Linha pintada no ‘Micro’ colorido; 3 cidades com troleibus; bom metrô e trem; poucos articulados e corredores: o Transporte na Argentina

Argentina (r): Meca do Tróleibus na Am. Latina – são 3 cidades, aqui um ex-Canadá em Mendonça.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 5 de novembro de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. O que for baixado da internet eu identifico com um ‘(r)’ de ‘rede’, como visto ao lado.

Vamos falar da rede de transportes da Argentina.

De bate-pronto vamos dar um resumo da situação, depois vamos desenvolvendo.

Aqui e acima da manchete: Buenos Aires não tem tróleibus. Mas os ônibus a dísel são multi-coloridos, com itinerário pintado na lataria (igual a Lima).

Buenos Aires:

Excelente rede de trens suburbanos, uma dos melhores do mundo;

Metrô (um dos primeiros do planeta, 6 décadas antes do Brasil) razoável.

Atende boa parte da Capital Federal (‘CABA’, Cid. Autônoma de Bs. As.).

Mas essa é apenas a Zona Central da cidade que é a Grande Buenos Aires (‘Conurbado’), tendo menos de 20% da população.

Metrô de B. Aires, um dos 1ºs do mundo.

O metrô, por ser municipal, não entra na região metropolitana (‘AMBA’, Área Metrop. De Bs. As., que lá é em outro estado, a Província de Bs. As.).

Como sabem, na Argentina os estados são denominados ‘províncias’.

Logo, a periferia da capital é conhecida simplesmente como ‘A Província’. Nela vivem mais de 80% da população da Grande Buenos Aires.

Trem suburbano na Z/N da capital.

Essa imensa maioria não têm acesso ao metrô exceto via baldeação, portanto pagando duas vezes;

Ônibus: não há terminais e nem integração, seja física ou digital. Pouquíssimos articulados.

Não há padronização de pintura, os busos (lá chamados ‘micros’) são em pintura livre, com o itinerário pintado na lataria (o que também ocorre em Lima-Peru).

Corredor de ônibus MetroBus na Av. 9 de Julho, Centro de B. Aires. Não há integração.

Rede de corredores (chamada ‘MetroBus’) razoável, 50 km. Demorou muito pra ser implantada, apenas em 2011.

Portanto somente 6 anos quando o texto sobe pro ar em 17. Mas estão tirando o atraso, em expansão constante;

No sistema municipal e nas linhas metropolitanas que ligam o Centro ao subúrbio, todos os ônibus são de 3 portas e motor traseiro.

Bonde moderno em Mendonça.

Na periferia (as linhas internas metropolitanas que não entram na Cap. Federal), entretanto, vemos veículos de 2 portas e/ou motor dianteiro.

As linhas são conhecidas pelo número, e não pelo nome. Alguns busões alias só tem o nº no letreiro.

Esse também é o padrão na Itália, Paraguai e no Brasil no Rio de Janeiro e Santos-SP. Há outros países e cidades que isso ocorre, mas de cabeça me lembro desses.

‘Antes/Depois’ (r): as composições que rodam em Mendonça vieram usadas da fronteira EUA/México. Aqui vemos uma delas em ação no Hemisfério Norte.

Um dia houve tróleibus em Buenos Aires, mas não mais a muito. Em compensação no interior há 3 redes. O que faz com que a Argentina seja o país da América Latina com mais cidades contando com ônibus elétricos.

E o 2º da América, só atrás dos EUA que tem 4. No Brasil são 2 cidades: Grande SP e Santos. 3 sistemas, pois em SP há o municipal e o metropolitano. De volta a Argentina:

Córdoba (maior cidade do interior, e a mais importante, em termos políticos e econômicos):

Tróleibus: são apenas 3 linhas, exclusivamente com Mulheres ao volante.

Próximas 2: Tróleis em Mendonça. Da mesma leva ex-Canadá que o que vemos na 1ª foto da matéria, no alto da página. Agora eles foram repintados em apenas uma cor, não há mais nada escrito na lateral.

É uma viação estatal municipal, que também opera alguns ônibus a dísel.

A política é ter um quadro funcional 100% do sexo feminino como condutoras.

São as únicas motoristas Mulheres que vi na Argentina, incluindo elétrico e a combustão de carbono.

Nos ônibus particulares de Córdoba, Mendonça e Buenos Aires só vi Homens guiando.

E os tróleibus de Mendonça (dir.), que também são estatais, igualmente são dirigidos pelo sexo masculino. A capital Buenos Aires não tem viação pública.

A traseira. Nos detalhes: avisos no interior bi-língues em inglês e francês (apesar que Vancuver é Costa Oeste, não fala francês). E um cartaz que fotografei no Centro protestava contra a privatização.

Voltando aos tróleis de Córdoba, as motoristas são Mulheres, mas o acesso é livre a passageiros de ambos os sexos.

No México ocorre o contrário: há ônibus que só Mulheres podem utilizar (Homens com menos de 12 anos ou mais de 65, entre essas idades somente deficientes).

Mas a maioria dos motoristas dos ‘ônibus rosas’ mexicanos são Homens, alguns são guiados por Mulheres, mas são poucos.

Ônibus: não há pintura padronizada, corredores ou terminais, nem integração seja física ou temporal.

Articulado em Mendonça (viação Maipu). Proporcional a população, essa é a cidade com mais ‘sanfonados’ na Argentina.

A maioria dos ônibus contam com 3 portas, mas existem vários com 2.

Em Córdoba há mais articulados que em Buenos Aires, proporcional a população.

Como no Brasil e ao contrário de Buenos Aires, o itinerário não vem pintado na lataria.

No entanto, como na capital as linhas são mais conhecidas pelo número que pelo nome. Alguns ônibus de Córdoba igualmente só trazem o número no letreiro.

Moderno ônibus (viação Trapiche) de Mendonça, até com letreiro eletrônico. Mas tem somente 2 portas.

Pequena rede de trens suburbanos, apenas 1 linha. O detalhe lamentável é que a parte mais urbana esteja cancelada em 2017.

Pois estavam ocorrendo constantes apedrejamentos na favela chamada ‘Vila de Náilon’.

Antes o trem saía de uma estação bem central em Córdoba, parava numa outra ainda dentro desse município mas já na periferia.

Veja o canal pra escoar água dos Andes, típico de Mendonça (viação Maipu).

E dali seguia pra algumas cidades que são no interior do estado (‘província’) de Córdoba.

Não são mais região metropolitana, mas ficam próximas a capital.

Agora o trem já parte da estação da periferia rumo ao interior, não faz mais o pega urbano dentro da capital pra evitar o trecho problemático.

Digo, relato o que era verdade quando estive ali em março de 2017. Na ocasião a Argentina enfrentava dolorosa agonia política.

Próximas 3: trem suburbano de Córdoba.

Que se refletia nessa situação de normalização de apedrejamento do transporte coletivo, como já detalhei melhor na postagem ligada em vermelho acima.

Pode ser que quando você estiver lendo essas linhas a situação tenha sido normalizada. Faço votos pra que assim seja.

Tristeza: por constantes apedrejamentos eliminaram um trecho da linha.

Mendonça (4ª maior cidade argentina, 3ª do interior depois de Córdoba e Rosário):

Bonde moderno, implantado num antigo ramal de trens de carga. Funciona bem, um meio rápido, barato e não-poluente de ligar o Centro a populosos subúrbios da Zona Sul.

Detalhe: as composições foram importadas usadas da fronteira EUA/México. Antigamente operavam na linha que liga a Grande São Diego (Califórnia) a Tijuana.

Grades na janela pra evitar que o motorista seja atingido por pedras. Na África do Sul do ‘apartheid’ era assim, mas hoje não mais.

Presenciei em Mendonça uma que o letreiro não havia sido mudado, infelizmente não pude fotografar.

Tróleibus de uma viação estatal. Ao contrário de Córdoba, dirigidos por Homens. São 6 linhas, e o sistema passa por expansão e modernização.

Em 2013 foi inaugurada uma longa linha, de 13 km. E no ano seguinte outra, essa mais curta, até a universidade.

Articulado de Córdoba.

Alguns tróleibus são ex-Vancúver, Canadá. Os da linha 4 pra Dorrego, que foram os que eu andei e fotografei, se enquadram nesse caso.

Assim vemos que essa é uma tradição mendoncina, importar da América do Norte os veículos de seu transporte elétrico.

Também Córdoba, mesma viação. Na Argentina as linhas são conhecidas pelo nº, esse sequer tem o nome no letreiro.

Até recentemente havia também tróleis russos e alemães, esse últimos eram mais curtos e trucados (tribus, ou seja 3 eixos).

Não tenho certeza quanto aos russos, mas os tróleis alemães não circulam mais em Mendonça.

Já estão fora de serviço, flagrei vários deles sendo desmontados.

Eram vendidos como sucata num desmanche de beira de estrada na entrada da cidade, mas não deu tempo fotografar.

Tróleibus em Córdoba. São só 3 linhas, denominadas ‘A’, ‘B’ e ‘C. Viação estatal.

Em compensação, chegou uma nova leva de tróleis, e esses de fabricação argentina mesmo, ademais gerou empregos e tecnologia nacionais.

Ônibus: mesma situação do resto do país, sem terminais, integração ou padronização de pintura. Como em Córdoba, não há corredores, mas tampouco o itinerário é pintado na lataria.

O ponto negativo de Mendonça é que ali a maioria dos ônibus é motor na frente e de 2 portas, os de 3 são exceção.

Em compensação Mendonça é a cidade da Argentina com mais articulados, proporcional a população.

Todos os tróleis de Córdoba têm Mulheres ao volante.

Em Mendonça (ao menos nos a dísel) o número principal que você vê no letreiro não é o da linha, mas ‘tronco’, ou seja, da avenida principal que várias linhas pegam.

A linha mesmo vem num letreiro menor no para-brisas. Exemplificando é mais fácil entender, vide a tomada abaixo a direita.

Ali escrevi ‘corredor’, mas não no sentido de canaleta exclusiva, porque elas não existem no interior da Argentina.

‘Corredor’ aqui é no sentido usado na Rep. Dominicana, o eixo, a avenida principal que a linha passa (dado que um dia também foi mostrado em Belo Horizonte-MG).

 Mendonça (por isso 2 portas): o nº no letreiro maior é o tronco. A linha vem no letreiro menor, no vidro (Viação Avelar).

………

Rosário é a 3ª maior cidade argentina, a 2ª do interior após Córdoba.

E em termos de relevância política ambas disputam palmo-a-palmo quem tem mais influência.

Agora, como detalhe curioso aponto que no futebol Rosário é disparado o maior polo após a capital.

Rede de trens da Gde. Buenos Aires. Em vermelho a divisa entre a Cap. Federal (‘CABA’) e a ‘Província’ (‘AMBA’, a região metropolitana). Note que os próximos 2 mapas só mostram a ‘CABA’, ou seja dentro da linha rubra.

Das 132 edições de seu campeonato de futebol (quase sempre 2 por ano) Buenos Aires e seus subúrbios venceram 122.

Apenas 10 foram pro interior, e todas pra Rosário. Ademais, Buenos Aires (incluindo subúrbios) ganhou todas as 24 Libertadores da Argentina.

Somente em 2 vezes o interior da Argentina chegou a final da Libertadores, e as duas vezes foi novamente Rosário.

Escrevi tudo isso pra colocar que se nos campos político, econômico e cultural a rivalidade entre Córdoba e Rosário é intensa, no futebol não há comparação possível.

Esse esporte na Argentina se concentra 90% na capital. Do pouco que sobra pro interior, Rosário fica com praticamente tudo.

Rede de metrô.

Em termos nacionais Córdoba é praticamente irrelevante, e em Mendonça e demais cidades então os times só têm qualquer importância a nível local.

Já fiz matéria específica sobre o futebol, onde dou todos os detalhes, ricamente ilustrado.

Aqui só fiz esse adendo pra mostrar que nessa dimensão – que é a própria Alma da Argentina! – Rosário é o orgulho do interior:

Corredores de ônibus MetroBus.

A única cidade que faz alguma frente ao gigante que é Buenos Aires. Então voltando ao transporte, que é nosso tema atual.

Rosário também tem tróleibus. Incluso alguns ex-Belo Horizonte. Digo, eles foram produzidos e inclusive pintados pra rodar na capital mineira, mas não chegou a acontecer.

Ficaram anos parados num depósito, até que foram exportados pra Argentina. Já contei essa história outro dia, com muitas fotos.

Como não tive a oportunidade de ir a Rosário, não posso detalhar como funciona sua rede de ônibus, faço apenas esse adendo que lá também há veículos elétricos.

………

TETRA-MODAL: a favela Vila 31, no Centrão de B. Aires, fica atrás das estações de trem e ônibus, e pertinho do aeroporto e porto. Consegui numa tomada enquadrar o 4 modais (na África do Sul foram 3).

Como é sabido, essa vizinha nação teve seu período de glória na primeira metade do século 20.

Nessa época era considerada (ao lado do vizinho Uruguai) uma ilha europeia no oceano latino-americano.

Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, a Argentina entrou num novo ciclo, enfrentando severa decadência em várias dimensões:

Econômica, política, cultural, etc. O que a nivelou a mesma frequência dos demais vizinhos da América do Sul.

Veja bem: não estou dizendo que a Argentina está pior que o Brasil. Não.

Buenos Aires, o buso brilha refletindo o Sol. Linha 17, que eu cliquei as 17 horas do dia 17, que alinhamento, não? Pro que nos importa aqui, no itinerário pintado na lata vemos que ele passa pelo corredor MetroBus.

Diria que os dois países estão mais ou menos no mesmo nível, há pontos em que estamos a frente deles, e outros em que eles estão mais evoluídos.

A questão é que por um século, do fim do século 19 até a década de 80 do 20, não havia qualquer comparação possível.

A Argentina estava então milênios-luz a frente do Brasil, especialmente na coesão social.

Esse não é mais o caso. Repito, não estou afirmando que a Argentina é o pior país da América Latina ou mesmo do Sul. Mas está muito longe de ser o melhor.

Na Argentina os busos não têm catraca ou cobrador, você encosta o cartão na máquina (mas não há a evasão rampante do Chile). Falar nesse país trans-andino, tanto as chilenas como as argentinas a-d-o-r-a-m cachecóis e echarpes, como nota!

Indubitavelmente, houve uma queda de patamar. Agora estamos todos no mesmo barco, se quiser colocar assim.

Não por outro motivo denominei a série que retrata a Argentina como “Ascensão & Queda”.

Na Abertura da Série, que tem exatamente esse título, já tracei um panorama mais geral, multi-dimensional.

No tema de hoje, vamos nos focar especificamente nos transportes, que obviamente também seguem o que delineei acima

Já escrevi antes: o metrô de Buenos Aires (abreviada ‘Bs. As.’) é de 1913. Um dos mais antigos do mundo.

