Paulo hoje é a capital menos violenta do Brasil, pelo menos no quesito de um ser humano tirar intencionalmente a vida de outro.

Foram 1.360 desses crimes em 2014. Mas divididos por 11 milhões de habitantes vemos que o índice é 11 por 100 mil, número que não faria feio na Europa.

Bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo, onde ficamos hospedados. Logo atrás de onde dorme o sem-teto da foto anterior mora uma família que mostra solidariedade a Palestina. Pelos negros sul-africanos (e também os indianos) terem sofrido por tanto tempo o ‘apartheid’, em várias partes há protestos pela forma com que Israel trata os palestinos. Organizações sionistas contra-atacam e espalham cartazes dizendo que Israel é “democracia”.

Nota: eu sei, em termos de roubos a maior metrópole brasileira continua violentíssima. Eu sei. Aqui falo somente do quesito de assassinatos.

Não é agradável quando alguém lhe tira seus bens de forma violenta – definitivamente não é.

Ainda assim é óbvio que ter a oportunidade encarnatória interrompida violentamente é bem mais traumático.

Então embora falte muito por fazer, precisamos reconhecer que pelo menos nesse ponto importantíssimo houve avanços.

Não apenas em São Paulo, diversas cidades brasileiras hoje estão mais calmas em relação aos anos 90 e 2000, mas SP teve a maior redução.

A capital paulista já teve 5 mil assassinatos por ano, hoje fica pouco acima do 1º milhar.

Bem, teve menos assassinatos que Durbã, cuja população é mais de 3 vezes menor.

……….

Brancos no Centro do Cabo, onde eles são muito comuns. No Centro do Durbã e Joanesburgo não há caucasianos. Simplesmente não há.

Portanto essa é a situação. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste Brasileiros são violentos, mas um pouco melhores que a África do Sul.

Enquanto que o Norte e Nordeste de nossa pátria têm no geral índices similares as maiores metrópoles sul-africanas.

Curiosamente, hoje a periferia da Cidade do Cabo é bem mais sangrenta que as de Durbã e Joanesburgo. Mas seu Centro é mais civilizado.

A Cidade do Cabo é cidade mais integrada da África do Sul. No Cabo você brancos aos montes no Centro. Aos montes.

Fotografei uma viatura no Centro de Durbã. Vejam o que é o ‘6º Sentido’: já visitei centenas e quem sabe milhares de cidades em boa parte do Brasil, vários países da América e agora África. Nunca havia fotografado um carro de polícia, porque esse não é um tema que me interesse estudar. Em Durbã, o fiz. Mal sabia eu que 2 dias depois estaria dentro de um deles, coisa que igualmente nunca havia me ocorrido. Digo, eu não sabia conscientemente, mas de alguma maneira, em outra dimensão, eu sabia, e por isso houve a foto. É possível prever o futuro, não?

Não apenas o brancos ainda moram no Centro, como também trabalham ali, e não têm medo de sair as ruas.

Em Pretória, ainda que em escala menor, a situação se repete. Retratei na foto acima a direita.

Já em Joanesburgo e Durbã é completamente o oposto. Não há brancos nos Centrões de Joanesburgo e Durbã. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Logicamente toda regra tem exceção. Se você for muitas vezes ao Centro dessas metrópoles, muito de vez em quando você vai trombar com um euro-descendente, é evidente.

Vai acontecer, não é proibido, então a norma não é absoluta. Mas será raríssimo, é mais fácil você achar uma nota elevada de dinheiro que uma família de brancos no núcleo central dessas metrópoles.

Digo, há alguns sem-teto brancos, especialmente em Durbã. A imensa maioria dos sem-tetos sul-africanos são negros, eu diria que 95%.

Não deu outra. Aqui estou eu, pela 1ª vez na vida dentro de uma jaula. Mais abaixo no texto dou os detalhes.

Porém há alguns caucasianos. Fotografei uma Mulher sem-teto que dormia numa praia da Cidade do Cabo, viram acima.

Mas, digo ainda mas uma vez, em Durbã foi a cidade que mais vi moradores de rua euro-descendentes, de pele alva. Vários.

Inclusive eu andava por uma rua da parte barra-pesada do Centrão de Durbã, e um sem-teto branco, sem que eu pedisse, veio me orientar:

Os sul-africanos são muito calorosos, e gostam que tirem fotos deles. No Centro de Pretória, quando essa moça viu que eu clicava a cidade, pediu que eu registrasse seu retrato, situação que se repetiu em Durbã e Joanesburgo. Atrás dela a vitrine mostrava vestidos de noiva. Ela disse “aqui não, porque eu já sou casada”. Demos uns passos pro lado e “1, 2, 3, diga ‘xis’ “, e aqui está ela, fazendo poses com as mãos e tudo mais.

“Não entre nessa rua, é muito perigoso”, ele apontou numa direção na esquina. “Muito perigoso”, enfatizou.

Além dele, vi outros mendigos caucasianos nessa cidade, um deles morava sob as marquises no mesmo bairro que ficamos.

Claro, mesmo em Durbã a imensa maioria dos que não têm casa são negros. Apenas ali há uma minoria significativa de brancos, que não vi nas outras cidades.

Isso estou falando de moradores de rua. Eles são (praticamente) os únicos brancos no Centrão de Durbã.

As praias de Durbã são plenamente integradas, negros, brancos, indianos, todos estão ali, incluso há casais inter-raciais.

Estava num restaurante da orla de Durbã, e era curioso. Nas próximas 4 mesas haviam 2 famílias de negros, 1 de brancos e 1 de indianos.

Nas areias, dentro d’água e no calçadão todos convivem em plena harmonia.

Fotografei a direita uma escola particular que levou seus alunos de pele alvíssima pra uma aividade a beira-mar.

Mas no Centrão, só negros e indianos, nenhum branco (exceto sem-tetos, aqui não me refiro a eles).

Joanesburgo não tem mar, então não vi nenhum branco no Centro, nem mesmo dormindo nas ruas.

Comércio atendendo gradeado em Joanesburgo. Mesmo de dia, mesmo no Centrocomo na Colômbia (nota: a cliente tinha um defeito físico na cabeça, por isso ocultei ainda que ela estivesse de costas).

E, sim, boa parte do Centrão de Joburgo está bem detonado, ali nem os negros de classe média vão, só a ralé.

Vou explicar pra vocês entenderem. O Centrão de Joanesburgo pode ser dividido em 2 partes, Centro Velho e Centro Novo.

O Centro Velho é horroroso. Um gueto enorme. Muito lixo nas ruas, muito crime, forte cheiro de urina em algumas partes, casas e prédios abandonados, vários deles invadidos.

Camelôs, confusão total. Ali, repito, nem mesmo os negros que são de classe média têm coragem de frequentar. É só povão mesmo, muitos deles nem são sul-africanos:

Por toda Soweto essas placas de rua contam a história do ‘apartheid‘. Amplie pra ler, o nome (acrônimo de ‘South-Western Township’, algo como ‘Assentamento Sudoeste‘) foi escolhido em 1963 após um debate de 4 anos. Em 68 decidiram que as Mulheres não poderiam ser proprietárias de casas. Não pude ler ou fotografar mais porque não andamos a pé em Soweto, fomos de ônibus urbano normal, sem qualquer guia ou acompanhante, mas nem saímos do terminal, dali retornamos ao Centro. Essas foram as que consegui clicar do veículo em movimento. Pude ler de relance que outra placa dizia “Um lugar onde se passava fome”.

Nigerianos principalmente, mas imigrantes também de vários outros países africanos tomaram conta de vários quarteirões pra si.

Em muitas ocasiões a convivência com os sul-africanos não é pacífica, diversas campanhas contra a xenofobia tentam pacificar os ânimos, nem sempre com sucesso.

Já o Centro Novo de Joanesburgo é limpo e civilizado. Hotéis, restaurantes e comércio sofisticados garantem uma freguesia requintada:

Homens e Mulheres em roupas e carros caros. Ali, os camelôs são proibidos, e os garis deixam ruas e jardins impecáveis.

Mas mesmo nessa parte agradável e mais segura não há brancos, só negros.

Aqui e a direita, catadores de material reciclável. Esse em Soweto, Joanesburgo – a frente dele as oni-presentes vans, quase todas são brancas e Toyota como essa.

E não é que não existam brancos na Grande Joanesburgo. Ao contrário, são 1,5 milhão de Homens e Mulheres de ascendência europeia.

Isso se você aceitar a cifra de 10 milhões de habitantes, que eu acho que é correta.

É que os brancos de Joanesburgo se impuseram um auto-‘apartheid’:

Vivem e trabalham nos subúrbios a moda ianque nas Zonas Norte e Leste da cidade, deixando o Oeste, Sul e o Centro pros negros.

Mesma cena em Pretória, catador de lixo perto de van Toyota branca. Embora ali essa marca também predomine, em Pretória – e somente em Pretória – há expressiva minoria Volkswagen, curiosamente cliquei 2 da mesma cor.

(Nota: não muito diferente dos brancos de Acapulco. Os ricos – única classe social que os brancos são maioria no México – moram e trabalham nos subúrbios próximos ao aeroporto. 

Acapulco é uma baía cercada e portanto emoldurada por uma serra. A elite mora ‘do outro lado do morro’, e jamais cruza a montanha.

Pra não se misturar com o povão, que tem pele bem escura mas não como afro-descendente, e sim índios, amero-descendente.)

Cracolândia no Centro de Durbã – ao perceber minha atividade jornalística, um noiado correu até mim e intimou: “Ei, ei, por quê essas fotos? Qual o problema?” Rapidamente lhe dei alguns trocados e ele se acalmou.

Atravessamos o Oceano de novo, de volta a Joburgo. Não por acaso SoWeTo’ é a sigla em inglês pra ‘South-Western Townshp’ (Assentamento Sudoeste).

Pois no ‘apartheid’ o Sul e o Oeste eram onde moravam os africanos nativos.

Mas na época do regime racista, os brancos trabalhavam no Centro, pois a polícia altamente militarizada ‘mantinha os negros no seu lugar’.

Depois da democratização essa intensa repressão não foi mais possível, os negros tomaram posse de suas cidades e passaram a usufruir mais o Centrão.

Antes eles trabalhavam ali, mas qualquer aglomeração de negros fora do local de trabalho era debandada de forma rápida pelas forças de segurança. Agora os africanos nativos são livres pra circularem e se associarem onde e como quiserem. Em ‘retaliação’, hoje são os brancos quem não pisam mais por ali.

Sim, com a ascensão de uma recém-surgida alta-burguesia negra, as mesmas divisões de classe surgiram dentro da raça negra:

Também Centrão de Durbã. A África do Sul está num movimento de substituir os nomes de rua europeus por africanos. Nessa esquina os dois logradouros já cambiaram: a “Doctor Pixley KaSeme Street” é a antiga ‘West St.’. Cruzando aqui com a “Dorothy Nyembe Street”, que antes se chamava ‘Gardiner St.’

Os mais ricos ficam de um lado do Centro, os mais pobres junto com os imigrantes de outros países da África de outro.

A cor da pele pode ser a mesma, mas como a classe é diferente, fica cada um na sua, num ‘mini-apartheid’ interno.

Mas em relação aos brancos a divisão espacial é ainda mais acentuada. Se entre negros pobres e ricos cada um fica no seu lugar no Centro, os brancos não vão mais ao Centro, enfatizo ainda mais uma vez.

Os brancos atualmente trabalham em Sandton, um subúrbio da Zona Norte a moda ianque que é o ‘Novo Centro’ de Joburgo, ao menos pros de pele clara.

Evidente, há negros em Sandton também, agora não se pode mais impedir a entrada deles em qualquer parte. Mas ali ainda há maioria branca.

No Centro de Pretória esse movimento fica ainda mais evidente. Risca ‘Church St.’, não existe mais. A via agora se chama “Stanza Bopape St.”. A transversal é a Rua Steve Biko. Como nessa a mudança é mais antiga as pessoas já assimilaram, não existe a denominação anterior. Mas obviamente essa via (que já existia, é antiga pois estamos bem no Centrão) não tinha esse nome no tempo do ‘apartheid’, uma vez que Steve Biko era inimigo do regime, alias foi severamente torturado e morreu em consequências dos ferimentos que sofreu nas delegacias da polícia política racista (‘SAP’) sul-africana.

No Centrão, seja na parte limpa ou na suja, não há brancos, digo de novo pra encerrarmos Joanesburgo. Agora, no Centrão do Cabo há, e aos montes.

Pelo que lhe falei, Joburgo e Durbã são segregadas. Não legalmente, e agora invertido. Os brancos podem ir ao Centro se quiserem, mas preferem ‘não, obrigado’.

Viajei por via aérea de Joanesburgo a Durbã. No avião e no aeroporto, os brancos eram maioria.

Pois entre a classe média-alta nessas duas cidades os euro-descendentes ainda são maioria, embora não mais oni-presentes como antes.

Apenas optaram pela auto-segregação. ‘Consciência pesada deles’, me disseram os negros quando perguntei do tema.

A Cidade do Cabo não é segregada, disse tudo isso pra chegar a esse ponto.

Os brancos não apenas trabalham no Centro, como transitam sem medo pelas ruas. Mais: eles ainda moram nas imediações.

De volta a Durbã. Na Zona Central da cidade há esse centro administrativo que congrega diversas secretarias municipais. Antigamente na ‘Rua do Forte Velho’, que homenageava a fortaleza construída pelos ingleses, que lhes ajudou a vencer várias guerras contra os holandeses e os negros. O prédio continua no mesmo lugar, mas a avenida agora se chama “K. E. Masinga Rd”. Outro detalhe é idioma. Notam que a construção pública, da época do ‘apartheid’, era bi-língue em inglês e africâner. Porém depois da democratização baniram o africâner de Durbã, toda comunicação visual é em inglês e zulu. As placas antigas permanecem, mas nas novas não existe mais africâner, reitero. Um ‘apartheid’ invertido, antes o africâner era compulsório, o zulu banido, agora é ao contrário. Não precisa proscrever uma pra outra entrar, a comunicação poderia ser tri-língue, inglês, zulu e africâner, contemplando a todos. Alias, o semáforo em frente a esse prédio é assim, a única placa tri-língue que vi em toda Durbã, além da fachada de um quartel do exército.

Coloco isso porque os brancos vão as praias do Centro de Durbã, mas não residem nem remotamente perto. Vão de carro.

No Centro do Cabo é diferente. Digo, a maior parte  dos de pele clara moram em subúrbios segregados – não politicamente mas em termos econômicos:

Não é proibido por lei um negro morar nesse bairros de elite. Simplesmente a maioria deles não têm dinheiro pra fazê-lo.

Então, retomando, boa porção da classe média euro-descendente vive em subúrbios afastados, e, sim, se locomovem de automóvel até seus escritórios no Centro.

Mas não todos. Está sendo feito um bairro pra ricos, muito parecido com o Porto Madeiro de Buenos Aires, se você conhece a capital argentina.

São elegantes prédios com canais artificiais entre eles, o que permite aos moradores remarem estando literalmente na porta de suas casas. Uma ‘Veneza (Itália) moderna’.

Dando um tempo pra política e vendo coisas mais belas e amenas. E bota beleza nisso!! Emoldurada por esse belíssimo firmamento celeste, a Mesa-Montanha – que é um ‘Chacra de Gaia’, a Mãe-Terra, se você tem ‘ouvidos de ouvir’. Aos pés dela, pra levar a galera até a bilheteria do teleférico, um buso do sistema de transportes ‘Minha Cidade’. Céu e um moderno ônibus, tudo azulmesma cena que fotografei no Chile, apenas lá era articulado e aqui micro.

Os brancos sul-africanos adoram caiaques, se você não sabe. Vi vários praticando esse esporte, nas praias do Cabo e Durbã, e nos subúrbios abastados de todas as cidades.

Pois bem. A Cidade do Cabo não apenas é a menos segregada de todas, como ela quer des-segredar ainda mais.

Por isso está fazendo esse bairro pra elite, em pleno Centro. Como a elite ainda é majoritariamente branca, isso mostra que o Cabo quer mais brancos em seu Centro.

Vamos colocar de forma mais apropriada: não é uma questão de raça, mas de classe. O Cabo quer os ricos morando no Centro. Uma boa parcela deles serão brancos.

Mas com o crescimento expressivo da alta-burguesia negra (que tende a aumentar e se consolidar nas próximas décadas) vários dos habitantes desses prédios de luxo serão negros.

Agora com céu nublado, mais uma tomada do bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo. A herança norte-europeia (inglesa e holandesa) está evidente no conjuntinho de casas alinhadas. A cidade é numa península, alias é exatamente o que ‘cabo’ quer dizer. Por isso, em qualquer parte das Zonas Sul e Central (e começo da Leste e Norte, não existe Z/O pois seria dentro do mar) você vê a cadeia de montanhas como espetacular pano de fundo.

Segregação econômica sem dúvidas, pois a África do Sul é 3º Mundo.

Mas racial não. Se você pode pagar, brancos, negros, mulatos, indianos, orientais, todos são bem-vindos ao Centro do Cabo.

É a situação ideal? Óbvio que não. Mas considere o passado da África do Sul (em que a lei separava brancos de negros, mestiços e indianos, com privilégios pros primeiros).

E compare com as outras cidades sul-africanas atuais (auto-segregação imposta pelos brancos).

Além disso, por seguir o modelo de urbanização ianque, geralmente os ricos e a classe-média alta moram muito longe do Centro, e só se locomovem de automóvel.

O mesmo céu sem nuvens, e de novo um ônibus, agora 2-andares. Centro de Joanesburgo: Praça Gandhi, o terminal das linhas (não-integradas) da viação Metrobus, proprietária desse Volvo/ Marcopolo brasileiro, que dorme na garagem que vimos acima, em cujos fundos há a favela.

Ali no Cabo estão atraindo pessoas que, ao contrário, muitos deles darão prioridade pro deslocamento a pé, de bicicleta e mesmo de ônibus. Sim, existe a segregação econômica.

Mas sem segregação racial nem espacial, gente com bastante dinheiro de todas as raças vai a pé trabalhar, pois é só atravessar a rua. Os tons de pele convivem e não queimam carbono.

Dentro das atuais condições, é um avanço. Não podemos deixar a utopia travar o avanço do que é possível nesse momento. Pois esse avanço será a semente de avanços maiores no futuro.

O Centrão da Cidade do Cabo tem partes feias e sujas, claro, é uma metrópole conturbada e injusta de 3º Mundo.

Mas é muito mais limpo e seguro que os Joanesburgo e Durbã, sem comparação possível. E por isso a classe média, de todas as raças, se sente a vontade por ali.

