Linha pintada no ‘Micro’ colorido; 3 cidades com troleibus; bom metrô e trem; poucos articulados e corredores: o Transporte na Argentina

Argentina (r): Meca do Tróleibus na Am. Latina – são 3 cidades, aqui um ex-Canadá em Mendonça.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de novembro de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’ de ‘rede’, como visto ao lado.

Vamos falar da rede de transportes da Argentina.

De bate-pronto vamos dar um resumo da situação, depois vamos desenvolvendo.

Aqui e acima da manchete: Buenos Aires não tem tróleibus. Mas os ônibus a dísel são multi-coloridos, com itinerário pintado na lataria (igual a Lima).

Buenos Aires:

Excelente rede de trens suburbanos, uma dos melhores do mundo;

Metrô (um dos primeiros do planeta, 6 décadas antes do Brasil) razoável.

Atende boa parte da Capital Federal (‘CABA’, Cid. Autônoma de Bs. As.).

Mas essa é apenas a Zona Central da cidade que é a Grande Buenos Aires (‘Conurbado’), tendo menos de 20% da população.

Metrô de B. Aires, um dos 1ºs do mundo.

O metrô, por ser municipal, não entra na região metropolitana (‘AMBA’, Área Metrop. De Bs. As., que lá é em outro estado, a Província de Bs. As.).

Como sabem, na Argentina os estados são denominados ‘províncias’.

Logo, a periferia da capital é conhecida simplesmente como ‘A Província’. Nela vivem mais de 80% da população da Grande Buenos Aires.

Trem suburbano na Z/N da capital.

Essa imensa maioria não têm acesso ao metrô exceto via baldeação, portanto pagando duas vezes;

Ônibus: não há terminais e nem integração, seja física ou digital. Pouquíssimos articulados.

Não há padronização de pintura, os busos (lá chamados ‘micros’) são em pintura livre, com o itinerário pintado na lataria (o que também ocorre em Lima-Peru).

Corredor de ônibus MetroBus na Av. 9 de Julho, Centro de B. Aires. Não há integração.

Rede de corredores (chamada ‘MetroBus’) razoável, 50 km. Demorou muito pra ser implantada, apenas em 2011.

Portanto somente 6 anos quando o texto sobe pro ar em 17. Mas estão tirando o atraso, em expansão constante;

No sistema municipal e nas linhas metropolitanas que ligam o Centro ao subúrbio, todos os ônibus são de 3 portas e motor traseiro.

Bonde moderno em Mendonça.

Na periferia (as linhas internas metropolitanas que não entram na Cap. Federal), entretanto, vemos veículos de 2 portas e/ou motor dianteiro.

As linhas são conhecidas pelo número, e não pelo nome. Alguns busões alias só tem o nº no letreiro.

Esse também é o padrão na Itália, Paraguai e no Brasil no Rio de Janeiro e Santos-SP. Há outros países e cidades que isso ocorre, mas de cabeça me lembro desses.

‘Antes/Depois’ (r): as composições que rodam em Mendonça vieram usadas da fronteira EUA/México. Aqui vemos uma delas em ação no Hemisfério Norte.

Um dia houve tróleibus em Buenos Aires, mas não mais a muito. Em compensação no interior há 3 redes. O que faz com que a Argentina seja o país da América Latina com mais cidades contando com ônibus elétricos.

E o 2º da América, só atrás dos EUA que tem 4. No Brasil são 2 cidades: Grande SP e Santos. 3 sistemas, pois em SP há o municipal e o metropolitano. De volta a Argentina:

Córdoba (maior cidade do interior, e a mais importante, em termos políticos e econômicos):

Tróleibus: são apenas 3 linhas, exclusivamente com Mulheres ao volante.

Próximas 2: Tróleis em Mendonça. Da mesma leva ex-Canadá que o que vemos na 1ª foto da matéria, no alto da página. Agora eles foram repintados em apenas uma cor, não há mais nada escrito na lateral.

É uma viação estatal municipal, que também opera alguns ônibus a dísel.

A política é ter um quadro funcional 100% do sexo feminino como condutoras.

São as únicas motoristas Mulheres que vi na Argentina, incluindo elétrico e a combustão de carbono.

Nos ônibus particulares de Córdoba, Mendonça e Buenos Aires só vi Homens guiando.

E os tróleibus de Mendonça (dir.), que também são estatais, igualmente são dirigidos pelo sexo masculino. A capital Buenos Aires não tem viação pública.

A traseira. Nos detalhes: avisos no interior bi-língues em inglês e francês (apesar que Vancuver é Costa Oeste, não fala francês). E um cartaz que fotografei no Centro protestava contra a privatização.

Voltando aos tróleis de Córdoba, as motoristas são Mulheres, mas o acesso é livre a passageiros de ambos os sexos.

No México ocorre o contrário: há ônibus que só Mulheres podem utilizar (Homens com menos de 12 anos ou mais de 65, entre essas idades somente deficientes).

Mas a maioria dos motoristas dos ‘ônibus rosas’ mexicanos são Homens, alguns são guiados por Mulheres, mas são poucos.

Ônibus: não há pintura padronizada, corredores ou terminais, nem integração seja física ou temporal.

Articulado em Mendonça (viação Maipu). Proporcional a população, essa é a cidade com mais ‘sanfonados’ na Argentina.

A maioria dos ônibus contam com 3 portas, mas existem vários com 2.

Em Córdoba há mais articulados que em Buenos Aires, proporcional a população.

Como no Brasil e ao contrário de Buenos Aires, o itinerário não vem pintado na lataria.

No entanto, como na capital as linhas são mais conhecidas pelo número que pelo nome. Alguns ônibus de Córdoba igualmente só trazem o número no letreiro.

Moderno ônibus (viação Trapiche) de Mendonça, até com letreiro eletrônico. Mas tem somente 2 portas.

Pequena rede de trens suburbanos, apenas 1 linha. O detalhe lamentável é que a parte mais urbana esteja cancelada em 2017.

Pois estavam ocorrendo constantes apedrejamentos na favela chamada ‘Vila de Náilon’.

Antes o trem saía de uma estação bem central em Córdoba, parava numa outra ainda dentro desse município mas já na periferia.

Veja o canal pra escoar água dos Andes, típico de Mendonça (viação Maipu).

E dali seguia pra algumas cidades que são no interior do estado (‘província’) de Córdoba.

Não são mais região metropolitana, mas ficam próximas a capital.

Agora o trem já parte da estação da periferia rumo ao interior, não faz mais o pega urbano dentro da capital pra evitar o trecho problemático.

Digo, relato o que era verdade quando estive ali em março de 2017. Na ocasião a Argentina enfrentava dolorosa agonia política.

Próximas 3: trem suburbano de Córdoba.

Que se refletia nessa situação de normalização de apedrejamento do transporte coletivo, como já detalhei melhor na postagem ligada em vermelho acima.

Pode ser que quando você estiver lendo essas linhas a situação tenha sido normalizada. Faço votos pra que assim seja.

Tristeza: por constantes apedrejamentos eliminaram um trecho da linha.

Mendonça (4ª maior cidade argentina, 3ª do interior depois de Córdoba e Rosário):

Bonde moderno, implantado num antigo ramal de trens de carga. Funciona bem, um meio rápido, barato e não-poluente de ligar o Centro a populosos subúrbios da Zona Sul.

Detalhe: as composições foram importadas usadas da fronteira EUA/México. Antigamente operavam na linha que liga a Grande São Diego (Califórnia) a Tijuana.

Grades na janela pra evitar que o motorista seja atingido por pedras. Na África do Sul do ‘apartheid’ era assim, mas hoje não mais.

Presenciei em Mendonça uma que o letreiro não havia sido mudado, infelizmente não pude fotografar.

Tróleibus de uma viação estatal. Ao contrário de Córdoba, dirigidos por Homens. São 6 linhas, e o sistema passa por expansão e modernização.

Em 2013 foi inaugurada uma longa linha, de 13 km. E no ano seguinte outra, essa mais curta, até a universidade.

Articulado de Córdoba.

Alguns tróleibus são ex-Vancúver, Canadá. Os da linha 4 pra Dorrego, que foram os que eu andei e fotografei, se enquadram nesse caso.

Assim vemos que essa é uma tradição mendoncina, importar da América do Norte os veículos de seu transporte elétrico.

Também Córdoba, mesma viação. Na Argentina as linhas são conhecidas pelo nº, esse sequer tem o nome no letreiro.

Até recentemente havia também tróleis russos e alemães, esse últimos eram mais curtos e trucados (tribus, ou seja 3 eixos).

Não tenho certeza quanto aos russos, mas os tróleis alemães não circulam mais em Mendonça.

Já estão fora de serviço, flagrei vários deles sendo desmontados.

Eram vendidos como sucata num desmanche de beira de estrada na entrada da cidade, mas não deu tempo fotografar.

Tróleibus em Córdoba. São só 3 linhas, denominadas ‘A’, ‘B’ e ‘C. Viação estatal.

Em compensação, chegou uma nova leva de tróleis, e esses de fabricação argentina mesmo, ademais gerou empregos e tecnologia nacionais.

Ônibus: mesma situação do resto do país, sem terminais, integração ou padronização de pintura. Como em Córdoba, não há corredores, mas tampouco o itinerário é pintado na lataria.

O ponto negativo de Mendonça é que ali a maioria dos ônibus é motor na frente e de 2 portas, os de 3 são exceção.

Em compensação Mendonça é a cidade da Argentina com mais articulados, proporcional a população.

Todos os tróleis de Córdoba têm Mulheres ao volante.

Em Mendonça (ao menos nos a dísel) o número principal que você vê no letreiro não é o da linha, mas ‘tronco’, ou seja, da avenida principal que várias linhas pegam.

A linha mesmo vem num letreiro menor no para-brisas. Exemplificando é mais fácil entender, vide a tomada abaixo a direita.

Ali escrevi ‘corredor’, mas não no sentido de canaleta exclusiva, porque elas não existem no interior da Argentina.

‘Corredor’ aqui é no sentido usado na Rep. Dominicana, o eixo, a avenida principal que a linha passa (dado que um dia também foi mostrado em Belo Horizonte-MG).

 Mendonça (por isso 2 portas): o nº no letreiro maior é o tronco. A linha vem no letreiro menor, no vidro (Viação Avelar).

………

Rosário é a 3ª maior cidade argentina, a 2ª do interior após Córdoba.

E em termos de relevância política ambas disputam palmo-a-palmo quem tem mais influência.

Agora, como detalhe curioso aponto que no futebol Rosário é disparado o maior polo após a capital.

Rede de trens da Gde. Buenos Aires. Em vermelho a divisa entre a Cap. Federal (‘CABA’) e a ‘Província’ (‘AMBA’, a região metropolitana). Note que os próximos 2 mapas só mostram a ‘CABA’, ou seja dentro da linha rubra.

Das 132 edições de seu campeonato de futebol (quase sempre 2 por ano) Buenos Aires e seus subúrbios venceram 122.

Apenas 10 foram pro interior, e todas pra Rosário. Ademais, Buenos Aires (incluindo subúrbios) ganhou todas as 24 Libertadores da Argentina.

Somente em 2 vezes o interior da Argentina chegou a final da Libertadores, e as duas vezes foi novamente Rosário.

Escrevi tudo isso pra colocar que se nos campos político, econômico e cultural a rivalidade entre Córdoba e Rosário é intensa, no futebol não há comparação possível.

Esse esporte na Argentina se concentra 90% na capital. Do pouco que sobra pro interior, Rosário fica com praticamente tudo.

Rede de metrô.

Em termos nacionais Córdoba é praticamente irrelevante, e em Mendonça e demais cidades então os times só têm qualquer importância a nível local.

Já fiz matéria específica sobre o futebol, onde dou todos os detalhes, ricamente ilustrado.

Aqui só fiz esse adendo pra mostrar que nessa dimensão – que é a própria Alma da Argentina! – Rosário é o orgulho do interior:

Corredores de ônibus MetroBus.

A única cidade que faz alguma frente ao gigante que é Buenos Aires. Então voltando ao transporte, que é nosso tema atual.

Rosário também tem tróleibus. Incluso alguns ex-Belo Horizonte. Digo, eles foram produzidos e inclusive pintados pra rodar na capital mineira, mas não chegou a acontecer.

Ficaram anos parados num depósito, até que foram exportados pra Argentina. Já contei essa história outro dia, com muitas fotos.

Como não tive a oportunidade de ir a Rosário, não posso detalhar como funciona sua rede de ônibus, faço apenas esse adendo que lá também há veículos elétricos.

………

TETRA-MODAL: a favela Vila 31, no Centrão de B. Aires, fica atrás das estações de trem e ônibus, e pertinho do aeroporto e porto. Consegui numa tomada enquadrar o 4 modais (na África do Sul foram 3).

Como é sabido, essa vizinha nação teve seu período de glória na primeira metade do século 20.

Nessa época era considerada (ao lado do vizinho Uruguai) uma ilha europeia no oceano latino-americano.

Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, a Argentina entrou num novo ciclo, enfrentando severa decadência em várias dimensões:

Econômica, política, cultural, etc. O que a nivelou a mesma frequência dos demais vizinhos da América do Sul.

Veja bem: não estou dizendo que a Argentina está pior que o Brasil. Não.

Buenos Aires, o buso brilha refletindo o Sol. Linha 17, que eu cliquei as 17 horas do dia 17, que alinhamento, não? Pro que nos importa aqui, no itinerário pintado na lata vemos que ele passa pelo corredor MetroBus.

Diria que os dois países estão mais ou menos no mesmo nível, há pontos em que estamos a frente deles, e outros em que eles estão mais evoluídos.

A questão é que por um século, do fim do século 19 até a década de 80 do 20, não havia qualquer comparação possível.

A Argentina estava então milênios-luz a frente do Brasil, especialmente na coesão social.

Esse não é mais o caso. Repito, não estou afirmando que a Argentina é o pior país da América Latina ou mesmo do Sul. Mas está muito longe de ser o melhor.

Na Argentina os busos não têm catraca ou cobrador, você encosta o cartão na máquina (mas não há a evasão rampante do Chile). Falar nesse país trans-andino, tanto as chilenas como as argentinas a-d-o-r-a-m cachecóis e echarpes, como nota!

Indubitavelmente, houve uma queda de patamar. Agora estamos todos no mesmo barco, se quiser colocar assim.

Não por outro motivo denominei a série que retrata a Argentina como “Ascensão & Queda”.

Na Abertura da Série, que tem exatamente esse título, já tracei um panorama mais geral, multi-dimensional.

No tema de hoje, vamos nos focar especificamente nos transportes, que obviamente também seguem o que delineei acima

Já escrevi antes: o metrô de Buenos Aires (abreviada ‘Bs. As.’) é de 1913. Um dos mais antigos do mundo.

O de Londres-Inglaterra foi eletrificado (e portanto a partir daí considerado metrô) em 1890. O de Paris-França é de 1900, Nova Iorque-EUA inaugurou o seu em 1904.

A tomada anterior foi feita em Mendonça. Portanto a bela argentina de echarpe encosta na catraca eletrônica o cartão abaixo a esquerda. Vemos também os de Córdoba (no interior ambos se chamam ‘Red Bus’) e de B. Aires (‘Sube’).

Assim vemos que o metrô da capital argentina é apenas 13 anos mais novo que o da capital francesa, e veio menos de uma década depois da principal cidade estadunidense. 

Mais: o metrô de Buenos Aires (lá chamado ‘subte’, diminutivo de ‘subterrâneo’) foi o 1º de todo Hemisfério Sul, o 1º de toda América Latina.

E, se tudo fosse pouco, o 1º de um país de língua espanhola, pois mesmo o de Madri-Espanha chegou 6 anos depois dele.

O metrô de Lisboa-Portugal, que também é Europa Ocidental, só foi rodar em 1959.

Catraca de B. Aires pede que se ‘informe o destino’. Atrás os protestos que sacudiram o país no começo de 2017, mesmo tarde da noite eles seguiam.

Hoje a China tem os dois maiores sistemas de metrô do mundo, nas suas capitais política e econômica Pequim e Xangai.

Entretanto o metrô de Pequim é de 1965, e o de Xangai ainda mais novo, entrou em operação bem recentemente, em 1993.

Já que estamos na Ásia, Tóquio-Japão fez o seu em 1927, e o de Seul-Coreia do Sul é de 1974.

Hoje esses dois sistemas são infinitamente maiores que os de Buenos Aires.

Mas os portenhos contaram com esse conforto 14 anos antes que os japoneses, e 61 anos antes dos coreanos.

Há razões pra protestar: a Argentina está depauperada, e na periferia sua frota parece a de Cuba. Daqui pra baixo vamos combinar  o seguinte: quando a foto for no interior eu informo. Se não disser nada é em Buenos Aires, como é o caso aqui.

Somente no mesmo ano de 1974 o Brasil passou a contar com esse modal, quando São Paulo inaugurou sua primeira linha.

No México D.F. em 1969, pouquíssimo antes de SP e muitíssimo depois de Bs. As. .

O primeiro e até agora único metrô da Colômbia, o de Medelím, data de apenas 1995.

Assim fica evidente o passado glorioso da Argentina:

Muito próxima na Linha do Tempo de Londres, Nova Iorque e Paris, e a frente mesmo de Madri (a ex-colônia superou sua antiga metrópole). E décadas e décadas a frente de Portugal, Brasil, México, China e Colômbia.

Os táxis na Argentina oscilam entre o preto e o amarelo.

No entanto essa não é mais a situação do país, exatamente o oposto sendo verdadeiro.”

Modelo na primeira metade do século 20, a Argentina estagnou na segunda metade, marasmo que adentrou a 1ª metade do século 21.

O Brasil passou por ampla onda de modernização do transporte a partir da virada pros anos 80, processo ainda em andamento.

Depois dos anos 90, a América Latina nos acompanhou nessa vibração:

Por exemplo, Santiago do Chile foi a 1ª cidade hispano-americana a padronizar a pintura dos ônibus, em 1992 – foi a saudosa ‘Febre Amarela‘.

Centro de Buenos Aires: a chilena Metalpar tem boa fatia do mercado de carrocerias argentino.

Medelím inaugurou seu metrô no meio dessa mesma década, e depois expandiu-o via modal teleférico a morros inacessíveis a engenharia convencional.

Até os menores países países da América Central (tanto continentais quanto insulares, o Caribe) investiram pesado no ramo, fazendo metrô e modernizando os ônibus.

E a Argentina permanecia adormecida. Até o fim da década passada (o texto é de 17) já existia metrô e trem em Buenos Aires, óbvio.

Próximas 3: Retiro, Centrão de B. Aires. Ali é o ‘ponto zero’ da malha de transportes. Nessa foto a estação de trens (suburbanos e longa distância). A frente um buso da linha 115.

Mas a rede de ônibus da cidade se parecia muito com a de Assunção-Paraguai.

(Nota: não estou falando por preconceito. Estive no Paraguai em 2013, e constatei que a época ‘não haviam trem, metrô, corredores, articulados ou integração;

Mas haviam muitas jardineiras‘ [aqueles ônibus encarroçados em chassi de caminhão, com motor a frente].

E tampouco falo com desprezo. Ao contrário, Eu Amo o Paraguai, e agradeço muito a oportunidade que a Vida me deu de ter ido a sua capital.

Cruzando a rua está o Terminal Central (não-inegrado) de ônibus urbanos.

Além de várias vezes já ter visitado a Cidade do Leste, sua maior metrópole do interior.

Ainda assim, fatos são fatos. O Paraguai ainda não investiu na modernização do transporte. Haviam em 2013 planos de fazê-lo, e espero que tenham saído do papel.

Na quadra seguinte a Rodoviária.

Mas quando estive lá retratei a situação como a vi, e era essa.)

Pois bem. Em 2010 boa parte da América Latina, do Chile a Colômbia, Venezuela, Peru, México, América Central, já contava com modernos articulados que iam por canaletas exclusivas, com embarque em nível.

E em Buenos Aires . . ., bom já não haviam mais jardineiras, é certo.

Transição: a Argentina está mudando o emplacamento , a esq. o novo modelo.

Essas um dia foram oni-presentes na Argentina, mas nesse milênio já haviam sido eliminadas da capital (no fundão do interior ainda haviam alguns ‘heróis da resistência’).

Mas de resto, o sistema de ônibus da capital da Argentina se assemelhava muito a da capital do Paraguai:

Bi-trens são comuns no país (o Mercedes maior foi clicado chegando em Mendonça, os brancos do detalhe não tenho certeza).

Sem padronização de pintura, integração, corredores, terminais ou articulados. Ao menos, já tardiamente, nessa década houve um despertar.

Foi inaugurado o primeiro corredor – chamado ‘MetroBus’ como na Cidade do México e várias outras metrópoles pelo planeta.

Tróleibus na Argentina, em verde ativos, vermelho um dia existiu. A fonte é a Wikipédia.

E há alguns articulados. Muito poucos. Tão poucos que nem consegui fotografar.

Eles existem, sim, mas são raros, grosseiramente insuficientes pra uma megalópole de 12 milhões de pessoas.

Vi mais articulados na Zona Oeste de Buenos Aires. No corredor que leva ao bairro Liniers, na divisa de município, passaram alguns sanfonados.

Infelizmente nesse dia minha câmera estava sem bateria e não consegui registrar.

Mas no Centro de Buenos Aires, por exemplo, não passam articulados. E nem na maior parte da cidade.

Tróleibus em Rosário (r). Mas a linha é Venda Nova (BH-MG)???? Que ‘Tabela Trocada‘, hein? Nessa outra mensagem eu mostro toda linha do tempo dessa safra, de BH pra Rosário.

Fiquei 4 dias rodando com máquina na mão, e não deu certo clicar – e o motivo é esse, são muito poucos.

Ademais, no corredor os pontos não têm plataformas nem catracas. Ou seja, não há embarque em nível nem pré-pago – portanto não existe integração.

Simplesmente criaram uma pista exclusiva pros ônibus normais, curtos e de piso baixo, pararem.

Claro que houve vantagens, agora os coletivos não pegam congestionamentos nos trechos das grandes avenidas que têm MetroBus, e eles estão sendo ampliados.

Colagem mostra dezenas de busos urbanos de Buenos Aires. A maioria das marcas Agrale ou Mercedes-Benz.

Mas ainda é pouco. É preciso hierarquizar as linhas em troncais e alimentadoras.

Do Centro até alguns pontos-chaves em várias partes da cidade, as linhas precisam ser feitas por articulados que tenham corredores exclusivos em todo trajeto.

E desses pontos pras vilas, aí sim os ônibus pequenos podem continuar operando como alimentadores. Se houver a integração no cartão não há a necessidade de construção de terminais físicos.

Esse modelo é usado no mundo todo, do Brasil ao México, Guatemala, Indonésia, Turquia, China, até a Colômbia e Chile, pra citar apenas alguns.

A Argentina é quem ainda não despertou pra essa realidade tão óbvia. Vendo por outro lado, até somente 6 anos atrás (quando escrevo) nem o corredor não-integrado existia.

Aí era a raça mesmo, os ônibus duelando cm os automóveis nas vias entupidas do horário de pico. Se serve de consolo . . .

Já seguimos com o texto. Antes uma galeria de imagens com mais ônibus de Buenos Aires, quase sempre com a linha escrita na lataria:

Próximas 2: linha de bonde moderno abandonada no Centro de Buenos Aires.

Sobre a última foto: macaco vê, macaco imita. O nome do bairro é Palermo, mas os parvos chamam de ‘Palermo Soho’.

Porque pensam que vivem em Nova Iorque/EUA. Os macacos existem em nossa pátria também:

O Batel aqui em Ctba. é igualmente chamado ‘Batel Soho’ por alguns. Lamentável . . .

…………

Vamos falar mais alguns detalhes do que observei na minha estada na vizinha nação:

Ali crianças de mais de 3 pagam passagem. No Brasil é 6, o dobro. Diferença significativa, obviamente.

Outra plaquinha que está afixada em todos os ônibus argentinos:

“Proibido abrir as janelas no inverno ou em dias frios”.

Esse é o verdadeiro estado-babá, que trata os cidadãos como bebês incapazes, a quem tudo precisa ser dito nos mínimos detalhes.

A Linha Turismo de Córdoba é feita por um 2-andares inglês antigo – daí a porta na esquerda. Só tiraram o teto.

Oras, deixe que os próprios passageiros negociem entre si quando e quanto abrir de cada janela, não é papel do governo querer regular até isso.