O de Londres-Inglaterra foi eletrificado (e portanto a partir daí considerado metrô) em 1890. O de Paris-França é de 1900, Nova Iorque-EUA inaugurou o seu em 1904.

A tomada anterior foi feita em Mendonça. Portanto a bela argentina de echarpe encosta na catraca eletrônica o cartão abaixo a esquerda. Vemos também os de Córdoba (no interior ambos se chamam ‘Red Bus’) e de B. Aires (‘Sube’).

Assim vemos que o metrô da capital argentina é apenas 13 anos mais novo que o da capital francesa, e veio menos de uma década depois da principal cidade estadunidense. 

Mais: o metrô de Buenos Aires (lá chamado ‘subte’, diminutivo de ‘subterrâneo’) foi o 1º de todo Hemisfério Sul, o 1º de toda América Latina.

E, se tudo fosse pouco, o 1º de um país de língua espanhola, pois mesmo o de Madri-Espanha chegou 6 anos depois dele.

O metrô de Lisboa-Portugal, que também é Europa Ocidental, só foi rodar em 1959.

Catraca de B. Aires pede que se ‘informe o destino’. Atrás os protestos que sacudiram o país no começo de 2017, mesmo tarde da noite eles seguiam.

Hoje a China tem os dois maiores sistemas de metrô do mundo, nas suas capitais política e econômica Pequim e Xangai.

Entretanto o metrô de Pequim é de 1965, e o de Xangai ainda mais novo, entrou em operação bem recentemente, em 1993.

Já que estamos na Ásia, Tóquio-Japão fez o seu em 1927, e o de Seul-Coreia do Sul é de 1974.

Hoje esses dois sistemas são infinitamente maiores que os de Buenos Aires.

Mas os portenhos contaram com esse conforto 14 anos antes que os japoneses, e 61 anos antes dos coreanos.

Há razões pra protestar: a Argentina está depauperada, e na periferia sua frota parece a de Cuba. Daqui pra baixo vamos combinar  o seguinte: quando a foto for no interior eu informo. Se não disser nada é em Buenos Aires, como é o caso aqui.

Somente no mesmo ano de 1974 o Brasil passou a contar com esse modal, quando São Paulo inaugurou sua primeira linha.

No México D.F. em 1969, pouquíssimo antes de SP e muitíssimo depois de Bs. As. .

O primeiro e até agora único metrô da Colômbia, o de Medelím, data de apenas 1995.

Assim fica evidente o passado glorioso da Argentina:

Muito próxima na Linha do Tempo de Londres, Nova Iorque e Paris, e a frente mesmo de Madri (a ex-colônia superou sua antiga metrópole). E décadas e décadas a frente de Portugal, Brasil, México, China e Colômbia.

Os táxis na Argentina oscilam entre o preto e o amarelo.

No entanto essa não é mais a situação do país, exatamente o oposto sendo verdadeiro.”

Modelo na primeira metade do século 20, a Argentina estagnou na segunda metade, marasmo que adentrou a 1ª metade do século 21.

O Brasil passou por ampla onda de modernização do transporte a partir da virada pros anos 80, processo ainda em andamento.

Depois dos anos 90, a América Latina nos acompanhou nessa vibração:

Por exemplo, Santiago do Chile foi a 1ª cidade hispano-americana a padronizar a pintura dos ônibus, em 1992 – foi a saudosa ‘Febre Amarela‘.

Centro de Buenos Aires: a chilena Metalpar tem boa fatia do mercado de carrocerias argentino.

Medelím inaugurou seu metrô no meio dessa mesma década, e depois expandiu-o via modal teleférico a morros inacessíveis a engenharia convencional.

Até os menores países países da América Central (tanto continentais quanto insulares, o Caribe) investiram pesado no ramo, fazendo metrô e modernizando os ônibus.

E a Argentina permanecia adormecida. Até o fim da década passada (o texto é de 17) já existia metrô e trem em Buenos Aires, óbvio.

Próximas 3: Retiro, Centrão de B. Aires. Ali é o ‘ponto zero’ da malha de transportes. Nessa foto a estação de trens (suburbanos e longa distância). A frente um buso da linha 115.

Mas a rede de ônibus da cidade se parecia muito com a de Assunção-Paraguai.

(Nota: não estou falando por preconceito. Estive no Paraguai em 2013, e constatei que a época ‘não haviam trem, metrô, corredores, articulados ou integração;

Mas haviam muitas jardineiras‘ [aqueles ônibus encarroçados em chassi de caminhão, com motor a frente].

E tampouco falo com desprezo. Ao contrário, Eu Amo o Paraguai, e agradeço muito a oportunidade que a Vida me deu de ter ido a sua capital.

Cruzando a rua está o Terminal Central (não-inegrado) de ônibus urbanos.

Além de várias vezes já ter visitado a Cidade do Leste, sua maior metrópole do interior.

Ainda assim, fatos são fatos. O Paraguai ainda não investiu na modernização do transporte. Haviam em 2013 planos de fazê-lo, e espero que tenham saído do papel.

Na quadra seguinte a Rodoviária.

Mas quando estive lá retratei a situação como a vi, e era essa.)

Pois bem. Em 2010 boa parte da América Latina, do Chile a Colômbia, Venezuela, Peru, México, América Central, já contava com modernos articulados que iam por canaletas exclusivas, com embarque em nível.

E em Buenos Aires . . ., bom já não haviam mais jardineiras, é certo.

Transição: a Argentina está mudando o emplacamento , a esq. o novo modelo.

Essas um dia foram oni-presentes na Argentina, mas nesse milênio já haviam sido eliminadas da capital (no fundão do interior ainda haviam alguns ‘heróis da resistência’).

Mas de resto, o sistema de ônibus da capital da Argentina se assemelhava muito a da capital do Paraguai:

Bi-trens são comuns no país (o Mercedes maior foi clicado chegando em Mendonça, os brancos do detalhe não tenho certeza).

Sem padronização de pintura, integração, corredores, terminais ou articulados. Ao menos, já tardiamente, nessa década houve um despertar.

Foi inaugurado o primeiro corredor – chamado ‘MetroBus’ como na Cidade do México e várias outras metrópoles pelo planeta.

Tróleibus na Argentina, em verde ativos, vermelho um dia existiu. A fonte é a Wikipédia.

E há alguns articulados. Muito poucos. Tão poucos que nem consegui fotografar.

Eles existem, sim, mas são raros, grosseiramente insuficientes pra uma megalópole de 12 milhões de pessoas.

Vi mais articulados na Zona Oeste de Buenos Aires. No corredor que leva ao bairro Liniers, na divisa de município, passaram alguns sanfonados.

Infelizmente nesse dia minha câmera estava sem bateria e não consegui registrar.

Mas no Centro de Buenos Aires, por exemplo, não passam articulados. E nem na maior parte da cidade.

Tróleibus em Rosário (r). Mas a linha é Venda Nova (BH-MG)???? Que ‘Tabela Trocada‘, hein? Nessa outra mensagem eu mostro toda linha do tempo dessa safra, de BH pra Rosário.

Fiquei 4 dias rodando com máquina na mão, e não deu certo clicar – e o motivo é esse, são muito poucos.

Ademais, no corredor os pontos não têm plataformas nem catracas. Ou seja, não há embarque em nível nem pré-pago – portanto não existe integração.

Simplesmente criaram uma pista exclusiva pros ônibus normais, curtos e de piso baixo, pararem.

Claro que houve vantagens, agora os coletivos não pegam congestionamentos nos trechos das grandes avenidas que têm MetroBus, e eles estão sendo ampliados.

Colagem mostra dezenas de busos urbanos de Buenos Aires. A maioria das marcas Agrale ou Mercedes-Benz.

Mas ainda é pouco. É preciso hierarquizar as linhas em troncais e alimentadoras.

Do Centro até alguns pontos-chaves em várias partes da cidade, as linhas precisam ser feitas por articulados que tenham corredores exclusivos em todo trajeto.

E desses pontos pras vilas, aí sim os ônibus pequenos podem continuar operando como alimentadores. Se houver a integração no cartão não há a necessidade de construção de terminais físicos.

Esse modelo é usado no mundo todo, do Brasil ao México, Guatemala, Indonésia, Turquia, China, até a Colômbia e Chile, pra citar apenas alguns.

A Argentina é quem ainda não despertou pra essa realidade tão óbvia. Vendo por outro lado, até somente 6 anos atrás (quando escrevo) nem o corredor não-integrado existia.

Aí era a raça mesmo, os ônibus duelando cm os automóveis nas vias entupidas do horário de pico. Se serve de consolo . . .

Já seguimos com o texto. Antes uma galeria de imagens com mais ônibus de Buenos Aires, quase sempre com a linha escrita na lataria:

Próximas 2: linha de bonde moderno abandonada no Centro de Buenos Aires.

Sobre a última foto: macaco vê, macaco imita. O nome do bairro é Palermo, mas os parvos chamam de ‘Palermo Soho’.

Porque pensam que vivem em Nova Iorque/EUA. Os macacos existem em nossa pátria também:

O Batel aqui em Ctba. é igualmente chamado ‘Batel Soho’ por alguns. Lamentável . . .

…………

Vamos falar mais alguns detalhes do que observei na minha estada na vizinha nação:

Ali crianças de mais de 3 pagam passagem. No Brasil é 6, o dobro. Diferença significativa, obviamente.

Outra plaquinha que está afixada em todos os ônibus argentinos:

“Proibido abrir as janelas no inverno ou em dias frios”.

Esse é o verdadeiro estado-babá, que trata os cidadãos como bebês incapazes, a quem tudo precisa ser dito nos mínimos detalhes.

A Linha Turismo de Córdoba é feita por um 2-andares inglês antigo – daí a porta na esquerda. Só tiraram o teto.

Oras, deixe que os próprios passageiros negociem entre si quando e quanto abrir de cada janela, não é papel do governo querer regular até isso.

………..

Nas carrocerias a chilena Metalpar tem boa fatia do mercado argentino. Isso já disse na legenda acima.

Entre os chassis, quase todos são Agrale ou Mercedes-Benz. Curioso isso, não? A Agrale é brasileira, com sede em Caxias do Sul-RS.

Hoje não existem mais ‘jardineiras‘ (ônibus em chassi de caminhão) nas grandes cidades argentinas. Mas por décadas eles reinaram absolutos. Viação de Bs. Aires relembra em adesivos o tempo que os ‘bicudinhos’ dominavam as ruas portenhas.

Mas aqui em nossa Pátria Amada quase não vemos ônibus Agrale. No entanto, em Buenos Aires eles são extremamente comuns.

Alias, no século passado era proibido a importação de ônibus pra Argentina.

Abriram uma exceção pros tróleibus Marcopolo brasileiros que iriam pra B. Horizonte, mas nunca foram.

Ficaram anos num pátio, quando foram exportados pra Rosário. Assim quebrando alguns tabus:

Foram os únicos tróleibus brasileiros a rodar no exterior, em qualquer país. Alias creio que essa situação se mantém inédita até hoje.

E segundo, por muito tempo eram os únicos ônibus brasileiros na Argentina, contando elétricos e a dísel.

Segura essa: em registro do sítio DBPBuss, uma jardineira operando na Argentina, no ano de 2009. Em Porto Iguaçu, fronteira com Brasil e Paraguai.

Essa reserva de mercado se foi. Hoje os ônibus brasileiros podem ser vendidos livremente nessa vizinha nação.

No mercado rodoviários eles são infinitamente comuns. Nos urbanos de tamanho normal existem porém são muito raros. Mas entre os micros embora longe de serem dominantes são comuns.

Eu mesmo andei (e fotografei) num micro brasileiro entre Córdoba e uma cidade do interior próxima.

……….

Na Argentina os ônibus não tem catraca física, apenas uma máquina onde você encosta o cartão pra que a passagem seja descontada.

Antiga jardineira do transporte urbano, agora transformada em uma casa-móvel.

Ainda assim, não há a evasão rampante de passagens como no Chile.

Contei com mais detalhes, incluso com fotos, quando voltei de lá: em Santiago, creio que quase um terço dos passageiros não pagam a tarifa.

Há campanhas com cartazes por toda a cidade, e também dentro dos coletivos, pra tentar diminuir essa situação, até agora sem muito sucesso.

No Chile os busos também não tem catraca, alias esse é o padrão pelo planeta, já falamos mais disso.

Linha 146 e o Banco da Nação na Pç. de Maio, Centro de Bs. As..

Na periferia da Zona Sul de Santiago, que é a parte mais ‘quente’ da cidade se é que me entendes, alguns micros alimentadores têm catraca.

E com isso a evasão se reduz significativamente, pra menos de 10%. Ainda assim, alguns jovens pulam a roleta.

………..

Não é o fato de ter ou não roleta física que determina o grau de evasão. Alias, a situação do Chile não tem paralelo com outros lugares.

Em todos os outros países que visitei, com exceção da República Dominicana nenhum outro tem roleta.

E em nenhum deles – incluindo a Argentina – há tanta gente que anda sem pagar como em Santiago.

Próximas 3: linhas especiais da Grande Buenos Aires. Todas elas fotografadas na Zona Norte (Palermo/Recoleta), a parte rica da cidade). A 57 é o ‘Expresso Palermo‘, ônibus urbano mas só 1 porta.

Mesmo no Litoral do Chile os micros não têm catraca, mas as pessoas pagam pela viagem corretamente.

Enfim. Como disse, só no Brasil e República Dominicana existe a profissão de cobrador de ônibus.

Nos demais ou a cobrança já é mesmo eletrônica (você encosta o cartão numa máquina) ou então você paga ao motorista.

……..

Hoje na Argentina é eletrônica, não se aceita mais dinheiro nos ônibus.

A 194 tem duas portas, mas também é diferenciada, com cortinas inclusive.

Mas no passado, antes da revolução digital, o usuário pagava em dinheiro, tinha que ser em moedas, e no valor correto.

O que gerava um problema seríssimo, pois se você não tinha o valor exato – em moedas de metal, repito, notas de papel não eram aceitasvocê não andava de ônibus.

Minha primeira viagem pra Argentina foi em 2017, então não presenciei essa situação lá. Mas parentes que viajaram anos atrás passaram por isso.

Essa é um ônibus de viagem, mas a linha é urbana, dentro da região metropolitana.

Antes de pegar o buso você tinha que rodar o comércio pedindo que a algum comerciante trocasse suas notas por moedas, e a maioria se recusava aliás.

Houve casos em que as pessoas tiveram que ir de táxi, pagando mais caro, pois não tinham trocado pro ônibus.

Não passei por isso na Argentina, mas no Hemisfério Norte sim. Fui a Nova Iorque/EUA em 1996. Ao lado do motorista havia um moedeiro:

Exatamente igual, você tinha que pagar a tarifa em moedas e sem sobras pois a máquina não dá troco.