………

Edifício abandonado do Hotel Carlton, o símbolo da decadência do Centro de Joanesburgo. Inaugurado em 1903 num antigo prédio de 6 andares, era um dos hotéis mais luxuosos da África e mesmo do planeta – por exemplo, mais de um século atrás foi o primeiro do país a oferecer o serviço de telefone no quarto, além de uma forma rudimentar de ar-condicionado. Na década de 60 decidiram construir um enorme complexo, com esse prédio de 30 andares pro hotel, um edifício comercial anexo com 50 andares, e mais um centro de compras. Tudo foi inaugurado em 1972. Dez anos mais tarde, ainda fizeram um anexo de luxo do outro lado da rua, ocupando mais uma construção de 6 andares, uma passarela suspensa sobre o rua os interligava. A história do Carlton é gloriosa, em 1947 recebeu a família real inglesa: o rei Jorge 6º e sua esposa a rainha Elizabete, e suas filhas, as princesas Elizabete (a atual rainha) e Margarete. Entre políticos e cantores euro-estadunidenses, foram hóspedes do Carlton: Henry Kissinger, François Mitterrand, Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Whitney Houston and Mick Jagger, entre outros. Nos salões do Carlton ocorreram momentos-chaves tanto do ‘apartheid’ que tentava se manter como de sua queda. Foi ali que o primeiro-ministro linha-dura do regime racista P. W. Botha anunciou um plano ‘de união nacional’ (só entre brancos, claro) pra tentar salvar o ‘status quo’, em 1979. Não deu certo, na década de 80 a oposição interna e externa ao ‘apartheid’ chegou no auge, quando Botha como último cartucho extinguiu o parlamentarismo e se auto-nomeou presidente com plenos poderes, o que também não funcionou. Mandela foi solto e eleito presidente. E foi ali no Carlton que, em 1994, Mandela fez a ‘convenção da vitória após ser eleito, anunciando a nova era que amanhecia na África do Sul.Tudo isso mostra a importância desse hotel pra cidade e mesmo nação. Mas nos anos 80 o boicote ao ‘apartheid’ minou o fluxo de turistas. Depois da democratização acharam que a coisa melhoraria, mas aí foi a decadência urbana quem cobrou seu pedágio. O Centro de Joanesburgo hoje é um grande gueto. Quase ninguém de classe média tem coragem de ir ali, sejam moradores da cidade e muito menos turistas. Em dezembro de 1997, o Carlton veio a pique e cerrou as portas. Um semestre depois o anexo de luxo do outro lado da rua também encerrou as atividades. Permanecem abertos o centro de compras com sua praça de alimentação, e o edifício de 50 andares que abriga os escritórios – no alto dele há um mirante, foi dali que cliquei a garagem de ônibus que viram mais pro alto da página. Como triste lembrança, o mirante ainda está decorado com muitas fotos que mostram a construção e operação do hotel nos seus dias de glória, agora só um passado distante. É uma pena.

Há partes do Centrão de Joanesburgo que a situação é desesperadora, no melhor sentido do termo. Por isso o Hotel Carlton (dir.) não aguentou o baque e fechou as portas em 1997.

O mesmo vale pra Durbã. Alguns prédios dessa cidade têm na portaria portas giratórias de metal enormes.

Aquelas que no Brasil só são encontradas nas estações de trem de subúrbios e na portaria das fábricas.

Sabe como é, não? Têm barras de ferro de cima a baixo e só gira num sentido, não há como fazê-la voltar ou ela trava, pra evitar evasões. Então.

Em Durbã, repito, alguns prédios contam com esse equipamento, em pleno Centro, pra impedir a entrada de ladrões e sem-tetos.

Andava eu pelo Centrão dessa cidade. Vocês viram nas imagens da Cracolândia que há nos trilhos. A coisa é horrorosa, o mais forte sobrevive.

E não apenas ali. Nas ruas de uma parte abandonada próxima a estação de trens o mesmo se repete, embora não tão concentrado.

Então, e é aqui que eu entro na história. Sou cascudo em circular e mesmo em fotografar as regiões mais barra-pesadas de várias cidades da América e agora também da África.

Sou sensato e bom observador, sei avaliar o local e momento mais seguros de puxar a máquina discretamente, clicar e rapidamente guardar o equipamento.

Foi assim que já documentei de forma ricamente ilustrada várias favelas, periferias e bocas-do-lixo nesses 2 continentes acima citados. E nunca havia sido abordado agressivamente por ninguém.

Muitas vezes as pessoas perceberam que eu estava fotografando, algumas até falaram comigo, mas nunca ninguém me tirando satisfações – digo, isso me refiro aos moradores.

Com as forças de segurança várias vezes os encontros foram tensos:

Em Buenos Aires a polícia me cercou com 5 agentes (4 Homens e 1 Mulher), revistaram meu equipamento e apagaram algumas imagens, como já contei antes.

Em Joinville-SC também tive que entregar partes de um filme, nesse caso ainda era analógico. Em Durbã mesmo eu fui pro camburão, como descreverei abaixo.

No México e Paraguai soldados do exército armados com metralhadoras rispidamente me indicaram que eu ‘circulasse‘.

Pois entrara em locais proibidos, de segurança nacional – mas não havia placas indicando, eu não tinha como saber. Enfim, entre outros casos, esses são só alguns exemplos.

Mas sem contar policiais e seguranças, nunca ninguém havia me abordado violentamente. Até esse dia em Durbã.

Eu fotografava a Cracolândia do Centro, e um noiado percebeu. Ele correu até mim e intimou: “Ei, ei, qual é o problema?? Por que você está tirando fotos???”

Felizmente eu sei falar com a malandragem. Moro numa favela de Curitiba, se alguém não sabe. Imediatamente eu tirei uma moeda de 10 Rands do bolso e passei pra ele.

Ao lado conto algumas situações barra-pesada que passei em Durbã. Pra contrastar, cenas mais amenas da mesma cidade. O Mercado Indiano de Durbã é um carnaval de cores, cheiros e sabores, como não poderia deixar de ser em tudo que vem da Índia. Um tempero, em especial, me chamou a atenção: trata-se do “Exterminador de Sogra”!!! Tá bom pra ti ou quer mais???? Pra contrastar, a mesma banca vendia o “Amor de Sogra”.

Dá pouco mais de R$ 2, mas pra um viciado e morador de rua qualquer trocado ajuda, não é mesmo?

Aí ele já se acalmou. Eu lhe disse: “não há nenhum problema, não é nada com vocês. Sou um jornalista do Brasil, e só quero mostrar pras pessoas do meu país como é a África.”

“Não é nada com vocês”, repeti. Ele, satisfeito mais com o dinheiro que com a explicação, me liberou.

A África do Sul é uma mistura urbanística entre EUA/Anglosfera x América Latina. Então há guetos centrais, como nos EUA e Europa, e periféricos, como no Brasil e América Latina.

Rinoceronte esculpido em areia na ‘Praia Norte’ de Durbã. É bem mais elitizada que a ‘Praia Sul’, onde fiquei hospedado. Também não é difícil, a ‘Praia Sul’ ainda que na orla (óbvio, como o nome indica) é ao lado do porto e perto do Centrão. A ‘Sul’ eu apelidei de ‘Bronx a Beira-Mar’, porque o perfil sócio-econômico e racial é o mesmo desse que é o mais pobre dos 5 distritos de Nova Iorque/EUA. Mesmo exatamente em frente a praia não moram ricos, é povão mesmo. Já a ‘Praia Norte’ já é saindo pros subúrbios a moda ianque, onde residem os ricos. E por isso ali há edifícios caros, pra alta burguesia. Resultando que a ‘Praia Sul’ é ótima pra você entrar no mar mesmo (fiz isso todos os dias exceto um que choveu) e tem bons restaurantes. Mas fora isso não há badalação. Já a ‘Praia Norte’ é agitada – feirinha de artesanato, dezenas de restaurantes, muito mais que na ‘Sul’, e, uma das atrações é esse cara que molda de tudo na areia: paquidermes, pessoas, cidades, objetos. Ele esculpe inclusive propaganda de empresas que bancam seu trabalho, ao fundo um exemplo. Se você for a Durbã não deixe de conferir, recomendo! Outro detalhe: vê várias pessoas de roupa no mar? É tradição em Durbã, especialmente entre os muçulmanos, mas gente de outras etnias também faz o mesmo.

Acima o apuro que passei no gueto central de Durbã. Agora vamos pra periferia da mesma cidade, onde a chapa foi ainda mais quente.

………….

Como eu falei melhor na matéria sobre transportes, todas as grandes cidades da África do Sul têm um sistema de trens de subúrbio.

Operados pela viação férrea estatal ‘Metro-Rail’. Era o antigo ‘trem dos pretos’ na época do ‘apartheid’,

Agora na democracia é ‘trem dos pobres’. Que nos bairros mais degradados são 99,9% negros.

Então pouco mudou, antes a segregação era política e econômica, hoje é só econômica.

O ‘Metro-Rail’ é horroroso. Péssimo, muito ruim mesmo.

Só pega quem não pode mesmo pagar vans (lá chamadas ‘táxis’) ou ônibus, nessa ordem.

Como já expliquei, as vans (quase todas Toyotas e quase todas brancas, embora haja outras marcas e cores) são o principal meio de transporte da África do Sul.

Foi preciso literalmente uma guerra pra que elas pudessem chegar ao Centro e aos bairros dos ricos onde estão os empregos, mas hoje é assim.

Também na ‘Praia Norte’ de Durbã. Uma multidão de ‘indianos‘, ali é área deles. Entre aspas porque quando a Inglaterra levou os ‘indianos’ pra África do Sul a Índia incluía Paquistão e Bangladesh, que são muçulmanos. Por isso boa parte dos ‘indianos’ sul-africanos não são hindus, mas muçulmanos – portanto comem carne. Entre os religiosos praticantes, tanto Homens quanto Mulheres cobrem a cabeça, embora pro sexo masculino essa seja a única exigência, já pro feminino todo corpo tem que ficar oculto, incluso pra muitas o rosto, só os olhos escapam da burca. Outro detalhe: veja a lata própria pra lixo reciclável, separado do orgânico. Só existe mesmo na orla e em pouquíssimos lugares frequentados pela burguesia. Quando íamos embora de Durbã, fui a praia colocar o lixo reciclável que havíamos separado numa dessas lixeiras. O porteiro do prédio achou que eu ia despejar tudo na areia, simplesmente. Por aí vocês veem que a ‘cultura da reciclagem’ ainda não chegou lá.

Em Joanesburgo e Pretória há o Gautrem, esse sim de qualidade de 1º Mundo, alias Primeiríssimo Mundo.

Mas a linha é pequena, e só existe nessas duas cidades. Quem mora perto do pequeno traçado dele o utiliza intensamente.

Mas poucos têm o privilégio. Por isso chamado pelos detratores de ‘trem dos brancos’. Evidente, ficou pronto em 2010, 16 anos depois do fim do ‘apartheid’.

O Grautrem nunca foi segregado por raça, negros o utilizam livremente desde seu primeiro dia de operação.

O que esses críticos querem dizer, e não sem alguma razão, é que o Gautrem é o ‘trem dos ricos’, pois só serve os bairros abastados, onde os brancos são maioria.

Então, repito, o Gautrem é bom. Mais que bom, é ótimo. Mas poucos têm a chance de utilizá-lo todos os dias.

Isso mesmo na metrópole estendida Joanesburgo/Pretória. E ninguém em outras cidades, pois elas não contam com nada parecido.

Então o povão vai de ‘táxi’, por isso querendo dizer de vans, lembre-se. Depois disso os ônibus são a opção mais usada.

Centro da Cidade do Cabo.

Nas poucas linhas já melhor estruturadas, tanto pela burguesia quanto pelo proletariado.

Nos bairros mais afastados, só há linhas de ônibus não-integradas, que por isso são menos utilizadas mas ainda assim têm seu nicho de mercado.

E por último, como última escolha mesmo, vêm os trens de subúrbio da ‘Metro-Rail’. Esses só pegam mesmo quem não pode pagar qualquer outro meio de deslocamento.

Centro de Pretória.

Pra começar a conversa, são extremamente perigosos. Arrastões são rotineiros, muitas vezes com vítimas fatais. Apedrejamentos também são frequentes.

Pois bem. Em Durbã e no Cabo eu andei de trem. Sozinho, só eu e Deus. E nas 3 cidades entrei nas favelas.

Todo mundo dizia “pelo-Amor-de-Deus, não faça isso. É perigoso demais, vão te matar, etc.”

Centro de Durbã.

E de fato é perigoso. Mas . . . se não for perigoso não é jornalismo. Se for muito confortável, só editar textos em frente ao computador, não é jornalismo, é relações-públicas.

Porque é perigoso é que eu fui, pra poder lhes contar, pra poder mostrar como são as favelas e trens da África, pra quem não teve a oportunidade de entrar neles.

Bairro ‘Musgrave‘ (pronuncia: ‘Mâsgreive’), na Cidade Alta de Durbã, um morro de classe média-alta da Zona Central. Não há ricos e alta-burguesia no Centro de Curbã, mas bem pertinho dele, sim. Durbã é a ‘América na África’, porque urbanisticamente é a cidade que mais se parece com América Latina. Sim, há ali o modelo ianque de guetos centrais e ricos morando em subúrbios afastados, muitos deles nos morros como na Califórnia. Mas em Durbã há favelas nos morros da periferia, e bairros caros na Zona Central – ambas as coisas inexistem em todo resto da África do Sul (a Cid. do Cabo tenta trazer os ricos pro Centro mas o projeto ainda se inicia).

Disse numa legenda acima que eu entrei no mar em Durbã todos os dias, exceto o que choveu. Mas não foi só por causa do clima que deixei de ir a praia.

Eu já havia reservado esse dia pro trem, fizesse o tempo que fizesse. Assim, saí de casa sob tempestade.

Estiava as vezes, depois voltava a aumentar o toró, mas choveu a manhã inteira (veja as imagens mais pra cima dos pedintes nos sinais com capas).

Peguei o ônibus pro Centro, e dali subi a pé a antiga Rua Berea (atualmente a Rua Rei Dinuzulu, mas todo mundo chama pelo nome antigo, incluso os negros).

Cheguei a ‘Cidade Alta’ (esq.). Depois desci a ladeira pro Centrão. Debaixo de forte temporal. Fiquei ensopado, claro, mas não importo, gosto de chuva.

Me dirigi a Estação Central de Durbã (2 tomadas abaixo). Cara, só eu, tendo essa missão peculiar nesse planeta, pra encarar. O bagulho é louco.

 Literalmente, uma “Descida a Escuridão”, como já relatei com detalhes e muito mais fotos nessa mensagem.

As imagens valem por mil palavras. É escuro, é perigoso, é sujo, o cheiro de mijo toma conta de algumas partes da estação.

E por isso quem pode evita. Eu, não podendo deixar de ser quem sou, fui lá. Pra poder lhes dar esse relato. Os problemas começaram na hora de comprar o bilhete. Pois você tem que informar o destino já que a tarifa é calculada conforme a distância.

Vi pelo mapa um bairro que queria ir, mas não sabia informar direito ao cobrador – meu inglês não é dos melhores, e nem o dele eu acrescentaria.

Puxei o mapa, mostrei a ele, e com ajuda de uma passageira atrás de mim na fila, consegui afinal comprar o tíquete.

Estádio de críquete (esporte de preferência dos brancos) na Zona Central de Durbã. Há um aviso na entrada alertando que “qualquer manifestação de racismo será severamente punida no rigor da lei”.

Cheguei a plataforma praticamente vazia (esq.), havia um trem parado mas ninguém dentro, e ninguém entrava, e não seria eu, mais forasteiro impossível, a ser o primeiro.

Esperei quase meia-hora, veio outro trem. Eu e mais umas 4 pessoas entramos. Andou duas estações, recolheu, tivemos que descer.

Espero mais 40 minutos em outra estação também quase deserta, chega outro trem. Esse um pouco mais cheio.

Chego na estação que queria, desço. Mas na África do Sul os trens não trazem no letreiro o nome do destino, mas um número.

Só quem pega sempre sabe o destino de uma composição por esse código. Com tudo pra atrapalhar e nada pra ajudar, peguei um trem distinto daquele que eu havia pago.

Praia na Zona Norte da Cidade do Cabo, sempre com a Mesa-Montanha ao fundo. Vazia porque o mar é gelado, não tem como entrar. Os poucos frequentadores era todos brancos, pois ali é um subúrbio a moda ianque de milionários (em outra postagens subo fotos do bairro).

Assim, na hora de sair da estação o fiscal conferiu minha passagem e disse que estava errada.

Era evidente a todos que eu era estrangeiro, era a única pessoa de pele clara de toda estação.

Disse a ele: “eu sou do Brasil, e comprei a passagem incorreta por falha na comunicação, desculpe.”

“Então você tem que comprar o bilhete certo, referente ao trecho que usou”, ele informou.

Próximas 9: Soweto, Joanesburgo (no detalhe a auto-estrada). A periferia da África do Sul, pela herança inglesa, se compõe inteira de conjuntinhos com as casas todas iguais (em Santiago igual, mas no interior do Chile completamente diferente). O governo sul-africano está fazendo um esforço hercúleo pra erradicar as favelas, não negamos. O resultado é esse.

“Sem problemas, vamos a bilheteria que eu faço isso agora”. Fomos. Nosso diálogo foi em inglês.

Chegando ao balcão, o fiscal e o bilheteiro passaram a conversar entre eles em sua língua africana nativa, eu não entendia uma palavra.

Após alguns minutos de argumentos e contra-argumentos, me falaram que afinal eu não precisava pagar de novo.

Viram que não houve má-fé de minha parte. E como haveria? Até os moradores locais fogem desse trem como o diabo da cruz.

Não seria eu, turista de outro continente, que tentaria lograr a companhia local em alguns centavos. Era óbvio que comprei a passagem errada por engano, e não intencionalmente.

Estávamos no meio de uma das favelas mais barra-pesadas da Grande Durbã, onde se mata gente por qualquer motivo e mesmo sem qualquer motivo.

Eles ficaram de cabelo em pé quando disse que eu era do Brasil, que não conhecia ninguém ali, e iria apenas dar umas voltas no bairro a esmo, tirando fotos.

Mais uma vez: o governo entregou uma cohab, em alvenaria. Mas o puxadinho é de latão. Antes, quando ali era favela, as casas eram de zinco. Assim, o costume de construir nesse modal ficou fortemente enraizado na Consciente Coletivo do povão sul-africano.

O bilheteiro abriu a urna que servia de lixo, e revirou papel por papel as passagens já usadas por outros passageiros.

Até que achou uma que coincidia com o trecho que eu usei. Me deu, e disse: “quando você voltar me entregue”.

Insisti novamente em pagar, ele disse que não era preciso, e que tomasse cuidado porque a vizinhança ali não era lugar de brincadeiras.

Klaarwater, eis o nome da vila de onde eu estava, se você quiser conferi no ‘Google Mapas’. É um bairro popular nas encostas do morro, com várias favelas.

Sabe, todo mundo que me via estava apavorado por eu ter ido de trem, e por eu estar ali. Mas eu não sentia medo. Ao contrário, estava tranquilo.

Digo, com tudo mundo o tempo todo te dizendo “é perigoso, é perigoso demais”, você fica meio apreensivo. Mas minha Alma tem muito claro o conceito de Missão de Vida.

Estar ali era estar cumprindo minha Missão, e ter essa certeza fazia com que eu não temesse. Andei pelas ladeiras de Klaarwater, tirando algumas fotos.

Os sul-africanos são muito educados e solícitos, e as crianças que saíam da escola me cumprimentavam:

“Como vai o senhor?” Respondia “vou bem, e você?”. Ou seja: não tive nenhum problema com os moradores do bairro. Os que falaram comigo o fizeram em tom amistoso.

Mesmo sem nunca terem me visto, e, repito, estando óbvio que eu era estrangeiro, que não era morador sequer do país, muito menos do bairro.

Aqui não é ‘puxadinho’. O governo fez uma cohab, mas nova invasão surgiu – com as moradias em zinco, claro.

Quando eu já me dirigia a estação de trem pra voltar ao Centro de Durbã, uma viatura da polícia encostou.