………..

Nas carrocerias a chilena Metalpar tem boa fatia do mercado argentino. Isso já disse na legenda acima.

Entre os chassis, quase todos são Agrale ou Mercedes-Benz. Curioso isso, não? A Agrale é brasileira, com sede em Caxias do Sul-RS.

Hoje não existem mais ‘jardineiras‘ (ônibus em chassi de caminhão) nas grandes cidades argentinas. Mas por décadas eles reinaram absolutos. Viação de Bs. Aires relembra em adesivos o tempo que os ‘bicudinhos’ dominavam as ruas portenhas.

Mas aqui em nossa Pátria Amada quase não vemos ônibus Agrale. No entanto, em Buenos Aires eles são extremamente comuns.

Alias, no século passado era proibido a importação de ônibus pra Argentina.

Abriram uma exceção pros tróleibus Marcopolo brasileiros que iriam pra B. Horizonte, mas nunca foram.

Ficaram anos num pátio, quando foram exportados pra Rosário. Assim quebrando alguns tabus:

Foram os únicos tróleibus brasileiros a rodar no exterior, em qualquer país. Alias creio que essa situação se mantém inédita até hoje.

E segundo, por muito tempo eram os únicos ônibus brasileiros na Argentina, contando elétricos e a dísel.

Segura essa: em registro do sítio DBPBuss, uma jardineira operando na Argentina, no ano de 2009. Em Porto Iguaçu, fronteira com Brasil e Paraguai.

Essa reserva de mercado se foi. Hoje os ônibus brasileiros podem ser vendidos livremente nessa vizinha nação.

No mercado rodoviários eles são infinitamente comuns. Nos urbanos de tamanho normal existem porém são muito raros. Mas entre os micros embora longe de serem dominantes são comuns.

Eu mesmo andei (e fotografei) num micro brasileiro entre Córdoba e uma cidade do interior próxima.

……….

Na Argentina os ônibus não tem catraca física, apenas uma máquina onde você encosta o cartão pra que a passagem seja descontada.

Antiga jardineira do transporte urbano, agora transformada em uma casa-móvel.

Ainda assim, não há a evasão rampante de passagens como no Chile.

Contei com mais detalhes, incluso com fotos, quando voltei de lá: em Santiago, creio que quase um terço dos passageiros não pagam a tarifa.

Há campanhas com cartazes por toda a cidade, e também dentro dos coletivos, pra tentar diminuir essa situação, até agora sem muito sucesso.

No Chile os busos também não tem catraca, alias esse é o padrão pelo planeta, já falamos mais disso.

Linha 146 e o Banco da Nação na Pç. de Maio, Centro de Bs. As..

Na periferia da Zona Sul de Santiago, que é a parte mais ‘quente’ da cidade se é que me entendes, alguns micros alimentadores têm catraca.

E com isso a evasão se reduz significativamente, pra menos de 10%. Ainda assim, alguns jovens pulam a roleta.

………..

Não é o fato de ter ou não roleta física que determina o grau de evasão. Alias, a situação do Chile não tem paralelo com outros lugares.

Em todos os outros países que visitei, com exceção da República Dominicana nenhum outro tem roleta.

E em nenhum deles – incluindo a Argentina – há tanta gente que anda sem pagar como em Santiago.

Próximas 3: linhas especiais da Grande Buenos Aires. Todas elas fotografadas na Zona Norte (Palermo/Recoleta), a parte rica da cidade). A 57 é o ‘Expresso Palermo‘, ônibus urbano mas só 1 porta.

Mesmo no Litoral do Chile os micros não têm catraca, mas as pessoas pagam pela viagem corretamente.

Enfim. Como disse, só no Brasil e República Dominicana existe a profissão de cobrador de ônibus.

Nos demais ou a cobrança já é mesmo eletrônica (você encosta o cartão numa máquina) ou então você paga ao motorista.

……..

Hoje na Argentina é eletrônica, não se aceita mais dinheiro nos ônibus.

A 194 tem duas portas, mas também é diferenciada, com cortinas inclusive.

Mas no passado, antes da revolução digital, o usuário pagava em dinheiro, tinha que ser em moedas, e no valor correto.

O que gerava um problema seríssimo, pois se você não tinha o valor exato – em moedas de metal, repito, notas de papel não eram aceitasvocê não andava de ônibus.

Minha primeira viagem pra Argentina foi em 2017, então não presenciei essa situação lá. Mas parentes que viajaram anos atrás passaram por isso.

Essa é um ônibus de viagem, mas a linha é urbana, dentro da região metropolitana.

Antes de pegar o buso você tinha que rodar o comércio pedindo que a algum comerciante trocasse suas notas por moedas, e a maioria se recusava aliás.

Houve casos em que as pessoas tiveram que ir de táxi, pagando mais caro, pois não tinham trocado pro ônibus.

Não passei por isso na Argentina, mas no Hemisfério Norte sim. Fui a Nova Iorque/EUA em 1996. Ao lado do motorista havia um moedeiro:

Exatamente igual, você tinha que pagar a tarifa em moedas e sem sobras pois a máquina não dá troco.

Um belo fim-de-tarde no Centro de Avellaneda, Zona Sul da Grande Buenos Aires. Como em Córdoba, só há o nº da linha pintado no letreiro.

Digo, se colocasse a mais você podia viajar, mas perdia a diferença.

Já havia cartão, mas 21 anos atrás (nov.17 é quando escrevo, relembrando) mesmo nos EUA seu uso ainda era incipiente.

Depois fui ao México, em 2012. A mesma situação, havia o moedeiro, e você necessitava desembolsar o valor exato.

Guia de Buenos Aires traz além do itinerário a viação que faz os roteiros e sua pintura. Numa cidade de pintura livre em que praticamente cada linha é de uma cor, uma informação útil.

……….

A tarifa do metrô de Buenos Aires é única, independente de quanto você utiliza:

Você pode andar somente uma estação ou então percorrer uma linha inteira, fazer baldeação e a seguir andar outra linha inteira.

E tudo que há no meio desses extremos. Resumindo, tanto faz quantas estações você anda, se troca de composição ou não, paga a mesma quantia.

Mas nos ônibus e trens o preço varia conforme o trecho percorrido. Ao embarcar você diz onde vai descer, e é debitado de acordo. Isso nos ônibus.

Veja que na foto noturna em que mostro a catraca em primeiro plano e fora da janela um protesto em B. Aires, a roleta diz: “Informe destino”.

Próximo da divisa de Avellaneda com a Cap. Federal achei essa transgenia. No Brasil já flagramos caminhões que receberam cabine de ônibus. Mas na Argentina é de mão dupla: começou com um ônibus encarroçado em chassi de caminhão. No fim de sua vida útil voltou a ser caminhão! Mas mantiveram a porta do ônibus!!! Tudo vai e volta . . .

Em cima dela, se você ler com cuidado observa, um aviso explica: “Preencha o destino, e não o valor da passagem, pra não dar confusão”.

Nos trens você tem que passar o cartão tanto na entrada quanto na saída. Aí a máquina calcula quanto você percorreu, e desconta proporcionalmente do seu crédito.

Na maioria dos países a tarifa é proporcional a distância.

Nos micros e vans da Colômbia, México, Chile, nas linhas metropolitanas do México, na África do Sul em todos os modais, no metrô de Valparaíso-Chile, é sempre cobrado conforme o trecho que você utiliza.

Num dia bastante tumultuado, em que inclusive andei de camburão ao ser abordado pela polícia numa das periferias mais perigosas de Durbã/Áfr. do Sul, um dos problemas foi esse:

Ataque em Dupla: não foi apenas um, mas dois busos que viraram caminhões.

Ao descer do trem o fiscal constatou que por engano eu havia pago o valor errado da viagem, por não ter conseguido uma boa comunicação com o bilheteiro da estação central.

nos ônibus de Córdoba e Mendonça a tarifa é fixa como no Brasil.

Idem nos ônibus grandes municipais do Paraguai, Colômbia e México, nos metrôs desses últimos dois países, nos ônibus e metrôs de Santiago, na República Dominicana em todos os modais – nesses casos o valor é pré-determinado, independente do tanto que seja andado.

Em Córdoba. Palavras não são necessárias.

Bem, na Argentina, resumindo, só no metrô de Buenos Aires e nos ônibus municipais do interior é fixa. Até nos ônibus grandes municipais da capital oscila conforme a distância.

Por falar no cartão, nas capitais da Argentina como do Chile ele te empresta o equivalente a duas viagens quando está esgotado.

Assim você vai pra casa e no dia seguinte chega a teu trabalho tranquilo.

Próximas 5, Córdoba. Aqui e a esq.: Ersa, creio ser a maior empresa. Logo 3, ‘Ataque em Bando‘. Um raro com 2 portas.

Aí tem o dia seguinte inteiro pra re-abastecer de créditos.

De forma que não precisa ficar rodando as vezes em horários e locais perigosos buscando um ponto de recarga. O Brasil deveria adotar essa solução.

……..

Em Buenos Aires todos os ônibus das linhas mais movimentadas têm 3 portas.

AuCor, Autobuses Córdoba, outra viação grande. Esse buso provavelmente é ex-Ersa, pois a pintura é a idêntica.

Apenas algumas internas do subúrbio, de uso local, ainda contam com veículos só com 2.

Em Córdoba quase todos com 3, mas ainda vemos os de 2 (a direita um deles). E Mendonça está bem pra trás, lá a regra ainda é 2, só alguns com 3.

Bem, nada é tão ruim que não possa piorar. Na África do Sul, pela herança inglesa, a imensa maioria dos busos só tem 1 porta, até 2 ocorre as vezes mas já é um luxo.

Viação Coniferal.

E 3 portas não existe exceto nos articulados. A circulação interna nos busões sul-africanos é horrorosa.

Empurra-empurra geral, e não é culpa das pessoas, afinal estão tentando entrar e sair pelo mesmo local.

Unindo então fluxo e contra fluxo. No 2-andares então é pior ainda, aquilo é um pesadelo.

Salão interno do tróleibus.

Já começa pela confusão na única porta que há – e onde o motorista ainda têm que cobrar a passagem e emitir o bilhete -, e boa parte do salão de baixo é tomado pela escada e motor.

Acrescente-se ainda a confusão na escada, onde o mesmo se repete: um espaço apertado, onde alguns querem ir num sentido, outros na mão oposta… aff!!!

Tenebroso. quando conseguimos enfim descer do 2-andares lotado no Centro de Joanesburgo foi um verdadeiro alívio. Enfim, nosso tema de hoje é a Argentina. Coloquei apenas pra traçarmos esse paralelo.

Garagem na periferia, ainda em Córdoba.

Se os busos 2 portas de Mendonça são ruins, comparados com os de 1 porta (e as vezes 2-andares) da África eles são um sonho.

Mais uma pausa pra fotos. Vimos acima busos da Ersa, AuCor e Coniferal de Córdoba. Seguimos nessa cidade, as mesmas viações.

Linha Turismo de B. Aires: também 2-andares conversível, mas esse é novo e feito na Argentina.

Um dia as jardineiras (ônibus com chassi de caminhão, o motor saltado a frente) dominaram toda América Hispânica, da Argentina e Chile ao México e tudo que há no meio.

Do Paraguai ao México, passando por Bolívia, Peru, Colômbia e toda América Central, elas ainda são muito comuns – na Colômbia e no México, presenciei pessoalmente, ainda fazem jardineiras zero km.

Próximas 2: metrô de Buenos Aires. Aqui a entrada na calçada, uma escada, parece Nova Iorque.

Mas na Argentina, Chile e Uruguai elas já não existem mais nas grandes cidades desde os anos 90.

Nos fundões do interior ainda encontrávamos algumas até pouquíssimo tempo atrás.

Em Porto Iguaçu (no estado argentino das Missões, na fronteira com Foz do Iguaçu/Brasil e Cidade do Leste/Paraguai) vi pessoalmente no ano de 2006 as jardineiras ainda na ativa.

E um sítio de busologia, o DBPBuss, registrou a cena, nessa mesma cidade, no ano de 2009, já publiquei a foto mais pro alto da página.

Falar no Paraguai, embora ali elas ainda existam aos montes, também caminha pro fim.

No Paraguai não se compram mais jardineiras zero km, ao contrário de México e Colômbia.

Mural na estação.

Quando as últimas jardineiras esgotarem sua vida útil como transporte urbano, se acabarão nas grandes cidades do Paraguai também.

O Panamá vive exatamente esse mesmo momento de transição. Tudo na vida é cíclico, e depois da Lua Cheia vem a Minguante e a seguir a Nova.

Alias é exatamente porque um dia todos os ônibus foram jardineiras que em Buenos Aires ônibus urbano é conhecido como ‘micro’.

Próximas 2: a viação municipal de Córdoba que opera os tróleis tem alguns a dísel (também guiados por Mulheres) como ‘frota reserva’. Circulam nos horários de pico, ou quando um elétrico quebra (veja o destaque da próxima imagem).

Pois as jardineiras são mais curtas que os ônibus normais, que já eram usados no modal de viagem, por exemplo.

Como os ônibus urbanos eram de tamanho menor, viraram simplesmente ‘os micros’.

Hoje não é mais assim. Atualmente os ônibus de Buenos Aires são iguais aos do Brasil. 

Incluso no comprimento. Mas o nome ‘micro’ ficou, refletindo essa fase do passado.

Em Acapulco-México, os ônibus urbanos são conhecidos como ‘caminhões’.

E o motivo é o mesmo, porque as jardineiras são construídas sobre e têm o motor de caminhão saltado a frente.

……………

TRENS MODERNOS E BARATOS – Um dos pontos extremamente positivos do transporte na Argentina é sua rede de trens.

Lá, ao contrário do Brasil, as pessoas ainda viajam sobre trilhos entre uma cidade e outra. É confortável e barato.

Garagem dos tróleis na periferia de Córdoba. Repare que na Argentina os ônibus elétricos não têm placa – em várias cidades do Brasil foi assim também por décadas, mas hoje não mais.

Tentei ter essa experiência, mas não foi possível por questões de escala, os dias que há as viagens (que não são diárias) não batiam com nossa programação. 

Assim fui de Buenos Aires a Mendonça, dali a Córdoba, e de volta a capital sempre de ônibus-leito.

Alias, já falo dos trens. Antes um adendo: andar de leito na Argentina é um luxo só, é como a 1ª classe dos aviões.

Nessa vizinha nação está consagrado o ‘serviço-cama’, que agora chegou no Brasil.

Ônibus suburbano (2 portas e vai parando no caminho, mas pega estrada pra ir pra cidades já fora da reg. metropolitana) na Rodoviária de Córdoba – essa é a rodoviária normal, de onde saem também os de longa distância.

As poltronas reclinam 180º, você deita na horizontal.

Há rodo-moça (em alguns casos rodo-moço), que serve café-da-manhã completo, temos a opção de leite com café, chocolate, chá ou – estamos no Pampa afinal! – chimarrão.

Pra me ambientar com o local, eu tomei chimarrão. Ademais na tela você pode ouvir música, ver filmes ou jogar.

A viagem passa rápido, eu disse, você se sente no avião. É caro, de fato, mas bom demais!

‘Rodoviária Suburbana’: bem no Centrão de Córdoba, e dali só partem linhas suburbanas (fotografei uma igual no Chile). Um micro é Comil brasileiro. Nessa foto encerramos os ônibus da cidade de Córdoba.

Em compensação, no banheiro você só pode urinar. Se precisar do ‘número 2’, é preciso avisar a rodo-moça (o), que o motorista encosta num posto. No Chile é exatamente igual.

……

Acima descrevi como é viajar de ônibus-leito, que fiz 3 vezes. Não pude andar de trem.

Mas quem o fez me disse que igualmente vale muito a pena.

Pra começar, é incrivelmente barato. Há 3 opções, o ‘toco-duro’, a ‘tudo-incluso’ e uma intermediária.

Rodoviária de Cosquín e imediações. Uma pequena cidade no interior do estado de Córdoba, próxima a capital. Vemos ônibus suburbanos, alguns das mesmas empresas já retratadas acima.

O ‘toco-duro’ é desconfortável, você tem que dormir e comer na poltrona, como nos ônibus convencionais.

Em compensação o valor é irrisório. Pra quem está sem grana ou quando a viagem for de dia é a melhor opção.

No ‘tudo-incluso’, você tem direito a uma poltrona pra ficar sentado durante o dia, a noite dorme numa cama – num vagão que tem quartos com beliche.

E as refeições são no vagão-restaurante. Esse colega me informou que tudo isso sai pelo mesmo valor do ônibus.

Como comparação, no Brasil há pouquíssimas opções de trem de longa distância disponíveis, e custam os olhos da cara.

Aqui em Curitiba, por exemplo, só é possível ir de trem a Paranaguá e outras cidades próximas no Litoral.

Mas é bem mais caro que o ônibus, que já não é barato.

……….

Já que estamos em Cosquín, essa é a estação de trens da cidade.

Ademais, vide o mapa mais pro alto na página, a rede de trens suburbanos de Buenos Aires é muito extensa.

Assim, você pode ir do Centro de Buenos Aires a alguns bairros dentro do município mesmo. Ou a municípios da região metropolitana.

Ou ainda a cidades do interior, que são próximas a capital mas já fora da Grande Buenos Aires.

Por exemplo, a ‘Cidade da Prata’ (‘La Plata’ no original). Essa é a capital do estado (‘província’) de Buenos Aires.

De volta a cidade de Córdoba, a capital do estado, dessa florida estação na periferia saem os trens pra Cosquín. Fui de trem e voltei de busão.

Como já explicamos antes, o município de B. Aires é o Distrito Federal: está dentro do estado de B. Aires, mas não pertence a ele.

Antigamente conhecida como ‘Capital Federal’, hoje chamada ‘CABA’, Cid. Autônoma de Bs. As., recapitulando, e o ‘Autônoma’ é justamente porque não está vinculada a nenhum estado.

Como já foi dito várias vezes e é notório, o município ‘autônomo’ de Bs. As. hoje é apenas a Região Central da metrópole.

Toda periferia fica na ‘Província’, ou seja, em outro estado, a Província de Buenos Aires. Cuja capital é a ‘Cidade da Prata’.

Essa alias foi planejada justamente pra isso, pra ser a capital estadual quando o Distrito Federal foi criado, no fim do século 19.

Próximas 2: Rodoviária do Retiro, Buenos Aires, belo fim-de-tarde de março de 17.

A ‘Cidade da Prata’ (‘La Plata’) fica a 55 km de Buenos Aires. Perto da capital, mas uma cidade a parte, não pertence a Gde. Buenos Aires.

Digo, futebolisticamente falando eu arrendondei e considerei a Cid. da Prata como um subúrbio da capital.

No século passado, quase todas as viações argentinas eram assim, multi-coloridas. Não mais, após uma reformulação agora são mais sóbrias. Essa manteve a vibração anterior.

No futebol sim, mas urbanística e socialmente falando a Prata é uma cidade a parte.

Ainda assim, é possível ir de trem suburbano (aqueles em que os bancos são de acrílico e você pode viajar em pé) até lá.

Bem mais barato que o ônibus, embora um pouco mais lento porque tem mais paradas.

Colagem com ônibus de viagem argentinos.

Ainda assim, como a distância é pequena a diferença de preço compensa os poucos minutos a mais.

Não pude ir a Cidade da Prata. Assim como nos trens de longa distância, reproduzo o que me foi passado por quem pôde realizar esse deslocamento.

………..

Viram na foto a ‘Estação Retiro’ de trens. Esse bairro, que fica na verdade no Centrão da capital, é o ponto focal da rede de transportes da Argentina, de forma tetra-modal:

Ali estão as estações de trens suburbanos e longa distância, o porto, o terminal de ônibus urbano e a rodoviária (várias das tomadas acima são ali).

Centro de Córdoba, março de 2017: caminhonete circula normalmente com um emplacamento que já foi extinto a 20 anos. Como é possível??

O aeroporto também fica próximo.

E no em uma parte invadida do pátio ferroviário (cada vez maior) está a favela Vila 31, uma das maiores da cidade – mas essa já é outra história.

Eu já disse isso, que todos os terminais estão concentrados no Retiro ou próximos a ele.

Aqui, o que quero colocar é que ‘Retiro’ é tão sinônimo de ‘rodoviária de Buenos Aires’ que é assim que vem escrito nas passagens e no letreiro dos ônibus de viagem.

Sim, você compra o bilhete, e nele não está escrito ‘Buenos Aires‘, a cidade a qual o ônibus se destina.

Próximas 3: bonde moderno de Mendonça. Aqui a galera no ponto. Não há catraca, você paga quando entra, depois o fiscal chega de surpresa e pede seu tíquete pra verificar.

E sim ‘Retiro‘, o bairro no qual a rodoviária fica localizada.

Portanto veem que virou um mantra, que ‘pegou’ não apenas no vocabulário da capital, mas até no interior.

…….

Como a colagem deixa claro, os táxis na Argentina oscilam entre o negro e o amarelo.

Em Buenos Aires é exatamente igual Santiago do Chile, corpo do carro negro e teto amarelo.

Um antigo vagão de carga virou ponto.

Isso no municipal da capital. Na região metropolitana cada município é livre pra escolher sua pintura.

Em Avellaneda, na Zona Sul, a terra do Independente e do Racing, eles são brancos.

Em Mendonça são as mesmas cores da capital, amarelo e preto, mas em mistura diferente. E Córdoba aboliu o preto, são inteiros dourados.

Mapa da rede.

Não custa lembrar, no Paraguai e Colômbia os táxis do país inteiro são amarelos, de todas as cidades.

De volta a Argentina e a Córdoba, apenas os táxis que você pega na rua são amarelos.

O tele-táxi, obviamente o que você pede por telefone, lá se chama ‘remí’. E tem outra cor, verde-claro.

……….

A Argentina está mudando o emplacamento. Eu já havia percebido isso antes de ir até lá. Em fevereiro de 17, fui a Florianópolis-SC.

Na Praia de Canasvieiras (Norte da Ilha) haviam tantos argentinos que ali mesmo eu vi carros com o nova chapa.

Fui a Z/S de Mendonça de bonde moderno, voltei nessa linha feita por articulados.Viação Cacique.

Na Argentina nos últimos 20 anos, do fim dos anos 90 pra cá, vigora um modelo com 3 letras e 3 dígitos numéricos.

A partir de agora a chapa terá uma faixa azul em cima com o nome do país.

E serão mais letras, inclusive dizem que se quiser você poderá dispensar o números e escrever uma palavra, como é nos EUA e México, entre outros.

Vila Carlos Paz, cidade no interior do estado de Córdoba parecida com Campos do Jordão-SP.

Não apenas na Argentina. Será padronizado em todo Merco-Sul, o Uruguai também já está fazendo a mudança.

Mas o choque vem agora. Vi vários carros circulando na Argentina com o emplacamento que já foi abolido a duas décadas:

Selos de regulamentação colados na lataria.

A chapa era inteira preta, com 1 letra e 6 dígitos numéricos.

Não havia nada escrito além disso, nem o nome do país nem da cidade.

Os mais velhos, que tiveram a oportunidade de ir a Argentina até o começo dos anos 90 (ou, o que nesse caso dá no mesmo, pra Florianópolis no verão) se lembram bem.

Próximas 2: bairro Nunhes (‘Monumental de Nuñez‘), Z/N, parte rica de Buenos Aires. Aqui o corredor MetroBus.

Então, amigos. Esse modelo já foi extinto na virada do milênio, quem sabe antes.

Como esses carros podem circular dessa forma é um mistério que não pude compreender.

Afinal, nem há como multar um veículo desses se o motorista cometer uma barbeiragem.

Pois sequer há como digitar a chapa no maquinário eletrônico próprio pra registro da infração.

É como se víssemos hoje no Brasil um carro andando pelas ruas ainda com a chapa amarela, aquela de 2 letras, que foi aposentada na mesma época.

Perto dali, a estação de trens. O destino é ‘Tigre’ (na África do Sul não daria pra saber, lá o letreiro é numérico).

Impossível, não? Mas na Argentina vi vários, muitos deles consegui fotografar.

Sim, alguns estavam sendo sucateados, talvez não andem mais.

Na Argentina é comum deixar os carros batidos ou muito velhos simplesmente se decompondo na via pública, sem levar pro ferro-velho como seria correto.

Já falarei mais desse ponto. Aqui, o que nos interessa é:

Pontos de ônibus pelo país.

