Joanesburgo, a “Metrópole Global Africana”

gauteng: o menor estado (província) da áfrica do sul: mas seu centro populacional, econômico e político

Panorâmica do Centro de Joanesburgo. Como as cidades da África do Sul seguem o padrão urbanístico ianque, há poucos prédios altos, quase todos comerciais. Exceto quando indicado, as fotos mostram sempre Joanesburgo. Quando for de outra cidade eu aviso explicitamente, estamos combinados.

Por Maurílio Mendes – O Mensageiro

Publicado em 20 de abril de 2018

Maioria das imagens de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

Seguindo nossa série sobre a África do Sul, vamos falar hoje sobre sua maior cidade, Joanesburgo.

Gauteng é o menor estado da África do Sul. Tem apenas 18 mil km2, menor portanto que Sergipe, o menor estado brasileiro, que conta com 21 mil k2.

Mas Gauteng é o estado mais populoso, rico e desenvolvido. O Centro populacional, econômico e político da nação. 

Infelizmente é preciso dizer: o Centrão está muitíssimo decadente, virou um gueto gigante. Em certas partes há muita sujeira.

A Cidade do Cabo é mais conhecida, mais turística, e definitivamente mais bela.

Mas o coração industrial e comercial do país ainda é Joanesburgo, como dito e é notório a maior cidade sul-africana – pros íntimos chamada ‘Joburgo’. Ela também é a capital estadual de Gauteng.

Pretória, a capital executiva do país, é praticamente um subúrbio de Joanesburgo. E, não nos esqueçamos, pela colonização inglesa as cidades sul-africanas são muito parecidas com as dos EUA.

Não há brancos no Centro de Joanesburgo. Não há, zero, nenhum mesmo. Veja o povo no Centro da cidade. No Cabo e Pretória é diferente, ali os Centros são integrados. Mas os de Joburgo e Durbã são auto-segregados, os brancos simplesmente não pisam ali.

Assim, quando eu falo na série africana ‘subúrbio’ não é periferia, como no Brasil.

Mas ao contrário, é no mesmo sentido estadunidense, reduto da elite e classe média-alta.

A população sul-africana é 55 milhões de pessoas. Dessas, cerca de 8 milhões vivem na Grande Joanesburgo.

Outras estatísticas já colocam acima de 10 esse número. Se você incluir Pretória, são 13 milhões. Bem, 13 milhões é exatamente a população do estado de Gauteng.

O ‘Novo Centro’ de Joanesburgo é o subúrbio (no sentido ianque do termo) de Sandton, na Zona Norte. Ali estão a sede das corporações, a bolsa de valores. É o metro quadrado comercial mais caro de toda África.

Afinal você pode ampliar a escala dessa forma e considerar como Grande Joanesburgo todas as cidades num raio de 70 km do Centro desta.

Aí realmente todos os municípios do estado passam a ser parte da região metropolitana da capital, por ele ser pequeno em área.  Já voltamos a falar da divisão política sul-africana.

Agora, apenas pra pôr no contexto, o sítio ‘City Population’ (em inglês e alemão), especializado em estatísticas do mundo todo, coloca a população de ‘Joburgo’ exatamente nessa cifra de 13 milhões.

De ser assim, Joanesburgo é a 26ª maior cidade do mundo, empatada com o Rio de Janeiro.

Praça da Igreja, Centro de Pretória, epi-centro político da nação, o equivalente sul-africano da Praça dos 3 Poderes no Brasil, do Zócalo mexicano e da Praça de Maio argentina. Na época da antiga República do TransVaal (país independente estabelecido pelos descendentes de holandeses no século 19, engolido pela Inglaterra quando esta venceu a 2ª Guerra dos Bôeres) o palácio presidencial era nessa praça.

E a 3ª metrópole do continente africano, atrás de Cairo (Egito) e Lagos (Nigéria), ambas com 18 milhões cada.

Mas Joanesburgo certamente é muito mais rica e desenvolvida que ambas.

O Cairo é uma das cidades do mundo que mais recebem turistas, por conta das Pirâmides.

E Lagos concentra sua economia na exploração de recursos minerais, como petróleo e diamantes.

Mas a parte desses dois respectivos carros-chefes, a economia do Cairo e Lagos é ainda bastante sub-desenvolvida, as condições sociais idem.

Joanesburgo é bem mais rica, industrializada, de economia diversificada, e tem uma burguesia média e alta infinitamente maior, sem comparação possível.

Daí o apelido da cidade, a “Metrópole Global Africana”.

Agora o Palácio Presidencial é umas quadras pra cima, já saindo da Zona Central. Bem em frente há um leão estilizado, que faz as vezes de um banco. No destaque um outro mais realista, bem no Centrão (fotografei um parecido no Pq. Barigüi, em Ctba.).

Querendo dizer que a cidade está no mesmo nível de Nova Iorque-EUA, Moscou-Rússia, Londres-Inglaterra, Paris-França, Pequim e Xangai (ambas na China) e Tóquio-Japão.

Obviamente não chega a tanto. Mas ainda assim é o principal centro financeiro e industrial da África.

Digamos que Joanesburgo têm uma importância similar a São Paulo, Rio, Cidade do México, Buenos Aires (Argentina), Seul (Coreia do Sul), Teerã (Irã), Mumbai (a ex-Bombaim, Índia), Jacarta (Indonésia), Cingapura, Bancoque (Tailândia), entre outras.

Ou seja, a nível global mesmo Joanesburgo está num segundo patamar, ao lado das capitais financeiras de outros países que são influentes em termos regionais sim mas planetários não é pra tanto.

Voltamos a ver Joanesburgo. Nas próximas 7, o Centrão da cidade, com o que ele tem de peculiar e de barra pesada. Aqui: vendedor de perucas no mercadão. Muitas africanas têm dificuldade em cuidar dos cabelos, porque eles são muito crespos. Várias radicalizam, raspam a cabeça e passa a usar peruca. Bem, esse é um camelô, em plena via pública, e veja quantas opções de modelos. Por aí você avalia o tamanho da demanda.

Entretanto não se pode negar que Joburgo é uma metrópole importante sim, a mais importante de toda África.

Não quer dizer que não hajam problemas. Ao contrário, eles são muitos, já falaremos deles.

Ainda assim, o subúrbio de Santon, na Zona Norte da Grande Joanesburgo, tem o metro quadrado mais caro da África. Os prédios comerciais mais valorizados do continente estão ali.

Tanto dinheiro e tanta riqueza concentrados num espaço pequeno. Sandton é rico porque Joanesburgo e região são muito ricos. São, repito, apenas 18 mil km2 no estado de Gauteng.

A África do Sul tem mais 8 estados. O maior deles disparado é o Cabo Setentrional, com 372 mil km2. Todas as outras sete unidades da federação oscilam entre 75 e 168 km2.

..

Cabeleireiros trabalham em plena via pública no Centrão! Sim, é o que você está vendo: o ‘salão’ se resuma a duas cadeiras na calçada, não há sequer uma tenda pra cobrir. Os africanos em geral, e as africanas ainda muito mais, cuidam muito de seus cabelos. Os Homens a maioria usa bem curto ou mesmo raspado, mas as Mulheres fazem tranças, apliques, chapinhas….No Centrão e nas periferias cabeleireiro (geralmente por conta própria) é a profissão mais comum da África do Sul, disparado.

Na África do Sul os estados se chamam ‘províncias‘ (como na Argentina, que visitei um mês antes).

Na época do finado e nada saudoso ‘apartheid’, a divisão política era diferente. Pra começar a conversa haviam os ‘bantustões’.

Tratava-se de guetos rurais que o regime racista dizia serem ‘países independentes’. Nenhuma outra nação do mundo inteiro ratificou esse circo, por razões que a extrema opressão racial estava por demais evidente.

Mas os dirigentes racistas insistiam. Um dia eles pretenderam confinar toda população negra nos bantustões, quisessem os negros ou não.

Mesmo quando viu que não era viável deportar a força dezenas de milhões de pessoas, a farsa das ‘nações soberanas’ que seriam os bantustões permaneceu:

A África do Sul na época chegou até a trocar ‘embaixadas’ com alguns bantustões.

Não é só cortar (e trançar, e alisar….) o cabelo que você pode fazer nas calçadas. O Centrão Velho de Joanesburgo é um camelódromo gigante.

Contra todas as evidências, o regime branco racista do ‘apartheid’ mantinha a ficção que os bantustões eram ‘países’ independentes.

E que portanto todos os negros deveriam exercer seus direitos políticos neles.

Os negros que “optassem por permanecer” na África do Sul seriam então tratados como “estrangeiros”, como ‘trabalhadores convidados’ em solo sul-africano.

Pode isso, um povo que já está numa terra a milênios ser declarado ‘estrangeiro’ em sua própria nação? Pois foi o que o regime do ‘apartheid’ fez.

E, acrescentemos, as semelhanças com o que Israel faz agora são evidentes. Essa situação não pode perdurar pra sempre.

Na África do Sul no final dos anos 70 e por todo os anos 80 explodiram revoltas e protestos contra o ‘apartheid’, feitos por negros e brancos, dentro do país e a nível global.

Prédio abandonado. Joanesburgo é a única cidade da África do Sul que tem grafite e pichação em larga escala. Ainda assim, muito, mas muito menos que na América (Brasil, EUA, México, Colômbia, República Dominicana, Chile). Em Joanesburgo, se nosso continente for a base de comparação, há bem pouca ‘arte’ nos muros. Mas existe. No Cabo, Durbã e Pretória é praticamente inexistente.

O regime a princípio partiu pra linha-dura, mas não teve jeito, teve que ceder.

Mandela foi solto em 1990, e 4 anos depois se tornou o primeiro presidente negro sul-africano.

De lá pra cá todos os seus sucessores são também negros, e nada mais natural, se os negros e mulatos formam 90% da população.

Já contei essa história com mais detalhes na abertura da série.

Aqui fiz uma breve recapitulação pra voltarmos a falar das atuais províncias (estados) sul-africanas.

Haviam os bantustões, onde o ‘apartheid’ pretendeu um dia confinar todos os negros. Depois da queda do regime racista eles foram incorporados ao território sul-africano.

Rea Vaya (“estamos em movimento”, na gíria local), moderna rede de ônibus expressos – canaletas [corredores] exclusivas, articulados, embarque em nível pré-pago em futuristas estações elevadas. Funciona bem, onde existe. Fomos do Centro a Soweto, na Zona Oeste, nesses ônibus (esse aqui um Marcopolo brasileiro). O problema é que são pouquíssimas linhas, grosseiramente insuficiente pruma metrópole de quase 10 milhões e que não tem metrô, só trem. Estão corrigindo isso, outros corredores estão sendo construídos em várias avenidas da cidade.

Falando agora das províncias em que os apenas os brancos eram cidadãos (os negros e indianos que habitavam nelas não tinham direitos políticos), elas eram apenas 4 no regime racista:

Cabo (que ocupava 55% da área da nação, toda sua porção ocidental), Natal, Estado Livre Laranja (os africâneres são holandeses, e essa é a cor da família real da Holanda, vide o uniforme da seleção) e TransVaal.

Com a chegada da democracia, o Estado Livre Laranja e Natal quase não sofreram alteração nos territórios, apenas mudaram de nome:

Agora é só ‘Estado Livre’, o ‘Laranja’ se foi; e Natal, com a incorporação do bantustão de KwaZulu teve o nome fundido pra KwaZulu-Natal.

Mas as províncias do Cabo e TransVaal foram retalhadas. No Cabo surgiram 3, o nome se manteve, apenas acrescentou-se a posição geográfica: Cabo Setentrional, Cabo Oriental, Cabo Ocidental.

Pela rede de transportes ser ineficiente, quem move o povão mesmo são as vans, quase todas elas brancas – mas os motoristas/ proprietários são os negros. Alias eles tiveram que fazer uma guerra pra poderem entrar no Centro e nos bairros ricos, onde estão os empregos. Um conflito sangrento mesmo, morreu muita gente, entrou pra história da África do Sul como “As Guerras do Transporte”. Bem, os africanos nativos venceram, e o dinheiro do deslocamento diário da massa trabalhadora agora fica dentro da comunidade. Veja um mar alvo de vans no Centrão de Joburgo, levando os proletários de volta pras suas distantes periferias no fim-de-tarde.

Na antiga província de TransVaal (tinha esse nome pois fica após o Rio Vaal, pra quem vem do litoral) tudo mudou, agora são 4 estados onde antes era um. Gauteng ficou com as maiores cidades, a parte mais rica e populosa, quase não tem área rural.

Ao redor dela se desmembraram os estados do Noroeste, Limpopo e Mpumalanga. Essas últimas 3 províncias (oriundas da Província do TransVaal, repetindo) e mais o Cabo Setentrional (vindo da Província do Cabo) não têm cidades grandes.

As quatro maiores cidades sul-africanas, as que têm mais de 1 milhão cada, são Joanesburgo, Cidade do Cabo (Cabo Ocidental), Durbã  (Kwa-Zulu-Natal) e Pretória, visitei todas elas.

Depois vem, pela ordem (não tive a oportunidade de ver pessoalmente nenhuma): Porto Elizabete (876 mil), Pietermaritzburg (475 mil, KwaZulu-Natal), Blomfontein (464 mil, Estado Livre, a capital judicial da nação) e Londres Leste (295 mil, ela e Porto Elizabete são no Cabo Oriental, e ambas no Oceano Índico).

Joanesburgo e Pretória ficam em Gauteng, e por alguns parâmetros são consideradas parte de uma mesma cidade. Faz sentido. São muito perto. Apenas 65 km as separam. 1 hora e 15 minutos dirigindo (já detalho mais esses pontos). Pretória é ao norte de Joanesburgo.

“Joburgo”, apelido oficial de Joanesburgo. E a BMW é uma paixão sul-africana, mesmo na periferia.

E a parte rica de Joburgo é a Zona Norte e a Zona Leste, claro há alguns bolsões de miséria (inclusive fui num dos mais famosos, chamado Alexandra) porque é 3° mundo. Mas no geral o padrão na Z/N e Z/L é alto.

Nas Zonas Oeste e Sul está a periferia. Não por acaso a periferia mais emblemática da cidade – e de todo continente africano, uma das mais do planeta – se chama ‘Soweto’, que são as iniciais em inglês de ‘Assentamento Sudoeste’.

Mas da perifa falamos depois. Aqui o foco é a parte verde da metrópole, onde moram os burgueses, até o fim do ‘apartheid’ só brancos, hoje ao lado deles há uma emergente burguesia negra.

Museu do ‘Apartheid’ (tomada de autoria de meus familiares): nos tristes tempos do regime racista, esse era o ‘caveirão’. Como notam, um verdadeiro tanque de guerra, que quando haviam revoltas adentrava nos bairros negros passando por cima de tudo e de todos.

A urbanização é no modelo estadunidense, ou seja a classe média quase não mora em prédios, só em casas, naquelas ruas sem saída arborizadas que você vê tanto nos filmes dos EUA.

Portanto a cidade vai se espalhando, ocupando uma área enorme.

Assim, os subúrbios mais boreais de Joanesburgo emendam nos subúrbios mais austrais de Pretória.

Há vários casos em que dentro da mesma casa o marido trabalha em Joburgo, a esposa em Pretória ou vice-versa.

Por isso se você quiser adotar uma classificação mais ampla dá pra dizer que Pretória é um subúrbio da Grande Joanesburgo.

Joanesburgo é fogo, mano! Não é modo de falar. A luta contra o ‘apartheid’ se centrou ali. Mas se os negros por vezes se uniram pra derrubar o inimigo, em outras oportunidades brigaram violentamente entre si. Aqui, um militante negro é queimado vivo por outro, de partido rival – lá as alianças são geralmente étnicas, zulus de um lado, xhozas de outro, e quando eles se desentendem você está vendo o resultado. Muito sangue correu pro ‘apartheid’ cair, e repito, diversas vezes negros matando negros. Bem, o ‘micro-ondas‘ (não o da sua cozinha, mas sim o ato brutal de incendiar um inimigo vivo entre pneus), depois tão popularizado pelos conflitos entre traficantes do Rio, foi inventado na África do Sul. Triste, mito triste (foto extraída do livro “O Clube do Bangue-Bangue”).

Como é no estilo ianque de vida, as pessoas são acostumadíssimas a dirigir 20, 30 ou 40 quilômetros pra chegar a seu trampo, e a mesma distância na volta.

Alias se você quiser dispensar o carro desde 2010 é possível.

Por conta da Copa do Mundo de futebol que foi lá – a 1ª por enquanto única da África – Pretória e Joanesburgo agora são ligadas pelo moderníssimo Gautrem.

Já fiz matéria específica sobre o transporte coletivo na África do Sul, em que os dois grandes destaques são o Gautrem e a rede integrada de ônibus da Cidade do Cabo.

descrevi tudo em detalhes, com dezenas de fotos. Aqui, resumindo, a parte rica da Grande Joanesburgo são as Zonas Leste e Norte.

Oras, na Z/L está o Aeroporto Internacional Tambo, principal porta de entrada de todo Sul da África incluindo países vizinhos.

E a norte está Pretória, que é a capital executiva do país – a África do Sul tem 3 capitais:

O Congresso fica na Cidade do Cabo e o Supremo Tribunal na pequena cidade de Bloemfontein, no interior (no Estado Livre, como já dito).

Colagem mostra o Centro de Joanesburgo. Em sentido horário: mercado ao ar-livre, ressaltei a bandeira de Gana; Prédio com o endereço bi-língue em inglês e africâner, herança do ‘apartheid’; muitas vezes há muita sujeira nas ruas, é tanto lixo que essa escadaria (que dava acesso a uma estação de trem) foi desativada. E isso em pleno Centro da cidade! Vi essa mesma cena na Grande Buenos Aires (uma escada na estação de trem interditada, porque virou depósito de lixo clandestino e abrigo de sem-tetos), mas pelo menos na Argentina eu estava bem na periferia, perto de Cidadela, na Zona Oeste, uma das partes mas barra-pesadas da cidade. Aqui em Joanesburgo é em no coração do Centro!, pode isso? E no destaque uma muçulmana de véu e tudo, cena muito comum lá.

Portanto o Gautrem tem um trajeto limitado, sim. Deveria ser bem maior.

Mas estrategicamente localizado, interliga o Centro de Joanesburgo, o aeroporto, os subúrbios da Z/N (dos quais o principal é Sandton, já descrevo melhor) e alguns da Z/L , Pretória.

Tudo unido por esse trem, que, olhe, tem padrão de primeiríssimo mundo.

Gostaria que as principais cidades brasileiras tivessem seus aeroportos conectados ao Centro dessa forma.

O Gautrem não deve nada ao que opera na China, Japão e Alemanha. É de cair o queixo. E não serve só pra quem vai viajar.

Ele conecta toda porção boreal e parte da oriental da Grande Joanesburgo, Pretória incluída, como acabo de dizer e é notório.

Assim dezenas de milhares de pessoas de classe-média, que têm carrões caros, passaram a deixar eles em casa durante a semana, e vão trabalhar de transporte coletivo.

Até porque o Gautrem tem um sistema de ônibus alimentadores integrados, se você pegar ônibus + trem tem um bom desconto, a passagem não pesa no bolso.

Mesmo pra quem mora mais longe e não tem alimentador, o Gautrem oferece integração trem + carro.

Revista inglesa de negócios publica sua radiografia anual sobre a economia e política na África. O presidente da China ocupa o dobro de espaço que seu colega dos EUA. Não é preciso argumentar além disso pra entender que rumo o planeta está tomando no século 21.

Todas as estações do subúrbio têm edifícios-garagem anexos, você pode contratar o serviço por mês que sai bem mais em conta.

Vai de carro até ali, de trem até o Centro de Pretória Joanesburgo, ou mais comumente até Sandton.

Na volta o trajeto inverso, volta guiando pra casa. Em vez de dirigir 50 km por dia dirige 10, e sai muito mais barato. Intensamente usado.

……….

Ainda assim, claro que a imensa maioria das pessoas ainda opta pelo transporte individual que queima mais carbono, garantindo a destruição do meio-ambiente.  

Estamos falando do ser humano, afinal. Por isso um trajeto de 65 quilômetros leva uma hora e quinze, porque o trânsito é muito intenso.

E lá eles medem as distâncias em quilômetros mesmo, e não em milhas. É curioso isso, sabe?

A África do Sul é colonização inglesa. Você dirige pela esquerda, obviamente a chamada ‘mão inglesa’.

Eles (os brancos pelo menos) adoram ‘rugby’ e críquete, esportes que só são populares na Inglaterra e suas ex-colônias como Austrália e Nova Zelândia.

Filma o padrão das casas do subúrbio de ‘SaxonWold’, Zona Norte. Tá bom pra ti?

No caso do ‘rugby’ é jogado um pouco na França também, mas é do lado da Inglaterra.  

E tanto negros quanto brancos sul-africanos adoram futebol, como na Inglaterra e inverso dos EUA. 

Não só nos esportes. Como dito nas legendas das fotos, os sul-africanos amam ‘peixe-com-batata’, o prato nacional inglês.

Nos EUA essa receita é quase ignorada, o prato nacional estadunidense é o ‘Big Mac’ (que, justiça seja feita, também é muito apreciado na África e na própria Inglaterra).

Cenas das auto-estrdas urbanas, os prédios da Zona Central ao fundo. Nos destaques uma flor, e grades no viaduto pra não jogarem pedras nos carros da pista inferior visando assaltá-los. A África do Sul é bela mas também é fera! Bem, pra ser justo, aqui na América não é diferente, tanto América Latina (Brasil incluído, claro) quanto já presenciei a mesma cena nos EUA.

Na linguagem é o mesmo. A escrita e a pronúncia do inglês sul-africano é totalmente britânica. Totalmente.

Eles escrevem ‘centre’, por exemplo, como na Grã-Bretanha, enquanto nos EUA é ‘center’.

Isso, dos dois lados do Oceano, pra ‘centro de lazer’, ‘centro de estudos’, ‘centro de compras’.

Já o Centro da cidade é o ‘CBD’ (‘Central Business District’) na Inglaterra, África do Sul e outras ex-colônias britânicas.

