“O Número da Besta”: Buenos Aires, Argentina

Obelisco: na frente tudo é belo, turistas tiram fotos. É o ‘Lado A’ de B. Aires.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 18 de março de 2018

Ouça ouvindo “Número da Besta”, do ‘Iron Maiden’. Ao fim da matéria explico porque fiz essa relação.

Nossa série sobre a Argentina chega a capital.

Vamos falar um pouco do que observei na cidade.

Com isso recapitulando algumas coisas já ditas em outras mensagens da série.

Adicionando muitas informações novas, é claro. As fotos são na maior parte inéditas, quase todas de minha autoria. As que forem baixada da internet eu identifico com um ‘(r)’, de ‘rede’.

…..

Hoje, 18 de março de 2018, faz exatamente um ano que eu fiz esse desenho ao lado:

Mas veja por trás do Obelisco, sem-tetos dormem em pleno dia. Esse é o ‘Lado B’, o que ninguém quer ver.

‘Marília e Maurílio’ dançando tango (em comemoração ao aniversário que subo essa matéria).

E fiz lá, direto do Centro de Buenos Aires, ou melhor, do ‘Micro-Centro’.

Estava vendo o Obelisco de minha janela enquanto traçava as linhas desse casal em preto-&-branco.

Esse mesmo Obelisco que é o cartão-postal-mor, a imagem-arquétipo de Buenos Aires.

Todos conhecem essa imagem, mesmo quem nunca pisou na Argentina.

Boca x Ríver – ou seria ‘Voka x Ríber’?: Buenos Aires É Futebol (r), são 24 Libertadores ganhas por essa cidade (incluindo região metropolitana e subúrbios próximos). O Brasil inteiro tem 18, contando todas as cidades. Precisa dizer mais?

O que eu não conhecia antes de ir pessoalmente é que na frente dele há em letras gigantes as iniciais da cidade, B.A., em vegetação.

E mais a bandeira da ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’. Esse é o novo nome oficial.

Antigamente a ‘Capital Federal’, o povo ainda diz assim. E por que ‘autônoma’?

Porque não pertence a nenhum estado (lá os estados se chamam ‘províncias’, o sabes).

Belo fim-de-tarde em Vicente Lopes, rico município da Zona Norte colado a capital.

Nomenclatura a parte, o Obelisco, a frente dele, é obviamente o ponto mais procurado do país pros turistas tirarem fotos com ele como cenário.

Quando eu passei lá ocorria exatamente isso, o rapaz posa sob a bandeira enquanto o grupo que o acompanha faz o registro, confira a primeira imagem da matéria.

Mas veja o outro lado – literalmente. No calçadão sem-tetos dormem em pleno dia.

A Argentina atravessa severa crise social, política, econômica, todas as dimensões. E essa imagem sintetiza isso.

Bem pertinho, o bairro de Nunhes (do ‘Monumental de Nuñez’), também Z/N, mas dentro da Capital Federal.

Agora, justiça seja feita, nesse ponto (pessoas morando nas ruas) o Brasil está pior. Muito pior, sem comparação possível.

Na Argentina existem sem-tetos mas numa proporção ‘normal’, digamos assim, se é que isso pode ser normal.

A título de comparação, existem mendigos também no Chile, os vi e fotografei. Mas muito poucos, pelo menos na capital é bem raro.

Dou outro lado da cidade: favela da Vila 21, Zona Sul, município de B. Aires.

Na África do Sul existem mais moradores de rua (incluso vários brancos, ainda que a maioria negros) que na Argentina, mas bem menos que no Brasil.

Não sei se há algum país que esteja pior que o nosso nesse quesito, infelizmente.

Aqui a situação está catastrófica, parece que passamos por uma hecatombe nuclear.

Em Curitiba o problema está alarmante, em todos os bairros agora há aglomerações de pessoas que vivem nas ruas.

Metrô de Buenos Aires, de 1913: 1° da América Latina, 1° do Hemisfério Sul, 1° entre todos países de língua espanhola.

E no Centro então a coisa está tenebrosa, mesmo de dia e a noite é melhor não comentar.

Agora, fui a São Paulo no fim de janeiro de 18, e me assustei. Realmente eu me assustei com o que vi:

A Zona Central de Sampa está…me faltam palavras pra definir. Está macabra.

Em B. Aires nos ônibus o itinerário está em letras garrafais (em Lima-Peru também!).

Breve matéria completa com muitas fotos. Hoje nosso tema é a Argentina.

Só falei pra podermos comparar:

A crise no vizinho país está brava, muitas coisas estão até mais complicadas que no Brasil.

Mas no ponto dos sem-tetos aqui é infinitamente pior.

Casas típicas da Argentina, as portas saem direto na rua. No Chile e Nordeste Brasileiro é assim também, mas no Brasil mais pra periferia. Nos outros países tanto periferia quanto classe-média (o caso aqui).

Isso exposto, bora de volta pra lá.

…………

Buenos Aires não tem Zona Leste, porque essa é o mar, ou melhor dizendo, o Delta do Rio da Prata, que é tão largo que parece mar.

Os ricos e a alta burguesia habitam majoritariamente as Zonas Central e Norte da capital e sua região metropolitana.

Enquanto as favelas e demais ‘partes quentes da cidade’, se é que me entendes, se concentram nas Zonas Sul e Oeste.

‘CABA’ X ‘AMBA’, AS DUAS FACES DA MESMA METRÓPOLE:  UMA É A ‘EUROPA NA AMÉRICA’, E DEPOIS DO VIADUTO/PONTE ‘AMÉRICA DE CORPO & ALMA’.

A maioria das pessoas no Brasil não conhece as siglas ‘Caba’ e ‘Amba’. Começamos pela primeira.

‘CABA’, A “EUROPA NA AMÉRICA”: NA “CAPITAL FEDERAL” COM CERTEZA –

Casa Rosada, sede da presidência.

Buenos Aires tem a fama de ser uma cidade europeizada, como todos sabem. É verdade, o mito corresponde ao fato? Sim e não.

Depende do que alguém entende como “Buenos Aires”.

Politicamente, a Região Central da metrópole é a Capital Federal, a ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’ no termo mais moderno (cujas iniciais formam a sigla ‘CABA’).

Casa Rosada, ao fundo Porto Madeiro, novo e riquíssimo bairro da Zona Central.

Ali, fato. Sim, Buenos Aires é europeia. Muito mais que Curitiba, que é a capital mais branca do Brasil.

Muito mais. A classe média-alta curitibana é formada majoritariamente por pessoas que aqui no Brasil consideramos ‘brancos’, verdade.

Mas nunca te esqueças que os ‘brancos’ brasileiros, mesmo os de melhor padrão social, em sua maioria não seriam considerados brancos na Europa e EUA.

Arranha-céus de Porto Madeiro, a frente caminhões Mercedes e Scania.

Porque entre os ‘brancos’ brasileiros boa parte tem mistura de raças, tem um pouco de sangue das raças escuras, mesmo que a tez seja clara.

No Hemisfério Norte, pra pessoa ser ‘branca’ não pode ter mistura de raças não-europeias. No Brasil não somos tão rigorosos.

Pelo exemplo é mais fácil entender. Busque na internet a imagem do general e ex-secretário de estado ianque Colin Powell.

As ruas da parte nova (e residencial) de Porto Madeiro têm nomes de Mulheres.

Nos EUA, Powell é negro, ele mesmo se define assim. No Brasil, caso ele fosse da burguesia ou elite (como é), nós o chamaríamos de branco.

Se você entende isso, a classe média-alta curitibana é formada por pessoas que na sua imensa maioria tem a cutis clara. Já os olhos e cabelos variam amplamente.

Mas boa parte deles são mestiços, ‘brancos’ no Brasil, nos EUA e Europa não.

Favela em frente ao estádio do São Lourenço, Zona Oeste.

Então. A burguesia de Buenos Aires, a Capital Federal sem incluir a região metropolitana, é de imensa maioria de brancos.

Mas esses são brancos mesmo, seus cabelos são loiros ou ruivos, e os olhos também são claros.

Eu estava num restaurante do Centro de Buenos Aires.

Na mesa ao lado havia um grupo grande, de perto de 10 pessoas.

“Passeador de cachorro“, profissão típica de Buenos Aires.

Quase todos eram brancos, mas brancos pelo padrão europeu.

A pele deles parecia um leite de tão despigmentada. Olhos e cabelos igualmente claros, ou ruivos.

Aqui em Curitiba não é assim, repito.

Na África do Sul ocorre o mesmo que na Argentina, até mais intenso, os brancos sul-africanos são claríssimos, parecem fantasmas de tão alvos que são.

Na África do Sul a miscigenação é próxima de zero, até porque até uma geração atrás era proibido relações sexuais entre raças diferentes.

Próximas 2: um belo parque bem no Centro.

Agora é permitido, vimos (e fotografei) vários casais inter-raciais nas orlas de Durbã e Cidade do Cabo. Mas as coisas mudam devagar, óbvio.

Eles são ‘vários’ se você considerar que até a geração dos pais desses jovens não havia nenhum.

Entretanto 99% dos casais sul-africanos ainda são intra-raciais, ou seja, de pessoas de mesma raça.

Portanto os brancos da África do Sul são iguais aos brancos da Holanda, Inglaterra, Alemanha e França, de onde eles vieram.

Principalmente os dois primeiros, mas as duas últimas nações também contribuíram.

Ainda ali perto, uma avenida onde mora a elite e alta-burguesia em pleno Centrão (no Brasil você não vê isso).

Na Argentina nunca houve ‘apartheid’, óbvio, então a miscigenação é maior que na África do Sul.

Porém muito menor que no Brasil – entre a burguesia, na periferia é outra história, já chego lá.

Agora, na burguesia é assim. Entre os habitantes endinheirados da Capital Federal argentina, imensa maioria de brancos.

E, repetindo, brancos caucasianos mesmo, iguais aos europeus e diferentes de nós brasileiros.

Bem próximo está a Faculdade de Direito.

Mas cruze o Riachuelo ou a Auto-Pista General Paz e verá como a coisa muda.

JÁ A AMBA É A ‘AMÉRICA NA EUROPA SUL-AMERICANA’: NO SUBÚRBIO O POVÃO É MESTIÇO –

A burguesia argentina é majoritariamente euro-descendente, e sem mistura de sangue, uma verdadeira ‘Europa na América’.

Seguimos na mesma região, um sem-teto se abriga sob o viaduto. Me pediu dinheiro, dei-lhe 2 pesos, equivalente a somente R$ 0,30, e disse “só tenho isso, irmão”. Ele exultou de felicidade, respondeu “pelo menos já posso comprar um cigarro”. Pra que não tem nada o pouco é muito. Dureza, né? São os Lados ‘A’ e ‘B’ da Argentina literalmente lado-a-lado.

Mas a periferia é completamente diferente.

Entre o povão é onde a Argentina se reconcilia com a América, onde a Argentina é América de Corpo-&-Alma.

O que quis dizer por ‘cruze o Riachuelo ou a Auto-Pista’ é “vá pra região metropolitana”. Se ‘Caba’ é a Capital Federal, ‘Amba’ é a sigla de ‘Área Metropolitana de Buenos Aires.

Mas nem é preciso ir pra outro município (e estado da federação).

Se você for ao bairros proletários mais afastados, mais ainda dentro da Capital Federal (ou nas favelas, mesmo no Centro), aí os brancos puros já são ínfima minoria.

“No Topo do Mundo”: as argentinas adoram saltos e plataformas, e também echarpes e cachecóis.

A mestiçagem agora impera. Isso já na periferia de Buenos Aires. Veja ao lado:

Retratei duas amigas argentinas, uma loira e uma índia, se uma imagem vale por mil palavras.

E se pegar estrada mais ainda. O interior é bem mais escuro que a capital. Muito mais, sem comparação possível.

Breve levanto por ar a matéria sobre Córdoba, aí os que ainda não tiveram a chance de ir até lá vão comprovar.

No interior a Argentina é como todo o resto da América Latina (Brasil, Colômbia, Paraguai, Chile, México, Bolívia, etc): com mestiçagem mesmo na classe média.

Agora, na capital é como falei, muito parecido com Europa/EUA, a raça caucasiana (sem mistura) é amplamente majoritária entre a classe dirigente. Isso já disse.

“Jeitinho Argentino”??? A placa e a faixa deixam claro que não pode estacionar ali. O argentino é tão malandro quanto o brasileiro, é a triste realidade. Essa imagem é na capital. Em Mendonça, eu esperava o ônibus bem no Centro. Ponto lotado, várias linha passam ali. A cada minuto, dois minutos no máximo, para um buso, sobe, desce gente. E é difícil achar vaga pra estacionar no Centro, como sabem. Pois bem. Uma burguesa não se fez de rogada. Parou o carro grande e caro dela exatamente no ponto de ônibus. Trancou, saiu com calma. Ficou uns 10 minutos numa loja. Enquanto isso os ônibus tiveram que parar em fila dupla, os passageiros correndo risco subindo e descendo no meio da rua porque a madame não quis pagar estacionamento. Ela voltou pra carrão, nem sequer olhou pras pessoas que estavam ali pra pedir desculpas, entrou e arrancou. No México fotografei o mesmo, o ponto de ônibus ocupado por carros. Alias no México é pior, os micros só andam de porta aberta.

Mas a periferia de Buenos Aires é miscigenada. Totalmente. Nos subúrbios da metrópole, nas quebradas, nas favelas tanto mais centrais quanto afastadas, aí é tudo ‘junto e misturado’.

No dia que cheguei, fui a um jogo de futebol, São Lourenço x Atlético-PR.

(Nota: eu sou de Curitiba mas não sou atleticano. Não torço pra clube nenhum exceto o Nacional da Colômbia, como já disse muitas vezes.

Fui nessa partida porque foi a que foi possível, a que ocorreu quando estava lá.

Minha primeira ideia era assistir uma peleja local do campeonato argentino, mas não deu certo.

Então fui ver o CAP, mas sem ser torcedor. Portanto não inicie aqui uma discussão clubística porque não é o espaço pra isso.

Também já assisti um jogo do Coxa longe de Curitiba, lá em Belo Horizonte-MG no caso, então estou 1×1, neutro na disputa dos rivais da capital).

Já volto ao tema da composição racial, entenderão onde quero chegar. Mais um pequeno adendo, já que falamos do esporte mais popular do planeta:

Portal no Zoológico de Buenos Aires, no rico bairro de Palermo, começo da Z/Norte perto do Centro.

Buenos Aires é futebol. São nada menos que 24 Libertadores concentrada numa única cidade.

(Nessa conta incluindo região metropolitana e ‘La Plata’, que é fora da Grande Buenos Aires mas um subúrbio próximo, como São Paulo e Jundiaí.)

Então ir a Buenos Aires e não ir ao estádio é como ir a Roma-Itália e não ver o papa.

Alias o atual papa que é argentino como sabem é torcedor declarado desse São Lourenço que vi ‘in’ loco’.

Ainda não fui a Roma, não fui a Europa nessa encarnação, exceto na ficção. Mas fui a Buenos Aires, e fui ao estádio.

Enfim, já fiz matéria completa sobre o futebol argentino, onde conto com detalhes incluso com muitas fotos.

Aqui nosso tema é a composição racial da periferia de Buenos Aires. Então eu estava no lugar certo pra analisar isso.

“Buenos Aires, Cidade da Pizza”. No Centrão são centenas de pizzarias, uma ao lado da outra, de todos os tamanhos e pra todos os orçamentos. Eles adoram esse prato tanto quanto no Brasil, mas a receita é diferente. No Brasil é mais apreciada a massa mais fina, e misturar todos os ingredientes possíveis. No cardápio há dezenas de opções (em alguns casos centenas!), e cada um deles com muitos ingredientes, cada um cria como quer, você pede 2, 3 ou 4 sabores na mesma pizza. Na Argentina é completamente diferente, lá eles são tradicionalistas, as recitas de pizza basicamente se mantém as mesmas que vieram da Itália. Funciona assim: a massa é grossa e não há misturas. São 2 ingredientes, 3 no máximo. É delicioso, pra quem gosta de queijo é divino. Veja a foto, há um mar de queijo derretido transbordando, como um rio transborda quando chove muito. Mas é queijo, cebola e só, umas azeitonas no meio no máximo. Não é como aqui, que é queijo, cebola, azeitona por tudo, e mais presunto, ovo, tomate, molho de tomate, frango, catupiry, quatro queijos, milho, atum, tudo isso em diversas combinações mas sempre pelo menos 5 ou 6 deles juntos. Não. Em Buenos Aires é queijo (um queijo, não quatro) e mais alguma coisa, uma coisa só. Queijo e presunto. Se entra o tomate, sai o presunto. Essa é queijo e cebola. Tá bom pra ti? Pra mim está ó-ti-mo!!!, sinto saudades.

O São Lourenço é um time suburbano, popular. O time da elite é o River Plate, o Boca o do povão. São esses dois quem tem torcida gigante a nível nacional.

Os demais são muito fortes no entorno de seus estádios, conforme vai se afastando vai se diluindo.

O São Lourenço é um desses casos, típico time suburbano. Um dos grandes do país? Sim.

Mas ainda suburbano, muito forte ali na divisa da Zona Oeste com a Sul onde está sediado, e bem menos em outras partes da cidade.

E bota ‘subúrbio’ nisso. Bem em frente ao estádio há uma favela bem chamativa, uma das maiores e mais perigosas de Buenos Aires (veja as fotos, busque pela legenda).

Todos me alertaram, do taxista ao rapaz da vendinha que fui tentar carregar o cartão do ônibus, aos outros torcedores a quem pedi informação:

Não ande pelas ruas. Não ande. O bairro aqui é sinistro, vão te roubar com certeza.”

Aceitei o conselho, e como não consegui mesmo recarregar o cartão, tratei de entrar logo no estádio e ficar bem quietinho lá dentro, em segurança.

Enfim, falei tudo isso pra chegar aqui: fiquei acompanhando o “aquecimento” da banda da torcida organizada (‘barra-brava’) do S.L..

Foi regado a muito churrasco popular (um pão com bife extremamente gorduroso) e maconha.

É um time do povo, a maioria dos torcedores é do bairro e bairros vizinhos. Uma região pobre, esquecida e perigosa da cidade, como já dito.

Caminhão detonado por pichadores no Centro. Fotografei o mesmo no México, República Dominicana e Chile.

Portanto eu estava no ponto ideal pra traçar um raio-x do povão, da classe operária, da periferia da urbe.

E o que eu via me dava a impressão que estava na divisa da Europa com Ásia:

Turquia, Geórgia, Romênia, Bulgária, Armênia, Azerbaijão, aqueles lados.

Os garotos da torcida oscilavam entre o alvíssimo ao pardo.

A macabra Esma, onde foi o ‘Dops argentino’ (r). Dali saíram os famosos ‘Voos da Morte’. A ditadura lá matou 30 mil pessoas, proporcional a população foi 120 vezes pior que no Brasil. A Argentina anda não se curou do trauma.

Cabelos geralmente mais lisos, porque a Argentina tem muito poucos afro-descendentes.

Haviam brancos, alguns de pele bem clara, e loiros e ruivos como a burguesia é majoritariamente assim.

Então primeiro, nem tudo mundo no estádio é de periferia, há gente de classe-média.

Segundo, nem toda periferia é mestiça, claro que em Buenos Aires há muitos pobres caucasianos, pele cor-de-leite. Incluso nas favelas.

Agora, entre o povão os mestiços entre brancos e índios são maioria.

E agora veio outra crise política gravíssima. A Argentina passa por uma insurreição que visa derrubar o presidente Macri. Todos os dias avenidas são bloqueadas, estão havendo apedrejamentos do transporte coletivo, a coisa está bem séria. Uma nação em ebulição.

Por essa mistura, o tipo físico se parece com o dos povos que rodeiam o Mar Negro, como dito:

Se o portenho burguês típico é loiro ou ruivo, sempre de olhos e pele claros, o bonarense médio tem cabelo preto e liso, e pele também morena, cor-de-cobre.

(Esses são os gentílicos, já que tocamos no assunto: ‘portenho’ da Capital Federal, ‘bonarense’ da ‘Província’, do subúrbio metropolitano. Sigamos.)

A crise não é só política, é também econômica. A miséria aumentou muito na Argentina, é comum ver pessoas revirando as latas de lixo, como na Grécia.

A tez do bonarense (agora você já sabe o que é isso) é mais pra clara que pra escura, mais clara que a média do Chile e Colômbia, e muito mais clara que a média da Bolívia e México, óbvio.

Ainda assim, resumo dessa forma: na Argentina, ou pelo menos em sua capital, a questão de raça é mais forte que no Brasil.

Entre os que têm renda e educação relativamente elevadas, há mestiços, mas os caucasianos sem mistura predominam amplamente.

Entre a massa, o povo, há muitos brancos puros, é certo. Mas os mestiços ali são maioria.

Reflexo da crise: no Centro há vários comércios fechados. Flagrei 3 em sequência.

Tudo somado: a Argentina é um país miscigenado, muito mais que as pessoas pensam.

É que as pessoas confundem ‘Argentina’ com a Zona Central da capital.

Mesmo seus subúrbios são mais escuros, e mais ainda interior, ressaltando mais uma vez.

A Argentina é mais clara que o Chile? Sim.

Principais municípios da Grande Buenos Aires (adesivo de manutenção do elevador).

Mas mais escura que o Paraguai, e o fato que o Paraguai certamente é bem mais pobre não altera em nada esse dado.

Como nunca estive no Uruguai (exceto mais uma vez na ficção), não posso incluir essa nação na comparação. 

……….

Nas favelas de Buenos Aires, 40% dos moradores são estrangeiros. Especialmente paraguaios e bolivianos, mas há alguns peruanos e colombianos também.