Mas alguns carros com o emplacamento antigo, já encerrado há 2 décadas, estavam rodando normalmente.

Vi um em Mendonça, inclusive estava sendo reformado.

No estado de Córdoba, todos os veículos comerciais (exceto ônibus municipais) têm que ter uma segunda chapa com registro estadual.

Portanto o dono estava usando ele normalmente, e pretendia continuar, pois investia dinheiro no veículo.

Infelizmente esse não pude fotografar, nesse dia mais uma vez minha câmera estava descarregada (ela viciou a bateria, perdi algumas fotos por isso infelizmente).

Mas Deus Abençoou, e no Centro de Córdoba fotografei claramente uma antiga picape D-20 Ford com essa chapa há muito desatualizada.

Ali sem qualquer margem pra discussão o veículo estava em uso.

Mais um bi-trem.

Mesmo com o emplacamento pra lá de irregular, e a foto comprova isso indubitavelmente.

Como isso é possível deixo pra algum amigo argentino explicar.

Bem, a Argentina está bem caótica, em múltiplas dimensões.

Isso é só um sintoma dessa confusão que engolfou a nação.

……….

Por outro lado nas dificuldades é que as pessoas se revelam.

Enquanto alguns aproveitam o tumulto pra tirar vantagens pra si, outros demonstram uma disposição incomum em ajudar os outros.

Mercedes com desnível no vidro: esse modelo foi muito vendido lá.

Usando o transporte coletivo na Argentina, vimos os dois lados da moeda.

O ponto negativo: na Argentina simplesmente não respeitam o banco pra deficientes, idoso, grávidas e gestantes. Veja a imagem acima:

Banco preferencial está sempre ocupado, e sempre por pessoas jovens e saudáveis.

Na foto inferior da colagem, há duas moças a direita no banco preferencial.

Mas o casal a esquerda está na mesma situação, a primeira fileira perto da porta é reservada.

Próximas 2: corredor MetroBus em frente ao estádio do S. Lourenço (torcedores chegam pro jogo sob muita chuva). A placa indica quais as linhas que passam ali.

Na Argentina não respeitam esse direito de quem necessita.

Sim, fiquei poucos dias lá, menos de 2 semanas. Mas andando de transporte coletivo o tempo todo.

A situação era sempre a mesma. E não me diga que no Brasil é igual porque não é.

É claro que aqui como em qualquer parte há ‘espíritos de porco’:

Aqueles que não se importam com ninguém, e sentam no assento preferencial sem necessitar.

Sabe, eu tenho carro mas quase nunca o utilizo.

Me locomovo somente de ônibus, praticamente.

E sempre vejo, aqui em Curitiba:

Filma as jóias que circulam na Argentina. Aqui e a esq. são 2 Falcões, o próximo mesmo batido ao menos está bem conservado. Já esse . . .

O ônibus está cheio, todos os bancos não-preferenciais ocupados.

Várias pessoas de pé. Mas muita gente não senta nos bancos reservados.

Deixam vários deles vazios a espera de quem é de direito.

Em São Paulo quando comento isso já me relataram que a situação é a mesma.

Repito, sempre há exceções. Mas no Brasil muita gente respeita.

Próximas 2: Rodoviária de Mendonça. Em meio a ônibus de viagem um suburbano azul prepara-se pra encostar. A esquerda vários suburbanos, uma colagem.

Na Argentina a coisa vai na mão inversa:

Mesmo adolescentes e jovens adultos não sentem a menor cerimônia em ficar confortavelmente instalados enquanto quem precisa vai de pé.

…….

Por outro lado, em Mendonça o motorista do ônibus foi extremamente atencioso e prestativo conosco.

Nosso cartão não tinha créditos suficientes pra pagar a viagem.

Em Buenos Aires nesse caso o cartão te empresta o suficiente pra mais 2 viagens, mas pelo visto o interior ainda não aderiu a essa melhoria.

Colagem com a Viação STM, Sociedade de Transportes de Mendonça.

Assim sendo o motorista, que também é o cobrador, pelo regulamento poderia ter solicitado que a gente desembarcasse.

Carregasse o cartão, assim seguindo somente em outro ônibus.

Mas ele não fez isso. Ao contrário, nos explicou a situação.

Disse que seria preciso que outro passageiro creditasse no cartão dele.

A frota argentina está velha e sucateada. Dodge na Z/S da capital, sob o olhar de ‘Che’ Guevara.

E aí nos reembolsávamos em dinheiro a quem fizesse o favor.

Aí ele, o próprio motorista, fez o pedido a quem entrou a seguir.

Pagamos em espécie a passagem ao passageiro que regularizou a situação na catraca digital.

Trólei-tribus alemão que rodou em Mendonça (r) (foto de um Guevara. Parente do ‘Che’?).

E pudemos voltar ao Centro de Mendonça com tranquilidade.

Na África do Sul esse nível de gentileza é o padrão do povo.

Registro aqui que na Argentina deparamos com ele também.

………

Em Mar do Prata é onde os portenhos passam suas férias de verão – aquele que não vem pro Brasil, evidente.

Em desmanche próximo a Mendonça, vários ônibus Ciferal que há pouco ainda rodavam lá. No ferro-velho ao lado eu vi as carcaças os tróleibus-tribus alemães da foto anterior.

No original é ‘Mar del Plata’ (sabem que sempre que possível traduzo pro idioma português). Por isso apelidada ‘Mardel’.

Não visitei ‘Mardel’, portanto não a conheço pra poder escrever.

Mas pro tema que nos interessa aqui, que é o transporte, vi pela internet que Mar do Prata tem uma Linha Turismo.

E essa é feita por um ônibus que tem a carroceria que imita a de um bonde antigo (foto ao lado, puxada da internet).

Em Santos-SP há bondes antigos (e também modernos, o VLT), que foram restaurados e ainda rodam sobre trilhos.

Na Argentina, entretanto, não há bondes antigos. Inclusive veja a foto um pouco mais abaixo a direita que tirei no Centro de Buenos Aires, mostra os trilhos.

Comprovando que um dia ali realmente passou bonde (registrei a mesma cena em Assunção e Belém do Pará).

Um dia sim, mas não mais a muito. Em Mar do Prata tampouco há bondes.

Mas numa brincadeira, encarroçaram um ônibus a dísel e com pneus com uma carroceria de bondes. Isso já falamos.

O Ford Falcão na foi o ‘Carro do Terror’ na ditadura argentina (r).

Por conta disso ele traz uma inscrição pretenciosa:

Se auto-denomina “O Último Bonde”. Isso não é novidade, já está no ar a tempos em outra postagem.

Pois bem. O de ‘Mardel’ não é o último pseudo-bonde da Argentina. Em Mendonça há outros iguais, veja acima.

É o seguinte: Mendonça também tem sua Linha Turismo. Chama-se ‘Bonde das Compras’.

Falcão no Centro de B. Aires, sobre os trilhos onde um dia passaram bondes.

Pois igualmente é feita por ônibus com carrocerias de bondes antigos.

Esses eu pude ver e fotografar pessoalmente, apenas não andei nele.

……..

Outra seção de fotos. Já que falamos de Mendonça, vejamos mais busos dessa cidade andina.

UMA ‘ALMA MUSICAL’: IR A ARGENTINA FOI COMO VOLTAR AO MÉXICO –

Na Argentina eu comprovei como a Alma Hispano-Americana é a mesma, do Sul ao Norte do Continente

Quando fui ao México, em 2012, já havia lhes contado como o mexicano ama a música.

O tempo todo dentro do transporte coletivo há apresentações improvisadas.

Umas profissionais até com caixas de som e após a qual CD’s são vendidos.

Outras vezes um cara sozinho com um violão.

Buenos Aires: acima a linha 373, em azul a Viação São Vicente.

Andar de ônibus ou metrô no México jamais será monótono.

Pois bem. Na Argentina é igual. Acima consegui clicar o garoto com o violão no metrô de B. Aires. A cena se repetiu várias vezes.

Uma apresentação-solo, um casal cantando música romântica, ou mesmo uma banda completa.

Os vagões e estações do metrô da capital são um palco aberto a todos, basta tomar um espacinho e mandar ver.

No Chile é assim também, mas bem menos. Na Argentina e México infinitamente mais.

………

Calamidade! Na Argentina a frota está velha e batida. Ademais, é comum deixarem os carros que não servem mais (seja por acidente ou porque são antigos demais) simplesmente apodrecendo na rua, sem recolher ao pátio ou ferro-velho.

Vimos mais pra cima a esquerda um buso Mercedes (já aposentado do serviço regular) com desnível no vidro.

Esse detalhe é comum na Ásia (Japão), Na Argentina foi consagrado nesse modelo da Mercedes fabricado nos anos 80 e 90.

Meus parentes que foram pra lá perto da virada do milênio me trouxeram inúmeras fotos dos busos com esse desenho (na época) em linhas urbanas.

O tempo passou e hoje eles só fazem ‘escolar’, ‘rural’, transporte de bandas, etc.

………

Os caminhões bi-trem são muito comuns na Argentina.

Mas atenção: nesse vizinho país não existem os caminhões gigantescos com 30 metros e 2 engates, como os que se popularizaram no Brasil.

Explico: nas estradas de nossa Pátria Amada é careta e bi-trem, ambos ao mesmo tempo.

Ou seja: cavalo-mecânico, 1º engate, um compartimento grande de carga, 2º engate, outro compartimento grande de carga.

O LIXO DA FRANÇA É O LUXO DA ARGENTINA: É comum vermos nas ruas argentinas essas peruas (Citroën, Renault ou Fiat) fabricadas nos anos 60. Mas essa é ainda mais antiga, dos anos 50 (era nessa que Mafalda andava, veja um pouco abaixo).

Em outras palavras, são duas carretas grandes puxadas por um cavalo. Portanto 2 engates.

Na Argentina é diferente: é somente 1 engate sempre, 2 não existe.

Os caminhões são carreta ou bi-trem, jamais ambos ao mesmo tempo.

Lá ou é carreta normal, cavalo, um engate mais um somente compartimento grande de carga;

Ou então um caminhão pitoco, curto, um engate, e mais um compartimento de carga.

Carreta sem ser bi-trem, ou bi-trem sem ser carreta. É preciso escolher.

No Brasil é ‘tudo ao mesmo tempo agora’, carreta/bi-trem.

…………

Como dito na legenda um pouco acima e é notório: o Ford Falcão foi o ‘carro do terror’ da ditadura argentina.

É comum nas periferias da Argentina vermos carros amarrados, pra que não se desmanchem.

Ele não tinha ‘caçapa’, ou seja, não havia espaço pra presos.

Os infelizes que eram apanhados pela polícia política argentina iam pra delegacia (ou pro local de desova, se já estivessem mortos) no porta-malas.

Alias era por isso que o Falcão foi escolhido. Os militares diziam que ‘apertando cabiam 5 no porta-malas’.

Pensa que é brincadeira? Então segura aí.

Cruel? Evidente que sim. A ditadura argentina foi indescritivelmente cruel, muito, mas muito pior que a brasileira.

Tanto que lá houveram formas de tortura desconhecidas aqui, por isso Videla foi alcunhado ‘Pol Pot na América’. Desse período macabro já nos ocupamos outro dia.

Esse (na Zona Sul de Buenos Aires) botou até cadeado! Sempre é bom garantir . . . No México, um da mesma idade pôs cadeado no tanque, pra não roubarem o dísel.

Aqui o foco é o ramo do transporte. Ford é a marca-ícone da Argentina, a mais vendida da história.

Seu carro-chefe (literalmente) era o Falcão, que lá foi produzido por décadas, pelo menos dos anos 50 aos 70, e quem sabe até os 80.

Portanto o Falcão já era popular antes do golpe de estado de 1976. E permanece querido até hoje, apesar de ter sido impregnado com o estigma da repressão.

Bem, pra quem é de direita o Falcão é popular exatamente por ter sido o carro da ditadura, e não ‘apesar’ disso.

colapso: a frota da argentina parece a de cuba!!!!

o lixo da frança é mesmo o luxo da argentina: caros velhos e batidos circulando, outros apodrecendo na via pública

A Argentina empobreceu muito nessas últimas décadas, e sua frota reflete isso.

Os pais da Mafalda (ícone argentino) tinham uma peruinha Citroën 2CV, veja ao lado.

Agora pense nisso: esse desenho é dos anos 80, e o carro já era velho na época.

Colagem mostra o estado da frota argentina. Achei outros com a placa antiga, já aposentada a 2 décadas.

Alguns deles continuam na ativa hoje, 30 anos depois (veja o farol saltado, igual aquele vermelho que está um pouco acima a direita).

Mas atenção: a Argentina hoje é um país extremamente desigual.

Vão longe os tempos em que ela tinha o 2º menor Índice de Gini (que mede a concentração de renda) da América Latina, só acima do Uruguai.

Hoje a Argentina é tão desigual quanto Brasil e Colômbia:

Alguns multi-milionários de um lado, uma multidão que sobrevive apenas, e uma massa considerável de miseráveis, que nem isso conseguem.

Exemplo perfeito é o Porto Madeiro, o mais novo bairro de Buenos Aires, que surgiu na virada do milênio.

Falarei melhor dele em outro texto, mas aqui, pra dar uma adiantada, falo que um fato pouco conhecido é a favela que existe na ponta da ilha.

Precariedade: em Córdoba, pessoas sem proteção viajando na caçamba.

Atrás daqueles arranha-céus dos riquíssimos existe uma aglomeração de barracos miserável, sem saneamento básico.

Quase ninguém vê, e menos gente ainda se importa.

Isso reflete como está o país como um todo. Na dimensão automotiva o mesmo se manifesta, uma extrema desigualdade.

Muitos fazem o turismo ‘convencional’ da classe-média, indo apenas nos bairros chiques.

O Fiat 147 lá se chamou ‘Spazio’. Mais uma vez amarrado pra não cair o para-choques. Veja que na 2ª imagem da tomada do outro lado da rua há mais carros Fiat velhos.

Oscilando somente entre o aeroporto, hotel de luxo, centros de compras, museus, e restaurantes e ‘baladas’ caros.

Eu não julgo ninguém, e não estou criticando. Cada um faça o que quiser. Mas aí evidente que não verá o que estou apontando.

Pois na burguesia a frota argentina não difere da brasileira, em idade e estado de conservação.

Mas na periferia são brutalmente diferentes. Sim, claro que existem carros velhos no Brasil. Mas o nosso ‘velho’ são 20 e poucos anos, veículos produzidos nos anos 90.

São raros em nossas ruas automóveis dos anos 80, dos 70 já são são ‘elefantes brancos’ que vemos um a cada vários meses.

E não existem rodando no Brasil carros fabricados nos anos 60 e muito menos 50 – exceto nas mãos de colecionadores, aí são caríssimos, geralmente até com chapa preta.

Na Argentina, os carros ‘velhos’ tem o dobro dos nossos, ou mais: 40, 50 ou mesmo 60 anos. Sim, é isso.

Antigo e moderno: Dodge nas ruas de Porto Madeiro.

Nessa vizinha nação automóvel dos anos 80 já é relativamente novo nas periferias mais depauperadas, os dos anos 70 são o padrão, ainda são extremamente comuns os dos anos 60.

Não estou brincando nem exagerando. Já havia constatado isso assim que o ‘Google Mapas’ levantou a Argentina pro modo ‘visão de rua’.

Aí dei extensas voltas por lá, na época virtualmente, na tela do computador.

E então já escrevi-lhes um emeio com esse título, “Colapso, a frota da Argentina parece a de Cuba”, com muitas imagens.

Agora ‘in loco’ comprovei que de fato é assim, então aquele emeio será eliminado, não vou subí-lo pra página. Pois não é mais necessário, tirei as fotos ao vivo. 

Essa foto é no continente, com Porto Madeiro ao fundo. Mercedes e Scania. A frota argentina de caminhões é similar a brasileira, só no geral bem mais velha.

Não para por aí: levantei pro ar uma comparação entre Europa Ocidental e América do Sul em outra postagem.

Lá, eu mostrei que ‘o lixo da França é o luxo da Colômbia’.

Peruas Citroën e Renault dos anos 60 e 70, que na França literalmente foram partidas ao meio e servem apenas como decoração na Colômbia ainda rodam.

Pois bem. Nas periferias das cidades da Argentina essas mesmas peruas produzidas nas décadas de 60 ainda são o meio de transporte de várias famílias proletárias.

Tanto as duas marcas francesas citadas logo acima quanto uma italiana, Fiat. A esquerda uma Citroën (a foto está nomeada ‘Renault’ por ignorância minha, um colega retificou, vide os ‘comentários’ abaixo).

Os traços da Fiat eram mais arredondados e somente com 2 portas.

Em casos extremos carros até dos anos 50 igualmente ainda estão na rua. Cara, isso você não vê no Brasil, nem em sonhos. Fatos são fatos,  e aqui corroborados pelas fotos. Fiquei menos de duas semanas da Argentina.

E nesse curto intervalo fotografei várias peruinhas com mais de 50 anos ainda em circulação, agrupei algumas numa colagem ao lado

Repito, isso no Brasil não existe. Mesmo! Não custa enfatizar ainda mais uma vez:

Na Argentina as vezes vemos ainda veículos dos anos 50 – e não nas mãos de colecionadores burgueses, mas do povão, como meio de transporte.

Mais: como já dito nas legendas, na Argentina é comum simplesmente abandonarem na via pública os automóveis que não servem mais.

Seja porque enfim decidiram que está velho demais – aleluia! – ou porque sofreram P.T. (perda total) num acidente feio.

É tão corriqueiro que o dono de um carro antigo que estava na oficina na periferia da Zona Sul de Buenos Aires colocou um aviso no para-brisas (ao lado):

“Esse automóvel não está abandonado, está sendo consertado”, seguido de seu endereço e telefone, se alguém precisasse entrar em contato.

Frota velha e batida, como na República Dominicana. E como em Cuba os bichões com décadas e décadas de estrada, que em qualquer outro país estariam no museu, na Argentina seguem na pista.

Definitivamente, o lixo da França é o luxo da América do Sul, da Vila Buenos Aires em Medelím/Colômbia a Buenos Aires original no Delta do Prata.

Fisicamente nossa vizinha, um dia a Argentina parecia mais europeia que americana. Esse tempo já se foi há muito.

A Argentina literalmente despencou do sonho europeu, aterrizando de cara na realidade americana.

Bem-vinda Argentina querida, estávamos te esperando.

Como eu já disse antes: definitivamente, agora estamos todos no mesmo barco.

Deus quis assim.

……..

O texto encerrou, mas como fechamento ainda tem duas galerias de fotos. Começo ainda na Argentina, 4 caminhões brancos de modelos que também existiram no Brasil:

Como prometido, sobrou uma palhinha pro Uruguai (que vemos que vibra na mesma frequência que seu vizinho maior, a Argentina). Nunca estive nesse país, mas uma colega enviou as fotos diretamente de lá.

Deus Pai e Mãe proverá.

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Khayelitsha É África: só eu e Deus na “Zona de Perigo”

Durbã, África do Sul, abril de 2017: pela 1ª vez na vida andei de camburão – mas eu não fui preso, os policias me deram uma ‘carona’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de setembro de 2017

Maioria das imagens batida pessoalmente por mim (incluso essa ao lado, dentro do camburão da polícia em Durbã – não é brincadeira nem montagem!)

Identifico na legenda o que veio da internet.

……

Galera, custou mas solto mais uma matéria. E não qualquer uma, vamos relatar minhas voltas na ‘Zona Vermelha’ da África do Sul.

África do Sul é fogo, mano!!! Não é maneira de falar. O ”Micro-Ondas” (prender uma pessoa entre pneus e incendiar), depois tão popularizado pelas favelas cariocas, foi inventado lá. Soweto, 1990, ainda no ‘apartheid’: um negro queima outro negro. Xhosas e Zulus se mataram entre si violentamente no fim do regime racista. Embora bem amenizadas, as guerras de negros x negros ainda persistem. Essas fotos em P-&-B com legendas vieram do livro “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original). Abaixo a página a capa e mais detalhes. Aqui já valeu pra abrirmos os trabalhos, pra vocês saberem com que vibração estamos lidando.

PARTE 2: DEMOCRACIA – MAS O PAÍS AINDA SANGRA

Bota ‘vermelha’ nisso. Na África do Sul a violência urbana está na estratosfera, exatamente como no Brasil.

Em 2015 a Cidade do Cabo teve mais de 2,4 mil assassinatos. São 3,7 milhões de habitantes, portanto taxa de 65 por 100 mil.

O Cabo é uma cidades mais lindas do mundo, já mostrei um pouco nessa matéria, breve subirá outra.

Mas com esses números dignos de uma guerra, também uma das mais violentas do planeta, ao lado de Fortaleza-CE e Maceió-AL no Brasil, Baltimore, Detroit e Nova Orleans nos EUA, e várias metrópoles da Colômbia, Venezuela, México e América Central.

Joanesburgo e Durbã estão um pouco menos pior. A violência ainda é altíssima, em ambas além de 30 por 100 mil.

O que as coloca próximas ou um pouco acima do que acontece em Belo Horizonte-MG, Curitiba, Porto Alegre-RS, e o Rio de Janeiro.

(Ressalto que os dados que eu tenho do Rio são de 2014, e infelizmente houve piora de 3 anos pra cá.)

Quase pousando: veja o tamanho das favelas que cercam o Aeroporto na Cidade do Cabo. Todas as casas são de zinco, as famosíssimas ‘Cidades de Lata’ sul-africanas.

Tudo somado, vemos que África do Sul e Brasil estão empatados nessa triste competição. O pânico que as pessoas sentem aqui e lá também é o mesmo.

Andei até de camburão em Durbã, e está relacionado a esse pavor da violência. Mas já chegamos lá. Vamos antes fazer uma recapitulação de como a coisa atingiu nesse ponto:

O ‘apartheid’ oficialmente durou de 1948 a 1994, menos de meio século. Mas na prática 1 século inteiro.

Desde que os brancos pisaram lá, em fins do século 19, existiram leis que proibiam os não-brancos (negros, indianos, chineses) de ocuparem cargos públicos e no clero.

Outra favela da Cidade do Cabo, agora ao nível do solo: um ‘duplex’ de latão.

Em alguns lugares os não-brancos não podiam nem mesmo usar as calçadas, tinham que andar pelo meio das ruas dividindo espaço com os carros.

E numa república africâner (o Estado Livre Laranja, holandês, que depois virou um estado da África do Sul quando os ingleses invadiram) os indianos não podiam sequer residir. O Estado era ‘Livre de Indianos’.

Somente pra eles atravessarem o estado de passagem já era necessário um visto especial.

Favela em Soweto, Joanesburgo, no mesmo modal. Atrás uma cohab que já visava urbanizar o bairro, mas novas invasões tornam a missão ‘o Trabalho de Sísifo‘. Mais pra baixo na página veremos mais fotos desse local. Imagina como é morar numa casa de metal com teto baixo, sem forro e sem janelas. Um pouco quente no verão, será? Quase um ‘micro-ondas’.

Inclusive foi por causa disso que Gandhi (sim, ‘aquele’ Gandhi) viveu 21 anos na África do Sul.

E ali começou sua militância – o plano inicial era ficar apenas uns meses e não se envolver com política.

Mas ele se envolveu porque já havia ‘apartheid’, embora sem esse nome.

Nesses 3 exemplos acima estou falando da virada do século 19 pro 20, meio século antes do ‘apartheid’ oficial portanto.

Claro, depois que esse veio, aí tudo piorou de vez.

Aqui e a esquerda: ‘Cracolândia’ nos trilhos de trem no Centrão de Durbã. Os nóias já moram nessas barracas, é a ‘Cohab da Droga’.

Contei essa história com muito mais detalhes em matéria específica. Aqui o que nos importa é: por todo século 20 os negros (e também os indianos) resistiram ao regime racista.

Nos anos 60 o CNA (Congresso Nacional Africano) iniciou uma ofensiva capitaneada por Nélson Mandela.

Os ‘robozinhos’ saem de buracos nas paredes, como ratos.

Mas logo esse grande líder (que depois viria a ser o primeiro presidente negro sul-africano) foi preso, junto com outros cabeças da resistência negra.

Assim a primeira metade dos anos 70 foi calma. Uma calma injusta, óbvio, os negros como escravos em sua própria terra.

Paz sem voz não é paz, é medo”, como alguém bem definiu.

Klaarwater, Grande Durbã: na maior parte das favelas sul-africanas não há qualquer saneamento, as casas não têm água, que precisa ser buscada numa bica na entrada da favela – Lata d’Água na Cabeça.