E me abordou de forma bastante ríspida. Eram um casal de policiais. Foi o Homem quem conduziu a conversa: “O que você faz aqui?”

Dei a mesma resposta que ao noiado, que é a mais pura Verdade, portanto nem teria como responder diferente:

A mesma cohab, vista na foto anterior e que já foi retratada mais pro alto na página.

Sou um jornalista do Brasil, e estou fazendo uma matéria sobre a África, pra mostrar como é Durbã as pessoas de meu país”.

“Quem você conhece aqui nesse bairro?”, ele continuava agressivo. Eu, inversamente, permanecia calmo, e respondi naturalmente:

“Não conheço ninguém senhor, eu sou do Brasil e nunca estive aqui antes”. “Como você chegou aqui?”, ele quis saber. “Eu vim pelo trem”.

“Pelo trem???”, ele só não caiu pra trás porque estava sentado. “Você veio de Durbã sozinho pelo trem, e não conhece ninguém aqui?”

Isso é Soweto: outra favela surgiu – nessa as casas são de madeirite. Na frente uma van – Toyota e branca, sempre. Essa é do modelo antigo, e tem uma ‘saia’ amarela. Ao lado uma perua BMW caríssima. Ou seja: agora Soweto também tem alta-burguesia. No ‘apartheid’ os negros eram todos pobres, pois escravos do regime. Na democracia a concentração de renda que antes era somente inter-racial agora se repete dentro da raça negra, igualmente.

Ele precisava confirmar porque lhe parecia inacreditável. Certamente nunca vira nada nem remotamente parecido. “É exatamente isso, senhor”, respondi.

Revistou minha mochila, e ao constatar que não havia nada ilegal, se acalmou. Aí ambos já haviam descido do carro.

A Mulher policial falou comigo pela primeira vez. “Você está liberado, pode pegar o trem, se acha que é seguro”.

Disse a ela: “Senhora, sim, eu vim pelo trem, e vou voltar com ele. Não vejo qualquer problema”.

Foi o gatilho que detonou uma reação instintiva. Mais uma vez começou o sermão, que eu já havia ouvido dezenas de vezes na África do Sul, sempre que mencionei a palavra “trem”.

Falando em carros e em Soweto, uma concessionária Toyota e Volkswagen (que dominam o ramo de vans e de carros pequenos, respectivamente) com o nome do bairro.

“Não vê problema? Esse trem é perigoso demais. Você não conhece, vão te roubar com certeza, pode ser que te matem. Olhe, você não pode pegar esse trem”.

Ela se contra-disse, pois na frase anterior acabara de dizer que eu era livre pra fazer isso, se assim o quisesse.

Confabulou com o colega dela, e chegaram a uma solução. Aí foi o Homem quem disse, abrindo a porta traseira, e me indicando o camburão onde vão os presos:

Próximas 5: agora favelas da Cidade do Cabo. Essa é no extremo da Zona Sul, no bairro Baía Hout, de classe elevada. A frente dela há um campo de refugiados da ONU. Bem, boa parte dos habitantes dessa favela são imigrantes de outros países africanos, mesmo público-alvo da ONU. Então temos frente-a-frente dois grupos de refugiados africanos, a diferença é que uns têm esse status oficialmente, e outros não.

“Entre aí, que nós vamos te levar a outra parte do bairro, até o ponto de táxis, e de táxi você volta pra Durbã em segurança”.

Perguntei: “você está me prendendo?” Ele respondeu: “não, eu vou te ajudar. Pode entrar tranquilo”. Ele já havia me dito antes que eu estava liberado, e ali falou de novo.

Achei que ele queria mesmo me dar uma carona, e, bem, o único lugar era na caçapa, no banco da frente só haviam dois lugares, já ocupados.

Por isso, e por não querer entrar em confronto com um policial sul-africano numa das favelas mais perigosas da África do Sul, pedi a Deus Pai e Mãe que me protegesse.

E entrei no recinto destinado aos detidos. A seguir por fora ele passou a tranca. Eu não estava preso. Mas que a impressão era essa, isso era mesmo.

Essa é no lado oposto da cidade, no extremo da Zona Norte, a caminho de Atlântida. Favela bem precária, sem luz nem mesmo gatos, sem água nem mesmo nas torneiras comunitárias. Fica entre a rodovia e o mar, sobre as dunas. Em verde os banheiros químicos. A cena é igual aos acampamentos dos beduínos no Deserto de Neguev, Israel.

Não fui só eu que senti assim. Os ‘manos’ da vila, que observavam a situação, explodiram em gargalhadas.

Não é difícil entender o porque. Eles já viram – e participaram – daquela cena centenas de vezes: a polícia vem na quebrada e leva alguém embora na parte traseira da viatura.

Muitas vezes eram eles mesmos que foram levados ‘pra dar uma volta’, gerando uma estada de muita dor na delegacia, muitas vezes de várias semanas ou meses.

As próximas 3 mostram uma favela na Zona Leste da Cidade do Cabo, na estrada que leva pro aeroporto e pra Khayelitsha, a “Zona de Perigo”. Saiu azulada porque na pressa eu não abaixei os vidros do carro, que tinham película. A esquerda na imagem os banheiros químicos, ao centro um VW Golf – o carro mais vendido da história da África do Sul, falo disso melhor em outra postagem em breve – e a direita um Toyota.

E quando não eram eles mesmos a entrar na gaiola, eram seus vizinhos, parentes e amigos próximos. Ou seja, a mesma dor.

Por isso foi um alívio pra eles verem isso acontecer com alguém de fora.

Que eles não conheciam, e portanto não se importavam. Eu não fora preso, mas que essa era a impressão, certamente era.

Daí natural a reação desses jovens negros africanos, oprimidos por um sistema injusto, descontando toda essa tensão reprimida em risos.

Mas os policiais cumpriram sua palavra. Realmente eles me levaram a um ponto de van, e dali eu embarquei pro Centro.

As casas majoritariamente de zinco, o segundo material mais usado é madeirite e papelão.

Valeu pelo ineditismo de entrar num compartimento dos detentos, mas não passou disso, uma experiência curiosa.

Eu compreendo a agressividade inicial da abordagem. Afinal, minha presença ali era absolutamente heterodoxa.

Klaarwater não é turística, digamos assim. Falando mais claramente, é um bairro violentíssimo.

Repare na van (no meio da imagem), ganha-pão de algum morador. Por isso os negros fizeram uma guerra pra poderem utilizar seus ‘táxis’ pela cidade toda: pra receita do transporte ficar na própria comunidade.

(Nota: Soweto, em Joanesburgo, é turística. Nos tempos do ‘apartheid’ era até proibido estrangeiros e brancos sul-africanos irem ao bairro, e pouca gente tinha interesse.

Mas hoje há interesse, querem ver onde Mandela e outros moraram e lutaram. Assim agências de viagens promovem excursões, que custam bem caro – até por isso dispensamos e fomos de ônibus urbano normal.

Soweto é periferia, é violento, mas é famoso, por isso  gente de grana, nacionais e de outros países, vão até lá – num processo similar ao que contece com a Rocinha, na Zona Sul do Rio.

Antiga Rua Berea, Zona Central de Durbã. Atualmente a ‘Rei Dinuzulu’, mas todo mundo usa o nome anterior, que se deve a que ela liga o Centro ao subúrbio de Berea, que apesar de ser outro município ainda é Zona Central da Grande Durbã – já que na África do Sul, como nos EUA, os municípios são menores que no Brasil. Destaquei o logo do ‘Shoprite’, uma das maiores redes de supermercados do país, uma corruptela de ‘Shop Right’ (‘Compre Certo’).

Em Soweto os policiais estão acostumados a ver turistas. Klaarwater não é famosa, não há excursões pra lá.

Se Soweto é a Rocinha, Klaarwater equivale as periferias mais afastadas da Baixada Fluminense, digamos assim.)

Por tudo isso, a princípio, ao ver um estrangeiro de outra raça no bairro, natural que eles suspeitassem de má-intenção.

Verificar o porque de eu estar ali era exatamente o trabalho deles

Ele me abordou de forma tensa pois a ‘Lei das Ruas’ impõe assim, se ele não usar sua autoridade a perde.

Não estou defendendo nenhuma forma de violência, que fique claro. A polícia existe pra prender (em flagrante ou com mandato), e aí a Justiça assume o caso.

Assembleia Legislativa do Estado de Gauteng, Centro de Joanesburgo. Curiosamente, o prédio é parecido com a Assembleia estadual de Córdoba/Argentina, que eu também fotografei.

As forças de segurança não devem jamais torturar ou agredir ninguém, mesmo suspeitos de crimes.

Agora, falar um pouco grosso é inevitável, ou a ‘malandragem’ nem permitiria a revista.

Assim foi na África. O policial fez o que ele é pago pra fazer.

Mas ele jamais me agrediu, física e nem mesmo verbalmente. Pediu que eu abrisse minha mochila, o que eu mesmo fiz.

Quando acatei sua ordem, ele nem mesmo me revistou, pra conferir se eu estava armado.

Na mesma auto-estrada da Z/L do Cabo, as cohabs que o governo vem fazendo pra urbanizar as invasões. Sempre com painel solar – mesmo nas piores periferias, como notam.

Ao aceitar que a minha versão, apesar de insólita a princípio era a mais pura Verdade, eles passaram a me ajudar.

(E era, aqui está a matéria, escrever sobre a periferia da África era o único motivo pelo qual fui a Klaarwater.)

Nunca na vida deles os policiais haviam visto um turista estrangeiro naquelas bandas, muito menos que tenha ido sozinho.

De trem, sem um contato no local, e – espanto dos espantos – eu não tenho celular! Logo não poderia pedir socorro se algo desse errado.

Nunca faltam os puxadinhos !!!

Era eu e Deus, mesmo!!! Fé Total na Proteção Divina, em que aquilo era minha Missão, logo Deus Pai e Mãe iria me proteger.

E a proteção veio, mesmo de forma insólita, mesmo das pessoas que a princípio me viram com desconfiança.

………

Próximas 15: Klaarwater, morro na periferia da Grande Durbã, onde a polícia me deu uma ‘carona‘. No ‘container’ vermelho uma mercearia.

Os sul-africanos são extremamente educados e solícitos. Ao perceberem que alguém precisa de ajuda eles voluntariamente abordam a pessoa e se oferecem pra auxiliar.

Aconteceu muitas e muitas vezes conosco, quando nos viam nos bairros mais perigosos, os moradores locais vinham e nos orientavam como sair dali.

Em Joanesburgo foi o mesmo. Estávamos no terminal de ônibus de Soweto, um rapaz veio e nos orientou: “Pra onde vocês querem ir?”. Ao informarmos que era de volta pro Centro, ele indicou a plataforma.

Durbã é a única cidade grande da África do Sul que tem favelas em encostas, como na América Latina. Em Joanesburgo e Pretória não há morros, e no Cabo são os milionários que moram nas ladeiras, como nos EUA e Mônaco.

O ônibus chegou ao ponto final num bairro da Zona Central mas já além do Centrão, entretanto nós não descemos.

Não conhecíamos a cidade, e conversávamos com o mapa na mão, falando em português obviamente.

Analisávamos onde seria o melhor lugar pra voltarmos ao bairro de Killarney, no começo da Zona Norte, onde estávamos hospedados.

O motorista do ônibus saiu de seu posto e veio falar conosco, pra ajudar. Dissemos que desceríamos em determinado ponto do Centro. Ao chegar ali, mais uma vez ele encostou o veículo e veio até o fundo do mesmo, gentilmente nos lembrar que era ali era o destino pretendido.

Eis a vendinha mostrada mais pra cima. Como muitos sul-africanos nas favelas já moram no zinco, estão acostumados, digamos assim. Com grade na janela pra prevenir assaltos

Na Cidade do Cabo aconteceu mais uma vez. Alias, na África do Sul pela primeira vez andei em vários modais:

Num camburão, no Uber (que eu nunca havia utilizado no Brasil), em táxi clandestino e em carros das marcas Mercedes e BMW. Esses 3 últimos conto em outra postagem, que o texto já está longo demais.

Por isso, pra caminhar pro fechamento, um dia na Cidade do Cabo pegamos o Uber pra ir a praia. Uma praia num bairro de gente muito rica, num subúrbio a moda ianque na Zona Norte da cidade.

Também descrevo melhor o bairro e minha curtíssima entrada no mar absolutamente gelado noutra mensagem, breve. Aqui basta dizer que cada sobrado é cotado na casa dos milhões de reais.

Mas eu conversando com o motorista do Uber (que lá os negros chamam de ‘Uba’, também me estenderei posteriormente sobre a linguagem, veem que a série ainda vai longe) disse que a tarde eu iria no bairro de Khayelitsha, na periferia, pra contrastar, pra conhecer os dois lados.

Klaarwater, Durbã. Mas lembra Tamandaré, na Z/n da Gde. Ctba. Ou partes de BH, Rio, Salvador, P. Alegre ou Floripa, não?

Pronuncia-se ‘Calítcha’ ou ‘Calítia’. É um dos bairros mais perigosos da Cidade do Cabo e de todo planeta.

Leva mais de uma hora pra chegar de ônibus, e isso que a maior parte do trajeto é pela auto-estrada, ou seja, diretão, o latão vai sem paradas seja em pontos ou sinais.

Só começa o pinga-pinga quando ele sai da rodovia e entra no bairro. Já  conto essa parte.

Antes, recordando, ainda pela manhã eu contei ao motorista (negro) que iria a Khayelitsha, e que em Durbã já havia visitado bairros parecidos, um deles o Klaarwater onde andei na viatura.

Já viram na abertura da página que as casas da favela não têm água. Também não há banheiros, são construídas fossas com casinha fora da construção principal. Nesse bairro o governo ainda não pôs banheiros químicos.

O rapaz se entusiasmou: “Ah, pelo menos você vai conhecer a África de Verdade!!!”

“Porque 99% dos turistas vem ao Cabo, e só conhecem o aeroporto, os ‘shoppings’, a Mesa-Montanha e os bairros dos ricos – isso não é de fato vir a África”.

Realmente. A Cidade do Cabo, em sua Zona Central, conta com enorme presença de brancos. É a mais pura verdade. você não se sente plenamente na África.

E sim na Europa (todas as metrópoles oeste-europeias hoje têm grande leva de imigrantes africanos, o sabem) ou em partes da América (Colômbia, Equador, Brasil ou EUA, entre outros) em que há consolidada a mistura entre negros e brancos.

Aqui eu me lembrei de Colombo, também na Z/N da Grande Curitiba.

Eles dizem isso lá. Presenciei quando, aos pés da Mesa-Montanha, um morador local, mulato, puxou conversa com duas meninas alemãs.

Elas conheciam a África sozinhas, como mochileiras. Ele falou textualmente a elas: “Vocês vão gostar da Cid. do Cabo. É África, mas não parece”.

Pois bem. Khaeylitsha É África. 100% África, e parece África e somente África. Um bairro enorme e miserável.

Distante, tudo é precário, violência urbana na estratosfera, fizeram várias cohabs pra urbanizar as favelas, mas novas invasões surgem o tempo todo, tornando o trabalho hercúleo e permanente.

Nunca faltam as pedras e pneus dos telhados.

Sabe a missão de Sísifo de empurrar eternamente uma grande pedra morro acima, e assim que ele conclui ela roda ladeira abaixo, obrigando ao eterno recomeço?

Então, urbanizar as favelas da África é o mesmo. Até aqui o que descrevi de Khayelitsha é exatamente igual a América Latina.

De São Paulo a Argentina a BH a Belém a Curitiba ao Chile ao México e a Colômbia, República Dominicana, Paraguai e toda parte, essa é nossa realidade.

Mais uma vez, o banheiro fora da casa, na verdade uma fossa, como foi no interiorzão do Brasil até o século 20. Na África do Sul urbana em pleno século 21 ainda é assim.

Mas na América Latina as periferias têm muitas raças misturadas. Sempre há brancos, negros e índios, e proporções variadas conforme o país e mesmo a parte do país.

Em Khayelitsha só moram negros. Khayelitsha É África, de Corpo e Alma. Além de tudo que descrevi acima, é um bairro extremamente denso.

Puxadinhos nas cohabs, que são universais, tornam praticamente impossível distinguir onde já foi urbanizado de onde nunca foi, fica tudo com cara de favela.

Não tenho nada contra as favelas, eu moro numa delas, e moro porque quis morar.

Claro que não faltariam as moradias em latão.

Da mesma forma, eu fui a Klaarwater, Soweto, Khayelitsha, e muitas outras quebradas desse país sabendo o que ia encontrar, e fui exatamente por isso. A favela não me assusta.

Ainda assim, em Khayelitsha a coisa é muito densa, são centenas de milhares de pessoas se espremendo sem quase nenhuma infra-estrutura.

As casas chegam quase na via pública, as ruas ficam cheias de gente, o tempo todo. E eu era o único que não era negro. Eu não me defino como ‘branco’ pois isso significa ‘europeu’, e eu não sou europeu, sou Americano.

A raça pra mim é algo tão físico como cultural. Assim, eu não sou ‘branco’, Sou Americano.

De qualquer forma minha pele é clara. Aí, em Khayelitsha ficava evidente não apenas que eu não era do bairro, como também que eu não era do país.

Já visitei favelas horrorosas na América, tanto no Brasil como em vários países. Mas aqui, pela mistura de raças, eu posso andar incógnito. Me embrenho entre os becos e vielas, pois olhando pra mim as pessoas não percebem que sou de fora.

Ao menos enquanto não há diálogo. Resultando que se eu não falar com ninguém na rua, e na maioria das vezes eu não falo, ninguém descobre minha ‘identidade secreta’. Em Khayelitsha eu não tinha essa proteção.

Todos viam imediatamente que eu era um turista estrangeiro andando sozinho. Sendo assim um alvo fácil pra ladrões. Não é uma questão do bairro ser pobre o não, e sim de ter muvuca nas ruas.

Klaarwater em Durbã, Soweto em Joanesburgo, e Atlântida na própria região metropolitana da Cidade do Cabo, são tão pobres quanto. Mas são menos densos.

Nesses outros, eu andava nas ruas ou nos ônibus, e viam que eu não era dali, mas não haviam grupos numerosos de pessoas aglomeradas.

Então eu senti confiança pra circular livremente em qualquer parte e até pra fotografar extensamente. Digo, em Soweto não saí do ônibus, mas dentro dele fotografei a vontade.

E mesmo conversamos com alguns moradores do local que tinham curiosidade em saber como é o Brasil. A interação foi amistosa e tranquila. Em Khayelitsha preferi não fotografar mesmo no ônibus, e muito menos na via pública.

Tudo se somou, um lugar muito pobre, a raça diferente, e muita galera nas esquinas. 99% dos moradores de Khayelitsha são honestos e trabalhadores.

Ganham duramente seu pão com o suor de seus rostos, não tenho qualquer dúvida disso. E por isso fui ver onde eles moram. Quase todos vocês que leem esse relato nunca tinham ouvido falar desse bairro, tenho certeza.

Então, inaugurar o nome ‘Khayelitsha’ na mente dos leitores é minha homenagem aos Filhos e Filhas da Mãe-África, que tanto lutam e sofrem.

Eu Amo a Favela, mais que isso, Eu Sou a Favela. E por isso não temi ir Khayelistha, nome que causa arrepios a burguesia do Cabo, mesmo aos burgueses negros. Mas a mim não, por isso fui.