Em Buenos Aires, vendinha ou mercearia é chamada ‘kiosco‘, com ‘k’ (vem da palavra ‘quiosque’). Sempre, independente do bairro. Pode ser no Centrão, na burguesia, periferia ou favela, é o ‘kiosco’. No interior nem sempre. As vezes sim, nos bairros mais ricos sim, mas nas periferias das cidades do interior argentino há outros termos, breve levanto essas matérias pra rede também.

Paraguai e Bolívia têm colônias enormes de expatriados trabalhando na construção civil e outros serviços braçais na capital argentina.

No estrangeiro, bolivianos e paraguaios estão numa situação difícil econômica (moram em favelas) e politicamente (geralmente ilegais).

Assim eles têm que achar um meio de conviver senão com amor pelo menos em harmonia. E até cooperarem, pois estão no mesmo barco.

Digo isso pelo seguinte: quando não são expatriados, quando estão cada um na sua terra-natal, bolivianos e paraguaios geralmente se odeiam encarniçadamente.

Natural. Paraguai e Bolívia travaram uma das guerras mais sangrentas da história, no século 20, a “Guerra do Chaco”.

Conhecido no Paraguai como “a Guerra Total”, o embate terminou com vitória paraguaia.

Mais uma do cartão-postal do país. Os argentinos gostam tanto de futebol que até aqui, sob o Obelisco e no canteiro da 9 de Julho (uma das avenidas mais movimentadas da cidade) eles batem uma bola.

O estádio Defensores do Chaco tem esse nome por causa do conflito.

Alias ele participou do esforço de guerra, virou paiol de munição enquanto duraram as hostilidades.

A guerra foi sinistra, dois países muito pobres e que já tinham sido destroçados em guerras anteriores, se combatendo em condições extremamente hostis.

O Chaco é desértico. Os soldados marchavam por horas sob sol escaldante, as vezes descalços.

Epidemias, fome e sede mataram mais combatentes que as balas inimigas.

Próximas 3 (via ‘Google Mapas’): já que tocamos nesse esporte, apresento-lhes o “Forte Apache”, conjunto na periferia de Buenos Aires onde Tévez (aquele que jogou no Corinthians) foi criado. Nota que o bairro não tem coleta de lixo.

O Paraguai venceu a guerra, manteve ¾ do Chaco, a Bolívia ficou com ¼ como apaziguamento.

Mas ainda não houve o perdão, de parte a parte. Bolivianos e paraguaios tem uma antipatia mútua muito forte.

Isso quando cada um está ‘em seu quadrado’, em seu próprio país.

Quando convivem nas favelas e periferias de Buenos Aires, têm que se entender. E se organizarem pra melhorar as condições de vidas de todos na comunidade:

Fica no município de Cidadela, Zona Oeste da Grande Buenos Aires. Oficialmente se chama Conjunto “Exército dos Andes”, mas todo mudo só conhece por ”Forte Apache”. No destaque um carro queimado que estava nas imediações. Uma obra estranha, tentaram fazer um estilo futurista quando misturaram vários estilos arquitetônicos, prédios de diferentes tamanhos, que se conectam pelos andares mais altos. Ficou bom o resultado? Responde você.

Estrangeiros e argentinos pobres do interior, estão todos ali, no apuro, precisam lutar juntos.

Pois a elite argentina (como todas as elites) não se importa com os desfavorecidos pelo sistema, sejam compatriotas ou imigrantes.

Por isso nas quebradas de B. Aires paraguaios e bolivianos convivem bem, sem maiores conflitos.

Realmente a dificuldade abranda corações, sem dúvida.

Alias, já dissemos acima e é notório, o Ríver é o time da elite, o Boca do povão.

Por isso, há uma brincadeira que hoje o ‘politicamente correto’ não permite que seja dito dentro dos estádios (mas nas redes sociais rola, nas pichações nos muros também).

Inexplicavelmente o Forte Apache não tem coleta de lixo, pois não é uma favela (eu sei, você pensou “só parece uma”). Depois falam em reduzir as epidemias…..

A torcida do Ríver ‘acusa’ o Boca de “ter a maior torcida da Bolívia” (as vezes incluem o Paraguai também no chiste), referência óbvia a massa imigrante.

…….

Seja como for. Buenos Aires tem grande população imigrante sul-americana. Pela ordem:

São muitos paraguaios, muitos bolivianos, muitos uruguaios, poucos peruanos, poucos colombianos.

Próximas 3: famosa feira de artesanato de São Telmo, na Zona Central.

Santiago do Chile, com quem Buenos Aires faz um ‘jogo de espelhos’, tem (pela ordem):

Muitos bolivianos, muitos peruanos, poucos colombianos, uruguaios e paraguaios são quase inexistentes.

Já retomamos com tudo a comparação com o Chile. Agora falemos de Buenos Aires:

Os uruguaios se concentram entre a classe-média. Mas são muitos.

Há 3 milhões de uruguaios no Uruguai mesmo. E quase 1,5 milhão de uruguaios na Argentina.

Sim, é isso, quase um terço dos uruguaios cruzou o Prata e se assentou na nação ao lado.

Casal dança tango em praça pública.

A imensa maioria na Grande Buenos Aires, que é perto:

3 horas de barco e poucos minutos de avião.

A economia uruguaia decaiu muito, depois que as indústrias (principalmente frigoríficos e tecelagem) fecharam, e daí esse êxodo em massa.

A Argentina é bem maior e bem mais rica, especialmente a capital, então há grande oferta de trabalho pra classe-média uruguaia qualificada.

Próximas 3: bairro São Telmo e imediações, Zona Central, o entorno da feirinha. Uma parte antiga da cidade.

Como são países muito próximos, tanto física quanto culturalmente, muitos uruguaios optaram por se estabelecer ali.

Assim em alguns bares da Zona Central de B. Aires quando jogam Boca x Penharol ou Ríver x Nacional (ou outras combinações de times das capitais, você entendeu), a torcida é quase meio-a-meio.

Entre os paraguaios que vivem na Argentina há muito povão, mas muita classe-média também, e pelo mesmo motivo, intensa proximidade física e cultural.

Com os bolivianos é o contrário dos uruguaios. Quase todos os bolivianos que lutam na Argentina são de periferia, são quase inexistentes na burguesia. Essas três nacionalidades acima concentram o grosso dos estrangeiros.

os peruanos e colombianos de Buenos Aires, que são bem mais raros, se concentram também na periferia.

BUENOS AIRES, CIDADE DA CUMBIA –

O Chaco – na Argentina chamado ‘Pampa’ – é a “Grande Planície Central Sul-Americana”.

Pega Uruguai e Paraguai inteiros, quase toda Argentina (o Sul dela, mais frio, é a Patagônia) e o Sul da Bolívia.

E a Cumbia é a música do Chaco. Exemplificar é mais fácil que explicar. Ouça:

https://www.youtube.com/watch?v=-shpxdvBWwQ

https://www.youtube.com/watch?v=xzSlYVa2SvA

Apagões são frequentes em Buenos Aires, leia o pedido no metrô. A crise é multi-dimensional na Argentina.

Numa delas diz “cumbia paraguaia”, mas o ritmo é sempre igual, seja do Paraguai, Argentina ou Bolívia.

É o sertanejo deles. Digo, há uma versão um pouco mais acelerada, com mais ‘remix’, que se chama ‘cumbia villera’ no original, significa ‘cumbia de favela’ ou ‘do subúrbio’.

Ali seria o equivalente ao ‘rap’. Toda América adora ‘rap’, EUA, México, América Central, Caribe, Brasil, Chile, Venezuela, Colômbia.

Digo, quase toda América. Porque a Argentina e seus vizinhos menores (Paraguai, Uruguai, Bolívia) não gostam.

O desemprego é muito alto, cada um se vir como pode. O metrô está cheio de camelôs, igual no Brasil.

Quando eles querem uma música mais pesada, mais agressiva, a ‘cumbia villera’ é a escolha.

E quando querem mais romantismo, se sintonizam na cumbia tradicional.

Por ‘A’ ou por ‘B’, só dá cumbia.

E, bem, as favelas e subúrbios de Buenos Aires são habitados por argentinos do interior e por bolivianos e paraguaios.

Os argentinos mais humildes que incham as favelas da capital vieram a maior parte do Norte do país que é mais pobre.

Ou seja, são oriundos exatamente do coração do Pampa, na fronteira com Paraguai e Bolívia.

Catador de papel no Centro de B. Aires.

E vivem lado a lado com esses estrangeiros, que vieram de regões próximas, do outro lado das fronteiras mas a cultura é parecida.

Tudo somado: nas periferias de Buenos Aires, independente da nacionalidade, quase todos vieram do Chaco/Pampa.

Portanto ali só dá cumbia. Eu voltava de trem dos subúrbios metropolitanos, ouvindo rádio.

É impressionante a quantia de estações dedicadas a cumbia. Uma hora a cantora mandou ‘um beijo a todos um cumbeiros’.

Aqui e a esquerda: camelôs africanos no Centro de Buenos Aires. A Argentina teve escravidão africana, como no Brasil. No meio do século 19 Buenos Aires (que então era bem menor, a grande imigração europeia ainda não havia chegado) chegou a ter um terço de sua população negra. Mas aí os negros foram mandados desarmados pras linhas de frente na ‘Guerra do Paraguai’. Os paraguaios descarregavam toda pólvora neles, e foram genocidados na Argentina. O Brasil fez o mesmo, que fique claro. Mas aqui haviam muito mais escravos, por isso os negros continuaram numerosos em nossa pátria. Voltando ao país vizinho, após esse massacre por mais de um século Buenos Aires teve pouquíssimos negros. Agora eles voltaram, imigrando da África. Esses dois na Av. 9 de Julho, o garoto usa uma camisa de Mandela no mapa de seu continente-natal, pra não deixar dúvidas.

Ela foi específica: dedicou a música a todos os fãs da cumbia na “Bolívia, Argentina, Brasil (São Paulo tem uma grande comunidade boliviana) e Chile”.

O Paraguai também adora cumbia. Ela não citou esse país porque é boliviana, o ressentimento ainda fala mais alto.

E ao meu lado vinha um boliviano (ele mesmo se identificou assim, não estou chutando).

Contava sua saga na Argentina, as dificuldades que passou, e sua luta pra vencer.

Não foi o único boliviano que me deparei na cidade.

No primeiro dia que cheguei fui ao jogo São Lourenço x CAP, repetindo.

Tentei recarregar o cartão de ônibus, andando num bairro bem popular, ao lado de uma grande favela.

Entrei numa vendinha. Tudo isso já contei. Agora as novidades. A mercearia era gradeada, o cara te atendia parecendo estar num presídio, pra evitar assaltos.

E esses aqui no Retiro, em frente as estações centrais de trem (suburbano e longa distância) e ônibus (igualmente urbanos e longa distância – destaquei com a flecha o letreiro ‘Terminal de Omnibus’ da Rodoviária do Retiro). Há muitos camelôs (tanto argentinos quanto estrangeiros, africanos, paraguaios e bolivianos) ali, mas quem foi alguns anos trás disse que antigamente era muito pior.

E era um índio, bem escuro, logo vi que não era argentino. Sim, a periferia de Buenos Aires é mais mestiça que a burguesia.

Mas esse garoto destoava mesmo disso. Perguntei: “você é argentino?”. Ele respondeu:

“Sim, nasci aqui. Mas meus pais são bolivianos, fui criado na Bolívia, agora voltei”.

Expliquei que sou jornalista, pedi permissão pra fotografar, ele assentiu.

É isso, amigos. Nos trens, subúrbios e favelas de Buenos Aires, eu me senti em La Paz, Bolívia, onde nunca estive, ou de volta a Assunção-Paraguai, que visitei em 2013.

E dá-lhe Cumbia!!!! Se Belo Horizonte, Fortaleza-CE ou mesmo as periferias de Curitiba são as “Cidades do Funk”, Buenos Aires é a “Cidade da Cumbia”!!

…………

Periferia típica de Buenos Aires, foto na Zona Sul. Saída direto na rua, grades na portas e janelas pra evitar arrombamentos, casas geminadas sem acabamento, eram térreas depois subiram a laje‘, varal no teto, e uma imagem de Jesus. A Argentina é um país bi-polar, a burguesia é quase toda materialista (são ateus), mas a periferia é muito católica. Muito mesmo.

BUENOS AIRES & SANTIAGO: O “JOGO DOS ESPELHOS” –

As capitais da Argentina e do Chile se refletem mutuamente, mas em formas invertidas, como um Yin-Yan em 3D.

(A.S.: Por ‘Americana’ me refiro sempre ao continente América, o que vem dos EUA é ‘ianque’ ou ‘estadunidense’, lembre-se disso.)

Explico: ambas são a ‘Europa na América’, mas em dimensões diferentes.

Santiago é fisicamente uma cidade europeia, em Espírito, em cultura, é totalmente Americana.

Buenos Aires é o contrário: totalmente Americana fisicamente (por isso digo Latino-Americana), mas bem mais Europeizada em Espírito, em cultura.

Avellaneda, Zona Sul metropolitana. Bairro de classe-média, mas as portas saem na rua também. O detalhe é essa grade no teto, suspensa no ar (a casa ao lado é bem mais baixa). Será que alguém acha que os ladrões vão aterrizar vindo do céu??

A crise na Argentina está brava, e além de aguda virou também crônica.

Buenos Aires se empobreceu muito, se coalhou de favelas, e favelas horrorosas.

A capital argentina hoje tem tantas favelas quanto qualquer cidade brasileira de mesmo porte.

E, repito, as favelas deles não devem nada as nossas, em densidade, falta de infra-estrutura e serviços públicos, etc.

Buenos Aires é América. No passado não foi, mas hoje é.

Centro do subúrbio metropolitano de Avellaneda, belo fim-de-tarde.

E como é! Fisicamente falando, é totalmente (Latino-) Americana.

Ainda assim, em sua burguesia predomina a raça caucasiana/normanda, brancos mesmo sem mistura.

Resultando que culturalmente (pois é a burguesia quem determina o grosso da cultura) Buenos Aires é muito europeia, em Espírito, em seu jeito de ser.

Santiago é o contrário. A capital chilena passou por uma das maiores reformas urbanas já vistas na humanidade.

Do outro lado da cidade, anoitece no Centro do subúrbio metropolitano de Vicente Lopes, Zona Norte.

Pinochet e seus sucessores literalmente refizeram a cidade. Erradicaram e urbanizaram a maior parte das favelas.

Construíram literalmente milhões de casas novas. Não estou brincando nem exagerando.

A ênfase de re-urbanização foi só na capital Santiago.

O interior nem de longe tem o mesmo nível, exatamente ao contrário, suas periferias são cheias de favelas.

Próximas 2: seguimos em Vicente Lopes, vemos o parque a beira-mar da cidade. As pessoas aproveitam a temperatura amena pra se exercitar.

Nisso incluindo Valparaíso, que depois da ditadura se tornou capital legislativa, o Congresso foi re-aberto lá.

(Durante a era de Augusto Pinochet o Chile não teve Congresso, nem mesmo de fachada:

O ‘Generalíssimo’ dizia e estava dito, dispensava-se qualquer ratificação mesmo que simbólica.)

Da política chilena, seus conflitos do passado e do presente, já tratei com muito mais detalhes quando voltei de lá.

Vou contar o que vi nesse parque. Os chilenos adoram pingue-pongue, várias praças lá têm a mesa pra jogar. Os argentinos também gostam do tênis de mesa, não tanto quanto no Chile mas bem mais que no Brasil, a galera estava praticando. Mas presenciei também um esporte que nunca tinha visto, o fute-tênis, você conhece? O fute-vôlei é uma fusão do futebol com vôlei, não? O fute-tênis é uma fusão do tênis com o futebol. A quadra é de tênis, rede baixa, de metal. Ficam dois de cada lado, bola de futebol, joga-se com os pés. O ponto é como no tênis, quando a bola pinga duas vezes no chão, sendo a 1ª dentro da quadra adversária.  É….vivendo e aprendendo, conheci algo inédito.

Aqui só fiz esse adendo pra mostrar que Valparaíso, mesmo sendo também capital, nem de longe tem o mesmo nível de Santiago.

Nem pensar….Valparaíso é coalhada de favelas em morro. ‘Valpo’ é América de Corpo & Alma.

Mas Santiago, fisicamente, é europeia. Urbanisticamente falando, Santiago é uma cidade britânica.

A periferia santiaguina é formada quase que somente por conjuntinhos de casas geminadas, sejam térreas ou sobrados.

Na Zona Oeste há bastante predinhos de cohab, aqueles pombais baixos sem elevador.

Nas outras partes da cidade eles existem mais são bem mais raros, as casas predominam mesmo.

Sim, parece que você está na Inglaterra, Irlanda ou Escócia.

Bairro após bairro após bairro, um conjunto emenda no outro, que emenda no outro, que emenda no outro.

São raras as casas autóctones, as construídas pelo dono conforme seu gosto. Geralmente é padronizado.

Grafite no bairro Barracas, Zona Sul, que fica entre o Parque Patrícios, Nova Pompeia, bairro da Boca (que sedia o time multi-campeão) e o vizinho município de Avellaneda (que sedia o Racing e o Independente). Desculpe o dedo na câmera.

Claro, na periferia rolam puxadinhos, incluso em prédios (já falo mais disso).

E as favelas em Santiago então são raríssimas. Atenção:

Não estou dizendo que não existem. Sim, há favelas em Santiago. São poucas, mas existem.

Fui na maior delas, o Morro São Cristóvão, entre as Zonas Central e Norte.

Na Extremidade da Zona Sul, vi e fotografei mais algumas.

Próximas 2: famosa favela ‘Vila 21‘, que fica entre Barracas e Nova Pompeia, divisa com Avellaneda mas no município de B. Aires.

Então, repito, há favelas em Santiago.

Quem diz que não ou nem se deu o trabalho de ir a periferia ou está mesmo mentindo abertamente.

Mas são poucas, bem poucas. Santiago foi intensamente re-urbanizada.

E é agora uma cidade basicamente formada por conjuntos habitacionais, na sua classe proletária.

Avenida principal da vila, um buso (da linha 70) vem, outro vai.

Fisicamente, uma cidade europeia.

A questão é que Santiago tem o povo bem mais escuro que em Buenos Aires.

Mesmo a classe-média da capital chilena é mestiça, entre brancos e índios.

E na periferia isso só aumenta. Há brancos na periferia de Santiago?

O Riachuelo divide os municípios de Buenos Aires (dir.) de Avellaneda (esq.). Portanto também uma divisa inter-estadual, separa respectivamente o Distrito Federal do estado (‘província’) de Buenos Aires.

Sim. Mas são poucos. A imensa maioria dos santiaguinos suburbanos são mesclados.

São uma mistura entre euro- e amero-descendentes.

O tom de pele varia, mas o cabelo quase sempre preto e liso, e os olhos levemente puxados.

Parecido com a Colômbia? Exatamente.

Do “outro lado do morro” (os Andes) a América é diferente que do lado de cá.

Na burguesia, Buenos Aires e Santiago se parecem, é fato. Na periferia são completamente diferentes.

Filho de bolivianos que tem uma vendinha (‘kiosco’) perto do estádio do São Lourenço – gradeada pra evitar assaltos. Um aviso pede pra você “não esquecer de trazer sua própria sacola pra levar suas compras”. Em São Paulo quando você vai ao mercado é cobrado um valor pra cada sacola plástica, né? Então, Buenos Aires foi mais radical, simplesmente proibiram as sacolas plásticas, não pode mais e ponto final. Vale só pra capital federal. Nos subúrbios metropolitanos vi a galera saindo com a compra ainda nessas sacolinhas derivadas de petróleo.

Completamente. Entre o povão, o Chile é um país andino.

Com isso, quero dizer que ele é mais parecido com a Colômbia, Venezuela, México, América Central e Peru que fisicamente estão longe (o Peru nem tanto mas ainda assim bem distante) que com a Argentina que está do lado.

Paraguai e Uruguai são satélites culturais da Argentina.

Ambos esses pequenos países enxergam a Argentina e sua cultura como um guia, como um irmão maior.

Eles se parecem com ela e querem se parecer ainda mais.

O Chile não é assim. O Chile, entre sua cultura popular, não se parece com a Argentina nem almeja parecer.

Santiago, culturalmente, é América Latina pura, com tudo que isso implica. Alias em Santiago eu vi (e fotografei) algo que só existe lá: puxadinho no prédio.

Mercado municipal de Buenos Aires. Como  falamos de comércio, quem já foi a Argentina sabe: muitas vezes os comerciantes lá se negam a dar troco, preferem perder a venda. No caixa eletrônico saem muitas notas de 50 Pesos (8 Reais). Você tenta pagar uma compra de 15 Pesos com ela, o caixa (geralmente o dono do negócio) recusa, opta por deixar de faturar. Como você só tem nota de 50, fica na mão, não podia antes nem pegar um ônibus (lá não tem cobrador, tinha que ser valor exato em dinheiro, agora é no cartão). A solução é comprar nas lojas de chineses. Esse nunca perdem negócio, nunca reclamam de dar troco.

Sim, é isso. O cara mora numa cohab, segundo ou terceiro andar. E quer aumentar a casa, fazer mais um cômodo. Não se faz de rogado:

Bota uma estacas e faz mais uma sala, ao lado da que já existia.

O puxadinho fica precariamente suspenso por colunas improvisadíssimas. No alto do prédio, meu irmão.

Se você nunca viu isso e acha que estou brincando, confira as fotos que tirei por lá.

Isso é bem revelador da cultura de Santiago. O improviso, traço típico da América, mais anti-europeu impossível.

Por isso. Entre o povão, a massa, Santiago é América pura. Mas fisicamente é europeia.