Em 1976 explode a ‘Revolta Estudantil de Soweto’, Joanesburgo. A partir daí a África do Sul nunca mais se acalmou.

E já se vão 41 anos no momento que levanto essa matéria pro ar. Em 1984 nova revolta eclode. Assim, na segunda metade dos anos 80 a coisa explode de vez.

O ‘apartheid’, na pessoa do presidente P. W. Botha, abole algumas leis racistas, como por exemplo a que proibia casamentos inter-raciais, e a que impedia negros de possuírem casas na maior parte do território sul-africano.

Também Durbã (essa via ‘Google Mapas’): aqui fica claro, a torneira pro pessoal pegar água. Em verde os banheiros químicos, aqueles que no Brasil são alugados pra obras. As favelas da África do Sul não têm redes de saneamento básico, enfatizo outra vez, então colocam isso aí como paliativo, pra não ser ao ar-livre mesmo. E o esgoto correndo a céu aberto.

Em compensação, o regime racista parte pra ofensiva total contra a resistência negra.

Internamente milhares sobre milhares de ativistas são presos e severamente torturados, dezenas ou mesmo centenas assassinados.

Externamente, a Força Aérea Sul-Africana bombardeia vários países vizinhos, que abrigavam células de grupos políticos banidos na África do Sul.

Mas não adianta nada, a hora chegara. Em 1989 Botha, o “Grande Crocodilo” como era chamado, é afastado, por problemas de saúde.

Voltam as tomadas de minha autoria. Favela em Soweto, Joanesburgo. Novamente em verde os banheiros químicos.

Assume em seu lugar Frederico De Klerk (eu aportugueso os nomes sempre que possível, lembre-se). Ele inicia o desmantelamento do ‘apartheid‘:

Solta Mandela e vários outros presos políticos, legaliza os sindicatos, partidos e demais organizações negras, e prepara o caminho pra democracia.

Ainda Joanesburgo, mas agora na Zona Central: atrás da garagem da Metrobus, mais uma favela – de novo os banheiros químicos em verde.

A extrema-direita dos brancos racistas reage, e inicia uma campanha de terrorismo pra frear a abertura.

De Klerk, pra não levar a culpa sozinho caso a nação fosse esfacelada num banho de sangue, consulta a população num plebiscito (exclusivo pra brancos) se a transição deve continuar.

Felizmente a maioria dos brancos sul-africanos estavam cansados do ‘apartheid’, e referenda nas urnas a iniciativa de De Klerk.

No Centrão de Joburgo há muitos prédios vagos – vários deles invadidos, como esse aqui.

Assim o processo segue, e culmina na eleição de Mandela pra presidente em 1994.

Tudo isso já contei com mais detalhes antes, repetindo. O que é relevante pro nosso tema de hoje:

Na virada pros anos 90 os negros perdem a paciência de vez, e também partem pra ofensiva final.

Intensificam as ações políticas pra queda do ‘apartheid’, o que é excelente e justíssimo, óbvio.

Esse prédio popular (varais no teto, tradição sul-africana) também é atrás da garagem de ônibus.

É cristalinamente evidente que um povo oprimido tem todo o direito de lutar pra romper seus grilhões.

Porém há um efeito colateral: no ano de 1990 os negros iniciam uma guerra entre si. A África do Sul tem diversas tribos africanas na composição de sua população.

Basta dizer que são 11 línguas oficiais, o inglês e o africâner (dialeto do holandês) de origem europeia, as demais 9 são africanas nativas (todas elas agora representadas no dinheiro da nação).

Próximas 2: pedintes no Centro de Durbã. 90% dos sem-teto sul-africanos são negros. Nesse sinal haviam vários, mais alguns na transversal, mesmo sob chuva. Sejam da raça que forem, os que pedem esmola nos faróis do país sempre fazem esse mesmo gesto com as mãos juntas, dizendo ‘pelo Amor de Deus me ajude!’.

Então são várias etnias de negros. Mas as duas principais são o Zulu e o Xhosa.

E na reta final do ‘apartheid’, os negros compreensivelmente estavam no limite, por isso zulus e xhosas iniciam uma guerra uns contra os outros.

Sim, negros contra negros. A coisa foi muito sangrenta.

Houveram fins-de-semana em que os mortos se contaram as dezenas em cada uma das muitas favelas de Joanesburgo e demais cidades do país.

Embora minoria, há sem-tetos caucasianos na África do Sul. Em todas as cidades, mas notadamente em Durbã, onde vi vários, fotografei esse. A definição não ficou das melhores pois cliquei de um ônibus em movimento, e que ainda tinha película nos vidros, escurecendo a cena. Mas amplie e observe com cuidado e lerá que o cartaz dele inicia-se com “Please Help…”.

Sim, os negros também combateram as tropas do ‘apartheid’, óbvio. Mas igualmente se combateram entre si, encarniçadamente.

Eu não conhecia os detalhes dessa história, se quer saber. Mas no apartamento que eu fiquei em Joanesburgo havia um livro, chamado “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original).

Foi escrito por 2 fotojornalistas. Eles e outros 2 cobriram a guerra na África do Sul nos últimos 4 anos do ‘apartheid’ (1990/1994).

Um deles foi morto com um tiro exatamente no meio dessa guerra, com um tiro numa rua de Joanesburgo, em 1994.

Outro se afastou, se eu não me engano acabou se suicidando, não tenho certeza. O fato que ele saiu do grupo.

Sobraram 2, que escreveram o livro, publicando fotos de autoria dos 4 que trabalharam juntos no período crítico.

Eu não pude ler o livro, não houve tempo. A obra é extensa, e fiquei apenas 4 dias nesse apê, andando pelas ruas quase o tempo todo.

Se eu fosse dedicar o tempo necessário pra apreciar esse relato, não poderia eu mesmo ter feito minhas próprias investigações de campo.

Paciência. Se um dia achar esse livro no Brasil, ou na internet, o lerei. Lá na África não teve como. Mas eu fotografei as imagens mais impactantes, e as reproduzo aqui.

Uma imagem que correu o mundo (também do livro). Março de 1994: grupo da extrema direita foi se intrometer no regime de um bantustão. Esses 4 Homens foram executados pelas tropas do bantustão. 3 já estão caídos sem vida, mas o último ainda implora misericórdia, em vão.

Por essas chocantes cenas nós captamos o grau de ferocidade que foi liberado nas ruas sul-africanas no ocaso desse regime racista que jamais deveria ter existido pra conversa começar.

Muito sangue correu, tanto no enfrentamento de negros contra brancos, como dos próprios negros entre si.

O choque político entre as raças não existe mais. O ‘apartheid’ acabou. Os negros estão no poder político.

E uma porção significativa da população nativa de pele escura ascendeu a burguesia, há hoje bairros de elite habitados majoritariamente por negros.

No entanto as favelas ainda são 100% negras. Ou 98%.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo: assim é a reciclagem na África do Sul. Não há separação prévia, tudo é jogado junto, reciclável junto com lixo de cozinha e banheiro. Alguns infelizes miseráveis, que dependem disso pra sobreviver, têm que abrir as lixeiras, separar o que recicla (veja o grande saco branco aberto atrás dele, é ali que ele joga o que vai aproveitar), e fechar de novo. Digo, em alguns bairros ricos há coleta seletiva com separação prévia, mas é raro. No geral é como veem aqui.

Há algumas favelas formadas por brancos, mas são raríssimas. No geral elas são quase sempre reservadas aos de pele escura.

Compõe o problema que a África do Sul, sendo o país mais desenvolvido da África, recebe imigrantes ilegais de todo continente.

A convivência entre estrangeiros e sul-africanos nem sempre é pacífica, criou-se aí mais um foco de tensão de negros x negros.

A classe média é integrada, desde a classe média-baixa até na média-alta há negros e brancos (em Durbã também indianos).

A elite ainda é majoritariamente branca, e há sim brancos pobres (especialmente na Cidade do Cabo), embora minoria.

Ou seja, os brancos sul-africanos ainda detém grande parte dos privilégios econômicos que amealharam em um século de hegemonia tirânica.

Próximas 2: orla da Zona Sul da Cidade do Cabo (a “Riviera”). Um lugar belíssimo, mansões de milionários espremidas entre o morro e o mar. É de cair o queixo de tão lindo!, confira esse ensaio. Várias casas têm seu teleférico particular, é mole ou quer mais?

Ainda assim, a população branca sul-africana vem diminuindo, vários estão emigrando pra diversas partes da anglosfera (EUA, Inglaterra, Austrália).

Seja como for, criou-se uma acomodação entre negros e brancos. Malgrado a tensão política, não há derramamento de sangue atualmente.

O mesmo não se pode dizer entre os próprios negros. Entenda, não é uma questão racial, e sim social.

Não estou sendo racista, e dizendo que o branco é mais pacífico, exatamente o contrário é verdadeiro.

Mas a concentração de renda é altíssima. A mesmo cena, rapaz negro revira o lixo em busca de algo reciclável pra revender.

Primeiro, a raça branca é quem comanda o capitalismo global, e é a raça branca quem mata milhões em suas guerras de pilhagem mundo afora.

Apenas no Iraque foram mais de 2 milhões de mortos contando desde 1991 (alguns falam em 3), e no Vietnã mais de 4 milhões, pra citar apenas 2 guerras de agressão dos EUA.

Segundo, os brancos já se mataram muito entre si, na Europa e em toda parte. A história da Europa é de grande derramamento de sangue, até a Segunda Guerra Mundial.

Próximas 3: veremos 3 favelas diferentes em Soweto, Zona Oeste de Joanesburgo.

Apenas nas últimas décadas os europeus se acalmaram um pouco e não se matam tanto entre si.

Agora dirigem suas baterias contra países mais fracos que não podem se defender, como fizeram com a Líbia em 2011.

Além disso, no Sul do Brasil é sabido que  a periferia das grandes e médias cidades têm enorme contingente de euro-descendentes.

Observe as pedras pro telhado não voar com o vento, manifestação universal que eu também fotografei na Argentina (breve no ar).

E ali brancos matam brancos com a mesma frequência que negros matam negros na África do Sul.

O mesmo ocorre nos EUA, milhares de caucasianos são assassinados todo ano por outros caucasianos.

No passado, brancos guerrearam entre si de forma absolutamente brutal, na Europa e também na África.

Ainda Soweto. A frente uma invasão, as casas ao fundo não pertencem a favela. Destaquei o painel solar. Na África do Sul a reciclagem ainda engatinha. Em compensação, o uso de energia solar é mil vezes mais desenvolvido que no Brasil. Mesmo a periferia, mesmo na borda da favela.

Se alguém não sabe, foram os ingleses quem inventaram o campo de concentração. E inventaram na África do Sul, prendendo os holandeses na ‘Guerra dos Bôeres’.

Prendendo os civis, eu digo. Homens não-combatentes e Mulheres. A mãe de P. W. Botha (penúltimo [e ultra-racista] presidente branco sul-africano) foi encarcerada pelo Exército Britânico num campo de concentração.

Mesmo sendo do sexo feminino e não tomando parte nos combates. Ao lado dela foram outras dezenas de milhares.

Mesmo na África do Sul contemporânea, os brancos ainda cometem assassinatos entre si. Quando estava na Cidade do Cabo, a mídia sensacionalista deva grande destaque ao julgamento de um sul-africano de ascendência europeia.

Ele era acusado de ter chacinado toda sua família – com golpes de machado, nada menos. O para-atleta caucasiano sul-africano André Pistorious também foi condenado e preso por matar sua igualmente alvíssima namorada.

Próximas 10: vamos mostrar Atlântida (‘Atlantis’ no original). Uma cidade pequena e pobre. Ainda pertence a região metropolitana da Cidade do Cabo, mas é bem distante, são 40 km, é preciso pegar mais de 1 hora de estrada. Começo mais uma vez destacando o painel solar. Na África do Sul usar a energia do Sol não é brincadeira de burguês, quase um passatempo de de gente rica. Não. Veja a imagem, uma casa simples, na periferia de um subúrbio afastado e esquecido. Ainda assim, utilizando esse modal.

Escrevi todos os parágrafos acima pra mostrar que não, eu não sou racista. Não estou dizendo que os de pele clara são pacíficos ou civilizados, e que os de pele escura são brutalizados por serem instintivos.

É uma questão social, e não racial. Onde brancos habitam em grande número as favelas, se matam entre si em profusão, por exemplo aqui em Curitiba.

E nos bairros negros da alta-burguesia, na África do Sul ou toda parte, os homicídios são raríssimos quando não inexistentes.

Claro, também não estou dizendo que quem tem dinheiro é mais evoluído espiritualmente, porque o contrário geralmente é que é verdadeiro.

Quem acompanha meus textos há mais tempo sabe muito bem o que penso das Oligarquias, a ianque e todas as outras.

Apenas é um fato, os barões oligacarcas muitas vezes eliminam outros seres humanos, mas rarissimamente o fazem com as próprias mãos.

Periferia típica sul-africana (muito parecida com a do Paraguai). O carro é Golf, já falo mais disso

Podemos discutir filosoficamente as razões disso, mas não podemos negar que é assim.

As vezes acontece, recentemente os casos Nardoni e em 1988 o da ‘Rua Cuba’ no Brasil e o próprio Pistorious na África do Sul são as exceções que confirmam a regra.

Com essas poucas exceções, os bairros ricos e de classe média-alta quase não têm assassinatos, no continente do mundo que forem e habitados por qualquer raça.

Esses muros pré-moldados fazem sucesso lá. No Brasil idem. No bairro que fui criado (Santa Cândida, Z/N de Ctba) haviam casas que utilizavam.

Enquanto que as favelas e guetos são quase sempre violentos, em toda parte e independente do tom de pele majoritário.

……….

Desculpe toda essa justificativa, é só pra que não tenham a impressão errada e achem que sou racista ou qualquer coisa do tipo. Eu não sou. Apenas analiso os fatos. E os fatos são:

As favelas e periferias da África do Sul estão imersas em um banho de sangue.

Casa nº 64. A próxima a esquerda é a 62, e a 1ª a direita é a 66. Na África do Sul a numeração é diferente do Brasil. Bauru-SP segue um sistema único (também adotado na Colômbia), em que as quadras são numeradas, e aí as casas são contadas em relação a quadra e não a rua. Brasília-DF também criou um novo modal, digamos até um novo paradigma, pois Brasília é uma cidade peculiar em múltiplas dimensões. Mas no geral no Brasil as moradias são numeradas conforme a metragem da rua ou avenida. Na África do Sul é diferente, repito. De um lado da rua são as pares, do outro ímpares. Isso é igual no Brasil. Mas na África do Sul a numeração não segue metragem. A 1ª casa do lado ímpar é a ‘1’, depois vem a ‘3’, a seguir a ‘5’, e assim vai. Idem na outra face: a primeira casa é ‘2’, sua vizinha é a ‘4’, etc. Pra fechar esse tema, revelo que minha rua, a ‘Ciclovia’, segue o modelo sul-africano. Mas aqui é ocupação irregular (Canal Belém, Boqueirão), logo a numeração também é irregular.

O que começou como uma rebelião contra o ‘apartheid’ rapidamente desandou pra um violento acerto de contas entre as tribos negras, processo que embora amainado ainda não terminou.

Some-se a isso a violência comum, “que não envolve política”. Entre aspas porque todo processo social é político.

Quando países como África do Sul e Brasil (e boa parte da América Latina e também dos EUA) se tornam extramente violentos, as causas são políticas, e a solução também o será.

Mas por “não envolver política” eu digo por não envolver grupos e objetivos políticos, apenas quadrilhas comuns brigando por butins ou territórios.

Ou então cidadãos trabalhadores mas que quando embriagados/drogados matam suas esposas ou outros Homens no bar por motivos fúteis.

O resultado é esse aqui: Cidade do Cabo, 2.451 homicídios em 2015. Com uma população de 3,7 milhões, dá 65 mortes/ano por 100 mil moradores. Índices de guerra.

Nesse caso é a população da ‘prefeitura metropolitana’. A divisão política da África do Sul é diferente da nossa, lá há 4 esferas de governo, e não 3 como aqui.

O que seria o ‘condado’ dos EUA na África do Sul tem sua própria gestão, a ‘prefeitura metropolitana’ que citei acima.

Joanesburgo, 4,4 milhões, teve 1.344 mortes intencionais no mesmo ano, 30 por 100 mil.

Nesse caso não inclui toda região metropolitana, pois a Grande Joanesburgo já tem quase 10 milhões, bem mais de 8 com certeza.

O governo entregou uma casa de cohab, de alvenaria. O cara faz por conta no fundo um ‘puxadinho’, de papelão e madeirite.

Durbã teve 1.237 assassinatos no período. Com 3,4 milhões na ‘prefeitura metropolitana’ de eThekwini, temos 35 pra 100 mil.

(Nota: eis o nome nativo pra ‘Durbã’, assim mesmo, com a inicial minúscula e a letra maiúscula no meio da palavra, obviamente a gramática zulu é bem diferente da ocidental.)

Todas as grandes cidades sul-africanas são bastante violentas. Vou analisar só as 3 maiores. Vejamos como a coisa oscilou no decorrer das últimas décadas.

Há 3 termos pra dizer ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’ na África do Sul: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’. Outro detalhe: a Coca-Cola é oni-presente no país. Seu logo está em 90% das fachadas dos mercadinhos, mas não apenas isso. Seu braço é tão comprido que mesmo várias floriculturas, farmácias, enfim, estabelecimentos que não vendem alimentos como atividade principal, têm seu letreiro pago pela Coca-Cola. Falo melhor dos refris, incluso com fotos, em outra postagem (breve).

Primeiro, houve uma reversão de polaridade. Historicamente, entre as 3, Joanesburgo sempre foi a mais violenta, desde a era do ‘apartheid’.

E a Cidade do Cabo a mais calma. Agora houve uma inversão, como vimos.

Durbã, por outro lado, estava em segundo antes, e se mantém. As pontas é que trocaram de lado.

E crítica como a coisa está, já foi pior. A virada dos 80 pros 90, o apagar das luzes do ‘apartheid’, marcou a explosão da violência, que se manteve e se acentuou no mandato de Nélson Mandela.

Quando virou o milênio, Durbã tinha mais que o dobro, quase o triplo da violência atual. Chegou a registrar 80 assassinatos por 100 mil habitantes.

Ou seja, está crítico mas já foi muito, mas muito pior, calamitoso no sentido exato do termo.

Ainda estamos em Atlântida, próximo a Cid. do Cabo. Vamos ver agora as cohabs em pombais, que são muito comuns lá. Nesse caso, como o teto é com telhado e não com laje, o varal é no chão.

A mesma redução se deu em Joanesburgo. Já o Cabo ainda está por dar esse passo, ali a violência está no pico, infelizmente.

………

Comparemos com o Brasil, nesse caso os dados são de 2014:

Fortaleza, com 1.989 homicídios, tristemente ocupou o triste recorde de município mais violento do Brasil, em termos absolutos.

Proporcional a população, 73 por 100 mil, pior que a África do Sul.

Puxadinho no prédio, como também fazem no Chile.

Maceió é um pouco menos pior, 69/100 mil. No ano anterior fora mais sinistro.

Em 13 a capital de Alagoas teve nada menos que a pavorosa taxa de 81 assassinatos pra cada 100 mil habitantes.

Salvador em 14 teve 1.397 casos. Como a população é bem maior que a de Fortaleza, ficou em 48 por 100 mil.

Aqui fechamos Atlântida, na Gde. Cidade do Cabo. Muito, mas muito parecido com o Chile, me senti de volta em Maipú, Z/O de Santiago.

Em 2013 a capital da Bahia havia virado acima de 50.

Em São Luiz do Maranhão em 2013 foram quase 70 mortos por 100 mil habitantes, em 14 houve boa redução pra 61.

Ainda assim, apenas um pouco a menos que o aquilo que a Cidade do Cabo teve no ano seguinte.

Segura essa: clínica alerta contra “falsos médicos vendendo pílulas na rua e dizendo que trabalham aqui“. Em pleno Centrão de Joanesburgo. Isso também é a África do Sul, amigos!

Em Curitiba em 2014 houveram 30 mortes por 100 mil moradores. Índice altíssimo, apenas um pouco melhor que na África do Sul. Mas que já foi bem mais macabro.

No ano de 2010 Curitiba teve 979 assassinatos, o que fez com que o número por 100 mil ficasse em 55 (breve levanto pra rede levantamento detalhado desse desastroso período):

Atrás apenas de Maceió, João Pessoa-PB, Vitória-ES, Recife-PE e São Luiz.

Alias Maceió em 2010 virou acima de 100 por 100 mil, ou seja, eram tantas mortes lá que de cada mil maceioenses mais de um foi assassinado naquele ano.

Até a Força Nacional Federal teve que intervir pra baixar um pouco essa carnificina.

No Sudeste, Belo Horizonte teve 24 de seus moradores assassinados pra cada grupo de 100 mil em 2014, no Rio foram 20.

Sem-tetos dormem pelas ruas e praias do país. Na orla do Cabo uma Mulher branca, os demais africanos nativos.

Embora lamentavelmente na capital carioca tenha havido novo aumento de lá pra cá.

E São Paulo hoje é a capital menos violenta do Brasil, pelo menos no quesito de um ser humano tirar intencionalmente a vida de outro.

Foram 1.360 desses crimes em 2014. Mas divididos por 11 milhões de habitantes vemos que o índice é 11 por 100 mil, número que não faria feio na Europa.

Bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo, onde ficamos hospedados. Logo atrás de onde dorme o sem-teto da foto anterior mora uma família que mostra solidariedade a Palestina. Pelos negros sul-africanos (e também os indianos) terem sofrido por tanto tempo o ‘apartheid’, em várias partes há protestos pela forma com que Israel trata os palestinos. Organizações sionistas contra-atacam e espalham cartazes dizendo que Israel é “democracia”.

Nota: eu sei, em termos de roubos a maior metrópole brasileira continua violentíssima. Eu sei. Aqui falo somente do quesito de assassinatos.

Não é agradável quando alguém lhe tira seus bens de forma violenta – definitivamente não é.

Ainda assim é óbvio que ter a oportunidade encarnatória interrompida violentamente é bem mais traumático.

Então embora falte muito por fazer, precisamos reconhecer que pelo menos nesse ponto importantíssimo houve avanços.

Não apenas em São Paulo, diversas cidades brasileiras hoje estão mais calmas em relação aos anos 90 e 2000, mas SP teve a maior redução.

A capital paulista já teve 5 mil assassinatos por ano, hoje fica pouco acima do 1º milhar.

Bem, teve menos assassinatos que Durbã, cuja população é mais de 3 vezes menor.

……….

Brancos no Centro do Cabo, onde eles são muito comuns. No Centro do Durbã e Joanesburgo não há caucasianos. Simplesmente não há.

Portanto essa é a situação. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste Brasileiros são violentos, mas um pouco melhores que a África do Sul.

Enquanto que o Norte e Nordeste de nossa pátria têm no geral índices similares as maiores metrópoles sul-africanas.

Curiosamente, hoje a periferia da Cidade do Cabo é bem mais sangrenta que as de Durbã e Joanesburgo. Mas seu Centro é mais civilizado.

A Cidade do Cabo é cidade mais integrada da África do Sul. No Cabo você brancos aos montes no Centro. Aos montes.

Fotografei uma viatura no Centro de Durbã. Vejam o que é o ‘6º Sentido’: já visitei centenas e quem sabe milhares de cidades em boa parte do Brasil, vários países da América e agora África. Nunca havia fotografado um carro de polícia, porque esse não é um tema que me interesse estudar. Em Durbã, o fiz. Mal sabia eu que 2 dias depois estaria dentro de um deles, coisa que igualmente nunca havia me ocorrido. Digo, eu não sabia conscientemente, mas de alguma maneira, em outra dimensão, eu sabia, e por isso houve a foto. É possível prever o futuro, não?

Não apenas o brancos ainda moram no Centro, como também trabalham ali, e não têm medo de sair as ruas.

Em Pretória, ainda que em escala menor, a situação se repete. Retratei na foto acima a direita.

Já em Joanesburgo e Durbã é completamente o oposto. Não há brancos nos Centrões de Joanesburgo e Durbã. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Logicamente toda regra tem exceção. Se você for muitas vezes ao Centro dessas metrópoles, muito de vez em quando você vai trombar com um euro-descendente, é evidente.