Esse termo, essa sigla, não existe nos EUA, ali é ‘DownTown’.

Digamos que numa roda estejam três pessoas conversando, um ianque, um inglês e um sul-africano.

Você vai claramente distinguir o nativo dos EUA, mas entre os outros dois você vai ter dificuldades de diferenciar quem veio daonde. 

Joanesburgo foi uma cidade fundada pela e pra mineração de ouro, no fim do século 19.

Ressaltei tudo isso pra dizer o seguinte:

A África do Sul se parece muito mais com a Inglaterra que os EUA. Muito mais, sem comparação possível.

Mas a África do Sul adota o sistema métrico de medidas, e não o inglês.

As distâncias na África do Sul são calculadas em quilômetros, não em milhas. O peso dos secos e molhados em quilos e litros, não em libras ou onças.

Auto-estrada dentro da cidade, os prédios do Centro ao fundo. Como as cidades sul-africanas são no estilo urbanístico estadunidense, eles são acostumados a dirigir grandes distâncias todos os dias.

Os EUA rejeitaram muito do que veio de sua pátria-fundadora: o lado que os carros andam nas ruas, os esportes, a língua eles mudaram o quanto puderam. Mas o sistema de libras e milhas eles mantiveram.

Na África do Sul é o inverso. Mantiveram intacta boa parte da herança colonial nas outras dimensões, mas adotaram o sistema métrico.

Digo, mais ou menos. Eles medem em quilômetros? Sim. Mas eles pensam em quilômetros? Não.

E como eles pensam? Como eles medem a distância de uma cidade a outra? Em minutos.

Próximas 4: os subúrbios da Zona Norte, a parte rica e arborizada de Joanesburgo. A estrada que vimos acima a esquerda liga o Centro a eles.

Eles não dizem: “Pretória fica a 65 quilômetros de Joanesburgo”.

Nada disso. Eles falam “Pretória fica a uma hora e quinze de Joanesburgo”. Eles medem a distância não pela dimensão espacial, mas pela temporal.

Pelo tempo que a pessoa passa com a bunda no carro pra chegar de uma cidade a outra.

Nisso são iguais aos ianques (nunca fui a Europa, então não sei como é na Inglaterra).

Fomos de mini-van do hotel no Centro de Joanesburgo ao Aeroporto Tambo.

Perguntei a distância ao motorista, que era negro. Ele disse: “40 minutos”.

Perguntei: “em quilômetros?”. Ele respondeu: “não sei, aqui nós só sabemos calcular em tempo de viagem”.

O padrão das casas é esse, mansões que ocupam quadra inteira, ou quase.

………..

MAMAS & PAPAS”: NA ÁFRICA DO SUL TODOS DE CABELO BRANCO SÃO ‘MAMÃES’ E ‘PAPAIS’

Alias houve um choque cultural nesse mesmo trajeto que descrevo.

Viajávamos eu, minha mãe e uma amiga dela, que não tem filhos.

Há muitos plátanos – a árvore típica do Canadá e de Campos do Jordão-SP. No outono (quando estive lá) formam-se vários tapetes de folhas.

Os negros, como se sabe, são uma raça de sangue-quente, abertos, calorosos, totalmente o oposto da frieza nórdica que caracteriza os caucasianos.

Os negros adoram conversar, pegam amizade rápido. Íamos na mini-van. O motorista chamava as duas Mulheres de ‘mamas’.

Quando eu informei a ele que uma delas não era mãe (não apenas não era minha mãe; ela não teve filhos nessa encarnação) ele foi enfático pedindo pra eu não corrigi-lo.

Explicou: “aqui na África todas as Mulheres mais velhas são Mamas. E todos os Homens mais velhos são Papas. É uma forma de respeito”. Entendi. É o equivalente do ‘dona’ e ‘seo’ do português, como em ‘Dona Maria’ e ‘Sêo Jorge’.

20 de abril de 2017: desenho feito e levantado pra rede lá de Joanesburgo. Exatamente 1 ano depois essa atual postagem sobe ao ar.

Depois dessa explicação, o desenho que fiz e levantei pro ar lá do Centro de Joanesburgo se tornou ainda mais válido (dir.). E eles se chama, como seria diferente?, exatamente “Mama-África”!

Tá certo. Vivendo e Aprendendo…

………..

DA ‘CIDADE DE JOÃO’ A ‘CIDADE DE JÓ’.

Joanesburgo quer dizer ‘Cidade de João’ (abaixo falo mais disso), algo como ‘Joanópolis’. Mas como seu apelido é ‘Joburgo’, acabou se tornando a ‘Cidade de Jó’ (ou de ‘Jô’).

Seja como for, ela foi fundada numa ‘corrida ao ouro’. No fim do século 19, na mesma época do ‘Velho-Oeste’ Estadunidense, e exatamente da mesma maneira. Se você viu filmes de faroeste, sabe como foi.

Como já escrevi com mais detalhes, a colonização branca da África do Sul começou pelo litoral.

Em 1679 os holandeses erguem o Forte da Boa Esperança na Cidade do Cabo (1ª construção europeia em toda África), pensando assim garantir a posse da Colônia do Cabo da Boa Esperança.

O moderníssimo Gautrem liga Joanesburgo a Pretória. Aqui estamos quase chegando exatamente a Pretória, fomos de Uber pela rodovia e voltamos nesse trem.

E por um século funciona. Mas no fim do século 18 a Inglaterra chega com grande esquadra, e exige a capitulação do Cabo.

Os holandeses resistem bravamente, mas a marinha inglesa não era conhecida como ‘Soberana dos 7 Mares’ a toa.

Após sangrentos combates navais, o Cabo cai sob jugo da Coroa Britânica.

Parte dos holandeses ruma ao interior. Estabelecem duas repúblicas independentes em 1852 e 1854:

Respectivamente a República Sul-Africana (não confundir com o país atual, que é a República da África do Sul) e o Estado Livre Laranja.

Já que falamos no passado, na história, essa era a bandeira da África do Sul na era do ‘apartheid’ (r). Trazia dentro dela a bandeira do Reino Unido, e das duas repúblicas independentes fundadas pelo africâneres (holandeses) que o próprio Reino Unido derrotou na Guerra do Bôeres, e incorporou a força a seu império: a República do TransVaal e o Estado Livre Laranja.

O Estado Livre fica antes do Rio Vaal, e a República Sul-Africana depois, por isso comumente referida como ‘República do TransVaal’.

Em 1855 Pretória é fundada, pra ser a capital da ‘República do TransVaal’. O nome da cidade ao contrário do que alguns poderiam pensar nada tem a ver com a palavra ‘preto’.

Pretória não é ‘Cidade dos Negros’, exatamente ao contrário, por um século e meio Pretória foi ‘a Cidade dos Brancos’, representou a opressão contra a raça negra que a fez escrava em seu próprio país.

Digo, agora na democracia desde 94 todos os ocupantes da sala principal no Palácio Presidencial são negros, mas por muito tempo os africanos nativos só entravam no Palácio pra fazer a limpeza e servir água e cafezinho.

Pretória é uma homenagem ao holandês André Pretório (eu aportugueso todos os nomes, lembre-se), que derrotou os zulus na famosa ‘Batalha do Rio Sangrento’, e estabeleceu o domínio europeu nesse pedaço da África.

Bandeira atual da África do Sul democrática, pós-‘apartheid’, na Cidade do Cabo, com a Mesa-Montanha ao fundo  (r): mantiveram as faixas azul e vermelha (quase alaranjada) da herança europeia, e introduziram um ‘y’ horizontal nas cores preta, amarela e verde, que combinadas com o vermelho representam a raça negra.

O filho de André, Martino Pretório, foi o 1º presidente da ‘República do TransVaal’. Ele comprou algumas fazendas, e em 1855 construiu e inaugurou Pretória como capital.

Em 1880 a Inglaterra exige a anexação das duas repúblicas holandesas no sul da África.

Com a negação delas, vem a primeira ‘Guerra dos Bôeres’, que a Inglaterra perde.

A República do TransVaal e o Estado Livre Laranja permanecem independentes.

Em 1886 Joanesburgo é fundada, por conta da mineração de ouro como já dito.

Em 1899 a Inglaterra retorna com força total, e decide praticar ‘terra-arrasada’ pra forçar os africâneres (holandeses) a se renderem.

Voltamos pra Joanesburgo. ‘Casas’ de zinco em Soweto, Zona Oeste. As favelas sul-africanas são chamadas de ‘Cidades de Lata’, pois os barracos são de metal (no Chile também é comum).

Aí, como dito acima, que a Coroa Britânica inventa o campo de concentração, trancafiando ali dezenas de milhares de Mulheres e crianças.

A batalha foi sangrenta mas os boêres perderam. As Repúblicas do TransVaal e do Estado Livre Laranja viram colônias do Império Britânico, ‘onde jamais o sol se punha’.

Quando foi formada a moderna África do Sul (ainda dependente do Império Britânico), em 1910, a antiga República do Transvaal virou o estado (província) do TransVaal, o Estado Livre Laranja manteve o nome mas também virou uma província da República da África do Sul.

Do outro lado da metrópole a situação é bem mais amena, digamos assim. Vemos os subúrbios dos milionários na Zona Norte de Joanesburgo. Só mansões, muitas ruas sequer têm calçadas pois ninguém passa a pé ali.

E, relembrando, a África do Sul foi colônia da Inglaterra até 1931. Assim ainda por mais 2 décadas manteve-se a Rainha inglesa Elizabete como chefe de estado.

(Nota: essa situação permanece no Canadá, Austrália e Nova Zelândia – essas 2 nações insulares da Oceania até hoje têm a bandeira do Reino Unido dentro de suas respectivas bandeiras, e a causa é essa.

Esses 3 países são independentes na prática sim, mas no papel ainda pertencem ao Reino Unido.)

Então. Quando se tornou independente em 1931, a África do Sul igualmente estava atrelada ao Reino Unido.

As únicas pessoas que você nas ruas são os empregados das mansões. Essas duas moças simpáticas trabalham na casa em frente, estão no seu horário de lanche (veja a Coca-Cola aberta) e foram tomar um ar. Quando viram que eu tirava fotos pediram pra eu clicar elas também. Está aqui, atendido o pedido. Os negros sul-africanos são muito quentes e calorosos, adoram interagir com estranhos. Em Durbã e Pretória também aconteceu de pessoas pedirem pra serem fotografadas ao me verem de câmera na mão.

Em 1960 organizou-se um plebiscito onde se perguntava se queriam a decretação da república (só os brancos puderam votar, era o ápice do ‘apartheid’).

Em todas as províncias exceto em Natal o ‘sim’ ganhou. Veja os resultados:

Estado Livre Laranja: sim, 76% (ali a presença holandesa era a mais forte como até o nome indica, a inglesa mais fraca, até hoje a proporção se mantém);

TransVaal: sim, 55% (grande presença inglesa, ainda assim maioria africâner [holandesa]);

Cabo da Boa Esperança: sim, 50,2% (praticamente empatado, refletindo o equilíbrio entre africâneres e ingleses);

Natal: não, 73% (o Natal é o reduto dos ingleses, ali há poucos africâneres, historicamente e hoje menos ainda.

A língua africâner é inexistente na comunicação oficial de Durbã [no governo e mídia], falada privadamente por algumas famílias, mas em público não);

África do Sudoeste: sim, 62%.

Nota sobre o último tópico: a não ser que tenha estudado história da África, você não conhece essa província (estado) da África do Sul. Natural. Hoje a antiga “África do Sudoeste” é a nação independente da Namíbia.

Linha de prédios do Centro (tirei de um quadro que há num hotel, nesse caso vazio).

Era colônia alemã. Em 1915, no embalo da 1ª Guerra Mundial (que a Alemanha perdeu) a Inglaterra incorpora o território a África do Sul, que também era colônia sua como vimos acima.

Quando a África do Sul ficou independente de fato em 1931 – e depois de direito em 1961, após o plebiscito delineado acima – manteve a África do Sudoeste como colônia.

Antes ambas pertencentes ao Reino Unido. Quando a África do Sul se separa a ‘África de Sudoeste’ vai junto no pacote. Tirando a opressão aos negros nativos, entre os brancos a adaptação é suave. Afinal, etnicamente –  e até linguisticamente – holandeses e alemães têm grandes semelhanças.

Bairro da Riviera, essa não é da do Cabo, e sim da Zona Norte de Joanesburgo. Detaquei o sufixo da internet: ‘co.za’.

O africâner é um dialeto do holandês. E a língua holandesa pro sua vez derivou da alemã num passado já remoto.

Mas ainda são bem parecidas (como os idiomas português e o italiano são parecidos).

Por exemplo, ‘cidade’ em alemão é ‘stadt’. Em holandês e africâner, ‘stad’.

Assim, ficou fácil pros africâneres colonizarem a vizinha África do Sudoeste também, depois que os alemães já haviam se imposto ali.

‘Peixe-com-Batatas-Fritas’ no Centro de Pretória. O prato nacional da Inglaterra é extremamente apreciado na África do Sul também. Bem, a Inglaterra é uma ilha pequena, nada dista mais que algumas dezenas de quilômetros do mar. Já Gauteng é bem distante do litoral. Mas o gosto trazido pelos colonizadores pegou ali também.

A ‘África do Sudoeste’ se separou da África do Sul apenas em 1990.

Adotando o nome de Namíbia pra começar sua vida como nação a parte,

Quando já sopravam fortemente os ventos que derrubariam o ‘apartheid’ (esse foi o ano em que Mandela foi solto, por exemplo) 

Digo, relativa independência. Pois a moeda da Namíbia é o Rand sul-africano.

A mesma da África do Sul? Exatamente, o Rand é emitido e controlado pelo Banco Central da África do Sul (passei na frente dele em Pretória, e fotografei-o, imagem logo abaixo).

Oras, não é difícil entender que uma nação que tem sua moeda emitida e controlada por outra ainda não deixou de ser colônia onde mais importa, que é a economia.

Ainda no Centrão de Pretória, aquele arranha-céu é a sede do Banco Central sul-africano. Em primeiro plano duas vans, no resto do país as da marca Toyota são quase oni-presentes. Em Gauteng (Joanesburgo e Pretória) há muitas VolksWagen também. Vemos uma de cada marca nessa imagem, a rubra é VW.

Além disso, entre as línguas oficiais dessa jovem pátria ainda estão o alemão e o africâner, além do inglês e 6 idiomas nativos africanos.

Seja como for, no papel a Namíbia é soberana desde 1990.

Mas em 1961 ela era oficialmente parte da África do Sul, e votou a favor da separação total da Inglaterra.

………

Já que falamos em línguas. Os domínios de internet na África do Sul geralmente tem o sufixo ‘co.za’. No Brasil é ‘com.br’.

Você sabe o porque do ‘co’, sem o ‘m’, e do ‘z’? Trata-se mais uma vez de influência dos dois grupos de europeus majoritários no país.

Já que voltamos ao transporte coletivo, em Joanesburgo e Pretória nas vans não há indicação de qual linha cumprem, nem verbal nem escrita. É o passageiro quem sinaliza pra onde quer ir, fazendo sinal com as mãos como linguagem surdo-muda. Se a van for por bairro que ele quer, o motorista encosta. Senão passa direto.

Nos EUA, e por consequência na maior parte do mundo, o domínio comercial é denominado ‘com’. Porém no Reino Unido se usa ‘co’.

E as vezes invertida a ordem, ‘uk.co’. A África do Sul aderiu também ao ‘co’, excluindo o ‘m’.

E o ‘z’ vem do holandês. ‘Sul’ em holandês – e por consequência também em africâner – é ‘zuid’. ‘

Zuid-Korea’ é a Coreia do Sul. ‘Zuid-Afrika’, portanto, a África do Sul.

Tudo somado: “tal empresa.co.za”.

De volta a Joanesburgo, vamos ver 3 estádios, Esse é onde foi disputada a Copa do Mundo de 2010, na divisa das Zonas Central, Oeste e Sul, entre o Centro e Soweto.

……….

Como prometido, explicando sobre os nomes das cidades. De Pretória já escrevemos acima.

Joanesburgo é obviamente ‘a Cidade de João’, que se escreve ‘Johannes’ (e se pronuncia algo como ‘iórrãnes’) em holandês e africâner, que é como todos sabem um dialeto do idioma holandês.

Mas qual João a cidade foi batizada em homenagem?

Não se sabe. Logo que Joanesburgo foi fundada a região passou por duas guerras entre ingleses e africâneres pelo domínio da região, as chamadas ‘Guerras dos Bôeres’.

Esse é em Soweto, Zona Oeste. Os negros da África do Sul amam futebol, e detestam ‘rugby’. Os dois times mais populares de futebol do país são de Soweto, os Piratas de Orlando e o ‘Kaiser Chiefs’ – foi neles que a banda inglesa se inspirou pra criar seu nome, ela quem copiou o time africano, e não o contrário. Durante a Copa, esse Estádio de Orlando (nome do bairro) foi usado como CT de algumas seleções.

Alias foi nessa oportunidade que a Inglaterra inventou o campo de concentração.

Já falamos com mais detalhes da violenta história sul-africana em outra postagem.

Pro nosso tema de hoje, houveram muitas confusões no período – guerras sempre envolvem pilhagens, tumultos generalizados e incêndios, você sabe como é.

Alguns feitos pelas tropas inimigas, outros pela população que tem fome, e outros ainda por quadrilhas de criminosos.

Assim, no meio desse caos, os arquivos oficiais que registraram a fundação da cidade se perderam. João, óbvio. Mas qual João? Ninguém sabe.

Também na Z/Central mas do lado oposto, na divisa com as Zonas Norte e Leste, está o Parque Ellis, geralmente de rugby, mas recebe partidas de futebol, também hospedou jogos da Copa de 2010.

Segundo a Wikipédia, há assim 5 Homens chamados ‘João’ que podem ter sido os homenageados: 

Christiaan Johannes Joubert, secretário do governador-geral Hendrik Dercksen, responsável pela mineração.

Não custa lembrar que a extração de minérios era não apenas a principal atividade econômica.

Mas nas primeiras décadas a própria razão da cidade existir;

Catador de papel no bairro ‘Wynberg’, Z/N.

Stephanus Johannes Paulus Kruger (mais conhecido como Paulo Kuger), presidente da República Sul-Africana entre 1883 – 1900.

Nota: mais uma vez, não confundir com a atual República da África do Sul.

Kruger foi presidente do que era um país independente, mas que depois foi incorporado pela Inglaterra se tornou a ex-província (estado) do Transvaal na era do ‘apartheid’.

Próximas 7: Sandton , o ‘Centro Novo’ de Joanesburgo, um subúrbio da Z/Norte. Pra ali foram as sedes das corporações depois que o Centrão ficou inviável.

E a província do TransVaal por sua vez foi desmembrada nos atuais estados de Gauteng, Noroeste, Limpopo e Mpumalanga.

Desculpe ter que ficar enfatizando esses fatos repetidamente. Mas como há essa confusão de nomes, acaba sendo necessário.

Johannes Meyer, um dos primeiros colonizadores, que teve papel destacado no governo, é outra possibilidade; ainda são lembrados:

Johannes Rissik;

– e Johannes Joubert.

Vemos um busão (fabricado pela Caio aqui no Brasil) alimentador do Gautrem. Essa rede de transporte coletivo a burguesia usa, pois é barato, limpo, seguro, rápido e eficiente. Pena que sejam poucas linhas. A frente mais duas vans, essas são as preferidas do povão.

Esses dois últimos fizeram parte de uma comissão que foi a Inglaterra pra negociar a regularização da concessão de companhias mineradoras.

………..

Já que falamos acima mais um pouco da questão automobilística: o VolksWagen Golf é o carro mais vendido da história da África do Sul, com 577 mil unidades.

Considerando que a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a mais ou menos 2,3 milhões de vendagem no Brasil.

Nota importante: hoje a indústria automobilística partiu pra uma estratégia desonesta, a de não aposentar mais os nomes dos modelos.

O desenho muda demais, ou seja, não é o mesmo carro. Mas tem o mesmo nome de mercado, praquele termo aparecer na estatística como um dos mais vendidos da história.

Visualizando é mais fácil entender. Pense no modelo do que chamam “Gol” atual no Brasil. Agora se lembre de como era o Gol nos anos 80. 

Essa simples comparação visual basta pra ficar claro que não é o mesmo modelo. O desenho da carroceria se alterou profundamente. E o que caracteriza um modelo senão seu desenho?

O “Gol” atual não é o mesmo modelo do Gol pioneiro, é simples assim.

O bairro comercial mais rico da África”, dizem os anúncios imobiliários.

A denominação foi mantida pra distorcer as estatísticas, mas se não é o mesmo modelo não é o mesmo carro.

O mesmo acontece com o “Uno” e diversos nomes de vários fabricantes.

Por isso, quando eu classifico os carros mais vendidos da história, eu reconheço como mesmo modelo apenas os veículos que têm o mesmo desenho de carroceria.

Claro que alguns detalhes podem mudar, como tamanho das lanternas e janelas. Evidente.

Agora, a carroceria tem que ser a mesma. Oras, quem vai negar que o Fusca manteve sempre o mesmo desenho, de 1938 quando surgiu na Alemanha a 2003 quando deixou de existir no México? 

Ninguém, é óbvio. Por isso, com 21 milhões de unidades produzidas com idêntica carroceria, o ‘Fuca’ ainda é o carro mais vendido da história da Terra, em termos reais, mentiras propagandológicas a parte.

Sandton já concentra muita riqueza, e vai concentrar ainda mais. Veja quanto prédios sendo erguidos lado-a-lado. Cada vez mais a burguesia muda seus escritórios pra ali, incluindo a crescente burguesia negra.

Pois bem. Isto bem esclarecido, o Golf é o carro mais vendido da história da África do Sul.

Foram 577 mil exemplares, repetindo. Isso em 31 anos, de 1978 a 2009.

577 milhares de cópias do mesmo carro, com o mesmo desenho, o Golf 1, que foi produzido na Alemanha de 1974 a 1983, e na África do Sul, digo novamente, de 78 a 2009.