Buenos Aires é o contrário: com tantas favelas, é totalmente América. Mas pelo predomínio caucasiano na burguesia, uma cidade de cultura europeia, repetindo.

Conta de luz do apartamento que fiquei. Bairro: Micro-Centro. Trata-se de um termo local pra indicar a região entre o Congresso e a Praça de Maio, como o Obelisco bem ao meio como referência máxima.

Eis o “jogo dos espelho”, o reflexo invertido entre essas duas metrópoles.

……….

CONFLITOS EM LINIERS, “ZONA OESTE DE BS. AS.” –

Essa matéria concentra as fotos nas Zonas Central, Sul e Norte.

Buenos Aires não tem mesmo Zona Leste, porque essa é o Rio, digo de novo.

Grades sobre os cartazes, pra que não se colem outros cartazes por cima.

Mas não há fotos da Zona Oeste, exceto poucas em frente o estádio do São Lourenço. Que ainda é na divisa com a Zona Sul.

Entretanto, eu fui a Zona Oeste. Ao coração dela. A ausência de imagens se refere a que naquele dia minha câmera descarregou.

Em compensação, puxei pelo ‘Google Mapas’ as cenas de Forte Apache (fiz colagens, você percebe a emenda. A intenção não é enganar ninguém, mas dar uma visão mais ampla do bairro).

O lugar que Carlitos Tévez (ex-Corinthians) foi criado. O ‘Forte’ é Z/O, e como é!

Próximas 2: o famoso calçadão da Rua Florida, no Centro. Repare o ‘Comuna 1‘ escrito na placa, e mais um rapaz tocando em via pública.

Na região metropolitana, eu não estive ali, conheço só virtualmente.

Mas já chegamos lá. Vamos seguindo a ordem, contando meu passeio conforme o fiz.

Desci na estação final da linha ‘A’ do metrô, quase chegando ao bairro Floresta.

Na Av. Rivadávia, importantíssimo eixo que conecta o Centro a parte ocidental da metrópole.

E aí fui seguindo a Rivadávia, as vezes entrava um pouco na parte residencial do bairro, passeava umas quadras pelas paralelas de ambos os lados.

Voltava pra avenida, sempre tendo ela como eixo.

Cheguei ao populoso e importante bairro de Liniers, que é o coração da Z/O como já dito.

Ainda dentro da capital federal, é uma transição da burguesia da Zona Central pro que virá mais a frente, a periferia da região metropolitana.

Praça de Maio, epi-centro político do país, onde as mães e avós resistiram a ditadura – que alias foi muito, mas muito pior que no Brasil. Também na Comuna 1. Vê que é aqui que começa a Avenida Rivadávia, cuja outra ponta percorri na Zona Oeste.

Assim Liniers é, como posso dizer, o começo da periferia.

Majoritariamente de classe média-baixa, classe proletária, com algumas porções de burguesia do subúrbio.

Liniers, embora popular, não tem favelas, ao contrário de Vila Lugano ali perto, que é cercado de favelas por todo lado.

Incluindo duas favelas gigantes – uma delas a famosa ‘Cidade Oculta’ (que foi murada na ditadura Videla pra não ‘atrapalhar’ a vista de quem passava na avenida).

Isso é Vila Lugano, onde eu não estive. Volto a falar de Liniers, onde passei. Segui pela Rivadávia e paralelas. A cidade começa a mudar pra periferia:

Ali perto, também no ‘Micro-Centro’. E que raio é essa ‘Comuna 1’? O município de Buenos Aires é dividido em Comunas, como no Brasil dividimos em administrações regionais. Quase toda Zona Central é a 1. São vários bairros por comuna, com duas exceções: os bairros Recoleta e Palermo, que são os mais ricos da cidade, são cada um uma comuna individualmente, a 2 e a 3 respectivamente. A Av. Crámer, na Zona Norte, está na Comuna 13, destaquei. Já em Medelím-Colômbia, ‘Comuna’ significa favela, também são numeradas.

O comércio começa a ficar mais popular, você começa a ver mais povão nas ruas.

Começa a ver mais mestiços, embora claro que há também muitos brancos, há muitos caucasianos na periferia de Buenos Aires, embora já não maioria como na burguesia.

Fim-de-tarde, um caos natural pelo horário de pico, as pessoas nos pontos de ônibus, trânsito pesado, outras se dirigem a estação de trem.

Em alguns pontos a Argentina parece que ainda está no meio do século 20:

Em Córdoba ficamos num hotel grande, bem no Centro, que ocupa todo um prédio bem alto.

Pois bem. A chave ainda é de metal, você deixa na portaria quando sai, como era no Brasil décadas atrás.

Em toda Argentina, em boa parte do comércio ainda não se aceita cartão de débito, você acredita?

Mais uma favela em frente o estádio do São Lourenço, fotografei de dentro dele, as cabeças são dos torcedores.

No Brasil isso parece outra galáxia.

As pessoas aqui pagam tudo no cartão, até a conta do pão na padaria que dá R$ 3 é saldada na maquininha do cartão de débito.

Então o fato que um país que tem fama de desenvolvido ainda não aceitar cartão em diversos lugares parece inacreditável.

Mas é assim no momento que escrevo (2018, estive lá em 2017).

A falta de infra-estrutura na Argentina está crítica. Veja essa importante avenida na Zona Sul, dentro da Capital Federal. Céu limpo, aquela fileira de água não é chuva, mas esgoto que corre a céu aberto. Ressalto o que está óbvio: uma avenida grande, com comércio aberto, num bairro de classe-média, não é favela recém-invadida, nem mesmo um loteamento do fundão da perifa. E mesmo assim a situação é essa que presencia! Vai vendo….

Retornando a Liniers, lá eu tive mais uma ‘volta no tempo‘.

A avenida Rivadávia é paralela a linha do trem, e logo elas se encontram, passam a correr lado-a-lado.

Pois bem. As balizas que fecham os cruzamentos com a linha férrea quando a composição passa ainda são operados manualmente! Você acredita nisso?

Pois é a realidade. Fica um guardinha (ambos os sexos têm essa ocupação, vi Homens e Mulheres) a postos, quando o trem apita ele (a) vai lá e abaixa a cancela.

É mole? Em pleno século 21, isso era pra estar automatizado faz tempo. Mas ainda haveria mais.

Voltando a Z/N (parte rica da cidade), outra vista do parque onde está o zoológico.

A Argentina vive aguda crise social, política, econômica, todas as dimensões.

O desemprego é alto, as ruas estão tomadas de camelôs mesmo na área central.

Muito mais na periferia, especialmente ali, perto de estações de trem.

Panorâmica da linha de prédios da Zona Norte.

Em alguns pontos era até difícil andar na calçada, nada diferente do que acontece no Brasil.

E aí o governo resolveu complicar ainda mais o que já estava bem difícil.

Na saída da estação Liniers havia uma galeria de lojas. Já na calçada, tinham umas 20 lojas.

Loja de vinhos na Zona Central. Com o aviso: “Somos fabricantes, somos de Mendonça”, a ‘Cidade do Vinho’.

Havia comércio de roupas populares, lanchonetes, essas coisas. Sabe-se lá o porque, decidiam embargar o estabelecimento.

Está tudo fechado e lacrado, com os avisos de ‘interditado’. Porém as pessoas precisam trabalhar.

Precisam comer, essa necessidade não pode ser suspensa enquanto se debatem questões técnicas legislativas, se ‘atende ou não ao plano diretor’, etc.

Os antigos comerciantes do dia pra noite foram expulsos e perderam o direito de ocupar seus pontos (alguns estavam a décadas ali, você nota que a construção é antiga).

Próximas duas: Avenida 9 de Julho, Zona Central.

Obviamente eles passaram a protestar. Haviam diversos cartazes dizendo: “não somos invasores, só queremos trabalhar”, “galeria fechada. Por quê?”, e assim vai.

Mas claro que não ficou só na retórica. Repito, as pessoas têm que comer todos os dias, então é preciso achar um meio de atender essa necessidade.

Se uma porta se fecha, é preciso abrir outra. Os antigos comerciantes que foram despejados de suas lojas montaram agora banquinhas, e atendem na calçada.

Exatamente em frente as suas lojas que estão fechadas, pra manter o mesmo público.

Tudo ficou mais precário, não? Antes eles eram regularizados, pagavam impostos.

Agora não pagam. Prum país que está em crise fiscal gravíssima ainda se dar ao luxo de desperdiçar receita é bem estranho, ultrapassa as raias da burrice.

O desconforto aumentou muito, tanto pra vendedores quanto compradores, especialmente quando chove. A higiene também caiu, onde vendem alimentos.

A circulação se tornou mais difícil. E se tudo fosse pouco, antes os comerciantes eram todos argentinos.

Como o mexicano, o argentino é um povo musical, simplesmente ama a música. Por toda parte você vê gente tocando. Aqui na Zona Central, perto da feirinha de São Telmo.

Agora que se formou um camelódromo, os africanos se somaram a eles.

Veja bem, eu não tenho nada contra africanos, o oposto sendo verdadeiro.

Fui a Mama-África, e amei a experiência, foi um presente que a Grande Vida (Deus) me proporcionou. Nunca fui a Europa, mas fui a África.

Isso já revela que nutro um profundo Amor pela Raça Guerreira Negra Original. Não tenho nada contra sequer em relação aos camelôs africanos. Ao contrário. 

Aqui e a esquerda: uma parte feia, lixo espalhado pelo Centro.

Quando eu era casado, uma de minhas alianças comprei de um camelô senegalês no Centro de Curitiba. Então respeito o direito deles lutarem como podem pra sobreviver.

Estou apenas descrevendo o caos que se tornou o entorno da Estação Liniers de trem, e tudo porque alguém decidiu estupidamente embargar a galeria.

Todo esse conflito e confusão se processava exatamente em frente as lojas fechadas…. Não era mais fácil permitir o funcionamento do comércio regularizado?

Nessa aqui a impressão é que estava dentro do latão e alguém revirou pra recolher alguma coisa.

Ia ser melhor pra todo mundo, comerciantes, clientes, pessoas que apenas querem passar pela calçada, e até pro governo, que iria arrecadar mais.

Podiam devolver as lojas aos antigos donos, afinal eles precisam de uma renda, se a legalidade se fecha são empurrados pra ilegalidade, mas continuam ali.

E aí poderiam construir mais algumas lojas, pra contemplar também os africanos recém-chegados, dar a eles a chance de também serem cidadãos de fato.

Flores. Ao fundo o novo – e riquíssimo – bairro de Porto Madeiro.  Alias a alguns dias (publico em 18/03/18) foi Dia Da Mulher. O que isso tem a ver com B. Aires? Simples, muita gente não sabe, mas Porto Madeiro é dedicado as Mulheres. As ruas da parte nova e residencial têm nomes femininos, já mostrei acima. Um parque também. O outro parque é o ‘das Mulheres Argentinas’, e essa parte da ilha é ligada ao continente pela ‘Ponte da Mulher’.

Mas não. Não elevaram os africanos ao nível de cidadãos plenos. Foram na mão oposta.

Rebaixaram os argentinos ao mesmo nível dos africanos que são imigrantes ilegais.

Agora todos são ilegais, todos são camelôs sem licença, ao lado da galeria fechada que poderia estar sendo usada. Algumas coisas são difíceis mesmo de entender

…….…

Olhei pra cima. No alça do viaduto estava escrito: “Buenos Aires, Zona Oeste”. Exatamente assim, o mesmo termo que usamos no Brasil.

Por que digo isso? Porque a palavra ‘zona’, no sentido de Zona Oeste, Zona Central, etc, só existe no Brasil, Argentina, Uruguai e mais raramente Paraguai.

No Chile, Colômbia, México, República Dominicana – esses tive oportunidade de ir, mas também nos demais [Equador, Venezuela, Peru, América Central] – é diferente:

Um artista retratou a ‘Ponte da Mulher’.

No resto da América hispânica não há a palavra ‘zona’. Pro sul da cidade eles dizem simplesmente ‘o sul’, pro norte ‘o norte’.

Todo mundo entende que é nosso ‘Zona Sul’ e ‘Zona Norte’. O leste é o ‘Oriente’, em todos eles. O oeste é o ‘Ocidente’ na América do Sul e Central (incluindo Caribe).

Mas no México ‘zona oeste’ eles dizem ‘o Poente’. Poético, não?

Isso nos demais países. Na Argentina (e Uruguai, as vezes também Paraguai) é igual no Brasil. Por isso a inscrição no viaduto: “Buenos Aires, Zona Oeste”.

Próximas 7: o rico bairro de Nunhes (‘Nuñez’ no original) na Z/Norte. Essa é no município de B. Aires, mas perto da divisa com Vicente Lopes.

CRUZANDO A AUTO-PISTA: BEM-VINDO AO “VELHO-OESTE SELVAGEM” –

Liniers, como dito, é o começo da periferia, mas ainda classe-média. Só que é o último bairro a oeste dentro do município de Buenos Aires, a ‘Capital Federal’.

Ali estão as oficinas da rede ferroviária argentina, então a cultura proletária é muito forte.

Os argentinos ainda são sindicalizados, ainda creem na literatura da ‘luta de classes’.

Então Liniers é assim. Um bairro operário em espírito, que tem um padrão de classe média-baixa em sua maioria.

Agora de dia. destaquei o itinerário das linhas de transporte coletivo.

Passando por baixo do viaduto da Auto-Pista General Paz entramos na região metropolitana, e mudamos também de estado.

Saímos do Distrito Federal, adentrando a Província de Buenos Aires, pros íntimos simplesmente “A Província”.

Em Buenos Aires, quando alguém usa esse termo, já está entendido que é a periferia, os subúrbios da capital. A cidade é a mesma mas muda a unidade da federação.

Então. Saí de Liniers e da Capital Federal, entrei em Cidadela, na “Província”. Agora você vai ver o que é Zona Oeste de verdade! A Avenida Rivadávia continua, inclusive com mesmo nome e numeração, herda tudo que veio da capital.

Mas o perfil social começa a mudar. Em Cidadela… (Nota: essa é a ‘municipalidad’ deles, que seria um município aqui no Brasil talvez, a divisão é diferente.

O ‘partido’ é 3 de Fevereiro, que seria um condado, como existe nos EUA e África do Sul).

Então estamos no município de Cidadela (‘Ciudadela’ no original), condado da ‘3 de Fevereiro’

(Outra nota: originalmente escrevi que o condado era ‘La Matanza’. Está errado. O vizinho município de Ramos Mejía fica em ‘La Matanza’, mas Cidadela no 3 de Fevereiro. Corrigido).

A cidade começa a mudar, enfatizo. Surgem algumas favelas, que não existem em Liniers. Entrei em duas delas, uma pequena ao lado de um viaduto e uma de tamanho médio.

Até o transporte coletivo muda. As linhas que passam pelo município de Buenos Aires (tanto municipais quanto as que ligam o Centro aos subúrbios metropolitanos) são servidas por ônibus mais novos, maiores, 3 portas e motor traseiro.

Já nas linhas internas metropolitanas (que não entram na Capital Federal) de menor demanda nos deparamos com veículos mais velhos, menores, 2 portas e motor na frente.

Essa parte da cidade é bem arborizada.

Caminho mais um pouco, passo pela Estação Cidadela de trem, entro por dentro do bairro, sigo. Quando chego na Estação seguinte, Ramos Mejía, está anoitecendo.

Fico por ali, subo na passarela, fico vendo o trânsito engarrafado, os ônibus voltando cheios da capital, e indo pra ela vazios – claro né, todo mundo já ralou e volta pra casa.

Carros, comércio ambulante, as pessoas passam apressadas lá embaixo e atrás de mim, vários prédios altos de classe-média. E como pano de fundo o Sol se pondo, o céu mudando de cor, as luzes na rua começam a se destacar….

Região de classe média-alta. Mas eis a típica arquitetura argentina, porta direto na rua.

Fico ali uns minutinhos, parado, sozinho, quase que em meditação, sendo Um com o Criador. E agradeço a Ele/Ela pela chance de conhecer mais um país. Quase Zen.

……

Desço as escadas, é realmente uma queda de dimensão. A Argentina está em caos, muitas obras ao mesmo tempo. A estação de trem está em obras, muitos tapumes.

Tudo confuso, cartazes indicam onde é o embarque provisório. Mas é difícil entender, ando de um lado pro outro, vou, volto, até sacar o lance. E não é só porque eu sou turista. Os próprios locais também se atrapalham. Uma moça, argentina, dali mesmo, me pergunta onde entra na estação.

Essa pichação também é em Nunhes. com essa fechamos a sequência nesse bairro da Z/N. Até a virada do milênio Buenos Ares quase não tinha pichações, exceto de torcidas de futebol e políticas. Agora surgiu um pouco, nesse estilo que vê aí. Mas infinitamente menos que no Brasil. Na Argentina não se picham prédios inteiros, andar por andar, nem os telhados de comércios.

Explico: “é o que estou tentando entender também”. Ela opina “deve ser por ali”, no fim achamos a bilheteria.

Pego o trem, volto pro Centro. Está encerrada a Saga na Zona Oeste. Não há porque ficar circulando por ali a noite, especialmente quando as ruas ficam mais vazias.

Primeiro, a noite já não dá mesmo pra ver tanta coisa. Segundo, é uma ‘zona vermelha’ da cidade, se é que me entendes. É disso que falarei agora.

..

Não fui a parte mais ‘quente’ da Z/O. Não por medo. De dia, eu entro em qualquer quebrada, em qualquer favela. Em Buenos Aires mesmo entrei nas duas piores favelas da cidade, no Centro e Zona Sul, as Vilas 31 e 21, respectivamente.

A crise está brava! Na periferia a frota da Argentina parece a de Cuba.

Na Zona Oeste não fui ao pior pedaço dela porque faltou tempo, realmente. De dia teria ido. Mas não fui. Deixa eu contar onde é:

Na própria Cidadela, um pouco mais ao norte, está o Conjunto ‘Exército dos Andes’. Mas todos conhecem como…o “Forte Apache”.

Onde Tévez criado, como já dito. Essa informação saiu na mídia a época. O ‘Forte’ é um lugar cujo apenas a menção do nome já provoca arrepios a burguesia portenha.

Aqui e a direita: Forte Apache, Cidadela, Z/Oeste.

Notam pelas fotos, tem um projeto arquitetônico singular, futurista. Parece um ‘Blade Runner’, um ‘Mad Max’.

Torres de diferentes tamanhos, as mais altas se conectam pelo alto por passarelas.

Só nessa imagem vemos duas carcaças de carros, cemitério de metal ao ar livre.

Mas o pior está embaixo. Não há coleta de lixo regular no local.

Pela quantia de moradores, o caminhão tinha que passar todo dia, óbvio. Mas não passa. O lixo se acumula na rua.

Muitas carcaças de carros abandonados estão desovadas nas imediações (bem, pilhas de lixo eu não vi pela Argentina. Mas carcaças de carro, é pela periferia inteira).

Essa é entre Palermo e Recoleta, também Zona Norte mas perto do Centro. Notam o céu muitas vezes azul, não? Buenos Aires é fria no outono, muito mais que no Pampa/Chaco (interior argentino e Paraguai). Estávamos lá em março, a noite esfriava. Mas no verão a capital é um forno. Quem pode escapa pro litoral, especialmente pra cidade de Mar do Prata.

Parece que estamos nos lugares mais desgraçados da África, Sul da Ásia e América Central.

Aí de vez em quando (semanalmente? Quinzenalmente?) passa um caminhão e recolhe.

E não tem porque ser assim. O Forte não é uma favela, é um conjunto. Digo, há uma invasão numa das faces dele.

Mas não é por causa disso. O lixo na rua não é o da favela.

Pois a favela está só de um lado, e o lixo se acumula por todas as partes do Forte Apache, em todas as suas faces.

O Forte não é uma favela. Mas de tão mal-cuidado acaba parecendo uma. E um lugar perigoso, também.

Em março de 17, quando estive na Argentina, li (e fotografei) um jornal que dizia: “Uma onda que cresce – sequestraram 5 pessoas em 15 dias na Capital Federal”.

Dizia a notícia que os sequestros são no bairro Liniers e imediações, esse que acabamos de descrever. Sempre nas proximidades da Auto-Pista, pra facilitar a fuga.

E arrematava: “a polícia já sabe que a quadrilha tem sua base no conjunto Forte Apache, na Cidadela.” Precisa dizer mais? Por isso essa parte da Zona Oeste é chamada lá de “Velho-Oeste Selvagem”. Porque é bangue-bangue.

Favela da Vila 31, bem no Centrão – atrás os arranha-céus que a burguesia trabalha, um fica vendo o outro.

Verdade, a violência urbana na Argentina é bem menor que no Brasil. Mas Buenos Aires é uma cidade violenta. Menos que aqui? Sim, acabei de dizer.

Não há lá as mega-chacinas do tráfico, como em nossa pátria há aos montes. Nas favelas e periferias de Buenos Aires matam muita gente, mas só no varejo:

Um num dia, dois no outro, na semana sequinte mais um. 10 a 20 de uma vez, só no Brasil, Colômbia, México, África do Sul, esses lugares mais ‘civilizados’.

Ainda assim, Buenos Aires está violenta. Bem mais do que era lá até duas décadas atrás. Bem mais, sem comparação possível. Até pouco antes da virada do milênio, assaltos a mão armada aconteciam mas eram raros. Latrocínios (matar pra roubar) praticamente inexistente, um a cada muitos meses no máximo.

Daqui até o final: periferia da Zona Sul de Buenos Aires, tanto municipal quanto metropolitana (são áreas próximas, basta cruzar o Riachuelo).

Agora a chapa tá quente de verdade. O ‘paco’ (uma droga pior que o craque, existe também em Brasília-DF e na Amazônia com o nome de merla) chegou com tudo.

