Khayelitsha É África: só eu e Deus na “Zona de Perigo”

Durbã, África do Sul, abril de 2017: pela 1ª vez na vida andei de camburão – mas eu não fui preso, os policias me deram uma ‘carona’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de setembro de 2017

Maioria das imagens batida pessoalmente por mim (incluso essa ao lado, dentro do camburão da polícia em Durbã – não é brincadeira nem montagem!)

Identifico na legenda o que veio da internet.

……

Galera, custou mas solto mais uma matéria. E não qualquer uma, vamos relatar minhas voltas na ‘Zona Vermelha’ da África do Sul.

África do Sul é fogo, mano!!! Não é maneira de falar. O ”Micro-Ondas” (prender uma pessoa entre pneus e incendiar), depois tão popularizado pelas favelas cariocas, foi inventado lá. Soweto, 1990, ainda no ‘apartheid’: um negro queima outro negro. Xhosas e Zulus se mataram entre si violentamente no fim do regime racista. Embora bem amenizadas, as guerras de negros x negros ainda persistem. Essas fotos em P-&-B com legendas vieram do livro “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original). Abaixo a página a capa e mais detalhes. Aqui já valeu pra abrirmos os trabalhos, pra vocês saberem com que vibração estamos lidando.

PARTE 2: DEMOCRACIA – MAS O PAÍS AINDA SANGRA

Bota ‘vermelha’ nisso. Na África do Sul a violência urbana está na estratosfera, exatamente como no Brasil.

Em 2015 a Cidade do Cabo teve mais de 2,4 mil assassinatos. São 3,7 milhões de habitantes, portanto taxa de 65 por 100 mil.

O Cabo é uma cidades mais lindas do mundo, já mostrei um pouco nessa matéria, breve subirá outra.

Mas com esses números dignos de uma guerra, também uma das mais violentas do planeta, ao lado de Fortaleza-CE e Maceió-AL no Brasil, Baltimore, Detroit e Nova Orleans nos EUA, e várias metrópoles da Colômbia, Venezuela, México e América Central.

Joanesburgo e Durbã estão um pouco menos pior. A violência ainda é altíssima, em ambas além de 30 por 100 mil.

O que as coloca próximas ou um pouco acima do que acontece em Belo Horizonte-MG, Curitiba, Porto Alegre-RS, e o Rio de Janeiro.

(Ressalto que os dados que eu tenho do Rio são de 2014, e infelizmente houve piora de 3 anos pra cá.)

Quase pousando: veja o tamanho das favelas que cercam o Aeroporto na Cidade do Cabo. Todas as casas são de zinco, as famosíssimas ‘Cidades de Lata’ sul-africanas.

Tudo somado, vemos que África do Sul e Brasil estão empatados nessa triste competição. O pânico que as pessoas sentem aqui e lá também é o mesmo.

Andei até de camburão em Durbã, e está relacionado a esse pavor da violência. Mas já chegamos lá. Vamos antes fazer uma recapitulação de como a coisa atingiu nesse ponto:

O ‘apartheid’ oficialmente durou de 1948 a 1994, menos de meio século. Mas na prática 1 século inteiro.

Desde que os brancos pisaram lá, em fins do século 19, existiram leis que proibiam os não-brancos (negros, indianos, chineses) de ocuparem cargos públicos e no clero.

Outra favela da Cidade do Cabo, agora ao nível do solo: um ‘duplex’ de latão.

Em alguns lugares os não-brancos não podiam nem mesmo usar as calçadas, tinham que andar pelo meio das ruas dividindo espaço com os carros.

E numa república africâner (o Estado Livre Laranja, holandês, que depois virou um estado da África do Sul quando os ingleses invadiram) os indianos não podiam sequer residir. O Estado era ‘Livre de Indianos’.

Somente pra eles atravessarem o estado de passagem já era necessário um visto especial.

Favela em Soweto, Joanesburgo, no mesmo modal. Atrás uma cohab que já visava urbanizar o bairro, mas novas invasões tornam a missão ‘o Trabalho de Sísifo‘. Mais pra baixo na página veremos mais fotos desse local. Imagina como é morar numa casa de metal com teto baixo, sem forro e sem janelas. Um pouco quente no verão, será? Quase um ‘micro-ondas’.

Inclusive foi por causa disso que Gandhi (sim, ‘aquele’ Gandhi) viveu 21 anos na África do Sul.

E ali começou sua militância – o plano inicial era ficar apenas uns meses e não se envolver com política.

Mas ele se envolveu porque já havia ‘apartheid’, embora sem esse nome.

Nesses 3 exemplos acima estou falando da virada do século 19 pro 20, meio século antes do ‘apartheid’ oficial portanto.

Claro, depois que esse veio, aí tudo piorou de vez.

Aqui e a esquerda: ‘Cracolândia’ nos trilhos de trem no Centrão de Durbã. Os nóias já moram nessas barracas, é a ‘Cohab da Droga’.

Contei essa história com muito mais detalhes em matéria específica. Aqui o que nos importa é: por todo século 20 os negros (e também os indianos) resistiram ao regime racista.

Nos anos 60 o CNA (Congresso Nacional Africano) iniciou uma ofensiva capitaneada por Nélson Mandela.

Os ‘robozinhos’ saem de buracos nas paredes, como ratos.

Mas logo esse grande líder (que depois viria a ser o primeiro presidente negro sul-africano) foi preso, junto com outros cabeças da resistência negra.

Assim a primeira metade dos anos 70 foi calma. Uma calma injusta, óbvio, os negros como escravos em sua própria terra.

Paz sem voz não é paz, é medo”, como alguém bem definiu.

Klaarwater, Grande Durbã: na maior parte das favelas sul-africanas não há qualquer saneamento, as casas não têm água, que precisa ser buscada numa bica na entrada da favela – Lata d’Água na Cabeça.

Em 1976 explode a ‘Revolta Estudantil de Soweto’, Joanesburgo. A partir daí a África do Sul nunca mais se acalmou.

E já se vão 41 anos no momento que levanto essa matéria pro ar. Em 1984 nova revolta eclode. Assim, na segunda metade dos anos 80 a coisa explode de vez.

O ‘apartheid’, na pessoa do presidente P. W. Botha, abole algumas leis racistas, como por exemplo a que proibia casamentos inter-raciais, e a que impedia negros de possuírem casas na maior parte do território sul-africano.

Também Durbã (essa via ‘Google Mapas’): aqui fica claro, a torneira pro pessoal pegar água. Em verde os banheiros químicos, aqueles que no Brasil são alugados pra obras. As favelas da África do Sul não têm redes de saneamento básico, enfatizo outra vez, então colocam isso aí como paliativo, pra não ser ao ar-livre mesmo. E o esgoto correndo a céu aberto.

Em compensação, o regime racista parte pra ofensiva total contra a resistência negra.

Internamente milhares sobre milhares de ativistas são presos e severamente torturados, dezenas ou mesmo centenas assassinados.

Externamente, a Força Aérea Sul-Africana bombardeia vários países vizinhos, que abrigavam células de grupos políticos banidos na África do Sul.

Mas não adianta nada, a hora chegara. Em 1989 Botha, o “Grande Crocodilo” como era chamado, é afastado, por problemas de saúde.

Voltam as tomadas de minha autoria. Favela em Soweto, Joanesburgo. Novamente em verde os banheiros químicos.

Assume em seu lugar Frederico De Klerk (eu aportugueso os nomes sempre que possível, lembre-se). Ele inicia o desmantelamento do ‘apartheid‘:

Solta Mandela e vários outros presos políticos, legaliza os sindicatos, partidos e demais organizações negras, e prepara o caminho pra democracia.

Ainda Joanesburgo, mas agora na Zona Central: atrás da garagem da Metrobus, mais uma favela – de novo os banheiros químicos em verde.

A extrema-direita dos brancos racistas reage, e inicia uma campanha de terrorismo pra frear a abertura.

De Klerk, pra não levar a culpa sozinho caso a nação fosse esfacelada num banho de sangue, consulta a população num plebiscito (exclusivo pra brancos) se a transição deve continuar.

Felizmente a maioria dos brancos sul-africanos estavam cansados do ‘apartheid’, e referenda nas urnas a iniciativa de De Klerk.

No Centrão de Joburgo há muitos prédios vagos – vários deles invadidos, como esse aqui.

Assim o processo segue, e culmina na eleição de Mandela pra presidente em 1994.

Tudo isso já contei com mais detalhes antes, repetindo. O que é relevante pro nosso tema de hoje:

Na virada pros anos 90 os negros perdem a paciência de vez, e também partem pra ofensiva final.

Intensificam as ações políticas pra queda do ‘apartheid’, o que é excelente e justíssimo, óbvio.

Esse prédio popular (varais no teto, tradição sul-africana) também é atrás da garagem de ônibus.

É cristalinamente evidente que um povo oprimido tem todo o direito de lutar pra romper seus grilhões.

Porém há um efeito colateral: no ano de 1990 os negros iniciam uma guerra entre si. A África do Sul tem diversas tribos africanas na composição de sua população.

Basta dizer que são 11 línguas oficiais, o inglês e o africâner (dialeto do holandês) de origem europeia, as demais 9 são africanas nativas (todas elas agora representadas no dinheiro da nação).

Próximas 2: pedintes no Centro de Durbã. 90% dos sem-teto sul-africanos são negros. Nesse sinal haviam vários, mais alguns na transversal, mesmo sob chuva. Sejam da raça que forem, os que pedem esmola nos faróis do país sempre fazem esse mesmo gesto com as mãos juntas, dizendo ‘pelo Amor de Deus me ajude!’.

Então são várias etnias de negros. Mas as duas principais são o Zulu e o Xhosa.

E na reta final do ‘apartheid’, os negros compreensivelmente estavam no limite, por isso zulus e xhosas iniciam uma guerra uns contra os outros.

Sim, negros contra negros. A coisa foi muito sangrenta.

Houveram fins-de-semana em que os mortos se contaram as dezenas em cada uma das muitas favelas de Joanesburgo e demais cidades do país.

Embora minoria, há sem-tetos caucasianos na África do Sul. Em todas as cidades, mas notadamente em Durbã, onde vi vários, fotografei esse. A definição não ficou das melhores pois cliquei de um ônibus em movimento, e que ainda tinha película nos vidros, escurecendo a cena. Mas amplie e observe com cuidado e lerá que o cartaz dele inicia-se com “Please Help…”.

Sim, os negros também combateram as tropas do ‘apartheid’, óbvio. Mas igualmente se combateram entre si, encarniçadamente.

Eu não conhecia os detalhes dessa história, se quer saber. Mas no apartamento que eu fiquei em Joanesburgo havia um livro, chamado “O Clube do Bangue-Bangue” (‘The Bang-Bang Club’, no original).

Foi escrito por 2 fotojornalistas. Eles e outros 2 cobriram a guerra na África do Sul nos últimos 4 anos do ‘apartheid’ (1990/1994).

Um deles foi morto com um tiro exatamente no meio dessa guerra, com um tiro numa rua de Joanesburgo, em 1994.

Outro se afastou, se eu não me engano acabou se suicidando, não tenho certeza. O fato que ele saiu do grupo.

Sobraram 2, que escreveram o livro, publicando fotos de autoria dos 4 que trabalharam juntos no período crítico.

Eu não pude ler o livro, não houve tempo. A obra é extensa, e fiquei apenas 4 dias nesse apê, andando pelas ruas quase o tempo todo.

Se eu fosse dedicar o tempo necessário pra apreciar esse relato, não poderia eu mesmo ter feito minhas próprias investigações de campo.

Paciência. Se um dia achar esse livro no Brasil, ou na internet, o lerei. Lá na África não teve como. Mas eu fotografei as imagens mais impactantes, e as reproduzo aqui.

Uma imagem que correu o mundo (também do livro). Março de 1994: grupo da extrema direita foi se intrometer no regime de um bantustão. Esses 4 Homens foram executados pelas tropas do bantustão. 3 já estão caídos sem vida, mas o último ainda implora misericórdia, em vão.

Por essas chocantes cenas nós captamos o grau de ferocidade que foi liberado nas ruas sul-africanas no ocaso desse regime racista que jamais deveria ter existido pra conversa começar.

Muito sangue correu, tanto no enfrentamento de negros contra brancos, como dos próprios negros entre si.

O choque político entre as raças não existe mais. O ‘apartheid’ acabou. Os negros estão no poder político.

E uma porção significativa da população nativa de pele escura ascendeu a burguesia, há hoje bairros de elite habitados majoritariamente por negros.

No entanto as favelas ainda são 100% negras. Ou 98%.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo: assim é a reciclagem na África do Sul. Não há separação prévia, tudo é jogado junto, reciclável junto com lixo de cozinha e banheiro. Alguns infelizes miseráveis, que dependem disso pra sobreviver, têm que abrir as lixeiras, separar o que recicla (veja o grande saco branco aberto atrás dele, é ali que ele joga o que vai aproveitar), e fechar de novo. Digo, em alguns bairros ricos há coleta seletiva com separação prévia, mas é raro. No geral é como veem aqui.

Há algumas favelas formadas por brancos, mas são raríssimas. No geral elas são quase sempre reservadas aos de pele escura.

Compõe o problema que a África do Sul, sendo o país mais desenvolvido da África, recebe imigrantes ilegais de todo continente.

A convivência entre estrangeiros e sul-africanos nem sempre é pacífica, criou-se aí mais um foco de tensão de negros x negros.

A classe média é integrada, desde a classe média-baixa até na média-alta há negros e brancos (em Durbã também indianos).

A elite ainda é majoritariamente branca, e há sim brancos pobres (especialmente na Cidade do Cabo), embora minoria.

Ou seja, os brancos sul-africanos ainda detém grande parte dos privilégios econômicos que amealharam em um século de hegemonia tirânica.

Próximas 2: orla da Zona Sul da Cidade do Cabo (a “Riviera”). Um lugar belíssimo, mansões de milionários espremidas entre o morro e o mar. É de cair o queixo de tão lindo!, confira esse ensaio. Várias casas têm seu teleférico particular, é mole ou quer mais?

Ainda assim, a população branca sul-africana vem diminuindo, vários estão emigrando pra diversas partes da anglosfera (EUA, Inglaterra, Austrália).

Seja como for, criou-se uma acomodação entre negros e brancos. Malgrado a tensão política, não há derramamento de sangue atualmente.

O mesmo não se pode dizer entre os próprios negros. Entenda, não é uma questão racial, e sim social.

Não estou sendo racista, e dizendo que o branco é mais pacífico, exatamente o contrário é verdadeiro.

Mas a concentração de renda é altíssima. A mesmo cena, rapaz negro revira o lixo em busca de algo reciclável pra revender.

Primeiro, a raça branca é quem comanda o capitalismo global, e é a raça branca quem mata milhões em suas guerras de pilhagem mundo afora.

Apenas no Iraque foram mais de 2 milhões de mortos contando desde 1991 (alguns falam em 3), e no Vietnã mais de 4 milhões, pra citar apenas 2 guerras de agressão dos EUA.

Segundo, os brancos já se mataram muito entre si, na Europa e em toda parte. A história da Europa é de grande derramamento de sangue, até a Segunda Guerra Mundial.

Próximas 3: veremos 3 favelas diferentes em Soweto, Zona Oeste de Joanesburgo.

Apenas nas últimas décadas os europeus se acalmaram um pouco e não se matam tanto entre si.

Agora dirigem suas baterias contra países mais fracos que não podem se defender, como fizeram com a Líbia em 2011.

Além disso, no Sul do Brasil é sabido que  a periferia das grandes e médias cidades têm enorme contingente de euro-descendentes.

Observe as pedras pro telhado não voar com o vento, manifestação universal que eu também fotografei na Argentina (breve no ar).

E ali brancos matam brancos com a mesma frequência que negros matam negros na África do Sul.

O mesmo ocorre nos EUA, milhares de caucasianos são assassinados todo ano por outros caucasianos.

No passado, brancos guerrearam entre si de forma absolutamente brutal, na Europa e também na África.

Ainda Soweto. A frente uma invasão, as casas ao fundo não pertencem a favela. Destaquei o painel solar. Na África do Sul a reciclagem ainda engatinha. Em compensação, o uso de energia solar é mil vezes mais desenvolvido que no Brasil. Mesmo a periferia, mesmo na borda da favela.

Se alguém não sabe, foram os ingleses quem inventaram o campo de concentração. E inventaram na África do Sul, prendendo os holandeses na ‘Guerra dos Bôeres’.

Prendendo os civis, eu digo. Homens não-combatentes e Mulheres. A mãe de P. W. Botha (penúltimo [e ultra-racista] presidente branco sul-africano) foi encarcerada pelo Exército Britânico num campo de concentração.

Mesmo sendo do sexo feminino e não tomando parte nos combates. Ao lado dela foram outras dezenas de milhares.

Mesmo na África do Sul contemporânea, os brancos ainda cometem assassinatos entre si. Quando estava na Cidade do Cabo, a mídia sensacionalista deva grande destaque ao julgamento de um sul-africano de ascendência europeia.

Ele era acusado de ter chacinado toda sua família – com golpes de machado, nada menos. O para-atleta caucasiano sul-africano André Pistorious também foi condenado e preso por matar sua igualmente alvíssima namorada.

Próximas 10: vamos mostrar Atlântida (‘Atlantis’ no original). Uma cidade pequena e pobre. Ainda pertence a região metropolitana da Cidade do Cabo, mas é bem distante, são 40 km, é preciso pegar mais de 1 hora de estrada. Começo mais uma vez destacando o painel solar. Na África do Sul usar a energia do Sol não é brincadeira de burguês, quase um passatempo de de gente rica. Não. Veja a imagem, uma casa simples, na periferia de um subúrbio afastado e esquecido. Ainda assim, utilizando esse modal.

Escrevi todos os parágrafos acima pra mostrar que não, eu não sou racista. Não estou dizendo que os de pele clara são pacíficos ou civilizados, e que os de pele escura são brutalizados por serem instintivos.

É uma questão social, e não racial. Onde brancos habitam em grande número as favelas, se matam entre si em profusão, por exemplo aqui em Curitiba.

E nos bairros negros da alta-burguesia, na África do Sul ou toda parte, os homicídios são raríssimos quando não inexistentes.

Claro, também não estou dizendo que quem tem dinheiro é mais evoluído espiritualmente, porque o contrário geralmente é que é verdadeiro.

Quem acompanha meus textos há mais tempo sabe muito bem o que penso das Oligarquias, a ianque e todas as outras.

Apenas é um fato, os barões oligacarcas muitas vezes eliminam outros seres humanos, mas rarissimamente o fazem com as próprias mãos.

Periferia típica sul-africana (muito parecida com a do Paraguai). O carro é Golf, já falo mais disso

Podemos discutir filosoficamente as razões disso, mas não podemos negar que é assim.

As vezes acontece, recentemente os casos Nardoni e em 1988 o da ‘Rua Cuba’ no Brasil e o próprio Pistorious na África do Sul são as exceções que confirmam a regra.

Com essas poucas exceções, os bairros ricos e de classe média-alta quase não têm assassinatos, no continente do mundo que forem e habitados por qualquer raça.

Esses muros pré-moldados fazem sucesso lá. No Brasil idem. No bairro que fui criado (Santa Cândida, Z/N de Ctba) haviam casas que utilizavam.

Enquanto que as favelas e guetos são quase sempre violentos, em toda parte e independente do tom de pele majoritário.

……….

Desculpe toda essa justificativa, é só pra que não tenham a impressão errada e achem que sou racista ou qualquer coisa do tipo. Eu não sou. Apenas analiso os fatos. E os fatos são:

As favelas e periferias da África do Sul estão imersas em um banho de sangue.

Casa nº 64. A próxima a esquerda é a 62, e a 1ª a direita é a 66. Na África do Sul a numeração é diferente do Brasil. Bauru-SP segue um sistema único (também adotado na Colômbia), em que as quadras são numeradas, e aí as casas são contadas em relação a quadra e não a rua. Brasília-DF também criou um novo modal, digamos até um novo paradigma, pois Brasília é uma cidade peculiar em múltiplas dimensões. Mas no geral no Brasil as moradias são numeradas conforme a metragem da rua ou avenida. Na África do Sul é diferente, repito. De um lado da rua são as pares, do outro ímpares. Isso é igual no Brasil. Mas na África do Sul a numeração não segue metragem. A 1ª casa do lado ímpar é a ‘1’, depois vem a ‘3’, a seguir a ‘5’, e assim vai. Idem na outra face: a primeira casa é ‘2’, sua vizinha é a ‘4’, etc. Pra fechar esse tema, revelo que minha rua, a ‘Ciclovia’, segue o modelo sul-africano. Mas aqui é ocupação irregular (Canal Belém, Boqueirão), logo a numeração também é irregular.

O que começou como uma rebelião contra o ‘apartheid’ rapidamente desandou pra um violento acerto de contas entre as tribos negras, processo que embora amainado ainda não terminou.

Some-se a isso a violência comum, “que não envolve política”. Entre aspas porque todo processo social é político.

Quando países como África do Sul e Brasil (e boa parte da América Latina e também dos EUA) se tornam extramente violentos, as causas são políticas, e a solução também o será.

Mas por “não envolver política” eu digo por não envolver grupos e objetivos políticos, apenas quadrilhas comuns brigando por butins ou territórios.

Ou então cidadãos trabalhadores mas que quando embriagados/drogados matam suas esposas ou outros Homens no bar por motivos fúteis.

O resultado é esse aqui: Cidade do Cabo, 2.451 homicídios em 2015. Com uma população de 3,7 milhões, dá 65 mortes/ano por 100 mil moradores. Índices de guerra.

Nesse caso é a população da ‘prefeitura metropolitana’. A divisão política da África do Sul é diferente da nossa, lá há 4 esferas de governo, e não 3 como aqui.

O que seria o ‘condado’ dos EUA na África do Sul tem sua própria gestão, a ‘prefeitura metropolitana’ que citei acima.

Joanesburgo, 4,4 milhões, teve 1.344 mortes intencionais no mesmo ano, 30 por 100 mil.

Nesse caso não inclui toda região metropolitana, pois a Grande Joanesburgo já tem quase 10 milhões, bem mais de 8 com certeza.

O governo entregou uma casa de cohab, de alvenaria. O cara faz por conta no fundo um ‘puxadinho’, de papelão e madeirite.

Durbã teve 1.237 assassinatos no período. Com 3,4 milhões na ‘prefeitura metropolitana’ de eThekwini, temos 35 pra 100 mil.

(Nota: eis o nome nativo pra ‘Durbã’, assim mesmo, com a inicial minúscula e a letra maiúscula no meio da palavra, obviamente a gramática zulu é bem diferente da ocidental.)

Todas as grandes cidades sul-africanas são bastante violentas. Vou analisar só as 3 maiores. Vejamos como a coisa oscilou no decorrer das últimas décadas.

Há 3 termos pra dizer ‘mercearia’ ou ‘mercadinho’ na África do Sul: ‘Tuck Shop’, ‘Take-Aways’ ou ‘Superette’. Outro detalhe: a Coca-Cola é oni-presente no país. Seu logo está em 90% das fachadas dos mercadinhos, mas não apenas isso. Seu braço é tão comprido que mesmo várias floriculturas, farmácias, enfim, estabelecimentos que não vendem alimentos como atividade principal, têm seu letreiro pago pela Coca-Cola. Falo melhor dos refris, incluso com fotos, em outra postagem (breve).

Primeiro, houve uma reversão de polaridade. Historicamente, entre as 3, Joanesburgo sempre foi a mais violenta, desde a era do ‘apartheid’.

E a Cidade do Cabo a mais calma. Agora houve uma inversão, como vimos.

Durbã, por outro lado, estava em segundo antes, e se mantém. As pontas é que trocaram de lado.

E crítica como a coisa está, já foi pior. A virada dos 80 pros 90, o apagar das luzes do ‘apartheid’, marcou a explosão da violência, que se manteve e se acentuou no mandato de Nélson Mandela.

Quando virou o milênio, Durbã tinha mais que o dobro, quase o triplo da violência atual. Chegou a registrar 80 assassinatos por 100 mil habitantes.

Ou seja, está crítico mas já foi muito, mas muito pior, calamitoso no sentido exato do termo.

Ainda estamos em Atlântida, próximo a Cid. do Cabo. Vamos ver agora as cohabs em pombais, que são muito comuns lá. Nesse caso, como o teto é com telhado e não com laje, o varal é no chão.

A mesma redução se deu em Joanesburgo. Já o Cabo ainda está por dar esse passo, ali a violência está no pico, infelizmente.

………

Comparemos com o Brasil, nesse caso os dados são de 2014:

Fortaleza, com 1.989 homicídios, tristemente ocupou o triste recorde de município mais violento do Brasil, em termos absolutos.

Proporcional a população, 73 por 100 mil, pior que a África do Sul.

Puxadinho no prédio, como também fazem no Chile.

Maceió é um pouco menos pior, 69/100 mil. No ano anterior fora mais sinistro.

Em 13 a capital de Alagoas teve nada menos que a pavorosa taxa de 81 assassinatos pra cada 100 mil habitantes.

Salvador em 14 teve 1.397 casos. Como a população é bem maior que a de Fortaleza, ficou em 48 por 100 mil.

Aqui fechamos Atlântida, na Gde. Cidade do Cabo. Muito, mas muito parecido com o Chile, me senti de volta em Maipú, Z/O de Santiago.

Em 2013 a capital da Bahia havia virado acima de 50.

Em São Luiz do Maranhão em 2013 foram quase 70 mortos por 100 mil habitantes, em 14 houve boa redução pra 61.

Ainda assim, apenas um pouco a menos que o aquilo que a Cidade do Cabo teve no ano seguinte.

Segura essa: clínica alerta contra “falsos médicos vendendo pílulas na rua e dizendo que trabalham aqui“. Em pleno Centrão de Joanesburgo. Isso também é a África do Sul, amigos!

Em Curitiba em 2014 houveram 30 mortes por 100 mil moradores. Índice altíssimo, apenas um pouco melhor que na África do Sul. Mas que já foi bem mais macabro.

No ano de 2010 Curitiba teve 979 assassinatos, o que fez com que o número por 100 mil ficasse em 55 (breve levanto pra rede levantamento detalhado desse desastroso período):

Atrás apenas de Maceió, João Pessoa-PB, Vitória-ES, Recife-PE e São Luiz.

Alias Maceió em 2010 virou acima de 100 por 100 mil, ou seja, eram tantas mortes lá que de cada mil maceioenses mais de um foi assassinado naquele ano.

Até a Força Nacional Federal teve que intervir pra baixar um pouco essa carnificina.

No Sudeste, Belo Horizonte teve 24 de seus moradores assassinados pra cada grupo de 100 mil em 2014, no Rio foram 20.

Sem-tetos dormem pelas ruas e praias do país. Na orla do Cabo uma Mulher branca, os demais africanos nativos.

Embora lamentavelmente na capital carioca tenha havido novo aumento de lá pra cá.

E São Paulo hoje é a capital menos violenta do Brasil, pelo menos no quesito de um ser humano tirar intencionalmente a vida de outro.

Foram 1.360 desses crimes em 2014. Mas divididos por 11 milhões de habitantes vemos que o índice é 11 por 100 mil, número que não faria feio na Europa.

Bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo, onde ficamos hospedados. Logo atrás de onde dorme o sem-teto da foto anterior mora uma família que mostra solidariedade a Palestina. Pelos negros sul-africanos (e também os indianos) terem sofrido por tanto tempo o ‘apartheid’, em várias partes há protestos pela forma com que Israel trata os palestinos. Organizações sionistas contra-atacam e espalham cartazes dizendo que Israel é “democracia”.

Nota: eu sei, em termos de roubos a maior metrópole brasileira continua violentíssima. Eu sei. Aqui falo somente do quesito de assassinatos.

Não é agradável quando alguém lhe tira seus bens de forma violenta – definitivamente não é.

Ainda assim é óbvio que ter a oportunidade encarnatória interrompida violentamente é bem mais traumático.

Então embora falte muito por fazer, precisamos reconhecer que pelo menos nesse ponto importantíssimo houve avanços.

Não apenas em São Paulo, diversas cidades brasileiras hoje estão mais calmas em relação aos anos 90 e 2000, mas SP teve a maior redução.

A capital paulista já teve 5 mil assassinatos por ano, hoje fica pouco acima do 1º milhar.

Bem, teve menos assassinatos que Durbã, cuja população é mais de 3 vezes menor.

……….

Brancos no Centro do Cabo, onde eles são muito comuns. No Centro do Durbã e Joanesburgo não há caucasianos. Simplesmente não há.

Portanto essa é a situação. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste Brasileiros são violentos, mas um pouco melhores que a África do Sul.

Enquanto que o Norte e Nordeste de nossa pátria têm no geral índices similares as maiores metrópoles sul-africanas.