Um belo fim-de-tarde no Centro de Avellaneda, Zona Sul da Grande Buenos Aires. Como em Córdoba, só há o nº da linha pintado no letreiro.

Digo, se colocasse a mais você podia viajar, mas perdia a diferença.

Já havia cartão, mas 21 anos atrás (nov.17 é quando escrevo, relembrando) mesmo nos EUA seu uso ainda era incipiente.

Depois fui ao México, em 2012. A mesma situação, havia o moedeiro, e você necessitava desembolsar o valor exato.

Guia de Buenos Aires traz além do itinerário a viação que faz os roteiros e sua pintura. Numa cidade de pintura livre em que praticamente cada linha é de uma cor, uma informação útil.

……….

A tarifa do metrô de Buenos Aires é única, independente de quanto você utiliza:

Você pode andar somente uma estação ou então percorrer uma linha inteira, fazer baldeação e a seguir andar outra linha inteira.

E tudo que há no meio desses extremos. Resumindo, tanto faz quantas estações você anda, se troca de composição ou não, paga a mesma quantia.

Mas nos ônibus e trens o preço varia conforme o trecho percorrido. Ao embarcar você diz onde vai descer, e é debitado de acordo. Isso nos ônibus.

Veja que na foto noturna em que mostro a catraca em primeiro plano e fora da janela um protesto em B. Aires, a roleta diz: “Informe destino”.

Próximo da divisa de Avellaneda com a Cap. Federal achei essa transgenia. No Brasil já flagramos caminhões que receberam cabine de ônibus. Mas na Argentina é de mão dupla: começou com um ônibus encarroçado em chassi de caminhão. No fim de sua vida útil voltou a ser caminhão! Mas mantiveram a porta do ônibus!!! Tudo vai e volta . . .

Em cima dela, se você ler com cuidado observa, um aviso explica: “Preencha o destino, e não o valor da passagem, pra não dar confusão”.

Nos trens você tem que passar o cartão tanto na entrada quanto na saída. Aí a máquina calcula quanto você percorreu, e desconta proporcionalmente do seu crédito.

Na maioria dos países a tarifa é proporcional a distância.

Nos micros e vans da Colômbia, México, Chile, nas linhas metropolitanas do México, na África do Sul em todos os modais, no metrô de Valparaíso-Chile, é sempre cobrado conforme o trecho que você utiliza.

Num dia bastante tumultuado, em que inclusive andei de camburão ao ser abordado pela polícia numa das periferias mais perigosas de Durbã/Áfr. do Sul, um dos problemas foi esse:

Ataque em Dupla: não foi apenas um, mas dois busos que viraram caminhões.

Ao descer do trem o fiscal constatou que por engano eu havia pago o valor errado da viagem, por não ter conseguido uma boa comunicação com o bilheteiro da estação central.

nos ônibus de Córdoba e Mendonça a tarifa é fixa como no Brasil.

Idem nos ônibus grandes municipais do Paraguai, Colômbia e México, nos metrôs desses últimos dois países, nos ônibus e metrôs de Santiago, na República Dominicana em todos os modais – nesses casos o valor é pré-determinado, independente do tanto que seja andado.

Em Córdoba. Palavras não são necessárias.

Bem, na Argentina, resumindo, só no metrô de Buenos Aires e nos ônibus municipais do interior é fixa. Até nos ônibus grandes municipais da capital oscila conforme a distância.

Por falar no cartão, nas capitais da Argentina como do Chile ele te empresta o equivalente a duas viagens quando está esgotado.

Assim você vai pra casa e no dia seguinte chega a teu trabalho tranquilo.

Próximas 5, Córdoba. Aqui e a esq.: Ersa, creio ser a maior empresa. Logo 3, ‘Ataque em Bando‘. Um raro com 2 portas.

Aí tem o dia seguinte inteiro pra re-abastecer de créditos.

De forma que não precisa ficar rodando as vezes em horários e locais perigosos buscando um ponto de recarga. O Brasil deveria adotar essa solução.

……..

Em Buenos Aires todos os ônibus das linhas mais movimentadas têm 3 portas.

AuCor, Autobuses Córdoba, outra viação grande. Esse buso provavelmente é ex-Ersa, pois a pintura é a idêntica.

Apenas algumas internas do subúrbio, de uso local, ainda contam com veículos só com 2.

Em Córdoba quase todos com 3, mas ainda vemos os de 2 (a direita um deles). E Mendonça está bem pra trás, lá a regra ainda é 2, só alguns com 3.

Bem, nada é tão ruim que não possa piorar. Na África do Sul, pela herança inglesa, a imensa maioria dos busos só tem 1 porta, até 2 ocorre as vezes mas já é um luxo.

Viação Coniferal.

E 3 portas não existe exceto nos articulados. A circulação interna nos busões sul-africanos é horrorosa.

Empurra-empurra geral, e não é culpa das pessoas, afinal estão tentando entrar e sair pelo mesmo local.

Unindo então fluxo e contra fluxo. No 2-andares então é pior ainda, aquilo é um pesadelo.

Salão interno do tróleibus.

Já começa pela confusão na única porta que há – e onde o motorista ainda têm que cobrar a passagem e emitir o bilhete -, e boa parte do salão de baixo é tomado pela escada e motor.

Acrescente-se ainda a confusão na escada, onde o mesmo se repete: um espaço apertado, onde alguns querem ir num sentido, outros na mão oposta… aff!!!

Tenebroso. quando conseguimos enfim descer do 2-andares lotado no Centro de Joanesburgo foi um verdadeiro alívio. Enfim, nosso tema de hoje é a Argentina. Coloquei apenas pra traçarmos esse paralelo.

Garagem na periferia, ainda em Córdoba.

Se os busos 2 portas de Mendonça são ruins, comparados com os de 1 porta (e as vezes 2-andares) da África eles são um sonho.

Mais uma pausa pra fotos. Vimos acima busos da Ersa, AuCor e Coniferal de Córdoba. Seguimos nessa cidade, as mesmas viações.

Linha Turismo de B. Aires: também 2-andares conversível, mas esse é novo e feito na Argentina.

Um dia as jardineiras (ônibus com chassi de caminhão, o motor saltado a frente) dominaram toda América Hispânica, da Argentina e Chile ao México e tudo que há no meio.

Do Paraguai ao México, passando por Bolívia, Peru, Colômbia e toda América Central, elas ainda são muito comuns – na Colômbia e no México, presenciei pessoalmente, ainda fazem jardineiras zero km.

Próximas 2: metrô de Buenos Aires. Aqui a entrada na calçada, uma escada, parece Nova Iorque.

Mas na Argentina, Chile e Uruguai elas já não existem mais nas grandes cidades desde os anos 90.

Nos fundões do interior ainda encontrávamos algumas até pouquíssimo tempo atrás.

Em Porto Iguaçu (no estado argentino das Missões, na fronteira com Foz do Iguaçu/Brasil e Cidade do Leste/Paraguai) vi pessoalmente no ano de 2006 as jardineiras ainda na ativa.

E um sítio de busologia, o DBPBuss, registrou a cena, nessa mesma cidade, no ano de 2009, já publiquei a foto mais pro alto da página.

Falar no Paraguai, embora ali elas ainda existam aos montes, também caminha pro fim.

No Paraguai não se compram mais jardineiras zero km, ao contrário de México e Colômbia.

Mural na estação.

Quando as últimas jardineiras esgotarem sua vida útil como transporte urbano, se acabarão nas grandes cidades do Paraguai também.

O Panamá vive exatamente esse mesmo momento de transição. Tudo na vida é cíclico, e depois da Lua Cheia vem a Minguante e a seguir a Nova.

Alias é exatamente porque um dia todos os ônibus foram jardineiras que em Buenos Aires ônibus urbano é conhecido como ‘micro’.

Próximas 2: a viação municipal de Córdoba que opera os tróleis tem alguns a dísel (também guiados por Mulheres) como ‘frota reserva’. Circulam nos horários de pico, ou quando um elétrico quebra (veja o destaque da próxima imagem).

Pois as jardineiras são mais curtas que os ônibus normais, que já eram usados no modal de viagem, por exemplo.

Como os ônibus urbanos eram de tamanho menor, viraram simplesmente ‘os micros’.

Hoje não é mais assim. Atualmente os ônibus de Buenos Aires são iguais aos do Brasil. 

Incluso no comprimento. Mas o nome ‘micro’ ficou, refletindo essa fase do passado.

Em Acapulco-México, os ônibus urbanos são conhecidos como ‘caminhões’.

E o motivo é o mesmo, porque as jardineiras são construídas sobre e têm o motor de caminhão saltado a frente.

……………

TRENS MODERNOS E BARATOS – Um dos pontos extremamente positivos do transporte na Argentina é sua rede de trens.

Lá, ao contrário do Brasil, as pessoas ainda viajam sobre trilhos entre uma cidade e outra. É confortável e barato.

Garagem dos tróleis na periferia de Córdoba. Repare que na Argentina os ônibus elétricos não têm placa – em várias cidades do Brasil foi assim também por décadas, mas hoje não mais.

Tentei ter essa experiência, mas não foi possível por questões de escala, os dias que há as viagens (que não são diárias) não batiam com nossa programação. 

Assim fui de Buenos Aires a Mendonça, dali a Córdoba, e de volta a capital sempre de ônibus-leito.

Alias, já falo dos trens. Antes um adendo: andar de leito na Argentina é um luxo só, é como a 1ª classe dos aviões.

Nessa vizinha nação está consagrado o ‘serviço-cama’, que agora chegou no Brasil.

Ônibus suburbano (2 portas e vai parando no caminho, mas pega estrada pra ir pra cidades já fora da reg. metropolitana) na Rodoviária de Córdoba – essa é a rodoviária normal, de onde saem também os de longa distância.

As poltronas reclinam 180º, você deita na horizontal.

Há rodo-moça (em alguns casos rodo-moço), que serve café-da-manhã completo, temos a opção de leite com café, chocolate, chá ou – estamos no Pampa afinal! – chimarrão.

Pra me ambientar com o local, eu tomei chimarrão. Ademais na tela você pode ouvir música, ver filmes ou jogar.

A viagem passa rápido, eu disse, você se sente no avião. É caro, de fato, mas bom demais!

‘Rodoviária Suburbana’: bem no Centrão de Córdoba, e dali só partem linhas suburbanas (fotografei uma igual no Chile). Um micro é Comil brasileiro. Nessa foto encerramos os ônibus da cidade de Córdoba.

Em compensação, no banheiro você só pode urinar. Se precisar do ‘número 2’, é preciso avisar a rodo-moça (o), que o motorista encosta num posto. No Chile é exatamente igual.

……

Acima descrevi como é viajar de ônibus-leito, que fiz 3 vezes. Não pude andar de trem.

Mas quem o fez me disse que igualmente vale muito a pena.

Pra começar, é incrivelmente barato. Há 3 opções, o ‘toco-duro’, a ‘tudo-incluso’ e uma intermediária.

Rodoviária de Cosquín e imediações. Uma pequena cidade no interior do estado de Córdoba, próxima a capital. Vemos ônibus suburbanos, alguns das mesmas empresas já retratadas acima.

O ‘toco-duro’ é desconfortável, você tem que dormir e comer na poltrona, como nos ônibus convencionais.

Em compensação o valor é irrisório. Pra quem está sem grana ou quando a viagem for de dia é a melhor opção.

No ‘tudo-incluso’, você tem direito a uma poltrona pra ficar sentado durante o dia, a noite dorme numa cama – num vagão que tem quartos com beliche.

E as refeições são no vagão-restaurante. Esse colega me informou que tudo isso sai pelo mesmo valor do ônibus.

Como comparação, no Brasil há pouquíssimas opções de trem de longa distância disponíveis, e custam os olhos da cara.

Aqui em Curitiba, por exemplo, só é possível ir de trem a Paranaguá e outras cidades próximas no Litoral.

Mas é bem mais caro que o ônibus, que já não é barato.

……….

Já que estamos em Cosquín, essa é a estação de trens da cidade.

Ademais, vide o mapa mais pro alto na página, a rede de trens suburbanos de Buenos Aires é muito extensa.

Assim, você pode ir do Centro de Buenos Aires a alguns bairros dentro do município mesmo. Ou a municípios da região metropolitana.

Ou ainda a cidades do interior, que são próximas a capital mas já fora da Grande Buenos Aires.

Por exemplo, a ‘Cidade da Prata’ (‘La Plata’ no original). Essa é a capital do estado (‘província’) de Buenos Aires.

De volta a cidade de Córdoba, a capital do estado, dessa florida estação na periferia saem os trens pra Cosquín. Fui de trem e voltei de busão.

Como já explicamos antes, o município de B. Aires é o Distrito Federal: está dentro do estado de B. Aires, mas não pertence a ele.

Antigamente conhecida como ‘Capital Federal’, hoje chamada ‘CABA’, Cid. Autônoma de Bs. As., recapitulando, e o ‘Autônoma’ é justamente porque não está vinculada a nenhum estado.

Como já foi dito várias vezes e é notório, o município ‘autônomo’ de Bs. As. hoje é apenas a Região Central da metrópole.

Toda periferia fica na ‘Província’, ou seja, em outro estado, a Província de Buenos Aires. Cuja capital é a ‘Cidade da Prata’.

Essa alias foi planejada justamente pra isso, pra ser a capital estadual quando o Distrito Federal foi criado, no fim do século 19.

Próximas 2: Rodoviária do Retiro, Buenos Aires, belo fim-de-tarde de março de 17.

A ‘Cidade da Prata’ (‘La Plata’) fica a 55 km de Buenos Aires. Perto da capital, mas uma cidade a parte, não pertence a Gde. Buenos Aires.

Digo, futebolisticamente falando eu arrendondei e considerei a Cid. da Prata como um subúrbio da capital.

No século passado, quase todas as viações argentinas eram assim, multi-coloridas. Não mais, após uma reformulação agora são mais sóbrias. Essa manteve a vibração anterior.

No futebol sim, mas urbanística e socialmente falando a Prata é uma cidade a parte.

Ainda assim, é possível ir de trem suburbano (aqueles em que os bancos são de acrílico e você pode viajar em pé) até lá.

Bem mais barato que o ônibus, embora um pouco mais lento porque tem mais paradas.

Colagem com ônibus de viagem argentinos.

Ainda assim, como a distância é pequena a diferença de preço compensa os poucos minutos a mais.

Não pude ir a Cidade da Prata. Assim como nos trens de longa distância, reproduzo o que me foi passado por quem pôde realizar esse deslocamento.

………..

Viram na foto a ‘Estação Retiro’ de trens. Esse bairro, que fica na verdade no Centrão da capital, é o ponto focal da rede de transportes da Argentina, de forma tetra-modal:

Ali estão as estações de trens suburbanos e longa distância, o porto, o terminal de ônibus urbano e a rodoviária (várias das tomadas acima são ali).