Esse Golf 1 não foi vendido no Brasil, então se você não for um aficcionado automobilista provavelmente não o conhece.

Mas nem todo mundo que trampa em Santon é bem de vida. A classe operária (copeiras, porteiros, balconistas, etc.) almoça um salgado nessa “praça de alimentação” ao ar-livre – isso quem não leva marmita.

Ele era quadradão, como eram os carros dos anos 70, quando ele foi projetado.

Ou melhor, ele é quadradão. Pois na África do Sul ainda há centenas de milhares deles circulando

Afinal, quando escrevo esse texto (2018) os mais novos ainda sequer completaram uma década de uso.

Vá num morro, numa favela plana, num loteamento de periferia ou num gueto central da África do Sul.

E no fim-de-tarde quem pode volta a pé pra casa. Estamos falando de uma caminhada de uma hora a hora e meia pra ida, mesmo tempo pra volta. A periferia da África do Sul é muito pobre, orçamento apertado, cada trocado ajuda. Eu acompanhei a galera nesse dia, fomos de Sandton a Alexandra a pé (claro, cada um foi pro seu bairro, eu segui a turma de Alexandra).

O ‘carro do povo’ ali ainda é o Golf modelo 1, e ainda o será por mais duas décadas pelo menos.

Façamos uma recapitulação comparando os dois modelos mais vendidos da história da VolksWagen.

Na Alemanha, o Fusca começou em 1938. O primeiro Golf (modelo 1, óbvio) saiu da fábrica em 1974.

Estava iniciada a transição. Assim, em 1978 a Alemanha deixa de produzir Fuscas.

Em 1983, a Alemanha aposenta o Golf 1 e lança o Golf 2.

Museu de História Natural em Pretória, no jardim há vários esqueletos de dinossauros.

Na África do Sul o Fusca começa em 1951, e se encerra em 1979, um ano depois da Alemanha, portanto.

Foram feitas 288 mil unidades do Fuquinha em solo sul-africano.

O Fusca foi aposentado na África do Sul apenas um ano depois do lançamento do Golf 1 por ali.

Próximas 9: Centro de Pretória.

A ‘baratinha’ foi um sucesso na África do Sul, são comuns até hoje, quase 4 décadas após o fim da produção.

Vi Fuscas nas 3 cidades que estive, Joanesburgo, Durbã e Cidade do Cabo, daí você calcula o quanto foi popular.

Mas o Golf lá foi um sucesso maior ainda, vendeu mais que o dobro de seu antecessor. Já voltamos a África do Sul.

Apenas pra pôr o Brasil no contexto, onde o Fusca foi feito de 1959 a 1986, com mais um breve espasmo de 1994 a 96. Foram vendidos aqui 3,3 milhões de Fuscas.

E em nossa Pátria Amada não houve Golf 1 nem 2. O Golf só chegou aqui em 1995, já no modelo 3, que era bem mais redondo que o 1 – repito, não são o mesmo carro, só o nome é igual.

E como aqui havia o Gol, o Golf era um carro mais luxuoso, um degrau acima.

O basicão era o Gol, o Golf era pra quem podia pagar um pouco mais e queria mais conforto, mais acessórios, melhor acabamento.

Por isso, quando digo aos colegas brasileiros que o Golf é o carro mais vendido da história da África do Sul, algumas pessoas têm dificuldade de assimilar.

Pois, de forma natural, pensam no Golf brasileiro, que estreou aqui já tardiamente e visando um público de mais elevado poder aquisitivo.

De volta a África. Lá nunca houve Gol, que alias foi desenhado no Brasil segundo li na internet agora.

Na África do Sul o Golf era o basicão, era o carro do povo, o modelo mais barato e portanto o mais vendido.

Recapitulando, o Golf 1 estreou na Alemanha em 1974, e aposentou o Fusca em 1978.

Em 1983 foi a vez do próprio Golf 1 quadradão ser aposentado na Alemanha, substituído pelo Golf 2.

O plano inicial era aposentar o Gol 1 também na África do Sul, mas a situação tomou o rumo contrário.

O Golf 1 em seus 6 primeiros anos já se consolidara como sucesso absoluto de vendas em território sul-africano.

Tanto que a matriz alemã da Volks deu carta branca pra filial fazer algumas inovações.

Por exemplo, o Golf sul-africano foi lançado já na versão 4 portas, antes que isso acontecesse na Europa. Mas o melhor ainda estava por vir.

Enfatizando de novo, em 83 a matriz alemã encerra a produção do Golf 1, quando começa o Golf 2.

Ali igualmente existe muito comércio ambulante no calçadão.

O planejamento inicial determinava que a fábrica da África do Sul desse o mesmo passo no ano seguinte.

Mas nem tudo acontece como é planejado nos gabinetes, não é mesmo?

Exatamente no ano 84 explode em Joanesburgo a segunda grande revolta estudantil contra o ‘apartheid‘.

Já contamos com muito mais detalhes essa história antes.

Ao contrário de Joanesburgo e Durbã, no Centro de Pretória há brancos. Poucos, mas existem. Veja ponto de ônibus da época do ‘apartheid’, bi-língue em inglês e africâner.

Pro que nos interessa aqui que é só o ramo automobilístico, a comunidade internacional impõe um embargo a África do Sul.

Assim fica dificultada senão impossibilitada a importação de maquinário industrial.

Impedindo a modernização necessária nas máquinas da fábrica da Volks que seria necessária pro atualizar do Golf 1 pro 2.

As faixas vermelhas demarcam o corredor exclusivo de ônibus, Pretória também conta com esse modal moderno com embarque pré-pago em estações em nível.

Ademais, o boicote por motivos óbvios causa um empobrecimento geral de toda sociedade sul-africana. Certamente que tudo isso foi justo. Óbvio.

O boicote internacional foi muito útil pra auxiliar a luta dos negros (e de alguns brancos conscientes) que por fim derrubou o ‘apartheid’.

Então não estou lamentando o boicote, de forma alguma, foi justíssimo, uma forma de pressão totalmente apropriada.

Ainda assim, o efeito (desejado alias) foi esse, tornou mais difícil fazer negócios dentro da África do Sul.

Ainda na Z/Central de Pretória, pra quem não quer ‘peixe-com-batatas’ há milho cozido, preparado e servido na própria calçada. Nas ruas de todo país se vende muita banana também, você compra, descasca e come ali mesmo, já descarta a casca e está alimentado.

E isso tanto devido a falta de material adequando como devido a queda de poder aquisitivo da população.

Na guerra, um urubu é frango” diz o dito popular. Em momentos de crise, melhor não inventar, e fazer o básico, pois se o básico sair já está muito bom.

E foi isso que a Volks fez. Ao invés de lançar o Golf 2, relançou o Golf 1, dando uma repaginada nele.

O desenho da carroceria se manteve exatamente o mesmo.

Mas foi lançada uma versão que aqui no Brasil era conhecida como “Pé-de-Boi”: um carro mais cru, sem acessórios.

Mais uma do Palácio Presidencial.

Que cumpria o objetivo de permitir que as pessoas se deslocassem nele com conforto mas sem luxo.

O “Pé-de-Boi” não tinha tapetes, rádio, no painel só haviam os itens mais básicos. 

Tinha somente marcador de velocidade e da gasolina no tanque.

Portanto se excluiram ‘supérfluos’ como quem sabe o marcador de giros do motor e talvez até o odômetro.

Bem em frente ao Palácio começa (ou termina) a “Avenida do Governo”. Há uma praça, na esquina com a Rua Madiba, que é o apelido de Nélson Mandela. Um canhão adorna o local.

No Brasil alguns ‘Pé-de-Bois’ não tinham tampouco maçaneta externa do lado do passageiro:

O motorista precisava entrar primeiro e abrir por dentro a outra porta, não sei se na África foi assim também.

Não sei se o Golf ‘urubu-é-frango’ sul-africano tinha ou não maçaneta externa nas portas do passageiro.

O que sei é que era um ‘Pé-de-Boi’: um modelo que já deveria inclusive ter sido aposentado ganhou sobre-vida, desprovido de ‘luxo’, mantendo só o essencial.

Ia ser chamado ‘Econo-Golf’, pra ressaltar a economia. Mas pesquisas de mercado detectaram ser pouco atraente ao público esse nome. Foi batizado de ‘Golf-Citi’.

Voltamos ao Centro, esquina das Ruas Madiba (Mandela) e Steve Biko, ativista negro anti-‘apartheid’ que morreu torturado nas masmorras do regime racista, um mártir da liberdade negra que por décadas foi sonho e hoje é a realidade. Com essa encerramos (por hora) as imagens de Pretória.

Na África do Sul eles gostam de escrever ‘city’ com ‘i’ no final.

Basta ver que a rede integrada de ônibus da Cid. do Cabo se chama ‘My Citi’.

Seja como for, nasceu aí um campeão de vendas. Também pra baratear custos, ele só era produzido em 3 opções de pintura.

Um anúncio resuma a questão: “Golf Citi. Disponível em vermelho, amarelo e azul. Em verde não temos, infelizmente”.

Mais tarde, lançaram a versão preta, aí ficaram 4 possibilidades.

E fez sucesso, mesmo se restringindo a 3 (depois 4)  cores.

Voltamos a Joanesburgo. As sul-africanas negras levam seus bebês nas costas.

Somente o Golf-Citi vendeu 377 mil carros (equivalente a pouco mais de 1,5 milhão o Brasil).

Levando as vendas do Golf 1 na África do Sul (somando o Citi e os outros que tinham a mesma lataria mas mais acessórios) a 577 mil (o que daria 2,4 milhões em nosso mercado, como dito).

Vá num bairro popular do México. Verá uma profusão de Fuscas. Na África do Sul, em bairros de perfil social similar, um mar de Golfs, a maior parte deles Citis.

……

Eu não sou ligado a carros, sou busólogo e sou Caminhante, ando mais a pé e de transporte coletivo.

Colagem mostra um pouco dos hábitos alimentares sul-africanos: sendo um caldeirão de raças e culturas, a culinária tinha que refletir essa diversidade. Na geladeira do apê que fique em Joanesburgo haviam molhos e temperos de influência indiana, alemã e inglesa. A mostarda alemã diz ‘quente’, mas nem tanto assim, não diferente da mostarda escura holandesa que vende no Brasil. Mas a mostarda inglesa….não é quente, é fervendo. Aquilo é pimenta pura, eu comi um pouco no pão, até passei mal, fiquei vermelho como um pimentão, engasguei, saiam lágrimas dos olhos. Entendi porque os ingleses bateram os alemães nas duas guerras mundiais, porque seus culhões são (ou eram pelo menos) mais grossos; depois vemos um mel, embalagem em português pois é moçambicano; mercadinho com fachada da Pepsi no Centro de Pretória. Uma cena raríssima, a Coca-Cola é oni-presente no país e domina 99% dos letreiros de comércios. Existe Pepsi lá, eu tomei, mas é mais difícil achar – bem, no Brasil também é; registrei mais um peixe-com-batatas, esse em Joanesburgo; e fecho o giro com um alimento que é feito por uma corporação sul-africana no vizinho e pequeno país chamado Suazilândia. É uma das nações menos desenvolvidas do mundo, mediterrânea, totalmente dependente da África do Sul pra tudo. As indústrias sul-africanas abrem filiais lá pois os salários são mais baixos, os impostos, burocracia e direitos trabalhistas quase inexistentes. Destaquei o selo Halaal, que é o “Kosher dos Muçulmanos”. Na África do Sul há enorme comunidade islâmica, quase todos os alimentos são ‘Halaal’.

Por isso, um ano atrás (17), até eu fazer 40 anos, eu nunca na minha vida havia entrado em uma BMW.

E tampouco em um carro Mercedes – só nos ônibus, milhões de vezes.

Mas carros não. Pois essas marcas alemãs são caras no Brasil.

Eu não tenho amigos ricos, alias vários de meus camaradas ou nem sequer dirigem ou como eu o fazem muito raramente.

Mas na África do Sul Mercedes e BMW são mais baratos, mais comuns.

Andei pela primeira vez em ambos lá do outro lado do Oceano, já com mais de 40.

Outro modal que eu estreei em solo africano foi o Uber. Aqui no Brasil rarissimamente ando de táxi, o que inclui Uber.

Até porque nem tenho celular, não tenho como chamar o Uber. Mas lá na África andei várias vezes.

Inclusive ficamos hospedados no bairro ‘Killarney’, entre a Zona Central e a Norte de Joanesburgo. Chamamos um Uber pra ir ao Centro.

Quando chegávamos endereço desejado, ele falou: “eu deixo vocês na quadra de trás. Nessa rua tem muito taxista, e eles não aceitam Uber”.

É. Lá também tem esses conflitos, que também já presenciei na América.

Todos sabemos que estão ocorrendo confrontos de taxistas contra motoristas e passageiros do Uber no Brasil, inclusive aqui em Curitiba.

Em Buenos Aires, a entrada da Rodoviária do Retiro, no Centro da capital argentina, estava (março de 2017, um mês antes de eu ir a África) forrada de cartazes que diziam: “Uber: ilegal!”.

E na África essa situação se repete. Bem, esse é apenas um dos muitos conflitos que se desenrolam no Centro de Joanesburgo.

…………..

Universidade Nacional, chegando em Pretória.

Falar em mercado automobilístico, vamos citar outros sucessos de vendas na África do Sul:

Um é o Toyota Corolla (o modelo antigo deve ser o segundo ou terceiro carro mais vendido do país, atrás do Golf 1 e quem sabe do Fusca) os Mercedes antigos e as BMW’s.

Os veículos novos da Mercedes fazem sucesso lá também, sem dúvidas.

Voltando a Joburgo, na Zona Central, campus da Universidade de Joanesburgo.

Tanto os caríssimos mesmo quanto os destinados a média-burguesia.

Mas aqui quero chamar a atenção pra aqueles  Mercedes antigos, aqueles compridões, quem tem perto de 40 vai se lembrar:

Eram o luxo dos luxos no Brasil nos anos 80. A importação de carros era bem mais difícil, e entre os importados esse Mercedes liderava disparado. Era o topo de linha por aqui na época, rivalizados de perto pelos Alfa-Romeus.

Hotel de luxo no Centro de Joanesburgo abandonado, símbolo da decadência da região. Já contei a história completa aqui.

Mas tanto os Mercedes antigos quanto os Alfa-Romeus desapareceram a muito das ruas brasileiras.

Pois bem. Na África do Sul eles (os Mercedes velhos) ainda são comuns.

Na época do ‘apartheid’ era ‘carro de branco’, apenas os caucasianos podiam bancar, e nem todos eles, só os mais aburguesados.

(Nota: embora bem menos que os negros, existem os brancos pobres, trabalhadores braçais, na África do Sul.)

Quer saber por que a classe-média (inclusive a burguesia negra) abandonou o Centro Velho de Joanesburgo? Então eu vou mostrar. Foi porque ele virou um gueto gigante. Não tenho nada contra a periferia, exatamente ao contrário, eu não sou burguês, sou suburbano. Eu moraria nesse prédio na boa. Mas quem é burguês não curte muito esse estilo, digamos assim….

Voltando a nosso tema de hoje, vários desses Mercedes ainda circulam na África do Sul, enfatizo ainda mais uma vez.

É uma paixão do povo de lá, creio que no pós-‘apartheid’ compartilhada por todas as raças.

No Paraguai e nos países árabes (Palestina, Síria, Líbano, entre outros) é o mesmo.

Eles simplesmente adoram carros Mercedes, aqueles grandões, quadrados.

Adoram. Não importa se é velho, se está caindo aos pedaços – e alguns estão mesmo, não é modo de falar.

Não importa o ano e o estado de conservação. Importa que tenha a Estrelinha.

No Paraguai comprovei pessoalmente, quando estive lá em 2013.

Mas tem coisa pior. Repare nesse edifício. Está abandonado, a maioria dos apês em ruínas. Mas alguns estão habitados, tem gente que vive ali (destaquei as roupas no varal) por falta de opção.

Nos demais via internet. Alias os árabes e povos vizinhos como os persas amam também caminhões Mercedes-Benz.

Fiz matéria explicando com muitas dezenas de imagens a proliferação dos Mercedes de carga pesados no mundo. Recapitulemos onde eles tiveram mais penetração:

Alemanha e imediações no Norte da Europa (Holanda e Escandinávia especialmente), Cone Sul da América (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai), África Negra (incluída África do Sul, embora ela seja multi-racial), Equador e América Central, Oriente Médio (incluindo Irã) e Ásia de Monções (Indonésia, Malásia, em menor escala Tailândia).

Mas voltemos aos automóveis de passeio. Na África do Sul, Paraguai e Oriente Médio, e também no Brasil porque não dizermos?, o carro antigo, quadrado, foi uma coqueluche.

Com a diferença que no Brasil eles praticamente acabaram, nos demais ainda estão em grande número nas ruas. Sinal que eles amam os Mercedes mais que a gene, dura constatação….

Outra marca muito vendida na África do Sul é a BMW, como é notório. Creio que lá seja mais em conta que aqui.

Próximas 3: muitos camelôs por todo Centro Velho da cidade.

No Brasil, como todos sabem, B.M. (e Mercedes) é sinônimo de automóvel de luxo, uma limosine.

Na África do Sul esse mesmo modelo que aqui é caríssimo lá não tem preço tão astronômico. Claro que não é popular, não é pra tanto.

Rivalizar com o Golf-Citi? Nem pensar!!! Mas a BMW lá se não é dos modelos mais baratos tampouco é dos mais caros.

Essa constatação não é científica, é empírica. Digo isso pelo que observei, não consultei tabelas.

Vi várias (tanto ao vivo quanto via Visão de Rua do ‘Google Mapas’) BMW’s nas periferias, nos bairros de gente trabalhadora. Nas favelas não, mas um pouquinho acima delas sim.

Essa tirei de dentro do busão Rea Vaya, recém-chegado de Soweto.

Por exemplo, andava eu (esse via ‘Google Mapas’) por uma cohab bem na periferia de Durbã. Quebrada, irmão. Moradia de classe operária mesmo.

E haviam algumas B.M.’s nas ruas, paradas em casas simples, daquelas que o morador faz um puxadinho pra garagem na laje (as casas nesse caso são na ladeira, abaixo do nível da rua).

Cheguei inclusive a mostrar isso a minha ex-eposa (na época ainda éramos casados).

E uma imagem que resume a questão eu presenciei com meus próprios olhos, fui eu quem cliquei:

Ninguém recolhe o lixo nem corta o mato por aqui. E estamos no coração da cidade. Note mais 2 muçulmanas de véu.

Estava num bairro popular da Zona Central de Pretória. Havia uma serralheria nos fundos do terreno.

Negócio familiar, de alguém que trabalha sozinho ou com parentes, no máximo um ajudante de fora.

Tudo era bem simples, nos fundos de outra casa, a nada requintada placa que anuncia o negócio parecia pintada a mão.

Mas o carro parado na frente era…outra BMW. Coisa de sul-africano. Fotografei pra registrar pela eternidade (busque pela legenda).

Galera na fila pra embarcar nas vans no final de tarde, Centro de Joburgo.

………….

Já prosseguimos com o texto. Pausa pra uma foto-galeria mostrando a história de Joanesburgo.

Fotografei de quadros que estavam expostos no teto, logo a angulação não ajudou na iluminação.

O texto era tri-língue, inglês francês e africâner. Foi formulado no começo do século 20. Logo, quando falar ali em ‘anos 90’ (‘nineties’), são os anos 90 do século 19, e não o do 20, lembre-se disso.

Mas nem tudo são problemas. Há o Centro Novo, visto nessa e nas próximas 2 fotos. Esse é limpo, organizado, e pelo menos de dia, bastante seguro. Aqui a burguesia frequenta. Mas apenas a burguesia negra.

Como eu já delineei em mensagens anteriores e recapitulei nas legendas das fotos dessa atual matéria:

O Centrão Velho de Joburgo é um gueto gigante. Não há brancos ali. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Bem, na parte velha que está horrorosa, tenebrosa não há ninguém de classe-média, da raça que for.

Pois hoje, como já escrevi diversas vezes e é notório, existe uma nascente burguesia negra.

E ela não é despresível nem invisível, marca presença tanto numericamente quanto em termos de renda. É muito comum ver Homens e Mulheres negros e negras dirigindo carrões caríssimos:

Picapes, utilitários, BMW’s, Audis e Mercedes dos modelos mais luxuosos, e não somente dos que já se se popularizaram.

Pois bem. Esses burgueses negros também evitam a parte velha do Centrão. Tanto quanto seus colegas brancos. E compreensivelmente, porque em alguns locais a situação está de arrepiar:

Placa indica que nessa região são proibidos camelôs. É a parte nova e civilizada do Centro da cidade, um contraste total com a parte mais antiga.

Muito lixo, violência, camelôs por toda parte, prédios abandonados, invadidos, em certos pontos odor forte de urina. Situação tensa. Eu não exagero quando digo que é um ‘gueto’.

No gueto do Centrão só tem gente do povão, sem recursos. E todos de pele escura. Muitos nativos sul-africanos mesmo, mas muitos imigrantes de outros países da África.

A África do Sul é um país de 3º mundo, certamente, como estamos mostrando na série (ainda virá a matéria sobre Durbã, breve no ar).

Mas boa parte da África é de 4º ou mesmo 5º mundo. Se existir o 5º mundo, é nas partes mais esquecidas do Continente Negro que ele se manifesta.

Se você já conhece a situação, sabe o que estou dizendo. Mas se não, você não vai querer saber agora como são as condições de vida da maioria do povo na Libéria, Serra Leoa, Somália, Sudão do Sul, partes do Congo e Nigéria, entre outros. A coisa é de chorar.

Mercearia em Soweto, Zona Oeste.

Por isso a África do Sul drena imigrantes da África inteira. O chamado “1º mundo” (entre muitas aspas, porque sabemos bem como eles obtiveram e mantém sua riqueza) deveria agradecer muito a África do Sul.

Pois se esses africanos não estivessem ali estariam na Europa ou (mais raramente) EUA.