Curiosamente, hoje a periferia da Cidade do Cabo é bem mais sangrenta que as de Durbã e Joanesburgo. Mas seu Centro é mais civilizado.

A Cidade do Cabo é cidade mais integrada da África do Sul. No Cabo você brancos aos montes no Centro. Aos montes.

Fotografei uma viatura no Centro de Durbã. Vejam o que é o ‘6º Sentido’: já visitei centenas e quem sabe milhares de cidades em boa parte do Brasil, vários países da América e agora África. Nunca havia fotografado um carro de polícia, porque esse não é um tema que me interesse estudar. Em Durbã, o fiz. Mal sabia eu que 2 dias depois estaria dentro de um deles, coisa que igualmente nunca havia me ocorrido. Digo, eu não sabia conscientemente, mas de alguma maneira, em outra dimensão, eu sabia, e por isso houve a foto. É possível prever o futuro, não?

Não apenas o brancos ainda moram no Centro, como também trabalham ali, e não têm medo de sair as ruas.

Em Pretória, ainda que em escala menor, a situação se repete. Retratei na foto acima a direita.

Já em Joanesburgo e Durbã é completamente o oposto. Não há brancos nos Centrões de Joanesburgo e Durbã. Não há, simplesmente não há. Zero, nada, nenhum.

Logicamente toda regra tem exceção. Se você for muitas vezes ao Centro dessas metrópoles, muito de vez em quando você vai trombar com um euro-descendente, é evidente.

Vai acontecer, não é proibido, então a norma não é absoluta. Mas será raríssimo, é mais fácil você achar uma nota elevada de dinheiro que uma família de brancos no núcleo central dessas metrópoles.

Digo, há alguns sem-teto brancos, especialmente em Durbã. A imensa maioria dos sem-tetos sul-africanos são negros, eu diria que 95%.

Não deu outra. Aqui estou eu, pela 1ª vez na vida dentro de uma jaula. Mais abaixo no texto dou os detalhes.

Porém há alguns caucasianos. Fotografei uma Mulher sem-teto que dormia numa praia da Cidade do Cabo, viram acima.

Mas, digo ainda mas uma vez, em Durbã foi a cidade que mais vi moradores de rua euro-descendentes, de pele alva. Vários.

Inclusive eu andava por uma rua da parte barra-pesada do Centrão de Durbã, e um sem-teto branco, sem que eu pedisse, veio me orientar:

Os sul-africanos são muito calorosos, e gostam que tirem fotos deles. No Centro de Pretória, quando essa moça viu que eu clicava a cidade, pediu que eu registrasse seu retrato, situação que se repetiu em Durbã e Joanesburgo. Atrás dela a vitrine mostrava vestidos de noiva. Ela disse “aqui não, porque eu já sou casada”. Demos uns passos pro lado e “1, 2, 3, diga ‘xis’ “, e aqui está ela, fazendo poses com as mãos e tudo mais.

“Não entre nessa rua, é muito perigoso”, ele apontou numa direção na esquina. “Muito perigoso”, enfatizou.

Além dele, vi outros mendigos caucasianos nessa cidade, um deles morava sob as marquises no mesmo bairro que ficamos.

Claro, mesmo em Durbã a imensa maioria dos que não têm casa são negros. Apenas ali há uma minoria significativa de brancos, que não vi nas outras cidades.

Isso estou falando de moradores de rua. Eles são (praticamente) os únicos brancos no Centrão de Durbã.

As praias de Durbã são plenamente integradas, negros, brancos, indianos, todos estão ali, incluso há casais inter-raciais.

Estava num restaurante da orla de Durbã, e era curioso. Nas próximas 4 mesas haviam 2 famílias de negros, 1 de brancos e 1 de indianos.

Nas areias, dentro d’água e no calçadão todos convivem em plena harmonia.

Fotografei a direita uma escola particular que levou seus alunos de pele alvíssima pra uma aividade a beira-mar.

Mas no Centrão, só negros e indianos, nenhum branco (exceto sem-tetos, aqui não me refiro a eles).

Joanesburgo não tem mar, então não vi nenhum branco no Centro, nem mesmo dormindo nas ruas.

Comércio atendendo gradeado em Joanesburgo. Mesmo de dia, mesmo no Centrocomo na Colômbia (nota: a cliente tinha um defeito físico na cabeça, por isso ocultei ainda que ela estivesse de costas).

E, sim, boa parte do Centrão de Joburgo está bem detonado, ali nem os negros de classe média vão, só a ralé.

Vou explicar pra vocês entenderem. O Centrão de Joanesburgo pode ser dividido em 2 partes, Centro Velho e Centro Novo.

O Centro Velho é horroroso. Um gueto enorme. Muito lixo nas ruas, muito crime, forte cheiro de urina em algumas partes, casas e prédios abandonados, vários deles invadidos.

Camelôs, confusão total. Ali, repito, nem mesmo os negros que são de classe média têm coragem de frequentar. É só povão mesmo, muitos deles nem são sul-africanos:

Por toda Soweto essas placas de rua contam a história do ‘apartheid‘. Amplie pra ler, o nome (acrônimo de ‘South-Western Township’, algo como ‘Assentamento Sudoeste‘) foi escolhido em 1963 após um debate de 4 anos. Em 68 decidiram que as Mulheres não poderiam ser proprietárias de casas. Não pude ler ou fotografar mais porque não andamos a pé em Soweto, fomos de ônibus urbano normal, sem qualquer guia ou acompanhante, mas nem saímos do terminal, dali retornamos ao Centro. Essas foram as que consegui clicar do veículo em movimento. Pude ler de relance que outra placa dizia “Um lugar onde se passava fome”.

Nigerianos principalmente, mas imigrantes também de vários outros países africanos tomaram conta de vários quarteirões pra si.

Em muitas ocasiões a convivência com os sul-africanos não é pacífica, diversas campanhas contra a xenofobia tentam pacificar os ânimos, nem sempre com sucesso.

Já o Centro Novo de Joanesburgo é limpo e civilizado. Hotéis, restaurantes e comércio sofisticados garantem uma freguesia requintada:

Homens e Mulheres em roupas e carros caros. Ali, os camelôs são proibidos, e os garis deixam ruas e jardins impecáveis.

Mas mesmo nessa parte agradável e mais segura não há brancos, só negros.

Aqui e a direita, catadores de material reciclável. Esse em Soweto, Joanesburgo – a frente dele as oni-presentes vans, quase todas são brancas e Toyota como essa.

E não é que não existam brancos na Grande Joanesburgo. Ao contrário, são 1,5 milhão de Homens e Mulheres de ascendência europeia.

Isso se você aceitar a cifra de 10 milhões de habitantes, que eu acho que é correta.

É que os brancos de Joanesburgo se impuseram um auto-‘apartheid’:

Vivem e trabalham nos subúrbios a moda ianque nas Zonas Norte e Leste da cidade, deixando o Oeste, Sul e o Centro pros negros.

Mesma cena em Pretória, catador de lixo perto de van Toyota branca. Embora ali essa marca também predomine, em Pretória – e somente em Pretória – há expressiva minoria Volkswagen, curiosamente cliquei 2 da mesma cor.

(Nota: não muito diferente dos brancos de Acapulco. Os ricos – única classe social que os brancos são maioria no México – moram e trabalham nos subúrbios próximos ao aeroporto. 

Acapulco é uma baía cercada e portanto emoldurada por uma serra. A elite mora ‘do outro lado do morro’, e jamais cruza a montanha.

Pra não se misturar com o povão, que tem pele bem escura mas não como afro-descendente, e sim índios, amero-descendente.)

Cracolândia no Centro de Durbã – ao perceber minha atividade jornalística, um noiado correu até mim e intimou: “Ei, ei, por quê essas fotos? Qual o problema?” Rapidamente lhe dei alguns trocados e ele se acalmou.

Atravessamos o Oceano de novo, de volta a Joburgo. Não por acaso SoWeTo’ é a sigla em inglês pra ‘South-Western Townshp’ (Assentamento Sudoeste).

Pois no ‘apartheid’ o Sul e o Oeste eram onde moravam os africanos nativos.

Mas na época do regime racista, os brancos trabalhavam no Centro, pois a polícia altamente militarizada ‘mantinha os negros no seu lugar’.

Depois da democratização essa intensa repressão não foi mais possível, os negros tomaram posse de suas cidades e passaram a usufruir mais o Centrão.

Antes eles trabalhavam ali, mas qualquer aglomeração de negros fora do local de trabalho era debandada de forma rápida pelas forças de segurança. Agora os africanos nativos são livres pra circularem e se associarem onde e como quiserem. Em ‘retaliação’, hoje são os brancos quem não pisam mais por ali.

Sim, com a ascensão de uma recém-surgida alta-burguesia negra, as mesmas divisões de classe surgiram dentro da raça negra:

Também Centrão de Durbã. A África do Sul está num movimento de substituir os nomes de rua europeus por africanos. Nessa esquina os dois logradouros já cambiaram: a “Doctor Pixley KaSeme Street” é a antiga ‘West St.’. Cruzando aqui com a “Dorothy Nyembe Street”, que antes se chamava ‘Gardiner St.’

Os mais ricos ficam de um lado do Centro, os mais pobres junto com os imigrantes de outros países da África de outro.

A cor da pele pode ser a mesma, mas como a classe é diferente, fica cada um na sua, num ‘mini-apartheid’ interno.

Mas em relação aos brancos a divisão espacial é ainda mais acentuada. Se entre negros pobres e ricos cada um fica no seu lugar no Centro, os brancos não vão mais ao Centro, enfatizo ainda mais uma vez.

Os brancos atualmente trabalham em Sandton, um subúrbio da Zona Norte a moda ianque que é o ‘Novo Centro’ de Joburgo, ao menos pros de pele clara.

Evidente, há negros em Sandton também, agora não se pode mais impedir a entrada deles em qualquer parte. Mas ali ainda há maioria branca.

No Centro de Pretória esse movimento fica ainda mais evidente. Risca ‘Church St.’, não existe mais. A via agora se chama “Stanza Bopape St.”. A transversal é a Rua Steve Biko. Como nessa a mudança é mais antiga as pessoas já assimilaram, não existe a denominação anterior. Mas obviamente essa via (que já existia, é antiga pois estamos bem no Centrão) não tinha esse nome no tempo do ‘apartheid’, uma vez que Steve Biko era inimigo do regime, alias foi severamente torturado e morreu em consequências dos ferimentos que sofreu nas delegacias da polícia política racista (‘SAP’) sul-africana.

No Centrão, seja na parte limpa ou na suja, não há brancos, digo de novo pra encerrarmos Joanesburgo. Agora, no Centrão do Cabo há, e aos montes.

Pelo que lhe falei, Joburgo e Durbã são segregadas. Não legalmente, e agora invertido. Os brancos podem ir ao Centro se quiserem, mas preferem ‘não, obrigado’.

Viajei por via aérea de Joanesburgo a Durbã. No avião e no aeroporto, os brancos eram maioria.

Pois entre a classe média-alta nessas duas cidades os euro-descendentes ainda são maioria, embora não mais oni-presentes como antes.

Apenas optaram pela auto-segregação. ‘Consciência pesada deles’, me disseram os negros quando perguntei do tema.

A Cidade do Cabo não é segregada, disse tudo isso pra chegar a esse ponto.

Os brancos não apenas trabalham no Centro, como transitam sem medo pelas ruas. Mais: eles ainda moram nas imediações.

De volta a Durbã. Na Zona Central da cidade há esse centro administrativo que congrega diversas secretarias municipais. Antigamente na ‘Rua do Forte Velho’, que homenageava a fortaleza construída pelos ingleses, que lhes ajudou a vencer várias guerras contra os holandeses e os negros. O prédio continua no mesmo lugar, mas a avenida agora se chama “K. E. Masinga Rd”. Outro detalhe é idioma. Notam que a construção pública, da época do ‘apartheid’, era bi-língue em inglês e africâner. Porém depois da democratização baniram o africâner de Durbã, toda comunicação visual é em inglês e zulu. As placas antigas permanecem, mas nas novas não existe mais africâner, reitero. Um ‘apartheid’ invertido, antes o africâner era compulsório, o zulu banido, agora é ao contrário. Não precisa proscrever uma pra outra entrar, a comunicação poderia ser tri-língue, inglês, zulu e africâner, contemplando a todos. Alias, o semáforo em frente a esse prédio é assim, a única placa tri-língue que vi em toda Durbã, além da fachada de um quartel do exército.

Coloco isso porque os brancos vão as praias do Centro de Durbã, mas não residem nem remotamente perto. Vão de carro.

No Centro do Cabo é diferente. Digo, a maior parte  dos de pele clara moram em subúrbios segregados – não politicamente mas em termos econômicos:

Não é proibido por lei um negro morar nesse bairros de elite. Simplesmente a maioria deles não têm dinheiro pra fazê-lo.

Então, retomando, boa porção da classe média euro-descendente vive em subúrbios afastados, e, sim, se locomovem de automóvel até seus escritórios no Centro.

Mas não todos. Está sendo feito um bairro pra ricos, muito parecido com o Porto Madeiro de Buenos Aires, se você conhece a capital argentina.

São elegantes prédios com canais artificiais entre eles, o que permite aos moradores remarem estando literalmente na porta de suas casas. Uma ‘Veneza (Itália) moderna’.

Dando um tempo pra política e vendo coisas mais belas e amenas. E bota beleza nisso!! Emoldurada por esse belíssimo firmamento celeste, a Mesa-Montanha – que é um ‘Chacra de Gaia’, a Mãe-Terra, se você tem ‘ouvidos de ouvir’. Aos pés dela, pra levar a galera até a bilheteria do teleférico, um buso do sistema de transportes ‘Minha Cidade’. Céu e um moderno ônibus, tudo azulmesma cena que fotografei no Chile, apenas lá era articulado e aqui micro.

Os brancos sul-africanos adoram caiaques, se você não sabe. Vi vários praticando esse esporte, nas praias do Cabo e Durbã, e nos subúrbios abastados de todas as cidades.

Pois bem. A Cidade do Cabo não apenas é a menos segregada de todas, como ela quer des-segredar ainda mais.

Por isso está fazendo esse bairro pra elite, em pleno Centro. Como a elite ainda é majoritariamente branca, isso mostra que o Cabo quer mais brancos em seu Centro.

Vamos colocar de forma mais apropriada: não é uma questão de raça, mas de classe. O Cabo quer os ricos morando no Centro. Uma boa parcela deles serão brancos.

Mas com o crescimento expressivo da alta-burguesia negra (que tende a aumentar e se consolidar nas próximas décadas) vários dos habitantes desses prédios de luxo serão negros.

Agora com céu nublado, mais uma tomada do bairro ‘Woodstock’, Z/C do Cabo. A herança norte-europeia (inglesa e holandesa) está evidente no conjuntinho de casas alinhadas. A cidade é numa península, alias é exatamente o que ‘cabo’ quer dizer. Por isso, em qualquer parte das Zonas Sul e Central (e começo da Leste e Norte, não existe Z/O pois seria dentro do mar) você vê a cadeia de montanhas como espetacular pano de fundo.

Segregação econômica sem dúvidas, pois a África do Sul é 3º Mundo.

Mas racial não. Se você pode pagar, brancos, negros, mulatos, indianos, orientais, todos são bem-vindos ao Centro do Cabo.

É a situação ideal? Óbvio que não. Mas considere o passado da África do Sul (em que a lei separava brancos de negros, mestiços e indianos, com privilégios pros primeiros).

E compare com as outras cidades sul-africanas atuais (auto-segregação imposta pelos brancos).

Além disso, por seguir o modelo de urbanização ianque, geralmente os ricos e a classe-média alta moram muito longe do Centro, e só se locomovem de automóvel.

O mesmo céu sem nuvens, e de novo um ônibus, agora 2-andares. Centro de Joanesburgo: Praça Gandhi, o terminal das linhas (não-integradas) da viação Metrobus, proprietária desse Volvo/ Marcopolo brasileiro, que dorme na garagem que vimos acima, em cujos fundos há a favela.

Ali no Cabo estão atraindo pessoas que, ao contrário, muitos deles darão prioridade pro deslocamento a pé, de bicicleta e mesmo de ônibus. Sim, existe a segregação econômica.

Mas sem segregação racial nem espacial, gente com bastante dinheiro de todas as raças vai a pé trabalhar, pois é só atravessar a rua. Os tons de pele convivem e não queimam carbono.

Dentro das atuais condições, é um avanço. Não podemos deixar a utopia travar o avanço do que é possível nesse momento. Pois esse avanço será a semente de avanços maiores no futuro.

O Centrão da Cidade do Cabo tem partes feias e sujas, claro, é uma metrópole conturbada e injusta de 3º Mundo.

Mas é muito mais limpo e seguro que os Joanesburgo e Durbã, sem comparação possível. E por isso a classe média, de todas as raças, se sente a vontade por ali.

………

Edifício abandonado do Hotel Carlton, o símbolo da decadência do Centro de Joanesburgo. Inaugurado em 1903 num antigo prédio de 6 andares, era um dos hotéis mais luxuosos da África e mesmo do planeta – por exemplo, mais de um século atrás foi o primeiro do país a oferecer o serviço de telefone no quarto, além de uma forma rudimentar de ar-condicionado. Na década de 60 decidiram construir um enorme complexo, com esse prédio de 30 andares pro hotel, um edifício comercial anexo com 50 andares, e mais um centro de compras. Tudo foi inaugurado em 1972. Dez anos mais tarde, ainda fizeram um anexo de luxo do outro lado da rua, ocupando mais uma construção de 6 andares, uma passarela suspensa sobre o rua os interligava. A história do Carlton é gloriosa, em 1947 recebeu a família real inglesa: o rei Jorge 6º e sua esposa a rainha Elizabete, e suas filhas, as princesas Elizabete (a atual rainha) e Margarete. Entre políticos e cantores euro-estadunidenses, foram hóspedes do Carlton: Henry Kissinger, François Mitterrand, Hillary Clinton, Margaret Thatcher, Whitney Houston and Mick Jagger, entre outros. Nos salões do Carlton ocorreram momentos-chaves tanto do ‘apartheid’ que tentava se manter como de sua queda. Foi ali que o primeiro-ministro linha-dura do regime racista P. W. Botha anunciou um plano ‘de união nacional’ (só entre brancos, claro) pra tentar salvar o ‘status quo’, em 1979. Não deu certo, na década de 80 a oposição interna e externa ao ‘apartheid’ chegou no auge, quando Botha como último cartucho extinguiu o parlamentarismo e se auto-nomeou presidente com plenos poderes, o que também não funcionou. Mandela foi solto e eleito presidente. E foi ali no Carlton que, em 1994, Mandela fez a ‘convenção da vitória após ser eleito, anunciando a nova era que amanhecia na África do Sul.Tudo isso mostra a importância desse hotel pra cidade e mesmo nação. Mas nos anos 80 o boicote ao ‘apartheid’ minou o fluxo de turistas. Depois da democratização acharam que a coisa melhoraria, mas aí foi a decadência urbana quem cobrou seu pedágio. O Centro de Joanesburgo hoje é um grande gueto. Quase ninguém de classe média tem coragem de ir ali, sejam moradores da cidade e muito menos turistas. Em dezembro de 1997, o Carlton veio a pique e cerrou as portas. Um semestre depois o anexo de luxo do outro lado da rua também encerrou as atividades. Permanecem abertos o centro de compras com sua praça de alimentação, e o edifício de 50 andares que abriga os escritórios – no alto dele há um mirante, foi dali que cliquei a garagem de ônibus que viram mais pro alto da página. Como triste lembrança, o mirante ainda está decorado com muitas fotos que mostram a construção e operação do hotel nos seus dias de glória, agora só um passado distante. É uma pena.

Há partes do Centrão de Joanesburgo que a situação é desesperadora, no melhor sentido do termo. Por isso o Hotel Carlton (dir.) não aguentou o baque e fechou as portas em 1997.

O mesmo vale pra Durbã. Alguns prédios dessa cidade têm na portaria portas giratórias de metal enormes.

Aquelas que no Brasil só são encontradas nas estações de trem de subúrbios e na portaria das fábricas.

Sabe como é, não? Têm barras de ferro de cima a baixo e só gira num sentido, não há como fazê-la voltar ou ela trava, pra evitar evasões. Então.

Em Durbã, repito, alguns prédios contam com esse equipamento, em pleno Centro, pra impedir a entrada de ladrões e sem-tetos.

Andava eu pelo Centrão dessa cidade. Vocês viram nas imagens da Cracolândia que há nos trilhos. A coisa é horrorosa, o mais forte sobrevive.

E não apenas ali. Nas ruas de uma parte abandonada próxima a estação de trens o mesmo se repete, embora não tão concentrado.

Então, e é aqui que eu entro na história. Sou cascudo em circular e mesmo em fotografar as regiões mais barra-pesadas de várias cidades da América e agora também da África.

Sou sensato e bom observador, sei avaliar o local e momento mais seguros de puxar a máquina discretamente, clicar e rapidamente guardar o equipamento.

Foi assim que já documentei de forma ricamente ilustrada várias favelas, periferias e bocas-do-lixo nesses 2 continentes acima citados. E nunca havia sido abordado agressivamente por ninguém.

Muitas vezes as pessoas perceberam que eu estava fotografando, algumas até falaram comigo, mas nunca ninguém me tirando satisfações – digo, isso me refiro aos moradores.

Com as forças de segurança várias vezes os encontros foram tensos:

Em Buenos Aires a polícia me cercou com 5 agentes (4 Homens e 1 Mulher), revistaram meu equipamento e apagaram algumas imagens, como já contei antes.

Em Joinville-SC também tive que entregar partes de um filme, nesse caso ainda era analógico. Em Durbã mesmo eu fui pro camburão, como descreverei abaixo.

No México e Paraguai soldados do exército armados com metralhadoras rispidamente me indicaram que eu ‘circulasse‘.

Pois entrara em locais proibidos, de segurança nacional – mas não havia placas indicando, eu não tinha como saber. Enfim, entre outros casos, esses são só alguns exemplos.

Mas sem contar policiais e seguranças, nunca ninguém havia me abordado violentamente. Até esse dia em Durbã.

Eu fotografava a Cracolândia do Centro, e um noiado percebeu. Ele correu até mim e intimou: “Ei, ei, qual é o problema?? Por que você está tirando fotos???”

Felizmente eu sei falar com a malandragem. Moro numa favela de Curitiba, se alguém não sabe. Imediatamente eu tirei uma moeda de 10 Rands do bolso e passei pra ele.

Ao lado conto algumas situações barra-pesada que passei em Durbã. Pra contrastar, cenas mais amenas da mesma cidade. O Mercado Indiano de Durbã é um carnaval de cores, cheiros e sabores, como não poderia deixar de ser em tudo que vem da Índia. Um tempero, em especial, me chamou a atenção: trata-se do “Exterminador de Sogra”!!! Tá bom pra ti ou quer mais???? Pra contrastar, a mesma banca vendia o “Amor de Sogra”.

Dá pouco mais de R$ 2, mas pra um viciado e morador de rua qualquer trocado ajuda, não é mesmo?

Aí ele já se acalmou. Eu lhe disse: “não há nenhum problema, não é nada com vocês. Sou um jornalista do Brasil, e só quero mostrar pras pessoas do meu país como é a África.”

“Não é nada com vocês”, repeti. Ele, satisfeito mais com o dinheiro que com a explicação, me liberou.

A África do Sul é uma mistura urbanística entre EUA/Anglosfera x América Latina. Então há guetos centrais, como nos EUA e Europa, e periféricos, como no Brasil e América Latina.

Rinoceronte esculpido em areia na ‘Praia Norte’ de Durbã. É bem mais elitizada que a ‘Praia Sul’, onde fiquei hospedado. Também não é difícil, a ‘Praia Sul’ ainda que na orla (óbvio, como o nome indica) é ao lado do porto e perto do Centrão. A ‘Sul’ eu apelidei de ‘Bronx a Beira-Mar’, porque o perfil sócio-econômico e racial é o mesmo desse que é o mais pobre dos 5 distritos de Nova Iorque/EUA. Mesmo exatamente em frente a praia não moram ricos, é povão mesmo. Já a ‘Praia Norte’ já é saindo pros subúrbios a moda ianque, onde residem os ricos. E por isso ali há edifícios caros, pra alta burguesia. Resultando que a ‘Praia Sul’ é ótima pra você entrar no mar mesmo (fiz isso todos os dias exceto um que choveu) e tem bons restaurantes. Mas fora isso não há badalação. Já a ‘Praia Norte’ é agitada – feirinha de artesanato, dezenas de restaurantes, muito mais que na ‘Sul’, e, uma das atrações é esse cara que molda de tudo na areia: paquidermes, pessoas, cidades, objetos. Ele esculpe inclusive propaganda de empresas que bancam seu trabalho, ao fundo um exemplo. Se você for a Durbã não deixe de conferir, recomendo! Outro detalhe: vê várias pessoas de roupa no mar? É tradição em Durbã, especialmente entre os muçulmanos, mas gente de outras etnias também faz o mesmo.

Acima o apuro que passei no gueto central de Durbã. Agora vamos pra periferia da mesma cidade, onde a chapa foi ainda mais quente.

………….

Como eu falei melhor na matéria sobre transportes, todas as grandes cidades da África do Sul têm um sistema de trens de subúrbio.

Operados pela viação férrea estatal ‘Metro-Rail’. Era o antigo ‘trem dos pretos’ na época do ‘apartheid’,

Agora na democracia é ‘trem dos pobres’. Que nos bairros mais degradados são 99,9% negros.

Então pouco mudou, antes a segregação era política e econômica, hoje é só econômica.

O ‘Metro-Rail’ é horroroso. Péssimo, muito ruim mesmo.

Só pega quem não pode mesmo pagar vans (lá chamadas ‘táxis’) ou ônibus, nessa ordem.

Como já expliquei, as vans (quase todas Toyotas e quase todas brancas, embora haja outras marcas e cores) são o principal meio de transporte da África do Sul.

Foi preciso literalmente uma guerra pra que elas pudessem chegar ao Centro e aos bairros dos ricos onde estão os empregos, mas hoje é assim.

Também na ‘Praia Norte’ de Durbã. Uma multidão de ‘indianos‘, ali é área deles. Entre aspas porque quando a Inglaterra levou os ‘indianos’ pra África do Sul a Índia incluía Paquistão e Bangladesh, que são muçulmanos. Por isso boa parte dos ‘indianos’ sul-africanos não são hindus, mas muçulmanos – portanto comem carne. Entre os religiosos praticantes, tanto Homens quanto Mulheres cobrem a cabeça, embora pro sexo masculino essa seja a única exigência, já pro feminino todo corpo tem que ficar oculto, incluso pra muitas o rosto, só os olhos escapam da burca. Outro detalhe: veja a lata própria pra lixo reciclável, separado do orgânico. Só existe mesmo na orla e em pouquíssimos lugares frequentados pela burguesia. Quando íamos embora de Durbã, fui a praia colocar o lixo reciclável que havíamos separado numa dessas lixeiras. O porteiro do prédio achou que eu ia despejar tudo na areia, simplesmente. Por aí vocês veem que a ‘cultura da reciclagem’ ainda não chegou lá.

Em Joanesburgo e Pretória há o Gautrem, esse sim de qualidade de 1º Mundo, alias Primeiríssimo Mundo.

Mas a linha é pequena, e só existe nessas duas cidades. Quem mora perto do pequeno traçado dele o utiliza intensamente.

Mas poucos têm o privilégio. Por isso chamado pelos detratores de ‘trem dos brancos’. Evidente, ficou pronto em 2010, 16 anos depois do fim do ‘apartheid’.

O Grautrem nunca foi segregado por raça, negros o utilizam livremente desde seu primeiro dia de operação.

O que esses críticos querem dizer, e não sem alguma razão, é que o Gautrem é o ‘trem dos ricos’, pois só serve os bairros abastados, onde os brancos são maioria.

Então, repito, o Gautrem é bom. Mais que bom, é ótimo. Mas poucos têm a chance de utilizá-lo todos os dias.

Isso mesmo na metrópole estendida Joanesburgo/Pretória. E ninguém em outras cidades, pois elas não contam com nada parecido.

Então o povão vai de ‘táxi’, por isso querendo dizer de vans, lembre-se. Depois disso os ônibus são a opção mais usada.

Centro da Cidade do Cabo.

Nas poucas linhas já melhor estruturadas, tanto pela burguesia quanto pelo proletariado.

Nos bairros mais afastados, só há linhas de ônibus não-integradas, que por isso são menos utilizadas mas ainda assim têm seu nicho de mercado.

E por último, como última escolha mesmo, vêm os trens de subúrbio da ‘Metro-Rail’. Esses só pegam mesmo quem não pode pagar qualquer outro meio de deslocamento.