Centro de Córdoba, março de 2017: caminhonete circula normalmente com um emplacamento que já foi extinto a 20 anos. Como é possível??

O aeroporto também fica próximo.

E no em uma parte invadida do pátio ferroviário (cada vez maior) está a favela Vila 31, uma das maiores da cidade – mas essa já é outra história.

Eu já disse isso, que todos os terminais estão concentrados no Retiro ou próximos a ele.

Aqui, o que quero colocar é que ‘Retiro’ é tão sinônimo de ‘rodoviária de Buenos Aires’ que é assim que vem escrito nas passagens e no letreiro dos ônibus de viagem.

Sim, você compra o bilhete, e nele não está escrito ‘Buenos Aires‘, a cidade a qual o ônibus se destina.

Próximas 3: bonde moderno de Mendonça. Aqui a galera no ponto. Não há catraca, você paga quando entra, depois o fiscal chega de surpresa e pede seu tíquete pra verificar.

E sim ‘Retiro‘, o bairro no qual a rodoviária fica localizada.

Portanto veem que virou um mantra, que ‘pegou’ não apenas no vocabulário da capital, mas até no interior.

…….

Como a colagem deixa claro, os táxis na Argentina oscilam entre o negro e o amarelo.

Em Buenos Aires é exatamente igual Santiago do Chile, corpo do carro negro e teto amarelo.

Um antigo vagão de carga virou ponto.

Isso no municipal da capital. Na região metropolitana cada município é livre pra escolher sua pintura.

Em Avellaneda, na Zona Sul, a terra do Independente e do Racing, eles são brancos.

Em Mendonça são as mesmas cores da capital, amarelo e preto, mas em mistura diferente. E Córdoba aboliu o preto, são inteiros dourados.

Mapa da rede.

Não custa lembrar, no Paraguai e Colômbia os táxis do país inteiro são amarelos, de todas as cidades.

De volta a Argentina e a Córdoba, apenas os táxis que você pega na rua são amarelos.

O tele-táxi, obviamente o que você pede por telefone, lá se chama ‘remí’. E tem outra cor, verde-claro.

……….

A Argentina está mudando o emplacamento. Eu já havia percebido isso antes de ir até lá. Em fevereiro de 17, fui a Florianópolis-SC.

Na Praia de Canasvieiras (Norte da Ilha) haviam tantos argentinos que ali mesmo eu vi carros com o nova chapa.

Fui a Z/S de Mendonça de bonde moderno, voltei nessa linha feita por articulados.Viação Cacique.

Na Argentina nos últimos 20 anos, do fim dos anos 90 pra cá, vigora um modelo com 3 letras e 3 dígitos numéricos.

A partir de agora a chapa terá uma faixa azul em cima com o nome do país.

E serão mais letras, inclusive dizem que se quiser você poderá dispensar o números e escrever uma palavra, como é nos EUA e México, entre outros.

Vila Carlos Paz, cidade no interior do estado de Córdoba parecida com Campos do Jordão-SP.

Não apenas na Argentina. Será padronizado em todo Merco-Sul, o Uruguai também já está fazendo a mudança.

Mas o choque vem agora. Vi vários carros circulando na Argentina com o emplacamento que já foi abolido a duas décadas:

Selos de regulamentação colados na lataria.

A chapa era inteira preta, com 1 letra e 6 dígitos numéricos.

Não havia nada escrito além disso, nem o nome do país nem da cidade.

Os mais velhos, que tiveram a oportunidade de ir a Argentina até o começo dos anos 90 (ou, o que nesse caso dá no mesmo, pra Florianópolis no verão) se lembram bem.

Próximas 2: bairro Nunhes (‘Monumental de Nuñez‘), Z/N, parte rica de Buenos Aires. Aqui o corredor MetroBus.

Então, amigos. Esse modelo já foi extinto na virada do milênio, quem sabe antes.

Como esses carros podem circular dessa forma é um mistério que não pude compreender.

Afinal, nem há como multar um veículo desses se o motorista cometer uma barbeiragem.

Pois sequer há como digitar a chapa no maquinário eletrônico próprio pra registro da infração.

É como se víssemos hoje no Brasil um carro andando pelas ruas ainda com a chapa amarela, aquela de 2 letras, que foi aposentada na mesma época.

Perto dali, a estação de trens. O destino é ‘Tigre’ (na África do Sul não daria pra saber, lá o letreiro é numérico).

Impossível, não? Mas na Argentina vi vários, muitos deles consegui fotografar.

Sim, alguns estavam sendo sucateados, talvez não andem mais.

Na Argentina é comum deixar os carros batidos ou muito velhos simplesmente se decompondo na via pública, sem levar pro ferro-velho como seria correto.

Já falarei mais desse ponto. Aqui, o que nos interessa é:

Pontos de ônibus pelo país.

Mas alguns carros com o emplacamento antigo, já encerrado há 2 décadas, estavam rodando normalmente.

Vi um em Mendonça, inclusive estava sendo reformado.

No estado de Córdoba, todos os veículos comerciais (exceto ônibus municipais) têm que ter uma segunda chapa com registro estadual.

Portanto o dono estava usando ele normalmente, e pretendia continuar, pois investia dinheiro no veículo.

Infelizmente esse não pude fotografar, nesse dia mais uma vez minha câmera estava descarregada (ela viciou a bateria, perdi algumas fotos por isso infelizmente).

Mas Deus Abençoou, e no Centro de Córdoba fotografei claramente uma antiga picape D-20 Ford com essa chapa há muito desatualizada.

Ali sem qualquer margem pra discussão o veículo estava em uso.

Mais um bi-trem.

Mesmo com o emplacamento pra lá de irregular, e a foto comprova isso indubitavelmente.

Como isso é possível deixo pra algum amigo argentino explicar.

Bem, a Argentina está bem caótica, em múltiplas dimensões.

Isso é só um sintoma dessa confusão que engolfou a nação.

……….

Por outro lado nas dificuldades é que as pessoas se revelam.

Enquanto alguns aproveitam o tumulto pra tirar vantagens pra si, outros demonstram uma disposição incomum em ajudar os outros.

Mercedes com desnível no vidro: esse modelo foi muito vendido lá.

Usando o transporte coletivo na Argentina, vimos os dois lados da moeda.

O ponto negativo: na Argentina simplesmente não respeitam o banco pra deficientes, idoso, grávidas e gestantes. Veja a imagem acima:

Banco preferencial está sempre ocupado, e sempre por pessoas jovens e saudáveis.

Na foto inferior da colagem, há duas moças a direita no banco preferencial.

Mas o casal a esquerda está na mesma situação, a primeira fileira perto da porta é reservada.

Próximas 2: corredor MetroBus em frente ao estádio do S. Lourenço (torcedores chegam pro jogo sob muita chuva). A placa indica quais as linhas que passam ali.

Na Argentina não respeitam esse direito de quem necessita.

Sim, fiquei poucos dias lá, menos de 2 semanas. Mas andando de transporte coletivo o tempo todo.

A situação era sempre a mesma. E não me diga que no Brasil é igual porque não é.

É claro que aqui como em qualquer parte há ‘espíritos de porco’:

Aqueles que não se importam com ninguém, e sentam no assento preferencial sem necessitar.

Sabe, eu tenho carro mas quase nunca o utilizo.

Me locomovo somente de ônibus, praticamente.

E sempre vejo, aqui em Curitiba:

Filma as jóias que circulam na Argentina. Aqui e a esq. são 2 Falcões, o próximo mesmo batido ao menos está bem conservado. Já esse . . .

O ônibus está cheio, todos os bancos não-preferenciais ocupados.

Várias pessoas de pé. Mas muita gente não senta nos bancos reservados.

Deixam vários deles vazios a espera de quem é de direito.

Em São Paulo quando comento isso já me relataram que a situação é a mesma.

Repito, sempre há exceções. Mas no Brasil muita gente respeita.

Próximas 2: Rodoviária de Mendonça. Em meio a ônibus de viagem um suburbano azul prepara-se pra encostar. A esquerda vários suburbanos, uma colagem.

Na Argentina a coisa vai na mão inversa:

Mesmo adolescentes e jovens adultos não sentem a menor cerimônia em ficar confortavelmente instalados enquanto quem precisa vai de pé.

…….

Por outro lado, em Mendonça o motorista do ônibus foi extremamente atencioso e prestativo conosco.

Nosso cartão não tinha créditos suficientes pra pagar a viagem.

Em Buenos Aires nesse caso o cartão te empresta o suficiente pra mais 2 viagens, mas pelo visto o interior ainda não aderiu a essa melhoria.

Colagem com a Viação STM, Sociedade de Transportes de Mendonça.

Assim sendo o motorista, que também é o cobrador, pelo regulamento poderia ter solicitado que a gente desembarcasse.

Carregasse o cartão, assim seguindo somente em outro ônibus.

Mas ele não fez isso. Ao contrário, nos explicou a situação.

Disse que seria preciso que outro passageiro creditasse no cartão dele.

A frota argentina está velha e sucateada. Dodge na Z/S da capital, sob o olhar de ‘Che’ Guevara.

E aí nos reembolsávamos em dinheiro a quem fizesse o favor.

Aí ele, o próprio motorista, fez o pedido a quem entrou a seguir.

Pagamos em espécie a passagem ao passageiro que regularizou a situação na catraca digital.

Trólei-tribus alemão que rodou em Mendonça (r) (foto de um Guevara. Parente do ‘Che’?).

E pudemos voltar ao Centro de Mendonça com tranquilidade.

Na África do Sul esse nível de gentileza é o padrão do povo.

Registro aqui que na Argentina deparamos com ele também.

………

Em Mar do Prata é onde os portenhos passam suas férias de verão – aquele que não vem pro Brasil, evidente.

Em desmanche próximo a Mendonça, vários ônibus Ciferal que há pouco ainda rodavam lá. No ferro-velho ao lado eu vi as carcaças os tróleibus-tribus alemães da foto anterior.

No original é ‘Mar del Plata’ (sabem que sempre que possível traduzo pro idioma português). Por isso apelidada ‘Mardel’.

Não visitei ‘Mardel’, portanto não a conheço pra poder escrever.

Mas pro tema que nos interessa aqui, que é o transporte, vi pela internet que Mar do Prata tem uma Linha Turismo.

E essa é feita por um ônibus que tem a carroceria que imita a de um bonde antigo (foto ao lado, puxada da internet).

Em Santos-SP há bondes antigos (e também modernos, o VLT), que foram restaurados e ainda rodam sobre trilhos.

Na Argentina, entretanto, não há bondes antigos. Inclusive veja a foto um pouco mais abaixo a direita que tirei no Centro de Buenos Aires, mostra os trilhos.

Comprovando que um dia ali realmente passou bonde (registrei a mesma cena em Assunção e Belém do Pará).

Um dia sim, mas não mais a muito. Em Mar do Prata tampouco há bondes.

Mas numa brincadeira, encarroçaram um ônibus a dísel e com pneus com uma carroceria de bondes. Isso já falamos.

O Ford Falcão na foi o ‘Carro do Terror’ na ditadura argentina (r).

Por conta disso ele traz uma inscrição pretenciosa:

Se auto-denomina “O Último Bonde”. Isso não é novidade, já está no ar a tempos em outra postagem.

Pois bem. O de ‘Mardel’ não é o último pseudo-bonde da Argentina. Em Mendonça há outros iguais, veja acima.

É o seguinte: Mendonça também tem sua Linha Turismo. Chama-se ‘Bonde das Compras’.

Falcão no Centro de B. Aires, sobre os trilhos onde um dia passaram bondes.

Pois igualmente é feita por ônibus com carrocerias de bondes antigos.

Esses eu pude ver e fotografar pessoalmente, apenas não andei nele.

……..

Outra seção de fotos. Já que falamos de Mendonça, vejamos mais busos dessa cidade andina.

UMA ‘ALMA MUSICAL’: IR A ARGENTINA FOI COMO VOLTAR AO MÉXICO –

Na Argentina eu comprovei como a Alma Hispano-Americana é a mesma, do Sul ao Norte do Continente

Quando fui ao México, em 2012, já havia lhes contado como o mexicano ama a música.

O tempo todo dentro do transporte coletivo há apresentações improvisadas.

Umas profissionais até com caixas de som e após a qual CD’s são vendidos.

Outras vezes um cara sozinho com um violão.

Buenos Aires: acima a linha 373, em azul a Viação São Vicente.

Andar de ônibus ou metrô no México jamais será monótono.

Pois bem. Na Argentina é igual. Acima consegui clicar o garoto com o violão no metrô de B. Aires. A cena se repetiu várias vezes.

Uma apresentação-solo, um casal cantando música romântica, ou mesmo uma banda completa.

Os vagões e estações do metrô da capital são um palco aberto a todos, basta tomar um espacinho e mandar ver.

No Chile é assim também, mas bem menos. Na Argentina e México infinitamente mais.

………

Calamidade! Na Argentina a frota está velha e batida. Ademais, é comum deixarem os carros que não servem mais (seja por acidente ou porque são antigos demais) simplesmente apodrecendo na rua, sem recolher ao pátio ou ferro-velho.

Vimos mais pra cima a esquerda um buso Mercedes (já aposentado do serviço regular) com desnível no vidro.

Esse detalhe é comum na Ásia (Japão), Na Argentina foi consagrado nesse modelo da Mercedes fabricado nos anos 80 e 90.

Meus parentes que foram pra lá perto da virada do milênio me trouxeram inúmeras fotos dos busos com esse desenho (na época) em linhas urbanas.

O tempo passou e hoje eles só fazem ‘escolar’, ‘rural’, transporte de bandas, etc.

………

Os caminhões bi-trem são muito comuns na Argentina.

Mas atenção: nesse vizinho país não existem os caminhões gigantescos com 30 metros e 2 engates, como os que se popularizaram no Brasil.

Explico: nas estradas de nossa Pátria Amada é careta e bi-trem, ambos ao mesmo tempo.

Ou seja: cavalo-mecânico, 1º engate, um compartimento grande de carga, 2º engate, outro compartimento grande de carga.

O LIXO DA FRANÇA É O LUXO DA ARGENTINA: É comum vermos nas ruas argentinas essas peruas (Citroën, Renault ou Fiat) fabricadas nos anos 60. Mas essa é ainda mais antiga, dos anos 50 (era nessa que Mafalda andava, veja um pouco abaixo).

Em outras palavras, são duas carretas grandes puxadas por um cavalo. Portanto 2 engates.

Na Argentina é diferente: é somente 1 engate sempre, 2 não existe.

Os caminhões são carreta ou bi-trem, jamais ambos ao mesmo tempo.

Lá ou é carreta normal, cavalo, um engate mais um somente compartimento grande de carga;

Ou então um caminhão pitoco, curto, um engate, e mais um compartimento de carga.