Destroçando as favelas e periferias. Fez um arregaço.

Não 2 dígitos de uma vez só como no Brasil, mas as favelas e quebradas portenhas (Capital Federal) e bonarenses (Província) também estão desovando cadáveres em ritmo alto.

Hoje não é mais seguro andar a pé a noite no Centro e bairros ricos, como um dia foi. E os latrocínios se tornaram corriqueiros, não comovem mais, exceto a família da vítima.

Próximas 3: Avellaneda, região metropolitana. Essa e a próxima no entorno do campo do Racing, com direito a a pichação de campanha política do clube.

Buenos Aires mudou muito. Uma pena. Mas é a realidade deles agora, que conhecemos bem aqui.

………..

Promessa é dívida. Por que o título, “o Número da Besta”?

No meu último dia em Buenos Aires, fui conhecer a Feirinha de Artesanato de São Telmo. Parecida com a do Largo da Ordem em Curitiba, pra quem conhece.

Almoçamos num restaurante ‘descolado’. Comida boa, ambiente aconchegante. Mas bem caro. Por isso estava vazio. E….não aceita cartão, como é o padrão na Argentina.

Aqui em frente ao estádio mesmo.

Tivemos que desembolsar uma boa quantia, e em efetivo.

Apesar da conta salgada, foi um almoço agradável. O local é todo decorado com quadros, os pratos são gostosos.

E tudo regado ao bom e velho ‘rock’n roll’.

Já na hora de ir embora (e eu estava me despedindo da cidade também, lembre-se) fui dar uma volta, ver os quadros.

Ainda Avellaneda, que se desenvolve bastante. Prédio de bom padrão e altura sendo erguido.

Começou a tocar essa música, “Number of the Beast” do ‘Iron Maiden’. Entrei em transe.

Parece que tive um ‘despertar’, como os místicos contam. Tudo se encaixou, entende?

Foi a trilha sonora perfeita do momento. Deu um estalo em minha Alma. Pronto, associei pela Eternidade essa música a Buenos Aires.

Sempre que volto lá (pelo ‘Google Mapas’) puxo ela como pano de fundo. A cidade e a canção agora são um e o mesmo.

Buenos Aires É o Número da Besta!

Outros conjuntos novo subindo.

Está dito. Cada um que interprete como quiser porque fiz essa associação de maneira tão indelével.

..

Que Deus Ilumine a todos.

Ele/Ela proverá

Anúncios

Encontro das Águas

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de janeiro de 2018

Mais um Maurílio soldado.

Dessa vez, soldado do Exército Paraguaio.

Ele está na ‘Tríplice Fronteira’:

Obviamente onde Brasil, Paraguai e Argentina se encontram.

ANOITECE EM COLOMBO: essa imagem não se relaciona com o texto. Já fiz uma matéria, como muitas fotos, mostrando o Pôr-do-Sol no Jardim Monza, em Colombo, Zona Norte da Grande Curitiba. Então agora uma versão em desenho, na qual esse humilde Mensageiro foi incluído. A Caminhada Continua: Maurílio no Jardim Monza (ou quem sabe um pouco mais a oeste, no Jd. Osasco, perto do Roça Grande). Em frente a uma casa de madeira, numa periferia do Sul do Brasil: também já retratei uma Marília adolescente na mesma situação, alias ela e suas 2 irmãs.

Vide a placa acima da manchete – ela foi clicada no lado brasileiro.

Como Maurílio é paraguaio, mais que isso um militar paraguaio, está desse lado da divisa, guardando sua nação.

Ao fundo dele, a direita vemos nossa Pátria Amada, e a esquerda a Argentina.

Retratei Foz do Iguaçu. Não a cidade, mas sim o aspecto geográfico que a nomeia:

O Rio entre o centro e a direita na imagem (no meio das duas partes em verde) é o Iguaçu, que em seu trecho final divide o Brasil da Argentina.

Já o Rio na parte debaixo do desenho (entre a porção cinza e as verdes) é o Paraná, que a montante do Iguaçu divide Brasil e Paraguai, e a jusante desse ponto Argentina e Paraguai.

Um “Encontro das Águas”: o Iguaçu é o maior rio do Paraná – nasce em Curitiba, e logo em seu início já absorve o maior Rio de Curitiba, que é claro o Belém.

E aqui na capital do estado nomeia justamente o palácio da sede do governo. Depois cruza todo território paranaense.

Vamos ver destaques da Tríplice Fronteira. Aqui e na próxima a ‘Ponte da Amizade’ Brasil/Paraguai, a construção nos anos 60.

E após isso chega ao fim de sua epopeia, e se dissolve no Rio Paraná, que apropriadamente nomeia o estado.

E ali as 3 nações-irmãs americanas também têm seu encontro. Por conta disso, em cada uma delas há o Marco das 3 fronteiras que vemos acima.

Todos em suas respectivas margens, juntos formam um triângulo. Amplie a imagem a esquerda pra ver melhor o que vou descrever abaixo.

Não é preciso legendar a imagem, o obelisco de cada país obviamente ostentas as respectivas cores nacionais:

O brasileiro verde-&-amarelo, o argentino azul claro e branco, e o paraguaio tricolor, azul escuro, branco e vermelho.

Os obeliscos brasileiro e argentino são idênticos, em forma de cunha, e foram inaugurados em 1902.

Foz abriga Itaipu, que já foi a maior usina hidrelétrica do mundo, também na fronteira Brasil/Paraguai.

O paraguaio é bem mais recente, de 1961, e diferente: além de retangular, tem o nome da nação num apêndice.

Na tomada do tótem argentino (no canto inferior esquerdo ainda da mesma colagem) vemos ao fundo os prédios do Centro da Cidade do Leste, Paraguai.

E dentro do Rio as balsas que ligam a Argentina ao Paraguai. Entre esses dois países ainda não há ponte, vejam vocês.

Até novembro de 1985 ali também era a balsa Argentina/Brasil. Pois foi quando a ponte (chamada “da Fraternidade”) que liga esses países foi inaugurada.

Cheguei a cruzar essa balsa Porto Iguaçu/Foz do Iguaçu, nesse exato ano de 85, poucos meses antes da ponte ser entregue.

Já a ponte Brasil/Paraguai (a “da Amizade”), é bem anterior, de 1965.

Numa nota brasileira vemos as Cataratas do Iguaçu, na fronteira Brasil/Argentina.

Portanto o Obelisco Paraguaio das 3 Fronteiras foi feito enquanto a ponte estava em obras.

O Marco do lado paraguaio é bem mais novo, repetindo. Em compensação nunca foi reformado.

Já os Obeliscos Brasileiro e Argentino foram reformados, mudaram o piso e fizeram outras melhorias.

Vemos isso claramente no lado brasileiro. Até o começo dessa década já existia o tótem, mas era só isso.

Em foto do sítio DBP Buss, uma jardineira na cidade argentina de Porto Iguaçu. A região tem transgenias busófilas curiosas…

Você podia se encostar e mesmo abraçar o monumento, e alguns faziam isso.

Era num ponto afastado do Centro de Foz do Iguaçu, sem nenhuma infra-estrutura de apoio ao turista.

Logo, pouquíssimas pessoas iam até o local, não havia atrativos além do tótem em si.

Agora, claro que ele continua no mesmo lugar, mas foi todo reformulado:

Construíram um laguinho incluso com iluminação noturna.

O soldado Maurílio. Já que o tema é esse, Pôr-do-Sol num Quartel do Exército Paraguaio que fotografei na capital Assunção, 2013.

Portanto ninguém mais pode chegar a pé até o monumento de cimento.

E ao redor fizeram estacionamento, restaurante, e um museu da colonização imitando uma missão jesuítica espanhola.

Afinal o estado argentino que faz divisa com Brasil e Paraguai é justamente as Missões.

Agora o Marco das 3 Fronteiras do lado brasileiro é uma atração turística de verdade.

Assim os guias de viagem passaram a incluí-lo em seus roteiros.

………

Encontro das Águas, Encontro das Nações Irmãs em Amizade e Fraternidade: 

Assim é Foz do Iguaçu, Porto Iguaçu e Cidade do Leste, a “Tríplice Fronteira”.

“Deus proverá”

Linha pintada no ‘Micro’ colorido; 3 cidades com troleibus; bom metrô e trem; poucos articulados e corredores: o Transporte na Argentina

Argentina (r): Meca do Tróleibus na Am. Latina – são 3 cidades, aqui um ex-Canadá em Mendonça.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de novembro de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’ de ‘rede’, como visto ao lado.

Vamos falar da rede de transportes da Argentina.

De bate-pronto vamos dar um resumo da situação, depois vamos desenvolvendo.

Aqui e acima da manchete: Buenos Aires não tem tróleibus. Mas os ônibus a dísel são multi-coloridos, com itinerário pintado na lataria (igual a Lima).

Buenos Aires:

Excelente rede de trens suburbanos, uma dos melhores do mundo;

Metrô (um dos primeiros do planeta, 6 décadas antes do Brasil) razoável.

Atende boa parte da Capital Federal (‘CABA’, Cid. Autônoma de Bs. As.).

Mas essa é apenas a Zona Central da cidade que é a Grande Buenos Aires (‘Conurbado’), tendo menos de 20% da população.

Metrô de B. Aires, um dos 1ºs do mundo.

O metrô, por ser municipal, não entra na região metropolitana (‘AMBA’, Área Metrop. De Bs. As., que lá é em outro estado, a Província de Bs. As.).

Como sabem, na Argentina os estados são denominados ‘províncias’.

Logo, a periferia da capital é conhecida simplesmente como ‘A Província’. Nela vivem mais de 80% da população da Grande Buenos Aires.

Trem suburbano na Z/N da capital.

Essa imensa maioria não têm acesso ao metrô exceto via baldeação, portanto pagando duas vezes;

Ônibus: não há terminais e nem integração, seja física ou digital. Pouquíssimos articulados.

Não há padronização de pintura, os busos (lá chamados ‘micros’) são em pintura livre, com o itinerário pintado na lataria (o que também ocorre em Lima-Peru).

Corredor de ônibus MetroBus na Av. 9 de Julho, Centro de B. Aires. Não há integração.

Rede de corredores (chamada ‘MetroBus’) razoável, 50 km. Demorou muito pra ser implantada, apenas em 2011.

Portanto somente 6 anos quando o texto sobe pro ar em 17. Mas estão tirando o atraso, em expansão constante;

No sistema municipal e nas linhas metropolitanas que ligam o Centro ao subúrbio, todos os ônibus são de 3 portas e motor traseiro.

Bonde moderno em Mendonça.

Na periferia (as linhas internas metropolitanas que não entram na Cap. Federal), entretanto, vemos veículos de 2 portas e/ou motor dianteiro.

As linhas são conhecidas pelo número, e não pelo nome. Alguns busões alias só tem o nº no letreiro.

Esse também é o padrão na Itália, Paraguai e no Brasil no Rio de Janeiro e Santos-SP. Há outros países e cidades que isso ocorre, mas de cabeça me lembro desses.

‘Antes/Depois’ (r): as composições que rodam em Mendonça vieram usadas da fronteira EUA/México. Aqui vemos uma delas em ação no Hemisfério Norte.

Um dia houve tróleibus em Buenos Aires, mas não mais a muito. Em compensação no interior há 3 redes. O que faz com que a Argentina seja o país da América Latina com mais cidades contando com ônibus elétricos.

E o 2º da América, só atrás dos EUA que tem 4. No Brasil são 2 cidades: Grande SP e Santos. 3 sistemas, pois em SP há o municipal e o metropolitano. De volta a Argentina:

Córdoba (maior cidade do interior, e a mais importante, em termos políticos e econômicos):

Tróleibus: são apenas 3 linhas, exclusivamente com Mulheres ao volante.

Próximas 2: Tróleis em Mendonça. Da mesma leva ex-Canadá que o que vemos na 1ª foto da matéria, no alto da página. Agora eles foram repintados em apenas uma cor, não há mais nada escrito na lateral.

É uma viação estatal municipal, que também opera alguns ônibus a dísel.

A política é ter um quadro funcional 100% do sexo feminino como condutoras.

São as únicas motoristas Mulheres que vi na Argentina, incluindo elétrico e a combustão de carbono.

Nos ônibus particulares de Córdoba, Mendonça e Buenos Aires só vi Homens guiando.

E os tróleibus de Mendonça (dir.), que também são estatais, igualmente são dirigidos pelo sexo masculino. A capital Buenos Aires não tem viação pública.

A traseira. Nos detalhes: avisos no interior bi-língues em inglês e francês (apesar que Vancuver é Costa Oeste, não fala francês). E um cartaz que fotografei no Centro protestava contra a privatização.

Voltando aos tróleis de Córdoba, as motoristas são Mulheres, mas o acesso é livre a passageiros de ambos os sexos.

No México ocorre o contrário: há ônibus que só Mulheres podem utilizar (Homens com menos de 12 anos ou mais de 65, entre essas idades somente deficientes).

Mas a maioria dos motoristas dos ‘ônibus rosas’ mexicanos são Homens, alguns são guiados por Mulheres, mas são poucos.

Ônibus: não há pintura padronizada, corredores ou terminais, nem integração seja física ou temporal.

Articulado em Mendonça (viação Maipu). Proporcional a população, essa é a cidade com mais ‘sanfonados’ na Argentina.

A maioria dos ônibus contam com 3 portas, mas existem vários com 2.

Em Córdoba há mais articulados que em Buenos Aires, proporcional a população.

Como no Brasil e ao contrário de Buenos Aires, o itinerário não vem pintado na lataria.

No entanto, como na capital as linhas são mais conhecidas pelo número que pelo nome. Alguns ônibus de Córdoba igualmente só trazem o número no letreiro.

Moderno ônibus (viação Trapiche) de Mendonça, até com letreiro eletrônico. Mas tem somente 2 portas.

Pequena rede de trens suburbanos, apenas 1 linha. O detalhe lamentável é que a parte mais urbana esteja cancelada em 2017.

Pois estavam ocorrendo constantes apedrejamentos na favela chamada ‘Vila de Náilon’.

Antes o trem saía de uma estação bem central em Córdoba, parava numa outra ainda dentro desse município mas já na periferia.

Veja o canal pra escoar água dos Andes, típico de Mendonça (viação Maipu).

E dali seguia pra algumas cidades que são no interior do estado (‘província’) de Córdoba.

Não são mais região metropolitana, mas ficam próximas a capital.

Agora o trem já parte da estação da periferia rumo ao interior, não faz mais o pega urbano dentro da capital pra evitar o trecho problemático.

Digo, relato o que era verdade quando estive ali em março de 2017. Na ocasião a Argentina enfrentava dolorosa agonia política.

Próximas 3: trem suburbano de Córdoba.

Que se refletia nessa situação de normalização de apedrejamento do transporte coletivo, como já detalhei melhor na postagem ligada em vermelho acima.

Pode ser que quando você estiver lendo essas linhas a situação tenha sido normalizada. Faço votos pra que assim seja.

Tristeza: por constantes apedrejamentos eliminaram um trecho da linha.

Mendonça (4ª maior cidade argentina, 3ª do interior depois de Córdoba e Rosário):

Bonde moderno, implantado num antigo ramal de trens de carga. Funciona bem, um meio rápido, barato e não-poluente de ligar o Centro a populosos subúrbios da Zona Sul.

Detalhe: as composições foram importadas usadas da fronteira EUA/México. Antigamente operavam na linha que liga a Grande São Diego (Califórnia) a Tijuana.

Grades na janela pra evitar que o motorista seja atingido por pedras. Na África do Sul do ‘apartheid’ era assim, mas hoje não mais.

Presenciei em Mendonça uma que o letreiro não havia sido mudado, infelizmente não pude fotografar.

Tróleibus de uma viação estatal. Ao contrário de Córdoba, dirigidos por Homens. São 6 linhas, e o sistema passa por expansão e modernização.

Em 2013 foi inaugurada uma longa linha, de 13 km. E no ano seguinte outra, essa mais curta, até a universidade.

Articulado de Córdoba.

Alguns tróleibus são ex-Vancúver, Canadá. Os da linha 4 pra Dorrego, que foram os que eu andei e fotografei, se enquadram nesse caso.

Assim vemos que essa é uma tradição mendoncina, importar da América do Norte os veículos de seu transporte elétrico.

Também Córdoba, mesma viação. Na Argentina as linhas são conhecidas pelo nº, esse sequer tem o nome no letreiro.

Até recentemente havia também tróleis russos e alemães, esse últimos eram mais curtos e trucados (tribus, ou seja 3 eixos).

Não tenho certeza quanto aos russos, mas os tróleis alemães não circulam mais em Mendonça.

Já estão fora de serviço, flagrei vários deles sendo desmontados.

Eram vendidos como sucata num desmanche de beira de estrada na entrada da cidade, mas não deu tempo fotografar.

Tróleibus em Córdoba. São só 3 linhas, denominadas ‘A’, ‘B’ e ‘C. Viação estatal.

Em compensação, chegou uma nova leva de tróleis, e esses de fabricação argentina mesmo, ademais gerou empregos e tecnologia nacionais.

Ônibus: mesma situação do resto do país, sem terminais, integração ou padronização de pintura. Como em Córdoba, não há corredores, mas tampouco o itinerário é pintado na lataria.

O ponto negativo de Mendonça é que ali a maioria dos ônibus é motor na frente e de 2 portas, os de 3 são exceção.

Em compensação Mendonça é a cidade da Argentina com mais articulados, proporcional a população.

Todos os tróleis de Córdoba têm Mulheres ao volante.

Em Mendonça (ao menos nos a dísel) o número principal que você vê no letreiro não é o da linha, mas ‘tronco’, ou seja, da avenida principal que várias linhas pegam.

A linha mesmo vem num letreiro menor no para-brisas. Exemplificando é mais fácil entender, vide a tomada abaixo a direita.

Ali escrevi ‘corredor’, mas não no sentido de canaleta exclusiva, porque elas não existem no interior da Argentina.

‘Corredor’ aqui é no sentido usado na Rep. Dominicana, o eixo, a avenida principal que a linha passa (dado que um dia também foi mostrado em Belo Horizonte-MG).

 Mendonça (por isso 2 portas): o nº no letreiro maior é o tronco. A linha vem no letreiro menor, no vidro (Viação Avelar).

………

Rosário é a 3ª maior cidade argentina, a 2ª do interior após Córdoba.

E em termos de relevância política ambas disputam palmo-a-palmo quem tem mais influência.

Agora, como detalhe curioso aponto que no futebol Rosário é disparado o maior polo após a capital.

Rede de trens da Gde. Buenos Aires. Em vermelho a divisa entre a Cap. Federal (‘CABA’) e a ‘Província’ (‘AMBA’, a região metropolitana). Note que os próximos 2 mapas só mostram a ‘CABA’, ou seja dentro da linha rubra.

Das 132 edições de seu campeonato de futebol (quase sempre 2 por ano) Buenos Aires e seus subúrbios venceram 122.

Apenas 10 foram pro interior, e todas pra Rosário. Ademais, Buenos Aires (incluindo subúrbios) ganhou todas as 24 Libertadores da Argentina.

Somente em 2 vezes o interior da Argentina chegou a final da Libertadores, e as duas vezes foi novamente Rosário.

Escrevi tudo isso pra colocar que se nos campos político, econômico e cultural a rivalidade entre Córdoba e Rosário é intensa, no futebol não há comparação possível.

Esse esporte na Argentina se concentra 90% na capital. Do pouco que sobra pro interior, Rosário fica com praticamente tudo.

Rede de metrô.

Em termos nacionais Córdoba é praticamente irrelevante, e em Mendonça e demais cidades então os times só têm qualquer importância a nível local.

Já fiz matéria específica sobre o futebol, onde dou todos os detalhes, ricamente ilustrado.

Aqui só fiz esse adendo pra mostrar que nessa dimensão – que é a própria Alma da Argentina! – Rosário é o orgulho do interior:

Corredores de ônibus MetroBus.

A única cidade que faz alguma frente ao gigante que é Buenos Aires. Então voltando ao transporte, que é nosso tema atual.

Rosário também tem tróleibus. Incluso alguns ex-Belo Horizonte. Digo, eles foram produzidos e inclusive pintados pra rodar na capital mineira, mas não chegou a acontecer.

Ficaram anos parados num depósito, até que foram exportados pra Argentina. Já contei essa história outro dia, com muitas fotos.

Como não tive a oportunidade de ir a Rosário, não posso detalhar como funciona sua rede de ônibus, faço apenas esse adendo que lá também há veículos elétricos.

………

TETRA-MODAL: a favela Vila 31, no Centrão de B. Aires, fica atrás das estações de trem e ônibus, e pertinho do aeroporto e porto. Consegui numa tomada enquadrar o 4 modais (na África do Sul foram 3).

Como é sabido, essa vizinha nação teve seu período de glória na primeira metade do século 20.

Nessa época era considerada (ao lado do vizinho Uruguai) uma ilha europeia no oceano latino-americano.

Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, a Argentina entrou num novo ciclo, enfrentando severa decadência em várias dimensões:

Econômica, política, cultural, etc. O que a nivelou a mesma frequência dos demais vizinhos da América do Sul.

Veja bem: não estou dizendo que a Argentina está pior que o Brasil. Não.

Buenos Aires, o buso brilha refletindo o Sol. Linha 17, que eu cliquei as 17 horas do dia 17, que alinhamento, não? Pro que nos importa aqui, no itinerário pintado na lata vemos que ele passa pelo corredor MetroBus.

Diria que os dois países estão mais ou menos no mesmo nível, há pontos em que estamos a frente deles, e outros em que eles estão mais evoluídos.

A questão é que por um século, do fim do século 19 até a década de 80 do 20, não havia qualquer comparação possível.