Colagem mostra o Centro de Pretória e imediações. Em sentido horário: 1) Mantiveram no nome que os brancos deram a cidade, mas a prefeitura metropolitana (como se fosse a do ‘condado’ nos EUA) foi rebatizada Tshwane, o nome negro da região; 2) pastor prega no Centrão. Ele gritava a plenos pulmões o Apocalipse. Ninguém lhe dava atenção; 3) mais um plátano; 4) tótem da Estação de trem de Pretória; 5) de volta ao Centrão, notamos os trilhos onde um dia passou bonde mas não mais a muito (fotografei o mesmo em Belém-PA, no Paraguai e Argentina). Destaquei no detalhe que o rapaz está com a camisa alvi-negra do time de futebol Orlando Piratas, de Joanesburgo; e o ‘Museu do TransVaal’ já no nome começa a preservar a história da região, esse era o nome do estado na época do ‘apartheid’, quando ele era bem maior.

Com todas as favelas e com todos os seus problemas, a periferia das metrópoles sul-africanas é muito, mas muito mais rica que os rincões isolados africanos.

O taxista nos contou que os imigrantes de nações mais pobres se espantam que a África do Sul conta com ruas e estradas – mesmo que nem sempre elas estejam no melhor estado de conservação.

No interiorzão africanos, muitas vezes nem isso há. Bem, nem estrada nem nada, em partes do Continente Negro as pessoas ainda vivem como a milênios atrás:

Em chochas no deserto ou na selva, criando cabras e contando apenas com Deus pra velar por elas.

Então a África do Sul conta com pequena comunidade lusófona entre os trabalhadores braçais (oriundos majoritariamente de Moçambique e Angola).

Eu mesmo conversei em português com um moçambicano, um pedreiro que reformava o prédio onde fiquei hospedado em Durbã.

Mas a comunidade mais comum de imigrantes é proveniente do Golfo da Guiné (o Oeste Africano). Os nigerianos tomaram conta do Centro de Joanesbuburgo, eles dizem por lá.

Próximas 3: Zona Central de Pretória.

‘Inclusive agora quase que monopolizando o tráfico de drogas’, acrescentam.

Evidente que a imensa maioria dos nigerianos que migram é honesta. Evidente.

Mas tenha em conta que bastam algumas dezenas de pessoas pra formar uma quadrilha que domina um território inteiro.

Certamente há algumas dezenas de milhares de nigerianos nos guetos da Zona Central de Joanesburgo.

Se 0,1% deles forem desonestos, já dá uma turma da pesada, e de fato assim ocorre.

Também é comum vermos bandeiras de Gana pela África do Sul, indicando que muitos ganeses estão por ali.

‘Pick’n Pay’ é uma rede nacional de mercados, e significa exatamente ‘Peg-&-Pag’, como existia no Brasil (essa só quem é “daquele tempo” vai lembrar…). De volta ao Centro de Pretória, na África do Sul a venda de bebida alcoólica é mais regulada que aqui, por isso muitas redes têm uma loja própria só pra isso. É o caso aqui.

Vi pessoalmente (e fotografei) uma delas no Mercadão Central de Joburgo. E via ‘Google Mapas’ presenciei outra numa favela da Cidade do Cabo.

……

Há uma parte do Centro de Joanesburgo limpa e segura, como já falamos acima.

Ali há sim pessoas de classe-média, mas mesmo assim só os de pele escura.

Os euro-descendentes não vão mesmo ao Centro, mesmo na parte agradável dele.

Olhe, as ruas são limpas e seguras, pelo menos durante o dia – já a noite é melhor não andar a pé ali, mas isso é igual no Brasil também.

Não há camelôs, não há lixo nas ruas, não há rodas de desocupados nas esquinas em frente aos bares e mercadinhos. 

Próximas 3: Soweto, a periferia mais emblemática da África, na Zona Oeste de Joanesburgo. Aqui uma favela, as ‘casas’ são de zinco. Em verde os banheiros químicos que o governo instala, pra não ser ao ar-livre mesmo.

Lojas e restaurantes caros se destinam senão a elite certamente a média e alta burguesia.

Homens e Mulheres da raça negra, elegantemente vestidos, ali trabalham e no almoço e fim-da-tarde comem e congregam nos restaurantes e lanchonetes.

Mas mesmo nessa parte limpa e elegante do Centro não há brancos.

Os caucasianos se auto-impuseram um ‘apartheid invertido’, e não pisam mais no Centro, incluindo onde ele é limpo e seguro.

A África do Sul está fazendo um esforço hercúleo pra urbanizar as favelas, já construiu milhões de moradias decentes por todo país. A casa é de alvenaria, porque foi entregue assim. Mas quando faz um puxadinho….o cara volta pro zinco! Você sai da ‘Cidade de Lata’, mas ela não sai de você!!

Os euro-descendentes migraram prum ‘Novo Centro’ que eles implantaram na Zona Norte da cidade.

Há um subúrbio (no sentido ianque do termo) chamado Sandton.

É ali que os brancos trabalham, pois eles moram na região.

Claro, não só brancos. Não há mais ‘apartheid’, felizmente, então ninguém pode ser impedido de entrar em parte alguma por causa de sua raça. 

Ademais, digo ainda mais uma vez, existe uma burguesia negra.

Outra favela em Soweto, note quanta pedra nos telhados pra eles não irem com o vento.

E eles também trabalham em Sandton, afinal é onde o dinheiro está.

Então há negros em Sandton. Evidente que sim. Mas nesse bairro os brancos ainda são numerosos, creio que ainda a maioria, pois se concentram ali.

A bolsa de valores da África do Sul, por exemplo, foi há muito transferida do Centrão pra Sandton. Todos os hotéis mais caros e centros de convenções e de compras, idem.

Colagem mostra um pouco do que vemos nas ruas de Joanesburgo, incluindo a rodovia pra Pretória (em sentido horário a partir do carro preto): 1) o Golf modelo 1, automóvel mais vendido da história da África do Sul; 2) belo ‘Galaxão’ antigo; 3) Toyota Corolla do modelo antigo, também mito popular por lá; 4) na África do Sul eles amam carros Mercedes. São tantos que acabei andando neles pela 1ª vez em minha vida; 5) ao lado de um Audi escuro vemos um Mercedes branco daqueles antigos, quadradões. Ainda há vários deles circulando; 6) caminhão bi-trem, também bastante frequentes nas estradas (99% dos caminhões sul-africanos são cara-chata, e 90% são brancos); e ao centro um ônibus 2-andares da Metrobus.

Explorando novamente a região via ‘Google Mapas’ um ano depois que estive fisicamente nela, constatei alguns anúncios que comprovam o ‘espírito’ de Sandton.

Um deles dizia: “invista no bairro que tem o metro quadrado mais valorizado de toda África.”

E outro era da BMW. Estava grafado: “O Lobo de Todas as Ruas”.

Uma referência ao o filme “O Lobo da Rua do Muro”, que mostra como é por dentro o esquema de pilhagem global que é conhecido como ‘bolsa de valores’.

Em inglês forma um trocadilho, pois o título da película é “The Wolf of Wall Street”.

O cartaz da montadora alemã anunciava seu produto como “The Wolf of All Streets”.

É mole? O filme denuncia a ganância e a imoralidade da Rua do Muro. Mas pros publicitários que bolaram a campanha essas são virtudes (????).

Assim é o ser humano….

…………

Mais uma pausa pra outras duas foto-galerias.

Iniciamos pelas linhas de prédios do Centro de Joanesburgo, fotografados a nível do solo. A direita a mesma cena mas cliquei do alto de um daqueles arranha-céus.

E agora os subúrbios da Zona Norte. Algumas partes de elite, outras de classe-média, e há bairros mais populares.

Nas próximas 2, de volta ao Centro de Pretória: aqui uma imagem reflete bem os contrastes da África do Sul. Um possante Mercedes do modelo novo, bem caro, cruza com um outro ‘carro’, esse de tração humana, trata-se de um catador de papel.

Bem, como já contei antes, bem perto desse riquíssimo subúrbio de Sandton há uma grande favela chamada Alexandra (lá pronuncia ‘Alec-zandra’).

Uma boca-quente, um dos pontos mais problemáticos da cidade, e isso desde os tempos do ‘apartheid’.

Mais uma vez: é evidente que a imensa maioria dos Homens e Mulheres de Alexandra (e de qualquer favela) são trabalhadores honrados e dignos.

Eu sei muito bem disso, ninguém precisa me falar.

Morei 15 anos numa favela de Curitiba (trata-se do Canal Belém, no bairro do Boqueirão, na Zona Sul).

Serralheria na Zona Central de Pretória, negócio pequeno, nos fundos, o barracão precário, é um lutador, o cara se vira como pode mesmo. Mas o carro é BMW.

Então sei. A imensa maioria são pessoas decentes, que lutam contra muitas dificuldades pra sustentarem suas famílias, mas não esmorecem e nunca perdem a Fé em Deus.

Ainda assim em toda favela existem criminosos, e isso também é um fato, que não adianta tapar sol com peneira.

Em Alexandra é assim também. Pra fecharmos o texto que já está bem longo, vou resumir  aqui uma história que já relatei mais detalhadamente em outra postagem.

Mas o final da matéria será inédito, ainda não contei em parte alguma.

No fim-de-tarde, uma fila de trabalhadores braçais saem de Sandton, e vão a pé pra suas casas pra economizar o VT.

São os peões da construção, jardineiros, porteiros, seguranças, copeiras, domésticas, cabeleireiras, depiladoras, balconistas, caixas, ascensoristas (ops, esse cargo não existe mais…), resumindo a galera que rala, ganha o pão de cada dia com o suor de seu rosto.

Próximas 3: Zona Norte de Joanesburgo, “a cidade que tem medo”. Fecharam a rua ao tráfego, exatamente como ocorre no Brasil.

Uma boa parte deles mora em Alexandra. Já havia mesmo planejado ir de Sandton a Alexandra.

Quando vendo o mapa fiz o roteiro desse meu rolê a pé, desse trabalho de campo pra ver como é a maior metrópole da África do Sul, o plano era exatamente esse mesmo.

Pra ver os dois lados. A elite e a favela. O bairro mais caro da África, bem perto de uma das piores favelas da cidade.

Então fui. Junto com a massa. Eu era o único de pele clara.

Já é um condomínio fechado, mas olhe quantas camadas de cerca elétrica.

(Nota: eu me considero ‘pardo’ por razões Espirituais, pois ‘branco’ é europeu, e eu não sou europeu.

Eu Sou Americano, do Continente América,  o que é classificado como ‘Hispânico’ nos EUA, o Latino, da Raça Latina. Ainda assim, minha tez é alva.)

Deixamos Sandton, fomos pelo acostamento da auto-estrada. Claro, os grupos vão se dividindo, cada um vai pro seu bairro.

Eu segui no embalo da galera que rumava a Alexandra.

Passamos pelo bairro de ‘Wynberg’, um subúrbio industrial, muitos barracões, um centro de compras popular. 

Na entrada dele há esse monumento curioso, visto a direita: uma Kombi queimada.

Subúrbios de Pretória.

Ao chegar na praça que divide ‘Wynberg’ de Alexandra…caramba, irmão!!!!

Tomei um tremendo choque. E não é pra menos. Me deparo com uma cena de guerra. Não é modo de falar.

A praça estava ocupada militarmente, por uns 30 ou mesmo mais camburões da polícia.

Embaixo do rodado de um deles, um corpo coberto com lençol.

Daqui até o fim: Zona Norte de Joanesburgo (foi ali que fiquei, por isso foi mais fotografada). Aqui o bairro de Alexandra, perto da favela que descrevo no texto.

Pensei que tinha havido um tiroteio. Mas depois lendo pelo jornal constatei que uma viatura atropelou e matou uma menina, pré-adolescente que voltava da escola.

Além daquela saturação na praça, todas as entradas da favela contavam com mais uma viatura fazendo pressão.

Os policiais cuidavam de salvar suas próprias vidas.

Dois anos antes (em 2015), ali em Joburgo mesmo, uma viatura atropelou dois jovens. A multidão fez justiça com as próprias mãos e queimou vivos os dois policiais. Não é maneira de falar.

Pichação na passarela, na saída pra Sandton e Pretória.

…………

Lamentável. Passei pela favela ocupada, saí de novo por ‘Wynberg’.

E peguei uma avenida em direção a parte mais central da Zona Norte, onde eu estava.

Vi a periferia da cidade e seus contrastes, agora fora da favela.

Parque Central de Sandton.

Os prédios, alguns bem cuidados e floridos, outros bem derrubados, comércio popular.

Um trânsito infernal na avenida, as pessoas nos pontos esperando vans e ônibus, aqueles que moram muito longe e não dá pra ir a pé.

O Sol se pondo. Era meu último dia na África. Como havia feito no Chile, eu ia caminhando e fazendo uma reflexão.

Aqui e a direita: na África do Sul eles usam infinitamente mais energia do Sol que no Brasil. Mil vezes mais, sem comparação possível. Casas de todos os padrões sociais têm painel solar. Veja esse conjuntão nas bordas da Zona Norte de Joanesburgo. Bem perifa, moradia da massa, sem luxo nenhum. Mas todas as residências com esse equipamento.

Agradecendo a Deus Pai e Mãe por ter me dado a oportunidade de conhecer outro continente.

Nessa parte mais periférica, muito povão nas ruas. Quando fui chegando a meu destino adentrei de novo na parte rica da cidade.

No estilo dos subúrbios ianques. Parecido com o bairro do Morumbi em São Paulo, pra quem conhece:

O bairro lá se chama ‘Houghton Estates’. Só mansão atrás de mansão. Cada vez mais ruas que foram fechadas ao tráfego.

Botaram grades, você não entra mais se não for morador (ou explicitamente convidado de um morador).

Uma colagem, o da Z/N é no mesmo bairro a esquerda. Mas veja o mesmo na Zona Oeste, em Soweto. A quantia de pedras em cima do telhado não deixa dúvidas a qual classe social aquelas moradias pertencem. Mas ao lado das pedras…painel solar!

Ninguém passa a pé nessas ruas, eu andava sozinho, só eu e Deus.

Nas vias internas não há comércio, não há linhas de ônibus, não há nada.

As calçadas (onde elas existem, que nem sempre é o caso) absolutamente desertas.

Eu andava as vezes mais de uma hora sem cruzar com ninguém.

Mas as ruas cheias de carros, e carros caros. O dia virando noite.

África do Sul em Preto-&-Branco. No fundo, um subúrbio de altíssimo padrão, onde mora a alta burguesia, que ainda é majoritariamente branca (embora não mais exclusivamente assim). Na frente um cartaz do McDonald’s anuncia o…. McFlava. Peraí, que tal de ‘McFlava’ é esse???? Trata-se da palavra ‘flavour’ (‘sabor’) em ebonês, um dialeto do inglês que é falado pelos negros mais jovens e menos instruídos da África (não apenas África do Sul, todo país anglófono como Nigéria idem), EUA, e nações do Caribe insulares de colonização britânica como Jamaica. O Ebonês tem gramática mais simples, menos preposições, abrevia-se muito, muita gíria. Uma de suas principais características é que eles não conseguem falar o ‘r’ no final das palavras, por isso o ‘flavour’ vira ‘flava’.

Cheguei na auto-estrada, já próximo do bairro que em que fiquei hospedado.

Quase lá. Bastava somente contornar um campo de golfe e chegava em casa.

Estava cansado (foram 6 horas caminhando sem parar, percorri uma boa parte da Zona Norte de Joanesburgo a pé) mas feliz pela missão cumprida.

Havia visto tudo. Os subúrbios ricos e de classe média. A periferia. As favelas. Até dentro de camburão eu andei em Durbã, como já contei no outro texto.

Ali em Joburgo mesmo, o contraste agudo, o Centrão que virou gueto com seus arranha-céus abandonados, nenhum branco nas ruas.

Sandton, o ‘Novo Centro’, com seus arranha-céus, todos eles ocupados a preço de ouro, o metro quadrado mais caro da África.

A favela de Alexandra, ocupada militarmente pra rapaziada não fazer micro-ondas com os policiais.

Muita gente nas ruas em toda periferia, mas ali no local que estava cercado pela polícia nem dava pra andar.

Centro do subúrbio de ‘Rosebank’. Entre o Centro e Sandton, cumpre a mesma função que esse último, mas numa escala menor.

Pois a multidão obviamente se aglomerou pra acompanhar a perícia retirar o corpo.

Em Hougton, a mesma cena que eu já havia visto em ‘Rosebank’ e ‘Saxonwold’, na ida:

Redutos de milionários, ruas cheias de carro mas ninguém a pé, andava mais de um hora antes de cruzar com alguém.

Ia lembrando de tudo isso, no acostamento da rodovia, já de noite, ao lado do campo de golfe.

Há muitos deles na África do Sul, centenas de vezes mais que no Brasil.

Placa bi-língue (inglês de um lado, africâner de outro), herança do ‘apartheid‘.

Pela herança inglesa, a burguesia sul-africana adora golfe.

Cada subúrbio deles tem vários campos, como nos EUA e totalmente diferente do Brasil, repetindo.

Ou seja, um reduto da elite. Mas pra completar o contraste, pra resumir numa imagem os paradoxos que esse país chamado África do Sul:

Viram na foto anterior que o Sol está se pondo. Fechamos com duas imagens da região. Era meu último dia na África. O Sol (Logos) encerrava mais um ciclo de trabalho, e eu também.

Encostados na grade havia um acampamento de sem-tetos.

E quatro ou cinco deles se aqueciam em volta de uma fogueira.

Encostados, repito, na grade que vetava sua passagem prum ambiente que fisicamente estava perto.

Mas em termos sociais parecia outra galáxia, o campo de golfe dos bem-nascidos e bem-conectados.

Aquilo era a África do Sul.

Onde a parte mais tecnológica e rica do Norte da Europa se encontra com a parte mais miserável do Golfo da Guiné. Inglaterra e Holanda separadas por uma cerca de Libéria e Serra Leoa.

Definitivamente….o mundo num só país!!!

Eu encerro meu caso. Que Deus Abençoe a todos.

“Deus proverá”

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“O Número da Besta”: Buenos Aires, Argentina

Obelisco: na frente tudo é belo, turistas tiram fotos. É o ‘Lado A’ de B. Aires.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 18 de março de 2018

Ouça ouvindo “Número da Besta”, do ‘Iron Maiden’. Ao fim da matéria explico porque fiz essa relação.

Nossa série sobre a Argentina chega a capital.

Vamos falar um pouco do que observei na cidade.

Com isso recapitulando algumas coisas já ditas em outras mensagens da série. Adicionando muitas informações novas, é claro.

As fotos são na maior parte inéditas, quase todas de minha autoria.

As que forem baixada da internet eu identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

…..

Mas veja por trás do Obelisco, sem-tetos dormem em pleno dia. Esse é o ‘Lado B’, o que ninguém quer ver.

Hoje, 18 de março de 2018, faz exatamente um ano que eu fiz esse desenho ao lado:

‘Marília e Maurílio’ dançando tango (em comemoração ao aniversário que subo essa matéria).

E fiz lá, direto do Centro de Buenos Aires, ou melhor, do ‘Micro-Centro’.

Estava vendo o Obelisco de minha janela enquanto traçava as linhas desse casal em preto-&-branco.

Esse mesmo Obelisco que é o cartão-postal-mor, a imagem-arquétipo de Buenos Aires.

Boca x Ríver – ou seria ‘Voka x Ríber’?: Buenos Aires É Futebol (r), são 24 Libertadores ganhas por essa cidade (incluindo região metropolitana e subúrbios próximos). O Brasil inteiro tem 18, contando todas as cidades. Precisa dizer mais?

Todos conhecem essa imagem, mesmo quem nunca pisou na Argentina.

O que eu não conhecia antes de ir pessoalmente é essa escultura feita com vegetação.

Que na frente dele forma em letras gigantes as iniciais da cidade, B.A. .

E mais a bandeira da ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’. Esse é o novo nome oficial.

Antigamente a ‘Capital Federal’, o povo ainda diz assim. E por que ‘autônoma’?

Belo fim-de-tarde em Vicente Lopes, rico município da Zona Norte colado a capital.

Porque não pertence a nenhum estado (lá os estados se chamam ‘províncias’, o sabes).

Nomenclatura a parte, o Obelisco, a frente dele, é obviamente o ponto mais procurado do país pros turistas.

Que tiram fotos com ele como cenário. Quando eu passei lá ocorria exatamente isso:

O rapaz posa sob a bandeira enquanto o grupo que o acompanha faz o registro, confira a primeira imagem da matéria.

“Bs. Aires, Cidade da Erva”: eles tomam chimarrão literalmente em toda parte, é oni-presente. Em família, numa roda só de gurias….

Mas veja o outro lado – literalmente. No calçadão sem-tetos dormem em pleno dia.

A Argentina atravessa severa crise social, política, econômica, todas as dimensões. E essa imagem sintetiza isso.

Agora, justiça seja feita, nesse ponto (pessoas morando nas ruas) o Brasil está pior.

Bem pertinho, o bairro de Nunhes (do ‘Monumental de Nuñez’), também Z/N, mas dentro da Capital Federal.

Muito pior, sem comparação possível.

Na Argentina existem sem-tetos mas numa proporção ‘normal’.

Digamos assim né, se é que isso pode ser consideradonormal.

A título de comparação, existem mendigos também no Chile, os vi e fotografei.

Mas muito poucos, pelo menos na capital é bem raro.

Do outro lado da cidade: favela da Vila 21, Zona Sul, município de B. Aires. Lá, como aqui, vão cada vez subindo mais lajes pra morar mais gente no mesmo espaço.

Na África do Sul existem mais moradores de rua (incluso vários brancos, ainda que a maioria negros) que na Argentina, mas bem menos que no Brasil.

Não sei se há algum país que esteja pior que o nosso nesse quesito, infelizmente.

Aqui a situação está catastrófica, parece que passamos por uma hecatombe nuclear.

Em Curitiba o problema está alarmante, em todos os bairros agora há aglomerações de pessoas que vivem nas ruas.

Metrô de Buenos Aires, de 1913: 1° da América Latina, 1° do Hemisfério Sul, 1° entre todos países de língua espanhola.