Centro de Pretória.

Pra começar a conversa, são extremamente perigosos. Arrastões são rotineiros, muitas vezes com vítimas fatais. Apedrejamentos também são frequentes.

Pois bem. Em Durbã e no Cabo eu andei de trem. Sozinho, só eu e Deus. E nas 3 cidades entrei nas favelas.

Todo mundo dizia “pelo-Amor-de-Deus, não faça isso. É perigoso demais, vão te matar, etc.”

Centro de Durbã.

E de fato é perigoso. Mas . . . se não for perigoso não é jornalismo. Se for muito confortável, só editar textos em frente ao computador, não é jornalismo, é relações-públicas.

Porque é perigoso é que eu fui, pra poder lhes contar, pra poder mostrar como são as favelas e trens da África, pra quem não teve a oportunidade de entrar neles.

Bairro ‘Musgrave‘ (pronuncia: ‘Mâsgreive’), na Cidade Alta de Durbã, um morro de classe média-alta da Zona Central. Não há ricos e alta-burguesia no Centro de Curbã, mas bem pertinho dele, sim. Durbã é a ‘América na África’, porque urbanisticamente é a cidade que mais se parece com América Latina. Sim, há ali o modelo ianque de guetos centrais e ricos morando em subúrbios afastados, muitos deles nos morros como na Califórnia. Mas em Durbã há favelas nos morros da periferia, e bairros caros na Zona Central – ambas as coisas inexistem em todo resto da África do Sul (a Cid. do Cabo tenta trazer os ricos pro Centro mas o projeto ainda se inicia).

Disse numa legenda acima que eu entrei no mar em Durbã todos os dias, exceto o que choveu. Mas não foi só por causa do clima que deixei de ir a praia.

Eu já havia reservado esse dia pro trem, fizesse o tempo que fizesse. Assim, saí de casa sob tempestade.

Estiava as vezes, depois voltava a aumentar o toró, mas choveu a manhã inteira (veja as imagens mais pra cima dos pedintes nos sinais com capas).

Peguei o ônibus pro Centro, e dali subi a pé a antiga Rua Berea (atualmente a Rua Rei Dinuzulu, mas todo mundo chama pelo nome antigo, incluso os negros).

Cheguei a ‘Cidade Alta’ (esq.). Depois desci a ladeira pro Centrão. Debaixo de forte temporal. Fiquei ensopado, claro, mas não importo, gosto de chuva.

Me dirigi a Estação Central de Durbã (2 tomadas abaixo). Cara, só eu, tendo essa missão peculiar nesse planeta, pra encarar. O bagulho é louco.

 Literalmente, uma “Descida a Escuridão”, como já relatei com detalhes e muito mais fotos nessa mensagem.

As imagens valem por mil palavras. É escuro, é perigoso, é sujo, o cheiro de mijo toma conta de algumas partes da estação.

E por isso quem pode evita. Eu, não podendo deixar de ser quem sou, fui lá. Pra poder lhes dar esse relato. Os problemas começaram na hora de comprar o bilhete. Pois você tem que informar o destino já que a tarifa é calculada conforme a distância.

Vi pelo mapa um bairro que queria ir, mas não sabia informar direito ao cobrador – meu inglês não é dos melhores, e nem o dele eu acrescentaria.

Puxei o mapa, mostrei a ele, e com ajuda de uma passageira atrás de mim na fila, consegui afinal comprar o tíquete.

Estádio de críquete (esporte de preferência dos brancos) na Zona Central de Durbã. Há um aviso na entrada alertando que “qualquer manifestação de racismo será severamente punida no rigor da lei”.

Cheguei a plataforma praticamente vazia (esq.), havia um trem parado mas ninguém dentro, e ninguém entrava, e não seria eu, mais forasteiro impossível, a ser o primeiro.

Esperei quase meia-hora, veio outro trem. Eu e mais umas 4 pessoas entramos. Andou duas estações, recolheu, tivemos que descer.

Espero mais 40 minutos em outra estação também quase deserta, chega outro trem. Esse um pouco mais cheio.

Chego na estação que queria, desço. Mas na África do Sul os trens não trazem no letreiro o nome do destino, mas um número.

Só quem pega sempre sabe o destino de uma composição por esse código. Com tudo pra atrapalhar e nada pra ajudar, peguei um trem distinto daquele que eu havia pago.

Praia na Zona Norte da Cidade do Cabo, sempre com a Mesa-Montanha ao fundo. Vazia porque o mar é gelado, não tem como entrar. Os poucos frequentadores era todos brancos, pois ali é um subúrbio a moda ianque de milionários (em outra postagens subo fotos do bairro).

Assim, na hora de sair da estação o fiscal conferiu minha passagem e disse que estava errada.

Era evidente a todos que eu era estrangeiro, era a única pessoa de pele clara de toda estação.

Disse a ele: “eu sou do Brasil, e comprei a passagem incorreta por falha na comunicação, desculpe.”

“Então você tem que comprar o bilhete certo, referente ao trecho que usou”, ele informou.

Próximas 9: Soweto, Joanesburgo (no detalhe a auto-estrada). A periferia da África do Sul, pela herança inglesa, se compõe inteira de conjuntinhos com as casas todas iguais (em Santiago igual, mas no interior do Chile completamente diferente). O governo sul-africano está fazendo um esforço hercúleo pra erradicar as favelas, não negamos. O resultado é esse.

“Sem problemas, vamos a bilheteria que eu faço isso agora”. Fomos. Nosso diálogo foi em inglês.

Chegando ao balcão, o fiscal e o bilheteiro passaram a conversar entre eles em sua língua africana nativa, eu não entendia uma palavra.

Após alguns minutos de argumentos e contra-argumentos, me falaram que afinal eu não precisava pagar de novo.

Viram que não houve má-fé de minha parte. E como haveria? Até os moradores locais fogem desse trem como o diabo da cruz.

Não seria eu, turista de outro continente, que tentaria lograr a companhia local em alguns centavos. Era óbvio que comprei a passagem errada por engano, e não intencionalmente.

Estávamos no meio de uma das favelas mais barra-pesadas da Grande Durbã, onde se mata gente por qualquer motivo e mesmo sem qualquer motivo.

Eles ficaram de cabelo em pé quando disse que eu era do Brasil, que não conhecia ninguém ali, e iria apenas dar umas voltas no bairro a esmo, tirando fotos.

Mais uma vez: o governo entregou uma cohab, em alvenaria. Mas o puxadinho é de latão. Antes, quando ali era favela, as casas eram de zinco. Assim, o costume de construir nesse modal ficou fortemente enraizado na Consciente Coletivo do povão sul-africano.

O bilheteiro abriu a urna que servia de lixo, e revirou papel por papel as passagens já usadas por outros passageiros.

Até que achou uma que coincidia com o trecho que eu usei. Me deu, e disse: “quando você voltar me entregue”.

Insisti novamente em pagar, ele disse que não era preciso, e que tomasse cuidado porque a vizinhança ali não era lugar de brincadeiras.

Klaarwater, eis o nome da vila de onde eu estava, se você quiser conferi no ‘Google Mapas’. É um bairro popular nas encostas do morro, com várias favelas.

Sabe, todo mundo que me via estava apavorado por eu ter ido de trem, e por eu estar ali. Mas eu não sentia medo. Ao contrário, estava tranquilo.

Digo, com tudo mundo o tempo todo te dizendo “é perigoso, é perigoso demais”, você fica meio apreensivo. Mas minha Alma tem muito claro o conceito de Missão de Vida.

Estar ali era estar cumprindo minha Missão, e ter essa certeza fazia com que eu não temesse. Andei pelas ladeiras de Klaarwater, tirando algumas fotos.

Os sul-africanos são muito educados e solícitos, e as crianças que saíam da escola me cumprimentavam:

“Como vai o senhor?” Respondia “vou bem, e você?”. Ou seja: não tive nenhum problema com os moradores do bairro. Os que falaram comigo o fizeram em tom amistoso.

Mesmo sem nunca terem me visto, e, repito, estando óbvio que eu era estrangeiro, que não era morador sequer do país, muito menos do bairro.

Aqui não é ‘puxadinho’. O governo fez uma cohab, mas nova invasão surgiu – com as moradias em zinco, claro.

Quando eu já me dirigia a estação de trem pra voltar ao Centro de Durbã, uma viatura da polícia encostou.

E me abordou de forma bastante ríspida. Eram um casal de policiais. Foi o Homem quem conduziu a conversa: “O que você faz aqui?”

Dei a mesma resposta que ao noiado, que é a mais pura Verdade, portanto nem teria como responder diferente:

A mesma cohab, vista na foto anterior e que já foi retratada mais pro alto na página.

Sou um jornalista do Brasil, e estou fazendo uma matéria sobre a África, pra mostrar como é Durbã as pessoas de meu país”.

“Quem você conhece aqui nesse bairro?”, ele continuava agressivo. Eu, inversamente, permanecia calmo, e respondi naturalmente:

“Não conheço ninguém senhor, eu sou do Brasil e nunca estive aqui antes”. “Como você chegou aqui?”, ele quis saber. “Eu vim pelo trem”.

“Pelo trem???”, ele só não caiu pra trás porque estava sentado. “Você veio de Durbã sozinho pelo trem, e não conhece ninguém aqui?”

Isso é Soweto: outra favela surgiu – nessa as casas são de madeirite. Na frente uma van – Toyota e branca, sempre. Essa é do modelo antigo, e tem uma ‘saia’ amarela. Ao lado uma perua BMW caríssima. Ou seja: agora Soweto também tem alta-burguesia. No ‘apartheid’ os negros eram todos pobres, pois escravos do regime. Na democracia a concentração de renda que antes era somente inter-racial agora se repete dentro da raça negra, igualmente.

Ele precisava confirmar porque lhe parecia inacreditável. Certamente nunca vira nada nem remotamente parecido. “É exatamente isso, senhor”, respondi.

Revistou minha mochila, e ao constatar que não havia nada ilegal, se acalmou. Aí ambos já haviam descido do carro.

A Mulher policial falou comigo pela primeira vez. “Você está liberado, pode pegar o trem, se acha que é seguro”.

Disse a ela: “Senhora, sim, eu vim pelo trem, e vou voltar com ele. Não vejo qualquer problema”.

Foi o gatilho que detonou uma reação instintiva. Mais uma vez começou o sermão, que eu já havia ouvido dezenas de vezes na África do Sul, sempre que mencionei a palavra “trem”.

Falando em carros e em Soweto, uma concessionária Toyota e Volkswagen (que dominam o ramo de vans e de carros pequenos, respectivamente) com o nome do bairro.

“Não vê problema? Esse trem é perigoso demais. Você não conhece, vão te roubar com certeza, pode ser que te matem. Olhe, você não pode pegar esse trem”.

Ela se contra-disse, pois na frase anterior acabara de dizer que eu era livre pra fazer isso, se assim o quisesse.

Confabulou com o colega dela, e chegaram a uma solução. Aí foi o Homem quem disse, abrindo a porta traseira, e me indicando o camburão onde vão os presos:

Próximas 5: agora favelas da Cidade do Cabo. Essa é no extremo da Zona Sul, no bairro Baía Hout, de classe elevada. A frente dela há um campo de refugiados da ONU. Bem, boa parte dos habitantes dessa favela são imigrantes de outros países africanos, mesmo público-alvo da ONU. Então temos frente-a-frente dois grupos de refugiados africanos, a diferença é que uns têm esse status oficialmente, e outros não.

“Entre aí, que nós vamos te levar a outra parte do bairro, até o ponto de táxis, e de táxi você volta pra Durbã em segurança”.

Perguntei: “você está me prendendo?” Ele respondeu: “não, eu vou te ajudar. Pode entrar tranquilo”. Ele já havia me dito antes que eu estava liberado, e ali falou de novo.

Achei que ele queria mesmo me dar uma carona, e, bem, o único lugar era na caçapa, no banco da frente só haviam dois lugares, já ocupados.

Por isso, e por não querer entrar em confronto com um policial sul-africano numa das favelas mais perigosas da África do Sul, pedi a Deus Pai e Mãe que me protegesse.

E entrei no recinto destinado aos detidos. A seguir por fora ele passou a tranca. Eu não estava preso. Mas que a impressão era essa, isso era mesmo.

Essa é no lado oposto da cidade, no extremo da Zona Norte, a caminho de Atlântida. Favela bem precária, sem luz nem mesmo gatos, sem água nem mesmo nas torneiras comunitárias. Fica entre a rodovia e o mar, sobre as dunas. Em verde os banheiros químicos. A cena é igual aos acampamentos dos beduínos no Deserto de Neguev, Israel.

Não fui só eu que senti assim. Os ‘manos’ da vila, que observavam a situação, explodiram em gargalhadas.

Não é difícil entender o porque. Eles já viram – e participaram – daquela cena centenas de vezes: a polícia vem na quebrada e leva alguém embora na parte traseira da viatura.

Muitas vezes eram eles mesmos que foram levados ‘pra dar uma volta’, gerando uma estada de muita dor na delegacia, muitas vezes de várias semanas ou meses.

As próximas 3 mostram uma favela na Zona Leste da Cidade do Cabo, na estrada que leva pro aeroporto e pra Khayelitsha, a “Zona de Perigo”. Saiu azulada porque na pressa eu não abaixei os vidros do carro, que tinham película. A esquerda na imagem os banheiros químicos, ao centro um VW Golf – o carro mais vendido da história da África do Sul, falo disso melhor em outra postagem em breve – e a direita um Toyota.

E quando não eram eles mesmos a entrar na gaiola, eram seus vizinhos, parentes e amigos próximos. Ou seja, a mesma dor.

Por isso foi um alívio pra eles verem isso acontecer com alguém de fora.

Que eles não conheciam, e portanto não se importavam. Eu não fora preso, mas que essa era a impressão, certamente era.

Daí natural a reação desses jovens negros africanos, oprimidos por um sistema injusto, descontando toda essa tensão reprimida em risos.

Mas os policiais cumpriram sua palavra. Realmente eles me levaram a um ponto de van, e dali eu embarquei pro Centro.

As casas majoritariamente de zinco, o segundo material mais usado é madeirite e papelão.

Valeu pelo ineditismo de entrar num compartimento dos detentos, mas não passou disso, uma experiência curiosa.

Eu compreendo a agressividade inicial da abordagem. Afinal, minha presença ali era absolutamente heterodoxa.

Klaarwater não é turística, digamos assim. Falando mais claramente, é um bairro violentíssimo.

Repare na van (no meio da imagem), ganha-pão de algum morador. Por isso os negros fizeram uma guerra pra poderem utilizar seus ‘táxis’ pela cidade toda: pra receita do transporte ficar na própria comunidade.

(Nota: Soweto, em Joanesburgo, é turística. Nos tempos do ‘apartheid’ era até proibido estrangeiros e brancos sul-africanos irem ao bairro, e pouca gente tinha interesse.

Mas hoje há interesse, querem ver onde Mandela e outros moraram e lutaram. Assim agências de viagens promovem excursões, que custam bem caro – até por isso dispensamos e fomos de ônibus urbano normal.

Soweto é periferia, é violento, mas é famoso, por isso  gente de grana, nacionais e de outros países, vão até lá – num processo similar ao que contece com a Rocinha, na Zona Sul do Rio.

Antiga Rua Berea, Zona Central de Durbã. Atualmente a ‘Rei Dinuzulu’, mas todo mundo usa o nome anterior, que se deve a que ela liga o Centro ao subúrbio de Berea, que apesar de ser outro município ainda é Zona Central da Grande Durbã – já que na África do Sul, como nos EUA, os municípios são menores que no Brasil. Destaquei o logo do ‘Shoprite’, uma das maiores redes de supermercados do país, uma corruptela de ‘Shop Right’ (‘Compre Certo’).

Em Soweto os policiais estão acostumados a ver turistas. Klaarwater não é famosa, não há excursões pra lá.

Se Soweto é a Rocinha, Klaarwater equivale as periferias mais afastadas da Baixada Fluminense, digamos assim.)

Por tudo isso, a princípio, ao ver um estrangeiro de outra raça no bairro, natural que eles suspeitassem de má-intenção.

Verificar o porque de eu estar ali era exatamente o trabalho deles

Ele me abordou de forma tensa pois a ‘Lei das Ruas’ impõe assim, se ele não usar sua autoridade a perde.

Não estou defendendo nenhuma forma de violência, que fique claro. A polícia existe pra prender (em flagrante ou com mandato), e aí a Justiça assume o caso.

Assembleia Legislativa do Estado de Gauteng, Centro de Joanesburgo. Curiosamente, o prédio é parecido com a Assembleia estadual de Córdoba/Argentina, que eu também fotografei.

As forças de segurança não devem jamais torturar ou agredir ninguém, mesmo suspeitos de crimes.

Agora, falar um pouco grosso é inevitável, ou a ‘malandragem’ nem permitiria a revista.

Assim foi na África. O policial fez o que ele é pago pra fazer.

Mas ele jamais me agrediu, física e nem mesmo verbalmente. Pediu que eu abrisse minha mochila, o que eu mesmo fiz.

Quando acatei sua ordem, ele nem mesmo me revistou, pra conferir se eu estava armado.

Na mesma auto-estrada da Z/L do Cabo, as cohabs que o governo vem fazendo pra urbanizar as invasões. Sempre com painel solar – mesmo nas piores periferias, como notam.

Ao aceitar que a minha versão, apesar de insólita a princípio era a mais pura Verdade, eles passaram a me ajudar.

(E era, aqui está a matéria, escrever sobre a periferia da África era o único motivo pelo qual fui a Klaarwater.)

Nunca na vida deles os policiais haviam visto um turista estrangeiro naquelas bandas, muito menos que tenha ido sozinho.

De trem, sem um contato no local, e – espanto dos espantos – eu não tenho celular! Logo não poderia pedir socorro se algo desse errado.

Nunca faltam os puxadinhos !!!

Era eu e Deus, mesmo!!! Fé Total na Proteção Divina, em que aquilo era minha Missão, logo Deus Pai e Mãe iria me proteger.

E a proteção veio, mesmo de forma insólita, mesmo das pessoas que a princípio me viram com desconfiança.

………

Próximas 15: Klaarwater, morro na periferia da Grande Durbã, onde a polícia me deu uma ‘carona‘. No ‘container’ vermelho uma mercearia.

Os sul-africanos são extremamente educados e solícitos. Ao perceberem que alguém precisa de ajuda eles voluntariamente abordam a pessoa e se oferecem pra auxiliar.

Aconteceu muitas e muitas vezes conosco, quando nos viam nos bairros mais perigosos, os moradores locais vinham e nos orientavam como sair dali.

Em Joanesburgo foi o mesmo. Estávamos no terminal de ônibus de Soweto, um rapaz veio e nos orientou: “Pra onde vocês querem ir?”. Ao informarmos que era de volta pro Centro, ele indicou a plataforma.

Durbã é a única cidade grande da África do Sul que tem favelas em encostas, como na América Latina. Em Joanesburgo e Pretória não há morros, e no Cabo são os milionários que moram nas ladeiras, como nos EUA e Mônaco.

O ônibus chegou ao ponto final num bairro da Zona Central mas já além do Centrão, entretanto nós não descemos.

Não conhecíamos a cidade, e conversávamos com o mapa na mão, falando em português obviamente.

Analisávamos onde seria o melhor lugar pra voltarmos ao bairro de Killarney, no começo da Zona Norte, onde estávamos hospedados.

O motorista do ônibus saiu de seu posto e veio falar conosco, pra ajudar. Dissemos que desceríamos em determinado ponto do Centro. Ao chegar ali, mais uma vez ele encostou o veículo e veio até o fundo do mesmo, gentilmente nos lembrar que era ali era o destino pretendido.

Eis a vendinha mostrada mais pra cima. Como muitos sul-africanos nas favelas já moram no zinco, estão acostumados, digamos assim. Com grade na janela pra prevenir assaltos

Na Cidade do Cabo aconteceu mais uma vez. Alias, na África do Sul pela primeira vez andei em vários modais:

Num camburão, no Uber (que eu nunca havia utilizado no Brasil), em táxi clandestino e em carros das marcas Mercedes e BMW. Esses 3 últimos conto em outra postagem, que o texto já está longo demais.

Por isso, pra caminhar pro fechamento, um dia na Cidade do Cabo pegamos o Uber pra ir a praia. Uma praia num bairro de gente muito rica, num subúrbio a moda ianque na Zona Norte da cidade.

Também descrevo melhor o bairro e minha curtíssima entrada no mar absolutamente gelado noutra mensagem, breve. Aqui basta dizer que cada sobrado é cotado na casa dos milhões de reais.

Mas eu conversando com o motorista do Uber (que lá os negros chamam de ‘Uba’, também me estenderei posteriormente sobre a linguagem, veem que a série ainda vai longe) disse que a tarde eu iria no bairro de Khayelitsha, na periferia, pra contrastar, pra conhecer os dois lados.

Klaarwater, Durbã. Mas lembra Tamandaré, na Z/n da Gde. Ctba. Ou partes de BH, Rio, Salvador, P. Alegre ou Floripa, não?

Pronuncia-se ‘Calítcha’ ou ‘Calítia’. É um dos bairros mais perigosos da Cidade do Cabo e de todo planeta.

Leva mais de uma hora pra chegar de ônibus, e isso que a maior parte do trajeto é pela auto-estrada, ou seja, diretão, o latão vai sem paradas seja em pontos ou sinais.

Só começa o pinga-pinga quando ele sai da rodovia e entra no bairro. Já  conto essa parte.

Antes, recordando, ainda pela manhã eu contei ao motorista (negro) que iria a Khayelitsha, e que em Durbã já havia visitado bairros parecidos, um deles o Klaarwater onde andei na viatura.

Já viram na abertura da página que as casas da favela não têm água. Também não há banheiros, são construídas fossas com casinha fora da construção principal. Nesse bairro o governo ainda não pôs banheiros químicos.

O rapaz se entusiasmou: “Ah, pelo menos você vai conhecer a África de Verdade!!!”

“Porque 99% dos turistas vem ao Cabo, e só conhecem o aeroporto, os ‘shoppings’, a Mesa-Montanha e os bairros dos ricos – isso não é de fato vir a África”.

Realmente. A Cidade do Cabo, em sua Zona Central, conta com enorme presença de brancos. É a mais pura verdade. você não se sente plenamente na África.

E sim na Europa (todas as metrópoles oeste-europeias hoje têm grande leva de imigrantes africanos, o sabem) ou em partes da América (Colômbia, Equador, Brasil ou EUA, entre outros) em que há consolidada a mistura entre negros e brancos.

Aqui eu me lembrei de Colombo, também na Z/N da Grande Curitiba.

Eles dizem isso lá. Presenciei quando, aos pés da Mesa-Montanha, um morador local, mulato, puxou conversa com duas meninas alemãs.

Elas conheciam a África sozinhas, como mochileiras. Ele falou textualmente a elas: “Vocês vão gostar da Cid. do Cabo. É África, mas não parece”.

Pois bem. Khaeylitsha É África. 100% África, e parece África e somente África. Um bairro enorme e miserável.

Distante, tudo é precário, violência urbana na estratosfera, fizeram várias cohabs pra urbanizar as favelas, mas novas invasões surgem o tempo todo, tornando o trabalho hercúleo e permanente.

Nunca faltam as pedras e pneus dos telhados.

Sabe a missão de Sísifo de empurrar eternamente uma grande pedra morro acima, e assim que ele conclui ela roda ladeira abaixo, obrigando ao eterno recomeço?

Então, urbanizar as favelas da África é o mesmo. Até aqui o que descrevi de Khayelitsha é exatamente igual a América Latina.

De São Paulo a Argentina a BH a Belém a Curitiba ao Chile ao México e a Colômbia, República Dominicana, Paraguai e toda parte, essa é nossa realidade.

Mais uma vez, o banheiro fora da casa, na verdade uma fossa, como foi no interiorzão do Brasil até o século 20. Na África do Sul urbana em pleno século 21 ainda é assim.

Mas na América Latina as periferias têm muitas raças misturadas. Sempre há brancos, negros e índios, e proporções variadas conforme o país e mesmo a parte do país.

Em Khayelitsha só moram negros. Khayelitsha É África, de Corpo e Alma. Além de tudo que descrevi acima, é um bairro extremamente denso.

Puxadinhos nas cohabs, que são universais, tornam praticamente impossível distinguir onde já foi urbanizado de onde nunca foi, fica tudo com cara de favela.

Não tenho nada contra as favelas, eu moro numa delas, e moro porque quis morar.

Claro que não faltariam as moradias em latão.

Da mesma forma, eu fui a Klaarwater, Soweto, Khayelitsha, e muitas outras quebradas desse país sabendo o que ia encontrar, e fui exatamente por isso. A favela não me assusta.

Ainda assim, em Khayelitsha a coisa é muito densa, são centenas de milhares de pessoas se espremendo sem quase nenhuma infra-estrutura.

As casas chegam quase na via pública, as ruas ficam cheias de gente, o tempo todo. E eu era o único que não era negro. Eu não me defino como ‘branco’ pois isso significa ‘europeu’, e eu não sou europeu, sou Americano.

A raça pra mim é algo tão físico como cultural. Assim, eu não sou ‘branco’, Sou Americano.

De qualquer forma minha pele é clara. Aí, em Khayelitsha ficava evidente não apenas que eu não era do bairro, como também que eu não era do país.

Já visitei favelas horrorosas na América, tanto no Brasil como em vários países. Mas aqui, pela mistura de raças, eu posso andar incógnito. Me embrenho entre os becos e vielas, pois olhando pra mim as pessoas não percebem que sou de fora.

Ao menos enquanto não há diálogo. Resultando que se eu não falar com ninguém na rua, e na maioria das vezes eu não falo, ninguém descobre minha ‘identidade secreta’. Em Khayelitsha eu não tinha essa proteção.

Todos viam imediatamente que eu era um turista estrangeiro andando sozinho. Sendo assim um alvo fácil pra ladrões. Não é uma questão do bairro ser pobre o não, e sim de ter muvuca nas ruas.

Klaarwater em Durbã, Soweto em Joanesburgo, e Atlântida na própria região metropolitana da Cidade do Cabo, são tão pobres quanto. Mas são menos densos.

Nesses outros, eu andava nas ruas ou nos ônibus, e viam que eu não era dali, mas não haviam grupos numerosos de pessoas aglomeradas.

Então eu senti confiança pra circular livremente em qualquer parte e até pra fotografar extensamente. Digo, em Soweto não saí do ônibus, mas dentro dele fotografei a vontade.

E mesmo conversamos com alguns moradores do local que tinham curiosidade em saber como é o Brasil. A interação foi amistosa e tranquila. Em Khayelitsha preferi não fotografar mesmo no ônibus, e muito menos na via pública.

Tudo se somou, um lugar muito pobre, a raça diferente, e muita galera nas esquinas. 99% dos moradores de Khayelitsha são honestos e trabalhadores.

Ganham duramente seu pão com o suor de seus rostos, não tenho qualquer dúvida disso. E por isso fui ver onde eles moram. Quase todos vocês que leem esse relato nunca tinham ouvido falar desse bairro, tenho certeza.

Então, inaugurar o nome ‘Khayelitsha’ na mente dos leitores é minha homenagem aos Filhos e Filhas da Mãe-África, que tanto lutam e sofrem.

Eu Amo a Favela, mais que isso, Eu Sou a Favela. E por isso não temi ir Khayelistha, nome que causa arrepios a burguesia do Cabo, mesmo aos burgueses negros. Mas a mim não, por isso fui.

Ainda assim, mesmo com 99% de seus moradores honestos, não vamos negar que Khayelitsha e todas as outras quebradas da África do Sul têm suas gangues, e gangues muito violentas.

Terrenos bastante inclinados, o conjunto de casas forma uma escadinha.

O número de assassinatos diários nessa nação não deixa dúvidas desse triste fato. Também não tapemos o sol com a peneira, porque o Amor não pode cegar.

Tanto é assim que na auto-estrada que cruza o litoral austral da África do Sul (o trecho urbano dela é a via de acesso aos subúrbios a leste do Cabo) os avisos eletrônicos dizem textualmente:

“Zona de Perigo. Não pare na rodovia. Se precisar de ajuda ligue pra tal número”. Que aí o pedágio manda uma escolta armada, pra você poder consertar seu carro em segurança.

Assim, explicitamente, com todas as letras: “Zona de Perigo” (‘Danger Zone’ no original). E não sem motivo.

Interrompo Klaarwater pra mostrar a Cidade do Cabo, a rodovia que leva a Khayelischa (e depois dela ao litoral austral) com inúmeras favelas as margens. Daí a “Zona de Perigo” (imagem baixada da rede, crédito mantido).