A Argentina estava então milênios-luz a frente do Brasil, especialmente na coesão social.

Esse não é mais o caso. Repito, não estou afirmando que a Argentina é o pior país da América Latina ou mesmo do Sul. Mas está muito longe de ser o melhor.

Na Argentina os busos não têm catraca ou cobrador, você encosta o cartão na máquina (mas não há a evasão rampante do Chile). Falar nesse país trans-andino, tanto as chilenas como as argentinas a-d-o-r-a-m cachecóis e echarpes, como nota!

Indubitavelmente, houve uma queda de patamar. Agora estamos todos no mesmo barco, se quiser colocar assim.

Não por outro motivo denominei a série que retrata a Argentina como “Ascensão & Queda”.

Na Abertura da Série, que tem exatamente esse título, já tracei um panorama mais geral, multi-dimensional.

No tema de hoje, vamos nos focar especificamente nos transportes, que obviamente também seguem o que delineei acima

Já escrevi antes: o metrô de Buenos Aires (abreviada ‘Bs. As.’) é de 1913. Um dos mais antigos do mundo.

O de Londres-Inglaterra foi eletrificado (e portanto a partir daí considerado metrô) em 1890. O de Paris-França é de 1900, Nova Iorque-EUA inaugurou o seu em 1904.

A tomada anterior foi feita em Mendonça. Portanto a bela argentina de echarpe encosta na catraca eletrônica o cartão abaixo a esquerda. Vemos também os de Córdoba (no interior ambos se chamam ‘Red Bus’) e de B. Aires (‘Sube’).

Assim vemos que o metrô da capital argentina é apenas 13 anos mais novo que o da capital francesa, e veio menos de uma década depois da principal cidade estadunidense. 

Mais: o metrô de Buenos Aires (lá chamado ‘subte’, diminutivo de ‘subterrâneo’) foi o 1º de todo Hemisfério Sul, o 1º de toda América Latina.

E, se tudo fosse pouco, o 1º de um país de língua espanhola, pois mesmo o de Madri-Espanha chegou 6 anos depois dele.

O metrô de Lisboa-Portugal, que também é Europa Ocidental, só foi rodar em 1959.

Catraca de B. Aires pede que se ‘informe o destino’. Atrás os protestos que sacudiram o país no começo de 2017, mesmo tarde da noite eles seguiam.

Hoje a China tem os dois maiores sistemas de metrô do mundo, nas suas capitais política e econômica Pequim e Xangai.

Entretanto o metrô de Pequim é de 1965, e o de Xangai ainda mais novo, entrou em operação bem recentemente, em 1993.

Já que estamos na Ásia, Tóquio-Japão fez o seu em 1927, e o de Seul-Coreia do Sul é de 1974.

Hoje esses dois sistemas são infinitamente maiores que os de Buenos Aires.

Mas os portenhos contaram com esse conforto 14 anos antes que os japoneses, e 61 anos antes dos coreanos.

Há razões pra protestar: a Argentina está depauperada, e na periferia sua frota parece a de Cuba. Daqui pra baixo vamos combinar  o seguinte: quando a foto for no interior eu informo. Se não disser nada é em Buenos Aires, como é o caso aqui.

Somente no mesmo ano de 1974 o Brasil passou a contar com esse modal, quando São Paulo inaugurou sua primeira linha.

No México D.F. em 1969, pouquíssimo antes de SP e muitíssimo depois de Bs. As. .

O primeiro e até agora único metrô da Colômbia, o de Medelím, data de apenas 1995.

Assim fica evidente o passado glorioso da Argentina:

Muito próxima na Linha do Tempo de Londres, Nova Iorque e Paris, e a frente mesmo de Madri (a ex-colônia superou sua antiga metrópole). E décadas e décadas a frente de Portugal, Brasil, México, China e Colômbia.

Os táxis na Argentina oscilam entre o preto e o amarelo.

No entanto essa não é mais a situação do país, exatamente o oposto sendo verdadeiro.”

Modelo na primeira metade do século 20, a Argentina estagnou na segunda metade, marasmo que adentrou a 1ª metade do século 21.

O Brasil passou por ampla onda de modernização do transporte a partir da virada pros anos 80, processo ainda em andamento.

Depois dos anos 90, a América Latina nos acompanhou nessa vibração:

Por exemplo, Santiago do Chile foi a 1ª cidade hispano-americana a padronizar a pintura dos ônibus, em 1992 – foi a saudosa ‘Febre Amarela‘.

Centro de Buenos Aires: a chilena Metalpar tem boa fatia do mercado de carrocerias argentino.

Medelím inaugurou seu metrô no meio dessa mesma década, e depois expandiu-o via modal teleférico a morros inacessíveis a engenharia convencional.

Até os menores países países da América Central (tanto continentais quanto insulares, o Caribe) investiram pesado no ramo, fazendo metrô e modernizando os ônibus.

E a Argentina permanecia adormecida. Até o fim da década passada (o texto é de 17) já existia metrô e trem em Buenos Aires, óbvio.

Próximas 3: Retiro, Centrão de B. Aires. Ali é o ‘ponto zero’ da malha de transportes. Nessa foto a estação de trens (suburbanos e longa distância). A frente um buso da linha 115.

Mas a rede de ônibus da cidade se parecia muito com a de Assunção-Paraguai.

(Nota: não estou falando por preconceito. Estive no Paraguai em 2013, e constatei que a época ‘não haviam trem, metrô, corredores, articulados ou integração;

Mas haviam muitas jardineiras‘ [aqueles ônibus encarroçados em chassi de caminhão, com motor a frente].

E tampouco falo com desprezo. Ao contrário, Eu Amo o Paraguai, e agradeço muito a oportunidade que a Vida me deu de ter ido a sua capital.

Cruzando a rua está o Terminal Central (não-inegrado) de ônibus urbanos.

Além de várias vezes já ter visitado a Cidade do Leste, sua maior metrópole do interior.

Ainda assim, fatos são fatos. O Paraguai ainda não investiu na modernização do transporte. Haviam em 2013 planos de fazê-lo, e espero que tenham saído do papel.

Na quadra seguinte a Rodoviária.

Mas quando estive lá retratei a situação como a vi, e era essa.)

Pois bem. Em 2010 boa parte da América Latina, do Chile a Colômbia, Venezuela, Peru, México, América Central, já contava com modernos articulados que iam por canaletas exclusivas, com embarque em nível.

E em Buenos Aires . . ., bom já não haviam mais jardineiras, é certo.

Transição: a Argentina está mudando o emplacamento , a esq. o novo modelo.

Essas um dia foram oni-presentes na Argentina, mas nesse milênio já haviam sido eliminadas da capital (no fundão do interior ainda haviam alguns ‘heróis da resistência’).

Mas de resto, o sistema de ônibus da capital da Argentina se assemelhava muito a da capital do Paraguai:

Bi-trens são comuns no país (o Mercedes maior foi clicado chegando em Mendonça, os brancos do detalhe não tenho certeza).

Sem padronização de pintura, integração, corredores, terminais ou articulados. Ao menos, já tardiamente, nessa década houve um despertar.

Foi inaugurado o primeiro corredor – chamado ‘MetroBus’ como na Cidade do México e várias outras metrópoles pelo planeta.

Tróleibus na Argentina, em verde ativos, vermelho um dia existiu. A fonte é a Wikipédia.

E há alguns articulados. Muito poucos. Tão poucos que nem consegui fotografar.

Eles existem, sim, mas são raros, grosseiramente insuficientes pra uma megalópole de 12 milhões de pessoas.

Vi mais articulados na Zona Oeste de Buenos Aires. No corredor que leva ao bairro Liniers, na divisa de município, passaram alguns sanfonados.

Infelizmente nesse dia minha câmera estava sem bateria e não consegui registrar.

Mas no Centro de Buenos Aires, por exemplo, não passam articulados. E nem na maior parte da cidade.

Tróleibus em Rosário (r). Mas a linha é Venda Nova (BH-MG)???? Que ‘Tabela Trocada‘, hein? Nessa outra mensagem eu mostro toda linha do tempo dessa safra, de BH pra Rosário.

Fiquei 4 dias rodando com máquina na mão, e não deu certo clicar – e o motivo é esse, são muito poucos.

Ademais, no corredor os pontos não têm plataformas nem catracas. Ou seja, não há embarque em nível nem pré-pago – portanto não existe integração.

Simplesmente criaram uma pista exclusiva pros ônibus normais, curtos e de piso baixo, pararem.

Claro que houve vantagens, agora os coletivos não pegam congestionamentos nos trechos das grandes avenidas que têm MetroBus, e eles estão sendo ampliados.

Colagem mostra dezenas de busos urbanos de Buenos Aires. A maioria das marcas Agrale ou Mercedes-Benz.

Mas ainda é pouco. É preciso hierarquizar as linhas em troncais e alimentadoras.

Do Centro até alguns pontos-chaves em várias partes da cidade, as linhas precisam ser feitas por articulados que tenham corredores exclusivos em todo trajeto.

E desses pontos pras vilas, aí sim os ônibus pequenos podem continuar operando como alimentadores. Se houver a integração no cartão não há a necessidade de construção de terminais físicos.

Esse modelo é usado no mundo todo, do Brasil ao México, Guatemala, Indonésia, Turquia, China, até a Colômbia e Chile, pra citar apenas alguns.

A Argentina é quem ainda não despertou pra essa realidade tão óbvia. Vendo por outro lado, até somente 6 anos atrás (quando escrevo) nem o corredor não-integrado existia.

Aí era a raça mesmo, os ônibus duelando cm os automóveis nas vias entupidas do horário de pico. Se serve de consolo . . .

Já seguimos com o texto. Antes uma galeria de imagens com mais ônibus de Buenos Aires, quase sempre com a linha escrita na lataria:

Próximas 2: linha de bonde moderno abandonada no Centro de Buenos Aires.

Sobre a última foto: macaco vê, macaco imita. O nome do bairro é Palermo, mas os parvos chamam de ‘Palermo Soho’.

Porque pensam que vivem em Nova Iorque/EUA. Os macacos existem em nossa pátria também:

O Batel aqui em Ctba. é igualmente chamado ‘Batel Soho’ por alguns. Lamentável . . .

…………

Vamos falar mais alguns detalhes do que observei na minha estada na vizinha nação:

Ali crianças de mais de 3 pagam passagem. No Brasil é 6, o dobro. Diferença significativa, obviamente.

Outra plaquinha que está afixada em todos os ônibus argentinos:

“Proibido abrir as janelas no inverno ou em dias frios”.

Esse é o verdadeiro estado-babá, que trata os cidadãos como bebês incapazes, a quem tudo precisa ser dito nos mínimos detalhes.

A Linha Turismo de Córdoba é feita por um 2-andares inglês antigo – daí a porta na esquerda. Só tiraram o teto.

Oras, deixe que os próprios passageiros negociem entre si quando e quanto abrir de cada janela, não é papel do governo querer regular até isso.

………..

Nas carrocerias a chilena Metalpar tem boa fatia do mercado argentino. Isso já disse na legenda acima.

Entre os chassis, quase todos são Agrale ou Mercedes-Benz. Curioso isso, não? A Agrale é brasileira, com sede em Caxias do Sul-RS.

Hoje não existem mais ‘jardineiras‘ (ônibus em chassi de caminhão) nas grandes cidades argentinas. Mas por décadas eles reinaram absolutos. Viação de Bs. Aires relembra em adesivos o tempo que os ‘bicudinhos’ dominavam as ruas portenhas.

Mas aqui em nossa Pátria Amada quase não vemos ônibus Agrale. No entanto, em Buenos Aires eles são extremamente comuns.

Alias, no século passado era proibido a importação de ônibus pra Argentina.

Abriram uma exceção pros tróleibus Marcopolo brasileiros que iriam pra B. Horizonte, mas nunca foram.

Ficaram anos num pátio, quando foram exportados pra Rosário. Assim quebrando alguns tabus:

Foram os únicos tróleibus brasileiros a rodar no exterior, em qualquer país. Alias creio que essa situação se mantém inédita até hoje.

E segundo, por muito tempo eram os únicos ônibus brasileiros na Argentina, contando elétricos e a dísel.

Segura essa: em registro do sítio DBPBuss, uma jardineira operando na Argentina, no ano de 2009. Em Porto Iguaçu, fronteira com Brasil e Paraguai.

Essa reserva de mercado se foi. Hoje os ônibus brasileiros podem ser vendidos livremente nessa vizinha nação.

No mercado rodoviários eles são infinitamente comuns. Nos urbanos de tamanho normal existem porém são muito raros. Mas entre os micros embora longe de serem dominantes são comuns.

Eu mesmo andei (e fotografei) num micro brasileiro entre Córdoba e uma cidade do interior próxima.

……….

Na Argentina os ônibus não tem catraca física, apenas uma máquina onde você encosta o cartão pra que a passagem seja descontada.

Antiga jardineira do transporte urbano, agora transformada em uma casa-móvel.

Ainda assim, não há a evasão rampante de passagens como no Chile.

Contei com mais detalhes, incluso com fotos, quando voltei de lá: em Santiago, creio que quase um terço dos passageiros não pagam a tarifa.

Há campanhas com cartazes por toda a cidade, e também dentro dos coletivos, pra tentar diminuir essa situação, até agora sem muito sucesso.

No Chile os busos também não tem catraca, alias esse é o padrão pelo planeta, já falamos mais disso.

Linha 146 e o Banco da Nação na Pç. de Maio, Centro de Bs. As..

Na periferia da Zona Sul de Santiago, que é a parte mais ‘quente’ da cidade se é que me entendes, alguns micros alimentadores têm catraca.

E com isso a evasão se reduz significativamente, pra menos de 10%. Ainda assim, alguns jovens pulam a roleta.

………..

Não é o fato de ter ou não roleta física que determina o grau de evasão. Alias, a situação do Chile não tem paralelo com outros lugares.

Em todos os outros países que visitei, com exceção da República Dominicana nenhum outro tem roleta.

E em nenhum deles – incluindo a Argentina – há tanta gente que anda sem pagar como em Santiago.

Próximas 3: linhas especiais da Grande Buenos Aires. Todas elas fotografadas na Zona Norte (Palermo/Recoleta), a parte rica da cidade). A 57 é o ‘Expresso Palermo‘, ônibus urbano mas só 1 porta.

Mesmo no Litoral do Chile os micros não têm catraca, mas as pessoas pagam pela viagem corretamente.

Enfim. Como disse, só no Brasil e República Dominicana existe a profissão de cobrador de ônibus.

Nos demais ou a cobrança já é mesmo eletrônica (você encosta o cartão numa máquina) ou então você paga ao motorista.

……..

Hoje na Argentina é eletrônica, não se aceita mais dinheiro nos ônibus.

A 194 tem duas portas, mas também é diferenciada, com cortinas inclusive.

Mas no passado, antes da revolução digital, o usuário pagava em dinheiro, tinha que ser em moedas, e no valor correto.

O que gerava um problema seríssimo, pois se você não tinha o valor exato – em moedas de metal, repito, notas de papel não eram aceitasvocê não andava de ônibus.

Minha primeira viagem pra Argentina foi em 2017, então não presenciei essa situação lá. Mas parentes que viajaram anos atrás passaram por isso.

Essa é um ônibus de viagem, mas a linha é urbana, dentro da região metropolitana.

Antes de pegar o buso você tinha que rodar o comércio pedindo que a algum comerciante trocasse suas notas por moedas, e a maioria se recusava aliás.

Houve casos em que as pessoas tiveram que ir de táxi, pagando mais caro, pois não tinham trocado pro ônibus.

Não passei por isso na Argentina, mas no Hemisfério Norte sim. Fui a Nova Iorque/EUA em 1996. Ao lado do motorista havia um moedeiro:

Exatamente igual, você tinha que pagar a tarifa em moedas e sem sobras pois a máquina não dá troco.

Um belo fim-de-tarde no Centro de Avellaneda, Zona Sul da Grande Buenos Aires. Como em Córdoba, só há o nº da linha pintado no letreiro.

Digo, se colocasse a mais você podia viajar, mas perdia a diferença.

Já havia cartão, mas 21 anos atrás (nov.17 é quando escrevo, relembrando) mesmo nos EUA seu uso ainda era incipiente.

Depois fui ao México, em 2012. A mesma situação, havia o moedeiro, e você necessitava desembolsar o valor exato.

Guia de Buenos Aires traz além do itinerário a viação que faz os roteiros e sua pintura. Numa cidade de pintura livre em que praticamente cada linha é de uma cor, uma informação útil.

……….

A tarifa do metrô de Buenos Aires é única, independente de quanto você utiliza:

Você pode andar somente uma estação ou então percorrer uma linha inteira, fazer baldeação e a seguir andar outra linha inteira.

E tudo que há no meio desses extremos. Resumindo, tanto faz quantas estações você anda, se troca de composição ou não, paga a mesma quantia.

Mas nos ônibus e trens o preço varia conforme o trecho percorrido. Ao embarcar você diz onde vai descer, e é debitado de acordo. Isso nos ônibus.

Veja que na foto noturna em que mostro a catraca em primeiro plano e fora da janela um protesto em B. Aires, a roleta diz: “Informe destino”.

Próximo da divisa de Avellaneda com a Cap. Federal achei essa transgenia. No Brasil já flagramos caminhões que receberam cabine de ônibus. Mas na Argentina é de mão dupla: começou com um ônibus encarroçado em chassi de caminhão. No fim de sua vida útil voltou a ser caminhão! Mas mantiveram a porta do ônibus!!! Tudo vai e volta . . .

Em cima dela, se você ler com cuidado observa, um aviso explica: “Preencha o destino, e não o valor da passagem, pra não dar confusão”.

Nos trens você tem que passar o cartão tanto na entrada quanto na saída. Aí a máquina calcula quanto você percorreu, e desconta proporcionalmente do seu crédito.

Na maioria dos países a tarifa é proporcional a distância.

Nos micros e vans da Colômbia, México, Chile, nas linhas metropolitanas do México, na África do Sul em todos os modais, no metrô de Valparaíso-Chile, é sempre cobrado conforme o trecho que você utiliza.

Num dia bastante tumultuado, em que inclusive andei de camburão ao ser abordado pela polícia numa das periferias mais perigosas de Durbã/Áfr. do Sul, um dos problemas foi esse:

Ataque em Dupla: não foi apenas um, mas dois busos que viraram caminhões.

Ao descer do trem o fiscal constatou que por engano eu havia pago o valor errado da viagem, por não ter conseguido uma boa comunicação com o bilheteiro da estação central.

nos ônibus de Córdoba e Mendonça a tarifa é fixa como no Brasil.

Idem nos ônibus grandes municipais do Paraguai, Colômbia e México, nos metrôs desses últimos dois países, nos ônibus e metrôs de Santiago, na República Dominicana em todos os modais – nesses casos o valor é pré-determinado, independente do tanto que seja andado.

Em Córdoba. Palavras não são necessárias.

Bem, na Argentina, resumindo, só no metrô de Buenos Aires e nos ônibus municipais do interior é fixa.

Até nos ônibus grandes municipais da capital oscila conforme a distância.

Por falar no cartão, nas capitais da Argentina como do Chile ele te empresta o equivalente a duas viagens quando está esgotado.

Assim você vai pra casa e no dia seguinte chega a teu trabalho tranquilo.

Próximas 5, Córdoba. Aqui e a esq.: Ersa, creio ser a maior empresa. Logo 3, ‘Ataque em Bando‘. Um raro com 2 portas.

Aí tem o dia seguinte inteiro pra re-abastecer de créditos.

De forma que não precisa ficar rodando as vezes em horários e locais perigosos buscando um ponto de recarga. O Brasil deveria adotar essa solução.

……..

Em Buenos Aires todos os ônibus das linhas mais movimentadas têm 3 portas.

AuCor, Autobuses Córdoba, outra viação grande. Esse buso provavelmente é ex-Ersa, pois a pintura é a idêntica.

Apenas algumas internas do subúrbio, de uso local, ainda contam com veículos só com 2.

Em Córdoba quase todos com 3, mas ainda vemos os de 2 (a direita um deles). E Mendonça está bem pra trás, lá a regra ainda é 2, só alguns com 3.

Bem, nada é tão ruim que não possa piorar. Na África do Sul, pela herança inglesa, a imensa maioria dos busos só tem 1 porta, até 2 ocorre as vezes mas já é um luxo.

Viação Coniferal.

E 3 portas não existe exceto nos articulados. A circulação interna nos busões sul-africanos é horrorosa.

Empurra-empurra geral, e não é culpa das pessoas, afinal estão tentando entrar e sair pelo mesmo local.

Unindo então fluxo e contra fluxo. No 2-andares então é pior ainda, aquilo é um pesadelo.

Salão interno do tróleibus.

Já começa pela confusão na única porta que há – e onde o motorista ainda têm que cobrar a passagem e emitir o bilhete -, e boa parte do salão de baixo é tomado pela escada e motor.

Acrescente-se ainda a confusão na escada, onde o mesmo se repete: um espaço apertado, onde alguns querem ir num sentido, outros na mão oposta… aff!!!

Tenebroso. quando conseguimos enfim descer do 2-andares lotado no Centro de Joanesburgo foi um verdadeiro alívio. Enfim, nosso tema de hoje é a Argentina. Coloquei apenas pra traçarmos esse paralelo.

Garagem na periferia, ainda em Córdoba.

Se os busos 2 portas de Mendonça são ruins, comparados com os de 1 porta (e as vezes 2-andares) da África eles são um sonho.

Mais uma pausa pra fotos. Vimos acima busos da Ersa, AuCor e Coniferal de Córdoba. Seguimos nessa cidade, as mesmas viações.

Linha Turismo de B. Aires: também 2-andares conversível, mas esse é novo e feito na Argentina.