Carreta sem ser bi-trem, ou bi-trem sem ser carreta. É preciso escolher.

No Brasil é ‘tudo ao mesmo tempo agora’, carreta/bi-trem.

…………

Como dito na legenda um pouco acima e é notório: o Ford Falcão foi o ‘carro do terror’ da ditadura argentina.

É comum nas periferias da Argentina vermos carros amarrados, pra que não se desmanchem.

Ele não tinha ‘caçapa’, ou seja, não havia espaço pra presos.

Os infelizes que eram apanhados pela polícia política argentina iam pra delegacia (ou pro local de desova, se já estivessem mortos) no porta-malas.

Alias era por isso que o Falcão foi escolhido. Os militares diziam que ‘apertando cabiam 5 no porta-malas’.

Pensa que é brincadeira? Então segura aí.

Cruel? Evidente que sim. A ditadura argentina foi indescritivelmente cruel, muito, mas muito pior que a brasileira.

Tanto que lá houveram formas de tortura desconhecidas aqui, por isso Videla foi alcunhado ‘Pol Pot na América’. Desse período macabro já nos ocupamos outro dia.

Esse (na Zona Sul de Buenos Aires) botou até cadeado! Sempre é bom garantir . . . No México, um da mesma idade pôs cadeado no tanque, pra não roubarem o dísel.

Aqui o foco é o ramo do transporte. Ford é a marca-ícone da Argentina, a mais vendida da história.

Seu carro-chefe (literalmente) era o Falcão, que lá foi produzido por décadas, pelo menos dos anos 50 aos 70, e quem sabe até os 80.

Portanto o Falcão já era popular antes do golpe de estado de 1976. E permanece querido até hoje, apesar de ter sido impregnado com o estigma da repressão.

Bem, pra quem é de direita o Falcão é popular exatamente por ter sido o carro da ditadura, e não ‘apesar’ disso.

colapso: a frota da argentina parece a de cuba!!!!

o lixo da frança é mesmo o luxo da argentina: caros velhos e batidos circulando, outros apodrecendo na via pública

A Argentina empobreceu muito nessas últimas décadas, e sua frota reflete isso.

Os pais da Mafalda (ícone argentino) tinham uma peruinha Citroën 2CV, veja ao lado.

Agora pense nisso: esse desenho é dos anos 80, e o carro já era velho na época.

Colagem mostra o estado da frota argentina. Achei outros com a placa antiga, já aposentada a 2 décadas.

Alguns deles continuam na ativa hoje, 30 anos depois (veja o farol saltado, igual aquele vermelho que está um pouco acima a direita).

Mas atenção: a Argentina hoje é um país extremamente desigual.

Vão longe os tempos em que ela tinha o 2º menor Índice de Gini (que mede a concentração de renda) da América Latina, só acima do Uruguai.

Hoje a Argentina é tão desigual quanto Brasil e Colômbia:

Alguns multi-milionários de um lado, uma multidão que sobrevive apenas, e uma massa considerável de miseráveis, que nem isso conseguem.

Exemplo perfeito é o Porto Madeiro, o mais novo bairro de Buenos Aires, que surgiu na virada do milênio.

Falarei melhor dele em outro texto, mas aqui, pra dar uma adiantada, falo que um fato pouco conhecido é a favela que existe na ponta da ilha.

Precariedade: em Córdoba, pessoas sem proteção viajando na caçamba.

Atrás daqueles arranha-céus dos riquíssimos existe uma aglomeração de barracos miserável, sem saneamento básico.

Quase ninguém vê, e menos gente ainda se importa.

Isso reflete como está o país como um todo. Na dimensão automotiva o mesmo se manifesta, uma extrema desigualdade.

Muitos fazem o turismo ‘convencional’ da classe-média, indo apenas nos bairros chiques.

O Fiat 147 lá se chamou ‘Spazio’. Mais uma vez amarrado pra não cair o para-choques. Veja que na 2ª imagem da tomada do outro lado da rua há mais carros Fiat velhos.

Oscilando somente entre o aeroporto, hotel de luxo, centros de compras, museus, e restaurantes e ‘baladas’ caros.

Eu não julgo ninguém, e não estou criticando. Cada um faça o que quiser. Mas aí evidente que não verá o que estou apontando.

Pois na burguesia a frota argentina não difere da brasileira, em idade e estado de conservação.

Mas na periferia são brutalmente diferentes. Sim, claro que existem carros velhos no Brasil. Mas o nosso ‘velho’ são 20 e poucos anos, veículos produzidos nos anos 90.

São raros em nossas ruas automóveis dos anos 80, dos 70 já são são ‘elefantes brancos’ que vemos um a cada vários meses.

E não existem rodando no Brasil carros fabricados nos anos 60 e muito menos 50 – exceto nas mãos de colecionadores, aí são caríssimos, geralmente até com chapa preta.

Na Argentina, os carros ‘velhos’ tem o dobro dos nossos, ou mais: 40, 50 ou mesmo 60 anos. Sim, é isso.

Antigo e moderno: Dodge nas ruas de Porto Madeiro.

Nessa vizinha nação automóvel dos anos 80 já é relativamente novo nas periferias mais depauperadas, os dos anos 70 são o padrão, ainda são extremamente comuns os dos anos 60.

Não estou brincando nem exagerando. Já havia constatado isso assim que o ‘Google Mapas’ levantou a Argentina pro modo ‘visão de rua’.

Aí dei extensas voltas por lá, na época virtualmente, na tela do computador.

E então já escrevi-lhes um emeio com esse título, “Colapso, a frota da Argentina parece a de Cuba”, com muitas imagens.

Agora ‘in loco’ comprovei que de fato é assim, então aquele emeio será eliminado, não vou subí-lo pra página. Pois não é mais necessário, tirei as fotos ao vivo. 

Essa foto é no continente, com Porto Madeiro ao fundo. Mercedes e Scania. A frota argentina de caminhões é similar a brasileira, só no geral bem mais velha.

Não para por aí: levantei pro ar uma comparação entre Europa Ocidental e América do Sul em outra postagem.

Lá, eu mostrei que ‘o lixo da França é o luxo da Colômbia’.

Peruas Citroën e Renault dos anos 60 e 70, que na França literalmente foram partidas ao meio e servem apenas como decoração na Colômbia ainda rodam.

Pois bem. Nas periferias das cidades da Argentina essas mesmas peruas produzidas nas décadas de 60 ainda são o meio de transporte de várias famílias proletárias.

Tanto as duas marcas francesas citadas logo acima quanto uma italiana, Fiat. A esquerda uma Citroën (a foto está nomeada ‘Renault’ por ignorância minha, um colega retificou, vide os ‘comentários’ abaixo).

Os traços da Fiat eram mais arredondados e somente com 2 portas.

Em casos extremos carros até dos anos 50 igualmente ainda estão na rua. Cara, isso você não vê no Brasil, nem em sonhos. Fatos são fatos,  e aqui corroborados pelas fotos. Fiquei menos de duas semanas da Argentina.

E nesse curto intervalo fotografei várias peruinhas com mais de 50 anos ainda em circulação, agrupei algumas numa colagem ao lado

Repito, isso no Brasil não existe. Mesmo! Não custa enfatizar ainda mais uma vez:

Na Argentina as vezes vemos ainda veículos dos anos 50 – e não nas mãos de colecionadores burgueses, mas do povão, como meio de transporte.

Mais: como já dito nas legendas, na Argentina é comum simplesmente abandonarem na via pública os automóveis que não servem mais.

Seja porque enfim decidiram que está velho demais – aleluia! – ou porque sofreram P.T. (perda total) num acidente feio.

É tão corriqueiro que o dono de um carro antigo que estava na oficina na periferia da Zona Sul de Buenos Aires colocou um aviso no para-brisas (ao lado):

“Esse automóvel não está abandonado, está sendo consertado”, seguido de seu endereço e telefone, se alguém precisasse entrar em contato.

Frota velha e batida, como na República Dominicana. E como em Cuba os bichões com décadas e décadas de estrada, que em qualquer outro país estariam no museu, na Argentina seguem na pista.

Definitivamente, o lixo da França é o luxo da América do Sul, da Vila Buenos Aires em Medelím/Colômbia a Buenos Aires original no Delta do Prata.

Fisicamente nossa vizinha, um dia a Argentina parecia mais europeia que americana. Esse tempo já se foi há muito.

A Argentina literalmente despencou do sonho europeu, aterrizando de cara na realidade americana.

Bem-vinda Argentina querida, estávamos te esperando.

Como eu já disse antes: definitivamente, agora estamos todos no mesmo barco.

Deus quis assim.

……..

O texto encerrou, mas como fechamento ainda tem duas galerias de fotos. Começo ainda na Argentina, 4 caminhões brancos de modelos que também existiram no Brasil:

Como prometido, sobrou uma palhinha pro Uruguai (que vemos que vibra na mesma frequência que seu vizinho maior, a Argentina). Nunca estive nesse país, mas uma colega enviou as fotos diretamente de lá.

Deus Pai e Mãe proverá.

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‘Pol Pot na América’: o Genocídio Argentino, com suas ‘Escolas’ e ‘Voos da Morte’

A esquerda e os movimentos sociais querem que a ditadura militar argentina seja reconhecida oficialmente como um ‘genocídio’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de julho de 2017

Maioria das tomadas de minha autoria. O que for puxado da internet eu identifico com um (r) de ‘rede, como visto abaixo.

No intervalo de um mês, fui a Argentina e a África do Sul. Assim vamos alternando as séries sobre esses países.

Escrevi recentemente sobre o ‘Apartheid’ sul-africano. Hoje, mantendo-nos na mesma frequência, vamos falar sobre os ‘anos de chumbo’ da Argentina (1976-83).

Vamos ser bem claros aqui: não há qualquer comparação possível entre as ditaduras brasileira e argentina.

A deles foi infinitamente mais cruel. Infinitamente. Muito mais curta, somente 7 anos, contra 21 da nossa (nota: ao publicar a matéria escrevi erroneamente ’31 anos’. Perdão pela falha).

Os Encapuzados” (r): escultura de metal em frente a Esma (o ‘Dops argentino’) revela forma de tortura. Como explicado, todas as tomadas com ‘(r)’ são baixadas da internet.

Mas o regime de Rafael Videla foi muito, mas muito pior que o de Médici e seus companheiros, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, se podemos colocar assim.

A definição é: o Brasil viveu um regime autoritário, mas a Argentina passou por um genocídio.

Estima-se que a ‘guerra suja’ brasileira tenha deixado perto de mil vítimas fatais.

A maioria mortos pelos militares, mas as guerrilhas que os combatiam também assassinavam friamente seus oponentes.

Entretanto, pondere que em apenas 7 anos foram mortas 30 mil pessoas na Argentina.

Como a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a 120 mil pessoas no Brasil.

No Brasil o ‘carro do terror’ era a Veraneio. Na República Dominicana o ‘Fuscão Preto’. Na Argentina foi o Ford Falcão (r). Apesar disso, ele é muito popular e querido até hoje.

Portanto um simples cálculo nos mostra que a ditadura argentina foi nada menos que 120 vezes mais letal que a brasileira.

Não há a necessidade de se argumentar além disso, já que só idiotas discutem com números.

Da Esma (escola técnica da marinha transformada no ‘Dops argentino’) partiam os famosos ‘Voos da Morte’:

Os presos eram dopados pra ficarem inconscientes, embarcados em aviões e desmaiados atirados sobre o Delta do Rio da Prata ou sobre o mar.

Praça de Maio, epicentro político da Argentina no Centro de B. Aires.

Dezenas de corpos acabaram aparecendo boiando nas praias da Argentina e Uruguai.

Os que acabaram na costa argentina os ditadores recolheram e deram fim nos cadáveres.

Mas os mortos argentinos que foram pro Uruguai foram preservados. Posteriormente identificados, serviram como provas nos processos contra os militares.

Muitos milhares mais desapareceram pra todo sempre, dissolvidos na água e devorados por animais marinhos.

Noturna do Obelisco da 9 de Julho em B. Aires, cartão-postal-mor argentino.

De todos os que foram presos na Esma, apenas 150 foram soltos ainda vivos. Mais de 5 mil foram chacinados.

A minúscula proporção entre libertados com vida e executados nos autoriza igualar o regime de Videla ao de Pol Pot.

5 mil mortos apenas e tão somente num único centro de detenção. No país inteiro foram 30 mil.

……...

Por outro lado, se lá a repressão foi muito pior, em compensação os militares foram julgados e presos.

Menen reverteu os processos, a gestão de Nestor Kirchner os reabriu. O ditador-ícone, Jorge Rafael Videla, morreu na prisão, em 2013.

Próximas 2 (via ‘Google Mapas’): favela Vila 51, bairro de Vila Lugano, Zona Oeste, município de Buenos Aires. Também chamada ‘Cidade Oculta‘.

Já falamos do pós-ditadura. Primeiro vamos ver como foi a matança.

Não são apenas números, e só eles já são impressionantes. Mas fica pior. Muito pior.

Primeiro, o massacre foi centrado contra a juventude de classe média, especialmente na capital.

O regime militar tornou essa geração acéfala. Faça as contas. 30 mil foram sumariamente executados.

Na ditadura, Videla mandou murar a Vila 51, pra que ela ficasse oculta as vistas de quem passava pela avenida em frente, aí surgiu o apelido usado até hoje, décadas depois da queda do ‘muro da vergonha’.

Conte aí as muitas dezenas de milhares mais que foram torturados, exilados, ficaram viúvas (o), órfãos, etc.

Os ditadores eliminaram, ou no mínimo prejudicaram severamente, toda uma geração daquela que hoje é a classe dirigente nacional.

Daí nada mais natural a confusão multidimensional que engolfou a Argentina.

Primeiro, na Argentina houve o rapto sistemático dos bebês das presas políticas.

Próximas 3: estação de trem (de subúrbio) Rivadávia, bairro de Nunhez, onde fica a Esma, daí os murais lembrando a ditadura.

O que nunca ocorreu no Brasil, certamente não em escala industrial como aconteceu lá.

Segundo, após a Segunda Guerra mundial, a Argentina acolheu diversos oficiais da Alemanha nazista.

Com novos documentos, alguns desses alemães prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, se é que se pode colocar assim.

Por isso as torturas infligidas aos presos políticos na Esma e outros ‘Centros Clandestinos de Detenção’ espelhou as experiências nazistas nos campos de concentração:

Não visavam somente confissões, não visavam somente infligir dor num ato de sadismo.

Isso é universal, existiu na ditadura brasileira (e ainda existe em nossas delegacias hoje contra presos ‘comuns’).

Essa gravura é no mesmo local, a Estação Rivadávia em Nunhez. As argentinas adoram cachecóis. As chilenas idem.

As torturas na Argentina, como em Auschwitz antes disso, visavam também desumanizar o adversário.

