Casa de Madeira foi comum no Sudeste e Centro-Oeste: hoje só restam resquícios

Rio de Janeiro_Catacumba-1964

Tróleibus na Favela da Catacumba, Lagoa, Z/S do Rio, 1964. A favela foi removida e não há mais ônibus elétricos no RJ.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em emeios em 12 e 18 de fevereiro, 2012

Hoje praticamente não há casas de madeira no Sudeste e Nordeste brasileiros, nem em boa parte do Centro-Oeste.

Não sei quanto ao Nordeste. Nas outras duas regiões citadas elas foram comuns até os anos 60 e 70, nas periferias.

……………..

madeira azul são vicente Santos

São Vicente, Grande Santos-SP, atual

Mas depois desapareceram, só sobrando um resquício dessa manifestação em algumas cidades.

Vou citar os casos que conheço. Se você sabe de mais me escreva que eu atualizo a matéria de novo:

– Vitória do Espírito Santo;

Catacumba anos 60

Favela Catacumba, anos 60.

Santos, Marília e Campos do Jordão no estado de São Paulo (essas e mais a capital capixaba no Sudeste, evidentemente);

-E  Cuiabá-MT no Centro-Oeste.

Joguei no ar outra mensagem em que abordo esse assunto com mais profundidade.

Incluso com muitas fotos e mapas mostrando onde existem casas de madeira na América, e onde não.

Por hora adianto que no Nordeste eu nunca vi casa de madeira, nem um resquício atual, nem em fotos antigas.

construcao de brasilia

Brasília em construção (Congresso e Palácio do Planalto já erguidos): o acampamento dos ‘candangos’ era todo de madeira.

Talvez por lá isso nem sequer tenha mesmo manifestado.

Repito, alguém tendo mais informações me passe que eu amplio a postagem.

Mesmo nas cidades acima citadas elas existem mas são minoria, é preciso caminhar um pouco pra achar.

Entretanto, um colega me informou que até os anos 60 era diferente. Haviam casas de madeira ao montes.

Não sei se ele se referiu a Santos apenas ou ao estado de São Paulo em geral.

O fato é que elas estavam presentes. Transcrevo literalmente o que ele escreveu: 

embare-santos

R. Alfaia Rodrigues, Santos – no ‘Google’ consta como bairro do Embaré, e não Macuco. Seja como for, de fato aí estão os ‘chalés’ de madeira preservados. Mas se você quiser ver, seja rápido porque eles estão sumindo. A cidade está mudando, como essa própria imagem deixa claro: ao lado havia outra casa antiga (não de madeira, mas ainda assim velha) que foi derrubada pra erguerem algo mais moderno no lugar.

“Elas eram comuns em minha infância, eram denominadas de bangalôs…”.

Usa-se também o termo ‘chalé’.

Essa matéria foi publicada num outro sítio. E lá, nos comentários, alguém que assinou como ‘Santista’ acrescentou:

“Para quem tem curiosidade, só na Rua Comendador Alfaia Rodrigues, no bairro do Macuco há pelo menos uns 15 Chalés da década de 1960.

Quase todos eles bem conservados. Busquem no Visão de Rua do ‘Google’.

Jabaquara, Santos

Jabaquara, Santos.

A construção de casas em madeira no Brasil e naquela época era uma alternativa da classe pobre em obter sua moradia com mais rapidez e custo baixo.

Enquanto os ricos e mais abastados construiam em alvenaria. As casas em madeira são melhores, que digam os estadunidenses”.
…..….

Catacumba anos 60(1)

Favela da Catacumba, removida em 1970.

Aí eu estive concatenando os fatos. Nas imagens antigas das favelas do Rio de Janeiro, é comum igualmente verem-se casas de madeira.

Casas mesmo ainda que simples, não me refiro a barracos feitos de compensado e restos de construção.

Podemos dizer que nos anos 60 a madeira é quem marcava a favela no Rio.

………

Ceilândia-DF, 1971

Ceilândia-DF, 1971.

O mesmo se dava em Brasília. Veja as tomadas abaixo, ambas de 1971. Primeiro a Ceilândia, depois o Núcleo Bandeirante.

E atualizei a postagem com mais imagens: definitivamente Brasília começou na madeira. Ao menos na moradia dos operários.

Já os retratos cariocas são do Morro da Catacumba, na Lagoa, que se foi em 1970, e o Morro do Pasmado, Botafogo, que deixou de existir em 1964.

Em ambos os casos, claro, quando digo o ‘morro’ deixou de existir, me refiro não a saliência topográfica, que não foi terraplanada, mas sim a favela que existia nas encostas.

Núcleo Bandeirante-DF 1971

Núcleo Bandeirante-DF, 1971.

O fato é: até o começo dos anos 70, pelo menos, existiam casas de madeira no Rio de Janeiro e Brasília também. Veja as imagens, que falam por si só.

Falando especificamente do Rio, se elas haviam nos morros da Zona Sul, certamente haviam igualmente nos subúrbios planos.