Um dia as jardineiras (ônibus com chassi de caminhão, o motor saltado a frente) dominaram toda América Hispânica, da Argentina e Chile ao México e tudo que há no meio.

Do Paraguai ao México, passando por Bolívia, Peru, Colômbia e toda América Central, elas ainda são muito comuns – na Colômbia e no México, presenciei pessoalmente, ainda fazem jardineiras zero km.

Próximas 2: metrô de Buenos Aires. Aqui a entrada na calçada, uma escada, parece Nova Iorque.

Mas na Argentina, Chile e Uruguai elas já não existem mais nas grandes cidades desde os anos 90.

Nos fundões do interior ainda encontrávamos algumas até pouquíssimo tempo atrás.

Em Porto Iguaçu (no estado argentino das Missões, na fronteira com Foz do Iguaçu/Brasil e Cidade do Leste/Paraguai) vi pessoalmente no ano de 2006 as jardineiras ainda na ativa.

E um sítio de busologia, o DBPBuss, registrou a cena, nessa mesma cidade, no ano de 2009, já publiquei a foto mais pro alto da página.

Falar no Paraguai, embora ali elas ainda existam aos montes, também caminha pro fim.

No Paraguai não se compram mais jardineiras zero km, ao contrário de México e Colômbia.

Mural na estação.

Quando as últimas jardineiras esgotarem sua vida útil como transporte urbano, se acabarão nas grandes cidades do Paraguai também.

O Panamá vive exatamente esse mesmo momento de transição. Tudo na vida é cíclico, e depois da Lua Cheia vem a Minguante e a seguir a Nova.

Alias é exatamente porque um dia todos os ônibus foram jardineiras que em Buenos Aires ônibus urbano é conhecido como ‘micro’.

Próximas 2: a viação municipal de Córdoba que opera os tróleis tem alguns a dísel (também guiados por Mulheres) como ‘frota reserva’. Circulam nos horários de pico, ou quando um elétrico quebra (veja o destaque da próxima imagem).

Pois as jardineiras são mais curtas que os ônibus normais, que já eram usados no modal de viagem, por exemplo.

Como os ônibus urbanos eram de tamanho menor, viraram simplesmente ‘os micros’.

Hoje não é mais assim. Atualmente os ônibus de Buenos Aires são iguais aos do Brasil. 

Incluso no comprimento. Mas o nome ‘micro’ ficou, refletindo essa fase do passado.

Em Acapulco-México, os ônibus urbanos são conhecidos como ‘caminhões’.

E o motivo é o mesmo, porque as jardineiras são construídas sobre e têm o motor de caminhão saltado a frente.

……………

TRENS MODERNOS E BARATOS – Um dos pontos extremamente positivos do transporte na Argentina é sua rede de trens.

Lá, ao contrário do Brasil, as pessoas ainda viajam sobre trilhos entre uma cidade e outra. É confortável e barato.

Garagem dos tróleis na periferia de Córdoba. Repare que na Argentina os ônibus elétricos não têm placa – em várias cidades do Brasil foi assim também por décadas, mas hoje não mais.

Tentei ter essa experiência, mas não foi possível por questões de escala, os dias que há as viagens (que não são diárias) não batiam com nossa programação. 

Assim fui de Buenos Aires a Mendonça, dali a Córdoba, e de volta a capital sempre de ônibus-leito.

Alias, já falo dos trens. Antes um adendo: andar de leito na Argentina é um luxo só, é como a 1ª classe dos aviões.

Nessa vizinha nação está consagrado o ‘serviço-cama’, que agora chegou no Brasil.

Ônibus suburbano (2 portas e vai parando no caminho, mas pega estrada pra ir pra cidades já fora da reg. metropolitana) na Rodoviária de Córdoba – essa é a rodoviária normal, de onde saem também os de longa distância.

As poltronas reclinam 180º, você deita na horizontal.

Há rodo-moça (em alguns casos rodo-moço), que serve café-da-manhã completo, temos a opção de leite com café, chocolate, chá ou – estamos no Pampa afinal! – chimarrão.

Pra me ambientar com o local, eu tomei chimarrão. Ademais na tela você pode ouvir música, ver filmes ou jogar.

A viagem passa rápido, eu disse, você se sente no avião. É caro, de fato, mas bom demais!

‘Rodoviária Suburbana’: bem no Centrão de Córdoba, e dali só partem linhas suburbanas (fotografei uma igual no Chile). Um micro é Comil brasileiro. Nessa foto encerramos os ônibus da cidade de Córdoba.

Em compensação, no banheiro você só pode urinar. Se precisar do ‘número 2’, é preciso avisar a rodo-moça (o), que o motorista encosta num posto. No Chile é exatamente igual.

……

Acima descrevi como é viajar de ônibus-leito, que fiz 3 vezes. Não pude andar de trem.

Mas quem o fez me disse que igualmente vale muito a pena.

Pra começar, é incrivelmente barato. Há 3 opções, o ‘toco-duro’, a ‘tudo-incluso’ e uma intermediária.

Rodoviária de Cosquín e imediações. Uma pequena cidade no interior do estado de Córdoba, próxima a capital. Vemos ônibus suburbanos, alguns das mesmas empresas já retratadas acima.

O ‘toco-duro’ é desconfortável, você tem que dormir e comer na poltrona, como nos ônibus convencionais.

Em compensação o valor é irrisório. Pra quem está sem grana ou quando a viagem for de dia é a melhor opção.

No ‘tudo-incluso’, você tem direito a uma poltrona pra ficar sentado durante o dia, a noite dorme numa cama – num vagão que tem quartos com beliche.

E as refeições são no vagão-restaurante. Esse colega me informou que tudo isso sai pelo mesmo valor do ônibus.

Como comparação, no Brasil há pouquíssimas opções de trem de longa distância disponíveis, e custam os olhos da cara.

Aqui em Curitiba, por exemplo, só é possível ir de trem a Paranaguá e outras cidades próximas no Litoral.

Mas é bem mais caro que o ônibus, que já não é barato.

……….

Já que estamos em Cosquín, essa é a estação de trens da cidade.

Ademais, vide o mapa mais pro alto na página, a rede de trens suburbanos de Buenos Aires é muito extensa.

Assim, você pode ir do Centro de Buenos Aires a alguns bairros dentro do município mesmo. Ou a municípios da região metropolitana.

Ou ainda a cidades do interior, que são próximas a capital mas já fora da Grande Buenos Aires.

Por exemplo, a ‘Cidade da Prata’ (‘La Plata’ no original). Essa é a capital do estado (‘província’) de Buenos Aires.

De volta a cidade de Córdoba, a capital do estado, dessa florida estação na periferia saem os trens pra Cosquín. Fui de trem e voltei de busão.

Como já explicamos antes, o município de B. Aires é o Distrito Federal: está dentro do estado de B. Aires, mas não pertence a ele.

Antigamente conhecida como ‘Capital Federal’, hoje chamada ‘CABA’, Cid. Autônoma de Bs. As., recapitulando, e o ‘Autônoma’ é justamente porque não está vinculada a nenhum estado.

Como já foi dito várias vezes e é notório, o município ‘autônomo’ de Bs. As. hoje é apenas a Região Central da metrópole.

Toda periferia fica na ‘Província’, ou seja, em outro estado, a Província de Buenos Aires. Cuja capital é a ‘Cidade da Prata’.

Essa alias foi planejada justamente pra isso, pra ser a capital estadual quando o Distrito Federal foi criado, no fim do século 19.

Próximas 2: Rodoviária do Retiro, Buenos Aires, belo fim-de-tarde de março de 17.

A ‘Cidade da Prata’ (‘La Plata’) fica a 55 km de Buenos Aires. Perto da capital, mas uma cidade a parte, não pertence a Gde. Buenos Aires.

Digo, futebolisticamente falando eu arrendondei e considerei a Cid. da Prata como um subúrbio da capital.

No século passado, quase todas as viações argentinas eram assim, multi-coloridas. Não mais, após uma reformulação agora são mais sóbrias. Essa manteve a vibração anterior.

No futebol sim, mas urbanística e socialmente falando a Prata é uma cidade a parte.

Ainda assim, é possível ir de trem suburbano (aqueles em que os bancos são de acrílico e você pode viajar em pé) até lá.

Bem mais barato que o ônibus, embora um pouco mais lento porque tem mais paradas.

Colagem com ônibus de viagem argentinos.

Ainda assim, como a distância é pequena a diferença de preço compensa os poucos minutos a mais.

Não pude ir a Cidade da Prata. Assim como nos trens de longa distância, reproduzo o que me foi passado por quem pôde realizar esse deslocamento.

………..

Viram na foto a ‘Estação Retiro’ de trens. Esse bairro, que fica na verdade no Centrão da capital, é o ponto focal da rede de transportes da Argentina, de forma tetra-modal:

Ali estão as estações de trens suburbanos e longa distância, o porto, o terminal de ônibus urbano e a rodoviária (várias das tomadas acima são ali).

Centro de Córdoba, março de 2017: caminhonete circula normalmente com um emplacamento que já foi extinto a 20 anos. Como é possível??

O aeroporto também fica próximo.

E no em uma parte invadida do pátio ferroviário (cada vez maior) está a favela Vila 31, uma das maiores da cidade – mas essa já é outra história.

Eu já disse isso, que todos os terminais estão concentrados no Retiro ou próximos a ele.

Aqui, o que quero colocar é que ‘Retiro’ é tão sinônimo de ‘rodoviária de Buenos Aires’ que é assim que vem escrito nas passagens e no letreiro dos ônibus de viagem.

Sim, você compra o bilhete, e nele não está escrito ‘Buenos Aires‘, a cidade a qual o ônibus se destina.

Próximas 3: bonde moderno de Mendonça. Aqui a galera no ponto. Não há catraca, você paga quando entra, depois o fiscal chega de surpresa e pede seu tíquete pra verificar.

E sim ‘Retiro‘, o bairro no qual a rodoviária fica localizada.

Portanto veem que virou um mantra, que ‘pegou’ não apenas no vocabulário da capital, mas até no interior.

…….

Como a colagem deixa claro, os táxis na Argentina oscilam entre o negro e o amarelo.

Em Buenos Aires é exatamente igual Santiago do Chile, corpo do carro negro e teto amarelo.

Um antigo vagão de carga virou ponto.

Isso no municipal da capital. Na região metropolitana cada município é livre pra escolher sua pintura.

Em Avellaneda, na Zona Sul, a terra do Independente e do Racing, eles são brancos.

Em Mendonça são as mesmas cores da capital, amarelo e preto, mas em mistura diferente. E Córdoba aboliu o preto, são inteiros dourados.

Mapa da rede.

Não custa lembrar, no Paraguai e Colômbia os táxis do país inteiro são amarelos, de todas as cidades.

De volta a Argentina e a Córdoba, apenas os táxis que você pega na rua são amarelos.

O tele-táxi, obviamente o que você pede por telefone, lá se chama ‘remí’.

E o mais curioso: tem outra cor, verde-claro. Todos são táxis. Acenando na rua é de uma cor, e discando, de outra

………

Já retomamos o texto. Vamos comentar um pouco das fotos que estamos vendo de Mendonça.

Fui a Z/S de Mendonça de bonde moderno, voltei nessa linha feita por articulados.Viação Cacique.

Acima pontos e mapa do bonde moderno, e a direita o articulado. Ambos os modais concorrem entre si.

Nas próximas 2 imagens abaixo vemos a Rodoviária de Mendonça.

……….

Voltamos a relatar o que observei lá: a Argentina está mudando o emplacamento.

Como dito, nas próximas 2 a Rodoviária de Mendonça. Em meio a ônibus de viagem um suburbano azul prepara-se pra encostar. A direita vários suburbanos, uma colagem.

Eu já havia percebido isso antes de ir até lá. Em fevereiro de 17, fui a Florianópolis-SC.

Na Praia de Canasvieiras (Norte da Ilha) haviam tantos argentinos que ali mesmo eu vi carros com o nova chapa.

Na Argentina nos últimos 20 anos, do fim dos anos 90 pra cá, vigora um modelo com 3 letras e 3 dígitos numéricos.

A partir de agora a chapa terá uma faixa azul em cima com o nome do país.

E serão mais letras, inclusive dizem que se quiser você poderá dispensar o números e escrever uma palavra.

Já é dessa maneira nos EUA e México, entre outros, como é domínio público.

Vila Carlos Paz, cidade no interior do estado de Córdoba parecida com Campos do Jordão-SP.

Não apenas na Argentina. Será padronizado em todo Merco-Sul.

Veremos no fim da matéria que o Uruguai também já está fazendo a mudança.

Mas o choque vem agora. Vi vários carros circulando na Argentina com o emplacamento que já foi abolido a duas décadas:

Selos de regulamentação colados na lataria.

A chapa era inteira preta, com 1 letra e 6 dígitos numéricos.

Não havia nada escrito além disso, nem o nome do país nem da cidade.

Os mais velhos, que tiveram a oportunidade de ir a Argentina até o começo dos anos 90 (ou, o que nesse caso dá no mesmo, pra Florianópolis no verão) se lembram bem.

Próximas 2: bairro Nunhes (‘Monumental de Nuñez‘), Z/N, parte rica de Buenos Aires. Aqui o corredor MetroBus.

Então, amigos. Esse modelo já foi extinto na virada do milênio, quem sabe antes.

Como esses carros podem circular dessa forma é um mistério que não pude compreender.

Afinal, nem há como multar um veículo desses se o motorista cometer uma barbeiragem.

Pois sequer há como digitar a chapa no maquinário eletrônico próprio pra registro da infração.

É como se víssemos hoje no Brasil um carro andando pelas ruas ainda com a chapa amarela, aquela de 2 letras, que foi aposentada na mesma época.

Perto dali, a estação de trens. O destino é ‘Tigre’ (na África do Sul não daria pra saber, lá o letreiro é numérico).

Impossível, não? Mas na Argentina vi vários, muitos deles consegui fotografar.

Sim, alguns estavam sendo sucateados, talvez não andem mais.

Na Argentina é comum deixar os carros batidos ou muito velhos simplesmente se decompondo na via pública, sem levar pro ferro-velho como seria correto.

Já falarei mais desse ponto. Aqui, o que nos interessa é:

Pontos de ônibus pelo país.

Mas alguns carros com o emplacamento antigo, já encerrado há 2 décadas, estavam rodando normalmente.

Vi um em Mendonça, inclusive estava sendo reformado.

No estado de Córdoba, todos os veículos comerciais (exceto ônibus municipais) têm que ter uma segunda chapa com registro estadual.

Portanto o dono estava usando ele normalmente, e pretendia continuar, pois investia dinheiro no veículo.

Infelizmente esse não pude fotografar, nesse dia mais uma vez minha câmera estava descarregada (ela viciou a bateria, perdi algumas fotos por isso infelizmente).

Mas Deus Abençoou, e no Centro de Córdoba fotografei claramente uma antiga picape D-20 Ford com essa chapa há muito desatualizada.

Ali sem qualquer margem pra discussão o veículo estava em uso.

Mais um bi-trem.

Mesmo com o emplacamento pra lá de irregular, e a foto comprova isso indubitavelmente.

Como isso é possível deixo pra algum amigo argentino explicar.

Bem, a Argentina está bem caótica, em múltiplas dimensões.

Isso é só um sintoma dessa confusão que engolfou a nação.

……….

Por outro lado nas dificuldades é que as pessoas se revelam.

Enquanto alguns aproveitam o tumulto pra tirar vantagens pra si, outros demonstram uma disposição incomum em ajudar os outros.

Mercedes com desnível no vidro: esse modelo foi muito vendido lá.

Usando o transporte coletivo na Argentina, vimos os dois lados da moeda.

O ponto negativo: na Argentina simplesmente não respeitam o banco pra deficientes, idoso, grávidas e gestantes. Veja a imagem acima:

Banco preferencial está sempre ocupado, e sempre por pessoas jovens e saudáveis.

Na foto inferior da colagem, há duas moças a direita no banco preferencial.

Mas o casal a esquerda está na mesma situação, a primeira fileira perto da porta é reservada.

Próximas 2: corredor MetroBus em frente ao estádio do S. Lourenço (torcedores chegam pro jogo sob muita chuva). A placa indica quais as linhas que passam ali.

Na Argentina não respeitam esse direito de quem necessita.

Sim, fiquei poucos dias lá, menos de 2 semanas. Mas andando de transporte coletivo o tempo todo.

A situação era sempre a mesma. Não muito diferente do Brasil, na verdade.

Em qualquer parte há ‘espíritos de porco’:

Aqueles que não se importam com ninguém, e sentam no assento preferencial sem necessitar.

Mesmo adolescentes e jovens adultos não sentem a menor cerimônia em ficar confortavelmente instalados enquanto quem precisa vai de pé.

Filma as jóias que circulam na Argentina. Aqui e a esq. são 2 Falcões, o próximo mesmo batido ao menos está bem conservado. Já esse . . .

…….

Por outro lado, em Mendonça o motorista do ônibus foi extremamente atencioso e prestativo conosco.

Nosso cartão não tinha créditos suficientes pra pagar a viagem.

Em Buenos Aires nesse caso o cartão te empresta o suficiente pra mais 2 viagens, mas pelo visto o interior ainda não aderiu a essa melhoria.

Assim sendo o motorista, que também é o cobrador, pelo regulamento poderia ter solicitado que a gente desembarcasse.

Carregasse o cartão, assim seguindo somente em outro ônibus.

Colagem com a Viação STM, Sociedade de Transportes de Mendonça.

Mas ele não fez isso. Ao contrário, nos explicou a situação.

Disse que seria preciso que outro passageiro creditasse no cartão dele.

E aí nos reembolsávamos em dinheiro a quem fizesse o favor.

Aí ele, o próprio motorista, fez o pedido a quem entrou a seguir.

A frota argentina está velha e sucateada. Dodge na Z/S da capital, sob o olhar de ‘Che’ Guevara.

Pagamos em espécie a passagem ao passageiro que regularizou a situação na catraca digital.

E pudemos voltar ao Centro de Mendonça com tranquilidade.

Na África do Sul esse nível de gentileza é o padrão do povo.

Trólei-tribus alemão que rodou em Mendonça (r) (foto de um Guevara. Parente do ‘Che’?).

Registro aqui que na Argentina deparamos com ele também.

…………

Em Mar do Prata é onde os portenhos passam suas férias de verão.

(Nota: me refiro claro aqueles que não vem pro Brasil, evidente – porque Baln. Camboriú e Florianópolis/SC eles dominaram, como se sabe).

Em desmanche próximo a Mendonça, vários ônibus Ciferal que há pouco ainda rodavam lá. No ferro-velho ao lado eu vi as carcaças os tróleibus-tribus alemães da foto anterior.

No original é ‘Mar del Plata’ (sabem que sempre que possível traduzo pro idioma português).

Por isso conhecida carinhosamente pelo apelido de ‘Mardel’.

Não visitei ‘Mardel’, portanto não a conheço pra poder escrever.

Mas pro tema que nos interessa aqui, que é o transporte, vi pela internet que Mar do Prata tem uma Linha Turismo.

E essa é feita por um ônibus que tem a carroceria que imita a de um bonde antigo (foto ao lado, puxada da internet).

Em Santos-SP há bondes antigos (e também modernos, o VLT), que foram restaurados e ainda rodam sobre trilhos.

Na Argentina, entretanto, não há bondes antigos. Inclusive veja a foto um pouco mais abaixo a direita que tirei no Centro de Buenos Aires, mostra os trilhos.

Comprovando que um dia ali realmente passou bonde (registrei a mesma cena em Assunção e Belém do Pará).

Um dia sim, mas não mais a muito. Em Mar do Prata tampouco há bondes.

Mas numa brincadeira, encarroçaram um ônibus a dísel e com pneus com uma carroceria de bondes. Isso já falamos.

O Ford Falcão na foi o ‘Carro do Terror’ na ditadura argentina (r).

Por conta disso ele traz uma inscrição pretenciosa:

Se auto-denomina “O Último Bonde”. Isso não é novidade, já está no ar a tempos em outra postagem.

Pois bem. O de ‘Mardel’ não é o último pseudo-bonde da Argentina. Em Mendonça há outros iguais, veja acima.

É o seguinte: Mendonça também tem sua Linha Turismo. Chama-se ‘Bonde das Compras’.

Falcão no Centro de B. Aires, sobre os trilhos onde um dia passaram bondes.

Pois igualmente é feita por ônibus com carrocerias de bondes antigos.

Esses eu pude ver e fotografar pessoalmente, apenas não andei nele.

……..

Outra seção de fotos. Já que falamos de Mendonça, vejamos mais busos dessa cidade andina.

UMA ‘ALMA MUSICAL’: IR A ARGENTINA FOI COMO VOLTAR AO MÉXICO –

Na Argentina eu comprovei como a Alma Hispano-Americana é a mesma, do Sul ao Norte do Continente

Quando fui ao México, em 2012, já havia lhes contado como o mexicano ama a música.

O tempo todo dentro do transporte coletivo há apresentações improvisadas.

Umas profissionais até com caixas de som e após a qual CD’s são vendidos.

Outras vezes um cara sozinho com um violão.

Buenos Aires: acima a linha 373, em azul a Viação São Vicente.

Andar de ônibus ou metrô no México jamais será monótono.

Pois bem. Na Argentina é igual. Acima consegui clicar o garoto com o violão no metrô de B. Aires. A cena se repetiu várias vezes.

Uma apresentação-solo, um casal cantando música romântica, ou mesmo uma banda completa.

Os vagões e estações do metrô da capital são um palco aberto a todos, basta tomar um espacinho e mandar ver.

No Chile é assim também, mas bem menos. Na Argentina e México infinitamente mais.