As margens da pista estão inúmeras favelas, além de algumas cohabs já urbanizadas, mas também violentas (imagem ao lado).

Se um carro de alto padrão encostar ali, as chances são grandes que surja uma galera pra depenar o motorista e sua família, afinal os ladrões estão ‘em casa’.

Após cometido o roubo (e quem sabe algo pior) basta se embrenhar de novo nos becos da favela que está a alguns metros.

E será difícil pra polícia achá-los, terá que ser feita grande operação, com vítimas, que vai aumentar ainda mais a tensão.

Próximas 3: volta Klaarwater, Durbã.

O melhor mesmo é evitar e não parar sozinho no acostamento, sob hipótese nenhuma. Teu carro quebrou? Se possível siga até um posto de gasolina ou praça do pedágio.

Na pior das hipóteses, ligue imediatamente pedindo ajuda, em poucos minutos a polícia virá protegê-lo. E isso vale pra brancos e negros. Os ladrões não são racistas, se quiser ver assim.

Se um burguês negro parar ali com um carro ou caminhonete na marca dos centenas de milhares de Rands (dezenas de milhares de reais), será roubado da mesma forma.

Sem piedade ou ‘camaradagem de raça’. Bem, vimos nas fotos que negros matam negros com fogo, paus e pedras sem qualquer compaixão.

Mesmo se abstendo de motivos políticos, as taxas de homicídios sul-africanas são altíssimas, e em 95% dos casos o assassino é negro e a vítima também.

Khayelitsha e auto-estrada que dá acesso a ela é ‘Zona de Perigo’ mesmo, não é modo de falar. Portanto o aviso luminoso me chamou a atenção por ser tão explícito, mas não há como retificá-lo, de forma alguma.

Foram as próprias crianças que pediram que eu as fotografasse. Fechamos Klaarwater com chave de ouro: os meninos e meninas da vila, a África do Sul do amanhã. Há muitos problemas, mas há esperança: até 2 gerações atrás os negros não recebiam acesso a praticamente nenhuma educação formal (o pouquíssimo que eles tinham direito de estudar as classes não contavam sequer carteiras, ele precisavam escrever no chão). Agora eles têm escola pública com uniforme e refeições quentes. Falta muito pro ideal? Certamente. Mas já melhorou demais, isso também é certo.

Ainda assim, em Khaeylitsha, eu não senti medo de estar ali. Mas eu achei melhor não fotografar, pra não chamar ainda mais atenção. E também preferi não circular muito.

Muitos dos negros das favelas da África do Sul muitos nem são fluentes em inglês, arranham algumas palavras somente nessa língua.

Pois se comunicam basicamente em seus idiomas nativos. Seus empregos são braçais, com pouca ou nenhuma interação com o público, assim isso lhes basta.

Então até pra pedir uma orientação seria complicado. Tudo somado, eu fui observando essa realidade de dentro do ônibus.

Quando cheguei ao ponto final e desci, achei que era suficiente, que eu já havia ido onde quase nenhum estrangeiro turista ousara pisar até então.

Assim eu poderia retornar imediatamente, sem andar a pé pelo bairro. Busquei então a estação de trens.

Próximas 3: em sequência baixada da internet, Khayelitscha, Zona Leste da Cidade do Cabo. Em azul os banheiros químicos.

Sim, esses trens são perigosíssimos. Mas é como estar entre entre a fogueira e o caldeirão. Pelo menos no trem eu não precisaria pedir informações, mas pra pegar van ou ônibus sim.

E pra pedir informações iriam me perguntar porque eu estava ali. Afinal nunca nenhum deles imaginaria que um turista de outro continente iria de ônibus urbano a Khayelitsha.

Sozinho, sem conhecer ninguém, e sem celular. Esse diálogo, que seria extenso, poderia gerar uma aglomeração perigosa.

Eu estava no coração da ‘Zona de Perigo’, só eu e Deus. Então preferi optar pelo que julguei ser menos perigoso, e me dirigia a bilheteria da estação do ‘Metro-Rail’.

Deus Pai e Mãe mais uma vez não me abandonou, e mandou um anjo me proteger.

Esse Espírito Guardião se materializou na forma de uma linda moça negra sul-africana, chamada Mona Lisa.

As montanhas ao fundo, e a oni-presente Coca-Cola. Óbvio que estamos na Cid. do Cabo e na Áfr. do Sul.

Ela percebeu que eu era um ‘peixe fora d’água’ no meio da quebrada, e quando me viu indo pegar o trem, interveio.

“Ei moço, não pegue esse trem. É muito perigoso”, ela repetiu o que todos dizem na África.

Aí expliquei a situação, disse que eu era do Brasil e estava lá fazendo uma matéria sobre as periferias da África do Sul.

E que queria voltar pro Centro, mas como não conhecia outro meio, o trem me parecia a melhor – ou no mínimo a menos pior – de minhas opções.

Bairro Killarney, Zona Norte de Joanesburgo. Prédio de classe média, com porteiro e tudo. Sim, meio decadente, não nego. Mas ainda de classe média. E mesmo assim todos os apartamentos têm grades nas portas pra evitar arrombamentos. Idem em Durbã, a mesma situação. A África do Sul não é de brincadeira.

Ela então falou: “Vamos fazer o seguinte. Eu te levo até a estação de táxis”. Por isso ela quer dizer as vans, você sabe.

Mas Khayelitsha é tão distante do Centro que não tem linha de van direta até ele. É preciso pegar uma van ‘alimentadora’, que só fica dentro da vila.

Ela vai até o terminal central de Khayelitscha, e dali eu precisaria trocar – pagando novamente – pra outra van, que me levaria até o Centro.

Mona Lisa me explicava isso, que eu precisaria baldear no terminal. E disse: “eu falo com o motorista. Explico a situação, que você é estrangeiro.”

“E que precisa chegar ao Centro em segurança. Aí lá no terminal ele vai te mostrar qual a outra van você pega”. Assim foi feito, ela falou com o condutor num idioma negro nativo.

Antes disso, enquanto cruzamos a passarela que separava a estação de trens da estação de vans, contei minha missão.

Logo após os prédios de Killarney há um bairro de elite, só mansões mesmo. Veja, há uma grade na rua, outra perto da casa, e uma só abre quando a outra fecha. Precisa dizer mais?

Relatei que já havia ido a muitos bairros parecidos aqui na América, em meu próprio país e vários outros. Disse que pra mim era uma grande honra estar ali, no bairro dela.

Mona Lisa até se ofereceu pra então darmos uma volta maior pela redondeza, ela me acompanharia e com seu salvo-conduto não haveria o que temer.

Eu senti sinceridade nela, que queria mesmo me ajudar, e jamais me pôr numa armadilha. Mas pra não abusar da boa vontade da moça eu atalhei:

“O que eu já vi já foi suficiente. Já visitei Khayelitsha (o que quase nenhum morador do Cabo tem a coragem de fazer, muito menos os turistas), está bom.”

“Zuma tem que cair”, eis o mantra quase oni-presente no 1º semestre de 2017 na África do Sul. Aqui cartaz conclama pra manifestação no Centro de Pretória em abril, a marcha foi da Praça da Igreja-Matriz (marco zero da cidade) até o Palácio Presidencial, ainda na Z/C mas já saindo do Centro.

Me leve até o ponto do táxi, fale com o motorista pra ele me indicar a outra van, é melhor eu voltar pro Centro.  

Querida, muito obrigado por tudo que você está fazendo por mim, que Deus lhe pague.

Assim foi. Entrei na primeira van, que serpenteou nas estreitas ruas de Khayelitsha.

Pra compor o cenário, o motorista ouvia música africana de raiz, no idioma local. Não os enlatados dos EUA/Europa em inglês, mas a cultura deles.

Me senti num filme, sabe? Aquilo me emocionava, os pêlos do corpo se arrepiavam todos. Sim, em plena ‘Zona de Perigo’, pra alguns. Mas pra mim não houve qualquer ameaça.

Mesmo nas partes mais perigosas da África, fui bem acolhido, sempre. Quem me abordou foi sempre pra me ajudar, e isso valeu até pra polícia.

Cheguei a estação. O motorista cumpriu o pedido da querida menina Mona Lisa, e me falou “você pega o táxi nº 5 pra Cidade do Cabo”.

Agradeci. Nem era preciso esse cuidado, essa estação era sinalizada, ao contrário da primeira em que não havia qualquer indicação de destino.

Pichação nos subúrbios de elite a moda ianque na Z/N de Joanesburgo apela pro mesmo mote, mas aqui já ampliado: “Eles têm que cair”, diz a mensagem original. “Eles” se refere não apenas ao presidente Zuma, mas a todo seu grupo político. Bem, os defensores da situação contra-atacaram dizendo que “Nós temos que crescer“. A África do Sul enfrenta em 17, repito, a mesma situação que o Brasil passou em 16. A mídia está unânime contra o presidente. Até aqui não prova nada, as corporações da comunicação estão concentradas em pouquíssimas mãos dos Oligarcas, que nem sempre jogam limpo – ou só jogam sujo, falando mais claramente. Perguntei a 5 taxistas o que eles achavam dessa campanha. 4 disseram que Zuma “tem que ser removido do poder o mais rápido possível”, ecoando a mídia. Um deles teve uma visão dissonante: “sabe, é curioso, não? Existe esse grupo de nações, o BRICS, que está fazendo frente aos EUA. Será coincidência que exatamente esses países que incomodam os EUA vêm passando por esse processo de turbulência política? Antes foram vocês (no Brasil), agora a gente”. Pois é. Cada um que tire que suas próprias conclusões.

Mas só pra garantir, perguntei em inglês ao motorista da nova van se o destino era Cidade do Cabo, por isso querendo dizer o Centro da cidade.

“Cape Town, man!! That’s right”, ele respondeu bem alto, entusiasmado.

Sentei no banco da frente, a seu lado. Eles sempre ouvem música, mas esse preferiu os enlatados euro-ianques.

Estava bom pra mim, tudo estava bom, tudo tinha dado certo. Pegamos a rodovia, os mesmos avisos “não pare, zona de perigo”.

Um monte de favelas a minha volta. Quase atropelamos uns meninos que invadiram a pista atrás de uma bola, coisa de criança sem noção das leis da física.

Era meu último dia na Cidade do Cabo.

Vendo tudo aquilo, a luta multi-milenar daquele povo, a Saga da Raça Guerreira Negra Original, eu chorava de emoção.

Eu era também parte dessa Vibração, uma gota no Oceano que seja.

Fiz parte da África, e a África fez parte de mim. E assim será pela Eternidade, estaremos Unidos, Sempre e pra Todo Sempre. Mais que Amar a África, Eu Sou a África.

E por isso a Grande Vida (Deus Pai e Mãe) permitiu que eu fizesse 40 anos no Solo Sagrado Africano, que eu me ajoelhei e beijei como Prova de Amor.

Sede do CNA no Centro de Joanesburgo – o parido de Mandela.

Eu nunca fui a Europa, e nessa encarnação não irei. Eu não sou europeu, digo de novo. Sou Americano de Corpo e Alma, e em meu Coração Sou Africano também.

Sou parte da África, ela é parte de mim.

Eis o turbilhão de Sentimentos que jorravam pela minha Mente e Coração, sentado ali no banco dianteiro da van.

Vendo a Cidade do Cabo passar a meu lado, como numa produção cinematográfica.

Uma História de Amor.

Amo a África. E, pela forma gentil que fui tratado, mesmo em seus bairros mais perigosos (outros não tiveram a mesma sorte, e as fotos e a estatística falam por si mesmas), me Senti Amado de volta.

Num bairro pobre da Zona Central de Joanesburgo haviam várias bandeiras num muro. Entre as da Pátria Amada e a da África do Sul, encontramos a do Uruguai.

Lágrimas me corriam dos olhos, como já havia acontecido quando eu deixava a cidade de Medelím pra ir embora da Colômbia.

Chegando ao bairro de ‘Woodstock’, onde fiquei hospedado já na Zona Central, desci.

Terminava ali minha estada física nessa Cidade do Cabo que tanto Amei e Amarei pra sempre.

Jantei, no dia seguinte cedo rumei ao Aeroporto, passando pela mesma rodovia que corta a ‘Zona de Perigo’.

……….

Mas minha Saga nas periferias sul-africanas ainda não havia terminado.

Acima era só uma homenagem, sem consequências práticas. Mas no Centro de Pretória cliquei uma funerária. Ao lado dos serviços anunciados, bandeiras do território que ela atua, nações que fazem parte do Conselho de Desenvolvimento do Sul da África. De cima pra baixo, coluna da esquerda: Suazilândia; Moçambique; Lesoto; Zimbábue; Coluna da direita: Namíbia; Malauí; Botsuana; e fechando com a nação-sede, a África do Sul.

Minha última cena na África do Sul foi mesmo uma operação de guerra em Joanesburgo.

Fui visitar a favela de Alexandra (pronuncia Alec-zandra), na Zona Norte, a parte rica da cidade mas que tem essa ‘boca quente’.

E isso desde sempre, desde o ‘apartheid’ rolam conflitos violentos por lá, muitas vezes de negros contra negros.

Então mano, cheguei lá, caramba cara, a praça antes da favela tava ocupada por umas 40 viaturas da polícia, sem exagero.

E as entradas da favela todas elas trancadas com barricadas formadas pelos veículos policiais. Embaixo do rodado de uma viatura tinha um corpo coberto, com jornais ou um lençol.

Pensei que havia ocorrido um assassinato entre gangues da favela, ou então que tivessem matado um trabalhador num assalto, mas não sabia que a polícia estava envolvida.

Cactus em Joanesburgo. A África do Sul é muito seca, alias todo Sul da África (pra quem não ‘pegou’, obviamente África do Sul é o país. ‘Sul da África’ inclui essa nação e as nações vizinhas, pra alguns abarcando até o Congo). Seja como for, eu dizia que a água é muito valorizada na região, por ser rara. Quando estive lá (abril.17) a Cidade do Cabo enfrentava severo racionamento de água, os reservatórios tinham menos de 20% da capacidade, como já aconteceu em SP. Alias, um mês antes da África do Sul fui a Argentina. Esse vizinho nosso sul-americano também passava por racionamento, mas de energia elétrica. Já cliquei cactus também aqui em Ctba., Florianópolis, Chile, Argentina, e meus familiares na Colômbia.

Por isso não entendi porque um aparato de segurança tão grande, afinal Joanesburgo tem 1,3 mil homicídios/ano.

Se eles fossem isolar cada cena de crime com um efetivo desse tamanho, teriam que importar policiais da África inteira pra ajudar.

Depois fui ler no jornal, não foi assassinato, e a polícia estava envolvida. Uma viatura atropelou e matou uma menina adolescente que voltava da escola.

Por isso o corpo estava sob o eixo, e por isso uma operação de guerra: em 2015, num caso similar a polícia atropelou e matou 2 Homens.

A população fez justiça com as próprias mãos e queimou os 2 policiais vivos.

Por isso cercaram a praça e trancaram a favela com um contingente, digo de novo e não é exagero, digno de uma ocupação militar. Era uma ocupação militar.

……….

Aquele foi no fim-de-tarde de meu último dia em Joanesburgo, que foi também meu último dia na África.

Sintetizou bem o país, suas tensões, suas lutas. A luta contra o cruel ‘aparheid’ foi vencida, a democracia veio.

Falta agora vencer a tentação de usar a violência pra tentar resolver os problemas.

A violência não resolve nada, apenas agrava todas as dificuldades.

Fechamos com mais uma cena do livro Clube do Bangue-Bangue: ‘Dobsonville’, Soweto, Joanesburgo. 3 Homens tombam mortos numa chacina na guerra negros x negros. O lado uma placa informa “Lembre-se: a Vida não te deve nada – você é quem deve tudo a Vida !!!”. Encerro meu caso.

Mas essa luta apenas inicia. Por hora, a situação é essa aí: mais de 2 mil assassinatos por ano no Cabo somente.

E mais de mil e tantos em Durbã e em Joanesburgo, muitos milhares mais por todo país. Em 95% dos casos, um negro mata outro.

Ruas tingidas de vermelho, cenas de guerra.

Bang! Bang!

África do Sul, p*rra!!!

Só eu e Deus na ‘Zona de Perigo’,

Eu Sou o Mensageiro.

E Deus Pai e Mãe proverá.

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Até Pacatuba (Z/S de Fortaleza) tem metrô . . .

2011: Fortaleza era a “Cidade dos Ônibus Azuis“, toda frota municipal era nessa padronização (*). Não haviam articulados, corredores, e muito menos metrô ou VLT. Foto no Aeroporto, assim que cheguei. Tudo azul, com esse céu do Nordeste como pano de fundo.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado (via emeio) entre 2011 e 2014

Maioria das imagens puxadas da rede, créditos mantidos sempre que impresso nas fotos.

Quando a tomada for de minha autoria, identifico com um (*), como visto ao lado.

………..

Vou fazer uma coletânea do que eu publiquei sobre o transporte coletivo de Fortaleza.

Estive na capital do Ceará em agosto de 2011. Depois, acompanho a evolução via internet.

2017: 2 linhas de metrô operando. Digo, a Linha Sul pra Maracanaú (e Pacatuba) é metrô mesmo, inaugurou em 2012 e já está em operação comercial, em horário integral e cobrando tarifa.

Nota: tudo é relativo no Universo. Quando eu disser que Fortaleza é “cidade-modelo do transporte brasileiro”, não quero dizer que tudo funciona as mil maravilhas.

E sim que está sendo feito um esforço hercúleo de modernização. Comparando com o que era no começo da década de 10, mudou da água pro vinho.

A melhoria do transporte de Fortaleza salta aos olhos, e é isso que quero destacar. Evidente, falta muito a ser feito, mas a coisa está avançando a passos largos.

Isto posto, vamos aos textos. O primeiro é o que nomeou a matéria, e foi publicado em 3 de fevereiro de 2013.

até pacatuba tem metrô

Cavalos soltos nas ruas de Pacatuba-CE. Mas com metrô (dir. na imagem).

Você conhece a cidade de Pacatuba?

A não ser que você seja do Ceará, ou tenha parentes por lá, eu aposto que enormes são as chances que você não conheça esse lugar.

Pacatuba é uma cidade pequena, incrustada no semi-árido do sertão do Ceará, onde os cavalos ainda andam soltos, como pode ver na foto.

Não vamos tapar o sol com a peneira, Pacatuba é bastante depauperada.

Na periferia a falta de infra-estrutura é gritante, ainda há inclusive casas feitas de taipa (pau-a-pique).

Pois bem. Essa cidade, Pacatuba, Ceará, tem metrô, e podem ver a estação na mesma foto.

Acima ela na fase final de obras. A foto (via ‘Google Mapas’) é de fevereiro de 2012, em junho do mesmo ano iniciou-se a operação.

O Centro da cidade, a Zona Sul, e Maracanaú e Pacatuba, conectados pela Linha Sul.

…….

Pacatuba é tão distante de Fortaleza que já se configura numa transição:

Atual (2017): 1 linha de trem de subúrbio, 1 de metrô operando plenamente, 1 de VLT iniciando em testes, mais 1 de metrô em construção.

Fica no extremo da região metropolitana da capital, mas já pode ser considerada uma cidade do interior do estado.

E mesmo assim, esse subúrbio pobre e distante do Centro da capital, tem um sistema de transporte moderno e eficiente a conectá-lo ao núcleo.

Vamos fazer uma atualização, pra mostrar como está a situação em 2017. Repetindo o que já foi dito e é domínio público:

Fortaleza hoje tem 2 linhas de metrô, uma é metrô mesmo e operando plenamente (em vermelho no mapa), e a outra de VLT, que foi inaugurada no fim de julho de 17 (laranja).

Julho de 2017: começa a circular o VLT, a linha laranja. Por hora, em testes, os primeiros 5 km (em Santos-SP, em 2015, eu passei por isso, usei o VLT de lá que estava em testes).

Quando escrevo está um trecho (ressaltado de preto ao lado do laranja) já rodando, mas ainda em fase de testes, uma viagem por hora apenas das 8 da manhã ao meio-dia, e de forma gratuita.

mais uma linha do metrô em construção (azul), e outra, mostrada em verde, de trem suburbano, funciona mas de forma bem precária, uma viagem a cada 45 ou 50 minutos.

A rede de ônibus também vem sendo modernizada, desde 2014 Fortaleza conta novamente com articulados, que não existiam quando estive lá em 2011.

Por quase 2 décadas, Fortaleza não teve articulados. Em 2014 eles retornaram com força total.

Agora voltam os textos originais, feitos de 11 a 14. Repito o que escrevi a época, e no relato irão constar muitas coisas que já não são mais a realidade.

É exatamente pra dimensionarmos o quanto o transporte fortalezense evoluiu em poucos anos.

A cidade aproveitou as linhas de trens de carga e passou a operar trens de passageiros pros subúrbios Oeste e Sul, que é onde mora o povão.

Fortaleza, “Cidade das Lagoas”, e que agora conta com transporte moderno. Na periferia fizeram vários reservatórios pra que a cidade seja habitável, pois o clima é muito seco (mesma função do Lago Paranoá na capital federal). Ao lado vemos as estações do metrô e de ônibus.

Por um bom tempo, não existia metrô ou VLT, apenas 2 linhas precárias de trem de subúrbio.

Reconhecidamente, esse é um quebra-galho, funciona de forma bem precária, porque ainda compartilha a rede de trilhos com trens de carga.

A Zona Leste é a parte rica da cidade, do Centro a Praia do Futuro, passando pelas Praias de Iracema e Meireles. Nessa parte mais abastada não há trens de passageiros.

(Atualizando: agora ela será servida pelo VLT e outra linha de metrô). Mas por muito tempo os trens foram reservados pras partes mais pobres, as Zonas Oeste e Sul.

Antes/DepoisAv. Bezerra de Menezes em 2012: não havia qualquer prioridade pro transporte público, os busões dividiam a pista com os carros. 2016: quanta diferença! Os coletivos (muitos articulados) em pista exclusiva, estações com embarque elevado e pré-pago.

Em São Paulo, Rio, Belo Horizonte-MG e Porto Alegre-RS, também foram implantados trens suburbanos de passageiros em antigas linhas de carga.

Mas os modais não são compartilhados. Os trens de cargas, nesses ramais, ou foram desativados ou foram desviados.

Lembram-se, certamente, das fotos que lhes enviei de Belo Horizonte, quando estive lá, em novembro de 2012.

Uma estação de metrô, e bem ao lado, mas em infra-estrutura separada, os vagões cargueiros.

A linha foi triplicada: dois trilhos pra passageiros, um em cada sentido, e um pra carga, bem ao lado. Assim o trem de passageiros opera como um metrô normal, com a frequência que for preciso, no horário de pico uma partida a cada cinco ou dez minutos.

Registro raríssimo por 2 motivos, pra começar é um dos 1ºs articulados que chegaram ao Fortaleza voltar a ter esse modal, quando foram implantados os corredores e estações vistos acima (por isso as portas elevadas); e 2º), um dos poucos ‘sanfonados’ que existiu com a pintura ‘das Flechas‘ inteira azul. Logo a seguir veio a padronização em que os ‘carros’ ficaram brancos, somente o teto azul.

Em Fortaleza, João Pessoa-PB e Teresina-PI (e embora não posso dar certeza, creio que também em Maceió-AL e Natal-RN), a situação é distinta:

Pegaram a linha que era e ainda é usada pelas composições cargueiras e construíram-se estações de passageiros ao redor delas, sem duplicar e muito menos triplicar a linha.

Logo, os dois sentidos de trem de passageiros usam o mesmo trilho, e ainda o dividem com os trens de carga que permanecem ativos.

Resultado: só pode haver uma partida por hora de composições de passageiros.

Constatei isso pessoalmente. Cheguei na Estação Central do Ramal Oeste do trem de subúrbio de Fortaleza, e ela estava vazia, só havia eu e o segurança.

Centro de Fortaleza, 2011 (*): busos metropolitanos de partida pra Maranguape.

Porque o trem havia acabado de partir, esperei ali mais de 50 minutos.

Em João Pessoa ocorreu o mesmo, cheguei a Estação Santa Rita, subúrbio metropolitano da Zona Oeste, e havia um cartaz indicando que faltava uma hora pra composição partir.

Fui dar mais umas voltas pela cidade, e ainda assim esperei quase meia-hora na estação.

Em J. Pessoa a situação permanece a mesma. Mas em Fortaleza mudou. Após muito tempo com 2 linhas de trens de subúrbio precárias, as autoridades estão modificando esse quadro.

Centro de Caucaia, Zona Oeste da Gde. Fortaleza, 2011(*): micro da Vitória cumpre linha municipal.

Na minha viagem a capital cearense, só pude andar no ramal Oeste (que vai pra Caucaia). O ramal Sul estava desativado, porque estava em reformas.

Esse último é o que tem sua última estação já em Pacatuba, mas que atende basicamente – além da Zona Sul dentro do município de Fortaleza mesmo – o município de Maracanaú, que é bem mais populoso e bem mais próximo de Fortaleza.

E no que consistem essas reformas: em 2011 ele estava sendo ampliado e modernizado, pra poder ser transformado em metrô.

Trem suburbano pra Caucaia: esse ramal ainda não foi modernizado. Digo, as composições sim, agora são VLT’s com ar-condicionado. Mas a linha não foi duplicada, é uma viagem a cada 45 min. .

Iniciou a operação de testes em junho de 2012, sempre no mesmo esquema, 4 viagens por dia das 8 da manhã ao meio-dia, sem cobrança de passagem.

Em 2013 (quando fiz essa mensagem), está pronto e operando (embora na época ainda em modal de testes, a cobrança de tarifa e operação plena só veio gradualmente).

As estações foram ampliadas e modernizadas, agora contando com lojas, escada rolante, praça de alimentação, banheiros, etc.

A linha, como já havia ocorrido em Belo Horizonte, foi triplicada, duas paralelas pros trens de passageiros poderem se cruzar em sentidos opostos, e mais uma pra carga, que assim pode continuar sem perturbar o outro modal.

Estação Conjunto Ceará, Zona Oeste(*). Diz “Metrô de Fortaleza”, mas, não, o Ramal Oeste ainda não é metrô, longe disso.

……………

Observem abaixo o mapa do sistema. As linhas amarelas mostram como era a rede de trens de subúrbio, ramais Oeste e Sul, compartilhada com carga.

Foi assim por décadas, mas não mais. A parte em azul mostra as linhas de carga que é necessário construir, pra que onde opere pra pessoas seja exclusivo nesse modal. Esse mapa é antigo.

Quando fui lá, em agosto de 2011, vi que as obras estavam no estágio final.

As imagens de Pacatuba, que ilustram a mensagem, foram  filmadas pelo ‘Google’ em fevereiro de 12.

Até 2012: somente 2 linhas precárias de trem suburbano, sem VLT ou metrô. Ainda precisava fazer novo ramal pra desviar as composições cargueiras, o que foi feito 1º no trecho em azul, e depois no vermelho (que era só carga), agora é o VLT.

Por isso a estação ainda não estava operando. Mas agora está. Mais um ano se passou, e tudo ficou pronto.

O metrô de Fortaleza iniciou suas operações no meio de 2012, enfatizando.

E a estação-terminal, o ponto final da linha, é no bairro Vila das Flores, já no município de Pacatuba. Como abri o texto dizendo, Pacatuba-Ceará tem metrô.

Por enquanto (2013), em fase de testes. Os trens circulam somente das 8 da manhã ao meio dia de segunda a sexta, e por hora gratuitamente.

A previsão é que Ainda no primeiro semestre de 2013 se iniciasse a operação comercial, das 5 da manhã as 10:30 da noite, de domingo a domingo.

Abriu o baú: vamos relembrar o transporte de Fortaleza em fotos. Começamos com um tróleibus da CTC, virada dos anos 60 pra 70.

A partir daí então haverá cobrança de tarifa. Não sei se o cronograma foi cumprido conforme prometido em 2013, mas agora é realidade, atualizando.

………….

Não para por aí. Um dia, não se sabe quando, a Linha Oeste pra Caucaia também será modernizada e se tornará metrô.

E a Linha Leste (paralela a orla) está em obras – verdade seja dita, obras atrasadas, mas está indo.

No futuro serão 4 linhas, e aí sim, vai chegar a Zona Leste, a parte rica da cidade, onde estão boa parte dos empregos.

Voltando a falar do primeiro mapa mais pro alto na página e não desse logo acima: a linha mostrada em azul não existe, é só projeto mesmo por hora (quando escrevi, agora em obras, de qualquer forma ainda não existe).

Já a linha que está em laranja está pronta mas usada somente pra trens cargueiros, seu destino final é porto (atualizando, as composições de carga saíram, está virando o VLT).