Retirar dele ou dela qualquer réstia de dignidade, pra que ele preferisse a morte a continuar pelo suplício.

Mas o ‘tiro de misericórdia’ era negado, o tormento prosseguia, num ‘1984’ puro.

………..

A esquerda abaixo a Praça de Maio, Centro de Buenos Aires. Ao fundo a Casa Rosada, palácio presidencial.

Pintado no chão o lenço que é o símbolo das ‘Mães da Praça de Maio‘.

Grupo que montou a resistência mais efetiva a ditadura protestando nesse exato local.

Nem Videla teve coragem de prender e torturar senhoras idosas, que pacificamente apenas pediam pra saber onde estavam seus filhos.

E elas tinham razão de estarem preocupadas:

Na Argentina houve formas de torturas desconhecidas no Brasil, só praticadas nos regimes mais opressores da Ásia na época, que descreverei mais abaixo.

Cartaz na Praça de Maio conta a história do epicentro político da nação.

No ‘consciente coletivo’ brasileiro, o nome do chileno Augusto Pinochet é o símbolo dos ditadores sul-americanos.

A maioria dos brasileiros nunca ouviu falar de Jorge Rafael Videla, que cumpriu esse papel na Argentina. Mesmo o paraguaio Stroessner é mais conhecido aqui que Videla.

Um dos motivos é que quando a Argentina era ditadura o Brasil também, assim nossa mídia preferia não tocar não tocar muito nesse tema.

Fundos da Casa Rosada. Em 1º plano o Escudo Nacional que há na grade.

Pois a imprensa era censurada, e ademais a maior rede de TV era a relações-públicas dos militares.

Portanto era melhor não atirar pedras nos outros quando seu próprio telhado era de vidro.

A Argentina voltou ao regime civil em 83, o Brasil logo após em 85. O Paraguai, entretanto, só em 89, e o Chile em 90.

O governo de Sarney, a segunda metade dos anos 80, foi uma era bem confusa no Brasil, como quem tem mais de 30 lembra perfeitamente. E natural.

Centro de Buenos Aires.

Afinal recém reconquistámos os direitos de expressão e associação, mas o caos econômico e político foi total.

Assim, nesse período de catarse, a mídia exorcizava o período que esteve amarrada falando intensamente dos ditadores Pinochet e Stroessner.

Videla foi poupado dessa propaganda negativa, pois quando ele governava com mão de ferro seus colegas faziam o mesmo no Brasil.

E o departamento de censura militar é quem determinava as manchetes dos jornais.

Mapa das favelas na Grande Buenos Aires: a direita no município (cap. federal). Um similar já seguiu na postagem anterior. A esquerda, e esse é novidade, na região metropolitana.

que o regime argentino foi ainda mais letal que o chileno.

E muito, mas muito mais letal que o paraguaio.

Na ditadura Pinochet morreram cerca de 3 mil chilenos.

Dez vezes menos que na Argentina, sendo que a população do Chile é 2,5 vezes menor que a desse seu vizinho trans-andino.

‘Dom’ Alfredo Stroessner torturou e exilou muita gente no Paraguai, é certo.

Chegamos a uma Buenos Aires imersa em caos, março de 2017. Protestos fechavam a cidade inteira. Fui ao jogo São Lourenço x Atlético Paranaense. Na volta, já tarde da noite os protestos continuavam, aqui um deles. Em primeiro plano o validador onde você encosta o cartão de transporte pra descontar a passagem do ônibus.

Mas em termos de vítimas fatais, calcula-se em 400 o número de desaparecidos e executados por seu regime.

Com a população paraguaia 30 vezes menor que a nossa, e pouco menos da metade dos mortos, a taxa de letalidade é de 10 a 15 vezes maior que a nossa.

(Nota: anteriormente calculei erroneamente essa proporção, corrigido agora.)

Portanto a ditadura Stroessner, arredondando por alto a proporção de mortos em relação a população total, é bem mais violenta que a brasileira, mas menos que chilena, e incomparavelmente menos que a argentina.

Oras, em 2013 eu passei pelas ruínas de um supermercado que  9 anos antes pegou fogo na Zona Norte de Assunção. Ali morreram igualmente 400 pessoas.

Porque mesmo com as chamas consumindo o local os donos mandaram fechar as portas pra “impedir que as pessoas saíssem com produtos sem pagar”. Oras, num único dia, por ganância pra não ter prejuízos materiais, o dono dessa rede de mercados matou tanta gente quanto o governo Stroessner em 35 anos.

As famosas “Águas Vermelhas” da praça principal de Mendonça.

É evidente que nenhum Ser Humano deveria ser assassinado, e um dia vamos chegar lá. Mas convenhamos, outros ditadores foram bem mais sanguinários que ‘Dom’ Alfredo.

Stroessner rebatizou com seu nome o que na época era uma distante e desimportante cidade nos confins do interior, é certo.

Vamos falar do mais sanguinário de todos. O que dizer então do dominicano Rafael Trujillo?

Que afinal mudou o nome da capital (e na verdade única cidade grande da pátria) em sua própria homenagem??

A ditadura mais sangrenta da América certamente foram os 31 anos (1930-61) em que Trujillo comandou com mão-de-ferro, alias mão-de-aço, a Rep. Dominicana.

Um paradoxo: entre a classe média argentina predomina o materialismo (ateísmo). Mas o povo é bastante religioso. A Argentina, ao lado do México, é entre os países que já visitei o que mais têm essas capelinhas nas ruas. Essa é em Mendonça e traz ao lado da bandeira nacional as do Peru e Chile.

Foram eliminados 50 mil pessoas, 30 mil haitianos e 20 mil dominicanos. Trujillo matou mais de 1% da população dominicana.

Digo, em termos de matança Trujillo está ao lado (fisicamente e na questão dos números) de ‘Papa Doc’, no vizinho Haiti. Seu governo exterminou entre 30 a 60 mil pessoas, o que também dá mais de 1%.

A Argentina ficou em aproximadamente 0,1%, na primeira casa decimal, Chile e Paraguai oscilam entre 0,02 e 0,04%, enquanto que no Brasil a taxa é de 0,001%.

Os números são aproximados, apenas pra termos uma noção, e não seguem rigor estatístico. Mas são válidos pra compararmos.

IRONIA DA VIDA: VIDELA RECLAMA DE ‘MAUS-TRATOS’ NA PRISÃO –

Em compensação, de todos esses países a Argentina foi o único que a justiça funcionou, e os ditadores acabaram passando um tempo atrás das grades.

Aqui em Porto Madeiro, um novo bairro de elite a beira d’água que foi feito no Centro de Buenos Aires (na Cidade do Cabo/África do Sul um projeto idêntico está em implantação).

Na República Dominicana, a CIA estadunidense pôs e manteve Trujillo no poder. Mas quando não foi mais interessante, a CIA descartou-o, como ela sempre faz.

Assim Trujillo morreu no cargo, assassinado numa emboscada com armas fornecidas pela própria CIA.

No Brasil no fim de seu regime os militares passaram a ‘Anistia’, pra aqueles quem eles perseguiam, e também pra si mesmos.

Resultando que ninguém respondeu por violações de direitos humanos em nossa pátria.

Stroessner foi deposto em golpe militar, o mesmo instrumento que ele usara pra vestir a faixa presidencial foi usado contra pra retirar dele esse símbolo do poder presidencial.

Feitiço contra o feiticeiro. Mas quem assumiu no seu lugar achou que geraria menos problemas políticos exilar Stroessner que julgá-lo e aprisioná-lo.

Assim o ex-ditador paraguaio se mudou pro Brasil onde viveu seus últimos 17 anos numa vida bucólica em nossa capital, sem se incomodar com a justiça.

Nas favelas de B. Aires, a ‘cultura da laje’ (prédios artesanais que o próprio morador vai erguendo um andar por vez, sem qualquer tipo de alvará) está tão consolidada quanto no Sudeste do Brasil e Salvador/BA. Aqui vemos a favela Vila 21 (em Bs. As. elas são numeradas, como em Medelím/ Colômbia). Zona Sul, ainda no município da capital mas divisa com Avellaneda.

Pinochet foi acusado pelo juiz espanhol Baltazar Garzón pelos crimes que cometeu, e chegou a ficar 1 ano e meio em prisão domiciliar na Inglaterra.

Mas não houve como extraditá-lo pra ser julgado na Espanha por crimes de ‘lesa-humanidade’, como queria a acusação.

Resultando que em 2000 ele foi liberado pela justiça inglesa, e voltou ao Chile como um Homem livre.

Em dezembro de 2004, quando haviam pendentes contra ele mais de 300 acusações, foi posto em prisão domiciliar.

Assim viveu mais 2 anos. Em dezembro de 2006 desencarnou, sem ter sido preso ou condenado.

Na Argentina, entretanto, foi diferente. Após a volta do regime civil com Raul Alfonsín em 83 houve uma primeira tentativa de julgar os militares.

Mas na periferia de Buenos Aires fora das favelas, e no interior dentro e fora das favelas há poucas lajes. Agora que essa cultura começa a germinar. Flagrei essa na periferia de Córdoba.

Alfonsín revogou a auto-anistia que os ditadores se concederam no apagar das luzes de seu mandato, e houveram condenações na justiça.

Mas motins militares e a ameaça aberta de novo golpe de estado forçaram seu recuo. Seu sucessor Carlos Menen novamente anistiou os militares ditadores.

Depois de Menen veio Fernando de la Rúa, que foi obrigado a renunciar numa rebelião popular em dezembro de 2001.

Quando a Argentina re-assumiu a ordem constitucional, a partir de 2003  presidente foi Nestor Kirchner.

Nestor, e sua esposa Cristina que o sucedeu no cargo em 2007 e ficou até 2015, reverteram mais uma vez o rumo dos acontecimentos.

A infra-estrutura urbana na Argentina é precária. É muito comum vermos esgoto correndo a céu aberto. Aqui estou na Zona Sul do município de Buenos Aires.

Em novo giro de 180º, os ditadores foram levados mais uma vez a juízo. Rafael Videla cumpria prisão domiciliar, como ocorrera com Pinochet no Chile.

Mas em 2008 VIdela foi pro presídio, a princípio militar, depois civil. E seus advogados e família reclamaram de ‘maus-tratos’ e ‘negligência’.

Ironia, não? Um dos torturadores e exterminadores-mor do planeta se queixar que as condições da cadeia são muito duras.

Mas não teve jeito. Quando já estava a 4 anos e meio encarcerado, Videla sofreu mal súbito, e desencarnou em março de 2013.

Periferia de Córdoba, mesma cena.

Como dito, os ditadores argentinos foram os mais cruéis do continente, excetuando Trujillo e ‘Papa Doc’. Mas a justiça de seu país também foi implacável com eles.

“ESCOLAS DO TERROR”: A ESTRANHA FIXAÇÃO DOS TORTURADORES ARGENTINOS COM A ‘EDUCAÇÃO’ –

O maior centro de tortura argentino funcionou numa antiga escola técnica militar. Como é sabido, o ‘Dops argentino’ era na Esma, ‘Escola de Mecânica da Marinha’.

Hoje, funciona ali o Museu dos Direitos Humanos. A ex-Esma fica no bairro de Nunhez, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Pra falarmos de uma coisa leve, os refris na Argentina. Lá ainda existem 7Up (ao fundo um buso no bairro Palermo), Crush e Mirinda. Passo de los Toros é uma marca local que também fotografei no Paraguai. Voltando a Argentina, Talca é um clone local da Pepsi. A lata da Coca é ‘caçula’ (250 ml), mas a garrafa é maior (350 ml, contra 290 ou 300 aqui). Já no Chile a garrafa (de todas as marcas) é menor que no Brasil. A fábrica da Coca na Argentina exporta também pro Paraguai e Uruguai. Nosso Guaraná Antarctica faz sucesso na Argentina, mas no verso tem uma explicação que é um “fruto exótico” da Selva Amazônica. É fabricado pela Quilmes (cerveja mais popular da Argentina) e exportado também pra Bolívia e Uruguai.

A poucas quadras dali está o ‘Monumental de Nunhez’, pertencente ao River Plate, maior estádio do país e por isso a casa oficial da seleção argentina.

Do futebol já falamos em mensagem a parte, ricamente ilustrada. Aqui o tema é a política. Ou melhor, nesse caso o futebol interfere na política.

O golpe militar foi em março de 76. Mesmo antes dele, ainda no regime civil da primeira presidente Mulher da história da Humanidade (‘Isabelita Perón’), já estavam ocorrendo ‘desaparições’ políticas.

Mas depois que os militares assumiram o poder de fato (embora não de direito) a coisa piorou muito.

Se a Argentina já não estava calma de 68 a 76, a 2ª metade dos anos 70 foi um banho de sangue.

E, vejam vocês, quando do golpe já estava definido que o país sediaria a próxima Copa do Mundo.

Na final da Mundial de 78 o Monumental explodia em alegria pela vitória da seleção local.

A Argentina está mudando o emplacamento. A direita modelo antigo (ainda predominante em março.17), 3 letras e 3 dígitos. A esquerda o novo (há rumores que será implantado em todo Merco-Sul, Brasil incluído), com 2 letras, 3 dígitos e mais 2 letras.

E, bem perto dali, centenas de argentinos gritavam também, mas de dor nas câmaras de tortura.

Pra felicidade dos ditadores, a ‘alvi-celeste’ venceu sua primeira Copa jogando em casa (a segunda e última foi 8 anos depois, em 1986 com um Maradona endiabrado).

Voltemos a 78. Essa ‘Dieguito’ não jogou pois era muito jovem. Ainda assim a Argentina foi campeã, batendo a Holanda na final.

O êxtase que tomou conta da pátria abafou a questão política, tirando o foco e permitindo que as atrocidades seguissem.

Os gritos de ‘gol’ foram mais fortes que os que vinham dos porões dos Centros Clandestinos de Detenção, sendo que o principal deles estava bem ao lado.

Próximas 2: Porto Madeiro, Centro de Buenos Aires. Construído no antigo cais do porto.

O estádio do River Plate fica na verdade no vizinho Belgrano, mas é na divisa dos bairros, por isso o ‘Monumental de Nunhez’ na boca do povo.

Na capital o maior centro de detenção e tortura ficava em um de seus bairros mais chiques e caros.

Local elitizado, moram muitos artistas. Um deles fez essa escultura, ‘derreteu’ a base dos postes de luz.

Entretanto, na principal cidade do interior a cadeia ficava próxima mas já totalmente fora da cidade: bem-vindo a “Pérola de Córdoba”.

Se é que alguém pode ser bem-vindo a um lugar macabro desses. As margens da rodovia que leva a Carlos Paz ficava o presídio chamado de ‘A Pérola’.

Com a virada da maré e volta da democracia as prisões da ditadura foram renomeadas ‘Centro Clandestino de Detenção’ – CCD.