………

Calamidade! Na Argentina a frota está velha e batida. Ademais, é comum deixarem os carros que não servem mais (seja por acidente ou porque são antigos demais) simplesmente apodrecendo na rua, sem recolher ao pátio ou ferro-velho.

Vimos mais pra cima a esquerda um buso Mercedes (já aposentado do serviço regular) com desnível no vidro.

Esse detalhe é comum na Ásia (Japão), Na Argentina foi consagrado nesse modelo da Mercedes fabricado nos anos 80 e 90.

Meus parentes que foram pra lá perto da virada do milênio me trouxeram inúmeras fotos dos busos com esse desenho (na época) em linhas urbanas.

O tempo passou e hoje eles só fazem ‘escolar’, ‘rural’, transporte de bandas, etc.

………

Os caminhões bi-trem são muito comuns na Argentina.

Mas atenção: nesse vizinho país não existem os caminhões gigantescos com 30 metros e 2 engates, como os que se popularizaram no Brasil.

Explico: nas estradas de nossa Pátria Amada é careta e bi-trem, ambos ao mesmo tempo.

Ou seja: cavalo-mecânico, 1º engate, um compartimento grande de carga, 2º engate, outro compartimento grande de carga.

O LIXO DA FRANÇA É O LUXO DA ARGENTINA: É comum vermos nas ruas argentinas essas peruas (Citroën, Renault ou Fiat) fabricadas nos anos 60. Mas essa é ainda mais antiga, dos anos 50 (era nessa que Mafalda andava, veja um pouco abaixo).

Em outras palavras, são duas carretas grandes puxadas por um cavalo. Portanto 2 engates.

Na Argentina é diferente: é somente 1 engate sempre, 2 não existe.

Os caminhões são carreta ou bi-trem, jamais ambos ao mesmo tempo.

Lá ou é carreta normal, cavalo, um engate mais um somente compartimento grande de carga;

Ou então um caminhão pitoco, curto, um engate, e mais um compartimento de carga.

Carreta sem ser bi-trem, ou bi-trem sem ser carreta. É preciso escolher.

No Brasil é ‘tudo ao mesmo tempo agora’, carreta/bi-trem.

…………

Como dito na legenda um pouco acima e é notório: o Ford Falcão foi o ‘carro do terror’ da ditadura argentina.

É comum nas periferias da Argentina vermos carros amarrados, pra que não se desmanchem.

Ele não tinha ‘caçapa’, ou seja, não havia espaço pra presos.

Os infelizes que eram apanhados pela polícia política argentina iam pra delegacia (ou pro local de desova, se já estivessem mortos) no porta-malas.

Alias era por isso que o Falcão foi escolhido. Os militares diziam que ‘apertando cabiam 5 no porta-malas’.

Pensa que é brincadeira? Então segura aí.

Cruel? Evidente que sim. A ditadura argentina foi indescritivelmente cruel, muito, mas muito pior que a brasileira.

Tanto que lá houveram formas de tortura desconhecidas aqui, por isso Videla foi alcunhado ‘Pol Pot na América’. Desse período macabro já nos ocupamos outro dia.

Esse (na Zona Sul de Buenos Aires) botou até cadeado! Sempre é bom garantir . . . No México, um da mesma idade pôs cadeado no tanque, pra não roubarem o dísel.

Aqui o foco é o ramo do transporte. Ford é a marca-ícone da Argentina, a mais vendida da história.

Seu carro-chefe (literalmente) era o Falcão, que lá foi produzido por décadas, pelo menos dos anos 50 aos 70, e quem sabe até os 80.

Portanto o Falcão já era popular antes do golpe de estado de 1976. E permanece querido até hoje, apesar de ter sido impregnado com o estigma da repressão.

Bem, pra quem é de direita o Falcão é popular exatamente por ter sido o carro da ditadura, e não ‘apesar’ disso.

colapso: a frota da argentina parece a de cuba!!!!

o lixo da frança é mesmo o luxo da argentina: caros velhos e batidos circulando, outros apodrecendo na via pública

A Argentina empobreceu muito nessas últimas décadas, e sua frota reflete isso.

Os pais da Mafalda (ícone argentino) tinham uma peruinha Citroën 2CV, veja ao lado.

Agora pense nisso: esse desenho é dos anos 80, e o carro já era velho na época.

Colagem mostra o estado da frota argentina. Achei outros com a placa antiga, já aposentada a 2 décadas.

Alguns deles continuam na ativa hoje, 30 anos depois (veja o farol saltado, igual aquele vermelho que está um pouco acima a direita).

Mas atenção: a Argentina hoje é um país extremamente desigual.

Vão longe os tempos em que ela tinha o 2º menor Índice de Gini (que mede a concentração de renda) da América Latina, só acima do Uruguai.

Hoje a Argentina é tão desigual quanto Brasil e Colômbia:

Alguns multi-milionários de um lado, uma multidão que sobrevive apenas, e uma massa considerável de miseráveis, que nem isso conseguem.

Exemplo perfeito é o Porto Madeiro, o mais novo bairro de Buenos Aires, que surgiu na virada do milênio.

Falarei melhor dele em outro texto, mas aqui, pra dar uma adiantada, falo que um fato pouco conhecido é a favela que existe na ponta da ilha.

Precariedade: em Córdoba, pessoas sem proteção viajando na caçamba.

Atrás daqueles arranha-céus dos riquíssimos existe uma aglomeração de barracos miserável, sem saneamento básico.

Quase ninguém vê, e menos gente ainda se importa.

Isso reflete como está o país como um todo. Na dimensão automotiva o mesmo se manifesta, uma extrema desigualdade.

Muitos fazem o turismo ‘convencional’ da classe-média, indo apenas nos bairros chiques.

O Fiat 147 lá se chamou ‘Spazio’. Mais uma vez amarrado pra não cair o para-choques. Veja que na 2ª imagem da tomada do outro lado da rua há mais carros Fiat velhos.

Oscilando somente entre o aeroporto, hotel de luxo, centros de compras, museus, e restaurantes e ‘baladas’ caros.

Eu não julgo ninguém, e não estou criticando. Cada um faça o que quiser. Mas aí evidente que não verá o que estou apontando.

Pois na burguesia a frota argentina não difere da brasileira, em idade e estado de conservação.

Mas na periferia são brutalmente diferentes. Sim, claro que existem carros velhos no Brasil. Mas o nosso ‘velho’ são 20 e poucos anos, veículos produzidos nos anos 90.

São raros em nossas ruas automóveis dos anos 80, dos 70 já são são ‘elefantes brancos’ que vemos um a cada vários meses.

E não existem rodando no Brasil carros fabricados nos anos 60 e muito menos 50 – exceto nas mãos de colecionadores, aí são caríssimos, geralmente até com chapa preta.

Na Argentina, os carros ‘velhos’ tem o dobro dos nossos, ou mais: 40, 50 ou mesmo 60 anos. Sim, é isso.

Antigo e moderno: Dodge nas ruas de Porto Madeiro.

Nessa vizinha nação automóvel dos anos 80 já é relativamente novo nas periferias mais depauperadas, os dos anos 70 são o padrão, ainda são extremamente comuns os dos anos 60.

Não estou brincando nem exagerando. Já havia constatado isso assim que o ‘Google Mapas’ levantou a Argentina pro modo ‘visão de rua’.

Aí dei extensas voltas por lá, na época virtualmente, na tela do computador.

E então já escrevi-lhes um emeio com esse título, “Colapso, a frota da Argentina parece a de Cuba”, com muitas imagens.

Agora ‘in loco’ comprovei que de fato é assim, então aquele emeio será eliminado, não vou subí-lo pra página. Pois não é mais necessário, tirei as fotos ao vivo. 

Essa foto é no continente, com Porto Madeiro ao fundo. Mercedes e Scania. A frota argentina de caminhões é similar a brasileira, só no geral bem mais velha.

Não para por aí: levantei pro ar uma comparação entre Europa Ocidental e América do Sul em outra postagem.

Lá, eu mostrei que ‘o lixo da França é o luxo da Colômbia’.

Peruas Citroën e Renault dos anos 60 e 70, que na França literalmente foram partidas ao meio e servem apenas como decoração na Colômbia ainda rodam.

Pois bem. Nas periferias das cidades da Argentina essas mesmas peruas produzidas nas décadas de 60 ainda são o meio de transporte de várias famílias proletárias.

Tanto as duas marcas francesas citadas logo acima quanto uma italiana, Fiat. A esquerda uma Citroën (a foto está nomeada ‘Renault’ por ignorância minha, um colega retificou, vide os ‘comentários’ abaixo).

Os traços da Fiat eram mais arredondados e somente com 2 portas.

Em casos extremos carros até dos anos 50 igualmente ainda estão na rua. Cara, isso você não vê no Brasil, nem em sonhos. Fatos são fatos,  e aqui corroborados pelas fotos. Fiquei menos de duas semanas da Argentina.

E nesse curto intervalo fotografei várias peruinhas com mais de 50 anos ainda em circulação, agrupei algumas numa colagem ao lado

Repito, isso no Brasil não existe. Mesmo! Não custa enfatizar ainda mais uma vez:

Na Argentina as vezes vemos ainda veículos dos anos 50 – e não nas mãos de colecionadores burgueses, mas do povão, como meio de transporte.

Mais: como já dito nas legendas, na Argentina é comum simplesmente abandonarem na via pública os automóveis que não servem mais.

Seja porque enfim decidiram que está velho demais – aleluia! – ou porque sofreram P.T. (perda total) num acidente feio.

É tão corriqueiro que o dono de um carro antigo que estava na oficina na periferia da Zona Sul de Buenos Aires colocou um aviso no para-brisas (ao lado):

“Esse automóvel não está abandonado, está sendo consertado”, seguido de seu endereço e telefone, se alguém precisasse entrar em contato.

Frota velha e batida, como na República Dominicana. E como em Cuba os bichões com décadas e décadas de estrada, que em qualquer outro país estariam no museu, na Argentina seguem na pista.

Definitivamente, o lixo da França é o luxo da América do Sul, da Vila Buenos Aires em Medelím/Colômbia a Buenos Aires original no Delta do Prata.

Fisicamente nossa vizinha, um dia a Argentina parecia mais europeia que americana. Esse tempo já se foi há muito.

A Argentina literalmente despencou do sonho europeu, aterrizando de cara na realidade americana.

Bem-vinda Argentina querida, estávamos te esperando.

Como eu já disse antes: definitivamente, agora estamos todos no mesmo barco.

Deus quis assim.

……..

O texto encerrou, mas como fechamento ainda tem duas galerias de fotos. Começo ainda na Argentina, 4 caminhões brancos de modelos que também existiram no Brasil:

Como prometido, sobrou uma palhinha pro Uruguai (que vemos que vibra na mesma frequência que seu vizinho maior, a Argentina). Nunca estive nesse país, mas uma colega enviou as fotos diretamente de lá.

Deus Pai e Mãe proverá.

‘Pol Pot na América’: o Genocídio Argentino, com suas ‘Escolas’ e ‘Voos da Morte’

A esquerda e os movimentos sociais querem que a ditadura militar argentina seja reconhecida oficialmente como um ‘genocídio’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de julho de 2017

Maioria das tomadas de minha autoria. O que for puxado da internet eu identifico com um (r) de ‘rede, como visto abaixo.

No intervalo de um mês, fui a Argentina e a África do Sul. Assim vamos alternando as séries sobre esses países.

Escrevi recentemente sobre o ‘Apartheid’ sul-africano. Hoje, mantendo-nos na mesma frequência, vamos falar sobre os ‘anos de chumbo’ da Argentina (1976-83).

Vamos ser bem claros aqui: não há qualquer comparação possível entre as ditaduras brasileira e argentina.

A deles foi infinitamente mais cruel. Infinitamente. Muito mais curta, somente 7 anos, contra 21 da nossa (nota: ao publicar a matéria escrevi erroneamente ’31 anos’. Perdão pela falha).

Os Encapuzados” (r): escultura de metal em frente a Esma (o ‘Dops argentino’) revela forma de tortura. Como explicado, todas as tomadas com ‘(r)’ são baixadas da internet.

Mas o regime de Rafael Videla foi muito, mas muito pior que o de Médici e seus companheiros, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, se podemos colocar assim.

A definição é: o Brasil viveu um regime autoritário, mas a Argentina passou por um genocídio.

Estima-se que a ‘guerra suja’ brasileira tenha deixado perto de mil vítimas fatais.

A maioria mortos pelos militares, mas as guerrilhas que os combatiam também assassinavam friamente seus oponentes.

Entretanto, pondere que em apenas 7 anos foram mortas 30 mil pessoas na Argentina.

Como a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a 120 mil pessoas no Brasil.

No Brasil o ‘carro do terror’ era a Veraneio. Na República Dominicana o ‘Fuscão Preto’. Na Argentina foi o Ford Falcão (r). Apesar disso, ele é muito popular e querido até hoje.

Portanto um simples cálculo nos mostra que a ditadura argentina foi nada menos que 120 vezes mais letal que a brasileira.

Não há a necessidade de se argumentar além disso, já que só idiotas discutem com números.

Da Esma (escola técnica da marinha transformada no ‘Dops argentino’) partiam os famosos ‘Voos da Morte’:

Os presos eram dopados pra ficarem inconscientes, embarcados em aviões e desmaiados atirados sobre o Delta do Rio da Prata ou sobre o mar.

Praça de Maio, epicentro político da Argentina no Centro de B. Aires.

Dezenas de corpos acabaram aparecendo boiando nas praias da Argentina e Uruguai.

Os que acabaram na costa argentina os ditadores recolheram e deram fim nos cadáveres.

Mas os mortos argentinos que foram pro Uruguai foram preservados. Posteriormente identificados, serviram como provas nos processos contra os militares.

Muitos milhares mais desapareceram pra todo sempre, dissolvidos na água e devorados por animais marinhos.

Noturna do Obelisco da 9 de Julho em B. Aires, cartão-postal-mor argentino.

De todos os que foram presos na Esma, apenas 150 foram soltos ainda vivos. Mais de 5 mil foram chacinados.

A minúscula proporção entre libertados com vida e executados nos autoriza igualar o regime de Videla ao de Pol Pot.

5 mil mortos apenas e tão somente num único centro de detenção. No país inteiro foram 30 mil.

……...

Por outro lado, se lá a repressão foi muito pior, em compensação os militares foram julgados e presos.

Menen reverteu os processos, a gestão de Nestor Kirchner os reabriu. O ditador-ícone, Jorge Rafael Videla, morreu na prisão, em 2013.

Próximas 2 (via ‘Google Mapas’): favela Vila 51, bairro de Vila Lugano, Zona Oeste, município de Buenos Aires. Também chamada ‘Cidade Oculta‘.

Já falamos do pós-ditadura. Primeiro vamos ver como foi a matança.

Não são apenas números, e só eles já são impressionantes. Mas fica pior. Muito pior.

Primeiro, o massacre foi centrado contra a juventude de classe média, especialmente na capital.

O regime militar tornou essa geração acéfala. Faça as contas. 30 mil foram sumariamente executados.

Na ditadura, Videla mandou murar a Vila 51, pra que ela ficasse oculta as vistas de quem passava pela avenida em frente, aí surgiu o apelido usado até hoje, décadas depois da queda do ‘muro da vergonha’.

Conte aí as muitas dezenas de milhares mais que foram torturados, exilados, ficaram viúvas (o), órfãos, etc.

Os ditadores eliminaram, ou no mínimo prejudicaram severamente, toda uma geração daquela que hoje é a classe dirigente nacional.

Daí nada mais natural a confusão multidimensional que engolfou a Argentina.

Primeiro, na Argentina houve o rapto sistemático dos bebês das presas políticas.

Próximas 3: estação de trem (de subúrbio) Rivadávia, bairro de Nunhez, onde fica a Esma, daí os murais lembrando a ditadura.

O que nunca ocorreu no Brasil, certamente não em escala industrial como aconteceu lá.

Segundo, após a Segunda Guerra mundial, a Argentina acolheu diversos oficiais da Alemanha nazista.

Com novos documentos, alguns desses alemães prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, se é que se pode colocar assim.

Por isso as torturas infligidas aos presos políticos na Esma e outros ‘Centros Clandestinos de Detenção’ espelhou as experiências nazistas nos campos de concentração:

Não visavam somente confissões, não visavam somente infligir dor num ato de sadismo.

Isso é universal, existiu na ditadura brasileira (e ainda existe em nossas delegacias hoje contra presos ‘comuns’).

Essa gravura é no mesmo local, a Estação Rivadávia em Nunhez. As argentinas adoram cachecóis. As chilenas idem.

As torturas na Argentina, como em Auschwitz antes disso, visavam também desumanizar o adversário.

Retirar dele ou dela qualquer réstia de dignidade, pra que ele preferisse a morte a continuar pelo suplício.

Mas o ‘tiro de misericórdia’ era negado, o tormento prosseguia, num ‘1984’ puro.

………..

A esquerda abaixo a Praça de Maio, Centro de Buenos Aires. Ao fundo a Casa Rosada, palácio presidencial.

Pintado no chão o lenço que é o símbolo das ‘Mães da Praça de Maio‘.

Grupo que montou a resistência mais efetiva a ditadura protestando nesse exato local.

Nem Videla teve coragem de prender e torturar senhoras idosas, que pacificamente apenas pediam pra saber onde estavam seus filhos.

E elas tinham razão de estarem preocupadas:

Na Argentina houve formas de torturas desconhecidas no Brasil, só praticadas nos regimes mais opressores da Ásia na época, que descreverei mais abaixo.

Cartaz na Praça de Maio conta a história do epicentro político da nação.

No ‘consciente coletivo’ brasileiro, o nome do chileno Augusto Pinochet é o símbolo dos ditadores sul-americanos.

A maioria dos brasileiros nunca ouviu falar de Jorge Rafael Videla, que cumpriu esse papel na Argentina. Mesmo o paraguaio Stroessner é mais conhecido aqui que Videla.

Um dos motivos é que quando a Argentina era ditadura o Brasil também, assim nossa mídia preferia não tocar não tocar muito nesse tema.

Fundos da Casa Rosada. Em 1º plano o Escudo Nacional que há na grade.

Pois a imprensa era censurada, e ademais a maior rede de TV era a relações-públicas dos militares.

Portanto era melhor não atirar pedras nos outros quando seu próprio telhado era de vidro.

A Argentina voltou ao regime civil em 83, o Brasil logo após em 85. O Paraguai, entretanto, só em 89, e o Chile em 90.

O governo de Sarney, a segunda metade dos anos 80, foi uma era bem confusa no Brasil, como quem tem mais de 30 lembra perfeitamente. E natural.

Centro de Buenos Aires.

Afinal recém reconquistámos os direitos de expressão e associação, mas o caos econômico e político foi total.

Assim, nesse período de catarse, a mídia exorcizava o período que esteve amarrada falando intensamente dos ditadores Pinochet e Stroessner.

Videla foi poupado dessa propaganda negativa, pois quando ele governava com mão de ferro seus colegas faziam o mesmo no Brasil.

E o departamento de censura militar é quem determinava as manchetes dos jornais.

Mapa das favelas na Grande Buenos Aires: a direita no município (cap. federal). Um similar já seguiu na postagem anterior. A esquerda, e esse é novidade, na região metropolitana.

que o regime argentino foi ainda mais letal que o chileno.

E muito, mas muito mais letal que o paraguaio.

Na ditadura Pinochet morreram cerca de 3 mil chilenos.

Dez vezes menos que na Argentina, sendo que a população do Chile é 2,5 vezes menor que a desse seu vizinho trans-andino.

‘Dom’ Alfredo Stroessner torturou e exilou muita gente no Paraguai, é certo.

Chegamos a uma Buenos Aires imersa em caos, março de 2017. Protestos fechavam a cidade inteira. Fui ao jogo São Lourenço x Atlético Paranaense. Na volta, já tarde da noite os protestos continuavam, aqui um deles. Em primeiro plano o validador onde você encosta o cartão de transporte pra descontar a passagem do ônibus.

Mas em termos de vítimas fatais, calcula-se em 400 o número de desaparecidos e executados por seu regime.

Com a população paraguaia 30 vezes menor que a nossa, e pouco menos da metade dos mortos, a taxa de letalidade é de 10 a 15 vezes maior que a nossa.

(Nota: anteriormente calculei erroneamente essa proporção, corrigido agora.)

Portanto a ditadura Stroessner, arredondando por alto a proporção de mortos em relação a população total, é bem mais violenta que a brasileira, mas menos que chilena, e incomparavelmente menos que a argentina.

Oras, em 2013 eu passei pelas ruínas de um supermercado que  9 anos antes pegou fogo na Zona Norte de Assunção. Ali morreram igualmente 400 pessoas.

Porque mesmo com as chamas consumindo o local os donos mandaram fechar as portas pra “impedir que as pessoas saíssem com produtos sem pagar”. Oras, num único dia, por ganância pra não ter prejuízos materiais, o dono dessa rede de mercados matou tanta gente quanto o governo Stroessner em 35 anos.

As famosas “Águas Vermelhas” da praça principal de Mendonça.

É evidente que nenhum Ser Humano deveria ser assassinado, e um dia vamos chegar lá. Mas convenhamos, outros ditadores foram bem mais sanguinários que ‘Dom’ Alfredo.

Stroessner rebatizou com seu nome o que na época era uma distante e desimportante cidade nos confins do interior, é certo.

Vamos falar do mais sanguinário de todos. O que dizer então do dominicano Rafael Trujillo?

Que afinal mudou o nome da capital (e na verdade única cidade grande da pátria) em sua própria homenagem??

A ditadura mais sangrenta da América certamente foram os 31 anos (1930-61) em que Trujillo comandou com mão-de-ferro, alias mão-de-aço, a Rep. Dominicana.