Na virada dos anos 80 pra 90 veio uma onda de modernização. Chegaram os 1ºs articulados, pela saudosa estatal CTC-CE, ainda era pintura livre e numeração só de 3 dígitos nos busos.

Entretanto, pra haver metrô ali, novamente terá que ser triplicada, pra acomodar composições de carga e dois sentidos de trem de passageiros.

Se esse é um futuro distante, o que importa é que está se trabalhando pra que algum dia ele emerja a matéria. E em 2017 parte dele já emergiu.

…………

Agora quanto aos ônibus. Fortaleza tem 7 terminais, em que a integração é gratuita. É pouco, certamente. Só que agora não é preciso fazer mais um terminal sequer por lá. Porque agora Fortaleza conta com integração no cartão. Nos terminais, você troca de ônibus quantas vezes quiser, sem pagar. Isso é igual Curitiba.

Monobloco da Angelim ainda na pintura livre. Mas já com numeração de 5 dígitos (sendo o prefixo em cor diferente, modelo que Fortaleza inventou e que foi adotado em toda ‘Costa Norte Brasileira’). Outro detalhe: inverteram a entrada pra frente.

Só que em Fortaleza você pode descer na rua, fora do terminal, e igualmente pegar mais um ônibus sem pagar de novo, via cartão.

Com isso, 100% das linhas de Fortaleza são integradas. 100%. Não há zonas de sombra.

Em Curitiba há, sendo a maior delas a região do Pilarzinho (Zona Norte). Aqui, só uma linha de grande demanda é integrada no cartão, o Interbairros 1.

Igualmente pra ser justo, mostro lhes que o sistema de Fortaleza tem falhas graves (2013):

Não há ônibus articulados nem canaletas (corredores) exclusivas, e não há integração com a região metropolitana.

Início dos anos 90: 1ª padronização da pintura de Fortaleza (Fonte de várias imagens: sítio Ônibus Brasil). A princípio seriam 3 pinturas, de acordo com a categoria do serviço. Essa era a dos alimentadores, em mais um Monobloco da CTC, destaco o prefixo em cor distinta (‘Costa Norte’) e a entrada pela frente.

Bem, quanto ao segundo problema, o metrô amenizará em muito essa questão, justamente porque integrará Fortaleza com Maracanaú, Pacatuba entrando de brinde.

Já a falta de canaletas e articulados permanece como uma questão a resolver.

Atualização: isso também foi resolvido, ou ao menos começou a ser resolvido. Realmente o avanço pra frente de Fortaleza nessa década salta aos olhos.

A integração no cartão é inevitável. Até Porto Alegre e o Rio de Janeiro demoraram bastante mas já implantaram/estão implantando integração no cartão (lembre-se sempre, escrito em 2013).

Bato de novo nessa tecla porque em 2013 Curitiba ainda não havia despertado pra necessidade de integrar digitalmente, e não somente pelo modal físico do terminal.

Thamco Padrão (alongado, portas largas, motor traseiro) da Cialtra, eis os que eram ‘circulares’ (equivalentes aos Interbairros de Curitiba ou ‘Transversais’ de Porto Alegre) na 1ª padronização (essa e outras tomadas vieram do portal FortalBus). Embarque dianteiro e o prefixo em outro tom.

A capital do Paraná só tinha uma linha central de grande demanda integrada no cartão, digo de novo e quantas vezes forem preciso.

Afora isso apenas algumas outras nos confins da cidade, linhas pouco utilizadas pois atendem regiões esparsamente habitadas.

Pior. Mais 4 anos passaram, e ainda não há integração no cartão. Muito menos trem, metrô ou VLT.

…………..

No Nordeste, enquanto isso, a coisa fica melhor a cada dia.

De novo um articulado CTC da primeira leva, que acima vimos na pintura livre. Aqui ele foi repintado, esse era o 3º esquema de pintura da 1ª padronização, com flecha eram os ‘Troncais’, do Centro aos terminais. Aqui a transição, atrás um buso ainda com pintura livre. Seja como for, essa pintura acabou se impondo sobre as outras duas, e breve todos os busos municipais de Fortaleza, de todas as linhas, acabaram padronizados com esse desenho e cores. É mais um Thamco, esse Volvo Azulão.

Não é apenas na capital que o Ceará está investindo em sistemas rápidos, eficientes e não poluentes de transporte de massa. Conheça o “Metrô do Cariri” e o “Metrô de Sobral”.

O estado do Ceará tem nada menos que 3 cidades com transporte sobre trilhos: a Grande Fortaleza, Sobral e Juazeiro do Norte.

(Nota: ‘cidade’ é diferente de ‘município’. O estado de SP conta com transporte ferroviário urbano em grande escala em dezenas de municípios, mas em somente duas cidades, a Grande SP e a Baixada Santista).

Veja abaixo a imagem do “Metrô do Cariri” sobre a ponte. Na verdade não é metrô, mas VLT. Mas … parece um metrô, daí a alcunha.

Ainda assim, repito, trata-se de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Que liga os vizinhos municípios de Crato e Juazeiro do Norte, no sul do estado, bem longe da capital e do litoral portanto.

“Metrô do Cariri” (Juazeiro do Norte/Crato).

Mas veja, até cidades no fundão do sertão nordestino tem um transporte moderno e barato, a passagem quando consultei era apenas R$ 1.

….

Os VLT’s do interior cearense são lindos, certamente. Mas é preciso um contra-ponto:

São sub-utilizados, assim será que o investimento valeu a pena?

Aqui o VLT de Sobral, também no Sertão.

A previsão era de que cada sistema de VLT transportasse 5 mil passageiros por dia, mas a média fica no Cariri em 1,3 mil, menos de 1/3.

Em Sobral está melhor, é o dobro do de Juazeiro, são 2,6 mil usuários por dia, mas ainda assim metade do previsto inicialmente. Façamos a comparação.

A linha Roça Grande/S. Cândida, na Zona Norte da Grande Curitiba, tem 3 mil passageiros por dia.

Próximas 2: Estação Parangaba do Metrô em fase final de obras, agosto de 2011 (*)

No meio do dia é feita por somente 1 ‘carro’ não-articulado, no pico vem mais um dar uma ajuda.

Entenderam? Uma única linha de ônibus em Ctba (2 veículos no pico, unicamente 1 no resto da jornada) tem mais demanda que os VLT’s do interior do Ceará.

Claro, o trajeto é curto, por isso só 1 busão dá conta e o intervalo entre as viagens é meia-hora.

Os VLT’s do interior do Ceará percorrem uma distância muito maior, se a Roça/Santa fosse tão longa precisariam 4 ou 5 ‘carros’.

A questão não é a distância, e sim que os VLT’s de Sobral e Juazeiro são grosseiramente sub-utilizados, um mal consegue superar metade do que era esperado, outro não chega a um terço.

 Aí eu te pergunto: valeu a pena o investimento, ou foi mais uma obra faraônica como tantas no Brasil? Valeu gastar milhões pra implantar esses dois VLT’s no interior, que rodam vazios a maior parte do tempo?

E aqui a o local da Estação Benfica, também na Zona Sul (*).

A resposta é meio óbvia, não? Os investimentos no VLT e metrô de Fortaleza eu não contesto, só aplaudo.

Na capital a demanda é gigante, e a população merece essas melhorias. Por isso fiz essa matéria.

Mas no interior a situação é outra, e um corredor de ônibus (com ou sem paradas elevadas) seria suficiente. Mas não daria tantos votos, não é mesmo?

……

Aqui encerra-se o primeiro emeio (acrescido de material inédito), que data de 2013. Agora outro, publicado em 7 de setembro de 2011, logo que voltei de lá portanto.

o metrô vem aí: em Fortaleza, claro

De volta a capital, agora vou continuar contando minhas voltas pela cidade. Em Fortaleza amanhece uma hora mais cedo que na capital do Paraná, pouco antes das 5:30.

Entretanto, curiosamente anoitece no mesmo horário, por volta das 6:30 (isso não é científico, foi uma observação empírica, o mês era agosto, quase Primavera em Curitiba).

Mas voltemos pra manhã de sábado que eu estava no Ceará. Dormi num hotel barato próximo a Praia de Iracema, no Centro. Amanheceu e eu saí.

Tabela Trocada: veículo em testes em Fortaleza, com a pintura de Campinas-SP.

Eram seis horas da manhã de sábado. Sol alto e quente. Mas pelo horário não havia quase ninguém na rua, por motivos óbvios.

Tava eu lá, em pleno Centrão de Fortaleza, e ele quase deserto. As primeiras pessoas chegando pra trabalhar, as primeiras lanchonetes abrindo.

Comi 3 pães de queijo (a versão cearense é diferente da que vende no Centro-Sul do país, breve levanto pra rede a mensagem que falo da alimentação).

A seguir peguei o trem pra Zona Oeste, a mais pobre da cidade. O trem custa um real, e tem ar-condicionado.

Mais uma vez, essa é a atual pintura padronizada de Fortaleza.

Essa é a parte boa. Agora a parte ruim: ele funciona numa linha de compartilhada com trens de carga, que ainda por cima não é duplicada.

Por conta disso, só pode operar uma única composição, só ela vai e volta. O trem é de hora em hora, nos horários de pico de 40 em 40 minutos. 

Em Testes: já que falamos de busos emprestados, eis um de Curitiba operando em Fortaleza por uns dias antes de vir pra cá. Entrada pela frente, pois a roleta está ali. Pra andar no Hibribus os cearenses tiveram que voltar a embarcar pela dianteira.

Como contei acima, cheguei e só havia o vigia na estação, pois levaria uma hora pra próxima viagem, o trem acabara de sair, e tinha que ir até Caucaia e voltar.

Fiquei quase meia-hora só eu e Deus (e o vigia, que também é Filho de Deus) na plataforma deserta (situação similar a que passei na África do Sul, quase 6 anos depois).

Voltando a Estação Central de Fortaleza, enfim começaram a chegar mais passageiros, a composição adentrou ao recinto.

Veio com bastante gente do subúrbio, aqueles que trabalham sábado no Centro.

O Hibribus em casa, aqui em Curitiba, puxando a linha Interbairros 1 – a única central e de maior demanda em Ctba que é integrada no cartão, enquanto em Fortaleza são todas, na cidade inteira.

Mas pra volta foi quase vazio, além de mim que era turista quem vai do Centro pro subúrbio antes das 8 da manhã de sábado? Peguei o de 7:45.

Felizmente era sábado, pois domingo esse horário não opera, é de duas em duas horas. Quem perde o das 7 tem que esperar até as 9:00.

Os vagões são limpos, confortáveis e seguros. Uma das poucas partes de Fortaleza que não é pichada. Observem as fotos, um pouco mais pra baixo na página.

Há seguranças em todas as estações, inclusive seguranças do sexo feminino, se for preciso revistar Mulheres. Os guardas andam armados.

Assim, pelo menos quando peguei, não haviam sem-teto, pedintes, vendedores nem ladrões no trem. As composições são velhas, mas estão reformadas, as portas funcionam perfeitamente, não há situações de risco.

Aqui e a direita: mais 2 do (sub-utilizado) “Metrô do Cariri” entre Juazeiro e Crato.

Dois anos depois, repito, andei no trem de subúrbio de João Pessoa, onde as condições são bem piores, na Paraíba não há ar-condicionado pra conversa começar.

A vantagem era o preço. Em Fortaleza, 1 real (agosto.11), enquanto que em João Pessoa era, é até difícil de crer mas é verdade, somente R$ 0,50, sim, cinquenta centavos (setembro.13).

Nos anos 90 andei em trens de subúrbio em São Paulo em que algumas portas não fechavam, o trem ia a toda a velocidade com portas abertas.

Hoje isso não ocorre mais, que fique bem claro. Então hoje os trens de São Paulo são seguros.

Mas um dia não foi assim, era o chamado “trem da morte”, cujo lema era “pague pra entrar, reze pra sair”, e eu presenciei essa situação pessoalmente.

Em Fortaleza deve ter ocorrido o mesmo, aposto que até os anos 90 os trens eram igualmente perigosos. Mas hoje não são, é o que importa.

De Volta pro Futuro“, ops, perdão, essa é uma postagem minha que também fala de Fortaleza. De Volta pro Passado, isso sim, e de volta a capital do Ceará. Começo dos anos 90: sanfonado da CTC na pintura livre toma um bom banho pra iniciar mais um dia de trabalho.

Os vagões foram reformados, mas a linha ainda não. É pista única, compartilhada nos dois sentidos.

Apenas em algumas estações a linha se divide, aí quando duas composições vem em sentido contrário nesses locais elas podem se cruzar com segurança.

Mas na maior parte do trecho é pista única. Isso e mais ser dividida com o trem de carga impede uma frequência maior.

Porque se houvesse a modernização, muito, mas muito mais gente usaria, como aconteceu na Linha Sul, virou metrô e ‘pegou’.

Outra deles, na 1ª padronização eram 3 pinturas, essa era uma delas. Na 2ª padronização essa pintura encampou tudo, todos os busos ficaram assim nos anos 90, recapitulando.

O METRÔ VEM AÍ, FORTALEZA ENTRA NOS TRILHOS  – 

(Que a linha pegou escrevi em 17. Volta o texto original de 2011, quando a Linha Sul estava em estágio final de obras) Acima falei da Linha Oeste, que está ativa como trem de subúrbio.

A Linha Sul está desativada, pois vai virar metrô. Seguem mais pra baixo na página (busque pelas legendas) fotos das estações, que já estão praticamente prontas.

A Estação Benfica fica na Zona Sul numa região ainda de classe média.

Próximas 6: virou o milênio e todos os busos de Fortaleza ficaram assim, na padronização “das Flechas” (origem da foto: página Ônibus do Nordeste). O prefixo continua em cor diferente. Em compensação, nessa época a cidade não teve articulados, num hiato triste e inexplicável.

A Estação Parangaba  fica bem mais ao sul, onde a cidade começa a virar subúrbio mesmo.

Ao lado do terminal de ônibus de mesmo nome (já em funcionamento há quase duas décadas, também fotografei, mais pra baixo na página).

A Estação Conjunto Esperança, é nos confins da Zona Sul, periferia típica, só que ainda no município de Fortaleza.

O metrô irá até o município de Maracanaú, onde eu havia ido na véspera, de ônibus, e sua última parada será em Pacatuba.

Atualizo mais uma vez: desde 2012 mudamos o tempo do verbo pro presente, vai até Maracanaú e Pacatuba.

‘Não pegou’ inverter o embarque. O povão do Ceará não gostou de entrar pela frente, voltou pra porta de trás. Como a Av. Leste-Oeste é a ‘Veira-Mar’ Oeste (na Rep. Dominicana se escreve mesmo com ‘v‘), esse busão vai ‘da Beira-Rio a Beira-Mar‘.

(Volta o original de 2011) As obras estão quase prontas, e na verdade já deveriam ter sido concluídas, está atrasada a inauguração.

Dizem que até 2012 vai. Vamos falar a verdade: as obras estão atrasadas, mesma situação que está ocorrendo em Salvador.

Nota: Salvador inaugurou o primeiro trecho curto de metrô a tempo da Copa, em 2014. A partir de 2016 já são duas linhas operando, somando 15 km.

……….

De volta ao que escrevi sobre Fortaleza, 2011: a primeira linha sai ano que vem, e a previsão é que até a Copa as obras da segunda linha estarão adiantadas.

Fortaleza: transporte barato (comparado com Curitiba certamente, apesar que lá a renda é menor também) e integrado duplamente, pela via eletrônica no cartão

Nova atualização: a previsão se cumpriu parcialmente. Em 2012 a Linha Sul ficou mesmo pronta, mas os VLT’s da segunda linha só foram pros trilhos (literalmente) em 17.

Obviamente no metrô a linha férrea será dupla, permitindo uma frequência normal de composições, ou seja, de no máximo 10 minutos no período de pico, e de até 20 nos demais horários.

Também está sendo construído um desvio pra linha de carga poder continuar operando sem atrapalhar o transporte de passageiros.

Na Linha Sul tudo isso está quase pronto. Assim que for inaugurada, e será antes da eleição do ano que vem, será a vez das outras linhas.

Fortaleza evoluiu nos transportes, enquanto Curitiba parou no tempo. Aqui só há uma rede de ônibus, que em quase 30 anos (desde 1993) quase não foi ampliada.

. . .  e também física no terminal. Próximas 2: Terminal da Parangaba, Zona Sul (*).

Com exceção da Linha Verde Sul, Terminal Caiuá e alguns terminais na região metropolitana, quase nada foi feito por aqui. E mesmo o que saiu foi a muito custo.

……….

Vamos a mais um emeio, esse circulou no dia 18 de outubro de 2014. Antes, repito a advertência. Tudo é relativo, e o termo ‘Cidade-Modelo’ exalta a grande evolução de Fortaleza nessa década.

Não estou afirmando que tudo está perfeito, mas sim que já foi muito pior, e nessa década a cidade renasceu. Isso esclarecido, fogo no pavio:

Agora Sim: Fortaleza, cidade-modelo do transporte brasileiro!!!

Como foi em 2011, os busos tinham a padronização ‘das Flechas‘ (*). Isso já disse, desculpe o pleonasmo. Repito aqui pra ressaltar que Belo Horizonte tinha uma pintura muito similar, na mesma época.

E boa notícia também: enfim, após longa ausência, os articulados voltaram a Fortaleza!!! E agora com ar-condionado !

Um colega me mandou a notícia que esses bichões começaram a operar na linha que liga os Terminais Antônio Bezerra, na Zona Oeste, ao de Messejana, na periferia da Zona Leste. Um trajeto perimetral, cortando todo o subúrbio da cidade.

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2014/10/14/noticiafortaleza,3331134/onibus-articulado-comeca-a-operar-em-carater-experimental-nesta-quarta.shtml

Linha Oeste-Leste, de Antônio Bezerra ao Náutico. Hoje faz parte do corredor implantado pela prefeitura, na Z/Oeste corredores com plataformas elevadas como vimos na abertura da matéria. Na Z/Leste fizeram binários nas avenidas, que agora contam com faixa exclusiva pra ônibus. Como sabem, esse buso é municipal. Já verá porque enfatizo isso de novo.

As Zonas Oeste e Sul de Fortal são justamente as mais populosas e povoadas, onde mora o povão.

A Zona Leste é a parte rica a Beira-Mar, mas no subúrbio é periferia também, e a capital do Ceará não tem Zona Norte, pois essa é o Oceano Atlântico.

Assim se vê, como disse acima, que essa linha faz um arco na periferia da cidade. Mas não para por aí.

A próxima etapa, já em novembro, vai pôr articulados no corredor que vai ligar a Zona Oeste ao Centro.

Veículo metropolitano da Via Metro (*). A mesma pintura dos municipais, apenas muda o amarelo no lugar do azul. Mas os metropolitanos do Ceará são pintura livre, porque esse é similar? Porque é uma homenagem, uma ‘padronização voluntária’, um clone. Abaixo falo melhor disso.

Em breve, esse corredor será estendido ao Terminal do Papicu, na Zona Leste, a parte rica da cidade.

Aí você vai poder se deslocar do subúrbio-dormitório a oeste até o polo de empregos a leste de forma rápida, barata e eficiente.

Ainda sem o corredor exclusivo, vê que os articulados já estão indo até o Papicu, é exatamente ali que foi tomada a imagem logo abaixo.

E o melhor vem agora. Tudo isso por apenas R$ 2,20 (outubro de 14). Vale lembrar que em Fortaleza 100% das linhas são integradas.

Já mostro mais metropolitanos. Aqui, voltamos aos municipais da capital. Quando vieram os articulados mudou também a pintura, só o teto, frente e costas ficaram azul, a lateral agora é branca. Transição, atrás ainda inteiros de azul.

Pois há os terminais com integração física e depois, fora deles, você ainda pode pegar mais uma condução sem pagar de novo via integração temporal no cartão.

Pra não falar do metrô da Zona Sul, tema de inúmeros outros emeios nossos (todos eles agrupados aqui), que é uma belezura. Transporte barato, e de qualidade é isso.

Fortaleza é bem grande, apenas o município tem 2,5 milhões de habitantes.

Mais uma cena da transição: 2 micros, o da frente na nova pintura, atrás na antiga.

Atenção: se você digitar “população Fortaleza” no ‘Google’, vai aparecer 3,5 milhões.

Esse é o total da Grande Fortaleza, com os subúrbios metropolitanos incluídos.

Apenas o município-núcleo de Fortaleza mesmo ainda está na marca de 2,5 – retratei um erro que aconteceu em 2014, esse já foi corrigido.

Próximas 2: metropolitanos, pintura livre. Ambas de minha autoria, 2011. Aquele triângulo em amarelo é o símbolo do Detran-CE, que regula as linhas inter-municipais.

Mas em 08/08/17 quando edito pra jogar no ar substituíram um erro por outro:

Agora consta que Fortaleza tem 800 mil moradores somente. É mole?

……….

A volta dos articulados supre uma lacuna de décadas. Mas não é a primeira vez, é o retorno:

Na virada dos anos 80 pra 90, Fortaleza investiu na melhoria do transporte coletivo.

Comprou vários articulados pra então existente estatal CTC (Companhia de Transporte Coletivo).

E inaugurou alguns terminais, padronizou a pintura e mudou a entrada de trás pra frente.

Veem em várias imagens os sanfonados da saudosa CTC – esses ainda sem ar-condicionado.

A partir dos anos 90 as vans tomaram conta de Fortaleza (*), como também ocorreu em boa parte do Brasil, América e África. Legalizadas, se integraras ao sistema. Essas são municipais de Fortaleza (a imagem ficou escura, desculpe).

O tempo passou, a CTC foi privatizada, e Fortaleza deixou de ter articulados, por quase duas décadas.

Além disso, a entrada foi novamente revertida pra porta traseira, creio ser um caso único no Brasil, uma cidade mudar pra frente, não se adaptar e voltar pra trás.

Mas os terminais e a pintura padronizada permaneceram, ou seja, essa primeira onda de melhoria não foi de forma alguma perdida.

Mais recentemente surgiu nova onda de investimentos. Veio a Linha Sul do metrô, e breve outras também. E a integração no cartão.

Centro de Caucaia: as vans com faixa laranja são as metropolitanas.

Faltavam os corredores e articulados, ambos inexistentes quando lá estive em 2011, mas agora uma realidade.

Fortaleza, cidade-modelo do transporte brasileiro. Quem diria, hein???

……..

Isso que Fortaleza ainda conta com explosivo crescimento populacional, como as cidades do Sul e Sudeste um dia tiveram, mas não mais a muito.

Metrô de Fortaleza.

Uma pequena comparação com Curitiba deixará claro.

Aqui vou dar os dados somente dos municípios, sem incluir região metropolitana.

Em 2011 Curitiba tinha 1,7 milhão de habitantes, Fortaleza 2,4.

Rebelião! Uma viação de Fortaleza, a S. José do Ribamar, se recusou a adotar 2 padronizações, e manteve parte de sua frota na pintura livre. Abaixo falo com mais detalhes.

Em 1991 os números eram 1,3 milhão pra capital do Paraná, e 1,7 pra do Ceará.

Duas décadas depois, portanto a distância cresceu de 400 pra 700 mil moradores.

Fortaleza tende a estar beirando os 3 milhões em 2020, enquanto Curitiba não terá chegado ainda ao segundo milhão.

Esse parágrafos acima já são de outro emeio, escrito em 6 de setembro de 2011.

 aqui Fortaleza criou e o Rio copiou

Fortaleza se parece muito com o Rio de Janeiro em muitas coisas:

No gosto musical de boa parte da juventude do subúrbio  (o ‘funk’), na pichação e nas enormes favelas na Beira-Mar, ao lado dos ricaços.

Rio de Janeiro, RJ. Mas cópia de Fortaleza, CE.

Em alguns casos quase uma cópia exata. Mas num ponto a polaridade se reverteu:

Uma viação de ônibus carioca copiou exatamente a pintura que vigorava em Fortaleza nos anos 90.

Acima vemos um CTC que eu mesmo cliquei, em 2011.

Nessa época a ex-viação estatal já havia sido privatizada, e não fazia mais linhas urbanas.

Mas havia mantido alguns ‘carros’ pra outros modais (transporte de funcionários e escolar).

Pro que nos importa aqui, o CTC-CE está  decorado na primeira (e segunda) padronizações de Fortaleza.

Agora filma acima e ao lado: a Viação Bangu do RJ usou exatamente a mesma pintura.

Porque quis, na época era pintura livre nessa cidade do Sudeste. Outro clone, outra homenagem.

Agora foi Fortaleza quem criou, e o Rio copiou.

Tudo vai e volta. Yin-Yan. Essa é a Lei da Natureza.

……

Agora veja esse flagrante raro a direita: Conjunto Esperança, Zona Sul de Fortaleza, 2011.

Mais uma dos articulados pioneiros dos anos 90, na pintura livre da CTC (essa e outras vieram do MOB Ceará).

Um buso ainda usando essa pintura antiga que o Rio gostou, em pleno ano de 2011. Eu sei, a foto ficou bem escura, era domingo a noite.

Mas vale pelo flagra, dos milhares de busos que vi em Fortaleza nos 4 dias que fiquei lá esse era o único nessa pintura antiga – e consegui clicar .

Me refiro aos que ainda estavam na ativa pra transporte urbano regular. Fotografei o CTC no Centrão, mas aquele já está em outros modais, como expliquei acima.

…….

Comentemos diversas imagens espalhadas pela mensagem. Nem sempre estão ao lado do texto correspondente, busque pelas legendas.

Anteriormente essas postagens foram emeios, que têm logística bem diferente. Vemos no decorrer da matéria:

– Acima e ao lado: América, América.

Veem a praça central do bairro Planalto, município de Caucaia, Zona Oeste da Grande Fortaleza.

Ainda irei contar minha volta por esse lugar, breve no ar. Por hora nos fixemos nos ônibus. Como já escrevi muitas vezes em outros textos:

Aqui e a esquerda, agosto de 2011 (*): registrei a fase final de obras da Linha Sul do Metrô de Fortaleza.

É característica de nossa querida América que na praça central de qualquer bairro de periferia parem várias linhas de ônibus.

Curitiba foge a essa regra, aqui na periferia não ocorre de pontos finais se entrelaçarem.

Então no ponto final em algum subúrbio distante não ocorre de ficarem vários ônibus juntos (digo, já fotografei uma exceção em Rio Branco do Sul).

Mas nas outras cidades é o padrão. 

Você chega na praça principal de qualquer subúrbio e lá estão vários bichões enfileirados, esperando a hora de zarpar.

Vi essa cena muitas vezes em São Paulo, Belo Horizonte, João Pessoa, Belém-PA, Santos, Cuiabá-MT, Manaus-AM, Brasília-DF, México, Colômbia, Paraguai, Chile. Bem, obviamente Fortaleza é América.

Interior do trem suburbano pra Caucaia. Só havia eu quando cheguei, cliquei o mesmo em Durbã, na África do Sul.

Aqui (ainda me refiro as fotos em Caucaia) observam dois ônibus da empresa Vitória, esses são intermunicipais.

A definição não é boa, mas olhe com cuidado e veja o símbolo amarelo do Detran-CE no fundo da lataria, logo acima da cabeça da Mulher que passa ao lado.

Ainda na tomada a direita, são dois Marcopolos, essa encarroçadora gaúcha domina o mercado de Fortaleza, deve ter uns 70% da cidade.

O resto é dividido entre Caio, Busscar, Comil e até alguns da paranaense Mascarello, cuja sede é em Cascavel.

A esquerda (ainda falando da foto no Planalto) uma van, de cooperativa, agora legalizada. Também intermunicipal, ou seja, todos os coletivos da foto vão pro Centro de Fortaleza.

Fui pra Caucaia de trem, retornei num ônibus da Vitória. Em J. Pessoa fora o contrário, volta pelo trilho, ida via modal sobre pneus;

– Voltamos ao Centro de Caucaia, Zona Oeste da Gde. Fortaleza. Cliquei em imagens separadas duas vans de cooperativas, também intermunicipais, rumando pro Centro de Fortaleza. Uma está mais pro alto na página, essa aqui da Coopervans é a outra como já informado

Vitória da Iracema na pintura livre.

– Falar em micros, vimos bem pra cima na matéria um municipal de Caucaia, Zona Oeste.

Fui um desses que peguei pra ir ao bairro Genipabu, já na divisa com a zona rural.

Em outra mensagem, breve, relato com fotos como foi minha volta por lá.

Em 3 fotos as estações de metrô sendo construídas na Zona Sul, Estão quase prontas (agosto.11) – até as placas indicando ‘embarque’, ‘bilheteria’, etc., já estão estão instaladas.

Trem suburbano pra Caucaia.

Uma (tirei de dentro do ônibus em movimento, aí a qualidade não ficou primorosa) mostra Benfica, ainda em região de classe média.