Ainda assim, mesmo com 99% de seus moradores honestos, não vamos negar que Khayelitsha e todas as outras quebradas da África do Sul têm suas gangues, e gangues muito violentas.

Terrenos bastante inclinados, o conjunto de casas forma uma escadinha.

O número de assassinatos diários nessa nação não deixa dúvidas desse triste fato. Também não tapemos o sol com a peneira, porque o Amor não pode cegar.

Tanto é assim que na auto-estrada que cruza o litoral austral da África do Sul (o trecho urbano dela é a via de acesso aos subúrbios a leste do Cabo) os avisos eletrônicos dizem textualmente:

“Zona de Perigo. Não pare na rodovia. Se precisar de ajuda ligue pra tal número”. Que aí o pedágio manda uma escolta armada, pra você poder consertar seu carro em segurança.

Assim, explicitamente, com todas as letras: “Zona de Perigo” (‘Danger Zone’ no original). E não sem motivo.

Interrompo Klaarwater pra mostrar a Cidade do Cabo, a rodovia que leva a Khayelischa (e depois dela ao litoral austral) com inúmeras favelas as margens. Daí a “Zona de Perigo” (imagem baixada da rede, crédito mantido).

As margens da pista estão inúmeras favelas, além de algumas cohabs já urbanizadas, mas também violentas (imagem ao lado).

Se um carro de alto padrão encostar ali, as chances são grandes que surja uma galera pra depenar o motorista e sua família, afinal os ladrões estão ‘em casa’.

Após cometido o roubo (e quem sabe algo pior) basta se embrenhar de novo nos becos da favela que está a alguns metros.

E será difícil pra polícia achá-los, terá que ser feita grande operação, com vítimas, que vai aumentar ainda mais a tensão.

Próximas 3: volta Klaarwater, Durbã.

O melhor mesmo é evitar e não parar sozinho no acostamento, sob hipótese nenhuma. Teu carro quebrou? Se possível siga até um posto de gasolina ou praça do pedágio.

Na pior das hipóteses, ligue imediatamente pedindo ajuda, em poucos minutos a polícia virá protegê-lo. E isso vale pra brancos e negros. Os ladrões não são racistas, se quiser ver assim.

Se um burguês negro parar ali com um carro ou caminhonete na marca dos centenas de milhares de Rands (dezenas de milhares de reais), será roubado da mesma forma.

Sem piedade ou ‘camaradagem de raça’. Bem, vimos nas fotos que negros matam negros com fogo, paus e pedras sem qualquer compaixão.

Mesmo se abstendo de motivos políticos, as taxas de homicídios sul-africanas são altíssimas, e em 95% dos casos o assassino é negro e a vítima também.

Khayelitsha e auto-estrada que dá acesso a ela é ‘Zona de Perigo’ mesmo, não é modo de falar. Portanto o aviso luminoso me chamou a atenção por ser tão explícito, mas não há como retificá-lo, de forma alguma.

Foram as próprias crianças que pediram que eu as fotografasse. Fechamos Klaarwater com chave de ouro: os meninos e meninas da vila, a África do Sul do amanhã. Há muitos problemas, mas há esperança: até 2 gerações atrás os negros não recebiam acesso a praticamente nenhuma educação formal (o pouquíssimo que eles tinham direito de estudar as classes não contavam sequer carteiras, ele precisavam escrever no chão). Agora eles têm escola pública com uniforme e refeições quentes. Falta muito pro ideal? Certamente. Mas já melhorou demais, isso também é certo.

Ainda assim, em Khaeylitsha, eu não senti medo de estar ali. Mas eu achei melhor não fotografar, pra não chamar ainda mais atenção. E também preferi não circular muito.

Muitos dos negros das favelas da África do Sul muitos nem são fluentes em inglês, arranham algumas palavras somente nessa língua.

Pois se comunicam basicamente em seus idiomas nativos. Seus empregos são braçais, com pouca ou nenhuma interação com o público, assim isso lhes basta.

Então até pra pedir uma orientação seria complicado. Tudo somado, eu fui observando essa realidade de dentro do ônibus.

Quando cheguei ao ponto final e desci, achei que era suficiente, que eu já havia ido onde quase nenhum estrangeiro turista ousara pisar até então.

Assim eu poderia retornar imediatamente, sem andar a pé pelo bairro. Busquei então a estação de trens.

Próximas 3: em sequência baixada da internet, Khayelitscha, Zona Leste da Cidade do Cabo. Em azul os banheiros químicos.

Sim, esses trens são perigosíssimos. Mas é como estar entre entre a fogueira e o caldeirão. Pelo menos no trem eu não precisaria pedir informações, mas pra pegar van ou ônibus sim.

E pra pedir informações iriam me perguntar porque eu estava ali. Afinal nunca nenhum deles imaginaria que um turista de outro continente iria de ônibus urbano a Khayelitsha.

Sozinho, sem conhecer ninguém, e sem celular. Esse diálogo, que seria extenso, poderia gerar uma aglomeração perigosa.

Eu estava no coração da ‘Zona de Perigo’, só eu e Deus. Então preferi optar pelo que julguei ser menos perigoso, e me dirigia a bilheteria da estação do ‘Metro-Rail’.

Deus Pai e Mãe mais uma vez não me abandonou, e mandou um anjo me proteger.

Esse Espírito Guardião se materializou na forma de uma linda moça negra sul-africana, chamada Mona Lisa.

As montanhas ao fundo, e a oni-presente Coca-Cola. Óbvio que estamos na Cid. do Cabo e na Áfr. do Sul.

Ela percebeu que eu era um ‘peixe fora d’água’ no meio da quebrada, e quando me viu indo pegar o trem, interveio.

“Ei moço, não pegue esse trem. É muito perigoso”, ela repetiu o que todos dizem na África.

Aí expliquei a situação, disse que eu era do Brasil e estava lá fazendo uma matéria sobre as periferias da África do Sul.

E que queria voltar pro Centro, mas como não conhecia outro meio, o trem me parecia a melhor – ou no mínimo a menos pior – de minhas opções.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo. Prédio de classe média, com porteiro e tudo. Sim, meio decadente, não nego. Mas ainda de classe média. E mesmo assim todos os apartamentos têm grades nas portas pra evitar arrombamentos. Idem em Durbã, a mesma situação. A África do Sul não é de brincadeira.

Ela então falou: “Vamos fazer o seguinte. Eu te levo até a estação de táxis”. Por isso ela quer dizer as vans, você sabe.

Mas Khayelitsha é tão distante do Centro que não tem linha de van direta até ele. É preciso pegar uma van ‘alimentadora’, que só fica dentro da vila.

Ela vai até o terminal central de Khayelitscha, e dali eu precisaria trocar – pagando novamente – pra outra van, que me levaria até o Centro.

Mona Lisa me explicava isso, que eu precisaria baldear no terminal. E disse: “eu falo com o motorista. Explico a situação, que você é estrangeiro.”

“E que precisa chegar ao Centro em segurança. Aí lá no terminal ele vai te mostrar qual a outra van você pega”. Assim foi feito, ela falou com o condutor num idioma negro nativo.

Antes disso, enquanto cruzamos a passarela que separava a estação de trens da estação de vans, contei minha missão.

Logo após os prédios de Killarney há um bairro de elite, só mansões mesmo. Veja, há uma grade na rua, outra perto da casa, e uma só abre quando a outra fecha. Precisa dizer mais?

Relatei que já havia ido a muitos bairros parecidos aqui na América, em meu próprio país e vários outros. Disse que pra mim era uma grande honra estar ali, no bairro dela.

Mona Lisa até se ofereceu pra então darmos uma volta maior pela redondeza, ela me acompanharia e com seu salvo-conduto não haveria o que temer.

Eu senti sinceridade nela, que queria mesmo me ajudar, e jamais me pôr numa armadilha. Mas pra não abusar da boa vontade da moça eu atalhei:

“O que eu já vi já foi suficiente. Já visitei Khayelitsha (o que quase nenhum morador do Cabo tem a coragem de fazer, muito menos os turistas), está bom.”

“Zuma tem que cair”, eis o mantra quase oni-presente no 1º semestre de 2017 na África do Sul. Aqui cartaz conclama pra manifestação no Centro de Pretória em abril, a marcha foi da Praça da Igreja-Matriz (marco zero da cidade) até o Palácio Presidencial, ainda na Z/C mas já saindo do Centro.

Me leve até o ponto do táxi, fale com o motorista pra ele me indicar a outra van, é melhor eu voltar pro Centro.  

Querida, muito obrigado por tudo que você está fazendo por mim, que Deus lhe pague.

Assim foi. Entrei na primeira van, que serpenteou nas estreitas ruas de Khayelitsha.

Pra compor o cenário, o motorista ouvia música africana de raiz, no idioma local. Não os enlatados dos EUA/Europa em inglês, mas a cultura deles.

Me senti num filme, sabe? Aquilo me emocionava, os pêlos do corpo se arrepiavam todos. Sim, em plena ‘Zona de Perigo’, pra alguns. Mas pra mim não houve qualquer ameaça.

Mesmo nas partes mais perigosas da África, fui bem acolhido, sempre. Quem me abordou foi sempre pra me ajudar, e isso valeu até pra polícia.

Cheguei a estação. O motorista cumpriu o pedido da querida menina Mona Lisa, e me falou “você pega o táxi nº 5 pra Cidade do Cabo”.

Agradeci. Nem era preciso esse cuidado, essa estação era sinalizada, ao contrário da primeira em que não havia qualquer indicação de destino.

Pichação nos subúrbios de elite a moda ianque na Z/N de Joanesburgo apela pro mesmo mote, mas aqui já ampliado: “Eles têm que cair”, diz a mensagem original. “Eles” se refere não apenas ao presidente Zuma, mas a todo seu grupo político. Bem, os defensores da situação contra-atacaram dizendo que “Nós temos que crescer“. A África do Sul enfrenta em 17, repito, a mesma situação que o Brasil passou em 16. A mídia está unânime contra o presidente. Até aqui não prova nada, as corporações da comunicação estão concentradas em pouquíssimas mãos dos Oligarcas, que nem sempre jogam limpo – ou só jogam sujo, falando mais claramente. Perguntei a 5 taxistas o que eles achavam dessa campanha. 4 disseram que Zuma “tem que ser removido do poder o mais rápido possível”, ecoando a mídia. Um deles teve uma visão dissonante: “sabe, é curioso, não? Existe esse grupo de nações, o BRICS, que está fazendo frente aos EUA. Será coincidência que exatamente esses países que incomodam os EUA vêm passando por esse processo de turbulência política? Antes foram vocês (no Brasil), agora a gente”. Pois é. Cada um que tire que suas próprias conclusões.

Mas só pra garantir, perguntei em inglês ao motorista da nova van se o destino era Cidade do Cabo, por isso querendo dizer o Centro da cidade.

“Cape Town, man!! That’s right”, ele respondeu bem alto, entusiasmado.

Sentei no banco da frente, a seu lado. Eles sempre ouvem música, mas esse preferiu os enlatados euro-ianques.

Estava bom pra mim, tudo estava bom, tudo tinha dado certo. Pegamos a rodovia, os mesmos avisos “não pare, zona de perigo”.

Um monte de favelas a minha volta. Quase atropelamos uns meninos que invadiram a pista atrás de uma bola, coisa de criança sem noção das leis da física.

Era meu último dia na Cidade do Cabo.

Vendo tudo aquilo, a luta multi-milenar daquele povo, a Saga da Raça Guerreira Negra Original, eu chorava de emoção.

Eu era também parte dessa Vibração, uma gota no Oceano que seja.

Fiz parte da África, e a África fez parte de mim. E assim será pela Eternidade, estaremos Unidos, Sempre e pra Todo Sempre. Mais que Amar a África, Eu Sou a África.

E por isso a Grande Vida (Deus Pai e Mãe) permitiu que eu fizesse 40 anos no Solo Sagrado Africano, que eu me ajoelhei e beijei como Prova de Amor.

Sede do CNA no Centro de Joanesburgo – o parido de Mandela.

Eu nunca fui a Europa, e nessa encarnação não irei. Eu não sou europeu, digo de novo. Sou Americano de Corpo e Alma, e em meu Coração Sou Africano também.

Sou parte da África, ela é parte de mim.

Eis o turbilhão de Sentimentos que jorravam pela minha Mente e Coração, sentado ali no banco dianteiro da van.

Vendo a Cidade do Cabo passar a meu lado, como numa produção cinematográfica.

Uma História de Amor.

Amo a África. E, pela forma gentil que fui tratado, mesmo em seus bairros mais perigosos (outros não tiveram a mesma sorte, e as fotos e a estatística falam por si mesmas), me Senti Amado de volta.

Num bairro pobre da Zona Central de Joanesburgo haviam várias bandeiras num muro. Entre as da Pátria Amada e a da África do Sul, encontramos a do Uruguai.

Lágrimas me corriam dos olhos, como já havia acontecido quando eu deixava a cidade de Medelím pra ir embora da Colômbia.

Chegando ao bairro de ‘Woodstock’, onde fiquei hospedado já na Zona Central, desci.

Terminava ali minha estada física nessa Cidade do Cabo que tanto Amei e Amarei pra sempre.

Jantei, no dia seguinte cedo rumei ao Aeroporto, passando pela mesma rodovia que corta a ‘Zona de Perigo’.

……….

Mas minha Saga nas periferias sul-africanas ainda não havia terminado.

Acima era só uma homenagem, sem consequências práticas. Mas no Centro de Pretória cliquei uma funerária. Ao lado dos serviços anunciados, bandeiras do território que ela atua, nações que fazem parte do Conselho de Desenvolvimento do Sul da África. De cima pra baixo, coluna da esquerda: Suazilândia; Moçambique; Lesoto; Zimbábue; Coluna da direita: Namíbia; Malauí; Botsuana; e fechando com a nação-sede, a África do Sul.

Minha última cena na África do Sul foi mesmo uma operação de guerra em Joanesburgo.

Fui visitar a favela de Alexandra (pronuncia Alec-zandra), na Zona Norte, a parte rica da cidade mas que tem essa ‘boca quente’.

E isso desde sempre, desde o ‘apartheid’ rolam conflitos violentos por lá, muitas vezes de negros contra negros.

Então mano, cheguei lá, caramba cara, a praça antes da favela tava ocupada por umas 40 viaturas da polícia, sem exagero.

E as entradas da favela todas elas trancadas com barricadas formadas pelos veículos policiais. Embaixo do rodado de uma viatura tinha um corpo coberto, com jornais ou um lençol.

Pensei que havia ocorrido um assassinato entre gangues da favela, ou então que tivessem matado um trabalhador num assalto, mas não sabia que a polícia estava envolvida.

Cactus em Joanesburgo. A África do Sul é muito seca, alias todo Sul da África (pra quem não ‘pegou’, obviamente África do Sul é o país. ‘Sul da África’ inclui essa nação e as nações vizinhas, pra alguns abarcando até o Congo). Seja como for, eu dizia que a água é muito valorizada na região, por ser rara. Quando estive lá (abril.17) a Cidade do Cabo enfrentava severo racionamento de água, os reservatórios tinham menos de 20% da capacidade, como já aconteceu em SP. Alias, um mês antes da África do Sul fui a Argentina. Esse vizinho nosso sul-americano também passava por racionamento, mas de energia elétrica. Já cliquei cactus também aqui em Ctba., Florianópolis, Chile, Argentina, e meus familiares na Colômbia.

Por isso não entendi porque um aparato de segurança tão grande, afinal Joanesburgo tem 1,3 mil homicídios/ano.

Se eles fossem isolar cada cena de crime com um efetivo desse tamanho, teriam que importar policiais da África inteira pra ajudar.

Depois fui ler no jornal, não foi assassinato, e a polícia estava envolvida. Uma viatura atropelou e matou uma menina adolescente que voltava da escola.

Por isso o corpo estava sob o eixo, e por isso uma operação de guerra: em 2015, num caso similar a polícia atropelou e matou 2 Homens.

A população fez justiça com as próprias mãos e queimou os 2 policiais vivos.

Por isso cercaram a praça e trancaram a favela com um contingente, digo de novo e não é exagero, digno de uma ocupação militar. Era uma ocupação militar.

……….

Aquele foi no fim-de-tarde de meu último dia em Joanesburgo, que foi também meu último dia na África.

Sintetizou bem o país, suas tensões, suas lutas. A luta contra o cruel ‘aparheid’ foi vencida, a democracia veio.

Falta agora vencer a tentação de usar a violência pra tentar resolver os problemas.

A violência não resolve nada, apenas agrava todas as dificuldades.

Fechamos com mais uma cena do livro Clube do Bangue-Bangue: ‘Dobsonville’, Soweto, Joanesburgo. 3 Homens tombam mortos numa chacina na guerra negros x negros. O lado uma placa informa “Lembre-se: a Vida não te deve nada – você é quem deve tudo a Vida !!!”. Encerro meu caso.

Mas essa luta apenas inicia. Por hora, a situação é essa aí: mais de 2 mil assassinatos por ano no Cabo somente.

E mais de mil e tantos em Durbã e em Joanesburgo, muitos milhares mais por todo país. Em 95% dos casos, um negro mata outro.

Ruas tingidas de vermelho, cenas de guerra.

Bang! Bang!

África do Sul, p*rra!!!

Só eu e Deus na ‘Zona de Perigo’,

Eu Sou o Mensageiro.

E Deus Pai e Mãe proverá.

Terra Amada & Querida: Joinville, Santa Catarina

Terra dos Ônibus Amarelos e da (finada) Busscar.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 13 de março de 2017

Fui mais uma vez a Joinville, Santa Catarina (segundo alguns ainda pertence ao Paraná, abordo essa questão mais abaixo).

E dessa vez levei a câmera, pra produzir esse ensaio fotográfico. Bastante incompleto, é verdade.

A Joinville germânica.

Bem fotografado, com calma e de dia, pude me focar somente no Portal e o Centro e imediações.

Já no apagar das luzes (literalmente!) chegamos ao mar, no Espinheiros (sim, Joinville tem mar. Muitos não sabem disso. Também volto ao tema).

E entre o Centro e o pequeno porto marítimo cliquei rapidamente alguns relances de uma vila de periferia, entre as Zonas Leste e Norte.

Cidade da Dança, Cidade das Flores (já desenhei uma Marília joinvillense, numa loja florida, seguindo a tradição alemã).

Melhor que nada. Um outro dia que eu retornar ampliamos a postagem. Aqui já serve como boa introdução.

Acabando de virar a marca do meio milhão de habitantes, Joinville é o município mais populoso de SC.

Mas não é a ‘maior cidade do estado’, como muitos erroneamente afirmam.

E é fácil entender o porque: cidade e município são conceitos diferentes. Podem coincidir, mas não necessariamente.

A famosa ‘Rua das Palmeiras’.

‘Cidade’ é a urbe, uma mancha urbana contígua, independente de divisões políticas.

Quando vários subúrbios metropolitanos conurbam com um núcleo, uma cidade passa a ser multi-municipal.

Assim fica fácil entender. É fato que no município de Joinville mora mais gente que no município de Florianópolis.

Ainda assim, a cidade que é a Grande Florianópolis abriga muito mais pessoas que a Grande Joinville, portanto a capital e seu entorno são a maior cidade de SC.

E a Beira-Rio no Centrão.

Seja como for, Joinville é o epicentro industrial de Santa Catarina, e por isso disparado o maior PIB do estado – simplesmente o dobro de Florianópolis!