E no Centro então a coisa está tenebrosa, mesmo de dia e a noite é melhor não comentar.

Agora, fui a São Paulo no fim de janeiro de 18, e me assustei. Realmente eu me assustei com o que vi:

A Zona Central de Sampa está…me faltam palavras pra definir. Está macabra.

Em B. Aires nos ônibus o itinerário está em letras garrafais (em Lima-Peru também!).

Breve matéria completa com muitas fotos. Hoje nosso tema é a Argentina.

Só falei pra podermos comparar:

A crise no vizinho país está brava, muitas coisas estão até mais complicadas que no Brasil.

Mas no ponto dos sem-tetos aqui é infinitamente pior.

Casas típicas da Argentina, as portas saem direto na rua. No Chile e Nordeste Brasileiro é assim também, mas no Brasil mais pra periferia. Nos outros países tanto periferia quanto classe-média (o caso aqui).

Isso exposto, bora de volta pra lá. Claro que gente na Argentina há morando nas ruas. Fotografei alguns atrás do Obelisco.

E na mesma região, do outro lado da 9 de Julho (onde ficamos hospedados) havia uma família inteira.

Eles improvisaram uma ‘casa’ de papelão em plena calçada, tinha espaço até pros cachorros – e isso no Micro-Centro!

Outro dia andava eu tirando fotos entre o Retiro e a Recoleta.

O Retiro é bem o Centrão da cidade mesmo, onde estão os terminais de transporte, de todos os modais.

Mas a Recoleta é um bairro de elite, colado ao Centro, coisa que no Brasil não existe mais há décadas.

Na Recoleta estão alguns dos prédios mais caros da Argentina.

Casa Rosada, sede da presidência.

(Ao lado de Porto Madeiro e Palermo, que são vizinhos a ela, então é tudo a mesma região.)

Mas embaixo do viaduto havia um cidadão argentino que não era tão afortunado, pra dizer o mínimo.

Casa Rosada, ao fundo Porto Madeiro, como notam novo e riquíssimo bairro da Zona Central. Na próximas 7 imagens vamos então apreciar Porto Madeiro e seus arranha-céus.

Esse não tinha um apê de ‘um por andar’ que vale alguns milhões de pesos. Longe disso. 

Se abrigava sob as alças de um viaduto (fotografei sua ‘casa’, busque pela legenda).

Ele também tinha cachorro, esse bicho é mesmo o ‘melhor amigo do Homem e da Mulher’, nunca abandonam seus donos não importam em que condições.

Me pediu dinheiro, dei-lhe 2 pesos, equivalente a somente R$ 0,30, e disse “só tenho isso, irmão”. 

Ele exultou de felicidade, respondeu “pelo menos já posso comprar um cigarro“.

Pra que não tem nada o pouco é muito. Dureza, né?

São os Lados ‘A’ e ‘B’ da Argentina literalmente lado-a-lado..

Porto Madeiro era parte do porto da cidade, daí o nome. Tiraram os navios do canal, e colocaram no lugar prédios, restaurantes e lojas de luxo. Os antigos guindastes ficaram pra dar um charme, né?

…………

Buenos Aires não tem Zona Leste, porque essa é o mar.

Ou melhor dizendo, o Delta do Rio da Prata, que é tão largo que parece mar.

Os ricos e a alta burguesia habitam majoritariamente as Zonas Central e Norte da capital e sua região metropolitana.

Um guindaste visto mais de perto. Note o empréstimo de bicicletas (já fotografei o mesmo em SP capital, Santos-SP, Chile e México.

Enquanto as favelas e demais ‘partes quentes da cidade’, se é que me entendes, se concentram nas Zonas Sul e Oeste.

‘CABA’ X ‘AMBA’, AS DUAS FACES DA MESMA METRÓPOLE: 

UMA É A ‘EUROPA NA AMÉRICA’, E DEPOIS DO VIADUTO/PONTE ‘AMÉRICA DE CORPO & ALMA’.

A maioria das pessoas no Brasil não conhece as siglas ‘Caba’ e ‘Amba’. Começamos pela primeira.

‘CABA’, A “EUROPA NA AMÉRICA”: NA “CAPITAL FEDERAL” COM CERTEZA –

Buenos Aires tem a fama de ser uma cidade europeizada, como todos sabem.

É verdade, o mito corresponde ao fato? Sim e não. 

Não carregam mais navio ali. Agora é a morada da alta burguesia e elite.

Depende do que alguém entende como “Buenos Aires”.

Politicamente, a Região Central da metrópole é a Capital Federal.

A ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’ no termo mais moderno (cujas iniciais formam a sigla ‘CABA’).

As ruas da parte nova (e residencial) de Porto Madeiro têm nomes de Mulheres.

Ali, fato. Sim, Buenos Aires é europeia. Totalmente.

Muito mais que Curitiba, que é a capital mais branca do Brasil.

Muito mais. A classe média-alta curitibana é formada majoritariamente por pessoas que aqui no Brasil consideramos ‘brancos’, verdade.

Mas nunca te esqueças que os ‘brancos’ brasileiros, em sua maioria, não seriam considerados brancos na Europa e EUA.

Com o ‘Parque das Mulheres Argentinas‘ fechamos essa sequência de Porto Madeiro.

Mesmo os de melhor padrão social, porque entre os ‘brancos’ brasileiros boa parte tem mistura de raças.

Mesmo com pele mais clara, a imensa maioria tem um pouco de sangue das raças escuras.

No Hemisfério Norte, pra pessoa ser ‘branca’ não pode ter mistura de raças não-europeias.

Prédio no Centro (perto de Porto Madeiro), adornado por Netuno, ‘Rei dos Mares’ – versão masculina e nórdica do papel que Iemanjá cumpre na mitologia brasileira.

No Brasil não somos tão rigorosos. Pelo exemplo é mais fácil entender.  

Busque na internet a imagem do general e ex-secretário de estado ianque Colin Powell.

Nos EUA, Powell é negro, ele mesmo se define assim.

No Brasil, caso ele fosse da burguesia ou elite (como é), nós o chamaríamos de branco.

Se você entende isso, a classe média-alta curitibana é formada por pessoas que na sua imensa maioria tem a cutis clara.

Favela em frente ao estádio do São Lourenço (note o poste pintado com as cores do clube), Zona Oeste.

Já os olhos e cabelos variam amplamente, por todo espectro, mas boa parte deles são mestiços, ‘brancos’ no Brasil, nos EUA e Europa não.

Então. A burguesia de Buenos Aires, é de imensa maioria de brancos.

Falo aqui somente da Capital Federal – sem incluir a região metropolitana portanto.

Nesse critério seus habitantes são brancos mesmo.

Seus cabelos são loiros ou ruivos, e os olhos também são claros.

“Passeador de cachorro“, profissão típica de Buenos Aires.

Eu estava num restaurante do Centro de Buenos Aires.

Na mesa ao lado havia um grupo grande, de perto de 10 pessoas.

Quase todos eram brancos, mas brancos pelo padrão europeu.

A pele deles parecia um leite de tão despigmentada. Olhos e cabelos igualmente claros, ou ruivos.

Aqui em Curitiba não é assim, repito.

Próximas 2: um belo parque bem no Centro.

Na África do Sul ocorre o mesmo que na Argentina, até mais intenso:

Os brancos sul-africanos são claríssimos, parecem fantasmas de tão alvos que são.

Na África do Sul a miscigenação é próxima de zero.

até porque até uma geração atrás era proibido relações sexuais entre raças diferentes.

Agora é permitido, vimos (e fotografei) vários casais inter-raciais nas orlas de Durbã e Cidade do Cabo.

Mas as coisas mudam devagar, óbvio.

Ainda ali perto, uma avenida onde mora a elite e alta-burguesia em pleno Centrão (no Brasil você não vê isso).

Eles são ‘vários’ se você considerar que até a geração dos pais desses jovens não havia nenhum.

Entretanto 99% dos casais sul-africanos ainda são intra-raciais, ou seja, de pessoas de mesma raça.

Portanto os brancos da África do Sul são iguais aos brancos da Holanda, Inglaterra, Alemanha e França, de onde eles vieram.

Principalmente os dois primeiros, mas as duas últimas nações também contribuíram.

Na Argentina nunca houve apartheid’, então a miscigenação é maior que na África do Sul.  Bem maior.

Bem próximo está a Faculdade de Direito.

Porém muito menor que no Brasil – entre a burguesia, na periferia é outra história, já chego lá.

Agora, na burguesia é assim.

Entre os habitantes endinheirados da Capital Federal argentina, imensa maioria de brancos.

Na mesma região, um sem-teto se abriga sob o viaduto. É o Lado ‘A’ e ‘B’ lado-a-lado.

E, repetindo, brancos caucasianos mesmo, pessoas normandas.

São alvos iguais aos europeus e diferentes de nós brasileiros, enfatizo mas uma vez porque em nosso país o conceito é mais ‘flexível’.

Mas cruze o Riachuelo ou a Auto-Pista General Paz e verá como a coisa muda.

Próximas 6: os vizinhos bairros de Palermo e Recoleta, a parte mais rica da cidade entre o Centro e o começo da Z/Norte.

JÁ A AMBA É A ‘AMÉRICA NA EUROPA SUL-AMERICANA’: NO SUBÚRBIO O POVÃO É MESTIÇO –

A burguesia argentina é majoritariamente euro-descendente.

E sem mistura de sangue, uma verdadeira ‘Europa na América’.

Mas a periferia é completamente diferente.

Entre o povão é onde a Argentina se reconcilia com a América.

Região bastante arborizada.

Onde a Argentina é América de Corpo-&-Alma.

O que quis dizer por ‘cruze o Riachuelo ou a Auto-Pista’ é “vá pra região metropolitana”.

Se ‘Caba’ é a Capital Federal, ‘Amba’ é a sigla de ‘Área Metropolitana de Buenos Aires.

Mas nem é preciso ir pra outro município (e estado da federação).

Se você for ao bairros proletários mais afastados, mais ainda dentro da Capital Federal (ou nas favelas, mesmo no Centro), aí os brancos puros já são ínfima minoria.  

A mestiçagem agora impera. Isso já na periferia de Buenos Aires. Fiz um desenho que resume a questão:

Retratei duas amigas argentinas, uma loira e uma índia, se uma imagem vale por mil palavras.

E se pegar estrada mais ainda. O interior é bem mais escuro que a capital.

Muito mais, sem comparação possível.

É gritante a diferença de altura entre os edifícios mais antigos

Breve levanto por ar a matéria sobre Córdoba, aí os que ainda não tiveram a chance de ir até lá vão comprovar. 

No interior a Argentina é como todo o resto da América Latina (Brasil, Colômbia, Paraguai, Chile, México, Bolívia, etc): com mestiçagem mesmo na classe média.

Agora, na capital é como falei, muito parecido com Europa/EUA, a raça caucasiana (sem mistura) é amplamente majoritária entre a classe dirigente. Isso já disse.

e os mais modernos, esses muitos passam dos 40 andares. Em Santos-SP constatei o mesmo.

Mas a periferia de Buenos Aires é miscigenada. Totalmente.

Nos subúrbios da metrópole, nas quebradas, nas favelas tanto mais centrais quanto afastadas, aí é tudo ‘junto e misturado’.

No dia que cheguei, fui a um jogo de futebol, São Lourenço x Atlético-PR.

(Nota: eu sou de Curitiba mas não sou atleticano.

Não torço pra clube nenhum exceto o Nacional da Colômbia, como já disse muitas vezes.

Fui nessa partida porque foi a que foi possível, a que ocorreu quando estava lá.

“Jeitinho Argentino”??? A placa e a faixa deixam claro que não pode estacionar ali, porque é rota de ônibus. Poucos se importam….

Minha primeira ideia era assistir uma peleja local do campeonato argentino, mas não deu certo.

Então fui ver o CAP, mas sem ser torcedor dessa agremiação.

Portanto não inicie aqui uma discussão clubística porque não é o espaço pra isso.

Portal no Zoológico de Buenos Aires, no rico bairro de Palermo, começo da Z/Norte perto do Centro.

Também já assisti um jogo do Coxa longe de Curitiba.

Lá em Belo Horizonte-MG no caso, então estou 1×1, neutro na disputa dos rivais da capital).

Já volto ao tema da composição racial, entenderão onde quero chegar.

Mais um pequeno adendo, já que falamos do esporte mais popular do planeta:

Buenos Aires é futebol. São nada menos que 24 Libertadores concentrada numa única cidade.

(Nessa conta incluindo região metropolitana e ‘La Plata’, que é fora da Grande Buenos Aires.

Mas ainda assim um subúrbio próximo, como São Paulo e Jundiaí.)

Ponte sobre o Riachuelo (visto  esq.). Saí do município de Buenos Aires, que é a Capital Federal (o D.F. deles) e entrei em Avellaneda, no estado (ou ‘província’ no jargão local) de Buenos Aires.

Então ir a Buenos Aires e não ir ao estádio é como ir a Roma-Itália e não ver o papa.

Alias o atual papa que é argentino como sabem é torcedor declarado desse São Lourenço que vi ‘in’ loco’.

Ainda não fui a Roma, não fui a Europa nessa encarnação, exceto na ficção. Mas fui a Buenos Aires, e fui ao estádio.

Enfim, já fiz matéria completa sobre o futebol argentino, onde conto com detalhes incluso com muitas fotos.

Aqui nosso tema é a composição racial da periferia de Buenos Aires.

Então eu estava no lugar certo pra analisar isso, o São Lourenço é um time suburbano, popular.

O time da burguesia é o River Plate, o Boca o do povão. Claro que é uma generalização, e toda generalização é imprecisa.

“Buenos Aires, Cidade da Pizza”. No Centrão são centenas de pizzarias, uma ao lado da outra, de todos os tamanhos e pra todos os orçamentos. Eles adoram esse prato tanto quanto no Brasil, mas a receita é diferente. No Brasil é mais apreciada a massa mais fina, e misturar todos os ingredientes possíveis. No cardápio há dezenas de opções (em alguns casos centenas!), e cada um deles com muitos ingredientes, cada um cria como quer, você pede 2, 3 ou 4 sabores na mesma pizza. Na Argentina é completamente diferente, lá eles são tradicionalistas, as recitas de pizza basicamente se mantém as mesmas que vieram da Itália. Funciona assim: a massa é grossa e não há misturas. São 2 ingredientes, 3 no máximo. É delicioso, pra quem gosta de queijo é divino. Veja a foto, há um mar de queijo derretido transbordando, como um rio transborda quando chove muito. Mas é queijo, cebola e só, umas azeitonas no meio no máximo. Não é como aqui, que é queijo, cebola, azeitona por tudo, e mais presunto, ovo, tomate, molho de tomate, frango, catupiry, quatro queijos, milho, atum, tudo isso em diversas combinações mas sempre pelo menos 5 ou 6 deles juntos. Não. Em Buenos Aires é queijo (um queijo, não quatro) e mais alguma coisa, uma coisa só. Queijo e presunto. Se entra o tomate, sai o presunto. Essa é queijo e cebola. Tá bom pra ti? Pra mim está ó-ti-mo!!!, sinto saudades.

Evidente que há muitos burgueses que torcem pro Boca, e o River tem muitos fãs na periferia. Evidente que sim.

Anda assim, nas favelas e loteamentos de quebrada no subúrbio o Boca tem 2/3 da torcida ou mais, e na burguesia é o River quem domina inconteste.

São esses dois quem tem torcida gigante a nível nacional. Os demais são muito fortes no entorno de seus estádios.

Mas conforme vai se afastando vai se diluindo.

O São Lourenço é um desses casos, típico time suburbano. Um dos grandes do país? Sim. Mas ainda suburbano.

Muito forte ali na divisa da Zona Oeste com a Sul onde está sediado, e bem menos em outras partes da cidade.

E bota ‘subúrbio’ nisso. Bem em frente ao estádio há uma favela bem chamativa.

Uma das maiores e mais perigosas de Buenos Aires (veja as fotos, busque pela legenda).

Todos me alertaram que o local é violento, do taxista ao rapaz da vendinha que fui tentar carregar o cartão do ônibus, aos outros torcedores a quem pedi informação:

“Não ande pelas ruas. Não ande. O bairro aqui é sinistro, vão te roubar com certeza.”

Não consegui mesmo recarregar o cartão, tratei de entrar logo no estádio, aceitei o conselho, fiquei bem quietinho lá dentro, em segurança.

Vicente Lopes, Z/N.

Enfim, falei tudo isso pra chegar aqui: fiquei acompanhando o “aquecimento” da banda da torcida organizada (‘barra-brava’) do S.L..

Foi regado a muito churrasco popular (um pão com bife extremamente gorduroso) e maconha.

É um time do povo, a maioria dos torcedores é do bairro e bairros vizinhos. Uma região pobre, esquecida e perigosa da cidade, como já dito.

Caminhão detonado por pichadores no Centro. Fotografei o mesmo no México, República Dominicana e Chile.

Portanto eu estava no ponto ideal pra traçar um raio-x do povão, da classe operária, da periferia da urbe.

E o que eu via me dava a impressão que estava na divisa da Europa com Ásia:

Turquia, Geórgia, Romênia, Bulgária, Armênia, Azerbaijão, aqueles lados.

Os garotos da torcida oscilavam entre o alvíssimo ao pardo.

A macabra Esma, onde foi o ‘Dops argentino’ (r). Dali saíram os famosos ‘Voos da Morte’. A ditadura lá matou 30 mil pessoas, proporcional a população foi 120 vezes pior que no Brasil. A Argentina anda não se curou do trauma.

Cabelos geralmente mais lisos, porque a Argentina tem muito poucos afro-descendentes.

Haviam brancos, alguns de pele bem clara, e loiros e ruivos como a burguesia é majoritariamente assim.

Então primeiro, nem tudo mundo no estádio é de periferia, há gente de classe-média.

Segundo, nem toda periferia é mestiça, claro que em Buenos Aires há muitos pobres caucasianos.

De pele cor-de-leite. Incluso nas favelas.

E agora veio outra crise política gravíssima. A Argentina passa por uma insurreição que visa derrubar o presidente Macri. Todos os dias avenidas são bloqueadas, estão havendo apedrejamentos do transporte coletivo, a coisa está bem séria. Uma nação em ebulição.

Agora, entre o povão os mestiços entre brancos e índios são maioria.

Por essa mistura, o tipo físico se parece com o dos povos que rodeiam o Mar Negro, como dito:

O portenho burguês típico é loiro ou ruivo, sempre de olhos e pele claros, como dito e é notório.

A crise não é só política, é também econômica. A miséria aumentou muito na Argentina, é comum ver pessoas revirando as latas de lixo, como na Grécia.

Já o bonarense médio tem cabelo preto e liso, e pele também morena, cor-de-cobre.

(Esses são os gentílicos, já que tocamos no assunto:

‘Portenho’ da Capital Federal, ‘bonarense’ da ‘Província’, do subúrbio metropolitano. Sigamos.)

A tez do bonarense (agora você já sabe o que é isso) é mais pra clara que pra escura.

Reflexo da crise: no Centro há vários comércios fechados. Flagrei 3 em sequência.

Mais clara que a média do Chile e Colômbia.

E muito mais clara que a média da Bolívia e México, óbvio.

Ainda assim, resumo dessa forma:

Na Argentina, ou pelo menos em sua capital, a questão de raça é mais forte que no Brasil.

Entre os que têm renda e educação relativamente elevadas, há mestiços.

Mais 2 do Centro. Essa perto da 9 de Julho.

Mas os caucasianos sem mistura predominam amplamente.

Entre a massa, o povo, há muitos brancos puros, é certo.

Entretanto os mestiços ali são maioria. Tudo somado:

Na verdade algumas fotos que denominei ‘Centro’ mostram a Recoleta. Como São Paulo (e ao contrário de Curitiba e do Rio), Bs. Aires não tem um bairro chamado ‘Centro’. O Centro deles é a ‘Comuna 1’ e parte da Comuna 2 (exatamente a Recoleta).

A Argentina é um país miscigenado, muito mais que as pessoas pensam.

É que as pessoas confundem ‘Argentina’ com a Zona Central da capital.

Mesmo seus subúrbios são mais escuros, e mais ainda interior, ressaltando mais uma vez.

A Argentina é mais clara que o Chile? Sim. Mas mais escura que o Paraguai.

Ee o fato que o Paraguai certamente é bem mais pobre não altera em nada esse dado.

Como nunca estive no Uruguai (exceto mais uma vez na ficção), não posso incluir essa nação na comparação. 

Principais municípios da Grande Buenos Aires (adesivo de manutenção do elevador).

……….

Nas favelas de Buenos Aires, 40% dos moradores são estrangeiros.

Especialmente paraguaios e bolivianos, mas há alguns peruanos e colombianos também.

Paraguai e Bolívia têm colônias enormes de expatriados na capital argentina.

Em Buenos Aires, vendinha ou mercearia é chamada ‘kiosco‘, com ‘k’ (vem da palavra ‘quiosque’). Sempre, independente do bairro. Pode ser no Centrão, na burguesia, periferia ou favela, é o ‘kiosco’. No interior nem sempre. As vezes sim, nos bairros mais ricos sim, mas nas periferias das cidades do interior argentino há outros termos, breve levanto essas matérias pra rede também.

Trabalhando na construção civil e outros serviços braçais.

No estrangeiro, bolivianos e paraguaios estão numa situação difícil econômica (moram em favelas) e politicamente (geralmente ilegais).

Assim eles têm que achar um meio de conviver senão com amor pelo menos em harmonia.

E até cooperarem, pois estão no mesmo barco. Digo isso pelo seguinte:

Quando não são expatriados, quando estão cada um na sua terra-natal, bolivianos e paraguaios geralmente se odeiam encarniçadamente.

Natural. Paraguai e Bolívia travaram uma das guerras mais sangrentas da história, no século 20, a “Guerra do Chaco”.

Mais uma do cartão-postal do país. Os argentinos gostam tanto de futebol que até aqui, sob o Obelisco e no canteiro da 9 de Julho (uma das avenidas mais movimentadas da cidade) eles batem uma bola.

Conhecido no Paraguai como “a Guerra Total”, o embate terminou com vitória paraguaia.