Vai acontecer, não é proibido, então a norma não é absoluta. Mas será raríssimo, é mais fácil você achar uma nota elevada de dinheiro que uma família de brancos no núcleo central dessas metrópoles.

Digo, há alguns sem-teto brancos, especialmente em Durbã. A imensa maioria dos sem-tetos sul-africanos são negros, eu diria que 95%.

Não deu outra. Aqui estou eu, pela 1ª vez na vida dentro de uma jaula. Mais abaixo no texto dou os detalhes.

Porém há alguns caucasianos. Fotografei uma Mulher sem-teto que dormia numa praia da Cidade do Cabo, viram acima.

Mas, digo ainda mas uma vez, em Durbã foi a cidade que mais vi moradores de rua euro-descendentes, de pele alva. Vários.

Inclusive eu andava por uma rua da parte barra-pesada do Centrão de Durbã, e um sem-teto branco, sem que eu pedisse, veio me orientar:

Os sul-africanos são muito calorosos, e gostam que tirem fotos deles. No Centro de Pretória, quando essa moça viu que eu clicava a cidade, pediu que eu registrasse seu retrato, situação que se repetiu em Durbã e Joanesburgo. Atrás dela a vitrine mostrava vestidos de noiva. Ela disse “aqui não, porque eu já sou casada”. Demos uns passos pro lado e “1, 2, 3, diga ‘xis’ “, e aqui está ela, fazendo poses com as mãos e tudo mais.

“Não entre nessa rua, é muito perigoso”, ele apontou numa direção na esquina. “Muito perigoso”, enfatizou.

Além dele, vi outros mendigos caucasianos nessa cidade, um deles morava sob as marquises no mesmo bairro que ficamos.

Claro, mesmo em Durbã a imensa maioria dos que não têm casa são negros. Apenas ali há uma minoria significativa de brancos, que não vi nas outras cidades.

Isso estou falando de moradores de rua. Eles são (praticamente) os únicos brancos no Centrão de Durbã.

As praias de Durbã são plenamente integradas, negros, brancos, indianos, todos estão ali, incluso há casais inter-raciais.

Estava num restaurante da orla de Durbã, e era curioso. Nas próximas 4 mesas haviam 2 famílias de negros, 1 de brancos e 1 de indianos.

Nas areias, dentro d’água e no calçadão todos convivem em plena harmonia.

Fotografei a direita uma escola particular que levou seus alunos de pele alvíssima pra uma aividade a beira-mar.

Mas no Centrão, só negros e indianos, nenhum branco (exceto sem-tetos, aqui não me refiro a eles).

Joanesburgo não tem mar, então não vi nenhum branco no Centro, nem mesmo dormindo nas ruas.

Comércio atendendo gradeado em Joanesburgo. Mesmo de dia, mesmo no Centrocomo na Colômbia (nota: a cliente tinha um defeito físico na cabeça, por isso ocultei ainda que ela estivesse de costas).

E, sim, boa parte do Centrão de Joburgo está bem detonado, ali nem os negros de classe média vão, só a ralé.

Vou explicar pra vocês entenderem. O Centrão de Joanesburgo pode ser dividido em 2 partes, Centro Velho e Centro Novo.

O Centro Velho é horroroso. Um gueto enorme. Muito lixo nas ruas, muito crime, forte cheiro de urina em algumas partes, casas e prédios abandonados, vários deles invadidos.

Camelôs, confusão total. Ali, repito, nem mesmo os negros que são de classe média têm coragem de frequentar. É só povão mesmo, muitos deles nem são sul-africanos:

Por toda Soweto essas placas de rua contam a história do ‘apartheid‘. Amplie pra ler, o nome (acrônimo de ‘South-Western Township’, algo como ‘Assentamento Sudoeste‘) foi escolhido em 1963 após um debate de 4 anos. Em 68 decidiram que as Mulheres não poderiam ser proprietárias de casas. Não pude ler ou fotografar mais porque não andamos a pé em Soweto, fomos de ônibus urbano normal, sem qualquer guia ou acompanhante, mas nem saímos do terminal, dali retornamos ao Centro. Essas foram as que consegui clicar do veículo em movimento. Pude ler de relance que outra placa dizia “Um lugar onde se passava fome”.

Nigerianos principalmente, mas imigrantes também de vários outros países africanos tomaram conta de vários quarteirões pra si.

Em muitas ocasiões a convivência com os sul-africanos não é pacífica, diversas campanhas contra a xenofobia tentam pacificar os ânimos, nem sempre com sucesso.

Já o Centro Novo de Joanesburgo é limpo e civilizado. Hotéis, restaurantes e comércio sofisticados garantem uma freguesia requintada:

Homens e Mulheres em roupas e carros caros. Ali, os camelôs são proibidos, e os garis deixam ruas e jardins impecáveis.

Mas mesmo nessa parte agradável e mais segura não há brancos, só negros.

Aqui e a direita, catadores de material reciclável. Esse em Soweto, Joanesburgo – a frente dele as oni-presentes vans, quase todas são brancas e Toyota como essa.

E não é que não existam brancos na Grande Joanesburgo. Ao contrário, são 1,5 milhão de Homens e Mulheres de ascendência europeia.

Isso se você aceitar a cifra de 10 milhões de habitantes, que eu acho que é correta.

É que os brancos de Joanesburgo se impuseram um auto-‘apartheid’:

Vivem e trabalham nos subúrbios a moda ianque nas Zonas Norte e Leste da cidade, deixando o Oeste, Sul e o Centro pros negros.

Mesma cena em Pretória, catador de lixo perto de van Toyota branca. Embora ali essa marca também predomine, em Pretória – e somente em Pretória – há expressiva minoria Volkswagen, curiosamente cliquei 2 da mesma cor.

(Nota: não muito diferente dos brancos de Acapulco. Os ricos – única classe social que os brancos são maioria no México – moram e trabalham nos subúrbios próximos ao aeroporto. 

Acapulco é uma baía cercada e portanto emoldurada por uma serra. A elite mora ‘do outro lado do morro’, e jamais cruza a montanha.

Pra não se misturar com o povão, que tem pele bem escura mas não como afro-descendente, e sim índios, amero-descendente.)

Cracolândia no Centro de Durbã – ao perceber minha atividade jornalística, um noiado correu até mim e intimou: “Ei, ei, por quê essas fotos? Qual o problema?” Rapidamente lhe dei alguns trocados e ele se acalmou.

Atravessamos o Oceano de novo, de volta a Joburgo. Não por acaso SoWeTo’ é a sigla em inglês pra ‘South-Western Townshp’ (Assentamento Sudoeste).

Pois no ‘apartheid’ o Sul e o Oeste eram onde moravam os africanos nativos.

Mas na época do regime racista, os brancos trabalhavam no Centro, pois a polícia altamente militarizada ‘mantinha os negros no seu lugar’.

Depois da democratização essa intensa repressão não foi mais possível, os negros tomaram posse de suas cidades e passaram a usufruir mais o Centrão.

Antes eles trabalhavam ali, mas qualquer aglomeração de negros fora do local de trabalho era debandada de forma rápida pelas forças de segurança. Agora os africanos nativos são livres pra circularem e se associarem onde e como quiserem. Em ‘retaliação’, hoje são os brancos quem não pisam mais por ali.

Sim, com a ascensão de uma recém-surgida alta-burguesia negra, as mesmas divisões de classe surgiram dentro da raça negra:

Também Centrão de Durbã. A África do Sul está num movimento de substituir os nomes de rua europeus por africanos. Nessa esquina os dois logradouros já cambiaram: a “Doctor Pixley KaSeme Street” é a antiga ‘West St.’. Cruzando aqui com a “Dorothy Nyembe Street”, que antes se chamava ‘Gardiner St.’

Os mais ricos ficam de um lado do Centro, os mais pobres junto com os imigrantes de outros países da África de outro.

A cor da pele pode ser a mesma, mas como a classe é diferente, fica cada um na sua, num ‘mini-apartheid’ interno.

Mas em relação aos brancos a divisão espacial é ainda mais acentuada. Se entre negros pobres e ricos cada um fica no seu lugar no Centro, os brancos não vão mais ao Centro, enfatizo ainda mais uma vez.

Os brancos atualmente trabalham em Sandton, um subúrbio da Zona Norte a moda ianque que é o ‘Novo Centro’ de Joburgo, ao menos pros de pele clara.

Evidente, há negros em Sandton também, agora não se pode mais impedir a entrada deles em qualquer parte. Mas ali ainda há maioria branca.

No Centro de Pretória esse movimento fica ainda mais evidente. Risca ‘Church St.’, não existe mais. A via agora se chama “Stanza Bopape St.”. A transversal é a Rua Steve Biko. Como nessa a mudança é mais antiga as pessoas já assimilaram, não existe a denominação anterior. Mas obviamente essa via (que já existia, é antiga pois estamos bem no Centrão) não tinha esse nome no tempo do ‘apartheid’, uma vez que Steve Biko era inimigo do regime, alias foi severamente torturado e morreu em consequências dos ferimentos que sofreu nas delegacias da polícia política racista (‘SAP’) sul-africana.

No Centrão, seja na parte limpa ou na suja, não há brancos, digo de novo pra encerrarmos Joanesburgo. Agora, no Centrão do Cabo há, e aos montes.

Pelo que lhe falei, Joburgo e Durbã são segregadas. Não legalmente, e agora invertido. Os brancos podem ir ao Centro se quiserem, mas preferem ‘não, obrigado’.

Viajei por via aérea de Joanesburgo a Durbã. No avião e no aeroporto, os brancos eram maioria.

Pois entre a classe média-alta nessas duas cidades os euro-descendentes ainda são maioria, embora não mais oni-presentes como antes.

Apenas optaram pela auto-segregação. ‘Consciência pesada deles’, me disseram os negros quando perguntei do tema.

A Cidade do Cabo não é segregada, disse tudo isso pra chegar a esse ponto.

Os brancos não apenas trabalham no Centro, como transitam sem medo pelas ruas. Mais: eles ainda moram nas imediações.

De volta a Durbã. Na Zona Central da cidade há esse centro administrativo que congrega diversas secretarias municipais. Antigamente na ‘Rua do Forte Velho’, que homenageava a fortaleza construída pelos ingleses, que lhes ajudou a vencer várias guerras contra os holandeses e os negros. O prédio continua no mesmo lugar, mas a avenida agora se chama “K. E. Masinga Rd”. Outro detalhe é idioma. Notam que a construção pública, da época do ‘apartheid’, era bi-língue em inglês e africâner. Porém depois da democratização baniram o africâner de Durbã, toda comunicação visual é em inglês e zulu. As placas antigas permanecem, mas nas novas não existe mais africâner, reitero. Um ‘apartheid’ invertido, antes o africâner era compulsório, o zulu banido, agora é ao contrário. Não precisa proscrever uma pra outra entrar, a comunicação poderia ser tri-língue, inglês, zulu e africâner, contemplando a todos. Alias, o semáforo em frente a esse prédio é assim, a única placa tri-língue que vi em toda Durbã, além da fachada de um quartel do exército.

Coloco isso porque os brancos vão as praias do Centro de Durbã, mas não residem nem remotamente perto. Vão de carro.

No Centro do Cabo é diferente. Digo, a maior parte  dos de pele clara moram em subúrbios segregados – não politicamente mas em termos econômicos:

Não é proibido por lei um negro morar nesse bairros de elite. Simplesmente a maioria deles não têm dinheiro pra fazê-lo.

Então, retomando, boa porção da classe média euro-descendente vive em subúrbios afastados, e, sim, se locomovem de automóvel até seus escritórios no Centro.

Mas não todos. Está sendo feito um bairro pra ricos, muito parecido com o Porto Madeiro de Buenos Aires, se você conhece a capital argentina.

São elegantes prédios com canais artificiais entre eles, o que permite aos moradores remarem estando literalmente na porta de suas casas. Uma ‘Veneza (Itália) moderna’.

Dando um tempo pra política e vendo coisas mais belas e amenas. E bota beleza nisso!! Emoldurada por esse belíssimo firmamento celeste, a Mesa-Montanha – que é um ‘Chacra de Gaia’, a Mãe-Terra, se você tem ‘ouvidos de ouvir’. Aos pés dela, pra levar a galera até a bilheteria do teleférico, um buso do sistema de transportes ‘Minha Cidade’. Céu e um moderno ônibus, tudo azulmesma cena que fotografei no Chile, apenas lá era articulado e aqui micro.

Os brancos sul-africanos adoram caiaques, se você não sabe. Vi vários praticando esse esporte, nas praias do Cabo e Durbã, e nos subúrbios abastados de todas as cidades.

Pois bem. A Cidade do Cabo não apenas é a menos segregada de todas, como ela quer des-segredar ainda mais.

Por isso está fazendo esse bairro pra elite, em pleno Centro. Como a elite ainda é majoritariamente branca, isso mostra que o Cabo quer mais brancos em seu Centro.

Vamos colocar de forma mais apropriada: não é uma questão de raça, mas de classe. O Cabo quer os ricos morando no Centro. Uma boa parcela deles serão brancos.

Mas com o crescimento expressivo da alta-burguesia negra (que tende a aumentar e se consolidar nas próximas décadas) vários dos habitantes desses prédios de luxo serão negros.

Agora com céu nublado, mais uma tomada do bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo. A herança norte-europeia (inglesa e holandesa) está evidente no conjuntinho de casas alinhadas. A cidade é numa península, alias é exatamente o que ‘cabo’ quer dizer. Por isso, em qualquer parte das Zonas Sul e Central (e começo da Leste e Norte, não existe Z/O pois seria dentro do mar) você vê a cadeia de montanhas como espetacular pano de fundo.

Segregação econômica sem dúvidas, pois a África do Sul é 3º Mundo.

Mas racial não. Se você pode pagar, brancos, negros, mulatos, indianos, orientais, todos são bem-vindos ao Centro do Cabo.

É a situação ideal? Óbvio que não. Mas considere o passado da África do Sul (em que a lei separava brancos de negros, mestiços e indianos, com privilégios pros primeiros).

E compare com as outras cidades sul-africanas atuais (auto-segregação imposta pelos brancos).

Além disso, por seguir o modelo de urbanização ianque, geralmente os ricos e a classe-média alta moram muito longe do Centro, e só se locomovem de automóvel.

O mesmo céu sem nuvens, e de novo um ônibus, agora 2-andares. Centro de Joanesburgo: Praça Gandhi, o terminal das linhas (não-integradas) da viação Metrobus, proprietária desse Volvo/ Marcopolo brasileiro, que dorme na garagem que vimos acima, em cujos fundos há a favela.

Ali no Cabo estão atraindo pessoas que, ao contrário, muitos deles darão prioridade pro deslocamento a pé, de bicicleta e mesmo de ônibus. Sim, existe a segregação econômica.

Mas sem segregação racial nem espacial, gente com bastante dinheiro de todas as raças vai a pé trabalhar, pois é só atravessar a rua. Os tons de pele convivem e não queimam carbono.

Dentro das atuais condições, é um avanço. Não podemos deixar a utopia travar o avanço do que é possível nesse momento. Pois esse avanço será a semente de avanços maiores no futuro.

O Centrão da Cidade do Cabo tem partes feias e sujas, claro, é uma metrópole conturbada e injusta de 3º Mundo.

Mas é muito mais limpo e seguro que os Joanesburgo e Durbã, sem comparação possível. E por isso a classe média, de todas as raças, se sente a vontade por ali.

………

Edifício abandonado do Hotel Carlton, o símbolo da decadência do Centro de Joanesburgo. Inaugurado em 1903 num antigo prédio de 6 andares, era um dos hotéis mais luxuosos da África e mesmo do planeta – por exemplo, mais de um século atrás foi o primeiro do país a oferecer o serviço de telefone no quarto, além de uma forma rudimentar de ar-condicionado. Na década de 60 decidiram construir um enorme complexo, com esse prédio de 30 andares pro hotel, um edifício comercial anexo com 50 andares, e mais um centro de compras. Tudo foi inaugurado em 1972. Dez anos mais tarde, ainda fizeram um anexo de luxo do outro lado da rua, ocupando mais uma construção de 6 andares, uma passarela suspensa sobre o rua os interligava. A história do Carlton é gloriosa, em 1947 recebeu a família real inglesa: o rei Jorge 6º e sua esposa a rainha Elizabete, e suas filhas, as princesas Elizabete (a atual rainha) e Margarete. Entre políticos e cantores euro-estadunidenses, foram hóspedes do Carlton: Henry Kissinger, François Mitterrand, Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Whitney Houston and Mick Jagger, entre outros. Nos salões do Carlton ocorreram momentos-chaves tanto do ‘apartheid’ que tentava se manter como de sua queda. Foi ali que o primeiro-ministro linha-dura do regime racista P. W. Botha anunciou um plano ‘de união nacional’ (só entre brancos, claro) pra tentar salvar o ‘status quo’, em 1979. Não deu certo, na década de 80 a oposição interna e externa ao ‘apartheid’ chegou no auge, quando Botha como último cartucho extinguiu o parlamentarismo e se auto-nomeou presidente com plenos poderes, o que também não funcionou. Mandela foi solto e eleito presidente. E foi ali no Carlton que, em 1994, Mandela fez a ‘convenção da vitória após ser eleito, anunciando a nova era que amanhecia na África do Sul.Tudo isso mostra a importância desse hotel pra cidade e mesmo nação. Mas nos anos 80 o boicote ao ‘apartheid’ minou o fluxo de turistas. Depois da democratização acharam que a coisa melhoraria, mas aí foi a decadência urbana quem cobrou seu pedágio. O Centro de Joanesburgo hoje é um grande gueto. Quase ninguém de classe média tem coragem de ir ali, sejam moradores da cidade e muito menos turistas. Em dezembro de 1997, o Carlton veio a pique e cerrou as portas. Um semestre depois o anexo de luxo do outro lado da rua também encerrou as atividades. Permanecem abertos o centro de compras com sua praça de alimentação, e o edifício de 50 andares que abriga os escritórios – no alto dele há um mirante, foi dali que cliquei a garagem de ônibus que viram mais pro alto da página. Como triste lembrança, o mirante ainda está decorado com muitas fotos que mostram a construção e operação do hotel nos seus dias de glória, agora só um passado distante. É uma pena.

Há partes do Centrão de Joanesburgo que a situação é desesperadora, no melhor sentido do termo. Por isso o Hotel Carlton (dir.) não aguentou o baque e fechou as portas em 1997.

O mesmo vale pra Durbã. Alguns prédios dessa cidade têm na portaria portas giratórias de metal enormes.

Aquelas que no Brasil só são encontradas nas estações de trem de subúrbios e na portaria das fábricas.

Sabe como é, não? Têm barras de ferro de cima a baixo e só gira num sentido, não há como fazê-la voltar ou ela trava, pra evitar evasões. Então.

Em Durbã, repito, alguns prédios contam com esse equipamento, em pleno Centro, pra impedir a entrada de ladrões e sem-tetos.

Andava eu pelo Centrão dessa cidade. Vocês viram nas imagens da Cracolândia que há nos trilhos. A coisa é horrorosa, o mais forte sobrevive.

E não apenas ali. Nas ruas de uma parte abandonada próxima a estação de trens o mesmo se repete, embora não tão concentrado.

Então, e é aqui que eu entro na história. Sou cascudo em circular e mesmo em fotografar as regiões mais barra-pesadas de várias cidades da América e agora também da África.

Sou sensato e bom observador, sei avaliar o local e momento mais seguros de puxar a máquina discretamente, clicar e rapidamente guardar o equipamento.

Foi assim que já documentei de forma ricamente ilustrada várias favelas, periferias e bocas-do-lixo nesses 2 continentes acima citados. E nunca havia sido abordado agressivamente por ninguém.

Muitas vezes as pessoas perceberam que eu estava fotografando, algumas até falaram comigo, mas nunca ninguém me tirando satisfações – digo, isso me refiro aos moradores.

Com as forças de segurança várias vezes os encontros foram tensos:

Em Buenos Aires a polícia me cercou com 5 agentes (4 Homens e 1 Mulher), revistaram meu equipamento e apagaram algumas imagens, como já contei antes.

Em Joinville-SC também tive que entregar partes de um filme, nesse caso ainda era analógico. Em Durbã mesmo eu fui pro camburão, como descreverei abaixo.

No México e Paraguai soldados do exército armados com metralhadoras rispidamente me indicaram que eu ‘circulasse‘.

Pois entrara em locais proibidos, de segurança nacional – mas não havia placas indicando, eu não tinha como saber. Enfim, entre outros casos, esses são só alguns exemplos.

Mas sem contar policiais e seguranças, nunca ninguém havia me abordado violentamente. Até esse dia em Durbã.

Eu fotografava a Cracolândia do Centro, e um noiado percebeu. Ele correu até mim e intimou: “Ei, ei, qual é o problema?? Por que você está tirando fotos???”

Felizmente eu sei falar com a malandragem. Moro numa favela de Curitiba, se alguém não sabe. Imediatamente eu tirei uma moeda de 10 Rands do bolso e passei pra ele.

Ao lado conto algumas situações barra-pesada que passei em Durbã. Pra contrastar, cenas mais amenas da mesma cidade. O Mercado Indiano de Durbã é um carnaval de cores, cheiros e sabores, como não poderia deixar de ser em tudo que vem da Índia. Um tempero, em especial, me chamou a atenção: trata-se do “Exterminador de Sogra”!!! Tá bom pra ti ou quer mais???? Pra contrastar, a mesma banca vendia o “Amor de Sogra”.

Dá pouco mais de R$ 2, mas pra um viciado e morador de rua qualquer trocado ajuda, não é mesmo?

Aí ele já se acalmou. Eu lhe disse: “não há nenhum problema, não é nada com vocês. Sou um jornalista do Brasil, e só quero mostrar pras pessoas do meu país como é a África.”

“Não é nada com vocês”, repeti. Ele, satisfeito mais com o dinheiro que com a explicação, me liberou.

A África do Sul é uma mistura urbanística entre EUA/Anglosfera x América Latina. Então há guetos centrais, como nos EUA e Europa, e periféricos, como no Brasil e América Latina.

Rinoceronte esculpido em areia na ‘Praia Norte’ de Durbã. É bem mais elitizada que a ‘Praia Sul’, onde fiquei hospedado. Também não é difícil, a ‘Praia Sul’ ainda que na orla (óbvio, como o nome indica) é ao lado do porto e perto do Centrão. A ‘Sul’ eu apelidei de ‘Bronx a Beira-Mar’, porque o perfil sócio-econômico e racial é o mesmo desse que é o mais pobre dos 5 distritos de Nova Iorque/EUA. Mesmo exatamente em frente a praia não moram ricos, é povão mesmo. Já a ‘Praia Norte’ já é saindo pros subúrbios a moda ianque, onde residem os ricos. E por isso ali há edifícios caros, pra alta burguesia. Resultando que a ‘Praia Sul’ é ótima pra você entrar no mar mesmo (fiz isso todos os dias exceto um que choveu) e tem bons restaurantes. Mas fora isso não há badalação. Já a ‘Praia Norte’ é agitada – feirinha de artesanato, dezenas de restaurantes, muito mais que na ‘Sul’, e, uma das atrações é esse cara que molda de tudo na areia: paquidermes, pessoas, cidades, objetos. Ele esculpe inclusive propaganda de empresas que bancam seu trabalho, ao fundo um exemplo. Se você for a Durbã não deixe de conferir, recomendo! Outro detalhe: vê várias pessoas de roupa no mar? É tradição em Durbã, especialmente entre os muçulmanos, mas gente de outras etnias também faz o mesmo.

Acima o apuro que passei no gueto central de Durbã. Agora vamos pra periferia da mesma cidade, onde a chapa foi ainda mais quente.

………….

Como eu falei melhor na matéria sobre transportes, todas as grandes cidades da África do Sul têm um sistema de trens de subúrbio.

Operados pela viação férrea estatal ‘Metro-Rail’. Era o antigo ‘trem dos pretos’ na época do ‘apartheid’,

Agora na democracia é ‘trem dos pobres’. Que nos bairros mais degradados são 99,9% negros.

Então pouco mudou, antes a segregação era política e econômica, hoje é só econômica.

O ‘Metro-Rail’ é horroroso. Péssimo, muito ruim mesmo.

Só pega quem não pode mesmo pagar vans (lá chamadas ‘táxis’) ou ônibus, nessa ordem.

Como já expliquei, as vans (quase todas Toyotas e quase todas brancas, embora haja outras marcas e cores) são o principal meio de transporte da África do Sul.