Que se espalham pelos arrebaldes  das Zonas Norte e Oeste e também na Baixada Fluminense.

………..

Vivendo e aprendendo. Elas já foram abundantes nessa região do Brasil, como ainda são no Sul e no Norte.

madeira-santos

Morro Nova Cintra, Santos, novembro.15. Essa e a de minha própria casa, abaixo, são de minha autoria. Todas as demais são oriundas da internet.

Em Curitiba, dizendo de novo, ainda as há aos borbotões.

Hoje já não são mais maioria na periferia, como foram até os anos 90, mas ainda assim há centenas de milhares delas na Grande Curitiba.

Eu mesmo moro em uma, de onde estou mandando essas linhas. O mesmo ocorre em todas as cidades do Sul do país, grandes e pequenas.

De Porto Alegre a Salto do Itararé-PR, de Joinville-SC a Santa Maria-RS a Guarapuava e Rio Negro (ambas no Sul do Paraná), esse tipo de moradia é o que mais tem nessa parte do Brasil. Na Amazônia o mesmo se dá.

Além de ser razoavelmente comuns também em Cuiabá.

Morro do Pasmado-1959

Morro do Pasmado, Botafogo, Zona Sul do Rio, 1959.

………….

Por algum motivo esse tipo de moradia foi extinto em boa parte do país.

É notório que em São Paulo, capital e interior, até nas favelas as casas são alvenaria, situação que se repete em todo Sudeste, Nordeste, Brasília e Goiânia

………….

Bem, as casas de madeira estão diminuindo significativamente aqui no Sul também.

Catacumba madeira favela rj

Morro da Catacumba, anos 60, Lagoa, Zona Sul do Rio.

Até o começo dos anos 90, as casas de madeira eram maioria na periferia da Grande Curitiba,

Surgia um loteamento no subúrbio, a maior parte das residências que surgia era assim. Era bem mais barato, numa época de menos recursos financeiros.

Agora não mais. Mesmo nas quebradas, a alvenaria, pela primeira vez na história de Curitiba, está predominando. O Sudeste um dia começou assim também.

……..

De 2005 pra cá são bem poucas residências novas de madeira, mesmo no Sul. Pois atualmente há pouquíssima gente disposta a construir por conta.

nucleo bandeirante1

Núcleo Bandeirante, início de Brasília.

A madeira dominava quando o cara comprava barato um lote num bairro afastado e geralmente ele mesmo fazia sua moradia, as vezes em mutirão com os vizinhos.

A coisa mudou muito, hoje mesmo nos subúrbios os lotes são caros, é preciso financiar no banco.

Aí os casais estão optando por comprar a casa já pronta.

Ao invés de ter o trabalho de contratar pedreiro, aquela incomodação toda que dá pra construir.

taguatinga 1971

Taguatinga-DF, 1971.

Resultado: 90% das novas moradias são conjuntos entregues prontos. Sejam horizontais ou verticais, o fato é que são feitos de tijolo evidentemente.

……….

De modo que se até o começo dos anos 90 a maioria das novas casas (na periferia certamente) era de madeira, nos últimos 20 anos houve um equilíbrio.

E nos últimos 5 a 7 anos pendeu infinitamente mais pro tijolo.

céu ctba boqueirão lua dia céu azul minha casa anoitece limoeiro árvore

Minha casa de madeira, no Canal Belém, Boqueirão, Zona Sul de Curitiba. Ao fundo a ‘Árvore da Vida‘ sob a Lua no Céu.

Minha casa mesmo será demolida em breve, vou me mudar pra uma de alvenaria.

E essa micro-escala reflete bem uma tendência maior da cidade.

Veja mais postagens sobre a periferia de Curitiba, onde esse movimento de migração da madeira pro concreto está bem retratada:

Uberaba, aqui ao lado na Zona Leste, Parolin na Zona Central e Xaxim aqui na Zona Sul.

E mesmo uma da divisa entre as Zonas Norte e Central, que já não é mais periferia há décadas, mas no meio do século passado foi.

nucleo bandeirante 1959

Núcleo Bandeirante, 1959.

Em todas essas matérias eu registro amplamente o ciclo antigo da madeira sendo solapado pelo contemporâneo do cimento.

..…

Após predominar na periferia do Sudeste, a madeira chegou quase ao fim por lá. O Sul vai no mesmo rumo.

É bom ou ruim? Não sei. É o que está acontecendo, isso sei. Não me cabe julgar. Sou Comunicador. Eu relato o fato. Cada um que chegue a suas próprias conclusões.

igreja nb………..

Fechamos com mais imagens da construção e primeiros tempos da nova capital Brasília, tiradas do finzinho dos anos 50 até o começo dos 70.

A maioria delas no Núcleo Bandeirante, a ‘Cidade Livre’ dos candangos. Vejam que mesmo as igrejas e hospitais da época eram de madeira.

Clique sobre pra ampliar, o mesmo vale pra todas.

brasiliabrasilia1brasilia-construcaohospital nbnucleo bandeirantenucleo bandeirante2

Deus proverá”           

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