O estádio Defensores do Chaco tem esse nome por causa do conflito.

Alias ele participou do esforço de guerra:

Virou paiol de munição enquanto duraram as hostilidades.

A guerra foi sinistra, dois países muito pobres e que já tinham sido destroçados em guerras anteriores.

Próximas 3 (via ‘Google Mapas’): já que tocamos nesse esporte, apresento-lhes o “Forte Apache”, conjunto na periferia de Buenos Aires onde Tévez (aquele que jogou no Corinthians) foi criado. Nota que o bairro não tem coleta de lixo.

Eles se combateram em condições extremamente hostis.

O Chaco é desértico. Os soldados marchavam por horas sob sol escaldante, as vezes descalços.

Epidemias, fome e sede mataram mais combatentes que as balas inimigas.

O Paraguai venceu a guerra, manteve ¾ do Chaco, a Bolívia ficou com ¼ como apaziguamento.

Fica no município de Cidadela, Zona Oeste da Grande Buenos Aires. Oficialmente se chama Conjunto “Exército dos Andes”, mas todo mudo só conhece por ”Forte Apache”. No destaque um carro queimado que estava nas imediações. Uma obra estranha, tentaram fazer um estilo futurista quando misturaram vários estilos arquitetônicos, prédios de diferentes tamanhos, que se conectam pelos andares mais altos. Ficou bom o resultado? Responde você.

Mas ainda não houve o perdão, de parte a parte.

Bolivianos e paraguaios tem uma antipatia mútua muito forte.

Isso quando cada um está ‘em seu quadrado’, em seu próprio país.

Quando convivem nas favelas e periferias de Buenos Aires, têm que se entender.

E se organizarem pra melhorar as condições de vidas de todos na comunidade:

Estrangeiros e argentinos pobres do interior, estão todos ali, no apuro, precisam lutar juntos.

Pois a elite argentina (como todas as elites) não se importa com os desfavorecidos pelo sistema, sejam compatriotas ou imigrantes.

Inexplicavelmente o Forte Apache não tem coleta de lixo, pois não é uma favela (eu sei, você pensou “só parece uma”). Depois falam em reduzir as epidemias…..

Por isso nas quebradas de B. Aires paraguaios e bolivianos convivem bem, sem maiores conflitos.

Realmente a dificuldade abranda corações, sem dúvida.

Alias, já dissemos acima e é notório, o Ríver é o time da classe média-alta, o Boca do povão.

Por isso, há uma brincadeira que hoje o ‘politicamente correto’ não permite que seja dito dentro dos estádios.

Próximas 5: Vicente Lopes.

Mas nas redes sociais rola, nas pichações nos muros também:

A torcida do Ríver ‘acusa’ o Boca de “ter a maior torcida da Bolívia”, referência óbvia a massa imigrante.

As vezes incluem o Paraguai também no chiste.

Então Buenos Aires ficou assim: uma cidade europeizada, mas também latino-americana.

Estive lá num fim-de-tarde, como já sabem.

Pegou um pouco das características de cada um desses povos.    

As vezes os portenhos são rígidos como os caucasianos europeus. Quem já foi a Argentina sabe:

Em muitas oportunidades os comerciantes lá se negam a dar troco, preferem perder a venda.

Anoitecendo….as últimas fotos do dia. Essa é uma arquitetura típica argentina.

No caixa eletrônico saem muitas notas de 50 Pesos (8 Reais).

Você tenta pagar uma compra de 15 Pesos com ela, o caixa (geralmente o dono do negócio) recusa, opta por deixar de faturar.

Como você só tem nota de 50, fica na mão, não podia antes nem pegar um ônibus.

(Lá não tem cobrador, tinha que ser valor exato em dinheiro, agora é no cartão.)

A solução é comprar nas lojas de chineses.

Portas direto na rua, outro traço indelével.

Esse nunca perdem negócio, nunca reclamam de dar troco.

Falando agora da latinidade, de um ponto negativo dela.

Assim com existe o “Jeitinho Brasileiro”, há o “Jeitinho Argentino” de se lidar com as coisas. 

E funciona da mesma forma, infelizmente. O argentino é tão malandro quanto o brasileiro, é a triste realidade.

Centro empresarial importante da cidade.

Viram o carro parado exatamente embaixo da placa de “proibido estacionar”. Essa imagem é na capital.

Em Mendonça, eu esperava o ônibus bem no Centro. Ponto lotado, várias linha passam ali. 

A cada minuto, dois minutos no máximo, para um buso, sobe, desce gente.

E é difícil achar vaga pra estacionar no Centro, como sabem.

Pois bem. Uma burguesa não se fez de rogada.

Parou o carro grande e caro dela exatamente no ponto de ônibus.

As causas da crise: a Argentina já foi muito mais industrializada, mas muitas fábricas fecharam. Aqui barracão abandonado em Avellaneda, Zona Sul da Grande Bs. Aires.

Trancou, saiu com calma. Ficou uns 10 minutos numa loja.   

Enquanto isso os ônibus tiveram que parar em fila dupla, os passageiros correndo risco subindo e descendo no meio da rua.

Tudo porque a madame não quis pagar estacionamento.

Ela voltou pra carrão, nem sequer olhou pras pessoas que estavam ali pra pedir desculpas, entrou e arrancou.

Aqui e a direita: Centro de Buenos Aires.

No México fotografei o mesmo, o ponto de ônibus ocupado por carros.

Alias no México é pior, os micros só andam de porta aberta.. 

…….

Seja como for. Buenos Aires tem grande população imigrante sul-americana. Pela ordem:

São muitos paraguaios, muitos bolivianos, muitos uruguaios, poucos peruanos, poucos colombianos.

Santiago do Chile, com quem Buenos Aires faz um ‘jogo de espelhos’, tem (pela ordem):

Muitos bolivianos, muitos peruanos, poucos colombianos, uruguaios e paraguaios são quase inexistentes.

Próximas 3: famosa feira de artesanato de São Telmo, na Zona Central.

Já retomamos com tudo a comparação com o Chile. Agora falemos de Buenos Aires:

Os uruguaios se concentram entre a classe-média. Mas são muitos.

Há 3 milhões de uruguaios no Uruguai mesmo. 

E quase 1,5 milhão de uruguaios na Argentina.

Sim, é isso, quase um terço dos uruguaios cruzou o Prata e se assentou na nação ao lado.

A imensa maioria na Grande Buenos Aires, que é perto:

Casal dança tango em praça pública.

3 horas de barco e poucos minutos de avião.

A economia uruguaia decaiu muito, depois que as indústrias (principalmente frigoríficos e tecelagem) fecharam, e daí esse êxodo em massa.

A Argentina é bem maior e bem mais rica, especialmente a capital.

Então há grande oferta de trabalho pra classe-média uruguaia qualificada.

Como são países muito próximos, tanto física quanto culturalmente, muitos uruguaios optaram por se estabelecer ali.

Próximas 3: bairro São Telmo e imediações, Zona Central, o entorno da feirinha. Uma parte antiga da cidade.

Assim em alguns bares da Zona Central de B. Aires quando jogam Boca x Penharol ou Ríver x Nacional.

(Ou outras combinações de times das capitais, você entendeu), a torcida é quase meio-a-meio.

Entre os paraguaios que vivem na Argentina há muito povão, mas muita classe-média também.

E pelo mesmo motivo, intensa proximidade física e cultural.

Com os bolivianos é o contrário dos uruguaios.

Quase todos os bolivianos que lutam na Argentina são de periferia, são quase inexistentes na burguesia.

Essas três nacionalidades acima concentram o grosso dos estrangeiros.

os peruanos e colombianos de Buenos Aires, que são bem mais raros, se concentram também na periferia.

BUENOS AIRES, CIDADE DA CUMBIA –

O Chaco – na Argentina chamado ‘Pampa’ – é a “Grande Planície Central Sul-Americana”.

Pega Uruguai e Paraguai inteiros, quase toda Argentina (o Sul dela, mais frio, é a Patagônia) e o Sul da Bolívia.

Apagões são frequentes em Buenos Aires, leia o pedido no metrô. A crise é multi-dimensional na Argentina.

E a Cumbia é a música do Chaco. Exemplificar é mais fácil que explicar. Ouça:

https://www.youtube.com/watch?v=-shpxdvBWwQ

https://www.youtube.com/watch?v=xzSlYVa2SvA

Numa delas diz “cumbia paraguaia”, mas o ritmo é sempre igual, seja do Paraguai, Argentina ou Bolívia.

É o sertanejo deles. Digo, há uma versão um pouco mais acelerada, com mais ‘remix’, que se chama ‘cumbia villera’ no original, significa ‘cumbia de favela’ ou ‘do subúrbio’.

O desemprego é muito alto, cada um se vir como pode. O metrô está cheio de camelôs, igual no Brasil.

Ali seria o equivalente ao ‘rap’. Toda América adora ‘rap’, EUA, México, América Central, Caribe, Brasil, Chile, Venezuela, Colômbia.

Digo, quase toda América. Porque a Argentina e seus vizinhos menores (Paraguai, Uruguai, Bolívia) não gostam.

Quando eles querem uma música mais pesada, mais agressiva, a ‘cumbia villera’ é a escolha.

E quando querem mais romantismo, se sintonizam na cumbia tradicional.

Por ‘A’ ou por ‘B’, só dá cumbia.

E, bem, as favelas e subúrbios de Buenos Aires são habitados por argentinos do interior e por bolivianos e paraguaios.

Catador de papel no Centro de B. Aires.

Os argentinos mais humildes que incham as favelas da capital vieram a maior parte do Norte do país que é mais pobre.

Ou seja, são oriundos exatamente do coração do Pampa, na fronteira com os vizinhos Paraguai e Bolívia.

E vivem lado a lado com esses estrangeiros, que vieram de regiões próximas, do outro lado das fronteiras mas a cultura é parecida.

Aqui e a esquerda: camelôs africanos no Centro de Buenos Aires. A Argentina teve escravidão africana, como no Brasil. No meio do século 19 Buenos Aires (que então era bem menor, a grande imigração europeia ainda não havia chegado) chegou a ter um terço de sua população negra. Mas aí os negros foram mandados desarmados pras linhas de frente na ‘Guerra do Paraguai’. Os paraguaios descarregavam toda pólvora neles, e foram genocidados na Argentina. O Brasil fez o mesmo, que fique claro. Mas aqui haviam muito mais escravos, por isso os negros continuaram numerosos em nossa pátria. Voltando ao país vizinho, após esse massacre por mais de um século Buenos Aires teve pouquíssimos negros. Agora eles voltaram, imigrando da África. Esses dois na Av. 9 de Julho, o garoto usa uma camisa de Mandela no mapa de seu continente-natal, pra não deixar dúvidas.

Tudo somado: nas periferias de Buenos Aires, independente da nacionalidade, quase todos vieram do Chaco/Pampa.

Portanto ali só dá cumbia. Eu voltava de trem dos subúrbios metropolitanos, ouvindo rádio.

É impressionante a quantia de estações dedicadas a cumbia.

Uma hora a cantora mandou ‘um beijo a todos um cumbeiros’.

Ela foi específica, dedicou a música a todos os fãs da cumbia na:

“Bolívia, Argentina, Brasil (São Paulo tem uma grande comunidade boliviana) e Chile”.

O Paraguai também adora cumbia. Ela não citou esse país porque é boliviana, o ressentimento ainda fala mais alto.

E ao meu lado vinha um boliviano (ele mesmo se identificou assim, não estou chutando).

E esses aqui no Retiro, em frente as estações centrais de trem (suburbano e longa distância) e ônibus (igualmente urbanos e longa distância – destaquei com a flecha o letreiro ‘Terminal de Omnibus’ da Rodoviária do Retiro). Há muitos camelôs (tanto argentinos quanto estrangeiros, africanos, paraguaios e bolivianos) ali, mas quem foi alguns anos trás disse que antigamente era muito pior.

Contava sua saga na Argentina, as dificuldades que passou, e sua luta pra vencer.

Não foi o único boliviano que me deparei na cidade.

No primeiro dia que cheguei fui ao jogo São Lourenço x CAP, repetindo.

Tentei recarregar o cartão de ônibus, andando num bairro bem popular, ao lado de uma grande favela.

Entrei numa vendinha. Tudo isso já contei. Agora as novidades.

A mercearia era gradeada, o cara te atendia parecendo estar num presídio, pra evitar assaltos.

Próximas 2: Centro do subúrbio metropolitano de Avellaneda. Era sábado fim-de-tarde/começo de noite, havia uma festa nessa praça, com banda e tudo.

E era um índio, bem escuro, logo vi que não era argentino.  

Sim, a periferia de Buenos Aires é mais mestiça que a burguesia.

Mas esse garoto destoava mesmo disso. Perguntei a ele: “você é argentino?” Ele respondeu:

“Sim, nasci aqui. Mas meus pais são bolivianos, fui criado na Bolívia, agora voltei”.

Expliquei que sou jornalista, pedi permissão pra fotografar, ele assentiu.

Quase todos os ônibus de Buenos Aires (como em São Paulo) têm motor traseiro.

É isso, amigos. Nos trens, subúrbios e favelas de Buenos Aires, eu me senti em La Paz, Bolívia, onde nunca estive, ou também de volta a Assunção-Paraguai, que visitei em 2013.

E dá-lhe Cumbia!!!! Se Belo Horizonte, Fortaleza-CE ou mesmo as periferias de Curitiba são as “Cidades do Funk”, Buenos Aires é a “Cidade da Cumbia”!!

…………

Periferia típica de Buenos Aires, foto na Zona Sul. Saída direto na rua, grades na portas e janelas pra evitar arrombamentos, casas geminadas sem acabamento, eram térreas depois subiram a laje‘, varal no teto, e uma imagem de Jesus. A Argentina é um país bi-polar, a burguesia é quase toda materialista (são ateus), mas a periferia é muito católica. Muito mesmo.

BUENOS AIRES & SANTIAGO: O “JOGO DOS ESPELHOS” –

As capitais da Argentina e do Chile se refletem mutuamente, mas em formas invertidas, como um Yin-Yan em 3D.

(A.S.: Por ‘Americana’ me refiro sempre ao continente América, o que vem dos EUA é ‘ianque’ ou ‘estadunidense’, lembre-se disso.)

Explico: ambas são a ‘Europa na América’, mas em dimensões diferentes.

Santiago é fisicamente uma cidade europeia, em Espírito, em cultura, é totalmente Americana.

Buenos Aires é o contrário: totalmente Americana fisicamente (por isso digo Latino-Americana), mas bem mais Europeizada em Espírito, em cultura.

Avellaneda, Zona Sul metropolitana. Bairro de classe-média, mas as portas saem na rua também. O detalhe é essa grade no teto, suspensa no ar (a casa ao lado é bem mais baixa). Será que alguém acha que os ladrões vão aterrizar vindo do céu??

A crise na Argentina está brava, e além de aguda virou também crônica.

Buenos Aires se empobreceu muito, se coalhou de favelas, e favelas horrorosas.

A capital argentina hoje tem tantas favelas quanto qualquer cidade brasileira de mesmo porte.

E, repito, as favelas deles não devem nada as nossas, em densidade, falta de infra-estrutura e serviços públicos, etc.

Buenos Aires é América. No passado não foi, mas hoje é.

Subúrbio metropolitano de Avellaneda, com seus táxis brancos. No município de Buenos Aires os táxis são pretos com tetos amarelos, como sabe.

E como é! Fisicamente falando, é totalmente (Latino-) Americana.

Ainda assim, em sua burguesia predomina a raça caucasiana/ normanda, brancos mesmo sem mistura.

Resultando que culturalmente (pois é a burguesia quem determina o grosso da cultura) Buenos Aires é muito europeia, em Espírito, em seu jeito de ser.

Santiago é o contrário. A capital chilena passou por uma das maiores reformas urbanas já vistas na humanidade.

Do outro lado da cidade, anoitece no Centro do subúrbio metropolitano de Vicente Lopes, Zona Norte. O posto é Petrobrás.

Pinochet e seus sucessores literalmente refizeram a cidade.

Erradicaram e urbanizaram a maior parte das favelas.

Construíram literalmente milhões de casas novas. Não estou brincando nem exagerando.

A ênfase de re-urbanização foi só na capital Santiago.

O interior nem de longe tem o mesmo nível, exatamente ao contrário, suas periferias são cheias de favelas.

Próximas 2: seguimos em Vicente Lopes, vemos o parque a beira-mar da cidade. As pessoas aproveitam a temperatura amena pra se exercitar.

Nisso incluindo Valparaíso, que depois da ditadura se tornou capital legislativa, o Congresso foi re-aberto lá.

(Durante a era de Augusto Pinochet o Chile não teve Congresso, nem mesmo de fachada:

O ‘Generalíssimo’ dizia e estava dito, dispensava-se qualquer ratificação mesmo que simbólica.)

Da política chilena, seus conflitos do passado e do presente, já tratei com muito mais detalhes quando voltei de lá.

Vou contar o que vi nesse parque. Os chilenos adoram pingue-pongue, várias praças lá têm a mesa pra jogar. Os argentinos também gostam do tênis de mesa, não tanto quanto no Chile mas bem mais que no Brasil, a galera estava praticando. Mas presenciei também um esporte que nunca tinha visto, o fute-tênis, você conhece? O fute-vôlei é uma fusão do futebol com vôlei, não? O fute-tênis é uma fusão do tênis com o futebol. A quadra é de tênis, rede baixa, de metal. Ficam dois de cada lado, bola de futebol, joga-se com os pés. O ponto é como no tênis, quando a bola pinga duas vezes no chão, sendo a 1ª dentro da quadra adversária.  É….vivendo e aprendendo, conheci algo inédito.

Aqui só fiz esse adendo pra mostrar que Valparaíso, mesmo sendo também capital, nem de longe tem o mesmo nível de Santiago.

Nem pensar….Valparaíso é coalhada de favelas em morro. ‘Valpo’ é América de Corpo & Alma.

Mas Santiago, fisicamente, é europeia. Urbanisticamente falando, Santiago é uma cidade britânica.

A periferia santiaguina é formada quase que somente por conjuntinhos de casas geminadas, sejam térreas ou sobrados.

Na Zona Oeste há bastante predinhos de cohab, aqueles pombais baixos sem elevador.

Nas outras partes da cidade eles existem mais são bem mais raros, as casas predominam mesmo.

Sim, parece que você está na Inglaterra, Irlanda ou Escócia.

Bairro após bairro após bairro, um conjunto emenda no outro, que emenda no outro, que emenda no outro.

São raras as casas autóctones, as construídas pelo dono conforme seu gosto. Geralmente é padronizado.

Grafite no bairro Barracas, Zona Sul, que fica entre o Parque Patrícios, Nova Pompeia, bairro da Boca (que sedia o time multi-campeão) e o vizinho município de Avellaneda (que sedia o Racing e o Independente). Desculpe o dedo na câmera.

Claro, na periferia rolam puxadinhos, incluso em prédios (já falo mais disso).

E as favelas em Santiago então são raríssimas. Atenção:

Não estou dizendo que não existem. Sim, há favelas em Santiago. São poucas, mas existem.

Fui na maior delas, o Morro São Cristóvão, entre as Zonas Central e Norte.

Na Extremidade da Zona Sul, vi e fotografei mais algumas.

Próximas 3: famosa favela ‘Vila 21‘, que fica entre Barracas e Nova Pompeia, divisa com Avellaneda mas no município de B. Aires.

Então, repito, há favelas em Santiago.

Quem diz que não ou nem se deu o trabalho de ir a periferia ou está mesmo mentindo abertamente.

Mas são poucas, bem poucas. Santiago foi intensamente re-urbanizada.

E é agora uma cidade basicamente formada por conjuntos habitacionais, na sua classe proletária.

Avenida principal da vila, um buso (da linha 70) vem, outro vai.

Fisicamente, uma cidade europeia.

A questão é que Santiago tem o povo bem mais escuro que em Buenos Aires.

Mesmo a classe-média da capital chilena é mestiça, entre brancos e índios.

E na periferia isso só aumenta. Há brancos na periferia de Santiago?

Sim. Mas são poucos. A imensa maioria dos santiaguinos suburbanos são mesclados.

São uma mistura entre euro- e amero-descendentes.

O tom de pele varia, mas o cabelo quase sempre preto e liso, e os olhos levemente puxados.

Parecido com a Colômbia? Exatamente.

Filho de bolivianos que tem uma vendinha (‘kiosco’) perto do estádio do São Lourenço – gradeada pra evitar assaltos. Um aviso pede pra você “não esquecer de trazer sua própria sacola pra levar suas compras”. Em São Paulo quando você vai ao mercado é cobrado um valor pra cada sacola plástica, né? Então, Buenos Aires foi mais radical, simplesmente proibiram as sacolas plásticas, não pode mais e ponto final. Vale só pra capital federal. Nos subúrbios metropolitanos vi a galera saindo com a compra ainda nessas sacolinhas derivadas de petróleo.

Do “outro lado do morro” (os Andes) a América é diferente que do lado de cá.

Na burguesia, Buenos Aires e Santiago se parecem, é fato. Na periferia são completamente diferentes.

Completamente. Entre o povão, o Chile é um país andino.

Com isso, quero dizer que ele é mais parecido com a Colômbia, Venezuela, México, América Central e Peru que fisicamente estão longe que com a Argentina que está do lado.

(Sim, o Peru nem tão distante do Chile, mas ainda assim bem distante, especialmente do Centro físico do Chile, que é o Centro político, econômico e cultural da nação.) 

Paraguai e Uruguai são satélites culturais da Argentina. Ambos esses pequenos países enxergam a Argentina e sua cultura como um guia, como um irmão maior.

Mercado municipal de Buenos Aires.

Eles se parecem com ela e querem se parecer ainda mais.

O Chile não é assim. O Chile, entre sua cultura popular, não se parece com a Argentina nem almeja parecer.

Santiago, culturalmente, é América Latina pura, com tudo que isso implica.

Próximas 4: Recoleta, bairro de elite que ainda faz parte do Centro.

Alias em Santiago eu vi (e fotografei) algo que só existe lá: puxadinho no prédio.