Foi preciso literalmente uma guerra pra que elas pudessem chegar ao Centro e aos bairros dos ricos onde estão os empregos, mas hoje é assim.

Também na ‘Praia Norte’ de Durbã. Uma multidão de ‘indianos‘, ali é área deles. Entre aspas porque quando a Inglaterra levou os ‘indianos’ pra África do Sul a Índia incluía Paquistão e Bangladesh, que são muçulmanos. Por isso boa parte dos ‘indianos’ sul-africanos não são hindus, mas muçulmanos – portanto comem carne. Entre os religiosos praticantes, tanto Homens quanto Mulheres cobrem a cabeça, embora pro sexo masculino essa seja a única exigência, já pro feminino todo corpo tem que ficar oculto, incluso pra muitas o rosto, só os olhos escapam da burca. Outro detalhe: veja a lata própria pra lixo reciclável, separado do orgânico. Só existe mesmo na orla e em pouquíssimos lugares frequentados pela burguesia. Quando íamos embora de Durbã, fui a praia colocar o lixo reciclável que havíamos separado numa dessas lixeiras. O porteiro do prédio achou que eu ia despejar tudo na areia, simplesmente. Por aí vocês veem que a ‘cultura da reciclagem’ ainda não chegou lá.

Em Joanesburgo e Pretória há o Gautrem, esse sim de qualidade de 1º Mundo, alias Primeiríssimo Mundo.

Mas a linha é pequena, e só existe nessas duas cidades. Quem mora perto do pequeno traçado dele o utiliza intensamente.

Mas poucos têm o privilégio. Por isso chamado pelos detratores de ‘trem dos brancos’. Evidente, ficou pronto em 2010, 16 anos depois do fim do ‘apartheid’.

O Grautrem nunca foi segregado por raça, negros o utilizam livremente desde seu primeiro dia de operação.

O que esses críticos querem dizer, e não sem alguma razão, é que o Gautrem é o ‘trem dos ricos’, pois só serve os bairros abastados, onde os brancos são maioria.

Então, repito, o Gautrem é bom. Mais que bom, é ótimo. Mas poucos têm a chance de utilizá-lo todos os dias.

Isso mesmo na metrópole estendida Joanesburgo/Pretória. E ninguém em outras cidades, pois elas não contam com nada parecido.

Então o povão vai de ‘táxi’, por isso querendo dizer de vans, lembre-se. Depois disso os ônibus são a opção mais usada.

Centro da Cidade do Cabo.

Nas poucas linhas já melhor estruturadas, tanto pela burguesia quanto pelo proletariado.

Nos bairros mais afastados, só há linhas de ônibus não-integradas, que por isso são menos utilizadas mas ainda assim têm seu nicho de mercado.

E por último, como última escolha mesmo, vêm os trens de subúrbio da ‘Metro-Rail’. Esses só pegam mesmo quem não pode pagar qualquer outro meio de deslocamento.

Centro de Pretória.

Pra começar a conversa, são extremamente perigosos. Arrastões são rotineiros, muitas vezes com vítimas fatais. Apedrejamentos também são frequentes.

Pois bem. Em Durbã e no Cabo eu andei de trem. Sozinho, só eu e Deus. E nas 3 cidades entrei nas favelas.

Todo mundo dizia “pelo-Amor-de-Deus, não faça isso. É perigoso demais, vão te matar, etc.”

Centro de Durbã.

E de fato é perigoso. Mas . . . se não for perigoso não é jornalismo. Se for muito confortável, só editar textos em frente ao computador, não é jornalismo, é relações-públicas.

Porque é perigoso é que eu fui, pra poder lhes contar, pra poder mostrar como são as favelas e trens da África, pra quem não teve a oportunidade de entrar neles.

Bairro ‘Musgrave‘ (pronuncia: ‘Mâsgreive’), na Cidade Alta de Durbã, um morro de classe média-alta da Zona Central. Não há ricos e alta-burguesia no Centro de Curbã, mas bem pertinho dele, sim. Durbã é a ‘América na África’, porque urbanisticamente é a cidade que mais se parece com América Latina. Sim, há ali o modelo ianque de guetos centrais e ricos morando em subúrbios afastados, muitos deles nos morros como na Califórnia. Mas em Durbã há favelas nos morros da periferia, e bairros caros na Zona Central – ambas as coisas inexistem em todo resto da África do Sul (a Cid. do Cabo tenta trazer os ricos pro Centro mas o projeto ainda se inicia).

Disse numa legenda acima que eu entrei no mar em Durbã todos os dias, exceto o que choveu. Mas não foi só por causa do clima que deixei de ir a praia.

Eu já havia reservado esse dia pro trem, fizesse o tempo que fizesse. Assim, saí de casa sob tempestade.

Estiava as vezes, depois voltava a aumentar o toró, mas choveu a manhã inteira (veja as imagens mais pra cima dos pedintes nos sinais com capas).

Peguei o ônibus pro Centro, e dali subi a pé a antiga Rua Berea (atualmente a Rua Rei Dinuzulu, mas todo mundo chama pelo nome antigo, incluso os negros).

Cheguei a ‘Cidade Alta’ (esq.). Depois desci a ladeira pro Centrão. Debaixo de forte temporal. Fiquei ensopado, claro, mas não importo, gosto de chuva.

Me dirigi a Estação Central de Durbã (2 tomadas abaixo). Cara, só eu, tendo essa missão peculiar nesse planeta, pra encarar. O bagulho é louco.

 Literalmente, uma “Descida a Escuridão”, como já relatei com detalhes e muito mais fotos nessa mensagem.

As imagens valem por mil palavras. É escuro, é perigoso, é sujo, o cheiro de mijo toma conta de algumas partes da estação.

E por isso quem pode evita. Eu, não podendo deixar de ser quem sou, fui lá. Pra poder lhes dar esse relato. Os problemas começaram na hora de comprar o bilhete. Pois você tem que informar o destino já que a tarifa é calculada conforme a distância.

Vi pelo mapa um bairro que queria ir, mas não sabia informar direito ao cobrador – meu inglês não é dos melhores, e nem o dele eu acrescentaria.

Puxei o mapa, mostrei a ele, e com ajuda de uma passageira atrás de mim na fila, consegui afinal comprar o tíquete.

Estádio de críquete (esporte de preferência dos brancos) na Zona Central de Durbã. Há um aviso na entrada alertando que “qualquer manifestação de racismo será severamente punida no rigor da lei”.

Cheguei a plataforma praticamente vazia (esq.), havia um trem parado mas ninguém dentro, e ninguém entrava, e não seria eu, mais forasteiro impossível, a ser o primeiro.

Esperei quase meia-hora, veio outro trem. Eu e mais umas 4 pessoas entramos. Andou duas estações, recolheu, tivemos que descer.

Espero mais 40 minutos em outra estação também quase deserta, chega outro trem. Esse um pouco mais cheio.

Chego na estação que queria, desço. Mas na África do Sul os trens não trazem no letreiro o nome do destino, mas um número.

Só quem pega sempre sabe o destino de uma composição por esse código. Com tudo pra atrapalhar e nada pra ajudar, peguei um trem distinto daquele que eu havia pago.

Praia na Zona Norte da Cidade do Cabo, sempre com a Mesa-Montanha ao fundo. Vazia porque o mar é gelado, não tem como entrar. Os poucos frequentadores era todos brancos, pois ali é um subúrbio a moda ianque de milionários (em outra postagens subo fotos do bairro).

Assim, na hora de sair da estação o fiscal conferiu minha passagem e disse que estava errada.

Era evidente a todos que eu era estrangeiro, era a única pessoa de pele clara de toda estação.

Disse a ele: “eu sou do Brasil, e comprei a passagem incorreta por falha na comunicação, desculpe.”

“Então você tem que comprar o bilhete certo, referente ao trecho que usou”, ele informou.

Próximas 9: Soweto, Joanesburgo (no detalhe a auto-estrada). A periferia da África do Sul, pela herança inglesa, se compõe inteira de conjuntinhos com as casas todas iguais (em Santiago igual, mas no interior do Chile completamente diferente). O governo sul-africano está fazendo um esforço hercúleo pra erradicar as favelas, não negamos. O resultado é esse.

“Sem problemas, vamos a bilheteria que eu faço isso agora”. Fomos. Nosso diálogo foi em inglês.

Chegando ao balcão, o fiscal e o bilheteiro passaram a conversar entre eles em sua língua africana nativa, eu não entendia uma palavra.

Após alguns minutos de argumentos e contra-argumentos, me falaram que afinal eu não precisava pagar de novo.

Viram que não houve má-fé de minha parte. E como haveria? Até os moradores locais fogem desse trem como o diabo da cruz.

Não seria eu, turista de outro continente, que tentaria lograr a companhia local em alguns centavos. Era óbvio que comprei a passagem errada por engano, e não intencionalmente.

Estávamos no meio de uma das favelas mais barra-pesadas da Grande Durbã, onde se mata gente por qualquer motivo e mesmo sem qualquer motivo.

Eles ficaram de cabelo em pé quando disse que eu era do Brasil, que não conhecia ninguém ali, e iria apenas dar umas voltas no bairro a esmo, tirando fotos.

Mais uma vez: o governo entregou uma cohab, em alvenaria. Mas o puxadinho é de latão. Antes, quando ali era favela, as casas eram de zinco. Assim, o costume de construir nesse modal ficou fortemente enraizado na Consciente Coletivo do povão sul-africano.

O bilheteiro abriu a urna que servia de lixo, e revirou papel por papel as passagens já usadas por outros passageiros.

Até que achou uma que coincidia com o trecho que eu usei. Me deu, e disse: “quando você voltar me entregue”.

Insisti novamente em pagar, ele disse que não era preciso, e que tomasse cuidado porque a vizinhança ali não era lugar de brincadeiras.

Klaarwater, eis o nome da vila de onde eu estava, se você quiser conferi no ‘Google Mapas’. É um bairro popular nas encostas do morro, com várias favelas.

Sabe, todo mundo que me via estava apavorado por eu ter ido de trem, e por eu estar ali. Mas eu não sentia medo. Ao contrário, estava tranquilo.

Digo, com tudo mundo o tempo todo te dizendo “é perigoso, é perigoso demais”, você fica meio apreensivo. Mas minha Alma tem muito claro o conceito de Missão de Vida.

Estar ali era estar cumprindo minha Missão, e ter essa certeza fazia com que eu não temesse. Andei pelas ladeiras de Klaarwater, tirando algumas fotos.

Os sul-africanos são muito educados e solícitos, e as crianças que saíam da escola me cumprimentavam:

“Como vai o senhor?” Respondia “vou bem, e você?”. Ou seja: não tive nenhum problema com os moradores do bairro. Os que falaram comigo o fizeram em tom amistoso.

Mesmo sem nunca terem me visto, e, repito, estando óbvio que eu era estrangeiro, que não era morador sequer do país, muito menos do bairro.

Aqui não é ‘puxadinho’. O governo fez uma cohab, mas nova invasão surgiu – com as moradias em zinco, claro.

Quando eu já me dirigia a estação de trem pra voltar ao Centro de Durbã, uma viatura da polícia encostou.

E me abordou de forma bastante ríspida. Eram um casal de policiais. Foi o Homem quem conduziu a conversa: “O que você faz aqui?”

Dei a mesma resposta que ao noiado, que é a mais pura Verdade, portanto nem teria como responder diferente:

A mesma cohab, vista na foto anterior e que já foi retratada mais pro alto na página.

Sou um jornalista do Brasil, e estou fazendo uma matéria sobre a África, pra mostrar como é Durbã as pessoas de meu país”.

“Quem você conhece aqui nesse bairro?”, ele continuava agressivo. Eu, inversamente, permanecia calmo, e respondi naturalmente:

“Não conheço ninguém senhor, eu sou do Brasil e nunca estive aqui antes”. “Como você chegou aqui?”, ele quis saber. “Eu vim pelo trem”.

“Pelo trem???”, ele só não caiu pra trás porque estava sentado. “Você veio de Durbã sozinho pelo trem, e não conhece ninguém aqui?”

Isso é Soweto: outra favela surgiu – nessa as casas são de madeirite. Na frente uma van – Toyota e branca, sempre. Essa é do modelo antigo, e tem uma ‘saia’ amarela. Ao lado uma perua BMW caríssima. Ou seja: agora Soweto também tem alta-burguesia. No ‘apartheid’ os negros eram todos pobres, pois escravos do regime. Na democracia a concentração de renda que antes era somente inter-racial agora se repete dentro da raça negra, igualmente.

Ele precisava confirmar porque lhe parecia inacreditável. Certamente nunca vira nada nem remotamente parecido. “É exatamente isso, senhor”, respondi.

Revistou minha mochila, e ao constatar que não havia nada ilegal, se acalmou. Aí ambos já haviam descido do carro.

A Mulher policial falou comigo pela primeira vez. “Você está liberado, pode pegar o trem, se acha que é seguro”.

Disse a ela: “Senhora, sim, eu vim pelo trem, e vou voltar com ele. Não vejo qualquer problema”.

Foi o gatilho que detonou uma reação instintiva. Mais uma vez começou o sermão, que eu já havia ouvido dezenas de vezes na África do Sul, sempre que mencionei a palavra “trem”.

Falando em carros e em Soweto, uma concessionária Toyota e Volkswagen (que dominam o ramo de vans e de carros pequenos, respectivamente) com o nome do bairro.

“Não vê problema? Esse trem é perigoso demais. Você não conhece, vão te roubar com certeza, pode ser que te matem. Olhe, você não pode pegar esse trem”.

Ela se contra-disse, pois na frase anterior acabara de dizer que eu era livre pra fazer isso, se assim o quisesse.

Confabulou com o colega dela, e chegaram a uma solução. Aí foi o Homem quem disse, abrindo a porta traseira, e me indicando o camburão onde vão os presos:

Próximas 5: agora favelas da Cidade do Cabo. Essa é no extremo da Zona Sul, no bairro Baía Hout, de classe elevada. A frente dela há um campo de refugiados da ONU. Bem, boa parte dos habitantes dessa favela são imigrantes de outros países africanos, mesmo público-alvo da ONU. Então temos frente-a-frente dois grupos de refugiados africanos, a diferença é que uns têm esse status oficialmente, e outros não.

“Entre aí, que nós vamos te levar a outra parte do bairro, até o ponto de táxis, e de táxi você volta pra Durbã em segurança”.

Perguntei: “você está me prendendo?” Ele respondeu: “não, eu vou te ajudar. Pode entrar tranquilo”. Ele já havia me dito antes que eu estava liberado, e ali falou de novo.

Achei que ele queria mesmo me dar uma carona, e, bem, o único lugar era na caçapa, no banco da frente só haviam dois lugares, já ocupados.

Por isso, e por não querer entrar em confronto com um policial sul-africano numa das favelas mais perigosas da África do Sul, pedi a Deus Pai e Mãe que me protegesse.

E entrei no recinto destinado aos detidos. A seguir por fora ele passou a tranca. Eu não estava preso. Mas que a impressão era essa, isso era mesmo.

Essa é no lado oposto da cidade, no extremo da Zona Norte, a caminho de Atlântida. Favela bem precária, sem luz nem mesmo gatos, sem água nem mesmo nas torneiras comunitárias. Fica entre a rodovia e o mar, sobre as dunas. Em verde os banheiros químicos. A cena é igual aos acampamentos dos beduínos no Deserto de Neguev, Israel.

Não fui só eu que senti assim. Os ‘manos’ da vila, que observavam a situação, explodiram em gargalhadas.

Não é difícil entender o porque. Eles já viram – e participaram – daquela cena centenas de vezes: a polícia vem na quebrada e leva alguém embora na parte traseira da viatura.

Muitas vezes eram eles mesmos que foram levados ‘pra dar uma volta’, gerando uma estada de muita dor na delegacia, muitas vezes de várias semanas ou meses.

As próximas 3 mostram uma favela na Zona Leste da Cidade do Cabo, na estrada que leva pro aeroporto e pra Khayelitsha, a “Zona de Perigo”. Saiu azulada porque na pressa eu não abaixei os vidros do carro, que tinham película. A esquerda na imagem os banheiros químicos, ao centro um VW Golf – o carro mais vendido da história da África do Sul, falo disso melhor em outra postagem em breve – e a direita um Toyota.

E quando não eram eles mesmos a entrar na gaiola, eram seus vizinhos, parentes e amigos próximos. Ou seja, a mesma dor.

Por isso foi um alívio pra eles verem isso acontecer com alguém de fora.

Que eles não conheciam, e portanto não se importavam. Eu não fora preso, mas que essa era a impressão, certamente era.

Daí natural a reação desses jovens negros africanos, oprimidos por um sistema injusto, descontando toda essa tensão reprimida em risos.

Mas os policiais cumpriram sua palavra. Realmente eles me levaram a um ponto de van, e dali eu embarquei pro Centro.

As casas majoritariamente de zinco, o segundo material mais usado é madeirite e papelão.

Valeu pelo ineditismo de entrar num compartimento dos detentos, mas não passou disso, uma experiência curiosa.

Eu compreendo a agressividade inicial da abordagem. Afinal, minha presença ali era absolutamente heterodoxa.

Klaarwater não é turística, digamos assim. Falando mais claramente, é um bairro violentíssimo.

Repare na van (no meio da imagem), ganha-pão de algum morador. Por isso os negros fizeram uma guerra pra poderem utilizar seus ‘táxis’ pela cidade toda: pra receita do transporte ficar na própria comunidade.

(Nota: Soweto, em Joanesburgo, é turística. Nos tempos do ‘apartheid’ era até proibido estrangeiros e brancos sul-africanos irem ao bairro, e pouca gente tinha interesse.

Mas hoje há interesse, querem ver onde Mandela e outros moraram e lutaram. Assim agências de viagens promovem excursões, que custam bem caro – até por isso dispensamos e fomos de ônibus urbano normal.

Soweto é periferia, é violento, mas é famoso, por isso  gente de grana, nacionais e de outros países, vão até lá – num processo similar ao que contece com a Rocinha, na Zona Sul do Rio.

Antiga Rua Berea, Zona Central de Durbã. Atualmente a ‘Rei Dinuzulu’, mas todo mundo usa o nome anterior, que se deve a que ela liga o Centro ao subúrbio de Berea, que apesar de ser outro município ainda é Zona Central da Grande Durbã – já que na África do Sul, como nos EUA, os municípios são menores que no Brasil. Destaquei o logo do ‘Shoprite’, uma das maiores redes de supermercados do país, uma corruptela de ‘Shop Right’ (‘Compre Certo’).

Em Soweto os policiais estão acostumados a ver turistas. Klaarwater não é famosa, não há excursões pra lá.

Se Soweto é a Rocinha, Klaarwater equivale as periferias mais afastadas da Baixada Fluminense, digamos assim.)

Por tudo isso, a princípio, ao ver um estrangeiro de outra raça no bairro, natural que eles suspeitassem de má-intenção.

Verificar o porque de eu estar ali era exatamente o trabalho deles

Ele me abordou de forma tensa pois a ‘Lei das Ruas’ impõe assim, se ele não usar sua autoridade a perde.

Não estou defendendo nenhuma forma de violência, que fique claro. A polícia existe pra prender (em flagrante ou com mandato), e aí a Justiça assume o caso.

Assembleia Legislativa do Estado de Gauteng, Centro de Joanesburgo. Curiosamente, o prédio é parecido com a Assembleia estadual de Córdoba/Argentina, que eu também fotografei.

As forças de segurança não devem jamais torturar ou agredir ninguém, mesmo suspeitos de crimes.

Agora, falar um pouco grosso é inevitável, ou a ‘malandragem’ nem permitiria a revista.

Assim foi na África. O policial fez o que ele é pago pra fazer.

Mas ele jamais me agrediu, física e nem mesmo verbalmente. Pediu que eu abrisse minha mochila, o que eu mesmo fiz.

Quando acatei sua ordem, ele nem mesmo me revistou, pra conferir se eu estava armado.

Na mesma auto-estrada da Z/L do Cabo, as cohabs que o governo vem fazendo pra urbanizar as invasões. Sempre com painel solar – mesmo nas piores periferias, como notam.

Ao aceitar que a minha versão, apesar de insólita a princípio era a mais pura Verdade, eles passaram a me ajudar.

(E era, aqui está a matéria, escrever sobre a periferia da África era o único motivo pelo qual fui a Klaarwater.)

Nunca na vida deles os policiais haviam visto um turista estrangeiro naquelas bandas, muito menos que tenha ido sozinho.

De trem, sem um contato no local, e – espanto dos espantos – eu não tenho celular! Logo não poderia pedir socorro se algo desse errado.

Nunca faltam os puxadinhos !!!

Era eu e Deus, mesmo!!! Fé Total na Proteção Divina, em que aquilo era minha Missão, logo Deus Pai e Mãe iria me proteger.

E a proteção veio, mesmo de forma insólita, mesmo das pessoas que a princípio me viram com desconfiança.

………

Próximas 15: Klaarwater, morro na periferia da Grande Durbã, onde a polícia me deu uma ‘carona‘. No ‘container’ vermelho uma mercearia.

Os sul-africanos são extremamente educados e solícitos. Ao perceberem que alguém precisa de ajuda eles voluntariamente abordam a pessoa e se oferecem pra auxiliar.

Aconteceu muitas e muitas vezes conosco, quando nos viam nos bairros mais perigosos, os moradores locais vinham e nos orientavam como sair dali.

Em Joanesburgo foi o mesmo. Estávamos no terminal de ônibus de Soweto, um rapaz veio e nos orientou: “Pra onde vocês querem ir?”. Ao informarmos que era de volta pro Centro, ele indicou a plataforma.

Durbã é a única cidade grande da África do Sul que tem favelas em encostas, como na América Latina. Em Joanesburgo e Pretória não há morros, e no Cabo são os milionários que moram nas ladeiras, como nos EUA e Mônaco.

O ônibus chegou ao ponto final num bairro da Zona Central mas já além do Centrão, entretanto nós não descemos.

Não conhecíamos a cidade, e conversávamos com o mapa na mão, falando em português obviamente.

Analisávamos onde seria o melhor lugar pra voltarmos ao bairro de Killarney, no começo da Zona Norte, onde estávamos hospedados.

O motorista do ônibus saiu de seu posto e veio falar conosco, pra ajudar. Dissemos que desceríamos em determinado ponto do Centro. Ao chegar ali, mais uma vez ele encostou o veículo e veio até o fundo do mesmo, gentilmente nos lembrar que era ali era o destino pretendido.

Eis a vendinha mostrada mais pra cima. Como muitos sul-africanos nas favelas já moram no zinco, estão acostumados, digamos assim. Com grade na janela pra prevenir assaltos

Na Cidade do Cabo aconteceu mais uma vez. Alias, na África do Sul pela primeira vez andei em vários modais:

Num camburão, no Uber (que eu nunca havia utilizado no Brasil), em táxi clandestino e em carros das marcas Mercedes e BMW. Esses 3 últimos conto em outra postagem, que o texto já está longo demais.

Por isso, pra caminhar pro fechamento, um dia na Cidade do Cabo pegamos o Uber pra ir a praia. Uma praia num bairro de gente muito rica, num subúrbio a moda ianque na Zona Norte da cidade.

Também descrevo melhor o bairro e minha curtíssima entrada no mar absolutamente gelado noutra mensagem, breve. Aqui basta dizer que cada sobrado é cotado na casa dos milhões de reais.

Mas eu conversando com o motorista do Uber (que lá os negros chamam de ‘Uba’, também me estenderei posteriormente sobre a linguagem, veem que a série ainda vai longe) disse que a tarde eu iria no bairro de Khayelitsha, na periferia, pra contrastar, pra conhecer os dois lados.

Klaarwater, Durbã. Mas lembra Tamandaré, na Z/n da Gde. Ctba. Ou partes de BH, Rio, Salvador, P. Alegre ou Floripa, não?

Pronuncia-se ‘Calítcha’ ou ‘Calítia’. É um dos bairros mais perigosos da Cidade do Cabo e de todo planeta.

Leva mais de uma hora pra chegar de ônibus, e isso que a maior parte do trajeto é pela auto-estrada, ou seja, diretão, o latão vai sem paradas seja em pontos ou sinais.

Só começa o pinga-pinga quando ele sai da rodovia e entra no bairro. Já  conto essa parte.