Tenha o título que tiver, na “Pérola” ficaram boa parte dos presos políticos do Norte do país.

Pros íntimos, Pérola era chamada de  “Universidade do Terror”. Curioso esse apelido, não? Fora o fato que a Esma era numa escola. 

Como se tortura e assassinatos fossem matérias educativas.

Fica pior. Notam a direita a placa da rodovia que indica a entrada pra ‘Pérola’ (imagens baixadas da rede) alguém escreveu ‘Volta Videla’.

E desenhou mas logo a seguir riscou o lenço das Mães da Pça. de Maio, que viram em foto mais pra cima na matéria.

Aeroparque, o aeroporto central de B. Aires. ‘Austral’ é a marca pra curtas distâncias da Aerolineas Argentinas.

É. Ainda tem gente saudosa dos ‘Voos da Morte’, e das ‘Escolas do Terror’ dos Anos de Chumbo.

…..

Disse acima que Nestor Kirchner e sua esposa Cristina são heróis da esquerda argentina.

Pois revogaram várias anistias que haviam sido auto-concedidas e depois re-concedidas por Menen aos militares por crimes na ditadura.

Após 3 mandatos dos Kirchner (1 dele e 2 dela), a direita voltou ao poder. E almejam o sonho de ver Cristina atrás das grades (dir.)

Não há como prender o marido porque Nestor já desencarnou em 2010. Mas se possível eles colocarão uma ‘esposa’ na esposa.

(Quem não conhece o idioma espanhol não entendeu o trocadilho. Nessa língua a palavra ‘esposa’ tem duplo significado.

Centro de Córdoba.

É sinônimo de ‘cônjuge’, como em português. Mas ‘esposa’ signifca também ‘algemas’. Estar ‘esposado’ é estar algemado.)

Alguns auxiliares de primeiro escalão dela já estão ‘esposados’. Lemos no jornal em março de 2017 que Cesar Milani, ex-comandante-geral do Exército no governo de Cristina, foi pro presídio.

E não apenas isso, ele está num presídio feminino. Em Ezeiza, na região metropolitana da capital (onde fica o aeroporto de mesmo nome).

A justificativa é no xadrez masculino ele seria morto. Como ele já está no pavilhão das Mulheres, o sonho da direita é que sua ex-chefe Cristina fique na cela ao lado.

Ir pra Argentina em muitos aspectos é como viajar ao passado. Vejam a chave do hotel que nos hospedamos em Córdoba. Sim, de metal.

…..

Na Argentina os presos políticos sofreram todas as formas de suplício aplicadas no Brasil (pau-de-arara, afogamento, choque elétrico). Mas muito pior que isso.

Lá houveram técnicas de tortura que não foram usadas aqui:

Os infelizes detidos em alguns pavilhões na macabra Esma eram conhecidos como ‘Os Encapuzados’.

E eis a portaria do prédio que ficamos no Centro de Buenos Aires. Na Argentina todos os interfones são desse modelo, como era o Brasil 20 anos atrás. Tem que ter uma tecla pra cada apê, se forem dois blocos o aparelho é o dobro desse. Não existe ainda interfone com teclado, em que você simplesmente digita o nº do apartamento.

O nome se deve a que eles ficavam o dia todo acorrentados na posição fetal, com grilhões nas mãos e pés, e com toucas ou vendas cobrindo-lhes os olhos.

É isso. não podiam ver nada, e nem sequer se mexerem. Reveja a segunda foto da matéria, no alto da página, que ficara claro.

Os presos ficavam em baias individuais, pra não conversarem entre si.

Eles eram libertados uns poucos minutos por dia, apenas pra ir ao banheiro, onde eram acompanhados por seus captores.

As Mulheres precisavam sentar ao vaso e banhar-se sob as vistas de seus torturadores do sexo oposto.

Afora esses poucos minutos de ‘liberdade vigiada’, vários dos Homens e Mulheres detidos na Esma passavam o dia inteiro acorrentados e encapuzados.

A ‘liberdade’ é relativa, eles apenas podiam andar um pouco por dentro da prisão, e vigiados por soldados fortemente armados.

Mas pelo menos nessa hora podiam ver e movimentar seu corpo, era o melhor momento do dia.

Centro de Córdoba: bandeiras nacional e estadual nesse belo fim-de-tarde.

Eu disse que os militares argentinos usaram padrões de crueldade asiáticos, desconhecidos na América

Na Ásia (já veremos exemplos) é corrente esse prática de manter os detentos imobilizados por longo período.

Nada nem remotamente parecido jamais existiu no Brasil. Voltemos a descrever os tormentos dos ‘encapuzados’ na Esma:

Eles permaneciam vendados mesmo na hora das refeições. Ali o marinheiro soltava brevemente os braços – mas não tirava o capuz do prisioneiro.

Ele ou ela só sabia qual era o cardápio quando punha o alimento na boca. Isso era uma tortura em si mesmo, a desumanização extrema do inimigo.

Mafalda também passa na TV, não é só quadrinhos. Um ícone na capital argentina.

Pois assim o cativo estava completamente batido.

Não tinha sequer o direito de saber o que comia, exceto quando a gororoba já descia pela goela.

Se isso te parece uma forma de punição aplicada num campo de concentração nazista, é porque é exatamente isso:

A Argentina (e também em menor escala a Bolívia e o Paraguai) recebeu centenas de oficiais e soldados da tropa da SS, fugidos da Alemanha pra escapar do Julgamento de Nuremberg.

Mais 2 da favela Vila 31, a mais famosa de Buenos Aires, bem no Centrão.

Vários desses alemães, com documentos falsos, prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, como também ocorreu nos EUA.

De volta a Argentina, basta lembrar que Adolf Eichmann vivia em Buenos Aires e trabalhava na fábrica da Ford.

Desse subúrbio da capital argentina ele foi sequestrado pelo Mossad pra ser julgado em Israel.

Josef Mengele também viveu na clandestinidade na Argentina no pós-guerra.

Enfim, de volta a Esma. Nem todos os presos eram ‘encapuzados’. Alguns mais afortunados eram obrigados a trabalhar pros militares.

Tinham que falsificar documentos (passaportes, etc) que eram usados em novas capturas de militantes.

Ou então escrever matérias pra imprensa dizendo que os exatos abusos que eles estavam sofrendo na verdade “não ocorriam, era ‘intriga da oposição’ “.

Ironia, não? Presos políticos eram obrigados a escrever que não havia presos políticos em território argentino.

Numa espécie de tortura psicológica, eram obrigados a negar sua própria existência. Bom, era melhor que ficar sem visão e acorrentado ao solo. Qualquer coisa era melhor.

……….

Na Argentina cada estado (lá chamado ‘província’) tem uma ‘embaixada no Centro da Capital Federal. Essa é a ‘embaixada’ do estado das Missões, onde há muitas casas de madeira – como no Brasil mas ao contrário das grandes metrópoles argentinas.

Alias o único fugitivo da Esma era exatamente um desses presos que trabalhavam.

Horácio Maggio, apelidado ‘Nariz’, foi sequestrado pela Marinha Argentina em 1977.

Passou um ano e um mês na Esma. Inteligente, foi cordato com seus captores, pra ganhar a confiança deles.

Assim ele era um dos que trabalhavam. Mais que isso, de vez em quando ele ou outros presos faziam serviços externos.

Sempre acompanhados por um marinheiro armado, claro. Numa dessas saídas, Horácio ‘Nariz’ se tornou a única pessoa a fugir da Esma.

As versões variam, e ele não viveu muito tempo pra contar sua história.

Córdoba: pessoas sem proteção na caçamba, cena digna da África e das partes mais pobres da América Latina.

Segundo uma das versões, ele entrou numa loja pra comprar material de escritório.

O guarda ficou na porta, pois pensou que era suficiente, não haveria como o prisioneiro escapar pois teria que passar por ali fatalmente.

O que o guarda não sabia é que a papelaria tinha outra saída do lado oposto, pra rua dos fundos.

Horácio teria se evadido por ali, se tornando então um dos Homens mais procurados da Argentina.

Tropas de elite da Marinha e outros setores das forças de segurança faziam uma caçada humana frenética recapturá-lo.

Cosquín, interior de Córdoba: família na moto, todos sem nenhum tipo de proteção.

Horácio Maggio não deixou por menos. Ao invés de sair do país, preservando assim sua vida, optou por continuar lutando contra a ditadura:

Pôs-se a escrever cartas e telefonar pra imprensa e ONG’s estrangeiras (pois as nacionais eram censuradas).

Pra denunciar a repressão argentina, que oficialmente não existia.

Nos noticiários de TV e jornais, os militares apenas combatiam dentro da lei os guerrilheiros ‘pra evitar a revolução comunista’.

Calçadão no Centro de Mendonça.

Mas os relatos de Horácio, em primeira pessoa, geraram uma repercussão negativa ao governo, afora o fato que ele já havia dado um drible nos seus carcereiros ao fugir.

‘Nariz’ resolveu mesmo ser a ‘pedra no sapato’ da Esma. De orelhões ele ligava pro centro de torturas e discutia com os marinheiros.

Dizendo que breve eles seriam julgados ‘como os nazistas foram em Nuremberg’.

Centro de Córdoba: semáforo em que o pedestre (na verdade a pedestre) é uma Mulher de vestido e cabelos compridos.

Aí se tornou questão de honra ser capturado ‘vivo ou morto’.

O regime não poupou esforços pra localizá-lo. Em outubro de 1978, sete meses depois de sua fuga, a saga de Horácio ‘Nariz’ Maggio chegou ao fim:

Um pelotão do Exército o encontrou, e cercou-o na rua. Em desespero ele pulou o muro pra uma obra.

Dali, atirava tijolos nos soldados, na tentativa de ter mais alguns minutos de vida.

A resposta veio com muitas saraivadas de metralhadoras.

Horácio tombou sem vida. Terminara a epopeia do único foragido da temida Esma.

Seu cadáver crivado de projéteis foi caravaneado pelas celas do centro de torturas.

“Macri Gato”, o mantra oni-presente da Argentina. Maurício Macri é um ‘neo-liberal’, e suas políticas concentram renda, é fato. Mas foi eleito democraticamente, e hoje não há censura, presos políticos nem ‘desaparecidos’ na Argentina. Ainda assim, a esquerda iniciou uma insurreição civil pra derrubá-lo.

……….

O número de 30 mil desaparecidos e executados pelo regime é repetido o tempo inteiro por vários movimentos sociais na Argentina.

Como até os cartazes nas ruas deixam claro. Mas, é óbvio, não deixa de ser controverso. Os setores da direita insistem que foram “apenas” 9 mil mortos.

Eu estive na Argentina em março de 2017, quando o país enfrentava uma insurreição (civil) que visa derrubar o presidente (eleito democraticamente) Maurício Macri.

O país estava em caos, como descrevi com muitas fotos na mensagem de abertura da série.

A nação está em turbilhão, a um passo de decretação do estado de emergência, veja a manchete do jornal.

A situação persiste uns meses depois, quando produzo e levanto esse texto (julho.17). Por hora voltemos a março:

Passeatas exigiam o reconhecimento consciencial do ‘Genocídio Argentino’, com a oficialização da cifra dos 30 mil cadáveres.

Questionado sobre o tema, Macri declarou: “não sei se foram 9 ou 30 mil, mas é fato que morreu muita gente”.

“Vamos virar a mesa”, eis o lema dos insurgentes. Veja, em março somando passeatas e greves gerais foram 21 protestos, quase um por dia.

Ele é político, então obviamente ficou em cima do muro, não definiu publicamente qual dos dois números ele crê ser verdade.

Maurício Macri pretende agradar a todos, ou no mínimo não desagradar nenhuma corrente, como é habitual entre as pessoas que dependem de votos pra terem emprego.

O que quero apontar aqui é que essa declaração, de um presidente no exercício do cargo, sintetiza o quão sangrenta foi a ditadura argentina.

Disparada a mais letal da América do Sul, como apontado bem acima da chilena, brasileira e paraguaia.

Uma vez que é evidente que mesmo o número otimista de 9 mil já seria 3 vezes pior que Pinochet no absoluto.

E olhe que Pinochet não matou pouca gente.

Vamos pra uma panorâmica. Tenha em mente que eu não fotografei todos os cartazes. Mesmo assim a coisa é assombrosa. Não perca a conta: 6 e 7/3.

O oposto sendo verdadeiro. Sua ‘Dina’ (‘Dep. de Inteligência Nacional’, a temida polícia política da repressão chilena) não era famosa por economizar munição.

Muitas vezes eles exterminavam famílias inteiras, como ocorreu no célebre caso da ‘Rinconada de Maipú, na Zona Oeste de Santiago.

E mesmo assim a Argentina matou 10 vezes mais gente no absoluto, e proporcionalmente de 3 a 4 vezes mais, se aceitarmos a cifra de 30 mil.

Que eu acredito ser verdadeira, afinal apenas e somente na Esma foram mais de 5 mortos.

7/3.

…….

Não foram apenas os assassinatos em maior número, na Argentina, repito, ocorrerem barbaridades que não se repetiram em outras partes, certamente não no Brasil.

Já falamos das formas de torturas trazidas de Auschwitz, de impedir a pessoas de ver, falar e se mexer em tempo integral.

Outro ponto doloroso, que igualmente não existiu em nossa pátria, foi o sequestro deliberado de centenas de bebês das presas pelos generais torturadores.

Muito mais de uma centena de milhares de pessoas passaram pelos cárceres políticos argentinos nesse período.

14/3.

Embora a imensa maioria fosse de Homens, muito mais de uma dezena de milhares de Mulheres argentinas sofreram o mesmo martírio, ou na verdade um martírio ainda maior.

Me refiro ao fato óbvio que boa parte delas senão quase todas as presas políticas foram estupradas por seus captores.

Isso ocorreu também no Brasil, não tapo sol com a peneira. Mas hoje nosso tema é a Argentina, então bora de volta pra lá, pois fica ainda pior.

Algumas centenas de argentinas estiveram atrás das grades quando grávidas. A maioria delas já estava ‘de barriga’ quando capturadas.

20, 21 e 22/3. Colado em cima de um cartaz que chamava pra manifestação em 24/3 (o que abre a reportagem, no topo da página).

Mas algumas tiveram a infelicidade de gerar um filho de seus torturadores/estupradores. Isso, repito, foi igual no Brasil. A diferença vem quando o bebê veio ao mundo.

Caso o recém-nascido fosse branquinho e saudável, no país vizinho muitos generais roubaram essas crianças e as registraram em seu nome.

A seguir rapidamente assassinaram a presa, pra que ela não delatasse o rapto. Foram centenas desses casos. E esse sequestro coletivo não encontra paralelo no Brasil.

21 e 22/3.

Muitos oficiais das forças armadas argentinas não tinham filhos, por eles mesmos ou suas esposas serem estéreis.