Nas outras 2, Estação Parangaba. Como podem ver, nem está pronta ainda, mas já está inteira pichada, inclusive aquela parte alta a direita, que deve ficar a uns 5 metros do chão.

– Exatamente ao lado está o Terminal Parangaba de ônibus.

Próximas 2: Estação Central dos trens suburbanos de Fortaleza (*). Vazia pois é sábado perto das 7 da manhã. Por décadas daqui saíram os trens tanto pra Caucaia na Zona Oeste quanto Maracanaú na Zona Sul. Mas a Linha Sul virou metrô, agora aqui é o ponto final só pras composições da Z/O.

É o maior terminal da Zona Sul, e serve a diversas vilas e conjuntos pobres do Extremo Sul da cidade.

Inclusive alguns que ficam pra baixo do Anel Viário, equivalente dos Contornos de Curitiba e do Rodoanel de São Paulo.

Podem ver que há um busão esperando pra sair em direção ao Terminal Papicu, Zona Leste. Como já escrevi, esse fica no coração da parte rica da cidade.

Logo a linha Parangaba-Papicu é também extremamente sobrecarregada, por ligar a região-dormitório ao polo de empregos.

E deveria ser feita por articulados, mas esses não existem em Fortaleza, infelizmente.

Já o sabem, eles não existiam em 2011. A partir de 2014 voltaram, felizmente. Hoje a linha é feita por articulados.

Ponto final de ônibus em Maracanaú, Zona Sul metropolitana (abaixo, minha autoria). 

Novamente veem vários ônibus (amarelos) juntos esperando a hora de partir. É a América, afinal. Todos os veículos são Marcopolo.

O detalhe da ViaMetro, apelido da Viação Metropolitana, que atende Maracanaú. 

Observam que a pintura é igual aos municipais de Fortaleza, apenas é amarelo ao invés de azul-claro.

Na região metropolitana a pintura ainda é livre, cada empresa faz o que quiser.

A ViaMetro fez essa alusão aos municipais de Fortaleza porque quis, não é obrigada a tanto.

Voltamos a ver os trens, mas aqui na periferia da Zona Oeste (*). É a divisa entre o Cj. Ceará (Fortaleza) x Jurema (Caucaia).

É um clone, uma homenagem. Detalhe: em Florianópolis-SC aconteceu exatamente o mesmo, nos anos 80 e 90.

A capital de Santa Catarina, junto com as de Minas Gerais e Goiás, foi a primeira a padronizar a pintura dos ônibus metropolitanos, ainda no começo dos anos 90.

No caso catarinense, a padronização abarcou as linhas pra São José, Palhoça e Biguaçu (e também Gov. Celso Ramos, por ser feita pela mesma Viação Biguaçu).

As linhas pra Santo Amaro e Caldas da Imperatriz não tiveram sua pintura padronizada, pois na época (começo dos anos 80) a Grande Florianópolis era muito, mas muito menor em termos de população. Assim, Santo Amaro e Caldas ainda eram muito distantes da área urbanizada da metrópole. Mesmo Palhoça e Biguaçu, naquele tempo, não estavam totalmente conurbadas com São José.

Próximas 4 (via ‘Google Mapas’): Estação de Pacatuba do metrô em fase final de obras (fev.12).

Totalmente interligadas formando uma e a mesma cidade, onde você não percebia onde acabava uma e começava a outra, eram apenas Floripa e São José.

Palhoça e Biguaçu eram região metropolitana mas a área urbana não era emendada, ou seja, era preciso ainda pegar estrada e passar por regiões não-urbanizadas pra chegar nelas.

Santo Amaro e Caldas da Imperatriz então, ainda mais distantes, nem sequer faziam parte da região metropolitana.

A companhia “Metrô de Fortaleza” administra tanto o metrô mesmo quanto trem suburbano. No Conjunto Ceará fotografei a placa que diz “Metrô de Fortaleza”, mas lá não é metrô. Aqui na Z/S é metrô, de fato.

Eram cidades do interior catarinenses. Próximas a capital, mas já no interior, e não na região metropolitana.

Por isso, os busos da Viação Imperatriz não eram obrigados a adotar a padronização da CBTU, que emcampou os sistemas municipal e metropolitano de Floripa.

Mas mesmo assim a Imperatriz adotou, voluntariamente, uma pintura-clone, uma padronização voluntária, se quiser pôr assim, similar.

Apenas a faixa onde vinha o nome da empresa era azul-escura, ao invés de preto do padrão mandatório que todas as outras viações tiveram que adotar.

Contei essa história da Imperatriz na Grande Florianópolis, que já está bem ilustrada nessa outra mensagem específica, porque há um paralelo com o que a Via Metro fez na Grande Fortaleza.

De volta ao Ceará que é nosso tópico hoje, lá a entrada por trás é o padrão, tanto nos municipais de Fortaleza quanto metropolitanos.

Exceto nos micros, pois esses não tem cobrador e o motorista quem cobra a passagem.

Mostrei acima a “rebelião” da Viação São José do Ribamar, que se recusou a adotar a padronização em parte de sua frota.

O sítio FortalBus é quem faz as apresentações: verde eram os ‘alimentadores’.

É isso mesmo. Até a virada pros anos 90, era pintura livre em Fortaleza.

Aí veio a 1ª padronização, a princípio com 3 pinturas diferentes, uma pra cada categoria, ‘alimentadores’, ‘circulares’ e ‘troncais’.

(Vamos relembrar nas próximas 4 fotos, na verdade vocês já sabem, é apenas uma desculpa pra vermos mais ônibus antigos.)

Em laranja, as linhas ‘circulares‘. Amplie pra ver que a palavra ‘saída’ sobre a porta está numa plaquinha. Inverteram a entrada pra frente, não deu certo, voltou pra trás. Nesse buso havia recém sido revertido.

Depois a segunda padronização, quando todos os busos foram pintados como os antigos troncais da fase anterior.

Sim, a partir desse ponto, tanto os antigos alimentadores como os circulares, todos receberam a pintura dos troncais.

E a seguir a 3ª padronização. Em que todos os busos, novamente independente de categoria, ficaram azul-claros com duas flechas, em azul-escuro e vermelho.

Pois bem. A S. J. do Ribamar não aderiu a nenhuma das 3. Uma porção de sua frota continuou na pintura livre.

Comprovei isso pessoalmente em 2011. Todos os ônibus municipais de Fortaleza, de todas as viações, eram azulzinhos. Com exceção da S. J. do Ribamar.

Em azul com flechas, os ‘troncais‘, Centro/terminais. Por ‘durou até 1999’ o autor quer dizer que as pinturas de alimentadores e circulares não duraram nada, todos os ônibus independente da linha ficaram nessa pintura na 2ª metade dos anos 90.

Alguns dessa viação estavam padronizados, como na foto do aeroporto no topo da página. Mas outros não, seguiam amarelos e verdes. Não fotografei esses, infelizmente.

Mas você viram que achei na internet uma foto datada, de 2009, 17 anos depois da primeira padronização portanto. E ali está, um S. J. do Ribamar na pintura livre.

Fiz uma colagem, e adicionei duas fotos da garagem ou paradouros da Ribamar, alguns busos na pintura livre, outros na padronizada.

Até aqui alguém poderia dizer que ainda era ‘fase de transição’, e que os ônibus seriam repintados, ou logo substituídos por outros com a pintura nova.

‘Antes/Depois’ – e aqui vemos a prova. Vitória Volvo da CTC chegou na pintura ‘Circular’, e com entrada pela frente. Ele (digo, não sei se o mesmo ‘carro’, mas no mínimo outro igual, do mesmo lote) logo recebeu a pintura do seria troncal, mas ficou única pra cidade inteira. E voltou a entrar por trás.

Até pode ser. Mas a foto datada, de 2009, mostra que não era esse o caso mesmo. Que a S. J. do Ribamar não pretendia mesmo aderir a padronização, e de fato não aderiu de forma total.

Resistiu as 3 primeiras. Quando veio a 4ª padronização (lateral branca e frente e teto azuis) aí não teve jeito:

Com duas décadas de atraso a São José do Ribamar teve que padronizar integralmente sua frota, como todas as outras viações.

Novamente, no Sul do Brasil houve um caso similar. Ainda no começo dos anos 80, Porto Alegre adotou a padronização da CBTU.

(Nota: que foi igual a que foi implantada em Florianópolis, Brasília, Campinas e Maceió, o veículo branco com uma faixa colorida entregando a região que ele vai.)

Na capital gaúcha, o modelo foi batizado ”Radiais Urbanas”, e na lataria vinha escrito R.U. 30, R.U.12, etc, .

Voltando mais no tempo, alguns ainda na pintura livre. Mais um Monobloco, esse da Transpessoa – ainda com prefixo de somente 3 dígitos.

Isso pra indicar qual parte da cidade aquela linha serve, ou seja, a numeração era ainda mais detalhada que a cor da faixa pois uma cor de faixa continha várias R.U.’s.

Pois bem. A Viação Cambará se recusou a aderir.

Presenciei isso pessoalmente nas minhas primeiras idas a Porto Alegre, no início dos anos 90:

Todos os busos, de todas as viações, padronizados. Digo, nem todos, né?

Posto que na Cambará ainda era pintura livre, como a S. J. do Ribamar em Fortaleza.

Vitória da Viação Fortaleza.

Mas a rebelião da Cambará, como a da Ribamar, também chegou ao fim.

A partir de 96, Porto Alegre adotou a segunda padronização, a “Eletrocardiograma”, que durou 2 décadas, até o meio da década de 10.

a Cambará também teve que padronizar sua frota, como todas as outras já haviam feito uma década e meia antes.

Outro Vitória da Viação Brasília (imagem numa parceria do Ônibus Brasil com o sítio Ônibus Paraibanos).

Curioso isso, não? Tanto em Fortaleza como no Sul temos exemplos de viações metropolitanas que não eram obrigadas a padronizar sua pintura, mas o fizeram voluntariamente:

Numa solidariedade decoraram sua frota parecida com a padronização que vigia na capital, a Via Metro no Ceará e a Imperatriz em Santa Catarina.

Por outro lado, duas viações municipais, a S. J. do Ribamar em Fortaleza e a Cambará em P. Alegre eram obrigadas a padronizar.

Mas simplesmente não o fizeram. “A lei não pegou”. Só depois de um bom tempo foram enquadradas. Como é o Ser Humano: alguns padronizam sem serem obrigados, ouros sendo obrigados não o fazem. Coisas da Vida . . . .

 em testes: grande sp, campinas, sorocaba, londrina, até ficar em definitivo em fortaleza

Trata-se desse bichão. Aqui de costas, já em Fortaleza mas ainda de branco. Abaixo veremos toda evolução dele.

Vimos acima busos que já pertenciam a Curitiba e Campinas, inclusive já pintados pra operar aqui no Sul e Sudeste, mas sendo testados antes em Fortaleza.

Agora é um outro caso. Um articulado que ainda não tinha dono, e por isso o fabricante o levou pra uma peregrinação de testes pelo Brasil.

Também rodou em Campinas, e também rodou no Paraná. Mas nesse caso, antes de aportar no Ceará. Sempre na cor branca, indicando isso, que ele estava disponível.

A última cidade foi Fortaleza. Que gostou dele, adquiriu-o, e por isso pintou-o com sua padronização, consolidando a posse. Repare que é sempre a mesma chapa, AUQ-2559.

Pra finalizar, um último emeio que tratou do tema. O produzi em 17 de fevereiro de 2013. Quando estouraram aqueles protestos no Brasil inteiro pela redução das passagens de ônibus. É uma situação que já não faz mais parte de nosso dia-a-dia, mas mantenho aqui pra registrarmos qual foi a reação de Fortaleza.

Outro Vitória ainda na pintura livre. Em várias fotos eu destaco o prefixo em cor diferente. digo de novo, uma característica de Fortaleza que se espalhou até Teresina, São Luiz, Belém, Manaus e mesmo Brasília!

E aproveitamos pra relembrar como era o transporte na cidade a época, visualizando dessa maneira o quanto ela evoluiu em apenas 4 anos e meio (jogo a matéria pro ar em agosto de 17)

Dizia o emeio (fev.13): foi anunciado essa semana que a tarifa de ônibus em Curitiba será reajustada pra 3 reais.

Ao mesmo tempo, em Fortaleza o preço da passagem também vai mudar. Mas, vejam vocês, será reduzido, voltará pra 2 reais.

Atualização: Curitiba cedeu aos protestos, e igualmente acabou reduzindo a tarifa em 2013. Mas a seguir os aumentos voltaram com força total. Quando subo a postagem pra rede, o ônibus em Fortaleza custa R$ 3,20. Em Curitiba R$ 4,25. É uma diferença considerável, que não se explica por um melhor serviço, já que não é esse o caso:

Aqui e a esquerda: monoblocos da São José do Ribamar. Nessa época não tinha rebelião, era pintura livre pra todas as viações.

Registrei na matéria sobre o transporte na África que alguns bairros mais afastados de Curitiba no domingo têm ônibus somente a cada 84 minutos.

Sim, uma hora e 24 minutos, praticamente uma hora e meia de intervalo. Serviço com padrão da África, daí foi acertada a matéria em que essa nota foi publicada.

E por ‘África’ eu não estou me rendendo ao estereótipo nem falando do que não conheço. Exatamente ao contrário, a Grande Vida (‘Deus’) me deu oportunidade de ir a ao Continente Negro.

Aproveitei bem. Lá dechavei a fundo o transporte nas 4 maiores cidades sul-africanas, Joanesburgo, Cidade do Cabo, Durbã e Pretória. Registrei o que há de bom e de ruim. Há muita coisa moderníssima na África, os trens que ligam Joanesburgo a Pretória são de Primeiríssimo Mundo. Os ônibus da Cidade do Cabo não ficam atrás.

Não fariam feio nos países mais avançados e com melhor sistemas de transporte como China, Japão e Alemanha. Mas óbvio, séculos de atraso levam pelo menos algumas décadas pra serem corrigidos.

Há muita coisa precária na África, e bota precária nisso. Bem, em Curitiba há também muita coisa avançada, mas muitas partes estão regredindo.

Em Fortaleza há muita coisa a ser resolvida, mas está havendo um avanço inegável nessa década. Então, repito, é injustificável o transporte de Curitiba ser tão mais caro que o de Fortaleza.

……………….

Belo Vitória ‘Padrão‘ (alongado, portas largas, o motor é no fundo ou sob o piso pra não estorvar o embarque/ desembarque) da CTC. No Século 20 ‘Volvo era Volvo’, né . . .

Feita essa atualização, volta o que escrevi no começo de 2013. Abaixo, o que respondi ao colega que me enviou esse emeio:

Pois é cara, estive em Fortaleza há pouco mais de um ano, e conheci toda a rede de transportes da cidade, de ponta a ponta. De forma que posso falar com propriedade de como funciona.

A passagem voltando pra 2 reais é a prova que é possível fazer um transporte barato e 100% integrado.

………

Fortaleza tem integração em duplo modal, nos terminais e no cartão. O que põe por terra a falácia de Curitiba que não quer abandonar o modelo de terminais. Não precisa abandonar, pode manter e ainda integrar no cartão, como alias a linha Interbairros 1 é integrada no cartão.

Outro Vitória da CTC, mas esse é o ‘cabritão’: motor dianteiro, portas estreitas, tudo pra atrapalhar. Só faltava ter somente 2 portas (pode ser pior: na África do Sul a maioria dos busões tem somente 1 porta!).

Quando estive lá, eram 7 terminais em Fortaleza. Pouco, é verdade. Entretanto, com a integração no cartão, não é preciso construir nem um terminal a mais sequer.

É assim: os 7 já dão conta de boa parte da demanda, ligam as vilas da periferia com a Região Central, e como há linhas de um terminal a outro, as diferentes partes da cidade também estão conectadas.

Ainda assim, havia zonas de sombra. Agora não mais. Pois agora você pode trocar de condução no terminal, sem pagar de novo.

No terminal você embarca pela frente (pois na na rua quando você vai girar a catraca em Fortaleza ainda se entra por trás).

Próximas 3: ônibus em testes em Fortaleza, de branco. Esse adicionou as flechas azul e vermelha da padronização da época. O outro inteiro alvo, com chapas verdes.

E depois ainda descer em qualquer ponto, pegar qualquer outra linha, embarcar pelo fundo, girar a catraca, mas não paga nada, é a integração temporal.

Tudo isso, como você colocou, por R$ 2. Tem mais. Fora dos horários de pico, é mais barato, por exemplo das 9 da manhã as 11, e das 2 as 4 da tarde, você só paga 1,90.

Não lembro exatamente as horas exatas e nem o valor, estou exemplificando aleatoriamente.

O fato é que fora do horário de pico há um desconto. Justamente pra incentivar quem puder se deslocar em horários de menor demanda. Em diversos outros países, inclusive a África do Sul, também é assim.

……..

Tudo isso só vale pro município de Fortaleza, a região metropolitana não é integrada. Entretanto, há o metrô, que é barato, rápido, eficiente, e integra a Zona Sul, tanto metropolitana quanto municipal.

Na Zona Oeste, há o trem, que não é rápido nem eficiente, mas ao menos é barato, e também integra os subúrbios, inclusive metropolitanos. E o trem da Zona Oeste um dia será elevado a metrô também.

Mas há outro ponto muito importante. No censo de 2010, Fortaleza, apenas o município, tinha 2,3 milhões de habitantes. 

Essa já é praticamente a população da Grande Curitiba, município mais região metropolitana, que tem acesso a rede integrada.

Posto que o município de Curitiba tinha 1,7 milhão, na mesma época, e apenas parte da RM de Curitiba é integrada, boa parte não é.

E repetindo, o bairro do Pilarzinho na Zona Norte é município de Curitiba, mas boa parte dele não tem acesso a rede integrada. Sim, passa o Interbairros 2 nas vias principais. Mas não há alimentadores nas vilas, só convencionais.

Ciferal da saudosa CTC-CE.

Muita gente entra nos convencionais não-integrados, paga passagem, anda pouquíssimos pontos, desce, pega o Interbairros 2 pra ter acesso a terminais, pagando de novo.

São 4 passagens por dia. Em Fortaleza, com a integração no cartão, isso não acontece.

Portanto mesmo lá sendo apenas municipal a integração e aqui parcialmente metropolitana, a população que é atendida pela rede integrada nas capitais do Ceará e do Paraná é a mais ou menos a mesma.

Mascarello azulzinho.

E lá de forma muito, mas muito mais barata.

Eu encerro meu caso.

Que Deus Ilumine a todos.

Ele-Ela proverá.

‘Pol Pot na América’: o Genocídio Argentino, com suas ‘Escolas’ e ‘Voos da Morte’

A esquerda e os movimentos sociais querem que a ditadura militar argentina seja reconhecida oficialmente como um ‘genocídio’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de julho de 2017

Maioria das tomadas de minha autoria. O que for puxado da internet eu identifico com um (r) de ‘rede, como visto abaixo.

No intervalo de um mês, fui a Argentina e a África do Sul. Assim vamos alternando as séries sobre esses países.

Escrevi recentemente sobre o ‘Apartheid’ sul-africano. Hoje, mantendo-nos na mesma frequência, vamos falar sobre os ‘anos de chumbo’ da Argentina (1976-83).

Vamos ser bem claros aqui: não há qualquer comparação possível entre as ditaduras brasileira e argentina.

A deles foi infinitamente mais cruel. Infinitamente. Muito mais curta, somente 7 anos, contra 21 da nossa (nota: ao publicar a matéria escrevi erroneamente ’31 anos’. Perdão pela falha).

Os Encapuzados” (r): escultura de metal em frente a Esma (o ‘Dops argentino’) revela forma de tortura. Como explicado, todas as tomadas com ‘(r)’ são baixadas da internet.

Mas o regime de Rafael Videla foi muito, mas muito pior que o de Médici e seus companheiros, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, se podemos colocar assim.

A definição é: o Brasil viveu um regime autoritário, mas a Argentina passou por um genocídio.

Estima-se que a ‘guerra suja’ brasileira tenha deixado perto de mil vítimas fatais.

A maioria mortos pelos militares, mas as guerrilhas que os combatiam também assassinavam friamente seus oponentes.

Entretanto, pondere que em apenas 7 anos foram mortas 30 mil pessoas na Argentina.

Como a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a 120 mil pessoas no Brasil.

No Brasil o ‘carro do terror’ era a Veraneio. Na República Dominicana o ‘Fuscão Preto’. Pois bem. Na Argentina quem cumpriu esse papel foi o Ford Falcão (r).

Portanto um simples cálculo nos mostra que a ditadura argentina foi nada menos que 120 vezes mais letal que a brasileira.

Não há a necessidade de se argumentar além disso, já que só idiotas discutem com números.

Da Esma (escola técnica da marinha transformada no ‘Dops argentino’) partiam os famosos ‘Voos da Morte’:

Os presos eram dopados pra ficarem inconscientes, embarcados em aviões e desmaiados atirados sobre o Delta do Rio da Prata ou sobre o mar.

Praça de Maio, epicentro político da Argentina no Centro de B. Aires.

Dezenas de corpos acabaram aparecendo boiando nas praias da Argentina e Uruguai.

Os que acabaram na costa argentina os ditadores recolheram e deram fim nos cadáveres.

Mas os mortos argentinos que foram pro Uruguai foram preservados. Posteriormente identificados, serviram como provas nos processos contra os militares.

Muitos milhares mais desapareceram pra todo sempre, dissolvidos na água e devorados por animais marinhos.

Noturna do Obelisco da 9 de Julho em B. Aires, cartão-postal-mor argentino.

De todos os que foram presos na Esma, apenas 150 foram soltos ainda vivos. Mais de 5 mil foram chacinados.

A minúscula proporção entre libertados com vida e executados nos autoriza igualar o regime de Videla ao de Pol Pot.

5 mil mortos apenas e tão somente num único centro de detenção. No país inteiro foram 30 mil.

……...

Por outro lado, se lá a repressão foi muito pior, em compensação os militares foram julgados e presos.

Menen reverteu os processos, a gestão de Nestor Kirchner os reabriu. O ditador-ícone, Jorge Rafael Videla, morreu na prisão, em 2013.

Próximas 2 (via ‘Google Mapas’): favela Vila 51, bairro de Vila Lugano, Zona Oeste, município de Buenos Aires. Também chamada ‘Cidade Oculta‘.

Já falamos do pós-ditadura. Primeiro vamos ver como foi a matança.

Não são apenas números, e só eles já são impressionantes. Mas fica pior. Muito pior.

Primeiro, o massacre foi centrado contra a juventude de classe média, especialmente na capital.

O regime militar tornou essa geração acéfala. Faça as contas. 30 mil foram sumariamente executados.

Na ditadura, Videla mandou murar a Vila 51, pra que ela ficasse oculta as vistas de quem passava pela avenida em frente, aí surgiu o apelido usado até hoje, décadas depois da queda do ‘muro da vergonha’.

Conte aí as muitas dezenas de milhares mais que foram torturados, exilados, ficaram viúvas (o), órfãos, etc.

Os ditadores eliminaram, ou no mínimo prejudicaram severamente, toda uma geração daquela que hoje é a classe dirigente nacional.

Daí nada mais natural a confusão multidimensional que engolfou a Argentina.

Primeiro, na Argentina houve o rapto sistemático dos bebês das presas políticas.

Próximas 3: estação de trem (de subúrbio) Rivadávia, bairro de Nunhez, onde fica a Esma, daí os murais lembrando a ditadura.

O que nunca ocorreu no Brasil, certamente não em escala industrial como aconteceu lá.

Segundo, após a Segunda Guerra mundial, a Argentina acolheu diversos oficiais da Alemanha nazista.

Com novos documentos, alguns desses alemães prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, se é que se pode colocar assim.

Por isso as torturas infligidas aos presos políticos na Esma e outros ‘Centros Clandestinos de Detenção’ espelhou as experiências nazistas nos campos de concentração:

Não visavam somente confissões, não visavam somente infligir dor num ato de sadismo.

Isso é universal, existiu na ditadura brasileira (e ainda existe em nossas delegacias hoje contra presos ‘comuns’).

Essa gravura é no mesmo local, a Estação Rivadávia em Nunhez. As argentinas adoram cachecóis. As chilenas idem.

As torturas na Argentina, como em Auschwitz antes disso, visavam também desumanizar o adversário.

Retirar dele ou dela qualquer réstia de dignidade, pra que ele preferisse a morte a continuar pelo suplício.

Mas o ‘tiro de misericórdia’ era negado, o tormento prosseguia, num ‘1984’ puro.

………..

A esquerda abaixo a Praça de Maio, Centro de Buenos Aires. Ao fundo a Casa Rosada, palácio presidencial.

Pintado no chão o lenço que é o símbolo das ‘Mães da Praça de Maio‘.

Grupo que montou a resistência mais efetiva a ditadura protestando nesse exato local.

Nem Videla teve coragem de prender e torturar senhoras idosas, que pacificamente apenas pediam pra saber onde estavam seus filhos.

E elas tinham razão de estarem preocupadas:

Na Argentina houve formas de torturas desconhecidas no Brasil, só praticadas nos regimes mais opressores da Ásia na época, que descreverei mais abaixo.

Cartaz na Praça de Maio conta a história do epicentro político da nação.

No ‘consciente coletivo’ brasileiro, o nome do chileno Augusto Pinochet é o símbolo dos ditadores sul-americanos.

A maioria dos brasileiros nunca ouviu falar de Jorge Rafael Videla, que cumpriu esse papel na Argentina. Mesmo o paraguaio Stroessner é mais conhecido aqui que Videla.

Um dos motivos é que quando a Argentina era ditadura o Brasil também, assim nossa mídia preferia não tocar não tocar muito nesse tema.

Fundos da Casa Rosada. Em 1º plano o Escudo Nacional que há na grade.

Pois a imprensa era censurada, e ademais a maior rede de TV era a relações-públicas dos militares.

Portanto era melhor não atirar pedras nos outros quando seu próprio telhado era de vidro.

A Argentina voltou ao regime civil em 83, o Brasil logo após em 85. O Paraguai, entretanto, só em 89, e o Chile em 90.

O governo de Sarney, a segunda metade dos anos 80, foi uma era bem confusa no Brasil, como quem tem mais de 30 lembra perfeitamente. E natural.

Centro de Buenos Aires.

Afinal recém reconquistámos os direitos de expressão e associação, mas o caos econômico e político foi total.

Assim, nesse período de catarse, a mídia exorcizava o período que esteve amarrada falando intensamente dos ditadores Pinochet e Stroessner.

Videla foi poupado dessa propaganda negativa, pois quando ele governava com mão de ferro seus colegas faziam o mesmo no Brasil.

E o departamento de censura militar é quem determinava as manchetes dos jornais.

Mapa das favelas na Grande Buenos Aires: a direita no município (cap. federal). Um similar já seguiu na postagem anterior. A esquerda, e esse é novidade, na região metropolitana.

que o regime argentino foi ainda mais letal que o chileno.

E muito, mas muito mais letal que o paraguaio.

Na ditadura Pinochet morreram cerca de 3 mil chilenos.

Dez vezes menos que na Argentina, sendo que a população do Chile é 2,5 vezes menor que a desse seu vizinho trans-andino.

‘Dom’ Alfredo Stroessner torturou e exilou muita gente no Paraguai, é certo.

Chegamos a uma Buenos Aires imersa em caos, março de 2017. Protestos fechavam a cidade inteira. Fui ao jogo São Lourenço x Atlético Paranaense. Na volta, já tarde da noite os protestos continuavam, aqui um deles. Em primeiro plano o validador onde você encosta o cartão de transporte pra descontar a passagem do ônibus.

Mas em termos de vítimas fatais, calcula-se em 400 o número de desaparecidos e executados por seu regime.

Com a população paraguaia 30 vezes menor que a nossa, e pouco menos da metade dos mortos, a taxa de letalidade é de 10 a 15 vezes maior que a nossa.

(Nota: anteriormente calculei erroneamente essa proporção, corrigido agora.)

Portanto a ditadura Stroessner, arredondando por alto a proporção de mortos em relação a população total, é bem mais violenta que a brasileira, mas menos que chilena, e incomparavelmente menos que a argentina.

Oras, em 2013 eu passei pelas ruínas de um supermercado que  9 anos antes pegou fogo na Zona Norte de Assunção. Ali morreram igualmente 400 pessoas.

Porque mesmo com as chamas consumindo o local os donos mandaram fechar as portas pra “impedir que as pessoas saíssem com produtos sem pagar”. Oras, num único dia, por ganância pra não ter prejuízos materiais, o dono dessa rede de mercados matou tanta gente quanto o governo Stroessner em 35 anos.

As famosas “Águas Vermelhas” da praça principal de Mendonça.