Um paradoxo: entre a classe média argentina predomina o materialismo (ateísmo). Mas o povo é bastante religioso. A Argentina, ao lado do México, é entre os países que já visitei o que mais têm essas capelinhas nas ruas. Essa é em Mendonça e traz ao lado da bandeira nacional as do Peru e Chile.

Foram eliminados 50 mil pessoas, 30 mil haitianos e 20 mil dominicanos. Trujillo matou mais de 1% da população dominicana.

Digo, em termos de matança Trujillo está ao lado (fisicamente e na questão dos números) de ‘Papa Doc’, no vizinho Haiti. Seu governo exterminou entre 30 a 60 mil pessoas, o que também dá mais de 1%.

A Argentina ficou em aproximadamente 0,1%, na primeira casa decimal, Chile e Paraguai oscilam entre 0,02 e 0,04%, enquanto que no Brasil a taxa é de 0,001%.

Os números são aproximados, apenas pra termos uma noção, e não seguem rigor estatístico. Mas são válidos pra compararmos.

IRONIA DA VIDA: VIDELA RECLAMA DE ‘MAUS-TRATOS’ NA PRISÃO –

Em compensação, de todos esses países a Argentina foi o único que a justiça funcionou, e os ditadores acabaram passando um tempo atrás das grades.

Aqui em Porto Madeiro, um novo bairro de elite a beira d’água que foi feito no Centro de Buenos Aires (na Cidade do Cabo/África do Sul um projeto idêntico está em implantação).

Na República Dominicana, a CIA estadunidense pôs e manteve Trujillo no poder. Mas quando não foi mais interessante, a CIA descartou-o, como ela sempre faz.

Assim Trujillo morreu no cargo, assassinado numa emboscada com armas fornecidas pela própria CIA.

No Brasil no fim de seu regime os militares passaram a ‘Anistia’, pra aqueles quem eles perseguiam, e também pra si mesmos.

Resultando que ninguém respondeu por violações de direitos humanos em nossa pátria.

Stroessner foi deposto em golpe militar, o mesmo instrumento que ele usara pra vestir a faixa presidencial foi usado contra pra retirar dele esse símbolo do poder presidencial.

Feitiço contra o feiticeiro. Mas quem assumiu no seu lugar achou que geraria menos problemas políticos exilar Stroessner que julgá-lo e aprisioná-lo.

Assim o ex-ditador paraguaio se mudou pro Brasil onde viveu seus últimos 17 anos numa vida bucólica em nossa capital, sem se incomodar com a justiça.

Nas favelas de B. Aires, a ‘cultura da laje’ (prédios artesanais que o próprio morador vai erguendo um andar por vez, sem qualquer tipo de alvará) está tão consolidada quanto no Sudeste do Brasil e Salvador/BA. Aqui vemos a favela Vila 21 (em Bs. As. elas são numeradas, como em Medelím/ Colômbia). Zona Sul, ainda no município da capital mas divisa com Avellaneda.

Pinochet foi acusado pelo juiz espanhol Baltazar Garzón pelos crimes que cometeu, e chegou a ficar 1 ano e meio em prisão domiciliar na Inglaterra.

Mas não houve como extraditá-lo pra ser julgado na Espanha por crimes de ‘lesa-humanidade’, como queria a acusação.

Resultando que em 2000 ele foi liberado pela justiça inglesa, e voltou ao Chile como um Homem livre.

Em dezembro de 2004, quando haviam pendentes contra ele mais de 300 acusações, foi posto em prisão domiciliar.

Assim viveu mais 2 anos. Em dezembro de 2006 desencarnou, sem ter sido preso ou condenado.

Na Argentina, entretanto, foi diferente. Após a volta do regime civil com Raul Alfonsín em 83 houve uma primeira tentativa de julgar os militares.

Mas na periferia de Buenos Aires fora das favelas, e no interior dentro e fora das favelas há poucas lajes. Agora que essa cultura começa a germinar. Flagrei essa na periferia de Córdoba.

Alfonsín revogou a auto-anistia que os ditadores se concederam no apagar das luzes de seu mandato, e houveram condenações na justiça.

Mas motins militares e a ameaça aberta de novo golpe de estado forçaram seu recuo. Seu sucessor Carlos Menen novamente anistiou os militares ditadores.

Depois de Menen veio Fernando de la Rúa, que foi obrigado a renunciar numa rebelião popular em dezembro de 2001.

Quando a Argentina re-assumiu a ordem constitucional, a partir de 2003  presidente foi Nestor Kirchner.

Nestor, e sua esposa Cristina que o sucedeu no cargo em 2007 e ficou até 2015, reverteram mais uma vez o rumo dos acontecimentos.

A infra-estrutura urbana na Argentina é precária. É muito comum vermos esgoto correndo a céu aberto. Aqui estou na Zona Sul do município de Buenos Aires.

Em novo giro de 180º, os ditadores foram levados mais uma vez a juízo. Rafael Videla cumpria prisão domiciliar, como ocorrera com Pinochet no Chile.

Mas em 2008 VIdela foi pro presídio, a princípio militar, depois civil. E seus advogados e família reclamaram de ‘maus-tratos’ e ‘negligência’.

Ironia, não? Um dos torturadores e exterminadores-mor do planeta se queixar que as condições da cadeia são muito duras.

Mas não teve jeito. Quando já estava a 4 anos e meio encarcerado, Videla sofreu mal súbito, e desencarnou em março de 2013.

Periferia de Córdoba, mesma cena.

Como dito, os ditadores argentinos foram os mais cruéis do continente, excetuando Trujillo e ‘Papa Doc’. Mas a justiça de seu país também foi implacável com eles.

“ESCOLAS DO TERROR”: A ESTRANHA FIXAÇÃO DOS TORTURADORES ARGENTINOS COM A ‘EDUCAÇÃO’ –

O maior centro de tortura argentino funcionou numa antiga escola técnica militar. Como é sabido, o ‘Dops argentino’ era na Esma, ‘Escola de Mecânica da Marinha’.

Hoje, funciona ali o Museu dos Direitos Humanos. A ex-Esma fica no bairro de Nunhez, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Pra falarmos de uma coisa leve, os refris na Argentina. Lá ainda existem 7Up (ao fundo um buso no bairro Palermo), Crush e Mirinda. Passo de los Toros é uma marca local que também fotografei no Paraguai. Voltando a Argentina, Talca é um clone local da Pepsi. A lata da Coca é ‘caçula’ (250 ml), mas a garrafa é maior (350 ml, contra 290 ou 300 aqui). Já no Chile a garrafa (de todas as marcas) é menor que no Brasil. A fábrica da Coca na Argentina exporta também pro Paraguai e Uruguai. Nosso Guaraná Antarctica faz sucesso na Argentina, mas no verso tem uma explicação que é um “fruto exótico” da Selva Amazônica. É fabricado pela Quilmes (cerveja mais popular da Argentina) e exportado também pra Bolívia e Uruguai.

A poucas quadras dali está o ‘Monumental de Nunhez’, pertencente ao River Plate, maior estádio do país e por isso a casa oficial da seleção argentina.

Do futebol já falamos em mensagem a parte, ricamente ilustrada. Aqui o tema é a política. Ou melhor, nesse caso o futebol interfere na política.

O golpe militar foi em março de 76. Mesmo antes dele, ainda no regime civil da primeira presidente Mulher da história da Humanidade (‘Isabelita Perón’), já estavam ocorrendo ‘desaparições’ políticas.

Mas depois que os militares assumiram o poder de fato (embora não de direito) a coisa piorou muito.

Se a Argentina já não estava calma de 68 a 76, a 2ª metade dos anos 70 foi um banho de sangue.

E, vejam vocês, quando do golpe já estava definido que o país sediaria a próxima Copa do Mundo.

Na final da Mundial de 78 o Monumental explodia em alegria pela vitória da seleção local.

A Argentina está mudando o emplacamento. A direita modelo antigo (ainda predominante em março.17), 3 letras e 3 dígitos. A esquerda o novo (há rumores que será implantado em todo Merco-Sul, Brasil incluído), com 2 letras, 3 dígitos e mais 2 letras.

E, bem perto dali, centenas de argentinos gritavam também, mas de dor nas câmaras de tortura.

Pra felicidade dos ditadores, a ‘alvi-celeste’ venceu sua primeira Copa jogando em casa (a segunda e última foi 8 anos depois, em 1986 com um Maradona endiabrado).

Voltemos a 78. Essa ‘Dieguito’ não jogou pois era muito jovem. Ainda assim a Argentina foi campeã, batendo a Holanda na final.

O êxtase que tomou conta da pátria abafou a questão política, tirando o foco e permitindo que as atrocidades seguissem.

Os gritos de ‘gol’ foram mais fortes que os que vinham dos porões dos Centros Clandestinos de Detenção, sendo que o principal deles estava bem ao lado.

Próximas 2: Porto Madeiro, Centro de Buenos Aires. Construído no antigo cais do porto.

O estádio do River Plate fica na verdade no vizinho Belgrano, mas é na divisa dos bairros, por isso o ‘Monumental de Nunhez’ na boca do povo.

Na capital o maior centro de detenção e tortura ficava em um de seus bairros mais chiques e caros.

Local elitizado, moram muitos artistas. Um deles fez essa escultura, ‘derreteu’ a base dos postes de luz.

Entretanto, na principal cidade do interior a cadeia ficava próxima mas já totalmente fora da cidade: bem-vindo a “Pérola de Córdoba”.

Se é que alguém pode ser bem-vindo a um lugar macabro desses. As margens da rodovia que leva a Carlos Paz ficava o presídio chamado de ‘A Pérola’.

Com a virada da maré e volta da democracia as prisões da ditadura foram renomeadas ‘Centro Clandestino de Detenção’ – CCD.

Tenha o título que tiver, na “Pérola” ficaram boa parte dos presos políticos do Norte do país.

Pros íntimos, Pérola era chamada de  “Universidade do Terror”. Curioso esse apelido, não? Fora o fato que a Esma era numa escola. 

Como se tortura e assassinatos fossem matérias educativas.

Fica pior. Notam a direita a placa da rodovia que indica a entrada pra ‘Pérola’ (imagens baixadas da rede) alguém escreveu ‘Volta Videla’.

E desenhou mas logo a seguir riscou o lenço das Mães da Pça. de Maio, que viram em foto mais pra cima na matéria.

Aeroparque, o aeroporto central de B. Aires. ‘Austral’ é a marca pra curtas distâncias da Aerolineas Argentinas.

É. Ainda tem gente saudosa dos ‘Voos da Morte’, e das ‘Escolas do Terror’ dos Anos de Chumbo.

…..

Disse acima que Nestor Kirchner e sua esposa Cristina são heróis da esquerda argentina.

Pois revogaram várias anistias que haviam sido auto-concedidas e depois re-concedidas por Menen aos militares por crimes na ditadura.

Após 3 mandatos dos Kirchner (1 dele e 2 dela), a direita voltou ao poder. E almejam o sonho de ver Cristina atrás das grades (dir.)

Não há como prender o marido porque Nestor já desencarnou em 2010. Mas se possível eles colocarão uma ‘esposa’ na esposa.

(Quem não conhece o idioma espanhol não entendeu o trocadilho. Nessa língua a palavra ‘esposa’ tem duplo significado.

Centro de Córdoba.

É sinônimo de ‘cônjuge’, como em português. Mas ‘esposa’ signifca também ‘algemas’. Estar ‘esposado’ é estar algemado.)

Alguns auxiliares de primeiro escalão dela já estão ‘esposados’. Lemos no jornal em março de 2017 que Cesar Milani, ex-comandante-geral do Exército no governo de Cristina, foi pro presídio.

E não apenas isso, ele está num presídio feminino. Em Ezeiza, na região metropolitana da capital (onde fica o aeroporto de mesmo nome).

A justificativa é no xadrez masculino ele seria morto. Como ele já está no pavilhão das Mulheres, o sonho da direita é que sua ex-chefe Cristina fique na cela ao lado.

Ir pra Argentina em muitos aspectos é como viajar ao passado. Vejam a chave do hotel que nos hospedamos em Córdoba. Sim, de metal.

…..

Na Argentina os presos políticos sofreram todas as formas de suplício aplicadas no Brasil (pau-de-arara, afogamento, choque elétrico). Mas muito pior que isso.

Lá houveram técnicas de tortura que não foram usadas aqui:

Os infelizes detidos em alguns pavilhões na macabra Esma eram conhecidos como ‘Os Encapuzados’.

E eis a portaria do prédio que ficamos no Centro de Buenos Aires. Na Argentina todos os interfones são desse modelo, como era o Brasil 20 anos atrás. Tem que ter uma tecla pra cada apê, se forem dois blocos o aparelho é o dobro desse. Não existe ainda interfone com teclado, em que você simplesmente digita o nº do apartamento.

O nome se deve a que eles ficavam o dia todo acorrentados na posição fetal, com grilhões nas mãos e pés, e com toucas ou vendas cobrindo-lhes os olhos.

É isso. não podiam ver nada, e nem sequer se mexerem. Reveja a segunda foto da matéria, no alto da página, que ficara claro.

Os presos ficavam em baias individuais, pra não conversarem entre si.

Eles eram libertados uns poucos minutos por dia, apenas pra ir ao banheiro, onde eram acompanhados por seus captores.

As Mulheres precisavam sentar ao vaso e banhar-se sob as vistas de seus torturadores do sexo oposto.

Afora esses poucos minutos de ‘liberdade vigiada’, vários dos Homens e Mulheres detidos na Esma passavam o dia inteiro acorrentados e encapuzados.

A ‘liberdade’ é relativa, eles apenas podiam andar um pouco por dentro da prisão, e vigiados por soldados fortemente armados.

Mas pelo menos nessa hora podiam ver e movimentar seu corpo, era o melhor momento do dia.

Centro de Córdoba: bandeiras nacional e estadual nesse belo fim-de-tarde.

Eu disse que os militares argentinos usaram padrões de crueldade asiáticos, desconhecidos na América

Na Ásia (já veremos exemplos) é corrente esse prática de manter os detentos imobilizados por longo período.

Nada nem remotamente parecido jamais existiu no Brasil. Voltemos a descrever os tormentos dos ‘encapuzados’ na Esma:

Eles permaneciam vendados mesmo na hora das refeições. Ali o marinheiro soltava brevemente os braços – mas não tirava o capuz do prisioneiro.

Ele ou ela só sabia qual era o cardápio quando punha o alimento na boca. Isso era uma tortura em si mesmo, a desumanização extrema do inimigo.

Mafalda também passa na TV, não é só quadrinhos. Um ícone na capital argentina.

Pois assim o cativo estava completamente batido.

Não tinha sequer o direito de saber o que comia, exceto quando a gororoba já descia pela goela.

Se isso te parece uma forma de punição aplicada num campo de concentração nazista, é porque é exatamente isso:

A Argentina (e também em menor escala a Bolívia e o Paraguai) recebeu centenas de oficiais e soldados da tropa da SS, fugidos da Alemanha pra escapar do Julgamento de Nuremberg.

Mais 2 da favela Vila 31, a mais famosa de Buenos Aires, bem no Centrão.

Vários desses alemães, com documentos falsos, prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, como também ocorreu nos EUA.

De volta a Argentina, basta lembrar que Adolf Eichmann vivia em Buenos Aires e trabalhava na fábrica da Ford.

Desse subúrbio da capital argentina ele foi sequestrado pelo Mossad pra ser julgado em Israel.

Josef Mengele também viveu na clandestinidade na Argentina no pós-guerra.

Enfim, de volta a Esma. Nem todos os presos eram ‘encapuzados’. Alguns mais afortunados eram obrigados a trabalhar pros militares.

Tinham que falsificar documentos (passaportes, etc) que eram usados em novas capturas de militantes.

Ou então escrever matérias pra imprensa dizendo que os exatos abusos que eles estavam sofrendo na verdade “não ocorriam, era ‘intriga da oposição’ “.

Ironia, não? Presos políticos eram obrigados a escrever que não havia presos políticos em território argentino.

Numa espécie de tortura psicológica, eram obrigados a negar sua própria existência. Bom, era melhor que ficar sem visão e acorrentado ao solo. Qualquer coisa era melhor.

……….

Na Argentina cada estado (lá chamado ‘província’) tem uma ‘embaixada no Centro da Capital Federal. Essa é a ‘embaixada’ do estado das Missões, onde há muitas casas de madeira – como no Brasil mas ao contrário das grandes metrópoles argentinas.

Alias o único fugitivo da Esma era exatamente um desses presos que trabalhavam.

Horácio Maggio, apelidado ‘Nariz’, foi sequestrado pela Marinha Argentina em 1977.

Passou um ano e um mês na Esma. Inteligente, foi cordato com seus captores, pra ganhar a confiança deles.

Assim ele era um dos que trabalhavam. Mais que isso, de vez em quando ele ou outros presos faziam serviços externos.

Sempre acompanhados por um marinheiro armado, claro. Numa dessas saídas, Horácio ‘Nariz’ se tornou a única pessoa a fugir da Esma.

As versões variam, e ele não viveu muito tempo pra contar sua história.

Córdoba: pessoas sem proteção na caçamba, cena digna da África e das partes mais pobres da América Latina.

Segundo uma das versões, ele entrou numa loja pra comprar material de escritório.

O guarda ficou na porta, pois pensou que era suficiente, não haveria como o prisioneiro escapar pois teria que passar por ali fatalmente.

O que o guarda não sabia é que a papelaria tinha outra saída do lado oposto, pra rua dos fundos.

Horácio teria se evadido por ali, se tornando então um dos Homens mais procurados da Argentina.

Tropas de elite da Marinha e outros setores das forças de segurança faziam uma caçada humana frenética recapturá-lo.

Cosquín, interior de Córdoba: família na moto, todos sem nenhum tipo de proteção.

Horácio Maggio não deixou por menos. Ao invés de sair do país, preservando assim sua vida, optou por continuar lutando contra a ditadura:

Pôs-se a escrever cartas e telefonar pra imprensa e ONG’s estrangeiras (pois as nacionais eram censuradas).

Pra denunciar a repressão argentina, que oficialmente não existia.

Nos noticiários de TV e jornais, os militares apenas combatiam dentro da lei os guerrilheiros ‘pra evitar a revolução comunista’.

Calçadão no Centro de Mendonça.

Mas os relatos de Horácio, em primeira pessoa, geraram uma repercussão negativa ao governo, afora o fato que ele já havia dado um drible nos seus carcereiros ao fugir.

‘Nariz’ resolveu mesmo ser a ‘pedra no sapato’ da Esma. De orelhões ele ligava pro centro de torturas e discutia com os marinheiros.

Dizendo que breve eles seriam julgados ‘como os nazistas foram em Nuremberg’.

Centro de Córdoba: semáforo em que o pedestre (na verdade a pedestre) é uma Mulher de vestido e cabelos compridos.

Aí se tornou questão de honra ser capturado ‘vivo ou morto’.

O regime não poupou esforços pra localizá-lo. Em outubro de 1978, sete meses depois de sua fuga, a saga de Horácio ‘Nariz’ Maggio chegou ao fim:

Um pelotão do Exército o encontrou, e cercou-o na rua. Em desespero ele pulou o muro pra uma obra.

Dali, atirava tijolos nos soldados, na tentativa de ter mais alguns minutos de vida.

A resposta veio com muitas saraivadas de metralhadoras.

Horácio tombou sem vida. Terminara a epopeia do único foragido da temida Esma.

Seu cadáver crivado de projéteis foi caravaneado pelas celas do centro de torturas.

“Macri Gato”, o mantra oni-presente da Argentina. Maurício Macri é um ‘neo-liberal’, e suas políticas concentram renda, é fato. Mas foi eleito democraticamente, e hoje não há censura, presos políticos nem ‘desaparecidos’ na Argentina. Ainda assim, a esquerda iniciou uma insurreição civil pra derrubá-lo.

……….

O número de 30 mil desaparecidos e executados pelo regime é repetido o tempo inteiro por vários movimentos sociais na Argentina.

Como até os cartazes nas ruas deixam claro. Mas, é óbvio, não deixa de ser controverso. Os setores da direita insistem que foram “apenas” 9 mil mortos.

Eu estive na Argentina em março de 2017, quando o país enfrentava uma insurreição (civil) que visa derrubar o presidente (eleito democraticamente) Maurício Macri.

O país estava em caos, como descrevi com muitas fotos na mensagem de abertura da série.

A nação está em turbilhão, a um passo de decretação do estado de emergência, veja a manchete do jornal.

A situação persiste uns meses depois, quando produzo e levanto esse texto (julho.17). Por hora voltemos a março:

Passeatas exigiam o reconhecimento consciencial do ‘Genocídio Argentino’, com a oficialização da cifra dos 30 mil cadáveres.

Questionado sobre o tema, Macri declarou: “não sei se foram 9 ou 30 mil, mas é fato que morreu muita gente”.

“Vamos virar a mesa”, eis o lema dos insurgentes. Veja, em março somando passeatas e greves gerais foram 21 protestos, quase um por dia.

Ele é político, então obviamente ficou em cima do muro, não definiu publicamente qual dos dois números ele crê ser verdade.

Maurício Macri pretende agradar a todos, ou no mínimo não desagradar nenhuma corrente, como é habitual entre as pessoas que dependem de votos pra terem emprego.

O que quero apontar aqui é que essa declaração, de um presidente no exercício do cargo, sintetiza o quão sangrenta foi a ditadura argentina.

Disparada a mais letal da América do Sul, como apontado bem acima da chilena, brasileira e paraguaia.

Uma vez que é evidente que mesmo o número otimista de 9 mil já seria 3 vezes pior que Pinochet no absoluto.

E olhe que Pinochet não matou pouca gente.