Antes, recordando, ainda pela manhã eu contei ao motorista (negro) que iria a Khayelitsha, e que em Durbã já havia visitado bairros parecidos, um deles o Klaarwater onde andei na viatura.

Já viram na abertura da página que as casas da favela não têm água. Também não há banheiros, são construídas fossas com casinha fora da construção principal. Nesse bairro o governo ainda não pôs banheiros químicos.

O rapaz se entusiasmou: “Ah, pelo menos você vai conhecer a África de Verdade!!!”

“Porque 99% dos turistas vem ao Cabo, e só conhecem o aeroporto, os ‘shoppings’, a Mesa-Montanha e os bairros dos ricos – isso não é de fato vir a África”.

Realmente. A Cidade do Cabo, em sua Zona Central, conta com enorme presença de brancos. É a mais pura verdade. você não se sente plenamente na África.

E sim na Europa (todas as metrópoles oeste-europeias hoje têm grande leva de imigrantes africanos, o sabem) ou em partes da América (Colômbia, Equador, Brasil ou EUA, entre outros) em que há consolidada a mistura entre negros e brancos.

Aqui eu me lembrei de Colombo, também na Z/N da Grande Curitiba.

Eles dizem isso lá. Presenciei quando, aos pés da Mesa-Montanha, um morador local, mulato, puxou conversa com duas meninas alemãs.

Elas conheciam a África sozinhas, como mochileiras. Ele falou textualmente a elas: “Vocês vão gostar da Cid. do Cabo. É África, mas não parece”.

Pois bem. Khaeylitsha É África. 100% África, e parece África e somente África. Um bairro enorme e miserável.

Distante, tudo é precário, violência urbana na estratosfera, fizeram várias cohabs pra urbanizar as favelas, mas novas invasões surgem o tempo todo, tornando o trabalho hercúleo e permanente.

Nunca faltam as pedras e pneus dos telhados.

Sabe a missão de Sísifo de empurrar eternamente uma grande pedra morro acima, e assim que ele conclui ela roda ladeira abaixo, obrigando ao eterno recomeço?

Então, urbanizar as favelas da África é o mesmo. Até aqui o que descrevi de Khayelitsha é exatamente igual a América Latina.

De São Paulo a Argentina a BH a Belém a Curitiba ao Chile ao México e a Colômbia, República Dominicana, Paraguai e toda parte, essa é nossa realidade.

Mais uma vez, o banheiro fora da casa, na verdade uma fossa, como foi no interiorzão do Brasil até o século 20. Na África do Sul urbana em pleno século 21 ainda é assim.

Mas na América Latina as periferias têm muitas raças misturadas. Sempre há brancos, negros e índios, e proporções variadas conforme o país e mesmo a parte do país.

Em Khayelitsha só moram negros. Khayelitsha É África, de Corpo e Alma. Além de tudo que descrevi acima, é um bairro extremamente denso.

Puxadinhos nas cohabs, que são universais, tornam praticamente impossível distinguir onde já foi urbanizado de onde nunca foi, fica tudo com cara de favela.

Não tenho nada contra as favelas, eu moro numa delas, e moro porque quis morar.

Claro que não faltariam as moradias em latão.

Da mesma forma, eu fui a Klaarwater, Soweto, Khayelitsha, e muitas outras quebradas desse país sabendo o que ia encontrar, e fui exatamente por isso. A favela não me assusta.

Ainda assim, em Khayelitsha a coisa é muito densa, são centenas de milhares de pessoas se espremendo sem quase nenhuma infra-estrutura.

As casas chegam quase na via pública, as ruas ficam cheias de gente, o tempo todo. E eu era o único que não era negro. Eu não me defino como ‘branco’ pois isso significa ‘europeu’, e eu não sou europeu, sou Americano.

A raça pra mim é algo tão físico como cultural. Assim, eu não sou ‘branco’, Sou Americano.

De qualquer forma minha pele é clara. Aí, em Khayelitsha ficava evidente não apenas que eu não era do bairro, como também que eu não era do país.

Já visitei favelas horrorosas na América, tanto no Brasil como em vários países. Mas aqui, pela mistura de raças, eu posso andar incógnito. Me embrenho entre os becos e vielas, pois olhando pra mim as pessoas não percebem que sou de fora.

Ao menos enquanto não há diálogo. Resultando que se eu não falar com ninguém na rua, e na maioria das vezes eu não falo, ninguém descobre minha ‘identidade secreta’. Em Khayelitsha eu não tinha essa proteção.

Todos viam imediatamente que eu era um turista estrangeiro andando sozinho. Sendo assim um alvo fácil pra ladrões. Não é uma questão do bairro ser pobre o não, e sim de ter muvuca nas ruas.

Klaarwater em Durbã, Soweto em Joanesburgo, e Atlântida na própria região metropolitana da Cidade do Cabo, são tão pobres quanto. Mas são menos densos.

Nesses outros, eu andava nas ruas ou nos ônibus, e viam que eu não era dali, mas não haviam grupos numerosos de pessoas aglomeradas.

Então eu senti confiança pra circular livremente em qualquer parte e até pra fotografar extensamente. Digo, em Soweto não saí do ônibus, mas dentro dele fotografei a vontade.

E mesmo conversamos com alguns moradores do local que tinham curiosidade em saber como é o Brasil. A interação foi amistosa e tranquila. Em Khayelitsha preferi não fotografar mesmo no ônibus, e muito menos na via pública.

Tudo se somou, um lugar muito pobre, a raça diferente, e muita galera nas esquinas. 99% dos moradores de Khayelitsha são honestos e trabalhadores.

Ganham duramente seu pão com o suor de seus rostos, não tenho qualquer dúvida disso. E por isso fui ver onde eles moram. Quase todos vocês que leem esse relato nunca tinham ouvido falar desse bairro, tenho certeza.

Então, inaugurar o nome ‘Khayelitsha’ na mente dos leitores é minha homenagem aos Filhos e Filhas da Mãe-África, que tanto lutam e sofrem.

Eu Amo a Favela, mais que isso, Eu Sou a Favela. E por isso não temi ir Khayelistha, nome que causa arrepios a burguesia do Cabo, mesmo aos burgueses negros. Mas a mim não, por isso fui.

Ainda assim, mesmo com 99% de seus moradores honestos, não vamos negar que Khayelitsha e todas as outras quebradas da África do Sul têm suas gangues, e gangues muito violentas.

Terrenos bastante inclinados, o conjunto de casas forma uma escadinha.

O número de assassinatos diários nessa nação não deixa dúvidas desse triste fato. Também não tapemos o sol com a peneira, porque o Amor não pode cegar.

Tanto é assim que na auto-estrada que cruza o litoral austral da África do Sul (o trecho urbano dela é a via de acesso aos subúrbios a leste do Cabo) os avisos eletrônicos dizem textualmente:

“Zona de Perigo. Não pare na rodovia. Se precisar de ajuda ligue pra tal número”. Que aí o pedágio manda uma escolta armada, pra você poder consertar seu carro em segurança.

Assim, explicitamente, com todas as letras: “Zona de Perigo” (‘Danger Zone’ no original). E não sem motivo.

Interrompo Klaarwater pra mostrar a Cidade do Cabo, a rodovia que leva a Khayelischa (e depois dela ao litoral austral) com inúmeras favelas as margens. Daí a “Zona de Perigo” (imagem baixada da rede, crédito mantido).

As margens da pista estão inúmeras favelas, além de algumas cohabs já urbanizadas, mas também violentas (imagem ao lado).

Se um carro de alto padrão encostar ali, as chances são grandes que surja uma galera pra depenar o motorista e sua família, afinal os ladrões estão ‘em casa’.

Após cometido o roubo (e quem sabe algo pior) basta se embrenhar de novo nos becos da favela que está a alguns metros.

E será difícil pra polícia achá-los, terá que ser feita grande operação, com vítimas, que vai aumentar ainda mais a tensão.

Próximas 3: volta Klaarwater, Durbã.

O melhor mesmo é evitar e não parar sozinho no acostamento, sob hipótese nenhuma. Teu carro quebrou? Se possível siga até um posto de gasolina ou praça do pedágio.

Na pior das hipóteses, ligue imediatamente pedindo ajuda, em poucos minutos a polícia virá protegê-lo. E isso vale pra brancos e negros. Os ladrões não são racistas, se quiser ver assim.

Se um burguês negro parar ali com um carro ou caminhonete na marca dos centenas de milhares de Rands (dezenas de milhares de reais), será roubado da mesma forma.

Sem piedade ou ‘camaradagem de raça’. Bem, vimos nas fotos que negros matam negros com fogo, paus e pedras sem qualquer compaixão.

Mesmo se abstendo de motivos políticos, as taxas de homicídios sul-africanas são altíssimas, e em 95% dos casos o assassino é negro e a vítima também.

Khayelitsha e auto-estrada que dá acesso a ela é ‘Zona de Perigo’ mesmo, não é modo de falar. Portanto o aviso luminoso me chamou a atenção por ser tão explícito, mas não há como retificá-lo, de forma alguma.

Foram as próprias crianças que pediram que eu as fotografasse. Fechamos Klaarwater com chave de ouro: os meninos e meninas da vila, a África do Sul do amanhã. Há muitos problemas, mas há esperança: até 2 gerações atrás os negros não recebiam acesso a praticamente nenhuma educação formal (o pouquíssimo que eles tinham direito de estudar as classes não contavam sequer carteiras, ele precisavam escrever no chão). Agora eles têm escola pública com uniforme e refeições quentes. Falta muito pro ideal? Certamente. Mas já melhorou demais, isso também é certo.

Ainda assim, em Khaeylitsha, eu não senti medo de estar ali. Mas eu achei melhor não fotografar, pra não chamar ainda mais atenção. E também preferi não circular muito.

Muitos dos negros das favelas da África do Sul muitos nem são fluentes em inglês, arranham algumas palavras somente nessa língua.

Pois se comunicam basicamente em seus idiomas nativos. Seus empregos são braçais, com pouca ou nenhuma interação com o público, assim isso lhes basta.

Então até pra pedir uma orientação seria complicado. Tudo somado, eu fui observando essa realidade de dentro do ônibus.

Quando cheguei ao ponto final e desci, achei que era suficiente, que eu já havia ido onde quase nenhum estrangeiro turista ousara pisar até então.

Assim eu poderia retornar imediatamente, sem andar a pé pelo bairro. Busquei então a estação de trens.

Próximas 3: em sequência baixada da internet, Khayelitscha, Zona Leste da Cidade do Cabo. Em azul os banheiros químicos.

Sim, esses trens são perigosíssimos. Mas é como estar entre entre a fogueira e o caldeirão. Pelo menos no trem eu não precisaria pedir informações, mas pra pegar van ou ônibus sim.

E pra pedir informações iriam me perguntar porque eu estava ali. Afinal nunca nenhum deles imaginaria que um turista de outro continente iria de ônibus urbano a Khayelitsha.

Sozinho, sem conhecer ninguém, e sem celular. Esse diálogo, que seria extenso, poderia gerar uma aglomeração perigosa.

Eu estava no coração da ‘Zona de Perigo’, só eu e Deus. Então preferi optar pelo que julguei ser menos perigoso, e me dirigia a bilheteria da estação do ‘Metro-Rail’.

Deus Pai e Mãe mais uma vez não me abandonou, e mandou um anjo me proteger.

Esse Espírito Guardião se materializou na forma de uma linda moça negra sul-africana, chamada Mona Lisa.

As montanhas ao fundo, e a oni-presente Coca-Cola. Óbvio que estamos na Cid. do Cabo e na Áfr. do Sul.

Ela percebeu que eu era um ‘peixe fora d’água’ no meio da quebrada, e quando me viu indo pegar o trem, interveio.

“Ei moço, não pegue esse trem. É muito perigoso”, ela repetiu o que todos dizem na África.

Aí expliquei a situação, disse que eu era do Brasil e estava lá fazendo uma matéria sobre as periferias da África do Sul.

E que queria voltar pro Centro, mas como não conhecia outro meio, o trem me parecia a melhor – ou no mínimo a menos pior – de minhas opções.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo. Prédio de classe média, com porteiro e tudo. Sim, meio decadente, não nego. Mas ainda de classe média. E mesmo assim todos os apartamentos têm grades nas portas pra evitar arrombamentos. Idem em Durbã, a mesma situação. A África do Sul não é de brincadeira.

Ela então falou: “Vamos fazer o seguinte. Eu te levo até a estação de táxis”. Por isso ela quer dizer as vans, você sabe.

Mas Khayelitsha é tão distante do Centro que não tem linha de van direta até ele. É preciso pegar uma van ‘alimentadora’, que só fica dentro da vila.

Ela vai até o terminal central de Khayelitscha, e dali eu precisaria trocar – pagando novamente – pra outra van, que me levaria até o Centro.

Mona Lisa me explicava isso, que eu precisaria baldear no terminal. E disse: “eu falo com o motorista. Explico a situação, que você é estrangeiro.”

“E que precisa chegar ao Centro em segurança. Aí lá no terminal ele vai te mostrar qual a outra van você pega”. Assim foi feito, ela falou com o condutor num idioma negro nativo.

Antes disso, enquanto cruzamos a passarela que separava a estação de trens da estação de vans, contei minha missão.

Logo após os prédios de Killarney há um bairro de elite, só mansões mesmo. Veja, há uma grade na rua, outra perto da casa, e uma só abre quando a outra fecha. Precisa dizer mais?

Relatei que já havia ido a muitos bairros parecidos aqui na América, em meu próprio país e vários outros. Disse que pra mim era uma grande honra estar ali, no bairro dela.

Mona Lisa até se ofereceu pra então darmos uma volta maior pela redondeza, ela me acompanharia e com seu salvo-conduto não haveria o que temer.

Eu senti sinceridade nela, que queria mesmo me ajudar, e jamais me pôr numa armadilha. Mas pra não abusar da boa vontade da moça eu atalhei:

“O que eu já vi já foi suficiente. Já visitei Khayelitsha (o que quase nenhum morador do Cabo tem a coragem de fazer, muito menos os turistas), está bom.”

“Zuma tem que cair”, eis o mantra quase oni-presente no 1º semestre de 2017 na África do Sul. Aqui cartaz conclama pra manifestação no Centro de Pretória em abril, a marcha foi da Praça da Igreja-Matriz (marco zero da cidade) até o Palácio Presidencial, ainda na Z/C mas já saindo do Centro.

Me leve até o ponto do táxi, fale com o motorista pra ele me indicar a outra van, é melhor eu voltar pro Centro.  

Querida, muito obrigado por tudo que você está fazendo por mim, que Deus lhe pague.

Assim foi. Entrei na primeira van, que serpenteou nas estreitas ruas de Khayelitsha.

Pra compor o cenário, o motorista ouvia música africana de raiz, no idioma local. Não os enlatados dos EUA/Europa em inglês, mas a cultura deles.

Me senti num filme, sabe? Aquilo me emocionava, os pêlos do corpo se arrepiavam todos. Sim, em plena ‘Zona de Perigo’, pra alguns. Mas pra mim não houve qualquer ameaça.

Mesmo nas partes mais perigosas da África, fui bem acolhido, sempre. Quem me abordou foi sempre pra me ajudar, e isso valeu até pra polícia.

Cheguei a estação. O motorista cumpriu o pedido da querida menina Mona Lisa, e me falou “você pega o táxi nº 5 pra Cidade do Cabo”.

Agradeci. Nem era preciso esse cuidado, essa estação era sinalizada, ao contrário da primeira em que não havia qualquer indicação de destino.

Pichação nos subúrbios de elite a moda ianque na Z/N de Joanesburgo apela pro mesmo mote, mas aqui já ampliado: “Eles têm que cair”, diz a mensagem original. “Eles” se refere não apenas ao presidente Zuma, mas a todo seu grupo político. Bem, os defensores da situação contra-atacaram dizendo que “Nós temos que crescer“. A África do Sul enfrenta em 17, repito, a mesma situação que o Brasil passou em 16. A mídia está unânime contra o presidente. Até aqui não prova nada, as corporações da comunicação estão concentradas em pouquíssimas mãos dos Oligarcas, que nem sempre jogam limpo – ou só jogam sujo, falando mais claramente. Perguntei a 5 taxistas o que eles achavam dessa campanha. 4 disseram que Zuma “tem que ser removido do poder o mais rápido possível”, ecoando a mídia. Um deles teve uma visão dissonante: “sabe, é curioso, não? Existe esse grupo de nações, o BRICS, que está fazendo frente aos EUA. Será coincidência que exatamente esses países que incomodam os EUA vêm passando por esse processo de turbulência política? Antes foram vocês (no Brasil), agora a gente”. Pois é. Cada um que tire que suas próprias conclusões.

Mas só pra garantir, perguntei em inglês ao motorista da nova van se o destino era Cidade do Cabo, por isso querendo dizer o Centro da cidade.

“Cape Town, man!! That’s right”, ele respondeu bem alto, entusiasmado.

Sentei no banco da frente, a seu lado. Eles sempre ouvem música, mas esse preferiu os enlatados euro-ianques.

Estava bom pra mim, tudo estava bom, tudo tinha dado certo. Pegamos a rodovia, os mesmos avisos “não pare, zona de perigo”.

Um monte de favelas a minha volta. Quase atropelamos uns meninos que invadiram a pista atrás de uma bola, coisa de criança sem noção das leis da física.

Era meu último dia na Cidade do Cabo.

Vendo tudo aquilo, a luta multi-milenar daquele povo, a Saga da Raça Guerreira Negra Original, eu chorava de emoção.

Eu era também parte dessa Vibração, uma gota no Oceano que seja.

Fiz parte da África, e a África fez parte de mim. E assim será pela Eternidade, estaremos Unidos, Sempre e pra Todo Sempre. Mais que Amar a África, Eu Sou a África.

E por isso a Grande Vida (Deus Pai e Mãe) permitiu que eu fizesse 40 anos no Solo Sagrado Africano, que eu me ajoelhei e beijei como Prova de Amor.

Sede do CNA no Centro de Joanesburgo – o parido de Mandela.

Eu nunca fui a Europa, e nessa encarnação não irei. Eu não sou europeu, digo de novo. Sou Americano de Corpo e Alma, e em meu Coração Sou Africano também.

Sou parte da África, ela é parte de mim.

Eis o turbilhão de Sentimentos que jorravam pela minha Mente e Coração, sentado ali no banco dianteiro da van.

Vendo a Cidade do Cabo passar a meu lado, como numa produção cinematográfica.

Uma História de Amor.

Amo a África. E, pela forma gentil que fui tratado, mesmo em seus bairros mais perigosos (outros não tiveram a mesma sorte, e as fotos e a estatística falam por si mesmas), me Senti Amado de volta.

Num bairro pobre da Zona Central de Joanesburgo haviam várias bandeiras num muro. Entre as da Pátria Amada e a da África do Sul, encontramos a do Uruguai.

Lágrimas me corriam dos olhos, como já havia acontecido quando eu deixava a cidade de Medelím pra ir embora da Colômbia.

Chegando ao bairro de ‘Woodstock’, onde fiquei hospedado já na Zona Central, desci.

Terminava ali minha estada física nessa Cidade do Cabo que tanto Amei e Amarei pra sempre.

Jantei, no dia seguinte cedo rumei ao Aeroporto, passando pela mesma rodovia que corta a ‘Zona de Perigo’.

……….

Mas minha Saga nas periferias sul-africanas ainda não havia terminado.

Acima era só uma homenagem, sem consequências práticas. Mas no Centro de Pretória cliquei uma funerária. Ao lado dos serviços anunciados, bandeiras do território que ela atua, nações que fazem parte do Conselho de Desenvolvimento do Sul da África. De cima pra baixo, coluna da esquerda: Suazilândia; Moçambique; Lesoto; Zimbábue; Coluna da direita: Namíbia; Malauí; Botsuana; e fechando com a nação-sede, a África do Sul.

Minha última cena na África do Sul foi mesmo uma operação de guerra em Joanesburgo.

Fui visitar a favela de Alexandra (pronuncia Alec-zandra), na Zona Norte, a parte rica da cidade mas que tem essa ‘boca quente’.

E isso desde sempre, desde o ‘apartheid’ rolam conflitos violentos por lá, muitas vezes de negros contra negros.

Então mano, cheguei lá, caramba cara, a praça antes da favela tava ocupada por umas 40 viaturas da polícia, sem exagero.

E as entradas da favela todas elas trancadas com barricadas formadas pelos veículos policiais. Embaixo do rodado de uma viatura tinha um corpo coberto, com jornais ou um lençol.

Pensei que havia ocorrido um assassinato entre gangues da favela, ou então que tivessem matado um trabalhador num assalto, mas não sabia que a polícia estava envolvida.

Cactus em Joanesburgo. A África do Sul é muito seca, alias todo Sul da África (pra quem não ‘pegou’, obviamente África do Sul é o país. ‘Sul da África’ inclui essa nação e as nações vizinhas, pra alguns abarcando até o Congo). Seja como for, eu dizia que a água é muito valorizada na região, por ser rara. Quando estive lá (abril.17) a Cidade do Cabo enfrentava severo racionamento de água, os reservatórios tinham menos de 20% da capacidade, como já aconteceu em SP. Alias, um mês antes da África do Sul fui a Argentina. Esse vizinho nosso sul-americano também passava por racionamento, mas de energia elétrica. Já cliquei cactus também aqui em Ctba., Florianópolis, Chile, Argentina, e meus familiares na Colômbia.

Por isso não entendi porque um aparato de segurança tão grande, afinal Joanesburgo tem 1,3 mil homicídios/ano.

Se eles fossem isolar cada cena de crime com um efetivo desse tamanho, teriam que importar policiais da África inteira pra ajudar.

Depois fui ler no jornal, não foi assassinato, e a polícia estava envolvida. Uma viatura atropelou e matou uma menina adolescente que voltava da escola.

Por isso o corpo estava sob o eixo, e por isso uma operação de guerra: em 2015, num caso similar a polícia atropelou e matou 2 Homens.

A população fez justiça com as próprias mãos e queimou os 2 policiais vivos.

Por isso cercaram a praça e trancaram a favela com um contingente, digo de novo e não é exagero, digno de uma ocupação militar. Era uma ocupação militar.

……….

Aquele foi no fim-de-tarde de meu último dia em Joanesburgo, que foi também meu último dia na África.

Sintetizou bem o país, suas tensões, suas lutas. A luta contra o cruel ‘aparheid’ foi vencida, a democracia veio.

Falta agora vencer a tentação de usar a violência pra tentar resolver os problemas.

A violência não resolve nada, apenas agrava todas as dificuldades.

Fechamos com mais uma cena do livro Clube do Bangue-Bangue: ‘Dobsonville’, Soweto, Joanesburgo. 3 Homens tombam mortos numa chacina na guerra negros x negros. O lado uma placa informa “Lembre-se: a Vida não te deve nada – você é quem deve tudo a Vida !!!”. Encerro meu caso.

Mas essa luta apenas inicia. Por hora, a situação é essa aí: mais de 2 mil assassinatos por ano no Cabo somente.

E mais de mil e tantos em Durbã e em Joanesburgo, muitos milhares mais por todo país. Em 95% dos casos, um negro mata outro.

Ruas tingidas de vermelho, cenas de guerra.

Bang! Bang!

África do Sul, p*rra!!!

Só eu e Deus na ‘Zona de Perigo’,

Eu Sou o Mensageiro.

E Deus Pai e Mãe proverá.

Até Pacatuba (Z/S de Fortaleza) tem metrô . . .

2011: Fortaleza era a “Cidade dos Ônibus Azuis“, toda frota municipal era nessa padronização (*). Não haviam articulados, corredores, e muito menos metrô ou VLT. Foto no Aeroporto, assim que cheguei. Tudo azul, com esse céu do Nordeste como pano de fundo.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado (via emeio) entre 2011 e 2014

Maioria das imagens puxadas da rede, créditos mantidos sempre que impresso nas fotos.

Quando a tomada for de minha autoria, identifico com um (*), como visto ao lado.

………..

Vou fazer uma coletânea do que eu publiquei sobre o transporte coletivo de Fortaleza.

Estive na capital do Ceará em agosto de 2011. Depois, acompanho a evolução via internet.

2017: 2 linhas de metrô operando. Digo, a Linha Sul pra Maracanaú (e Pacatuba) é metrô mesmo, inaugurou em 2012 e já está em operação comercial, em horário integral e cobrando tarifa.

Nota: tudo é relativo no Universo. Quando eu disser que Fortaleza é “cidade-modelo do transporte brasileiro”, não quero dizer que tudo funciona as mil maravilhas.