É evidente que nenhum Ser Humano deveria ser assassinado, e um dia vamos chegar lá. Mas convenhamos, outros ditadores foram bem mais sanguinários que ‘Dom’ Alfredo.

Stroessner rebatizou com seu nome o que na época era uma distante e desimportante cidade nos confins do interior, é certo.

Vamos falar do mais sanguinário de todos. O que dizer então do dominicano Rafael Trujillo?

Que afinal mudou o nome da capital (e na verdade única cidade grande da pátria) em sua própria homenagem??

A ditadura mais sangrenta da América certamente foram os 31 anos (1930-61) em que Trujillo comandou com mão-de-ferro, alias mão-de-aço, a Rep. Dominicana.

Um paradoxo: entre a classe média argentina predomina o materialismo (ateísmo). Mas o povo é bastante religioso. A Argentina, ao lado do México, é entre os países que já visitei o que mais têm essas capelinhas nas ruas. Essa é em Mendonça e traz ao lado da bandeira nacional as do Peru e Chile.

Foram eliminados 50 mil pessoas, 30 mil haitianos e 20 mil dominicanos. Trujillo matou mais de 1% da população dominicana.

Digo, em termos de matança Trujillo está ao lado (fisicamente e na questão dos números) de ‘Papa Doc’, no vizinho Haiti. Seu governo exterminou entre 30 a 60 mil pessoas, o que também dá mais de 1%.

A Argentina ficou em aproximadamente 0,1%, na primeira casa decimal, Chile e Paraguai oscilam entre 0,02 e 0,04%, enquanto que no Brasil a taxa é de 0,001%.

Os números são aproximados, apenas pra termos uma noção, e não seguem rigor estatístico. Mas são válidos pra compararmos.

IRONIA DA VIDA: VIDELA RECLAMA DE ‘MAUS-TRATOS’ NA PRISÃO –

Em compensação, de todos esses países a Argentina foi o único que a justiça funcionou, e os ditadores acabaram passando um tempo atrás das grades.

Aqui em Porto Madeiro, um novo bairro de elite a beira d’água que foi feito no Centro de Buenos Aires (na Cidade do Cabo/África do Sul um projeto idêntico está em implantação).

Na República Dominicana, a CIA estadunidense pôs e manteve Trujillo no poder. Mas quando não foi mais interessante, a CIA descartou-o, como ela sempre faz.

Assim Trujillo morreu no cargo, assassinado numa emboscada com armas fornecidas pela própria CIA.

No Brasil no fim de seu regime os militares passaram a ‘Anistia’, pra aqueles quem eles perseguiam, e também pra si mesmos.

Resultando que ninguém respondeu por violações de direitos humanos em nossa pátria.

Stroessner foi deposto em golpe militar, o mesmo instrumento que ele usara pra vestir a faixa presidencial foi usado contra pra retirar dele esse símbolo do poder presidencial.

Feitiço contra o feiticeiro. Mas quem assumiu no seu lugar achou que geraria menos problemas políticos exilar Stroessner que julgá-lo e aprisioná-lo.

Assim o ex-ditador paraguaio se mudou pro Brasil onde viveu seus últimos 17 anos numa vida bucólica em nossa capital, sem se incomodar com a justiça.

Nas favelas de B. Aires, a ‘cultura da laje’ (prédios artesanais que o próprio morador vai erguendo um andar por vez, sem qualquer tipo de alvará) está tão consolidada quanto no Sudeste do Brasil e Salvador/BA. Aqui vemos a favela Vila 21 (em Bs. As. elas são numeradas, como em Medelím/ Colômbia). Zona Sul, ainda no município da capital mas divisa com Avellaneda.

Pinochet foi acusado pelo juiz espanhol Baltazar Garzón pelos crimes que cometeu, e chegou a ficar 1 ano e meio em prisão domiciliar na Inglaterra.

Mas não houve como extraditá-lo pra ser julgado na Espanha por crimes de ‘lesa-humanidade’, como queria a acusação.

Resultando que em 2000 ele foi liberado pela justiça inglesa, e voltou ao Chile como um Homem livre.

Em dezembro de 2004, quando haviam pendentes contra ele mais de 300 acusações, foi posto em prisão domiciliar.

Assim viveu mais 2 anos. Em dezembro de 2006 desencarnou, sem ter sido preso ou condenado.

Na Argentina, entretanto, foi diferente. Após a volta do regime civil com Raul Alfonsín em 83 houve uma primeira tentativa de julgar os militares.

Mas na periferia de Buenos Aires fora das favelas, e no interior dentro e fora das favelas há poucas lajes. Agora que essa cultura começa a germinar. Flagrei essa na periferia de Córdoba.

Alfonsín revogou a auto-anistia que os ditadores se concederam no apagar das luzes de seu mandato, e houveram condenações na justiça.

Mas motins militares e a ameaça aberta de novo golpe de estado forçaram seu recuo. Seu sucessor Carlos Menen novamente anistiou os militares ditadores.

Depois de Menen veio Fernando de la Rúa, que foi obrigado a renunciar numa rebelião popular em dezembro de 2001.

Quando a Argentina re-assumiu a ordem constitucional, a partir de 2003  presidente foi Nestor Kirchner.

Nestor, e sua esposa Cristina que o sucedeu no cargo em 2007 e ficou até 2015, reverteram mais uma vez o rumo dos acontecimentos.

A infra-estrutura urbana na Argentina é precária. É muito comum vermos esgoto correndo a céu aberto. Aqui estou na Zona Sul do município de Buenos Aires.

Em novo giro de 180º, os ditadores foram levados mais uma vez a juízo. Rafael Videla cumpria prisão domiciliar, como ocorrera com Pinochet no Chile.

Mas em 2008 VIdela foi pro presídio, a princípio militar, depois civil. E seus advogados e família reclamaram de ‘maus-tratos’ e ‘negligência’.

Ironia, não? Um dos torturadores e exterminadores-mor do planeta se queixar que as condições da cadeia são muito duras.

Mas não teve jeito. Quando já estava a 4 anos e meio encarcerado, Videla sofreu mal súbito, e desencarnou em março de 2013.

Periferia de Córdoba, mesma cena.

Como dito, os ditadores argentinos foram os mais cruéis do continente, excetuando Trujillo e ‘Papa Doc’. Mas a justiça de seu país também foi implacável com eles.

“ESCOLAS DO TERROR”: A ESTRANHA FIXAÇÃO DOS TORTURADORES ARGENTINOS COM A ‘EDUCAÇÃO’ –

O maior centro de tortura argentino funcionou numa antiga escola técnica militar. Como é sabido, o ‘Dops argentino’ era na Esma, ‘Escola de Mecânica da Marinha’.

Hoje, funciona ali o Museu dos Direitos Humanos. A ex-Esma fica no bairro de Nunhez, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Pra falarmos de uma coisa leve, os refris na Argentina. Lá ainda existem 7Up (ao fundo um buso no bairro Palermo), Crush e Mirinda. Passo de los Toros é uma marca local que também fotografei no Paraguai. Voltando a Argentina, Talca é um clone local da Pepsi. A lata da Coca é ‘caçula’ (250 ml), mas a garrafa é maior (350 ml, contra 290 ou 300 aqui). Já no Chile a garrafa (de todas as marcas) é menor que no Brasil. A fábrica da Coca na Argentina exporta também pro Paraguai e Uruguai. Nosso Guaraná Antarctica faz sucesso na Argentina, mas no verso tem uma explicação que é um “fruto exótico” da Selva Amazônica. É fabricado pela Quilmes (cerveja mais popular da Argentina) e exportado também pra Bolívia e Uruguai.

A poucas quadras dali está o ‘Monumental de Nunhez’, pertencente ao River Plate, maior estádio do país e por isso a casa oficial da seleção argentina.

Do futebol já falamos em mensagem a parte, ricamente ilustrada. Aqui o tema é a política. Ou melhor, nesse caso o futebol interfere na política.

O golpe militar foi em março de 76. Mesmo antes dele, ainda no regime civil da primeira presidente Mulher da história da Humanidade (‘Isabelita Perón’), já estavam ocorrendo ‘desaparições’ políticas.

Mas depois que os militares assumiram o poder de fato (embora não de direito) a coisa piorou muito.

Se a Argentina já não estava calma de 68 a 76, a 2ª metade dos anos 70 foi um banho de sangue.

E, vejam vocês, quando do golpe já estava definido que o país sediaria a próxima Copa do Mundo.

Na final da Mundial de 78 o Monumental explodia em alegria pela vitória da seleção local.

A Argentina está mudando o emplacamento. A direita modelo antigo (ainda predominante em março.17), 3 letras e 3 dígitos. A esquerda o novo (há rumores que será implantado em todo Merco-Sul, Brasil incluído), com 2 letras, 3 dígitos e mais 2 letras.

E, bem perto dali, centenas de argentinos gritavam também, mas de dor nas câmaras de tortura.

Pra felicidade dos ditadores, a ‘alvi-celeste’ venceu sua primeira Copa jogando em casa (a segunda e última foi 8 anos depois, em 1986 com um Maradona endiabrado).

Voltemos a 78. Essa ‘Dieguito’ não jogou pois era muito jovem. Ainda assim a Argentina foi campeã, batendo a Holanda na final.

O êxtase que tomou conta da pátria abafou a questão política, tirando o foco e permitindo que as atrocidades seguissem.

Os gritos de ‘gol’ foram mais fortes que os que vinham dos porões dos Centros Clandestinos de Detenção, sendo que o principal deles estava bem ao lado.

Próximas 2: Porto Madeiro, Centro de Buenos Aires. Construído no antigo cais do porto.

O estádio do River Plate fica na verdade no vizinho Belgrano, mas é na divisa dos bairros, por isso o ‘Monumental de Nunhez’ na boca do povo.

Na capital o maior centro de detenção e tortura ficava em um de seus bairros mais chiques e caros.

Local elitizado, moram muitos artistas. Um deles fez essa escultura, ‘derreteu’ a base dos postes de luz.

Entretanto, na principal cidade do interior a cadeia ficava próxima mas já totalmente fora da cidade: bem-vindo a “Pérola de Córdoba”.

Se é que alguém pode ser bem-vindo a um lugar macabro desses. As margens da rodovia que leva a Carlos Paz ficava o presídio chamado de ‘A Pérola’.

Com a virada da maré e volta da democracia as prisões da ditadura foram renomeadas ‘Centro Clandestino de Detenção’ – CCD.

Tenha o título que tiver, na “Pérola” ficaram boa parte dos presos políticos do Norte do país.

Pros íntimos, Pérola era chamada de  “Universidade do Terror”. Curioso esse apelido, não? Fora o fato que a Esma era numa escola. 

Como se tortura e assassinatos fossem matérias educativas.

Fica pior. Notam a direita a placa da rodovia que indica a entrada pra ‘Pérola’ (imagens baixadas da rede) alguém escreveu ‘Volta Videla’.

E desenhou mas logo a seguir riscou o lenço das Mães da Pça. de Maio, que viram em foto mais pra cima na matéria.

Aeroparque, o aeroporto central de B. Aires. ‘Austral’ é a marca pra curtas distâncias da Aerolineas Argentinas.

É. Ainda tem gente saudosa dos ‘Voos da Morte’, e das ‘Escolas do Terror’ dos Anos de Chumbo.

…..

Disse acima que Nestor Kirchner e sua esposa Cristina são heróis da esquerda argentina.

Pois revogaram várias anistias que haviam sido auto-concedidas e depois re-concedidas por Menen aos militares por crimes na ditadura.

Após 3 mandatos dos Kirchner (1 dele e 2 dela), a direita voltou ao poder. E almejam o sonho de ver Cristina atrás das grades (dir.)

Não há como prender o marido porque Nestor já desencarnou em 2010. Mas se possível eles colocarão uma ‘esposa’ na esposa.

(Quem não conhece o idioma espanhol não entendeu o trocadilho. Nessa língua a palavra ‘esposa’ tem duplo significado.

Centro de Córdoba.

É sinônimo de ‘cônjuge’, como em português. Mas ‘esposa’ signifca também ‘algemas’. Estar ‘esposado’ é estar algemado.)

Alguns auxiliares de primeiro escalão dela já estão ‘esposados’. Lemos no jornal em março de 2017 que Cesar Milani, ex-comandante-geral do Exército no governo de Cristina, foi pro presídio.

E não apenas isso, ele está num presídio feminino. Em Ezeiza, na região metropolitana da capital (onde fica o aeroporto de mesmo nome).

A justificativa é no xadrez masculino ele seria morto. Como ele já está no pavilhão das Mulheres, o sonho da direita é que sua ex-chefe Cristina fique na cela ao lado.

Ir pra Argentina em muitos aspectos é como viajar ao passado. Vejam a chave do hotel que nos hospedamos em Córdoba. Sim, de metal.

…..

Na Argentina os presos políticos sofreram todas as formas de suplício aplicadas no Brasil (pau-de-arara, afogamento, choque elétrico). Mas muito pior que isso.

Lá houveram técnicas de tortura que não foram usadas aqui:

Os infelizes detidos em alguns pavilhões na macabra Esma eram conhecidos como ‘Os Encapuzados’.

E eis a portaria do prédio que ficamos no Centro de Buenos Aires. Na Argentina todos os interfones são desse modelo, como era o Brasil 20 anos atrás. Tem que ter uma tecla pra cada apê, se forem dois blocos o aparelho é o dobro desse. Não existe ainda interfone com teclado, em que você simplesmente digita o nº do apartamento.

O nome se deve a que eles ficavam o dia todo acorrentados na posição fetal, com grilhões nas mãos e pés, e com toucas ou vendas cobrindo-lhes os olhos.

É isso. não podiam ver nada, e nem sequer se mexerem. Reveja a segunda foto da matéria, no alto da página, que ficara claro.

Os presos ficavam em baias individuais, pra não conversarem entre si.

Eles eram libertados uns poucos minutos por dia, apenas pra ir ao banheiro, onde eram acompanhados por seus captores.

As Mulheres precisavam sentar ao vaso e banhar-se sob as vistas de seus torturadores do sexo oposto.

Afora esses poucos minutos de ‘liberdade vigiada’, vários dos Homens e Mulheres detidos na Esma passavam o dia inteiro acorrentados e encapuzados.

A ‘liberdade’ é relativa, eles apenas podiam andar um pouco por dentro da prisão, e vigiados por soldados fortemente armados.

Mas pelo menos nessa hora podiam ver e movimentar seu corpo, era o melhor momento do dia.

Centro de Córdoba: bandeiras nacional e estadual nesse belo fim-de-tarde.

Eu disse que os militares argentinos usaram padrões de crueldade asiáticos, desconhecidos na América

Na Ásia (já veremos exemplos) é corrente esse prática de manter os detentos imobilizados por longo período.

Nada nem remotamente parecido jamais existiu no Brasil. Voltemos a descrever os tormentos dos ‘encapuzados’ na Esma:

Eles permaneciam vendados mesmo na hora das refeições. Ali o marinheiro soltava brevemente os braços – mas não tirava o capuz do prisioneiro.

Ele ou ela só sabia qual era o cardápio quando punha o alimento na boca. Isso era uma tortura em si mesmo, a desumanização extrema do inimigo.

Mafalda também passa na TV, não é só quadrinhos. Um ícone na capital argentina.

Pois assim o cativo estava completamente batido.

Não tinha sequer o direito de saber o que comia, exceto quando a gororoba já descia pela goela.

Se isso te parece uma forma de punição aplicada num campo de concentração nazista, é porque é exatamente isso:

A Argentina (e também em menor escala a Bolívia e o Paraguai) recebeu centenas de oficiais e soldados da tropa da SS, fugidos da Alemanha pra escapar do Julgamento de Nuremberg.

Mais 2 da favela Vila 31, a mais famosa de Buenos Aires, bem no Centrão.

Vários desses alemães, com documentos falsos, prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, como também ocorreu nos EUA.

De volta a Argentina, basta lembrar que Adolf Eichmann vivia em Buenos Aires e trabalhava na fábrica da Ford.

Desse subúrbio da capital argentina ele foi sequestrado pelo Mossad pra ser julgado em Israel.

Josef Mengele também viveu na clandestinidade na Argentina no pós-guerra.

A Vila 31 fica atrás dos terminais de trem (de subúrbio e longa distância), de ônibus (igualmente, os urbanos e rodoviários), do porto e a 500 metros do aeroporto. A calçada está tomada de camelôs, muitos deles africanos.

Enfim, de volta a Esma. Nem todos os presos eram ‘encapuzados’. Alguns mais afortunados eram obrigados a trabalhar pros militares.

Tinham que falsificar documentos (passaportes, etc) que eram usados em novas capturas de militantes.

Ou então escrever matérias pra imprensa dizendo que os exatos abusos que eles estavam sofrendo na verdade “não ocorriam, era ‘intriga da oposição’ “.

Ironia, não? Presos políticos eram obrigados a escrever que não havia presos políticos em território argentino.

Numa espécie de tortura psicológica, eram obrigados a negar sua própria existência. Bom, era melhor que ficar sem visão e acorrentado ao solo. Qualquer coisa era melhor.

……….

Na Argentina cada estado (lá chamado ‘província’) tem uma ‘embaixada no Centro da Capital Federal. Essa é a ‘embaixada’ do estado das Missões, onde há muitas casas de madeira – como no Brasil mas ao contrário das grandes metrópoles argentinas.

Alias o único fugitivo da Esma era exatamente um desses presos que trabalhavam.

Horácio Maggio, apelidado ‘Nariz’, foi sequestrado pela Marinha Argentina em 1977.

Passou um ano e um mês na Esma. Inteligente, foi cordato com seus captores, pra ganhar a confiança deles.

Assim ele era um dos que trabalhavam. Mais que isso, de vez em quando ele ou outros presos faziam serviços externos.

Sempre acompanhados por um marinheiro armado, claro. Numa dessas saídas, Horácio ‘Nariz’ se tornou a única pessoa a fugir da Esma.

As versões variam, e ele não viveu muito tempo pra contar sua história.

Córdoba: pessoas sem proteção na caçamba, cena digna da África e das partes mais pobres da América Latina.

Segundo uma das versões, ele entrou numa loja pra comprar material de escritório.

O guarda ficou na porta, pois pensou que era suficiente, não haveria como o prisioneiro escapar pois teria que passar por ali fatalmente.

O que o guarda não sabia é que a papelaria tinha outra saída do lado oposto, pra rua dos fundos.

Horácio teria se evadido por ali, se tornando então um dos Homens mais procurados da Argentina.

Tropas de elite da Marinha e outros setores das forças de segurança faziam uma caçada humana frenética recapturá-lo.

Cosquín, interior de Córdoba: família na moto, todos sem nenhum tipo de proteção.

Horácio Maggio não deixou por menos. Ao invés de sair do país, preservando assim sua vida, optou por continuar lutando contra a ditadura:

Pôs-se a escrever cartas e telefonar pra imprensa e ONG’s estrangeiras (pois as nacionais eram censuradas).

Pra denunciar a repressão argentina, que oficialmente não existia.

Nos noticiários de TV e jornais, os militares apenas combatiam dentro da lei os guerrilheiros ‘pra evitar a revolução comunista’.

Calçadão no Centro de Mendonça.

Mas os relatos de Horácio, em primeira pessoa, geraram uma repercussão negativa ao governo, afora o fato que ele já havia dado um drible nos seus carcereiros ao fugir.

‘Nariz’ resolveu mesmo ser a ‘pedra no sapato’ da Esma. De orelhões ele ligava pro centro de torturas e discutia com os marinheiros.

Dizendo que breve eles seriam julgados ‘como os nazistas foram em Nuremberg’.

Centro de Córdoba: semáforo em que o pedestre (na verdade a pedestre) é uma Mulher de vestido e cabelos compridos.

Aí se tornou questão de honra ser capturado ‘vivo ou morto’.

O regime não poupou esforços pra localizá-lo. Em outubro de 1978, sete meses depois de sua fuga, a saga de Horácio ‘Nariz’ Maggio chegou ao fim:

Um pelotão do Exército o encontrou, e cercou-o na rua. Em desespero ele pulou o muro pra uma obra.

Dali, atirava tijolos nos soldados, na tentativa de ter mais alguns minutos de vida.

A resposta veio com muitas saraivadas de metralhadoras.

Horácio tombou sem vida. Terminara a epopeia do único foragido da temida Esma.

Seu cadáver crivado de projéteis foi caravaneado pelas celas do centro de torturas.

“Macri Gato”, o mantra oni-presente da Argentina. Maurício Macri é um ‘neo-liberal’, e suas políticas concentram renda, é fato. Mas foi eleito democraticamente, e hoje não há censura, presos políticos nem ‘desaparecidos’ na Argentina. Ainda assim, a esquerda iniciou uma insurreição civil pra derrubá-lo.

……….

O número de 30 mil desaparecidos e executados pelo regime é repetido o tempo inteiro por vários movimentos sociais na Argentina.

Como até os cartazes nas ruas deixam claro. Mas, é óbvio, não deixa de ser controverso. Os setores da direita insistem que foram “apenas” 9 mil mortos.

Eu estive na Argentina em março de 2017, quando o país enfrentava uma insurreição (civil) que visa derrubar o presidente (eleito democraticamente) Maurício Macri.

O país estava em caos, como descrevi com muitas fotos na mensagem de abertura da série.

A nação está em turbilhão, a um passo de decretação do estado de emergência, veja a manchete do jornal.

A situação persiste uns meses depois, quando produzo e levanto esse texto (julho.17). Por hora voltemos a março:

Passeatas exigiam o reconhecimento consciencial do ‘Genocídio Argentino’, com a oficialização da cifra dos 30 mil cadáveres.

Questionado sobre o tema, Macri declarou: “não sei se foram 9 ou 30 mil, mas é fato que morreu muita gente”.

“Vamos virar a mesa”, eis o lema dos insurgentes. Veja, em março somando passeatas e greves gerais foram 21 protestos, quase um por dia.

Ele é político, então obviamente ficou em cima do muro, não definiu publicamente qual dos dois números ele crê ser verdade.

Maurício Macri pretende agradar a todos, ou no mínimo não desagradar nenhuma corrente, como é habitual entre as pessoas que dependem de votos pra terem emprego.

O que quero apontar aqui é que essa declaração, de um presidente no exercício do cargo, sintetiza o quão sangrenta foi a ditadura argentina.

Disparada a mais letal da América do Sul, como apontado bem acima da chilena, brasileira e paraguaia.

Uma vez que é evidente que mesmo o número otimista de 9 mil já seria 3 vezes pior que Pinochet no absoluto.

E olhe que Pinochet não matou pouca gente.

Vamos pra uma panorâmica. Tenha em mente que eu não fotografei todos os cartazes. Mesmo assim a coisa é assombrosa. Não perca a conta: 6 e 7/3.

O oposto sendo verdadeiro. Sua ‘Dina’ (‘Dep. de Inteligência Nacional’, a temida polícia política da repressão chilena) não era famosa por economizar munição.

Muitas vezes eles exterminavam famílias inteiras, como ocorreu no célebre caso da ‘Rinconada de Maipú, na Zona Oeste de Santiago.

E mesmo assim a Argentina matou 10 vezes mais gente no absoluto, e proporcionalmente de 3 a 4 vezes mais, se aceitarmos a cifra de 30 mil.

Que eu acredito ser verdadeira, afinal apenas e somente na Esma foram mais de 5 mortos.

7/3.

…….

Não foram apenas os assassinatos em maior número, na Argentina, repito, ocorrerem barbaridades que não se repetiram em outras partes, certamente não no Brasil.

Já falamos das formas de torturas trazidas de Auschwitz, de impedir a pessoas de ver, falar e se mexer em tempo integral.

Outro ponto doloroso, que igualmente não existiu em nossa pátria, foi o sequestro deliberado de centenas de bebês das presas pelos generais torturadores.

Muito mais de uma centena de milhares de pessoas passaram pelos cárceres políticos argentinos nesse período.

14/3.

Embora a imensa maioria fosse de Homens, muito mais de uma dezena de milhares de Mulheres argentinas sofreram o mesmo martírio, ou na verdade um martírio ainda maior.

Me refiro ao fato óbvio que boa parte delas senão quase todas as presas políticas foram estupradas por seus captores.

Isso ocorreu também no Brasil, não tapo sol com a peneira. Mas hoje nosso tema é a Argentina, então bora de volta pra lá, pois fica ainda pior.

Algumas centenas de argentinas estiveram atrás das grades quando grávidas. A maioria delas já estava ‘de barriga’ quando capturadas.

20, 21 e 22/3. Colado em cima de um cartaz que chamava pra manifestação em 24/3 (o que abre a reportagem, no topo da página).

Mas algumas tiveram a infelicidade de gerar um filho de seus torturadores/estupradores. Isso, repito, foi igual no Brasil. A diferença vem quando o bebê veio ao mundo.

Caso o recém-nascido fosse branquinho e saudável, no país vizinho muitos generais roubaram essas crianças e as registraram em seu nome.

A seguir rapidamente assassinaram a presa, pra que ela não delatasse o rapto. Foram centenas desses casos. E esse sequestro coletivo não encontra paralelo no Brasil.

21 e 22/3.

Muitos oficiais das forças armadas argentinas não tinham filhos, por eles mesmos ou suas esposas serem estéreis.

Lembre-se, nos anos 70 a medicina nem de longe tinha o poder que possui hoje pra modificar essa condição.

Então ocorreram muitos sequestros de bebês, após o parto a mãe era sumariamente eliminada (muitas vezes atiradas no mar num ‘voo da morte’).

21 a 22 ou 23/3, ficou pequeno e não dá pra ler com toda certeza.

E generais e almirantes registravam esses filhos como se fossem legítimos deles. Por isso ONG’s hoje auxiliam as pessoas que no papel são filhas de militares.

Mas que no fundo de sua Alma têm uma ‘pulga atrás da orelha’, uma dúvida se aqueles são mesmos seus pais ou se elas nasceram em cárcere de outras mães raptadas.

Em Córdoba vi um mural na rua: “Se você nasceu entre 1975 e 1984 e tem dúvidas quanto sua origem, procure-nos”.

Assinado pelas “Avós da Praça de Maio“, organização-espelho das famosas “Mães da Praça de Maio”.

Apenas as “Avós” obviamente é formada por Mulheres mais velhas, que tiveram seus netos sequestrados, ao invés de seus filhos.

Mas peraí!!! Como assim, “1975”? “Se a ditadura militar se iniciou em 29 de março de 1976”???, alguém perguntaria com toda razão. Porém infelizmente é verdade.

24/3.

A violência na Argentina foi tão áspera que os desaparecimentos e execuções políticas por agentes do estado começaram 2 anos antes do golpe militar, ainda em 1974.

Isso estou falando de sequestros e execuções perpetrados pelas forças armadas oficiais. Pois desde 1968 a Argentina vivia uma conflito armado.

De um lado, forças da extrema direita (o grupo “Aliança Anti-comunista Argentinta”, o “Triplo A”, equivalente ao “Triplo C” brasileiro, o ‘Comando de Caça aos Comunistas’.

Do outro, a extrema esquerda, representada no início somente pelos ‘Montoneros‘, mais tarde surgiu a guerrilha “Exército Popular Revolucionário” – ERP.

Sem data.

Ambos os lados praticavam atrocidades, com sequestros e execuções sumárias.

De 1968 até antes do golpe, em março de 1976, estima-se que 1,3 mil argentinos tenham sido mortos pelos dois lados.

Em 1974 desencarnou João Perón, figura-ícone argentina. Morreu ocupando a faixa presidencial. Sua vice era a esposa, Isabel Perón.

Com a morte do marido, ela assumiu o cargo, sendo assim a primeira Mulher presidente do todo o planeta Terra, repetindo.

Com a morte do Homem-forte Perón, os grupos armados aumentaram o escopo de suas ações violentas. Isso tanto a esquerda quanto a direita.

Porém a eminência-parda de Isabelita Perón era José Lopes Rega, líder do “Triplo A”, a ‘Aliança Anti-comunista’.

Rapaz desaparecido. Teria sido sequestrado e/ou executado por algum grupo armado? Não sei te dizer, apenas registrei o protesto.

Apenas entre 73 e 74 o ‘Triplo A’ é suspeito de cometer 300 assassinatos.

Mas seu líder é quem dá muitas das ordens no governo de Isabel.

Assim ela, já em setembro de 1974, assina a ‘Lei Anti-Terrorismo’, que dá carta branca aos militares pra eliminar as guerrilhas de esquerda.

Em novembro desse ano as guerrilhas assassinam o chefe de polícia de Buenos Aires, assim Isabel decreta estado de sítio.

Que suspende o ‘habeas-corpus’ entre outras medidas drásticas de igual calibre.

Em fevereiro de 75 o estado parte pra ofensiva total, denominada ‘Operação Independência’.

Protesto sem data. Cartaz colado sobre o do garoto desaparecido.