E é a maior cidade do interior catarinense.

…………

Vamos descrevendo as imagens, aí a gente vai falando um pouco mais de Jvlle. Sua origem é alemã, como é de domínio público. Isso fica evidente na arquitetura da cidade (na África do Sul vi prédios similares).

Voltando ao Brasil, há um outro detalhes numa dessas imagens em que aparecem os prédios típicos teutônicos. A direita cartaz do Hercólobus (também já clicado no Chile).

Segundo a Ciência Oculta, um ‘planeta intruso’ que não faz parte do sistema solar, mas que passará perto da Terra nesse começo de milênio, ocasionando muitas mudanças no nosso planeta. Vamos ver no que dá . . .

Nas placas, abaixo da denominação atual da rua, estão grafados os nomes antigos que ela já teve ao redor de sua história. É uma característica de S. Catarina. Já fotografei o mesmo em Florianópolis.

Na capital, de colonização açoriana, mesmo os nomes que já caíram em desuso são no idioma português.

Em boa parte do interior, antigamente as ruas e avenidas antes eram ‘weg’, ‘strasse’, etc. É o caso aqui:

Amplie a foto acima e verá:

Na atual esquina das ruas do Príncipe e XV de Novembro antigamente se encontravam a ‘Ziegeleistrasse’ e ‘Mittelweg’, respectivamente.

Alias ela mostra bem o comecinho da XV de Novembro, no Centrão.

A direita vemos o cruzamento dessa mesma via com a BR-101, já do outro lado do Portal.

Na foto a seguir, a placa é exatamente a mesma. Eu apenas girei a câmera pra direita.

E aí aparece o Moinho que há na entrada principal da cidade, visto agora melhor enquadrado.

Nele funciona uma chopperia, se não me engano

Ao lado do portal há um totem, onde está escrito “Bem-Vindo” em português e alemão. 

Mais abaixo na página há uma foto em que ele aparece claramente.

Aqui nos centremos no que há atrás dele:

Outra placa bi-língue, a que comemora a amizade entre Joinville e a cidade de Langenhagen, Alemanha.

Foi firmada entre os prefeitos, no ano de 1980.

Certamente em Langenhagen há outra equivalente, apenas na ordem invertida dos idiomas.

………..

Como é sabido, no Norte do continente europeu (Alemanha e imediações, como a Holanda) é muito forte o costume de andar de magrela.

Assim essa é outra herança germânica: Joinville é também a ‘Cidade do Pedal’.

Várias avenidas têm ciclovias (fotografei uma delas), e uma das atrações é o ‘Museu da Bicicleta’.

Por falar em museus, em imigrantes e em tempos idos:

Numa das pontas da ‘Rua das Palmeiras’ está o Museu da Imigração.

E bem no meio desse calçadão há uma série de totens em preto-&-branco contando a história do lugar.

Fotografei uma das placas, aquela que registra a passagem do Zepelim.

JOINVILLE-PR, OPS, DIGO SC –

Assim como, Energeticamente falando, Curitiba é a transição entre o Sul e o Sudeste, Joinville é a transição do Paraná e Santa Catarina.

Posto de outro modo: em muitos aspectos culturais Joinville é uma cidade paranaense.

Joinville é muito perto da capital do Paraná, apenas 130 km cobertos por pista dupla, então é muito influenciada por Curitiba.

Joinville é quase uma ‘filha espiritual’ de Curitiba.

Pra um curitibano, andar no Centro de Joinville é como estar em casa, tamanha a quantia de empresas curitibanas que têm filial lá.

Se uma imagem vale por mil palavras, observe a esquerda: o primeiro centro comercial (“shopping”) de Curitiba é também o primeiro de Joinville. Um exemplo entre muitos.

Na tomada acima outra avenida com ciclovia.

Mas nessa e na ao lado, quero chamar a atenção pra outro detalhe que Joinville herdou de Curitiba:

A pichação de muros – e agora também dos telhados.

O alfabeto, a nomenclatura dos grupos, o material, o ‘modus operandi’, toda a parafernália resumindo que é aplicada lá são xerox exato do que se faz por aqui.

Sendo que a ‘escola’ curitibana nesse quesito já havia sido ela mesma importada de São Paulo.

Alias devo dizer que a ‘arte’ de rabiscar essas insígnias inelegíveis ao leigo subiu muitíssimo de patamar – não é modo de falar – recentemente.

Quero dizer com isso o seguinte: até a última vez que eu havia ido a Jvlle (2013, 4 anos antes) já havia pichação ao nível do solo.

Porém ainda não era comum escalarem os prédios pra ‘assinarem’ os telhados. Agora se alastrou essa técnica.

ESPINHEIROS, ZONA LESTE – A “PRAIA” DE JOINVILLE –

Viram que tempestade se armou quando nós íamos pra periferia? Joinville tem problemas seríssimos com alagamentos, já eu falo mais disso.

Por hora, falemos do que vimos no subúrbio.

Subúrbio da Z/L da cidade, bairro Espinheiros. Onde o Mar e Joinville se encontram.

Muitos desconhecem esse fato, nem imaginam que Jvlle também é beijada pelo Oceano Atlântico.

Próximas 2: Avenida JK, na Zona Central.

Mas é. Nós nos perdemos numa esquina que não tinha sinalização pra quem é de fora, e fomos parar no Iririú.

Por isso cheguei no último momento possível de iluminação pra registrar o encontro entre Mar e Terra.

5 minutos a mais, e essas imagens não teriam saído. Deus Pai/Mãe permitiu e deu certo, ainda que no limite.

Pus “praia” entre aspas porque Joinville tem mar sim, mas praia não. Pois não há faixas de areia.

Como também acontece em Paranaguá e Antonina, no Paraná, Santo Domingo no Caribe, e diversas outras metrópoles ao redor do globo.

……….

De volta a Joinville. Hoje a cidade tem mar, mas um dia não teve.

Ainda na próximo ao Centro, fotografei um jardim decorado com estátuas (em Ponta Grossa-PR também).

Explico: o bairro de Espinheiros, que é uma ilha e o único que tem litoral, antes não pertencia a Joinville, mas ao vizinho município de São Francisco do Sul. 

Alias isso nos leva a uma característica única de Joinville: 

O município vai aumentando de tamanho, pois absorveu dois bairros que pertenciam a seus vizinhos a leste.

Espinheiros foi incorporado de São Chico, como acabo de dizer.

Próximas 3: periferia da cidade, ruas de terra, casas de madeira.

E partes do bairro da Itinga se desmembraram de Araquari e foram anexadas ao município de Joinville.

Curioso isso, não? Geralmente no Brasil acontece o contrário, os municípios perderem área com emancipações.

Itaperuçu se separou de Rio Branco do Sul, e Pinhais de Piraquara, pra citar dois exemplos da Grande Curitiba.

Em Joinville o caso foi distinto. Não houve emancipação, e sim transferência.

Ou seja, nenhum município novo foi criado, e sim bairros de municípios já existentes se mudaram pra jurisdição de outro município também já instalado há tempos.

…….

Estamos vendo cenas do subúrbio proletário.

Esse é o perfil médio dos bairros mais humildes da cidade.

Muitas casas de madeira pois é Sul do Brasil. E ainda há muitas ruas de terra, já falo mais disso.

Joinville tem pouquíssimas favelas. Apenas umas 5, e bem pequenas.

Ao lado (na única foto que não tirei pessoalmente, essa foi via ‘Google’ Mapas) uma delas.

Próximas 6: classe média na Zona Central. No texto seguimos falando do subúrbio.

Pra meio milhão de habitantes, não está mal.

A proporção de miseráveis por habitante é mais ou menos a mesma de Santiago do Chile.

E essa é ao lado de Montevidéu-Uruguai a capital latino-americana com menos desigualdade social.

De volta a Joinville, há um mito que a cidade não tem favelas. é mentira.

Existem sim algumas pequenas invasões miseráveis na cidade. São poucas, pequenas e bem afastadas. Mas existem.

Se concentram nos bairros Ulisses Guimarães Paranaguamirim, na divisa entre as Zonas Leste e Sul.

…….

Então está dito. Sim, Joinville tem mar, e tem algumas poucas favelas.

Ainda assim, indiscutivelmente são raras. Até as encostas dos morros de Joinville não são favelizadas.

Não pense que esse é o padrão de toda Santa Catarina, amigo.

Porque em Blumenau, na Grande Balneário Camboriú/Itajaí e na capital Florianópolis a situação é diametralmente distinta.

………

Comparando Joinville e Curitiba: a capital do Paraná tem muito mais miséria. 

Nas próximas 2, imediações da Avenida Beira-Rio. Aqui a prefeitura (também cliquei as de Curitiba e Assunção-Paraguai). A esquerda mais palmeiras, essas são na Beira-Rio como dito, e não na ‘Rua das Palmeiras’ que sai na JK, mostrada logo a seguir.

Incomparavelmente mais, inclusive em termos per capita.

Bem, como disse, proporcionalmente Joinville iguala Santiago e Montevidéu, as duas capitais com menos favelas da América Latina.

(Nota: Buenos Aires, ao contrário do que muitos ainda pensam, é bem diferente, e está coalhada de miseráveis.

Breve grande série com tudo isso ilustrado, uma vez que eu estou indo pra Argentina na mesma semana em que levanto essa postagem pro ar.)

Já Curitiba segue o mesmo padrão de Buenos Aires, com intensa desigualdade social.

Mesmo bem próximo ao Centro há duas grandes favelas, as Vilas Capanema e Parolin.

Ambas já urbanizadas mas a situação segue problemática em muitos quesitos.

E nas periferias da capital paranaense há mais favelas ainda, obviamente, inclusive em morros.

Próximas 2: flores na Zona Central. Essa sim mostra a ‘Rua das Palmeiras’, evidente.

Pra compensar, Joinville tem muito mais ruas ainda de terra que Curitiba.

Bem, a capital do Paraná já pavimentou quase 100% de suas vias.

Evidente, quando surge uma invasão as vias são de leito natural, ao menos no início.

Registrei recentemente algumas na Cidade Industrial e entorno, Zona Oeste.

Mas afora isso, mesmo nos bairros mais periféricos é difícil ver uma via sem pavimentação no município de Curitiba.

Elas ainda existem, mas é preciso caminhar bem no subúrbio pra encontrar.

A maior cidade do interior catarinense ainda está por dar esse passo.

……..

Já seguimos com o texto. Uma pausa pras flores da ‘Cidade das Flores’.

Indo pro Espinheiros, fotografei mais uma ‘amarelinho’ Busscar, ao fundo a tempestade que se formava (esq.). Primeiro falemos do busão. A Busscar, que era de Joinville, começou como Nielson, e até 1987 só fabricava ônibus rodoviários.

Nesse ano ela lançou o modelo Urbanus. Em 1989 veio a mudança de nome pra Busscar.

Nos anos 90 a Busscar se expandiu enormemente, abriu filiais na Colômbia. Nesse país vizinho, que visitei em 2011, a Busscar é um ícone, quase um mito.

No auge, os anos 90 e a 1ª década do novo século, 100% da frota de Joinville era Busscar (incluindo municipais e metropolitanos). Ou pelo menos 99%, houve uma vez que fui lá e haviam uns pouquíssimos Comil, e somente numa linha, a pra Vila Nova se não me engano.

Porém a coisa desandou, e a Busscar faliu no início da década de 10. Aí as viações de Joinville tiveram que comprar de fabricantes diversos.

Ainda me lembro do choque que tive em 2013 ao ir lá e ver pela primeira vez outras marcas em grande quantidade, especialmente Marcopolo, Neobus (que é Marcopolo) e Comil.

Agora, em 2017, a frota joinvillense conta com enorme presença de busos mais novos dessas 3 montadoras gaúchas citadas no parágrafo anterior.

Atualmente os ônibus de Joinville contam com uma película negra ao redor das janelas, o que não ocorria antes. Há muitos Marcopolos também, mas as fotos que fiz deles não ficaram boas.  Na foto acima um Comil, nas duas próximas veículos da Neobus.

A esquerda um municipal saindo do Terminal Central (onde recentemente foram vistos ônibus de Curitiba e Recife-PE, operando emprestados em ‘Tabela Trocada‘).

Note mais uma vez a placa de rua com o nome antigo em alemão.

É claro, ainda há muitos Busscar remanescentes de antes da quebra.  Quando escrevo esse texto (início de 2017) circulavam rumores que a Caio de São Paulo poderia comprar a Busscar. Veremos se a negociação se concretiza.

“PRIMEIRA CHUVA A ESQUERDA”: O CÉU DE JOINVILLE –

Esse ônibus mais escuros (e sem película negra ao redor dos vidros) são metropolitanos, de Joinville pra Araquari ou pra São Francisco do Sul via Araquari. São Chico é uma ilha, tem praia e porto, e é outra cidade, ou seja, embora próxima não é um subúrbio de Joinville, pois  conta com mais de 40 mil habitantes, e tem vida econômica e cultural própria. Já Araquari é bem menor, e emendada a Joinville pelo bairro da Itinga. Assim, podemos dizer que Araquari é o único subúrbio metropolitano da Grande Joinville. Em Araquari está a fábrica da BMW no Brasil, se alguém não sabe.

E quanto a chuva: Joinville tem um problema crônico de enchentes, como é sabido. Comprovamos isso na prática.

Viram a tempestade que se armava quando nos dirigíamos pro Espinheiros. Na volta choveu forte. Apenas 20 minutos, mais ou menos. Ao chegarmos ao Centro o céu já havia limpado.

Mas cobrou seu pedágio. O Centro estava bastante alagado. Fotografei, mas como o fiz a noite e num carro em movimento não deu pra aproveitar as imagens.

Entretanto quem conhece Joinville sabe que é assim mesmo. E não chegou a cair água por meia-hora, ressalto de novo.

Imagino como teria ficado a cidade com uma hora, ou pior, com duas horas de chuva forte.

Como os joinvillenses indicam como chegar a sua cidade pra quem sai de Curitiba? “Você pega a BR-101, na 1ª chuva a esquerda é Joinville”. Essa piada já resume a intensa relação que a cidade tem com as nuvens carregadas e o consequente aguaceiro que cai do céu.

Aterrissemos de novo ao nível do solo. Veja acima com quais ícones o jornal local A Notícia identifica a sessão ‘geral‘:

Em Santa Catarina os pontos de ônibus são numerados. Essa é a segunda parada da Rua João Colin. Fotografei o mesmo na capital.

Arquitetura alemã; Rua das Palmeiras; Bicicletas; Bailarinas; Flores; o Moinho; e o último desenho não consegui decodificar.

Assim é o ‘ethos’, o ‘mito formador’, assim a Alma de Joinville enxerga a si própria.

No entanto, é preciso fazer um adendo: obviamente a gênese da cidade é germânica.

Mas muitos que não foram até lá podem imaginar que até hoje a imensa maioria dos joinvillenses é loira de olhos azuis.

E se duvidar alguns ainda nem sequer se comunicam em português nas ruas. O estereótipo gruda forte na mente das pessoas. Porém nada poderia ser mais distante da realidade.

Na colagem, um pouco dos hábitos alimentares: um refrigerante local – por isso me refiro ao Norte de SC, esse aqui é feito em Blumenau; Uma lanchonete bem simples do Centrão oferece mostarda preta. Como é o mapa da mostarda no Brasil? No interior do Sul é universal, oferecem inclusive a preta como é o caso aqui. Em Curitiba e São Paulo a essa versão mais forte é mais difícil, mas a clara está sempre presente. Em Belo Horizonte-MG existe mostarda nas lanchonetes populares mas menos. Enquanto que em Brasília-DF já é improvável achar, e no Norte e Nordeste é praticamente inexistente onde servem o povão, comum só na Beira-Mar e centros de compras onde vão os turistas; – Por fim: os catarinenses adoram pôr milho e ervilha nos lanches. Vi o mesmo em em Mafra/Rio Negro, na divisa SC/PR.

O tempo passou, os descendentes de alemães se abrasileiraram, e, mais importante, novas levas de imigrantes americanizaram totalmente a cidade.

(Nota: mais uma vez lembro que por ‘americanos’ me refiro sempre ao continente América, e jamais aos EUA, cujos habitantes são os ianques ou estadunidenses.)

Como Curitiba, na segunda metade do século 20 Joinville foi fortemente povoada por imigrantes do interior do Paraná. Por exemplo:

No bairro Comasa antes de Espinheiros há um subúrbio da cidade chamado nada menos que “Vila Paranaense”, o que sintetiza a questão.

Em relação a esses paranaenses de nascimento e joinvillenses por adoção, parte dos antepassados deles já haviam vindo do Rio Grande do Sul, e desses a maioria são também descendentes de europeus.

Fechamos a parte sobre Joinville como abrimos: mostrando o Portal. Uma síntese de como a cidade se vê, homenageando a arquitetura alemã, as dançarinas da balé e as flores.

Porém boa parte veio do Sudeste, especialmente São Paulo e Minas Gerais, que já têm uma composição racial diferente. Tudo somado:

É claro que a maioria dos Homens e Mulheres de Joinville são brancos, não a maioria loiros mas de tez mais alva sim.

Entretanto, há minoria significativa de negros e mestiços.

Se alguém crê que Joinville lembra os Alpes da Áustria na sua composição racial, nada pode ser mais fora da realidade, repito.

Énessa tomada que aparecem as boas-vindas de forma bilíngue, que citei acima.

Breve farei um desenho ilustrando essa situação.

Portanto, tanto na classe média quanto na periferia, Joinville é ligada ao Paraná,

Óbvio que ela também é fortemente conectada a Santa Catarina em muitas dimensões além da política.

Acabamos de ver isso nos pontos de ônibus e na alimentação, por exemplo.

Não estou querendo ‘roubar’ a cidade do estado vizinho. O que quero dizer é que Joinville é um Portal de Energia, se você entende o que esse termo significa.

(Talvez por isso seu símbolo mais forte na dimensão física é exatamente um portal, e por isso pus acima manchete essa imagem).

Conectando Paraná e Santa Catarina, unindo essas duas sintonias pra que a transição seja suave.

(e de brinde) “Vamos a praia”: itapoá, santa catarina

Joinville tem mar, mas não tem praia. E como nós queríamos ir a praia, entrar no mar, a solução foi ir pra Itapoá.

Ao lado vemos o amanhecer de5 de março de 2017 no mar de Itapoá.

Trata-se de uma pequena e jovem cidade. São apenas 14 mil habitantes fixos. Boa parte das casas é de veraneio, sendo porção significativa delas de propriedade de curitibanos.

Itapoá, como Joinville, é bastante ligada ao Paraná. Várias lojas aqui de Curitiba anunciam que entregam “no Litoral do Paraná e Itapoá”.

Quase que anexando na prática a 1ª praia catarinense (no sentido norte-sul) ao estado ao lado.

Itapoá foi desmembrada de Garuva em 1989. Por sua vez, até 1962 tanto Garuva quanto Itapoá pertenciam a São Francisco do Sul.

Seja como for, notam que eu fotografei “as Flores e o Mar”.

E também o Sol nascendo no mar, o que eu já havia feito em Bombinhas, também no Litoral Norte de Santa Catarina.

Em Itapoá pegamos forte tempestade, como ocorrera na véspera em Joinville. Registrei ela se formando sobre o Oceano.

E depois, debaixo do temporal muito intenso, cliquei   mais algumas flores e o atracadouro de navios da cidade.