E sim que está sendo feito um esforço hercúleo de modernização. Comparando com o que era no começo da década de 10, mudou da água pro vinho.

A melhoria do transporte de Fortaleza salta aos olhos, e é isso que quero destacar. Evidente, falta muito a ser feito, mas a coisa está avançando a passos largos.

Isto posto, vamos aos textos. O primeiro é o que nomeou a matéria, e foi publicado em 3 de fevereiro de 2013.

até pacatuba tem metrô

Cavalos soltos nas ruas de Pacatuba-CE. Mas com metrô (dir. na imagem).

Você conhece a cidade de Pacatuba?

A não ser que você seja do Ceará, ou tenha parentes por lá, eu aposto que enormes são as chances que você não conheça esse lugar.

Pacatuba é uma cidade pequena, incrustada no semi-árido do sertão do Ceará, onde os cavalos ainda andam soltos, como pode ver na foto.

Não vamos tapar o sol com a peneira, Pacatuba é bastante depauperada.

Na periferia a falta de infra-estrutura é gritante, ainda há inclusive casas feitas de taipa (pau-a-pique).

Pois bem. Essa cidade, Pacatuba, Ceará, tem metrô, e podem ver a estação na mesma foto.

Acima ela na fase final de obras. A foto (via ‘Google Mapas’) é de fevereiro de 2012, em junho do mesmo ano iniciou-se a operação.

O Centro da cidade, a Zona Sul, e Maracanaú e Pacatuba, conectados pela Linha Sul.

…….

Pacatuba é tão distante de Fortaleza que já se configura numa transição:

Atual (2017): 1 linha de trem de subúrbio, 1 de metrô operando plenamente, 1 de VLT iniciando em testes, mais 1 de metrô em construção.

Fica no extremo da região metropolitana da capital, mas já pode ser considerada uma cidade do interior do estado.

E mesmo assim, esse subúrbio pobre e distante do Centro da capital, tem um sistema de transporte moderno e eficiente a conectá-lo ao núcleo.

Vamos fazer uma atualização, pra mostrar como está a situação em 2017. Repetindo o que já foi dito e é domínio público:

Fortaleza hoje tem 2 linhas de metrô, uma é metrô mesmo e operando plenamente (em vermelho no mapa), e a outra de VLT, que foi inaugurada no fim de julho de 17 (laranja).

Julho de 2017: começa a circular o VLT, a linha laranja. Por hora, em testes, os primeiros 5 km (em Santos-SP, em 2015, eu passei por isso, usei o VLT de lá que estava em testes).

Quando escrevo está um trecho (ressaltado de preto ao lado do laranja) já rodando, mas ainda em fase de testes, uma viagem por hora apenas das 8 da manhã ao meio-dia, e de forma gratuita.

mais uma linha do metrô em construção (azul), e outra, mostrada em verde, de trem suburbano, funciona mas de forma bem precária, uma viagem a cada 45 ou 50 minutos.

A rede de ônibus também vem sendo modernizada, desde 2014 Fortaleza conta novamente com articulados, que não existiam quando estive lá em 2011.

Por quase 2 décadas, Fortaleza não teve articulados. Em 2014 eles retornaram com força total.

Agora voltam os textos originais, feitos de 11 a 14. Repito o que escrevi a época, e no relato irão constar muitas coisas que já não são mais a realidade.

É exatamente pra dimensionarmos o quanto o transporte fortalezense evoluiu em poucos anos.

A cidade aproveitou as linhas de trens de carga e passou a operar trens de passageiros pros subúrbios Oeste e Sul, que é onde mora o povão.

Fortaleza, “Cidade das Lagoas”, e que agora conta com transporte moderno. Na periferia fizeram vários reservatórios pra que a cidade seja habitável, pois o clima é muito seco (mesma função do Lago Paranoá na capital federal). Ao lado vemos as estações do metrô e de ônibus.

Por um bom tempo, não existia metrô ou VLT, apenas 2 linhas precárias de trem de subúrbio.

Reconhecidamente, esse é um quebra-galho, funciona de forma bem precária, porque ainda compartilha a rede de trilhos com trens de carga.

A Zona Leste é a parte rica da cidade, do Centro a Praia do Futuro, passando pelas Praias de Iracema e Meireles. Nessa parte mais abastada não há trens de passageiros.

(Atualizando: agora ela será servida pelo VLT e outra linha de metrô). Mas por muito tempo os trens foram reservados pras partes mais pobres, as Zonas Oeste e Sul.

Antes/DepoisAv. Bezerra de Menezes em 2012: não havia qualquer prioridade pro transporte público, os busões dividiam a pista com os carros. 2016: quanta diferença! Os coletivos (muitos articulados) em pista exclusiva, estações com embarque elevado e pré-pago.

Em São Paulo, Rio, Belo Horizonte-MG e Porto Alegre-RS, também foram implantados trens suburbanos de passageiros em antigas linhas de carga.

Mas os modais não são compartilhados. Os trens de cargas, nesses ramais, ou foram desativados ou foram desviados.

Lembram-se, certamente, das fotos que lhes enviei de Belo Horizonte, quando estive lá, em novembro de 2012.

Uma estação de metrô, e bem ao lado, mas em infra-estrutura separada, os vagões cargueiros.

A linha foi triplicada: dois trilhos pra passageiros, um em cada sentido, e um pra carga, bem ao lado. Assim o trem de passageiros opera como um metrô normal, com a frequência que for preciso, no horário de pico uma partida a cada cinco ou dez minutos.

Registro raríssimo por 2 motivos, pra começar é um dos 1ºs articulados que chegaram ao Fortaleza voltar a ter esse modal, quando foram implantados os corredores e estações vistos acima (por isso as portas elevadas); e 2º), um dos poucos ‘sanfonados’ que existiu com a pintura ‘das Flechas‘ inteira azul. Logo a seguir veio a padronização em que os ‘carros’ ficaram brancos, somente o teto azul.

Em Fortaleza, João Pessoa-PB e Teresina-PI (e embora não posso dar certeza, creio que também em Maceió-AL e Natal-RN), a situação é distinta:

Pegaram a linha que era e ainda é usada pelas composições cargueiras e construíram-se estações de passageiros ao redor delas, sem duplicar e muito menos triplicar a linha.

Logo, os dois sentidos de trem de passageiros usam o mesmo trilho, e ainda o dividem com os trens de carga que permanecem ativos.

Resultado: só pode haver uma partida por hora de composições de passageiros.

Constatei isso pessoalmente. Cheguei na Estação Central do Ramal Oeste do trem de subúrbio de Fortaleza, e ela estava vazia, só havia eu e o segurança.

Centro de Fortaleza, 2011 (*): busos metropolitanos de partida pra Maranguape.

Porque o trem havia acabado de partir, esperei ali mais de 50 minutos.

Em João Pessoa ocorreu o mesmo, cheguei a Estação Santa Rita, subúrbio metropolitano da Zona Oeste, e havia um cartaz indicando que faltava uma hora pra composição partir.

Fui dar mais umas voltas pela cidade, e ainda assim esperei quase meia-hora na estação.

Em J. Pessoa a situação permanece a mesma. Mas em Fortaleza mudou. Após muito tempo com 2 linhas de trens de subúrbio precárias, as autoridades estão modificando esse quadro.

Centro de Caucaia, Zona Oeste da Gde. Fortaleza, 2011(*): micro da Vitória cumpre linha municipal.

Na minha viagem a capital cearense, só pude andar no ramal Oeste (que vai pra Caucaia). O ramal Sul estava desativado, porque estava em reformas.

Esse último é o que tem sua última estação já em Pacatuba, mas que atende basicamente – além da Zona Sul dentro do município de Fortaleza mesmo – o município de Maracanaú, que é bem mais populoso e bem mais próximo de Fortaleza.

E no que consistem essas reformas: em 2011 ele estava sendo ampliado e modernizado, pra poder ser transformado em metrô.

Trem suburbano pra Caucaia: esse ramal ainda não foi modernizado. Digo, as composições sim, agora são VLT’s com ar-condicionado. Mas a linha não foi duplicada, é uma viagem a cada 45 min. .

Iniciou a operação de testes em junho de 2012, sempre no mesmo esquema, 4 viagens por dia das 8 da manhã ao meio-dia, sem cobrança de passagem.

Em 2013 (quando fiz essa mensagem), está pronto e operando (embora na época ainda em modal de testes, a cobrança de tarifa e operação plena só veio gradualmente).

As estações foram ampliadas e modernizadas, agora contando com lojas, escada rolante, praça de alimentação, banheiros, etc.

A linha, como já havia ocorrido em Belo Horizonte, foi triplicada, duas paralelas pros trens de passageiros poderem se cruzar em sentidos opostos, e mais uma pra carga, que assim pode continuar sem perturbar o outro modal.

Estação Conjunto Ceará, Zona Oeste(*). Diz “Metrô de Fortaleza”, mas, não, o Ramal Oeste ainda não é metrô, longe disso.

……………

Observem abaixo o mapa do sistema. As linhas amarelas mostram como era a rede de trens de subúrbio, ramais Oeste e Sul, compartilhada com carga.

Foi assim por décadas, mas não mais. A parte em azul mostra as linhas de carga que é necessário construir, pra que onde opere pra pessoas seja exclusivo nesse modal. Esse mapa é antigo.

Quando fui lá, em agosto de 2011, vi que as obras estavam no estágio final.

As imagens de Pacatuba, que ilustram a mensagem, foram  filmadas pelo ‘Google’ em fevereiro de 12.

Até 2012: somente 2 linhas precárias de trem suburbano, sem VLT ou metrô. Ainda precisava fazer novo ramal pra desviar as composições cargueiras, o que foi feito 1º no trecho em azul, e depois no vermelho (que era só carga), agora é o VLT.

Por isso a estação ainda não estava operando. Mas agora está. Mais um ano se passou, e tudo ficou pronto.

O metrô de Fortaleza iniciou suas operações no meio de 2012, enfatizando.

E a estação-terminal, o ponto final da linha, é no bairro Vila das Flores, já no município de Pacatuba. Como abri o texto dizendo, Pacatuba-Ceará tem metrô.

Por enquanto (2013), em fase de testes. Os trens circulam somente das 8 da manhã ao meio dia de segunda a sexta, e por hora gratuitamente.

A previsão é que Ainda no primeiro semestre de 2013 se iniciasse a operação comercial, das 5 da manhã as 10:30 da noite, de domingo a domingo.

Abriu o baú: vamos relembrar o transporte de Fortaleza em fotos. Começamos com um tróleibus da CTC, virada dos anos 60 pra 70.

A partir daí então haverá cobrança de tarifa. Não sei se o cronograma foi cumprido conforme prometido em 2013, mas agora é realidade, atualizando.

………….

Não para por aí. Um dia, não se sabe quando, a Linha Oeste pra Caucaia também será modernizada e se tornará metrô.

E a Linha Leste (paralela a orla) está em obras – verdade seja dita, obras atrasadas, mas está indo.

No futuro serão 4 linhas, e aí sim, vai chegar a Zona Leste, a parte rica da cidade, onde estão boa parte dos empregos.

Voltando a falar do primeiro mapa mais pro alto na página e não desse logo acima: a linha mostrada em azul não existe, é só projeto mesmo por hora (quando escrevi, agora em obras, de qualquer forma ainda não existe).

Já a linha que está em laranja está pronta mas usada somente pra trens cargueiros, seu destino final é porto (atualizando, as composições de carga saíram, está virando o VLT).

Na virada dos anos 80 pra 90 veio uma onda de modernização. Chegaram os 1ºs articulados, pela saudosa estatal CTC-CE, ainda era pintura livre e numeração só de 3 dígitos nos busos.

Entretanto, pra haver metrô ali, novamente terá que ser triplicada, pra acomodar composições de carga e dois sentidos de trem de passageiros.

Se esse é um futuro distante, o que importa é que está se trabalhando pra que algum dia ele emerja a matéria. E em 2017 parte dele já emergiu.

…………

Agora quanto aos ônibus. Fortaleza tem 7 terminais, em que a integração é gratuita. É pouco, certamente. Só que agora não é preciso fazer mais um terminal sequer por lá. Porque agora Fortaleza conta com integração no cartão. Nos terminais, você troca de ônibus quantas vezes quiser, sem pagar. Isso é igual Curitiba.

Monobloco da Angelim ainda na pintura livre. Mas já com numeração de 5 dígitos (sendo o prefixo em cor diferente, modelo que Fortaleza inventou e que foi adotado em toda ‘Costa Norte Brasileira’). Outro detalhe: inverteram a entrada pra frente.

Só que em Fortaleza você pode descer na rua, fora do terminal, e igualmente pegar mais um ônibus sem pagar de novo, via cartão.

Com isso, 100% das linhas de Fortaleza são integradas. 100%. Não há zonas de sombra.

Em Curitiba há, sendo a maior delas a região do Pilarzinho (Zona Norte). Aqui, só uma linha de grande demanda é integrada no cartão, o Interbairros 1.

Igualmente pra ser justo, mostro lhes que o sistema de Fortaleza tem falhas graves (2013):

Não há ônibus articulados nem canaletas (corredores) exclusivas, e não há integração com a região metropolitana.

Início dos anos 90: 1ª padronização da pintura de Fortaleza (Fonte de várias imagens: sítio Ônibus Brasil). A princípio seriam 3 pinturas, de acordo com a categoria do serviço. Essa era a dos alimentadores, em mais um Monobloco da CTC, destaco o prefixo em cor distinta (‘Costa Norte’) e a entrada pela frente.

Bem, quanto ao segundo problema, o metrô amenizará em muito essa questão, justamente porque integrará Fortaleza com Maracanaú, Pacatuba entrando de brinde.

Já a falta de canaletas e articulados permanece como uma questão a resolver.

Atualização: isso também foi resolvido, ou ao menos começou a ser resolvido. Realmente o avanço pra frente de Fortaleza nessa década salta aos olhos.

A integração no cartão é inevitável. Até Porto Alegre e o Rio de Janeiro demoraram bastante mas já implantaram/estão implantando integração no cartão (lembre-se sempre, escrito em 2013).

Bato de novo nessa tecla porque em 2013 Curitiba ainda não havia despertado pra necessidade de integrar digitalmente, e não somente pelo modal físico do terminal.

Thamco Padrão (alongado, portas largas, motor traseiro) da Cialtra, eis os que eram ‘circulares’ (equivalentes aos Interbairros de Curitiba ou ‘Transversais’ de Porto Alegre) na 1ª padronização (essa e outras tomadas vieram do portal FortalBus). Embarque dianteiro e o prefixo em outro tom.

A capital do Paraná só tinha uma linha central de grande demanda integrada no cartão, digo de novo e quantas vezes forem preciso.

Afora isso apenas algumas outras nos confins da cidade, linhas pouco utilizadas pois atendem regiões esparsamente habitadas.

Pior. Mais 4 anos passaram, e ainda não há integração no cartão. Muito menos trem, metrô ou VLT.

…………..

No Nordeste, enquanto isso, a coisa fica melhor a cada dia.

De novo um articulado CTC da primeira leva, que acima vimos na pintura livre. Aqui ele foi repintado, esse era o 3º esquema de pintura da 1ª padronização, com flecha eram os ‘Troncais’, do Centro aos terminais. Aqui a transição, atrás um buso ainda com pintura livre. Seja como for, essa pintura acabou se impondo sobre as outras duas, e breve todos os busos municipais de Fortaleza, de todas as linhas, acabaram padronizados com esse desenho e cores. É mais um Thamco, esse Volvo Azulão.

Não é apenas na capital que o Ceará está investindo em sistemas rápidos, eficientes e não poluentes de transporte de massa. Conheça o “Metrô do Cariri” e o “Metrô de Sobral”.

O estado do Ceará tem nada menos que 3 cidades com transporte sobre trilhos: a Grande Fortaleza, Sobral e Juazeiro do Norte.

(Nota: ‘cidade’ é diferente de ‘município’. O estado de SP conta com transporte ferroviário urbano em grande escala em dezenas de municípios, mas em somente duas cidades, a Grande SP e a Baixada Santista).

Veja abaixo a imagem do “Metrô do Cariri” sobre a ponte. Na verdade não é metrô, mas VLT. Mas … parece um metrô, daí a alcunha.

Ainda assim, repito, trata-se de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Que liga os vizinhos municípios de Crato e Juazeiro do Norte, no sul do estado, bem longe da capital e do litoral portanto.

“Metrô do Cariri” (Juazeiro do Norte/Crato).

Mas veja, até cidades no fundão do sertão nordestino tem um transporte moderno e barato, a passagem quando consultei era apenas R$ 1.

….

Os VLT’s do interior cearense são lindos, certamente. Mas é preciso um contra-ponto:

São sub-utilizados, assim será que o investimento valeu a pena?

Aqui o VLT de Sobral, também no Sertão.

A previsão era de que cada sistema de VLT transportasse 5 mil passageiros por dia, mas a média fica no Cariri em 1,3 mil, menos de 1/3.

Em Sobral está melhor, é o dobro do de Juazeiro, são 2,6 mil usuários por dia, mas ainda assim metade do previsto inicialmente. Façamos a comparação.

A linha Roça Grande/S. Cândida, na Zona Norte da Grande Curitiba, tem 3 mil passageiros por dia.

Próximas 2: Estação Parangaba do Metrô em fase final de obras, agosto de 2011 (*)

No meio do dia é feita por somente 1 ‘carro’ não-articulado, no pico vem mais um dar uma ajuda.

Entenderam? Uma única linha de ônibus em Ctba (2 veículos no pico, unicamente 1 no resto da jornada) tem mais demanda que os VLT’s do interior do Ceará.

Claro, o trajeto é curto, por isso só 1 busão dá conta e o intervalo entre as viagens é meia-hora.

Os VLT’s do interior do Ceará percorrem uma distância muito maior, se a Roça/Santa fosse tão longa precisariam 4 ou 5 ‘carros’.

A questão não é a distância, e sim que os VLT’s de Sobral e Juazeiro são grosseiramente sub-utilizados, um mal consegue superar metade do que era esperado, outro não chega a um terço.

 Aí eu te pergunto: valeu a pena o investimento, ou foi mais uma obra faraônica como tantas no Brasil? Valeu gastar milhões pra implantar esses dois VLT’s no interior, que rodam vazios a maior parte do tempo?

E aqui a o local da Estação Benfica, também na Zona Sul (*).

A resposta é meio óbvia, não? Os investimentos no VLT e metrô de Fortaleza eu não contesto, só aplaudo.

Na capital a demanda é gigante, e a população merece essas melhorias. Por isso fiz essa matéria.

Mas no interior a situação é outra, e um corredor de ônibus (com ou sem paradas elevadas) seria suficiente. Mas não daria tantos votos, não é mesmo?

……

Aqui encerra-se o primeiro emeio (acrescido de material inédito), que data de 2013. Agora outro, publicado em 7 de setembro de 2011, logo que voltei de lá portanto.

o metrô vem aí: em Fortaleza, claro

De volta a capital, agora vou continuar contando minhas voltas pela cidade. Em Fortaleza amanhece uma hora mais cedo que na capital do Paraná, pouco antes das 5:30.

Entretanto, curiosamente anoitece no mesmo horário, por volta das 6:30 (isso não é científico, foi uma observação empírica, o mês era agosto, quase Primavera em Curitiba).

Mas voltemos pra manhã de sábado que eu estava no Ceará. Dormi num hotel barato próximo a Praia de Iracema, no Centro. Amanheceu e eu saí.

Tabela Trocada: veículo em testes em Fortaleza, com a pintura de Campinas-SP.

Eram seis horas da manhã de sábado. Sol alto e quente. Mas pelo horário não havia quase ninguém na rua, por motivos óbvios.

Tava eu lá, em pleno Centrão de Fortaleza, e ele quase deserto. As primeiras pessoas chegando pra trabalhar, as primeiras lanchonetes abrindo.

Comi 3 pães de queijo (a versão cearense é diferente da que vende no Centro-Sul do país, breve levanto pra rede a mensagem que falo da alimentação).

A seguir peguei o trem pra Zona Oeste, a mais pobre da cidade. O trem custa um real, e tem ar-condicionado.

Mais uma vez, essa é a atual pintura padronizada de Fortaleza.

Essa é a parte boa. Agora a parte ruim: ele funciona numa linha de compartilhada com trens de carga, que ainda por cima não é duplicada.

Por conta disso, só pode operar uma única composição, só ela vai e volta. O trem é de hora em hora, nos horários de pico de 40 em 40 minutos. 

Em Testes: já que falamos de busos emprestados, eis um de Curitiba operando em Fortaleza por uns dias antes de vir pra cá. Entrada pela frente, pois a roleta está ali. Pra andar no Hibribus os cearenses tiveram que voltar a embarcar pela dianteira.

Como contei acima, cheguei e só havia o vigia na estação, pois levaria uma hora pra próxima viagem, o trem acabara de sair, e tinha que ir até Caucaia e voltar.

Fiquei quase meia-hora só eu e Deus (e o vigia, que também é Filho de Deus) na plataforma deserta (situação similar a que passei na África do Sul, quase 6 anos depois).

Voltando a Estação Central de Fortaleza, enfim começaram a chegar mais passageiros, a composição adentrou ao recinto.

Veio com bastante gente do subúrbio, aqueles que trabalham sábado no Centro.

O Hibribus em casa, aqui em Curitiba, puxando a linha Interbairros 1 – a única central e de maior demanda em Ctba que é integrada no cartão, enquanto em Fortaleza são todas, na cidade inteira.

Mas pra volta foi quase vazio, além de mim que era turista quem vai do Centro pro subúrbio antes das 8 da manhã de sábado? Peguei o de 7:45.

Felizmente era sábado, pois domingo esse horário não opera, é de duas em duas horas. Quem perde o das 7 tem que esperar até as 9:00.

Os vagões são limpos, confortáveis e seguros. Uma das poucas partes de Fortaleza que não é pichada. Observem as fotos, um pouco mais pra baixo na página.

Há seguranças em todas as estações, inclusive seguranças do sexo feminino, se for preciso revistar Mulheres. Os guardas andam armados.

Assim, pelo menos quando peguei, não haviam sem-teto, pedintes, vendedores nem ladrões no trem. As composições são velhas, mas estão reformadas, as portas funcionam perfeitamente, não há situações de risco.

Aqui e a direita: mais 2 do (sub-utilizado) “Metrô do Cariri” entre Juazeiro e Crato.

Dois anos depois, repito, andei no trem de subúrbio de João Pessoa, onde as condições são bem piores, na Paraíba não há ar-condicionado pra conversa começar.

A vantagem era o preço. Em Fortaleza, 1 real (agosto.11), enquanto que em João Pessoa era, é até difícil de crer mas é verdade, somente R$ 0,50, sim, cinquenta centavos (setembro.13).

Nos anos 90 andei em trens de subúrbio em São Paulo em que algumas portas não fechavam, o trem ia a toda a velocidade com portas abertas.

Hoje isso não ocorre mais, que fique bem claro. Então hoje os trens de São Paulo são seguros.

Mas um dia não foi assim, era o chamado “trem da morte”, cujo lema era “pague pra entrar, reze pra sair”, e eu presenciei essa situação pessoalmente.

Em Fortaleza deve ter ocorrido o mesmo, aposto que até os anos 90 os trens eram igualmente perigosos. Mas hoje não são, é o que importa.

De Volta pro Futuro“, ops, perdão, essa é uma postagem minha que também fala de Fortaleza. De Volta pro Passado, isso sim, e de volta a capital do Ceará. Começo dos anos 90: sanfonado da CTC na pintura livre toma um bom banho pra iniciar mais um dia de trabalho.

Os vagões foram reformados, mas a linha ainda não. É pista única, compartilhada nos dois sentidos.

Apenas em algumas estações a linha se divide, aí quando duas composições vem em sentido contrário nesses locais elas podem se cruzar com segurança.

Mas na maior parte do trecho é pista única. Isso e mais ser dividida com o trem de carga impede uma frequência maior.

Porque se houvesse a modernização, muito, mas muito mais gente usaria, como aconteceu na Linha Sul, virou metrô e ‘pegou’.

Outra deles, na 1ª padronização eram 3 pinturas, essa era uma delas. Na 2ª padronização essa pintura encampou tudo, todos os busos ficaram assim nos anos 90, recapitulando.

O METRÔ VEM AÍ, FORTALEZA ENTRA NOS TRILHOS  –