Sim, é isso. O cara mora numa cohab, segundo ou terceiro andar.

E quer aumentar a casa, fazer mais um cômodo. Não se faz de rogado:

Bota uma estacas e faz mais uma sala, ao lado da que já existia.

O puxadinho fica precariamente suspenso por colunas improvisadíssimas.

No alto do prédio, meu irmão.

Se você nunca viu isso e acha que estou brincando, confira as fotos que tirei por lá.

Isso é bem revelador da cultura de Santiago. O improviso, traço típico da América, mais anti-europeu impossível.

Por isso. Entre o povão, a massa, Santiago é América pura. Mas fisicamente é europeia.

Buenos Aires é o contrário: com tantas favelas, é totalmente América.

Mas pelo predomínio caucasiano na burguesia, uma cidade de cultura europeia, repetindo.

Eis o “jogo dos espelho”, o reflexo invertido entre essas duas metrópoles.

……….

CONFLITOS EM LINIERS, “ZONA OESTE DE BS. AS.” –

Essa matéria concentra as fotos nas Zonas Central, Sul e Norte.

Buenos Aires não tem mesmo Zona Leste, porque essa é o Rio, digo de novo.

Grades sobre os cartazes, pra que não se colem outros cartazes por cima.

Mas não há fotos da Zona Oeste, exceto poucas em frente o estádio do São Lourenço.

Que ainda é na divisa com a Zona Sul.

Entretanto, eu fui a Zona Oeste. Ao coração dela.

A ausência de imagens se refere a que naquele dia minha câmera descarregou.

Em compensação, puxei pelo ‘Google Mapas’ as cenas de Forte Apache.

Próximas 2: o famoso calçadão da Rua Florida, no Centro. Repare o ‘Comuna 1’ escrito na placa, e mais um rapaz tocando em via pública.

(Fiz colagens, você percebe a emenda.

A intenção não é enganar ninguém, mas dar uma visão mais ampla do bairro.)

Eis o lugar que Carlitos Tévez (ex-Corinthians) foi criado. O ‘Forte’ é Z/O, e como é!

Na região metropolitana, eu não estive ali, conheço só virtualmente.

Mas já chegamos lá. Vamos seguindo a ordem, contando meu passeio conforme o fiz.

Desci na estação final da linha ‘A’ do metrô, quase chegando ao bairro Floresta.

Na Av. Rivadávia, importantíssimo eixo que conecta o Centro a parte ocidental da metrópole.

E aí fui seguindo a Rivadávia, as vezes entrava um pouco na parte residencial do bairro.

Praça de Maio, epi-centro político do país, onde as mães e avós resistiram a ditadura – que alias foi muito, mas muito pior que no Brasil. Também na Comuna 1. Vê que é aqui que começa a Avenida Rivadávia, cuja outra ponta percorri na Zona Oeste.

Aí passeava umas quadras pelas paralelas de ambos os lados.

Voltava pra avenida, sempre tendo ela como eixo.

Cheguei ao populoso e importante bairro de Liniers, que é o coração da Z/O como já dito.

Ainda dentro da capital federal, é uma transição da burguesia da Zona Central pro que virá mais a frente, a periferia da região metropolitana.

Assim Liniers é, como posso dizer, o começo da periferia.

Ali perto, também no ‘Micro-Centro’. E que raio é essa ‘Comuna 1’? O município de Buenos Aires é dividido em Comunas, como no Brasil dividimos em administrações regionais. Quase toda Zona Central é a 1. São vários bairros por comuna, com duas exceções: os bairros Recoleta e Palermo, que são os mais ricos da cidade, são cada um uma comuna individualmente, a 2 e a 3 respectivamente. A Av. Crámer, na Zona Norte, está na Comuna 13, destaquei. Já em Medelím-Colômbia, ‘Comuna’ significa favela, também são numeradas.

Majoritariamente de classe média-baixa, classe proletária, com algumas porções de burguesia do subúrbio.

Liniers, embora popular, não tem favelas, ao contrário de Vila Lugano ali perto, que é cercado de favelas por todo lado.

Incluindo duas favelas gigantes – uma delas a famosa ‘Cidade Oculta.

(Tem esse nome porque foi murada na ditadura Videla pra não ‘atrapalhar’ a vista de quem passava na avenida.)

Isso é Vila Lugano, onde eu não estive. Volto a falar de Liniers, onde passei.

Segui pela Rivadávia e paralelas. A cidade começa a mudar pra periferia:

O comércio começa a ficar mais popular, você começa a ver mais povão nas ruas.

Aqui e a direita em Avellaneda. Esse conjunto popular é bem perto dos estádios do Independente e do Racing (que são vizinhos). Alguns moradores desses prédios em dias de jogos aproveitam pra vender lanche, refri e cerveja pros torcedores

Começa a ver mais mestiços, embora claro que há também muitos brancos.

Naturalmente há muitos caucasianos na periferia de Buenos Aires, embora já não maioria como na burguesia.

Fim-de-tarde, um caos natural pelo horário de pico, as pessoas nos pontos de ônibus, trânsito pesado, outras se dirigem a estação de trem.

Em alguns pontos a Argentina parece que ainda está no meio do século 20:

Uma parte antiga, de periferia. Sempre as portas saindo direto na rua.

Em Córdoba ficamos num hotel grande, bem no Centro, que ocupa todo um prédio bem alto.

Pois bem. A chave ainda é de metal, você deixa na portaria quando sai.

Como era no Brasil décadas atrás, mas não mais há muito.

Em toda Argentina, em boa parte do comércio ainda não se aceita cartão de débito, você acredita?

Mais uma favela em frente o estádio do São Lourenço, fotografei de dentro dele, as cabeças são dos torcedores.

No Brasil isso parece outra galáxia.

As pessoas aqui pagam tudo no cartão, até a conta do pão na padaria que dá R$ 3 é saldada na maquininha do cartão de débito.

Então o fato que um país que tem fama de desenvolvido ainda não aceitar cartão em diversos lugares parece inacreditável.

A falta de infra-estrutura na Argentina está crítica. Veja essa importante avenida na Zona Sul, dentro da Capital Federal. Céu limpo, aquela fileira de água não é chuva, mas esgoto que corre a céu aberto. Ressalto o que está óbvio: uma avenida grande, com comércio aberto, num bairro de classe-média, não é favela recém-invadida, nem mesmo um loteamento do fundão da perifa. E mesmo assim a situação é essa que presencia! Vai vendo….

Mas é assim no momento que escrevo (2018, estive lá em 2017).

Retornando a Liniers, lá eu tive mais uma ‘volta no tempo‘.

A avenida Rivadávia é paralela a linha do trem, e logo elas se encontram, passam a correr lado-a-lado.

Pois bem. As balizas que fecham os cruzamentos com a linha férrea quando a composição passa ainda são operados manualmente!

Você acredita nisso? Pois é a realidade. Fica um guardinha a postos, quando o trem apita ele (a) vai lá e abaixa a cancela.

Voltando a Z/N (parte rica da cidade), outra vista do parque onde está o zoológico.

(Ambos os sexos têm essa ocupação, vi Homens e Mulheres de uniforme na função.)

É mole? Em pleno século 21, isso era pra estar automatizado faz tempo. Mas ainda haveria mais.

A Argentina vive aguda crise social, política, econômica, todas as dimensões.

Panorâmica da linha de prédios da Zona Norte.

O desemprego é alto, as ruas estão tomadas de camelôs mesmo na área central.

Muito mais na periferia, especialmente ali, perto de estações de trem.

Loja de vinhos na Zona Central. Com o aviso: “Somos fabricantes, somos de Mendonça”, a ‘Cidade do Vinho’.

Em alguns pontos era até difícil andar na calçada, nada diferente do que acontece no Brasil.

E aí o governo resolveu complicar ainda mais o que já estava bem difícil.

Na saída da estação Liniers havia uma galeria de lojas. Já na calçada, tinham umas 20 lojas.

Havia comércio de roupas populares, lanchonetes, essas coisas.

Aqui e a foto seguinte: periferia da Zona Sul metropolitana, Avellaneda e imediações.

Sabe-se lá o porque, decidiam embargar o estabelecimento.

Está tudo fechado e lacrado, com os avisos de ‘interditado’.

Porém as pessoas precisam trabalhar, não podem parar.

Precisam comer, essa necessidade não pode ser suspensa.

Uma parte antiga da cidade….

Nem mesmo enquanto se debatem questões técnicas legislativas, se ‘atende ou não ao plano diretor’, etc.  

Os antigos comerciantes do dia pra noite foram expulsos e perderam o direito de ocupar seus pontos.

(Alguns estavam a décadas ali, você nota que a construção é antiga.)

Próximas duas: Av. 9 de Julho, Zona Central.

Obviamente eles passaram a protestar. Haviam diversos cartazes dizendo:

“Não somos invasores, só queremos trabalhar”, “galeria fechada. Por quê?”, e assim vai.

Mas claro que não ficou só na retórica. Repito, as pessoas têm que comer todos os dias.

Então é preciso achar um meio de atender essa necessidade.

Se uma porta se fecha, é preciso abrir outra, essa é a lei da natureza.

Os antigos comerciantes que foram despejados de suas lojas montaram agora banquinhas, e atendem na calçada.

Exatamente em frente as suas lojas que estão fechadas, pra manter o mesmo público.

Tudo ficou mais precário, não? Antes eles eram regularizados, pagavam impostos.

Agora não pagam. Um país que está em crise fiscal gravíssima.

Outra de Vicente Lopes.

E ainda se dar ao luxo de desperdiçar receita é bem estranho, ultrapassa as raias da burrice.

O desconforto aumentou muito, tanto pra vendedores quanto compradores, especialmente quando chove.

A higiene também caiu, onde vendem alimentos.

A circulação se tornou mais difícil. E se tudo fosse pouco, antes os comerciantes eram todos argentinos.

Como o mexicano, o argentino é um povo musical, simplesmente ama a música. Por toda parte você vê gente tocando. Aqui na Zona Central, perto da feirinha de São Telmo.

Agora que se formou um camelódromo, os africanos se somaram a eles.

Veja bem, eu não tenho nada contra africanos, o oposto sendo verdadeiro.

Fui a Mama-África, e amei a experiência, foi um presente que a Grande Vida (Deus) me proporcionou. Nunca fui a Europa, mas fui a África.

Isso já revela que nutro um profundo Amor pela Raça Guerreira Negra Original.

Aqui e a esquerda: uma parte feia, lixo espalhado pelo Centro.

Não tenho nada contra sequer em relação aos camelôs africanos. Ao contrário. 

Quando eu era casado, uma de minhas alianças comprei de um camelô senegalês no Centro de Curitiba.

Então respeito o direito deles lutarem como podem pra sobreviver.

Nessa aqui a impressão é que estava dentro do latão e alguém revirou pra recolher alguma coisa.

Estou apenas descrevendo o caos que se tornou o entorno da Estação Liniers de trem.

E tudo porque alguém decidiu estupidamente embargar a galeria.

Todo esse conflito e confusão se processava exatamente em frente as lojas fechadas….

Não era mais fácil permitir o funcionamento do comércio regularizado?

Capelinha na rua em Porto Madeiro. A Argentina tem esse choque, a burguesia é majoritariamente materialista (são ateus), mas a classe trabalhadora ainda é bastante católica. Óbvio que P. Madeiro não é periferia, mas talvez esse altar ainda seja remanescente de quando ali era o porto.

Ia ser melhor pra todo mundo, comerciantes, clientes, pessoas que apenas querem passar pela calçada, e até pro governo, que iria arrecadar mais.

Podiam devolver as lojas aos antigos donos, afinal eles precisam de uma renda.

E se a legalidade se fecha são empurrados pra ilegalidade, mas continuam ali.

poderiam construir mais algumas lojas, pra contemplar também os africanos recém-chegados, dar a eles a chance de também serem cidadãos de fato.

Mas não. Não elevaram os africanos ao nível de cidadãos plenos. Foram na mão oposta.

Rebaixaram os argentinos ao mesmo nível dos africanos que são imigrantes ilegais.

Agora todos são ilegais, todos são camelôs sem licença, ao lado da galeria fechada que poderia estar sendo usada.

Algumas coisas são difíceis mesmo de entender

…….…

Flores. Ao fundo o novo – e riquíssimo – bairro de Porto Madeiro, já que falamos nele. Alias a alguns dias (publico em 18/03/18) foi Dia Da Mulher. O que isso tem a ver com B. Aires? Simples, muita gente não sabe, mas Porto Madeiro é dedicado as Mulheres. As ruas da parte nova e residencial têm nomes femininos, já mostrei acima. Um parque também. O outro parque é o ‘das Mulheres Argentinas’ (também fotografado) , e essa parte da ilha é ligada ao continente pela ‘Ponte da Mulher’.

Olhei pra cima. No alça do viaduto estava escrito: “Buenos Aires, Zona Oeste”.

Exatamente assim, o mesmo termo que usamos no Brasil.

Por que digo isso? Porque a palavra ‘zona’, no sentido de Zona Oeste, Zona Central, etc, só existe no Brasil, Argentina, Uruguai e mais raramente Paraguai.

No Chile, Colômbia, México, República Dominicana – esses tive oportunidade de ir, mas também nos demais [Equador, Venezuela, Peru, América Central] – é diferente:

No resto da América hispânica não há a palavra ‘zona’.

Um artista retratou a ‘Ponte da Mulher’.

Pro sul da cidade eles dizem simplesmente ‘o sul’, pro norte ‘o norte’.

Todo mundo entende que é nosso ‘Zona Sul’ e ‘Zona Norte’. O leste é o ‘Oriente’, em todos eles.

O oeste é o ‘Ocidente’ na América do Sul e Central (incluindo Caribe).

Mas no México ‘zona oeste’ eles dizem ‘o Poente’. Poético, não?

Próximas 7: o rico bairro de Nunhes (‘Nuñez’ no original) na Z/Norte. Essa é no município de B. Aires, mas perto da divisa com Vicente Lopes.

Isso nos demais países. Na Argentina (e Uruguai, as vezes também Paraguai) é igual no Brasil.

Por isso a inscrição no viaduto: “Buenos Aires, Zona Oeste”.

CRUZANDO A AUTO-PISTA: BEM-VINDO AO “VELHO-OESTE SELVAGEM” –

Liniers, como dito, é o começo da periferia, mas ainda classe-média.

Agora de dia. destaquei o itinerário das linhas de transporte coletivo.

Só que é o último bairro a oeste dentro do município de Buenos Aires, a ‘Capital Federal’.

Ali estão as oficinas da rede ferroviária argentina, então a cultura proletária é muito forte.

Os argentinos ainda são sindicalizados, ainda creem na literatura da ‘luta de classes’.

Então Liniers é assim. Um bairro operário em espírito, que tem um padrão de classe média-baixa em sua maioria.

Passando por baixo do viaduto da Auto-Pista General Paz entramos na região metropolitana, e mudamos também de estado.

Saímos do Distrito Federal, adentrando a Província de Buenos Aires, pros íntimos simplesmente “A Província”.

Em Buenos Aires, quando alguém usa esse termo, já está entendido que é a periferia, os subúrbios da capital.

A cidade é a mesma mas muda a unidade da federação.

Então. Saí de Liniers e da Capital Federal, entrei em Cidadela, na “Província”.

Essa parte da cidade é bem arborizada.

Agora você vai ver o que é Zona Oeste de verdade!

A Avenida Rivadávia continua, inclusive com mesmo nome e numeração, herda tudo que veio da capital.

Mas o perfil social começa a mudar. Em Cidadela…

Região de classe média-alta. Mas eis a típica arquitetura argentina, porta direto na rua.

(Nota: essa é a ‘municipalidad’ deles, que seria um município aqui no Brasil talvez, a divisão é diferente.

O ‘partido’ é 3 de Fevereiro, que seria um condado, como existe nos EUA e África do Sul).

Então estamos no município de Cidadela (‘Ciudadela’ no original), condado da ‘3 de Fevereiro’

(Outra nota: originalmente escrevi que o condado era ‘La Matanza’. Está errado.

Essa pichação também é em Nunhes. com essa fechamos a sequência nesse bairro da Z/N. Até a virada do milênio Buenos Ares quase não tinha pichações, exceto de torcidas de futebol e políticas. Agora surgiu um pouco, nesse estilo que vê aí. Mas infinitamente menos que no Brasil. Na Argentina não se picham prédios inteiros, andar por andar, nem os telhados de comércios.

O vizinho município de Ramos Mejía fica em ‘La Matanza’, mas Cidadela no 3 de Fevereiro. Corrigido).

A cidade começa a mudar, enfatizo. Surgem algumas favelas, que não existem em Liniers.

Entrei em duas delas, uma pequena ao lado de um viaduto e uma de tamanho médio.

Até o transporte coletivo muda na “Província”.

As linhas que passam pelo município de Buenos Aires  são servidas por ônibus mais novos, maiores, 3 portas e motor traseiro.

Conta de luz do apartamento que fiquei. Bairro: Micro-Centro. Trata-se de um termo local pra indicar a região entre o Congresso e a Praça de Maio, como o Obelisco bem ao meio como referência máxima.

(Isso tanto linhas municipais quanto as que ligam o Centro aos subúrbios metropolitanos.).

Já nas linhas internas metropolitanas (que não entram na Capital Federal) de menor demanda o nível não é o mesmo.

Nos deparamos com veículos mais velhos, menores, 2 portas e motor na frente.

Vamos ver mais cenas do Sol se pondo em lados opostos da metrópole. As duas primeiras em Avellaneda, Zona Sul.

Natural, é assim no mundo todo, os ônibus novos começam nas linhas principais e vão sendo repassados pro subúrbio conforme envelhecem.

Caminho mais um pouco, passo pela Estação Cidadela de trem, entro por dentro do bairro, sigo.

Quando chego na Estação seguinte, Ramos Mejía, está anoitecendo.

Fico por ali, subo na passarela, fico vendo o trânsito engarrafado.

Observo os ônibus voltando cheios da capital, e indo pra ela vazios – claro né, todo mundo já ralou e volta pra casa.

Carros, comércio ambulante, as pessoas passam apressadas lá embaixo e atrás de mim, vários prédios altos de classe-média.

E como pano de fundo o Sol se pondo, o céu mudando de cor, as luzes na rua começam a se destacar….

Fico ali uns minutinhos, parado, sozinho, quase que em meditação, sendo Um com o Criador.

E agora duas em Vicente Lopes, Zona Norte.

E agradeço a Ele/Ela pela chance de conhecer mais um país. Quase Zen.

……

Desço as escadas, é realmente uma queda de dimensão.

A Argentina está em caos, muitas obras ao mesmo tempo.

A estação de trem está em obras, muitos tapumes.

Tudo confuso, cartazes indicam onde é o embarque provisório.

Mas é difícil entender, ando de um lado pro outro, vou, volto, até sacar o lance.

Favela Vila 51, bairro Vila Lugano, Zona Oeste, também conhecida por ‘Cidade Oculta’ por ter sido murada na ditadura de Videla (imagem via ‘Google Mapas’).

E não é só porque eu sou turista. Os próprios locais também se atrapalham.

Uma moça, argentina, dali mesmo, me pergunta onde entra na estação

Explico: “é o que estou tentando entender também”. Ela opina “deve ser por ali”, no fim achamos a bilheteria.

Pego o trem, volto pro Centro. Está encerrada a Saga na Zona Oeste.

A rede de trens da Argentina é invejável, tanto linhas de subúrbio (esse caso) como longa distância.

Não há porque ficar circulando por ali a noite, especialmente quando as ruas ficam mais vazias. 

Primeiro, a noite já não dá mesmo pra ver tanta coisa.

Segundo, é uma ‘zona vermelha’ da cidade, se é que me entendes. É disso que falarei agora.

Flagrei em Avellaneda: veículo que que começou a vida como um ônibus sobre chassi de caminhão (bicudo pra ninguém duvidar que é um 11-13). Depois tiraram a carroceria de ônibus e lascaram um baú. Mas….mantiveram a porta de ônibus. Gostou dessa transgenia???

..

Não fui a parte mais ‘quente’ da Z/O. Não por medo.

De dia, eu entro em qualquer quebrada, em qualquer favela.

Em Buenos Aires mesmo entrei nas duas piores favelas da cidade, no Centro e Zona Sul, as Vilas 31 e 21, respectivamente.

Na Zona Oeste não fui ao pior pedaço dela porque faltou tempo, realmente.

De dia teria ido. Mas não fui. Deixa eu contar onde é:

Já que o tema é caminhões, ao fundo Porto Madeiro, a frente carretas Mercedes e Scania.

Na própria Cidadela, um pouco mais ao norte, está o Conjunto ‘Exército dos Andes’.

Mas todos conhecem como…o “Forte Apache”.

Onde Tévez criado, como já dito. Essa informação saiu na mídia a época.

O ‘Forte’ é um lugar cujo apenas a menção do nome já provoca arrepios a burguesia portenha.

Aqui e a direita: Forte Apache, Cidadela, Z/Oeste.

Notam pelas fotos, tem um projeto arquitetônico singular, futurista.

Parece um ‘Blade Runner’, um ‘Mad Max’.

Só nessa imagem vemos duas carcaças de carros, cemitério de metal ao ar livre.

Torres de diferentes tamanhos, as mais altas se conectam pelo alto por passarelas.

Mas o pior está embaixo. Não há coleta de lixo regular no local.

Mesmo entre os que rodam: a crise está brava! Na periferia a frota da Argentina parece a de Cuba.

Pela quantia de moradores, o caminhão tinha que passar todo dia, óbvio. Mas não passa. O lixo se acumula na rua.

Muitas carcaças de carros abandonados estão desovadas nas imediações.

(Bem, pilhas de lixo eu não vi pela Argentina. Mas carcaças de carro, é pela periferia inteira..

Essa é entre Palermo e Recoleta, também Zona Norte mas perto do Centro. Notam o céu muitas vezes azul, não? Buenos Aires é fria no outono, muito mais que no Pampa/Chaco (interior argentino e Paraguai). Estávamos lá em março, a noite esfriava. Mas no verão a capital é um forno. Quem pode escapa pro litoral, especialmente pra cidade de Mar do Prata.