O porto está em ampliação, e portanto trazendo mais empregos a Itapoá – na esteira, mais moradores fixos.

Sendo no Sul do Brasil, claro que não faltariam casas de madeira a Itapoá.

Mesmo do carro em movimento, consegui enquadrar uma em qualidade suficiente pra publicar, e abaixo você confere.

Enfim, adaptando a música, “É bom passar uma tarde em Itapoá, ao Sol que arde em Itapoá”.

Nesse caso o Sol ardeu mesmo, mas só de manhã. De tarde ficou tudo cinza e dá-lhe água e raios desabando das nuvens.

Foi bom também. Eu Sou Taoista, e gosto da chuva. Fechou com chave de ouro nosso FDS em SC.

Deus Pai-Sol/Mãe-Chuva proverá”

“João Pessoa é uma mãe”: uma cidade verde, de clima ameno e relativamente limpa

de Miramar ao Miramangue: João Pessoa é assim

muito-verde-periferia-j-pessoaPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado (em dois emeios) em setembro de 2013.

O primeiro é de 05/09/2013.

Com essa mensagem fechamos a série sobre João Pessoa. mangabeira-valentina-z-s-j-pessoa

É uma das cidades mais verdes do Brasil, e em verdade de todo o planeta. Já conheci uma boa porção da América.

Comprovam a tomada acima (não lembro qual bairro).

E especialmente essas duas ao lado e abaixo, que fotografei na Zona Sul: muitas árvores, mal vemos a cidade.

muito-verde-z-sul-j-pessoa1Enxergamos algumas construções, mas sempre envoltas num cinturão verde enorme. 

Os 4 lugares mais arborizados que já estive são João Pessoa, Curitiba, Maringá-PR e Assunção-Paraguai.

Em oposição, as menos arborizadas, as que parecem um deserto de concreto e metal, são a Cidade do México, Fortaleza-CE e, em menor medida, São Paulo.bayeux-z-oeste-gde-j-pessoa

Alias João Pessoa e Assunção se parecem muito em outro quesito: a periferia de ambas é meio rural, meio urbana.

As pessoas moram na cidade, e trabalham em ramos urbanos da economia: indústria, comércio, etc.

Ainda assim, por vezes residem em pequenas chácaras e ali criam animais e cultivam hortas e pomares.

bois-pastam-no-centro-de-s-rita-z-o-j-pessoaA direita por exemplo bovinos em Bayeux (tirada de dentro do trem).

A esquerda a mesma cena no Centro de Santa Rita.

Curitiba é tão arborizada quanto as capitais da Paraíba e do Paraguai, mas aqui não há essa fusão entre rural e urbano.

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Próximas 2: Pedras na Praia de Ponta Seixas, Extremo Leste da América.

Nos subúrbios mais afastados já urbanizados de Curitiba, ninguém cria animais, nem mesmo galinhas ou patos.

Claro, toda regra tem suas exceções (fotografei algumas aves nos extremos das Zonas Oeste e Norte, dentro da cidade).

E mais pra frente, sim, ainda há pequenos sítios e chácaras no município de Curitiba, mas aí já fora da cidade. Há zona rural e zona urbana, separadas.

A fronteira é mais clara. Como é em São Paulo (no Capão Redondo não há gente que cria galinha, em Parelheiros há) e na imensa maioria das cidades.

piscina-natural-ponta-seixas-j-pessoaMas João Pessoa e Assunção (nessa mensagem abordo especificamente esse tema no Paraguai) são diferentes, talvez por serem mais pobres.

Por décadas, conviveram com desemprego crônico estrutural.

Por isso, suas populações suburbanas deram um jeito de se auto-alimentar, gerar ali mesmo uma fonte de proteínas e também de renda.muito-verde-z-sul-j-pessoa

Vejam as fotos (antes das da praia): bois (retratados) e porcos (não consegui clicar, mas vi também) criados dentro da área urbana.

Tudo isso nos subúrbios metropolitanos de Bayeux, perto da linha do trem, e no Centro de Santa Rita, ambos na Zona Oeste.

cabras-vendidas-vivas-s-rita-z-o-j-pessoaMas não é só na Região Metropolitana.

Acima uma plantação de bananas em pleno Mangabeira, o bairro mais populoso de João Pessoa, na Zona Sul.

A esquerda: no Centro de Santa Rita uma loja que vende animais vivos, galinhas e cabras.mercado-publico-de-s-rita-z-o-j-pessoa1

Que ali são comprados pra serem engordados e posteriormente abatidos nas chácaras da região.

Em 2017 fui a África. Podemos dizer que é a cabra quem manteve e mantém o Continente Negro vivo nos tempos de fome aguda. É tradição criarem esses bichos em plena cidade, fotografei em Durbã, África do Sul.

………….

Bem, cruzemos de novo o Oceano e vejamos nas próximas duas fotos o mercado de Santa Rita, Gde. J. Pessoa. Que lá ainda é mercado mesmo.

mercado-publico-de-s-rita-z-o-j-pessoaIsso quer um dizer um lugar onde o povão do subúrbio compra alimentos a granel (ou seja, por quilo, não-industrializados e não embalados) e animais vivos pra fazer o rancho e preparar o almoço.

Pelo exemplo contrário ficará mais fácil entender: os mercado municipais de Curitiba e São Paulo (também o de Santiago do Chile), em oposição, se aburguesaram completamente.

Turistas endinheirados tiram fotos, em São Paulo comem aquele famoso sanduíche de mortadela que nem fecha de tão recheado, umas 5 ou 6 fatias em cada pão.

Aqui em Curitiba essa transição foi ainda mais pronunciada, o mercado passou por algumas reformas e mais parece um centro comercial da elite e burguesia.

Inclusive com uma praça de alimentação com chão de mármore e apresentações ao vivo de MPB. Entretenimento pra classe média, sem dúvidas.

O contraste com o Nordeste é agudo, onde o mercado ainda é usado pela massa proletária pra comprar animais que são abatidos na hora, como um dia foi no planeta inteiro.

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Favela Maria de Nazaré, entre o Grotão e Funcionários, Zona Sul.

Vi isso em Caucaia, um subúrbio da Zona Oeste de Fortaleza, dois anos antes, e agora de novo num subúrbio da Zona Oeste de João Pessoa.

………….

Já lhes disse que o clima de João Pessoa é muito mais ameno que o de outras capitais, como Fortaleza, Belém-PA, Manaus-AM, Cuiabá-MT e Teresina-PI, e segundo alguns mesmo que o do Rio de Janeiro.

Por dois fatores: pela cidade ser arborizada, e por essa região do litoral do Nordeste Brasileiro ser protegida por uma cadeia de montanhas, a Serra da Borborema.

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Muito verde no trecho urbano da BR-230, a “Trans-Amazônica”.

Pois ela retém a umidade que chega do oceano e cria uma zona fresca, com rios perenes e chuvas frequentes – um clima mais parecido com o prevalente no Centro-Sul, digamos assim.

Depois da serra, vem o chamado Sertão, o semi-arido, aí sim, clima desértico ou quase, onde água potável o ano inteiro é uma miragem.

Mas entre o Litoral com chuvas frequentes e o Sertão há uma região de transição, a famosa “Zona da Mata” em Pernambuco, que na Paraíba se denomina “Brejo”.

Voltando a capital, João Pessoa é muito verde, suas partes ricas e pobres são ponteadas por bosques, mangues e riachos, como observam nas imagens. Assim, de dia é quente mas agradável, e a noite até friozinho

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Parte rica e verticalizada da capital.

O contraste com Fortaleza é gritante. Não há uma barreira topográfica escudando a capital do Ceará e mantendo-a úmida.

A cidade foi erguida sobre o deserto, é muito mais tórrida e seca que a da Paraíba.

Fortaleza, lhes descrevi e fotografei quando lá estive, é “a Cidade das Lagoas”, em toda periferia foram construídos lagos artificiais, pro lugar não se tornar inabitável.

No Ceará o clima semi-desértico vai até a beira-mar, não há transição. Fortaleza só tem um bosque urbano, o Parque do Cocó, na Zona Leste, que como em João Pessoa é a parte rica da cidade.

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Próximas 5: João Pessoa tem muitas árvores, em todos os seus bairros.

O que faz com que na capital do Ceará o termômetro ferva até com Lua alta, só refresca de madrugada mesmo.

Entre 10 da manhã e 3 da tarde, com o sol a pino, supera os 40º com facilidade, ninguém consegue ficar ao ar-livre.

E mesmo bem depois do anoitecer você se sente no Saara, eram 9 da noite e o termômetro marcava 29º. Até aqui ainda estou falando de Fortaleza, pra fazer o contraste.

…………

periferia-bastante-verdeJoão Pessoa é uma cidade relativamente limpa.

Digo, em vários pontos o esgoto corre a céu aberto, incluso no Centro,

Infelizmente esse é o padrão de todo Norte/Nordeste, e América Latina incluindo Argentina.

Mas em relação a sujeira nas ruas, a coisa é bem melhor que em algumas outras cidades. joao-pessoa-pb1

Claro que tudo é relativo. Em certos locais há bastante lixo em João Pessoa, e quando vi fotografei (mais pra baixo nessa matéria mesmo exemplos).

Nada é perfeito, óbvio. Ainda assim, nesse ponto, J. Pessoa se destaca positivamente. Já vi coisa pior. Muito pior. Agora temos que falar de um ponto que está complicado em João Pessoa: a taxa de criminalidade está elevada,

muito-verde-periferia-j-pessoa1 Como de resto infelizmente é igual em boa parte do Norte/Nordeste, e também aqui em Curitiba.

Em 2012 houveram 518 assassinatos apenas no município de João Pessoa.

O que dividido pelos 700 e poucos mil moradores dá a elevadíssima taxa de 71 mortes pra cada 100 mil habitantes. Acima de 50 já é estatisticamente considerado como índices de guerra.

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Essa aqui é perto da Ponta Seixas.

São Paulo tem apenas 10 assassinatos pra cada 100 mil. Ou seja proporcionalmente é sete vezes mais calma que a capital paraibana.

Nos subúrbios metropolitanos, houveram perto de 140 mortes em Santa Rita, 45 em Bayeux (ambos Zona Oeste) e 60 em Cabedelo (Zona Norte). Totalizando quase 770 homicídios no ano na Grande João Pessoa.

Assassinatos aproximados per capita: Santa Rita perto de 115 por 100 mil, Cabedelo 100 por 100 mil, esses dois números dignos de estado de calamidade pública. E Bayeux se o dado estiver correto 45 por 100 mil, bastante elevado ainda mas o mais baixo da Gde. João Pessoa incluindo a capital.

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Bairro Bancários, quase na divisa entre as Zonas Sul e Leste.

Nos casos dos subúrbios metropolitanos os números estão arredondados, por eu não ter podido obter a estatística precisa.

Um pouco mais ou pouco menos, é isso aí, e dá pra ter uma boa noção. Já escrevi muitas vezes e é notório:

Nos anos 80 e 90, as capitais mais violentas do Brasil eram (não necessariamente por essa ordem) Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória-ES e Recife-PE

Nessas cidades a matança era equivalente a uma guerra, similares ao Afeganistão atual, e não é figura de linguagem mas estatisticamente exato.

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Próximas 6: Valentina, Zona Sul.

Porém, desde a virada do milênio a coisa mudou. As 4 acima citadas diminuíram seus índices de assassinatos.

São Paulo e Rio drasticamente. Na capital paulista a queda foi de 80%.

Tanto que proporcional a população São Paulo é a capital estadual menos violenta do Brasil, entre todas as 27.Vamos diferenciar diversos tipos de crimes.

No quesito de assaltos a mão armada, a capital paulista continua extremamente violenta. Aqui, estou falando de homicídios, e não de roubos.

valentina-zona-sul-j-pessoa1Em termos de assassinatos, de uma pessoa tirar a vida intencionalmente de outra, a violência em SP se reduziu e muito.

O município de São Paulo chegou a ter bem mais de 5 mil homicídios/ano, na virada do milênio, e agora tem perto de 1,2 mil. valentina-zona-sul-j-pessoa4

Dividido pelos 11 milhões que ali tem sua moradia, dá um índice de 10 por 100 mil, similar a de algumas capitais europeias. 

Hoje São Paulo tem menos mortes per capita que Florianópolis-SC, que historicamente ocupou esse posto por décadas.

valentina-zona-sul-j-pessoa3Já Vitória e Recife também tiveram queda nos índices de assassinatos, mas por hora ainda não tão pronunciada.

Estão melhores do que um dia foram, mas continuam entre as capitais mais violentas do Brasil.

E nessa triste competição ganharam a companhia de Curitiba, Belém, Manaus e quase todas as capitais do Nordeste.valentina-zona-sul-j-pessoa2

O Norte e Nordeste, além de Curitiba aqui no Sul, tirou do Sudeste o posto de polo maior dos homicídios em nosso país, processo que teve seu auge na virada da década.

De 2010 pra cá, os assassinatos caíram 20% tanto em Curitiba quanto em Belém, num promissor sinal que essa tenebrosa onda quem sabe começa a arrefecer.

valentina-zona-sul-j-pessoa5Tomara. Mas por hora é assim que está. Esse é o contexto: tristemente o Nordeste  se tornou extremamente violento.

E também pela Paraíba estar ao lado e ser uma ‘filha espiritual’ de Pernambuco (um dia compartilharam até a bandeira), João Pessoa não pôde escapar de ser tragada nesse ciclo de matanças.

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Bairro Funcionários, também Z/S.

………..

Quando cheguei a cidade, fui de táxi até a casa da anfitriã que lá me hospedou. O taxista era recifense.

Portanto com seu padrão de comparação curtido por anos vivendo na capital de Pernambuco – uma das cidades mais violentas do planeta há décadas.

Resultando que pra ele João Pessoa lhe parece uma cidade segura, e nada mais natural. Então ele definiu assim:

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Próximas 5: Mangabeira, bairro mais populoso da cidade, vizinho do Valentina.

Comparada com Recife, João Pessoa é uma mãe, de tão pacata”.

E quem pode dizer que ele está errado? Realmente, com Recife fica difícil comparar, até a violenta Curitiba se torna um pouco mais gentil vista por esse prisma.

Em Maceió a coisa também está complicada, tanto que em 2012 (o texto é de 2013) a Força Nacional interveio pra ver se os índices baixam um pouco.

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Mesma cena em outra escala.

A questão é que, as capitais pernambucana e alagoana a parte, João Pessoa é violenta.

Bem mais que Curitiba, Fortaleza e Salvador, que já não são nada calmas, o oposto sendo verdadeiro.

Ainda assim, mantive a frase do taxista no título da mensagem. Pacata João Pessoa não é. No entanto é muito verde, e relativamente limpa.

Uma cidade carinhosa com seus habitantes, que são seus filhos. Como o taxista, que é recifense por nascimento e joão-pessoense por escolha, colocou: “uma mãe de cidade”.

mangabeira-z-sul-j-pessoa4…….

Agora vamos pra outro emeio, que circulou em 27 de setembro de 2013.

O arroz-com-feijão tem no Norte e Nordeste gosto diferente que no Sul e Sudeste. Notei a mesma coisa na Paraíba, no Pará e no Amazonas. mangabeira-z-sul-j-pessoa1

Aí perguntei pra ela a razão: é o coentro, que é adicionado como tempero, hábito de lá.

……

João Pessoa é, como sua vizinha Recife, a “cidade dos mangues”. Estão por toda parte. 

mangabeira-z-sul-j-pessoaVários deles estão preservados e continuam a cumprir seu papel de porto seguro pra reprodução da flora e fauna nativas. Entretanto, algumas favelas foram erguidas sobre mangues aterrados.

Quando chove forte, o mangue alaga, obviamente (na 1ª mensagem da série pus fotos da favela do Bairro dos Ipês [ao lado da riquíssima Manaíra], na Zona Leste, inundada).

O que eles chamam de ‘maré’, mesmo sendo água doce e parada. Como diz a música de um grupo recifense, “Tomar banho de canal quando a maré encher”.

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Próximas 4: favela (ou “comunidade”) Maria de Nazaré, Zona Sul.

Perto da orla de João Pessoa, na Zona Leste, sua parte rica, há um bairro chamado ‘Miramar’.

Do lado oposto da cidade, na Zona Oeste metropolitana, sua porção degradada, há uma favela chamada ‘Miramangue’.

Pra fazer o contraste entre Leste e Oeste, que na capital da Paraíba parecem galáxias distintas. Por aí você vê quanto os mangues estão inseridos inclusive na cultura popular local.

…………..

favela-ma-de-nazare-do-grotao-z-s-j-pessoa1Em João Pessoa há muito transporte clandestino, inclusive rodoviário. Fui de ônibus urbano pro Centro, e desci no Terminal Central, que é em frente a rodoviária.

Assim que transpus suas catracas e ganhei a via pública, me assustei com uma gritaria infernal:

Bora pra Recife, bora pra Recife”, dizia um. “Natal, Natal, já tá saindo”, berrava outro, “Campina Grande, Campina Grande”, bradava ainda mais um, e muitos outros, todos juntos.favela-ma-de-nazare-do-grotao-z-s-j-pessoa4

Cada um anunciando seu transporte clandestino pra uma cidade da região, no interior da Paraíba ou nos vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Evidente, esses agenciadores piratas tentavam drenar o público que planejava se dirigir a rodoviária e comprar passagem no guichê de uma das empresas legalmente estabelecidas.

favela-ma-de-nazare-do-grotao-z-s-j-pessoaA algazarra é tamanha que impressiona os desavisados, como era meu caso. Um caos sonoro. Já havia presenciado exatamente a mesma cena em Belo Horizonte-MG.

………….

 A população da capital da Paraíba tem no geral um tom de pele moreno. Quase metade das pessoas se auto-denominam ‘pardos’ no censo. Mas eu diria que os pardos são bem uns 70% da população.

bairro-funcionarios-z-sul-j-pessoa1

Funcionários, próximo a Mª de Nazaré.

Agora, é porque lá é bastante calor o ano inteiro (amenizado um pouco pelo verde, umidade e brisa, mas mesmo assim), não há inverno por estar muito perto do Equador.

O que faz com que as pessoas vão escurecendo a sua tez, naturalmente. O povão joão-pessoense é moreno-escuro, na média.

Na maioria, são descendentes de brancos pobres, portugueses, que foram empardecendo com o sol quase equatorial.

Negros descendentes de africanos há alguns mas não muitos, se quer saber. Na mesma proporção que Manaus e Curitiba, ou seja, pouco mais que 10% da população. Talvez um pouco mais, mas certamente nada tão significativo.

………….

bairro-do-geisel-z-sul-j-pessoa

Próximas 5: bairro Geisel, pra encerrar esse rolê na Zona Sul da capital paraibana.

Em todo o Sudeste (nesse caso com raríssimas exceções) e Nordeste brasileiros, e também no eixo Brasília/Goiás, não há casas de madeira, como já comentamos muitas vezes.

Elas são extremamente comuns no Sul e no Norte, e presentes em menor número no Mato Grosso. A Paraíba não foge a essa regra. Quase que 100% das residências de João Pessoa são de alvenaria.

Mesmo nas favelas – alias as favelas nordestinas são sempre de alvenaria, ao contrário do Sul do país. Digo, há na Paraíba ainda algumas casas de taipa, ou pau-a-pique, mas fora isso é só tijolo.