Os vizinhos Chile e Brasil estão no auge da violência política, esses sob ditadura. A Argentina ainda não passou pelo golpe militar.

Ainda assim o regime civil de Isabel Perón pra ir aquecendo as máquinas já autoriza o exército a ‘desaparecer’ com os militantes que incomodam.

Mas essa ‘liberdade’ ainda era pouca pros que eram da ‘linha-dura.’ Em março de 76, como todos sabem, eles afastam a presidente Isabel Perón do poder.

Pra poderem agir como quiserem, sem freios de qualquer tipo. Portanto evidente que o golpe amplifica e muito o processo. Mas não é a gênese dele.

Repetindo, por 1 ano e 1 mês (fev.75-mar.76), ainda sob regime civil constitucional, centenas de pessoas já havia ‘desaparecido’ nas mãos do estado.

Mendonça, 21/03/17: fotografei um dos protestos, o dos funcionários públicos municipais (no Chile, que é pertinho, eu cliquei uma greve aeroportuária).

Claro, em 7 anos de regime os militares executaram mais 30 mil, então piorou e muito. Mas a prática de sumir gente é anterior a seu governo. Tá bom pra ti ou quer mais?

UMA PÁTRIA DIVIDIDA, UNANIMIDADES SÓ A SELEÇÃO E AS MALVINAS –

A coisa foi feia. Assim, os militares e a direita em geral precisam  tirar o foco da matança na ‘Guerra Suja’ interna.

Por isso, os militares argentinos gostam muito de lembrar a guerra externa contra a Inglaterra pela posse das ilhas.

Pichação em Córdoba protesta contra arrocho econômico. ‘Despidos’ significa ‘despedidos‘, e não ‘pelados, como muitos pensariam.

Que as Malvinas deveriam pertencer a Argentina é um dos pouquíssimos temas de consenso nesse conflitado país.

Pois de resto ele está aguerridamente dividido entre esquerda e direita em quase todos os assuntos.

Mas se o desejo que as Malvinas pertencessem a nação é consenso na Argentina, a Guerra das Malvinas não é.

Zona Sul da capital: ‘Buitre’ é ‘abutre’, ‘urubu’. “Nem mais um dia com Macri, ou seremos colônia dos abutres, seremos devorados por eles”, é o que quer dizer.

Muitos a viram como uma estupidez, um excesso de orgulho da Marinha Argentina. Sim, eles rapidamente venceram a o conflito interno. Não foi tão difícil, né?

A oposição militante era formada por civis, uns poucos estavam levemente armados nas guerrilhas dos Montoneros e ERP. Mas a imensa maioria sequer portava armas.

Após torturar selvagemente Homens e mesmo Mulheres civis, sem armas (com poucas exceções), e executar dezenas de milhares deles, o comando militar se entusiasmou.

Jornais na banca retratam a confusão do país. Os dois de cima são de esquerda, incluso o Página 12 é um clássico da imprensa mundial, um jornal da grande mídia mas de tendência esquerdista. Era curioso parar na banca e ler a cobertura da confusão política que engolfou a Argentina nos 3 maiores jornais da capital: o ‘Clarín’ e o ‘La Nación’ iam por um lado, o ‘Página 12’ sempre divergia, fazia o contra-ponto. O de baixo, Diário Popular, é mídia tradicional, mas um periódico menor, de circulação mais restrita ao subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires.

E levou uma surra da Real Marinha Britânica, os combates não duraram 2 meses e meio.

Bem, se a vitória na Copa de 78, inédita e logo em casa, deu um gás pra ditadura na sua gênese, a desastrada derrota fulminante  nas Malvinas foi seu ocaso:

A guerra foi em 82, já no ano seguinte os militares se viram obrigados a abandonar a Casa Rosada e retornar aos quartéis.

Alguns veem a pancada levada dos ingleses – com a dor psicológica e muito mais física dos marinheiros, pois guerra é sempre guerra – como uma ‘auto-expiação’ de culpa da Marinha.

Uma busca tardia pela redenção na Consciência Coletiva Argentina. De certa forma funciona, dá algum alento.

Já que embora muitos discordem da decisão de atacar a Inglaterra militarmente, quase todos entendem a que a Inglaterra usurpa o que não lhe pertence – visão que compartilho.

Manifestantes acampados na Pç. de Maio. São veteranos da Guerra das Malvinas.

Só a seleção de futebol e esse arquipélago é que são unanimidade na Argentina.

São os únicos 2 assuntos que você pode puxar numa roda de desconhecidos sem que a conversa descambe pra ofensas.

Repetindo, a nação está agudamente partida, esquerda e direita nutrem mutuamente um ódio recíproco que não se ameniza, só aumenta.

Proibido esquecer as Ilhas Malvinas. Não são negociáveis”, diz cartaz no Centro de Córdoba.

Exemplifico pelo o desejo de encarcerar Cristina Kirchner, o que é absurdo. Mas não pense que a esquerda é menos intransigente, porque é tão egocêntrica quanto.

Daí os cartazes e pichações por Buenos Aires que dizem “Reconciliação e perdão jamais”. Tudo bem, os ditadores torturaram e mataram muita gente.

Mas a esquerda quer derrubar um presidente eleito democraticamente, que não decretou estado de sítio ou exceção, e que não desapareceu com ninguém.

Concordo que as política neo-liberais de Macri aumentam a exclusão social, porém a esquerda fala abertamente em ‘virar a mesa’. Isso também não é golpe?

Eu não tomo partido, não sou nem de esquerda nem de direita, eu não voto (isto é, anulo, digito ‘zero-zero e confirma’). Apenas relato o conflito, sem ser parte dele.

Monumento as Malvinas em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano da capital que mostrarei mais abaixo. Tanto a escultura quanto o prédio em construção atrás pertencem a um quartel da Marinha, que abriga também uma escola técnica (como era o caso da Esma, como agora a Esma é um museu as classes foram transferidas pra outras sedes da ‘Armada’).

Agora, o que vi na Argentina é: os ânimos estão muito exaltados, dos dois lados. Todo mundo quer impor o que pensa.

Seja sobre Macri, ditadura, religião, aborto, qualquer assunto, direita e esquerda não aceitam divergências, e querem eliminar quem pensa diferente. 

O Brasil é um país que o povo é bastante despolitizado, e isso de certa forma é bom. Sim, agora aqui os ânimos também estão bastante exaltados, não nego.

Mas muito menos que na Argentina e Chile, sem comparação possível. Na nossa pátria, as diferenças de visão política acabam em discussão. Na Argentina e Chile, acabam em atos de violência.

Temos nossas divergências políticas, mas isso não paralisa o país. Digo, a violência urbana aqui é elevadíssima, muito mais que na Argentina e Chile, não nego. E o Rio de Janeiro está realmente em situação muitíssimo complicada há 2 décadas, que persiste em 2017.

Mas, Rio de Janeiro a parte, nosso país convive com altos índices de chacinas (nas periferias) e assaltos (em toda parte) sim, mas com guerrilhas e insurreições políticas definitivamente não.

Periferia de Buenos Aires (município de Avellaneda, Zona Sul metropolitana).

Na Argentina a esquerda quer reverter a eleição a força, inclusive com apedrejamentos, numa tensão que lembra a África do Sul do ‘Apartheid’. Mas não há qualquer ‘apartheid‘ na Argentina.

E o Chile ainda tem uma guerrilha ativa, anarquista, que além de com frequência promover incêndios e saques, em 2014 bombardeou o metrô de Santiago.

……

Muita politização sem compaixão leva a intolerância, que leva a ofensas a quem pensa distintamente. Isso estamos vivenciando no Brasil. Porém a Argentina e Chile estão um passo adiante, ou melhor atrás. Lá a intolerância leva a violência política. Daí você entende a ferocidade das ditaduras Pinochet e Videla, que brotaram nesse exato campo.

Mas, voltando o foco somente a Argentina de novo, não são só os números, repetindo. É uma questão conceitual.

O metrô de Buenos Aires é o mais antigo da América Latina, de todo Hemisfério Sul, e de toda língua espanhola. Veio só 9 anos depois do de Nova Iorque/EUA, e 6 anos antes do de Madri/Espanha.

O regime ditatorial brasileiro queria apenas se manter no poder. Ou seja, precisava apenas conter a oposição, mas não almejava eliminá-la.

O regime argentino, muito diferentemente, pretendia eliminar fisicamente qualquer um que contestasse sua legitimidade.

Como Pol Pot fazia ao mesmo tempo na Ásia e Hitler fizera antes na Europa.

Por exemplo, na 2ª Grande Guerra um comandante do Exército Alemão foi morto num ataque-surpresa na pequena cidade de Lídice, na atual República Checa.

Manifestações típicas argentinas: o plátano (árvore do frio que já cliquei também no Chile e na África do Sul) e a frota muito velha. Foto em Cosquín, interior de Córdoba.

A SS então foi ao local com grande regimento e matou todos os Homens adultos, e encarcerou todas as Mulheres em campos de concentração, fora as que também foram executadas.

Hitler a seguir dinamitou todas as casas da cidadezinha, limpou o local e plantou árvores. E mandou que o nome ‘Lídice’ fosse eliminado de todos os mapas.

Ou seja, por ter perdido ali um de seus oficiais o regime nazista pretendeu fazer com que a cidade não apenas deixasse de existir – isso ele conseguiu.

Mas ele pretendia também fazer com que nunca tivesse existido, por isso acabou com todas as casas e limpou o terreno de entulhos.

Literalmente Hitler riscou Lídice do mapa. Era proibido até a pronúncia desse nome. Ele quis mudar inclusive o passado.

Falemos num detalhe da linguística: no espanhol pratense (falado na Argentina e seus vizinhos Paraguai e Uruguai) usa-se a palavra vós como 2ª pessoa do singular, ou seja, como sinônimo de ‘você’ (sem o ‘s’) ou ‘tu’. Leia anúncio no Centro de Mendonça: “junto a vós“, “de tu vida”. Repito, ‘vós’ significa ‘tu’, por isso ‘tua vida’ e não ‘vossas vidas’.

Pra resistir, os casais nomearam ‘Lídice’ as meninas que nasceram logo a seguir a esse triste episódio.

Há centenas de Mulheres checas de 70 e poucos anos com esse nome, e a causa é essa:

Se Hitler acabou com uma cidade e pretendeu eliminar mesmo a palavra, a República Checa não permite registrando suas filhas assim.

Na Rodoviária de Córdoba, outro exemplo. “Vós te vás”. Sujeito (aparentemente) no plural, mas pela preposição vemos que é singular.

Pouco depois, na Ásia, outro ditador, Pol Pot, tentou o mesmo, fazer com que a oposição a ele nunca tivesse existido.

Os ‘Campos da Morte’ cambojanos, os temidos centros de concentração do Khmer Vermelho, não intentavam manter as pessoas detidas ali indefinidamente. Não.

Os presídios políticos do Camboja visavam reter ali as pessoas apenas o tempo necessário pra providenciar sua execução e desaparecimento em massa.

Os prisioneiros eram levados de caminhão pro interior, e ali eliminados primeiro a tiros.

Outra noturna do Centro de Buenos Aires.

Depois passaram a matar muita gente e começou a faltar balas (não é modo de falar, é literal), então decidiram usar machadadas e golpes de facão.

O mais famoso dos centros de detenção do Camboja funcionou numa antiga escola de 1º e 2º graus na capital Phon Phen. Hoje o local é o Museu do Holocausto Cambojano.

Bom, Pol Pot era professor antes de se tornar revolucionário.

Voltando a Argentina, seu mais famoso campo de concentração (a Esma) também era numa escola, e hoje também é museu.

Ainda no Centro de B. Aires, o ‘Imperialismo Verde-&-Amarelo‘: o Itaú (e a Petrobrás) estão engolfando a América do Sul, já cliquei o banco também no Paraguai e Chile.

A prisão ‘Pérola’ era chamada ‘Universidade’.

No Camboja, um professor se tornou genocida. Na Argentina, os genocidas se criam professores…..

……….

Hitler e Pol Pot almejaram fazer desaparecer toda e qualquer pessoas que lhes contestasse.

Entre muitos outros que vibravam na mesma frequência, claro.

Mao na China, Stalin na URSS, Franco na Espanha, os exemplos são múltiplos, não ficam tão atrás.

Então. Em menor escala, Videla também nutria semelhante anseio.

Zona Sul de Buenos Aires: periferia típica argentina, casas de alvenaria com porta direto pra rua. No Chile e no Nordeste Brasileiro é assim também.

Claro que não com tanta ferocidade pois isso não lhes era possível.

Mas a junta ditatorial argentina pretendeu se não eliminar de forma plena todos os que lhe contra-disseram, ao menos desumanizar (não é modo de dizer) aqueles que eles capturassem.

A intenção das torturas sofridas na Esma, na ‘Pérola’ e nos outros centros clandestinos era fazer com que o militante se arrependesse.

E não apenas de ter resistido a ditadura, mas que chegasse ao ponto em que ele ou ela se arrependesse mesmo de ter nascido.

……..

Os ditadores brasileiros empregavam força bruta contra seus oponentes, é óbvio.

Em Mendonça, de novo as portas na calçada. Mas com um detalhe extra, os canais pra escoar água que desce dos Andes. Isso só há em Mendonça e alguns bairros de Santiago do Chile.

Nossa ditadura torturou e matou sem piedade muita gente.

Mas ela empregava a força apenas que achava necessária pra não ser derrubada.

Não pretendia, digo de novo, eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

Tanto que vários presos políticos foram julgados pelo tribunal militar.

Evidente que sendo o juiz e o promotor militares, a condenação era quase sempre certa. Mas em alguns poucos casos houve absolvições.

E o mais importante, a ditadura brasileira quis manter essa réstia de legalidade. O que trouxe uma vantagem:

Após ser julgado num tribunal militar, o preso político ficava detido injustamente, e era torturado, é certo.

Mas ele não podia mais ser executado sumariamente, uma vez que havia a ficha dele nos arquivos da justiça militar.

Próximas 2: Vicente Lopes. A estação Rivadávia vista acima fica ainda no município de Buenos Aires (‘capital federal’). Mas cruzando o viaduto muda-se de município e de estado, entramos em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano abastado. Natural, pois também é Zona Norte, a parte rica da cidade. Aqui vemos ao pôr-do-Sol a av. principal de Vic. Lopes, a esquerda uma rua mais calma numa tomada já noturna.

Assim se ele simplesmente desaparecesse, juridicamente os próprios militares se acusariam por genocídio.

Esse detalhe, se não evitou prisões arbitrárias e torturas, certamente impediu execuções em massa. É importante dimensionarmos isso claramente.

Pois na Argentina não funcionou dessa forma. Lá não houveram esses mecanismos ‘legalistas’. A ditadura argentina não usou simplesmente a força necessária pra frear a oposição.

Lá, ao contrário daqui, os ditadores almejavam eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

O regime argentino se assemelha mais ao de Pol Pot, no distante Camboja, que ao de Médici no Brasil que está a seu lado.

Assim embora curioso é natural que o seu ‘QG do Terror’ tenha funcionado numa escola. Hoje o local é um museu.

Isso é mais um ponto que une os regimes do Camboja e da Argentina.

O ‘QG do Terror’ argentino também era numa escola (mostrada acima da manchete), embora nesse caso uma escola militar.

Indo diametralmente pro outro lado da metrópole: também num fim-de-tarde, o Centro de Avellaneda (sede do Racing e do Independente); igualmente região metropolitana, mas agora Zona Sul.

A Esma (Escola de Mecânica da Marinha) era equivalente ao ‘Dops’ argentino, como já dito e é de domínio público.

Quero apontar o seguinte. No Brasil, os presos políticos ficavam detidos injustamente e eram torturados, sim.

Mas executados em massa não. No Camboja, e também na Argentina, a intenção era mais macabra.

Pretendia-se, se possível, aniquilar fisicamente todo e qualquer opositor.

Assim os presos ficavam nos respectivos ‘QG’s do Terror’ apenas o tempo necessário pra se arranjarem os procedimentos necessários pra sua execução.

Córdoba. Na traseira de um ônibus urbano vemos 2 detalhes: 1º, a inscrição “As Malvinas são argentinas“, pra ver a popularidade do mantra; 2º, esse buso é municipal (da capital estadual), só tem 1 placa. Já entenderá porque digo isso.

Pouca gente escapou com vida das ‘Escolas do Terror’ do Camboja.

Na Esma, literalmente a ‘Escola do Terror’ argentina, o mesmo se repetiu.

Enfatizando de novo, somente 150 presos foram libertados vivos.

Provavelmente eram o que estavam ali quando a ditadura acabou, não houve tempo de matá-los. 

Mais de 5 mil foram chacinados apenas na Esma.

Só os mortos nesse local já configuraria a ditadura argentina 5 vezes pior que a brasileira em números absolutos, 20 vezes em termos proporcionais.

Como já explicado a Esma só teve uma única fuga em todo tempo que operou, e o fugitivo foi morto poucos meses depois.

Também Córdoba, e também um buso urbano. Mas tem 2 chapas. E por que? No estado (‘província’) de Córdoba, todos os veículos comerciais (os que aqui no Brasil teriam placa vermelha) necessitam ostentar uma segunda chapa com o registro estadual. Os ônibus municipais estão dispensados, mas os inter-municipais (tanto metropolitanos, esse caso, quanto de viagem) têm que ter.

Seu cadáver foi exibido como troféu pelos militares num cortejo macabro pelas dependências do centro de tortura.

Por que não houve mais fugas na Esma? Era impossível fugir. De segurança além da máxima pois o epi-centro mesmo da repressão. Além de trancafiados em celas vários prisioneiros ficavam acorrentados nas mãos e pés.

Um conceito oriental. Na China e boa parte da Ásia (Japão, Coreia e povos Malaios) a visão é bem mais dura contra os presos.

No Oriente se diz que o objetivo das cadeias não é apenas prender o corpo, mas também a Alma dos prisioneiros.

Os asiáticos entendem que os presídios ocidentais são muito suaves.

Táxi em Córdoba. Com as duas chapas.

Por deixarem o preso privado da liberdade física, mas permitindo a conversa, raciocínio, associação e ócio dos presos.

Não é segredo pra ninguém que as cadeias da China e Coreia do Norte são campos de trabalho forçados.

Em que os detentos trabalham 14 horas por dia ou mais, 365 dias por ano e 366 nos bi-sextos.

Essa é a pintura padronizada estadual do transporte escolar em Córdoba. Com as 2 placas dos veículos comerciais (no Chile, Colômbia e Peru não há a 2ª chapa, mas eles precisam pintar a principal na lateral).

E sem poderem conversar entre si, sem sequer ser permitido desviar o olhar.

Fato menos conhecido é que no rico e civilizado Japão não é tão diferente:

Os presídios também empregam legalmente instrumentos de correção que em quase todos os países do mundo seriam considerados tortura.

Por exemplo, no Japão um preso que comete uma infração disciplinar grave é atado a uma cadeira por 3 dias, até seu pescoço, punhos e tornozelos são  imobilizados.

Nos outros estados não há 2ª chapa. Essa é a padronização dos escolares em Buenos Aires (local dessa tomada) e Mendonça. Eu disse ‘vermelho’, o taxista me corrigiu pra ‘laranja’. Seja como for, é a 1ª vez que vejo um ‘Escolar’ que não é amarelo, tom que ostentam no Brasil, EUA, Chile, entre outros.

A alimentação é por soro intravenoso, e outros tubos dão conta das necessidades fisiológicas.

Em nações ocidentais, se recorre a ‘solitária’ nesses casos.

O cara fica isolado numa cela escura sem falar com ninguém, mas sem estar impedido de movimentar seu corpo.

Pois bem. No Japão, como visto, o conceito é mais amplo:

O preso fica atado completamente imobilizado, literalmente os únicos músculos que ele consegue mexer são os olhos, a boca e os dedos e nada mais.

E isso não é um castigo infligido no porão ilegalmente por um carcereiro particularmente cruel, mas sim um recurso legal aplicado a luz do dia por todos os agentes da lei.

Boliche em Córdoba. Esse esporte é muito mais popular na Argentina que no Brasil. Inclusive ‘ir ao boliche’ na periferia das grandes cidades desse vizinho país significa ‘ir pra balada’, pois nas mesmas casas noturnas que oferecem pistas de boliche também há outras opções de lazer: sinuca, caraoquê, música ao vivo, pista de dança, barzinho. Vi na Argentina um garoto brincando de boliche sozinho na calçada, em plena via pública. Ele arrumava os pinos e a seguir arremessava uma bola de tênis neles, pelo ar mesmo e não ao nível do chão. Suficiente pra provar a popularidade da modalidade. Na República Dominicana vi meninos fazendo uma pelada de beisebol, e agora isso.

Citei essa punição exemplar, que é certo é usada somente em casos extremos mas ainda assim é a lei da terra.

Pra mostrar que o oriental vê a correção dos presos de forma completamente diferente do ocidental.

Na Ásia, o conceito é tirar a liberdade não só física como mental.

Não basta estar trancado entre muros, mas existe ‘a prisão dentro da prisão’, o detido não pode sequer movimentar seu corpo a vontade, incluindo a fala e a visão.

 …….

Entendendo isso, vê-se o porque escolhi nomear essa matéria como ‘Pol Pot na América’. Não é exagero, infelizmente.

Digo, é óbvio que em termos de quantidade o Camboja foi infinitamente pior.

Pois o regime de Pol Pot foi o maior banho de sangue da história da humanidade, em termos proporcionais a população do país.

Próximas 3: Jd. Botânico de B. Aires, na parte rica da cidade, entre Palermo e Recoleta. Aqui a estátua-símbolo de Roma/Itália, os gêmeos Remo e Rômulo mamando na loba.

Em apenas 16 anos (1963-1979) a ditadura do Khmer Vermelho eliminou nada menos que 25% da população cambojana.

(Nisso contando os combates pra que ela assumisse o poder, ali se mantivesse, e depois a invasão vietnamita pra derrubá-la.) 

Pol Pot e seus asseclas simplesmente dizimaram o Camboja. Dizimaram.

Óbvio que a ditadura argentina de Videla e seus colegas não passou nem perto disso, eles mataram “apenas” 0,1% da população argentina. Ainda assim 0,1% em somente 7 anos não é pouco.

Se os generais, almirantes e brigadeiros argentinos tivessem ficado os mesmos 16 anos de Pol Pot mantendo o mesmo ritmo de execuções, eles teriam matado nada menos que 0,25% da população total argentina.

100 vezes menos que Pol Pot? Sim. Mas bicho, ter 1% da letalidade do mais sangrento regime da humanidade já é sangrento o bastante.

Em outras palavras, mesmo 1% do pior genocídio da história do Planeta Terra já configura um genocídio em si mesmo.

Em 21 anos a ditadura brasileira eliminou a vida de 0,001% dos brasileiros.

Portanto faremos uma comparação grosseira entre o número de cadáveres e os anos em que estiveram no poder.

Assim, diríamos que se fossem os mesmos 16 anos de Pol Pot, a taxa no Brasil seria 0,0008%.

Resultando, arredondado grosseiramente pros 16 anos do Khmer Vermelho no Camboja, ou seja dobrando o período da ditadura argentina e reduzindo a brasileira pro mesmo tempo, mas em ambos os casos mantendo a taxa de letalidade:

Vão longe os tempos que a Argentina tinha pouca pobreza. Aqui e a direita, pessoas revirando as latas de lixo de Buenos Aires em busca de algo pra vender. Fotografei mais, a cena é bem comum, até descartei outras imagens. Essa tomada foi feita próxima a São Telmo, na Zona Central.

– Camboja, 25%

– Argentina, 0,25%

– Brasil, 0,0008%.

Já reconheci acima e enfatizo de novo, obviamente trata-se de um arredondamento grosseiro.

Toda hipótese é especulativa por natureza, o que nunca aconteceu só pode ser imaginado, o que sempre torna a comparação imperfeita. 

Feita essa ressalva, o emparelhamento dos números é útil pra deixar nítido como o regime ditatorial argentino esteve mais próximo do cambojano que do brasileiro.

E aqui em plena Recoleta, Zona Norte.

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Veja bem, não estou argumentando que a ditadura brasileira foi suave ou gentil.

Evidente que em nosso país os generais também deram um golpe pra assumir um poder que não lhes pertencia.

E depois reprimiram ferozmente quem lhes negava a legitimidade, seja por métodos pacíficos ou de insurreição. 

É um fato, e renomear o processo como ‘Revolução’ ou mesmo ‘Contra-Revolução’ não altera a realidade.

Contraste social agudo: na mesma região de Palermo e Recoleta, perto de onde o rapaz revira o latão, lojas chiques e caras com nomes em inglês.

E a realidade é a de que eles derrubaram um presidente que havia sido ratificado pela vontade popular não apenas uma mas duas vezes:

A 1ª quando eleito, pois na época o vice-presidente era eleito diretamente. Era diferente de hoje.

Atualmente, a chapa é ‘casada’, você vota só pra presidente, o vice vem junto no ‘pacote’.

Portanto agora o povo só elege o presidente, o vice é o partido ou coligação quem escolhem. Mas antigamente não era assim, entendamos bem a diferença.

A classe média argentina adora cães. Pode ser que os dois bichos sejam desse rapaz; mas lá existe a profissão de ‘passeador de cachorros’, o cara ganha pra levar os animais darem uma volta, é mole? Avellaneda, Z/S metropolitana de B. Aires.

Antes você votava separadamente pro cargo de presidente, e depois pro de vice. Portanto eles podiam ser de partidos diferentes.

Resultando que, se o titular se afastasse, o vice havia sido escolhido diretamente por sufrágio democrático pra governar a nação, tanto quanto aquele que ele substituiu.

Assim João Goulart (‘Jango’) havia sido eleito diretamente pelo povo brasileiro pra ser vice, e caso necessário o presidente. Mas tem mais.

No plebiscito de 63, o presidencialismo ganhou por ampla maioria, referendando mais uma vez o mandato dele como presidente legítimo.

Próximas 2: Vila Carlos Paz, uma espécie de ‘Campos do Jordãobem próxima a Córdoba. Uma cidade muito bonita, os ricos da região têm casas na orla do lago.

Obviamente a implantação do parlamentarismo em 61 já havia sido um ‘golpe branco’ na presidência de Jango.

Com a revogação dele em 63, no fatídico dia 31/03/64 veio o golpe aberto.

Portanto não estou de forma alguma negando o golpe e a ditadura brasileiras.

Não concordo com muitas coisas que a esquerda prega, mas tampouco compactuo com a prática da direita de mascarar um golpe com ‘aforismos’ diversos.

Numa praça no Centro,  caça da Força Aérea.

Então a ditadura brasileira foi exatamente isso, uma ditadura militar.

Generais que subiram ao poder ilegitimamente atropelando a Constituição, e derrubando um presidente duas vezes votado pela maioria da população brasileira.

Vocês já sabem de tudo isso, provavelmente até melhor do que eu. Estou colocando isso aqui pra fazermos o paralelo com a Argentina.

E pra mostrar pra imensa maioria que não estudou o processo em nosso vizinho como lá foi infinitamente pior que aqui.

A ditadura brasileira era uma ditadura mesmo. Ainda assim, o regime brasileiro tentou manter uma réstia, uma casca de legalidade.

Aqui e a direita: as margens da estrada que liga Córdoba a Carlos Paz. As colônias de veraneio entre o lago e a montanha.

Tanto que manteve o congresso, ainda que fantoche pois expurgado de qualquer oposição verdadeira.

Entretanto, Pinochet no Chile não teve sequer essa preocupação. Nos anos que ele foi presidente (1973-90) simplesmente dispensou o Congresso.

Mesmo como fachada, mesmo como encenação, nem assim existiu. Por 17 anos o Chile não teve poder legislativo, caso raro senão único na história.

O que o generalíssimo determinava era a automaticamente lei, não precisando de um crivo legalista nem mesmo encenado.

“O Brasil te espera!”, diz anúncio em Córdoba.

Como curiosidade pra fecharmos o Chile que não é nosso tópico de hoje, até 1973, no golpe, o Congresso era em Santiago, então a única capital do país.

Quando o Congresso foi reaberto com a volta da democracia em 1990, foi transferido pra outra cidade, Valparaíso.

Assim hoje o Chile tem mais de uma capital, como também ocorre na Bolívia e África do Sul, por exemplo.

Portanto aqui já temos o exemplo de um regime ditatorial sul-americano que foi muito mais severo que o nosso. Mas o argentino foi hours-concours na América do Sul.

E em toda a América, talvez só menos pior que os da Ilha Espanhola (Trujillo na República Dominicana e Papa Doc no vizinho Haiti). Esses executaram cada um mais de 1% da população de seus países.

Cetro de Buenos Aires, Obelisco ao fundo.