Parece que estamos nos lugares mais desgraçados da África, Sul da Ásia e América Central.

Aí de vez em quando (semanalmente? Quinzenalmente?) passa um caminhão e recolhe.

E não tem porque ser assim. O Forte não é uma favela, é um conjunto.

Digo, há uma invasão numa das faces dele. Mas não é por causa disso. O lixo na rua não é o da favela.

Pois a favela está só de um lado, e o lixo se acumula por todas as partes do Forte Apache, em todas as suas faces.

O Forte não é uma favela. Mas de tão mal-cuidado acaba parecendo uma. E um lugar perigoso, também.

Em março de 17, quando estive na Argentina, li (e fotografei) um jornal que dizia: “uma onda que cresce – sequestraram 5 pessoas em 15 dias na Capital Federal”.

Próximas 3: favela da Vila 31, bem no Centrão – atrás os arranha-céus que a burguesia trabalha, um fica vendo o outro.

Dizia a notícia que os sequestros são no bairro Liniers e imediações, esse que acabamos de descrever.  

Sempre nas proximidades da Auto-Pista, pra facilitar a fuga.

E arrematava: “a polícia já sabe que a quadrilha tem sua base no conjunto Forte Apache, na Cidadela.”

Precisa dizer mais? Por isso essa parte da Zona Oeste é chamada lá de “Velho-Oeste Selvagem”. Porque é bangue-bangue.

Verdade, a violência urbana na Argentina é bem menor que no Brasil.

Mas Buenos Aires é uma cidade violenta. Menos que aqui? Sim, acabei de dizer.

Não há lá as mega-chacinas do tráfico, como em nossa pátria há aos montes.

Nas favelas e periferias de Buenos Aires matam muita gente, mas só no varejo:

Um num dia, dois no outro, na semana sequinte mais um.

10 a 20 de uma vez, só no Brasil, Colômbia, México, África do Sul, esses lugares mais ‘civilizados’.

Noturna do Obelisco iluminado.

Ainda assim, Buenos Aires está violenta. Bem mais do que era lá até duas décadas atrás. Bem mais, sem comparação possível.

Até pouco antes da virada do milênio, assaltos a mão armada aconteciam mas eram raros.

Latrocínios (matar pra roubar) praticamente inexistente, um a cada muitos meses no máximo.

Agora a chapa tá quente de verdade. O ‘paco’ chegou com tudo.

(Trata-se de uma droga pior que o craque, existe também em Brasília-DF e na Amazônia com o nome de merla)

Daqui até o final: periferia da Zona Sul de Buenos Aires, tanto municipal quanto metropolitana (são áreas próximas, basta cruzar o Riachuelo).

Destroçando as favelas e periferias. Fez um arregaço.

Não 2 dígitos de uma vez só como no Brasil.

Ainda assim, as favelas e quebradas portenhas (Capital Federal) e bonarenses (Província) também estão desovando cadáveres em ritmo alto.

Hoje não é mais seguro andar a pé a noite no Centro e bairros ricos, como um dia foi.

E os latrocínios se tornaram corriqueiros, não comovem mais, exceto a família da vítima.

Do lado esquerdo da rua, mais uma carreta Scania (o mercado de caminhões da Argentina – e também Paraguai – é muito parecido com o Brasil) e no direito notamos mais uma vez a falta de saneamento básico.

Buenos Aires mudou muito. Uma pena. Mas é a realidade deles agora, que conhecemos bem aqui.

………..

Promessa é dívida. Por que o título, “o Número da Besta”?

No meu último dia em Buenos Aires, fui conhecer a Feirinha de Artesanato de São Telmo.

Parecida com a do Largo da Ordem em Curitiba, pra quem conhece.

Próximas 3: Avellaneda, região metropolitana. Essa e a próxima no entorno do campo do Racing, com direito a a pichação de campanha política do clube.

Almoçamos num restaurante ‘descolado’. Comida boa, ambiente aconchegante. Mas bem caro. Por isso estava vazio. 

E….não aceita cartão, como é o padrão na Argentina. Tivemos que desembolsar uma boa quantia, e em efetivo. 

Apesar da conta salgada, foi um almoço agradável, o local é todo decorado com quadros, os pratos são gostosos.

E tudo regado ao bom e velho ‘rock’n roll’.

Aqui em frente ao estádio mesmo.

Já na hora de ir embora (e eu estava me despedindo da cidade também, lembre-se) fui dar uma volta, ver os quadros.

Começou a tocar essa música, “Number of the Beast” do ‘Iron Maiden’. Entrei em transe.

Parece que tive um ‘despertar’, como os místicos contam. Tudo se encaixou, entende?

Ainda Avellaneda, que se desenvolve bastante. Prédio de bom padrão e altura sendo erguido.

Foi a trilha sonora perfeita do momento. Deu um estalo em minha Alma. 

Pronto, associei pela Eternidade essa música a Buenos Aires.

Sempre que volto lá (pelo ‘Google Mapas’) puxo ela como pano de fundo. A cidade e a canção agora são um e o mesmo.

Buenos Aires É o Número da Besta!

Outros conjuntos novos subindo.

Está dito. Cada um que interprete como quiser porque fiz essa associação de maneira tão indelével.

..

Que Deus Ilumine a todos.

Ele/Ela proverá

Encanto Multi-Dimensional: a Cidade do Cabo (e do Vinho), um Chacra da Terra

A ‘Mesa-Montanha’ – um Chacra da Terra – é conectada ao Centro e ao resto da cidade pelo moderno sistema de transporte.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de fevereiro de 2018

Quase todas as imagens de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’, de rede. Créditos mantidos quando impresso nas fotos.

Seguindo nossa série sobre a África do Sul, hoje vamos falar mais a fundo sobre a Cidade do Cabo.

Joanesburgo, sobre quem escrevi com mais detalhes em postagem específica, é a maior metrópole do país, e seu epi-centro econômico e político.

Uma cidade muito rica: mansão nos ‘Subúrbios da Zona Norte’ ostenta Audis prateados – “um é pouco, dois é bom“.

Os destinos políticos do país são basicamente decididos em ‘Joburgo’. Fato.

A luta pra derrubar o ‘apartheid’ (desde a ápoca de Gandhi), por exemplo, foi centrada ali.

Mas em múltiplas dimensões o Cabo é principal cidade da África do Sul. Citemos algumas:

– Pra conversa começar, é certamente a cidade mais bonita do país, e uma das mais bonitas do mundo, espremida entre o morro e o mar;

Mas de altíssima concentração de renda: entre as Zonas Norte e Leste, flagrei essa favela, um das muitas da cidade.

– É disparado o principal destino turístico sul-africano. E acredito que o 2° de toda África atrás de Cairo no Egito;

Sediando o Congresso, é uma das capitais da nação (O Chile tem 2 capitais: Santiago executiva e judiciária, Valparaíso parlamentar.

Na África do Sul são 3: em Pretória o Palácio Presidencial, o Cabo capital legislativa, o Supremo Tribunal é na pequena cidade de Bloemfontein);

É a cidade mais integrada da África do Sul hoje. Ali, negros e brancos convivem em (relativa) harmonia. Entre parênteses o ‘relativa’ porque claro que nem tudo no Cabo é um mar-de-rosas.

Castelo do Cabo, feito pelos holandeses em 1679, primeira construção europeia na África. Pra compensar tantos séculos de domínio caucasiano, em abril de 17 havia uma exposição de “História Des-colonizada da 2ª Guerra”.

Mas nas outras metrópoles sul-africanas a coisa é pior. Muito pior, nos Centrões de Durbã e Joanesburgo há um ‘apartheid invertido’: simplesmente não há brancos;

A Cidade do Cabo é tri-língue. Toda comunicação oficial é em inglês, africâner e xhoza.

Veja a direita a porta de um ônibus, ao fundo belo Pôr-do-Sol: integraram os negros, mas sem oprimir os brancos.

No resto da África do Sul, lamentavelmente, não houve essa sensatez:

Ali eles sumariamente eliminaram o africâner da maior parte da comunicação governamental.

Substituindo-o pelos idiomas negros nativos. Novamente vemos o ‘apartheid invertido’ em ação;

– Mas não é só questão de raça, e sim também de classe: o Centro da Cidade do Cabo é civilizado.

O ponto mais marcante do Cabo é que não importa onde você esteja na cidade, você sempre enxerga as montanhas ao fundo. Aqui o Centrão.

Portanto, frequentado – e habitado! – pela classe média, tanto brancos quanto a nascente burguesia negra.

Nos Centrões de Durbã e Jonesburgo, mais uma vez, não funciona dessa forma, abaixo explico melhor;

– Pela corrente de mar gelada que vem do Polo Sul, a Cidade do Cabo tem no geral temperatura amena, contando com verões suaves e invernos frios, em plena costa africana.

Região de classe média-alta próxima ao bairro ‘Woodstock’, Zona Central.

O que a torna diferenciada da maioria das grandes cidades do continente, nesse quesito também;

– Somando clima e herança europeia: a Cidade do Cabo também é uma “Cidade do Vinho”.

Nisso se parece com Mendonça, na Argentina (que visitei um mês antes e sobre a qual igualmente ainda escreverei melhor, em breve);

O sistema de transporte por ônibus da Cidade do Cabo é exemplar, certamente o melhor da África e um dos melhores do mundo.

Indo pra Zona Norte, em primeiro plano o ‘Distrito Industrial’.

Muito bom mesmo,  no mesmo nível dos mais avançados da Europa, Ásia e América –  e eis um assunto que entendo a fundo;

– Por último, mas não menos importante: a Cidade do Cabo é um ‘Chacra da Mãe-Terra:

A Mesa-Montanha cumpre um papel fundamental na rede etérica que equilibra a Energia do planeta.

O riquíssimo bairro “Ponta Verde”, colado ao Centro (com seu famoso trenzinho de brinquedo do parque de diversões).

Quem conhece Ciência Oculta sabe o que estou falando;

Assim, eis a Cidade do Cabo: um epi-centro de suma importância, na 3ª e igualmente na 4ª e 5ª Dimensões.

…………..

Então falemos um pouco mais sobre a cidade, com isso recapitulando um pouco do que já foi escrito nas outras mensagens da série e adicionando novas impressões.

A Cidade do Cabo foi construída, como seu nome já entrega, ao redor de um cabo.

Agora indo pra Zona Sul.

E o que é um ‘cabo’, geograficamente falando? Um península onde a terra avança sobre o mar.

Como esse cabo é montanhoso, a cena mais marcante da Cidade do Cabo é essa (como a legenda já falou):

Não importa em que parte da cidade você esteja, sempre enxerga a serra emoldurando ao fundo.

Bairro (de elite, veja mais um Audi) ‘Campo da Baía’, começo da Zona Sul.

Os primeiros europeus a pisarem na África do Sul foram os portugueses, a caminho da Índia.

A cidade de Durbã (que também terá uma matéria própria, em breve) foi fundada como ‘Porto Natal’.

Os ingleses, quando conquistaram a região, a denominaram – numa hibridização dos idiomas – de ‘Port Natal’.

E o estado a qual ela pertence se chamou ‘Natal’ até o fim do ‘apartheid’.

Aí houve a incorporação do bantustão de KwaZulu, e o estado atualmente se denomina KwaZulu-Natal, pra agradar negros e brancos.

Extremidade da Zona Sul, bairro ‘Baía Hout’, também de alto padrão.

Veja que a palavra ‘Natal’, em português mesmo, permanece até hoje.

Mas da Costa Leste sul-africana trataremos outro dia. Hoje nosso tema é a Costa Oeste.

Até a metade do milênio passado não havia como ir da Europa ao Oriente por via marítima.

Assim as elites europeias, pra importar as especiarias e demais produtos orientais, tinham que recorrer a intermediários árabes.

Nesse mesmo ‘Baía Hout’, outra favela.

Esses comerciantes operavam pela ‘Rota da Seda’ (que agora a China está fazendo uma nova versão).

No século 15, Portugal foi a primeira nação a chegar a Índia pelo mar, contornando a África – obviamente o Canal de Suez não existia.

E pra isso tiveram que passar pelo ‘Cabo da Boa Esperança’, que separa os Oceanos Atlântico e Índico.

Khayelitscha (r), bairro de periferia (com várias favelas) na extremidade da Zona Leste.

Exatamente onde hoje está a Cidade do Cabo, já voltamos pra ela.

Aqui, traçando mais um paralelo histórico, pouco depois os portugueses foram os primeiros europeus a chegarem a América.

(Ao menos oficialmente, alguns dizem que os ‘vikings’ da Escandinávia já havia estado aqui milênios antes.

Nossa bandeira na África; ao fundo sempre as famosas montanhas do Cabo.

Mas como disso ainda não há registros incontestáveis, cristalizou-se no consciente coletivo que foi mesmo Portugal o pioneiro.)

Primeiros a contornar a África, primeiros a cruzar um grande Oceano como o Atlântico.

Definitivamente os lusos dominaram os mares na virada do milênio passado.

Trata-se da Honra-Maior de Portugal, seu próprio mito formador, e por isso em tudo que é português reproduz-se as caravelas.

(Veja o escudo do Vasco da Gama, por exemplo, alias Vasco foi outro navegador.)

Vinho sul-africano com rótulo em português.

No caminho pra África, a Coroa Portuguesa deixou raízes na costa africana, é lógico.

E eles estiveram no Cabo, também. A ‘Mesa-Montanha’, símbolo-mor da cidade, era então chamada de ‘Taboa do Cabo’.

Mais que isso: não é só uma curiosidade histórica, as sementes lusas germinaram e ainda rendem frutos na África do Sul.

Até hoje usam-se termos em português nas fachadas, no Cabo particularmente no ramo da alimentação. Não apenas ali:

prédios com nome em português, fotografei um deles no bairro da Costa Verde, Zona Central do Cabo, um dos mais ricos da cidade.

Em Pretória flagrei a palavra ‘Munitoria’ num espaço público. Portanto esse fenômeno está arraigado em toda África do Sul.

A rede de lanchonetes Nando’s (um ‘Mc Donald’s local’) está presente em todas as maiores cidades sul-africanas.

Linha-Turismo da Cidade do Cabo.

E, bem, Nando’s mesmo já é em português, e eles colocam ‘Bom Dia’ em todas as suas lojas.

Mas na Cidade do Cabo a presença de termos em português é especialmente forte, principalmente como nome de restaurantes.

Veja a colagem acima a esquerda. Especialmente restaurantes na Cid. do Cabo, repetindo.

Mas também exemplos em fachadas de estabelecimentos de outras atividades, e em outras cidades.

Estádio em que houve jogos da Copa/2010; no terreno ao redor um campo de golfe.

A direita um rótulo de vinho. E, não, esse não está assim por ser ‘pra exportação’.

É fato, a maioria dos alimentos produzidos na África do Sul têm rótulo tri-língue, em inglês, francês e português, pois assim pode ser exportado pra África inteira.

Mas aqui não é esse o caso. Até porque não foi exportado, fotografei-o dentro da África do Sul mesmo.

Subúrbios da Z/N: na parte rica da cidade, Mulher branca se exercita numa bicicleta (atrás mais um campo de golfe).

Em Durbã cliquei frases em português no Centrão. Alguém me disse: “ah, deve ter sido um angolano ou moçambicano quem pichou”.

Pode ser. Aquela era a cracolândia de Durbã, não muito longe de onde um noiado me abordou e tive um diálogo tenso com ele.

Então pode ser que nas redondezas morem alguns trabalhadores braçais imigrantes dos países lusófonos africanos.

Não longe dali, mas na porção de periferia do Cabo, negros são transportados em caçambas e compram em feiras em que os produtos ficam expostos no chão. É a África do Sul em Preto-&-Branco, meu irmão . . . P.S.: na vitrine da concessionária 2 Fuscas, carro que a Cid. do Cabo adora!

Alias, em Durbã mesmo falei em português com um deles, eu entrei no elevador e havia 3 negros.

Pedreiros, reformavam o prédio. Eles dialogavam em inglês.

Me perguntaram, e quando informei ser brasileiro, conversei eu e um deles em português, ele era moçambicano.

Então, sim, há alguns falantes lusófonos na África do Sul.

Mas são pouquíssimos, e se concentram na classe operária.

Aérea da cidade (r). Ao fundo a Mesa-Montanha, a esquerda o Centro e depois o porto, aquela bola é o estádio, a frente dele o bairro da Ponta Verde.

Na classe média, porém, quase não há sul-africanos que saibam o idioma com o qual estou escrevendo esse texto.

E mesmo assim há prédios de luxo e muitos, muitos restaurantes que o utilizam. Por que? Porque é chique, oras.

Por isso: no Brasil falamos português, e os edifícios e as vitrines das lojas da burguesia são em inglês.

Bondinho sobe pra Mesa-Montanha.

Na África do Sul é inverso, eles falam (entre outras línguas) o inglês, mas dá ‘status’ usar alguns termos em português.

Como é a Vida, não? Deus é um cara Gozador, e por vontade Dele/Dela tudo mesmo é relativo no Universo

………..

Os portugueses passaram por ali, mas não ficaram. Visavam o Oriente, onde também estabeleceram colônias: Macau que só devolvida a China em 1999, Timor Leste se separou de Portugal em 1975 (e da Indonésia, que o anexou, em 2002).

Colagem (você percebe a emenda) mostra a cidade de cima. Onde há os edifícios altos (comerciais) é o Centro, lá chamado por isso pelo termo britânico ‘C.B.D.’, ‘Central Business District’. Vemos o estádio e logo após ele, encoberto pela montanha, a Ponta Verde. A Cidade do Cabo é bela…

Mumbai, na Índia, era chamada até há pouco de Bombaim. Na verdade o nome não mudou, apenas a grafia. ‘Mumbai’ é como os indianos pronunciavam ‘Bombaim’.

E qual a origem do nome ‘Bombaim’? Por sua vez, já uma corruptela de ‘Boa Baía’, que é como os portugueses chamaram o entreposto que eles fundaram ali.

Falei tudo isso pra mostrar que os portugueses passaram pela África do Sul antes de qualquer outro povo europeu.

…mas também é fera!!! Agora filma as “Cidades de Lata” – o nome é porque nas favelas sul-africanas os barracos são de zinco, parede e telhados. Essa aqui eu cliquei do avião, portanto nas cercanias do Aeroporto, Zona Leste.

Mas ali eles não tiveram interesse em derrotar os nativos e fixar uma colônia. Miravam mais longe.

Assim os primeiros brancos a colonizarem a região foram os holandeses, subjugando os negros habitantes originais da terra.

Em 1679 a Coroa Holandesa concluiu o ‘Castelo da Boa Esperança‘ – pra guarnecer o Cabo da Boa Esperança, que ela considerava sua posse agora.

O Castelo, assim, é a primeira construção europeia de toda África, marcando assim o início da colonização caucasiana do Continente Negro.

Quando foi inaugurado, no fim do século 17, era um forte a beira-mar. Mas com sucessivos aterros hoje o Castelo está algumas centenas de metros terra adentro.

Caminhão 11-13 Mercedão que eu ainda consegui flagrar, mesmo estando num ônibus em movimento e sem estar com a câmera preparada (veja a janela do busão). O bichão é preto e bicudo, cena do passado. Hoje (quase) todos os caminhões da África do Sul são brancos e cara-chata.

Nisso o Cabo apenas imita a própria Holanda, afinal foi colonizada por holandeses – e pra isso subjugando militarmente os negros. 

Mas não tardaria, e os holandeses provariam de seu próprio remédio amargo: o Castelo da Boa Esperança garantiu a posse da Colônia do Cabo por um século apenas.

Em fins do século 18, a Inglaterra chega e exige a capitulação.

Os holandeses resistem, a Real Marinha Britânica reforça o ataque com enorme esquadra, e o Cabo cai, passando pra Inglaterra.

Parte dos holandeses migra pro interior, derrotando os negros e fundando colônias:

Estaleiro ao lado do Centro.

A do Estado Livre Laranja (a cor Real holandesa, lembre-se do uniforme da seleção de futebol) e do Trans-Vaal, como o nome indica após o Rio Vaal (conhecida como ‘República Sul-Africana’, não confundir com o país atual que é a ‘República da África do Sul’).

Na virada do século 19 pro 20, a rivalidade anglo-holandesa na África do Sul volta a ferver, e estouram as duas ‘Guerras dos Bôeres’.

Foi nessa ocasião que a Inglaterra inventa o campo de concentração, prendendo nele civis, os Homens não-combatentes, junto com as Mulheres, crianças e velhos.

O famoso farol do rico bairro da Ponta Verde. É útil a noite. De dia, a Mesa-Montanha é um farol natural, vista a dezenas de kms mar adentro.

Viu? No consciente coletivo Hitler, Stalin, Mao e Pol Pot é quem estão associados a palavra ‘campo de concentração’, e de fato eles fizeram intensivo uso desse instrumento.

Mas quem o criou foi a Inglaterra, nunca te esqueças disso, porque isso a maioria das pessoas ignora.

No fim a Inglaterra bate novamente no campo de batalha os descendentes de holandeses, e unifica toda África do Sul como sua colônia.

Próximas 6: a orla na Ponta Verde. Aqui, a burguesia fazendo exercício no calçadão (“nem parece que estamos na África”, na definição de um morador negro local).

Isso cria um ressentimento intenso entre os ingleses e os bôeres (africâneres, os sul-africanos de ascendência holandesa), que persiste até hoje.

Apenas pra consolidar o ‘apartheid’ contra a resistência negra é que africâneres e ingleses se unem na África do Sul, enfim se descobrindo como ‘brancos’ em comum.

Ou seja, quando os negros foram dizimados no campo de batalha, os europeus brigaram ferozmente entre si, inclusive encerrando civis no campo de concentração.

Apenas quando os negros se levantaram de novo é que os brancos se uniram, subitamente valorizando mais as coisas que os uniam que as que os separavam.

Essa parceria entre os descendentes de europeus se acentuou mais ainda no fim do século 20.

A partir da ‘Revolta Estudantil de Soweto em 76′, que foi duplicada em 1984, o ‘apartheid’ entra na defensiva.

Os negros renovam sua ofensi