Além disso, quase 100% das moradias de João Pessoa são cobertas por telhas de barro. Por ser muito calor, o eternit de amianto é quase inexistente, porque senão a casa vira um inferno de tão tórrida. O cara gasta o que tem e o que não tem pra por telhas.bairro-geisel-z-sul-j-pessoa

Já falamos muitas vezes de como os telhados se dividem no Brasil. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e também na Bahia, na periferia a grande maioria das casas são de eternit.

Não apenas nas favelas. Conjuntos construídos por grandes empreiteiras, com escritura e asfalto, água e luz regularizadas, também são cobertos dessa forma, que é mais barato.

Apenas a classe média-alta e os ricos usam telhas, um luxo apenas decorativo nessa região menos quente.

bairro-do-geisel-z-sul-j-pessoa2Em Pernambuco, é a transição. As favelas piores do Recife são de eternit. Mas a periferia fora da favela já é de telha.

Da Paraíba até São Luiz-MA, mesmo nas favelas mais miseráveis as casas são de telha, simplesmente porque é calor demais.

No Norte, mesmo sendo muito quente, o eternit volta a predominar. Bom, nada é tão ruim que não possa piorar. Nas favelas da Colômbia e do Chile ainda há barracos de zinco.bairro-do-geisel-z-sul-j-pessoa1

Vi isso com meus próprios olhos, muitos casos em que as paredes e o telhado feitas com restos de tapumes e folhas de metal.

Alias no Chile mesmo fora das favelas. Como nas notórias “Cidades de Lata”, as favelas metálicas sul-africanas.

…..

geisel-z-sul-joao-pessoaSabe aquele sorvetinho em que congelam o ki-suco e põem num saquinho? Na Paraíba se chama ‘Din-Din’.

Pelo que estou observando pelo ‘google’ mapas, no Amazonas também – não reparei nesse detalhe quando lá estive. Já aqui em Curitiba se chama ‘Xup-Xup’,

 No Rio é o ‘Sacolé’ (mesmo termo empregado lá pra pequena dose de drogas, porque tanto o entorpecente quanto o sorvete são embalados num plástico pequeno com a boca amarrada).

ponta-do-seixas-j-pessoa1

Entre Ponta Seixas e Cabo Branco, Z/L.

E no Pará é o nome mais engraçado de todos, é o ‘Chopp’, ou ‘choppinho’.

Se você estiver em Belém e alguém te convidar pra ‘tomar um choppinho’, não imagine a mesa de bar forrada de copos com a cerveja recém-saída do barril, acompanhada de várias porções de petiscos.

Nada disso. Trata-se de um singelo sorvete vendido num saquinho.

………

Comentemos as imagens. Você sabe, nem sempre o texto ao lado se refere a cena que está mais perto, busque pelas legendas. Vemos as seguintes fotos espalhadas pela página:

avenida-sem-calcada-cabo-branco-j-pessoa– Grande área verde, inclusive com plantação de bananas, na região mais povoada do município de João Pessoa, os bairros Mangabeira e Valentina, Zona Sul;

– Acima (em 1° plano uma flor) e ao lado Cabo Branco e imediações, Zona Leste, também muitíssimo arborizado.

O detalhe negativo é a falta de calçadas, obrigando os pedestres a duelarem contra os carros por um espaço na rua;piscina-natural-na-ponta-seixas-ao-fundo-manaira-j-pessoa2

– A Praia da Ponta Seixas (dir.), como já dito muitas vezes e é notório o ponto mais oriental de toda América, com suas piscinas naturais formadas pelos arrecifes;

O que permite que pescadores exerçam seu ofício sozinhos e sem nenhum equipamento especial ou tecnologia, mantendo o mesmo estilo de vida de dezenas de milênios.

garcas-e-cavalo-no-centro-de-s-rita-z-o-j-pessoa– Cavalos e garças (mesma tomada em 2 escalas) convivem em harmonia no Centro de Santa Rita, Zona Oeste da Grande João Pessoa.

No mesmo local, do outro lado da rua, são os bovinos quem se refastelam com o verde prado paraibano;

– Bois pastando também em Bayeux, também na Z/O mas bem longe de onde onde está o cavalo (as fotos dos bois estão mais pro alto na matéria).garcas-e-cavalo-no-centro-de-s-rita-z-o-j-pessoa1

Isso pra vocês verem o quanto é frequente criar animais no meio da cidade em João Pessoa;

– Cabras igualmente são bichos urbanos por lá. Como é notório pra todos que conhecem a cultura nordestina, os caprinos são um “faz-de-tudo” no Sertão:

centro-j-pessoa

Centro Velho de João Pessoa.

Fornecem comida, pele pra confecção de roupas, companhia e guarda das casas, e se preciso até meio de transporte de cargas.

Tendo 1001 utilidades, são o ‘bombril’ dos animais, substituindo suínos, bovinos, ovinos, caninos e por vezes até os asininos.

Vimos o mercado de Santa Rita. No Nordeste, os mercadões não se aburguesaram como no Centro-Sul, o povão ainda faz o rancho comprando alimentos a granel e animais vivos ali;mulher-se-protege-do-sol-j-pessoa

– Mulher se resguarda do Sol (dir.). E nem foi a única na Paraíba. A exata mesma cena já presenciada nas viagens a Belo Horizonte, Belém e República Domincana.

Vejo muito, nas cidades mais quentes, pessoas sob guarda-sóis, e são sempre Mulheres.

penha-entre-z-sul-e-leste-j-pessoa-pbNunca vi um Homem se protegendo dessa forma (talvez por nós usarmos bonés). Em João Pessoa isso se repetiu.

A capital paraibana é muito mais fresca que Belém, então vi muito menos gente se escondendo do Sol dessa forma.

Digamos que o calor de João Pessoa equivale ao de Belo Horizonte. Se o número de Mulheres abrigadas em guarda-sóis é o parâmetro, essa é a proporção exata;limpeza-centro-j-pessoa

– A imagem de Nossa Senhora da Penha (acima) guarda o bairro de mesmo nome, na orla da Zona Sul de João Pessoa, logo após a Ponta Seixas.

Um lugar bucólico, poucos carros, muitas árvores, tudo a poucos passos de praias deslumbrantes – já falo mais disso;

lixo-no-centro-j-pessoa– Acima e ao lado, uma equipe da prefeitura recolhe o lixo e entulho, bem no Centro. É tanto que precisaram usar um trator.

Não apenas ali, mas (abaixo) sujeira também no Cabo Branco, Zona Leste, a duas quadras do mar.

Eu disse que João Pessoa é relativamente limpa. De fato. Ainda assim, como todas as cidades, tem pontos muito sujos;lixo-na-rua-cabo-branco-z-l-j-pessoa

– Note na tomada em que aparece o caminhão mais um rapaz com uma camisa de futebol alvi-negra.

Como já comentamos antes, essas são as cores de dois dos times de maior torcida no estado, o Botafogo de João Pessoa e o Treze de Campina Grande;

ponta-seixas-z-l-j-pessoa1– Próximas 3: bairro da Ponta Seixas, uma quadra do mar:

A orla da Zona Leste é badalada, a da Zona Sul é pacata, em alguns pontos quase rural. A Praia da Ponta Seixas, que divide ambas, já é a transição.

Veja, algumas casas são muito elegantes, mas o bairro é calmo e arborizado, e ainda não foi de todo ocupado. Incluso algumas ruas ainda tem pavimentação natural. Não há trânsito ou qualquer tipo de comércio.bairro-ponta-seixas-j-pessoa

A poucos metros do mar, e a poucas centenas de metros do Cabo Branco e Altiplano, dois dos bairros mais ricos de J.P., não custa lembrar;

– Anoitece na Zona Sul de João Pessoa.

Vários dos bairros da região começaram como enormes conjuntos habitacionais que depois se consolidaram e mesmo alguns elevaram-se a classe média.

ponta-do-seixas-j-pessoa2O bairro do Geisel surgiu com a Cohab de prédios Conjunto Residencial Presidente Ernesto Geisel. Retratado na foto abaixo (se reparar com cuidado vê o nome dele escrito no muro).

Alias peço desculpe pelo enquadramento deficitário. É que essa imagem e várias outras tirei de dentro de veículos em movimento.

O gaúcho Geisel foi o penúltimo presidente do regime militar. Quem o sucedeu, e portanto enfim passou a faixa a um civil, foi o carioca João Figueiredo. Pois bem. João Figueiredo é filho de Euclides e Valentina Figueiredo cohab-geisel-j-pessoa-z-sul

– Não muito longe do bairro Ernesto Geisel, também na Zona Sul, há o bairro “Valentina” pros íntimos, mas cujo nome completo é Conjunto Valentina Figueiredo.

Valentina é o 2° bairro mais populoso de João Pessoa, e vizinho do 1°, que é Mangabeira,esse surgiu sobre uma fazenda em que se plantavam mangabas, como o nome indica.

anoitece-zona-sul-j-pessoa

Próximas 4: Anoitece na Zona Sul.

Portanto os dois maiores bairros em população são emendados, configurando em conjunto a porção mais povoada da capital, disparado.

Alguns bairros homenageiam os generais-presidentes porque a urbanização da região começou justamente no fim do regime militar.

Além do Geisel e Valentina Figueiredo, bem pertinho na mesma Zona Sul há o Costa e Silva e Loteamento Presidente Médici.

anoitece-no-geisel-z-s-j-pessoa

Geisel.

Em outra parte da cidade o campus da UFPB fica no Conjunto Castelo Branco.

Como ocorreu em diversas capitais, já no seu apagar das luzes, no encerramento de seu período no Palácio do Planalto os militares enfim investiram um pouco na área social:

Melhoraram a rede de transportes de diversas cidades (feito amplamente já comentado por mim em mensagens anteriores) e construiram cohabs.

anoitece-valentina-z-sul-j-pessoa

Próximas 2: Valentina.

Elas eram em locais ermos, fora da então mancha urbana prevalente, na época área rural que começou a se tornar urbana com a construção desse enormes conjuntos.

Assim, voltando especificamente a Paraíba, vários bairros da Zona Sul de João Pessoa surgiram nessa ocasião.

Outro que começou como conjunto e depois evoluiu a categoria de bairro independente, com toda a gama de serviços, é o ‘Funcionários’.conjunto-valentina-figueiredo-z-s-j-pessoa

Que certamente foi erguido pra ser um meio de moradia subsidiada a empregados no serviço público. Existe também o bairro Bancários, de origem análoga, mas específica pra servidores dos bancos.

De volta aos bairro ‘Funcionários’, Z/S de Jampa. Entre ele e o vizinho bairro do Grotão, está a favela Maria de Nazaré.

Como veem pelas legendas das imagens, estive em todos esses locais, e registrei como são.

– Fechamos a série como abrimos, com as praias lindíssimas que enfeitam a capital da Paraíba.

praia-da-ponta-seixas-j-pessoa1Aqui, mais uma vez a da Ponta Seixas, o ponto mais oriental da América, e que portanto recebe o primeiro raio de Sol em todo continente.

Com imagens como essas, nem há como dizer qualquer outra coisa.

Então só me resta despedir. Eis como vi a Paraíba. Do Miramar ao Miramangue, da Zona Leste a Zona Oeste, João Pessoa é assim.pescando-na-ponta-seixas-j-pessoa2

Que Deus ilumine toda a Humanidade.

Paz a todos.

Deus proverá”

Soteropolitano

cidade-baixaPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 21 de janeiro de 2017

Os desenhos são inéditos.

as fotos são de um emeio que foi publicado em setembro de 2015.

Marília e Maurílio (e mais a filhinha deles) em Salvador, Bahia. Eles moram numa quitinete em cima de uma laje na última expansão da Cajazeiras. Já quase na divisa com Simões Filho. Se você conhece a capital da Bahia, sabe o que isso quer dizer.

De segunda a sexta Maurílio é motoqueiro, ganha a vida fazendo entregas. As vezes até faz bicos a noite numa pizzaria, na mesma função.

A direita vemos ele pilotando seu instrumento de trabalho, enfrentando o pesado trânsito da Avenida Suburbana.

E no domingo ele e a esposa foram passear no Centro, por isso a 1ª imagem mostra eles na Cidade Baixa, o famoso Elevador Lacerda ao fundo.

……..

Comentemos primeiro a cena em que está toda família: a menina ainda se alimenta dos peitos da mãe. Enquanto Marília amamenta, o maridão ‘papai fresco’ segura as bolsas, a do bebê e também a bolsa de Mulher da esposa, que é da Minnie e com bolinhas vermelhas.

caixa

Esse desenho não se relaciona com o texto. Marília trabalhando como caixa. Aqui, ela é de novo a típica representante do Sul do Brasil, loira natural. Com a camiseta de marca combinando com suas unhas laranjas. Fazer o que, se alguém tem que ser chique e elegante?

Ao lado eu mostro outra Marília, essa Sulista, cheia de charme. Pois bem. A Marília Nordestina também é sempre elegante. Ela não tem dinheiro pra comprar roupas de marca, na verdade nem mesmo se importa com isso.

Mas nem por isso ela é menos elegante. Veja, ela combinou o vestido com sua tatuagem pois ambos são floridos. E mais uma echarpe.Como na Bahia é muito quente pra usar no pescoço, ela amarrou na cintura.

Também fez a ‘mecha californiana‘, pras pontas de seu cabelo ficarem mais claras que a raiz.

Não tem jeito. Mesmo sendo uma dona-de-casa suburbana, Marília nunca deixa de ser charmosa. Tá no DNA dela….

Quanto a pequena princesa, mesmo quando deixar o berço ela terá que dormir por um bom tempo ainda no quarto dos pais.

É que a família aumentou mas o orçamento continua o mesmo. A casa deles é só a famosa ‘quarto-&-cozinha’. Há um pequeno banheiro, claro. Mas não há sala, lavanderia, quintal, garagem, e nenhum quarto extra. É preciso se adaptar a essa realidade.

Vamos aproveitar o busão (Busscar da Bahia Transportes Urbanos – B.T.U.) e mostrarmos algumas características da busologia baiana. Um dia farei uma mensagem onde ilustraremos com dezenas de fotos, mas por hora serve de aperitivo.

buzu

Busscar da BTU ainda na pintura livre.

Vou falar de um tempo que já se foi, da era pré-padronização de pintura e pré-letreiro eletrônico.  Num passado não muito distante, em Salvador, os ônibus tinham:

1) pintura livre; 2) entrada traseira e saída dianteira; 3) o letreiro menor, onde vinha o n° da linha, era vermelho.

Portanto não é porque esse ônibus é vermelho que o letreiro do número é da mesma cor, isso valia pra todas as empresas.

4) Quase todo o itinerário vinha no para-brisas, em épocas mais remotas pintado a mão com giz, e mais recentemente mais organizado numa grande placa ou adesivo. Nesse desenho pegamos a transição, há a placa mais organizada mas pra garantir escreveram ‘Paripe’ e ‘Lapa’ a mão.

E 5) existe uma letra (‘B’, nesse caso) também adesivada bem grande no vidro. Isso também ocorre em outras metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre-RS. É que nas grande avenidas passam dezenas de linhas de ônibus, então é preciso dividir elas por pontos diferentes:

a-familia-cresceu

Combinando o vestido com a tatuagem. Marília é sempre charmosa, mesmo com o orçamento apertado.

Algumas param no ponto ‘A’, outras no ‘B’, se tiver mesmo muitas abre-se o ‘C’ e mesmo a letra ‘D’ existe nos corredores mais carregados. As vezes são números, a função é a mesma.

Tem mais. Já que falamos da cor dos bichões da BTU. Essa foi uma das poucas viações que não adotou a “padronização branca” voluntária do começo desse milênio. 

Explico. Até o meio da década de 10, ainda era pintura livre na capital da Bahia, só padronizou oficialmente um pouco antes da Copa do Mundo-14.

No entanto, na década passada houve uma “padronização informal” na cor branca. A maioria das viações adotou uma pintura em que o branco era majoritário, embora houvesse detalhes em outras cores.

Foi voluntário, um acordo entre as viações talvez pra facilitar o remanejamento da frota entre elas. Não foi imposto pelo poder público. Logo, aderia quem quis. A maioria quis, e ficou sem cor em pelo menos metade do veículo (aqui vemos um exemplo da BarraMar).

Na época se comentava “em terra de gente negra, o ônibus é branco”. Bom, na África as vans de transporte coletivo são (quase sempre) alvas, do outro lado do Oceano o mesmo espírito se manifestou na Boa Terra.

papai-maurilio

A família cresceu. Repito a imagem mas mudo o foco, dessa vez centro a câmera nele, pra gente ver melhor o sorriso de orelha-a-orelha de Maurílio quando está junto com as duas Mulheres de sua vida.

Pois bem. A BTU não quis participar, não aderiu a “padronização branca” informal. Seus busões continuaram multi-coloridos enquanto foi permitido por lei.

Agora, quando veio (pouco antes da Copa de futebol, como dito) a padronização ‘Integra Salvador’, aí a BTU entrou porque foi compulsória, importa pela prefeitura.

A ‘Integra’ também inverteu a entrada pra frente, em todas as viações obviamente.

…………………

Aqui acaba a parte inédita.

Pra encerrar enxerto um emeio publicado em 4 de setembro de 2015.

puxadinho no prédio: salvador também é (áfrica na) américa
salvador1

Perambués, Salvador.

Debatemos recentemente o fenômeno do “puxadinho no prédio” no Chile. E anteriormente na República Dominicana, apelidada “África na América”.

Veja bem. Não estou falando de puxadinho em casa, nem em “prédio artesanal” (‘subindo laje’), quando sobem um andar por vez. Isso existe em toda América Latina e boa parte de Ásia e África.

E sim quando há um prédio, legalmente construído, com alvará e tudo. E aí sem alvará alguém sobe mais um andar por conta – ou no caso chileno faz mais um cômodo suspenso. Isso eu só tinha visto nesses dois países.

Porém acabo de presenciar o mesmo em nossa Pátria Amada (via Google Mapas): bairro Perambués, periferia de Salvador da Bahia. Depois, indo pra outros bairros, constatei que a situação é a mesma na cidade inteira, ao menos na periferia. Veja que beleza!!! Salvador é América, óbvio. E como é. A própria essência Americana desdobrada na matéria.

salvador

Visto mais de perto.

Atualização de 2017: em julho de 2016, quase um ano depois do emeio acima, fui a Aparecida-SP. Lá também é comum adicionarem mais andares em prédios já prontos.

Embora no caso paulista como inclusive no Centro aí creio que a maioria dos prédios tem alvará pra reforma. Pode ser.

Mas a impressão é a mesma. Veja a matéria sobre a “Cidade da Fé”, fotografei a situação que relato acima. Deixando o interior paulista pra lá, vamos continuando pela Bahia. . . Pois o melhor estava por vir.

salvador-2Seguindo pela mesma rua em Perambués, olhe o que eu vi: pessoas andando sem nenhuma proteção na caçamba de caminhões. E não foi a única vez em Salvador que presencio isso. Exatamente como na África do Sul, República Dominicana, México e Colômbia. 

Ah, América querida. Por que você é assim???

“Deus proverá” 

Linha Turismo: a Curitiba que sai na TV

lado a, lado b: esse é o lado ‘a’ da cidade

outra postagem: "Linha Turismo, Curitiba Sai na TV" Parques mapa ctba desenho divisão zonas área verde itinerário roteiro traçadoPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 6 de janeiro de 2017

Em dezembro de 16, andei novamente na Linha Turismo.

E dessa vez eu fotografei os bairros pelos quais o ônibus passa. Digo, na matéria original (sem incluir atualizações) todas as fotos são de minha autoria, mas nem todas desse dia.

A imensa maioria sim, mas algumas imagens puxei do arquivo, afinal se eu já tinha aquela cena registrada por que repetir?

Museu Olho Centro Cívico z/c ctba oscar niemeyer escultura

Aqui e a esquerda o tótem: ‘Museu do Olho’ (Oscar Niemayer), Centro Cívico, Z/C.

Feitos esses apontamentos técnicos, bora de volta falar da Linha Turismo. Já levantei pra rede algumas flores que estão no roteiro.

No mapa vemos o trajeto do ônibus 2 andares. Como eu já disse antes e é notório: a Linha Turismo concentra 95% do trajeto nas Zonas Central, Oeste e Norte.

Na Zona Leste ela entra rapidíssima (só o Jardim Botânico) e a Sul ela ignora por completo.

……..

Pois aqui, repetindo, é “a Curitiba que sai na TV”, o “Lado A” da cidade. Pra complementar essa matéria, veja o “Lado B”, exatamente o contrário, a “Curitiba “que não sai na TV”.

totemAlém desse, em vários outros textos nós mostramos a parte da cidade que não é turística. Por exemplo, eis o ‘Portal da Zona Sul’, que não foi contemplada com a passagem desse ônibus.

Ali estão ancoradas diversos ensaios fotográficos que fiz em bairros periféricos da Z/S. Quem não é daqui vai então ficar sabendo o porquê do roteiro ter sido assim traçado.

……….belem

A periferia, não apenas a austral mas de toda Curitiba e Região Metropolitana, é abordada em outros ensaios. No tema de hoje nós vamos ver a porção turística, rica, e arborizada da capital do Paraná.

Vou descrevendo o trajeto, bem ilustrado com fotos. Quando eu já tiver feito outras postagens sobre aquele bairro, eu dou a ligação em vermelho.

arco-polonesTudo isto posto, vamos lá.

Eu comecei no ‘Museu do Olho’ (Oscar Niemayer), Centro Cívico, na Zona Central. Visto acima nas tomadas legendadas.

Cruzamos o Rio Belém (dir.).jd-schaffer-4

Acima, entrando num pequeno trecho da Mateus Leme, passamos sob o Portal Polonês.

Bem próximo ao Bosque João Paulo 2°.

jd-schafferFiz um desenho em que mostro o Belém, o Bosque do Papa e o Museu do Olho ao fundo.

Acima e nessa imagem ao lado: Jardim Schaffer.

Uma região de alto padrão, como notam, onde está o Bosque Alemão.

Não pude fotografar esse parque porque ele ficou a direita do ônibus.

pedreira ctba z/n abranches rua portões portão entrada portal bosqueE como vocês notam em várias tomadas, eu me sentei a esquerda do busão.

Pelo mesmo motivo não cliquei o Parque Tanguá, Jardim Botânico, entre outras paradas.

Peço desculpas, mas não havia como ficar trocando de banco, tive que escolher um assento e me fixar nele.

ópera arame abranches Z/N bosque teatro ponte metal ferro árvore verde parque lago águaSeja como for, o Schaffer (cujas algumas ruas têm nome de compositores de música clássica) não é um bairro independente, mas uma ‘vila’.

Uma vila de elite, claro. Ainda assim, os bairros a que o Schaffer pertence são a Vista Alegre e Pilarzinho, na divisa entre as Zonas Oeste e Norte.

Já pedi desculpas e expliquei porque não fotografei o Bosque Alemão e Parque Tanguá. parque são lourenço outra postagem: "Linha Turismo, Curitiba Sai na TV" z/n placa vertical ctba canal tótem totem árvore bosque banca lanchonete comércio trânsito avenida ladeira

Nas duas fotos acima vemos o Abranches.

A direita acima é o portão de entrada da Pedreira Paulo Leminski.

geminado-pilarzinhoE passarela dá acesso aquela construção tubular redonda entre o verde que é a Ópera de Arame.

A passarela também é de arame, e portanto vazada. Por isso criaram a ‘Faixa do Salto-Alto‘ no canto.

Já fiz matéria específica sobre a região, onde eu explico melhor a história.verde-4-pil

Curiosidades calçadistas femininas a parte, a rua da Pedreira e Ópera (João Gava) desemboca no Parque São Lourenço. Acima a direita o tótem dele.

Depois o busão retorna ao Pilarzinho.

As próximas 8 imagens (contando a partir dos sobrados geminados a esquerda) são desse grande e populoso bairro da Zona Norte.

pilarzinho-4Alias como veremos por seu considerável tamanho o Pilarzinho tem uma heterogeneidade social muito grande.

Antigamente o bairro já tinha sua porção mais central bem aburguesada. madeira-pilarzinho-3

Mas sua parte mais afastada do Centro, bem próxima de Tamandaré, era periferia mesmo.

Agora o aburguesamento avança rum ao subúrbio, então tudo convive:

pilarzinhoSobrados triplex de meio milhão de reais (ou mais), sobrados mais simples e prédios classe-média.

E ainda restam certas partes de periferia com casas simples de madeira e mesmo algumas favelas.

……..pilarzinho-5

Alguns detalhes se sobressaem:

Veja quanta área verde.

Nas Zonas Norte e Oeste Curitiba é uma das cidades mais arborizadas do mundo.

lote-pilarzinho-2Próximas 2 tomadas:

Ainda no Pilarzinho, vemos a periferia típica do Sul do Brasil. Como já falamos muitas vezes:

Casa de madeira;

lote-pilarzinho

Aqui se encerra a sequência do Pilarzinho.

Terreno enorme, dá pra fazer um campo de futebol;

– Muro baixo, ou mesmo uma cerquinha de madeira;

– Sem calçamento nem fora nem dentro do terreno.

Flagramos até um Fuca na ativa!, como você pode observar.

Mas tudo isso está mudando.

taboaoA Zona Oeste e em menor medida vários bairros da Norte concentram boa parte dos grandes terrenos ainda vagos dentro da cidade.

Fora dali, isso só acontecia até recentemente também no Uberaba (Zona Leste) e Xaxim (Zona Sul).

Por isso todos esses bairros foram os que mais cresceram nas últimas duas décadas e meia.

pq-tingui-3Exatamente por terem mais espaço disponível.

Repare que na foto acima da do Fusca o gigante terreno já tem placa de vende-se.

Logo será um condomínio, horizontal ou vertical.

A direita mais um prédio novo, no bairro Taboão, vizinho ao Pilarzinho. pq-tingui-7

……….

Vamos cruzar o Rio Barigüi.

E portanto saímos do Pilarzinho, Zona Norte, e voltamos a Vista Alegre e a Zona Oeste.

É a vez do Parque Tingüi, um dos muitos as margens do Barigüi.

pq-tingui-6Acima a esquerda exatamente a área verde ao redor do lago formado pelo represamento do Rio.

E depois duas pontinhas de madeira (uma pra pedestres e outra pra veículos) cruzando-o.

O Memorial Ucraniano (esq.) também fica no Pq. Tingüi.

Saindo do parque, vemos ao lado aquilo que te falei:

vista alegre z/o ctba sobrado condomínio fechado classe média alta moto céu nuvens eliteConstruções relativamente novas de classe alta e média-alta.

São recentes, como dito. A região era pobre antes do parque (pois é bem no subúrbio, a poucos metros de Tamandaré).

E ainda restam algumas casas bem humildes, onde se cria até galinhas, bordejando essa área verde.

Mas nada disso não dá pra ver do ônibus.

madeira-vista-alegre-2

Também Vista Alegre: sobrado bi-modal (alvenaria/madeira), muito comum no Chile, em Santos-SP e na Ucrânia.

……

Digo, essa ao lado do Tingüi não dá mesmo.

Mas logo a seguir a Linha Turismo entra em Santa Felicidade, e o mesmo se repete: 

Ainda há casas que criam galinhas, dentro da cidade.

Nas próximas duas tomadas abaixo (a mesma em escalas distintas) comprovamos o que falo.

criacao-de-galinhas

Próximas 8: Santa Felicidade, Z/O.

Ressalto, aqui é Santa Felicidade, já longe do Pq. Tingüi.

O Extremo Oeste da cidade ainda mantém pequena área rural.

Em outros bairros da Z/O (não atendidos pela Linha Turismo) ocorre o mesmo, e nesses eu fotografei melhor.

galinha-sf……..

Mudou o bairro, e até a ‘zona’ (de Norte pra Oeste).

Mas muitas cenas em S. Felicidade são similares as que víramos no Pilarzinho:

– Muita área verde;

– Terrenos enormes;lote-santa-felicidade

– Várias dessas matas e lotes com casas humildes já a venda;

– Moradias humildes sendo muitas e muitas na madeira;

Adensamento, aburguesamento com o surgimento lote-santa-felicidade-2de condomínios;

– E até pequenas invasões.

…….lote-santa-felicidade-3

Agora vamos falar das características próprias de Santa Felicidade (e seu vizinho menor Cascatinha, que fica no caminho):

É a região italiana da cidade por excelência.

vinicolaEntão a Av. Manoel Ribas concentra enormes restaurantes (onde se serve frango, polenta, maionese e massas), vinícolas e o comércio moveleiro.

Ao lado vemos uma casa de vinhos.madalosso

Mas a maior atração de S. Felicidade vem agora. ‘Maior’ não é figura de linguagem.

Eu disse que os restaurantes são enormes.

Pois bem. O Madalosso (dir.) é nada menos que o segundo maior do mundo.

buso-2Maior da América, maior de todo Hemisfério Ocidental, maior de todo Hemisfério Sul.

O Madalosso serve 4,6 mil pessoas, simultaneamente.

Isso em condições normais, aberto ao público em geral.

Segundo se diz, o recorde do Madalosso foi numa campanha eleitoral pra presidente, em que Maluf (sim, aquele Paulo Maluf) fechou a casa e pagou o jantar pra 5 mil pessoas.

Próximas 2: Av. Manoel Ribas, Cascatinha e imediações. Aqui o Portal Italiano.

Corre essa história, mas eu não posso confirmar se é verdade.

O que é fato comprovado é a capacidade normal de 4,6 mil. Maior que ele em todo planeta, só um restaurante que fica na Ásia, no Hemisfério Norte e Oriental.

Pra fecharmos a foto do restaurante, a direita mais pra cima: nota que os táxis em Curitiba são laranjas com quadriculado preto.

O subúrbio metropolitano de Tamandaré xerocou a pintura.

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Loja de móveis.

A prefeitura de Curitiba não gosta dessa cópia que cheira a pirataria, mas não pode fazer nada.

Agora a imagem que aparece um busão amarelo, justamente voltando do Terminal Santa Felicidade:

Foi feita quase em frente ao Madalosso.

O que quero chamar a atenção aqui é que em seu trecho final a Manoel Ribas é de paralelepípedos, calçamento que já foi bem mais comum em Curitiba.

………..

Parque e Rio Barigüi.

As 2 acima, onde aparecem o carro vermelho (esq.) e o Portal (dir.) estamos na Manoel Ribas, mas antes de chegar a Santa Felicidade.

O Portal Italiano fica nos fundos do Parque Barigüi.

Diz “Santa Felicidade”. Estamos a caminho dela, mas ali naquele ponto ainda não é esse bairro.

torre-teleparE sim a divisa das Mercês com Vista Alegre.

Assim que cruzamos o Rio Barigüi que nomeia o mais famoso parque de Curitiba (acima), entramos na Cascatinha, onde foi clicada a loja de móveis a esquerda.

………merces

Depois de Santa Felicidade o buso começa a retornar ao Centro.

Passa pelo Pq. Barigüi, como explicamos e clicamos acima.

sao-francisco-largoE aí passa novamente pelas Mercês. É isso que vamos ver a partir de agora.

Desculpe o pleonasmo. Se estamos avistando a Torre da Telepar (acima a esquerda) é cristalino que estamos nos aproximando das Mercês.

A direita o trecho mais central da Manoel Ribas, também nas mesmas Mercês.

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Próximas 12: o Centro da Cidade.

Óbvio que a estatal Telepar já foi privatizada a muito, e não existe mais.

Mas o nome ficou. Eu já fotografei esse mesmo monumento duas vezes, em outras duas matérias sobre a Zona Oeste.

Na tomada acima, onde aparece a galera curtindo no bar, estamos no comecinho da Manoel Ribas, quase no Largo da Ordem, em frente ao Relógio das Flores.

Nesse trecho inicial a Manoel Ribas se chama Jaime Reis, mas a rua é a mesma. Detalhe: também de paralelepípedo.

Portanto ela tem cobertura empedrada nas duas pontas, o meio é de asfalto.

centrao-7Ainda falando da foto acima a esquerda em que as pessoas bebem nas mesas no prolongamento do Lgo. da Ordem:

Ali é o bairro São Francisco, umbilicalmente ligado ao bairro que se chama ‘Centro’ mesmo, ambos juntos formam o Centrão da cidade.

Foi no São Francisco que Marília viu uma placa de refrigerante antiga, e se lembrou de sua infância.

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A partir da tomada acima e pelas próximas 12, o Centro de Curitiba. centrao-4

Onde a cidade começou, oficialmente. Porque na verdade a primeira povoação europeia de Curitiba foi no Bairro Alto, Zona Leste.

Mas não deu certo.

ed-italiaAssim o núcleo primordial da urbe (aquilo que na América Hispânica se chama “Praça de Armas”, no México o “Zócalo”) foi transferido pra Praça Tiradentes.

Nós já falaremos mais e mostraremos a Tiradentes. Na foto um pouco mais pra cima a direita, exatamente a que está legendada como “Próximas 12: o Centro…”, estamos perto da Rua 24 Horas.

A esquerda acima, onde há uma pichação em vermelho em primeiro plano, é a Praça Santos Andrade.

Onde ficam o Teatro Guaíra e o edifício-sede da UFPR.

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Próximas 4: a Pça. Tiradentes, no Centrão.

Logo acima o Edifício Itália, por muitos anos foi o mais alto do Paraná.

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Agora sim: a  Praça Tiradentes.

Na foto ao lado vemos a Catedral de Curitiba.

Tem dias que esse canteiro de flores fica todo colorido, lindíssimo. Dessa vez está seco.

marco-zero-tiradentes-2Toda quilometragem de e pra Curitiba tem esse ‘Marco Zero’ que fica na Tiradentes como referência.

Há um similar na Praça da Sé, no Centro de SP.

Portanto quando se diz que 408 km separam as capitais, mais epspecificamente se está dizendo que essa é a distância da Tiradentes a Sé.

Voltando ao marco daqui de Ctba.:

Em cima há um mapa pra lá de simplificado, mostrando as saídas da cidade.

E em cada ponto cardeal um desenho dizendo pra onde vai a estrada se você seguir nesse sentido.

Como notam, fotografamos a face ocidental:

Tem o desenho das Cataratas e está escrito “Iguassu”. Na grafia antiga, ainda.

Direita: a Tiradentes não é o marco zero apenas da cidade.

É também o ponto inicial e final da Linha Turismo.

centrao-pichoDigo, ele é circular, você não é obrigado a desembarcar em lugar nenhum.

Exceto, claro, quando ele completa a última viagem nessa exata Pç. Tiradentes.

Nas viagens intermediárias, ele estaciona porém você não precisa descer.

Mas ali ele fica mais tempo parado pra acertar o horário, é o que se chama ‘ponto de regulagem’ na busologia.picho

A esquerda (também na Tiradentes) e a direita (em outra parte do Centrão, mais perto da Rui Barbosa), 2 prédios todo detonados pelos pichadores.

Fotografei a mesma cena ali pertinho, na Marechal Deodoro, e novamente em Caiobá (Matinhos-PR), Santos e Belo Horizonte-MG.

paco……….

Ao lado: Praça Generoso Marques, nos fundos da Tiradentes.

Em primeiro plano vemos o Museu do Paço Municipal.

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Próximas 2: ‘Boca Maldita’ na ‘Rua das Flores’. Aqui vemos o Palácio Avenida.

Ali foi a sede da prefeitura de 1916 a 1969. A frente há uma estátua.

E na base desta há um mapa do Brasil em que o Paraná faz divisa com o Rio Grande do Sul (????).

Espantoso, não? Paraná e Santa Catarina travaram a sangrenta ‘Guerra do Contestado’.

Que justamente contestava territórios. Dependesse da vontade paranaense, Santa Catarina só teria o litoral.

Todo o atual Oeste Catarinense deveria pertencer ao Paraná segundo essa versão, cristalizada no mapa que há estampado nessa praça.

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O primeiro Mc Donald’s de Curitiba (de 1989) está na Luis Xavier. Aos fundos as copas das árvores da Praça Osório.

Ainda sobre a Praça Generoso Marques. Ali era o ponto inicial das primeiras linhas de expresso, quando esse modal começou em 1974.

Depois, quando vieram mais linhas pra outras partes da cidade essa primazia foi pra Pça. Rui Barbosa, que é bem maior.

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Já vimos a famosa ‘Boca Maldita’, as últimas (ou primeiras, depende do sentido que você vai) quadras da ‘Rua das Flores‘.

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Próximas 2: Prado Velho, Zona Central. Aqui na João Negrão pontes em dois modais (a de trem desativada) sobre o Rio Água Verde.

Em 1972, Lerner transformou em calçadão a parte mais central da Rua XV de Novembro.

A primeira quadra da XV a partir da Praça Osório se chama Avenida Luis Xavier, por seu tamanho diminuto conhecida como ‘a menor avenida do mundo’.

No ‘Palácio Avenida’, visto na foto a direita um pouco mais pro alto (vide legenda) é que há aquele famoso coral de Natal promovido por um banco.

Começou com o Bamerindus, depois HSBC, e agora é do Bradesco. Muda o patrono, a tradição continua.

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paiol

Um pouco pra frente na mesma rua, o Teatro Paiol. Aos fundos avistamos a linha dos prédios do Cristo Rei, Zona Leste.

Saímos do Centro. Mas continuamos na Zona Central. Duas tomadas na Rua João Negrão.

A direita acima ponte sobre o Rio Água Verde (afluente do Belém, deságua nele na Vila Capanema a poucas quadras dali).

Até o fim dos anos 80 havia uma linha férrea que ligava Curitiba a Araucária. Desativaram-na, mas a ponte ferroviária permaneceu de relíquia. belem-2

É sobre o trajeto desativado dessa linha que em 1991 surgiu a invasão ‘Ferrovila’, que é estreita mas muito, muito comprida, vai do Parolin na Zona Central até a Vila Nossa Senhora da Luz no CIC, Zona Sul.

Na tomada acima a esquerda já vimos o Teatro Paiol. Logo após esse marco o busão vai rapidamente pro comecinho da Zona Leste.

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A esquerda na imagem o prédio pertence ao bairro Jardim Botânico. Já os espigões a direita estão no Cristo Rei, e são os mesmos vistos atrás do Paiol, na foto acima.

Antes disso, na foto acima, ele cruza novamente o Rio Belém. Estamos no bairro Rebouças, Zona Central.

Essa cena foi captada atrás da Rodoviária, próxima ao estádio do Paraná Clube, que também se chama Vila Capanema como todos sabem.

Ali o Belém re-emerge, pois pra cruzar o Centro enfiaram ele pra baixo da terra.

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Não pude fotografar o parque Jardim Botânico, com sua famosíssima cúpula que também é de arame, pelo motivo que já lhes expliquei.