Lembre-se, nos anos 70 a medicina nem de longe tinha o poder que possui hoje pra modificar essa condição.

Então ocorreram muitos sequestros de bebês, após o parto a mãe era sumariamente eliminada (muitas vezes atiradas no mar num ‘voo da morte’).

21 a 22 ou 23/3, ficou pequeno e não dá pra ler com toda certeza.

E generais e almirantes registravam esses filhos como se fossem legítimos deles. Por isso ONG’s hoje auxiliam as pessoas que no papel são filhas de militares.

Mas que no fundo de sua Alma têm uma ‘pulga atrás da orelha’, uma dúvida se aqueles são mesmos seus pais ou se elas nasceram em cárcere de outras mães raptadas.

Em Córdoba vi um mural na rua: “Se você nasceu entre 1975 e 1984 e tem dúvidas quanto sua origem, procure-nos”.

Assinado pelas “Avós da Praça de Maio“, organização-espelho das famosas “Mães da Praça de Maio”.

Apenas as “Avós” obviamente é formada por Mulheres mais velhas, que tiveram seus netos sequestrados, ao invés de seus filhos.

Mas peraí!!! Como assim, “1975”? “Se a ditadura militar se iniciou em 29 de março de 1976”???, alguém perguntaria com toda razão. Porém infelizmente é verdade.

24/3.

A violência na Argentina foi tão áspera que os desaparecimentos e execuções políticas por agentes do estado começaram 2 anos antes do golpe militar, ainda em 1974.

Isso estou falando de sequestros e execuções perpetrados pelas forças armadas oficiais. Pois desde 1968 a Argentina vivia uma conflito armado.

De um lado, forças da extrema direita (o grupo “Aliança Anti-comunista Argentinta”, o “Triplo A”, equivalente ao “Triplo C” brasileiro, o ‘Comando de Caça aos Comunistas’.

Do outro, a extrema esquerda, representada no início somente pelos ‘Montoneros‘, mais tarde surgiu a guerrilha “Exército Popular Revolucionário” – ERP.

Sem data.

Ambos os lados praticavam atrocidades, com sequestros e execuções sumárias.

De 1968 até antes do golpe, em março de 1976, estima-se que 1,3 mil argentinos tenham sido mortos pelos dois lados.

Em 1974 desencarnou João Perón, figura-ícone argentina. Morreu ocupando a faixa presidencial. Sua vice era a esposa, Isabel Perón.

Com a morte do marido, ela assumiu o cargo, sendo assim a primeira Mulher presidente do todo o planeta Terra, repetindo.

Com a morte do Homem-forte Perón, os grupos armados aumentaram o escopo de suas ações violentas. Isso tanto a esquerda quanto a direita.

Porém a eminência-parda de Isabelita Perón era José Lopes Rega, líder do “Triplo A”, a ‘Aliança Anti-comunista’.

Rapaz desaparecido. Teria sido sequestrado e/ou executado por algum grupo armado? Não sei te dizer, apenas registrei o protesto.

Apenas entre 73 e 74 o ‘Triplo A’ é suspeito de cometer 300 assassinatos.

Mas seu líder é quem dá muitas das ordens no governo de Isabel.

Assim ela, já em setembro de 1974, assina a ‘Lei Anti-Terrorismo’, que dá carta branca aos militares pra eliminar as guerrilhas de esquerda.

Em novembro desse ano as guerrilhas assassinam o chefe de polícia de Buenos Aires, assim Isabel decreta estado de sítio.

Que suspende o ‘habeas-corpus’ entre outras medidas drásticas de igual calibre.

Em fevereiro de 75 o estado parte pra ofensiva total, denominada ‘Operação Independência’.

Protesto sem data. Cartaz colado sobre o do garoto desaparecido.

Os vizinhos Chile e Brasil estão no auge da violência política, esses sob ditadura. A Argentina ainda não passou pelo golpe militar.

Ainda assim o regime civil de Isabel Perón pra ir aquecendo as máquinas já autoriza o exército a ‘desaparecer’ com os militantes que incomodam.

Mas essa ‘liberdade’ ainda era pouca pros que eram da ‘linha-dura.’ Em março de 76, como todos sabem, eles afastam a presidente Isabel Perón do poder.

Pra poderem agir como quiserem, sem freios de qualquer tipo. Portanto evidente que o golpe amplifica e muito o processo. Mas não é a gênese dele.

Repetindo, por 1 ano e 1 mês (fev.75-mar.76), ainda sob regime civil constitucional, centenas de pessoas já havia ‘desaparecido’ nas mãos do estado.

Mendonça, 21/03/17: fotografei um dos protestos, o dos funcionários públicos municipais (no Chile, que é pertinho, eu cliquei uma greve aeroportuária).

Claro, em 7 anos de regime os militares executaram mais 30 mil, então piorou e muito. Mas a prática de sumir gente é anterior a seu governo. Tá bom pra ti ou quer mais?

UMA PÁTRIA DIVIDIDA, UNANIMIDADES SÓ A SELEÇÃO E AS MALVINAS –

A coisa foi feia. Assim, os militares e a direita em geral precisam  tirar o foco da matança na ‘Guerra Suja’ interna.

Por isso, os militares argentinos gostam muito de lembrar a guerra externa contra a Inglaterra pela posse das ilhas.

Pichação em Córdoba protesta contra arrocho econômico. ‘Despidos’ significa ‘despedidos‘, e não ‘pelados, como muitos pensariam.

Que as Malvinas deveriam pertencer a Argentina é um dos pouquíssimos temas de consenso nesse conflitado país.

Pois de resto ele está aguerridamente dividido entre esquerda e direita em quase todos os assuntos.

Mas se o desejo que as Malvinas pertencessem a nação é consenso na Argentina, a Guerra das Malvinas não é.

Zona Sul da capital: ‘Buitre’ é ‘abutre’, ‘urubu’. “Nem mais um dia com Macri, ou seremos colônia dos abutres, seremos devorados por eles”, é o que quer dizer.

Muitos a viram como uma estupidez, um excesso de orgulho da Marinha Argentina. Sim, eles rapidamente venceram a o conflito interno. Não foi tão difícil, né?

A oposição militante era formada por civis, uns poucos estavam levemente armados nas guerrilhas dos Montoneros e ERP. Mas a imensa maioria sequer portava armas.

Após torturar selvagemente Homens e mesmo Mulheres civis, sem armas (com poucas exceções), e executar dezenas de milhares deles, o comando militar se entusiasmou.

Jornais na banca retratam a confusão do país. Os dois de cima são de esquerda, incluso o Página 12 é um clássico da imprensa mundial, um jornal da grande mídia mas de tendência esquerdista. Era curioso parar na banca e ler a cobertura da confusão política que engolfou a Argentina nos 3 maiores jornais da capital: o ‘Clarín’ e o ‘La Nación’ iam por um lado, o ‘Página 12’ sempre divergia, fazia o contra-ponto. O de baixo, Diário Popular, é mídia tradicional, mas um periódico menor, de circulação mais restrita ao subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires.

E levou uma surra da Real Marinha Britânica, os combates não duraram 2 meses e meio.

Bem, se a vitória na Copa de 78, inédita e logo em casa, deu um gás pra ditadura na sua gênese, a desastrada derrota fulminante  nas Malvinas foi seu ocaso:

A guerra foi em 82, já no ano seguinte os militares se viram obrigados a abandonar a Casa Rosada e retornar aos quartéis.

Alguns veem a pancada levada dos ingleses – com a dor psicológica e muito mais física dos marinheiros, pois guerra é sempre guerra – como uma ‘auto-expiação’ de culpa da Marinha.

Uma busca tardia pela redenção na Consciência Coletiva Argentina. De certa forma funciona, dá algum alento.

Já que embora muitos discordem da decisão de atacar a Inglaterra militarmente, quase todos entendem a que a Inglaterra usurpa o que não lhe pertence – visão que compartilho.

Manifestantes acampados na Pç. de Maio. São veteranos da Guerra das Malvinas.

Só a seleção de futebol e esse arquipélago é que são unanimidade na Argentina.

São os únicos 2 assuntos que você pode puxar numa roda de desconhecidos sem que a conversa descambe pra ofensas.

Repetindo, a nação está agudamente partida, esquerda e direita nutrem mutuamente um ódio recíproco que não se ameniza, só aumenta.

Proibido esquecer as Ilhas Malvinas. Não são negociáveis”, diz cartaz no Centro de Córdoba.

Exemplifico pelo o desejo de encarcerar Cristina Kirchner, o que é absurdo. Mas não pense que a esquerda é menos intransigente, porque é tão egocêntrica quanto.

Daí os cartazes e pichações por Buenos Aires que dizem “Reconciliação e perdão jamais”. Tudo bem, os ditadores torturaram e mataram muita gente.

Mas a esquerda quer derrubar um presidente eleito democraticamente, que não decretou estado de sítio ou exceção, e que não desapareceu com ninguém.

Concordo que as política neo-liberais de Macri aumentam a exclusão social, porém a esquerda fala abertamente em ‘virar a mesa’. Isso também não é golpe?

Eu não tomo partido, não sou nem de esquerda nem de direita, eu não voto (isto é, anulo, digito ‘zero-zero e confirma’). Apenas relato o conflito, sem ser parte dele.

Monumento as Malvinas em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano da capital que mostrarei mais abaixo. Tanto a escultura quanto o prédio em construção atrás pertencem a um quartel da Marinha, que abriga também uma escola técnica (como era o caso da Esma, como agora a Esma é um museu as classes foram transferidas pra outras sedes da ‘Armada’).

Agora, o que vi na Argentina é: os ânimos estão muito exaltados, dos dois lados. Todo mundo quer impor o que pensa.

Seja sobre Macri, ditadura, religião, aborto, qualquer assunto, direita e esquerda não aceitam divergências, e querem eliminar quem pensa diferente. 

O Brasil é um país que o povo é bastante despolitizado, e isso de certa forma é bom. Sim, agora aqui os ânimos também estão bastante exaltados, não nego.

Mas muito menos que na Argentina e Chile, sem comparação possível. Na nossa pátria, as diferenças de visão política acabam em discussão. Na Argentina e Chile, acabam em atos de violência.

Temos nossas divergências políticas, mas isso não paralisa o país. Digo, a violência urbana aqui é elevadíssima, muito mais que na Argentina e Chile, não nego. E o Rio de Janeiro está realmente em situação muitíssimo complicada há 2 décadas, que persiste em 2017.

Mas, Rio de Janeiro a parte, nosso país convive com altos índices de chacinas (nas periferias) e assaltos (em toda parte) sim, mas com guerrilhas e insurreições políticas definitivamente não.

Periferia de Buenos Aires (município de Avellaneda, Zona Sul metropolitana).

Na Argentina a esquerda quer reverter a eleição a força, inclusive com apedrejamentos, numa tensão que lembra a África do Sul do ‘Apartheid’. Mas não há qualquer ‘apartheid‘ na Argentina.

E o Chile ainda tem uma guerrilha ativa, anarquista, que além de com frequência promover incêndios e saques, em 2014 bombardeou o metrô de Santiago.

……

Muita politização sem compaixão leva a intolerância, que leva a ofensas a quem pensa distintamente. Isso estamos vivenciando no Brasil. Porém a Argentina e Chile estão um passo adiante, ou melhor atrás. Lá a intolerância leva a violência política. Daí você entende a ferocidade das ditaduras Pinochet e Videla, que brotaram nesse exato campo.

Mas, voltando o foco somente a Argentina de novo, não são só os números, repetindo. É uma questão conceitual.

O metrô de Buenos Aires é o mais antigo da América Latina, de todo Hemisfério Sul, e de toda língua espanhola. Veio só 9 anos depois do de Nova Iorque/EUA, e 6 anos antes do de Madri/Espanha.

O regime ditatorial brasileiro queria apenas se manter no poder. Ou seja, precisava apenas conter a oposição, mas não almejava eliminá-la.

O regime argentino, muito diferentemente, pretendia eliminar fisicamente qualquer um que contestasse sua legitimidade.

Como Pol Pot fazia ao mesmo tempo na Ásia e Hitler fizera antes na Europa.

Por exemplo, na 2ª Grande Guerra um comandante do Exército Alemão foi morto num ataque-surpresa na pequena cidade de Lídice, na atual República Checa.

Manifestações típicas argentinas: o plátano (árvore do frio que já cliquei também no Chile e na África do Sul) e a frota muito velha. Foto em Cosquín, interior de Córdoba.

A SS então foi ao local com grande regimento e matou todos os Homens adultos, e encarcerou todas as Mulheres em campos de concentração, fora as que também foram executadas.

Hitler a seguir dinamitou todas as casas da cidadezinha, limpou o local e plantou árvores. E mandou que o nome ‘Lídice’ fosse eliminado de todos os mapas.

Ou seja, por ter perdido ali um de seus oficiais o regime nazista pretendeu fazer com que a cidade não apenas deixasse de existir – isso ele conseguiu.

Mas ele pretendia também fazer com que nunca tivesse existido, por isso acabou com todas as casas e limpou o terreno de entulhos.

Literalmente Hitler riscou Lídice do mapa. Era proibido até a pronúncia desse nome. Ele quis mudar inclusive o passado.

Falemos num detalhe da linguística: no espanhol pratense (falado na Argentina e seus vizinhos Paraguai e Uruguai) usa-se a palavra vós como 2ª pessoa do singular, ou seja, como sinônimo de ‘você’ (sem o ‘s’) ou ‘tu’. Leia anúncio no Centro de Mendonça: “junto a vós“, “de tu vida”. Repito, ‘vós’ significa ‘tu’, por isso ‘tua vida’ e não ‘vossas vidas’.

Pra resistir, os casais nomearam ‘Lídice’ as meninas que nasceram logo a seguir a esse triste episódio.

Há centenas de Mulheres checas de 70 e poucos anos com esse nome, e a causa é essa:

Se Hitler acabou com uma cidade e pretendeu eliminar mesmo a palavra, a República Checa não permite registrando suas filhas assim.

Na Rodoviária de Córdoba, outro exemplo. “Vós te vás”. Sujeito (aparentemente) no plural, mas pela preposição vemos que é singular.

Pouco depois, na Ásia, outro ditador, Pol Pot, tentou o mesmo, fazer com que a oposição a ele nunca tivesse existido.

Os ‘Campos da Morte’ cambojanos, os temidos centros de concentração do Khmer Vermelho, não intentavam manter as pessoas detidas ali indefinidamente. Não.

Os presídios políticos do Camboja visavam reter ali as pessoas apenas o tempo necessário pra providenciar sua execução e desaparecimento em massa.

Os prisioneiros eram levados de caminhão pro interior, e ali eliminados primeiro a tiros.

Outra noturna do Centro de Buenos Aires.

Depois passaram a matar muita gente e começou a faltar balas (não é modo de falar, é literal), então decidiram usar machadadas e golpes de facão.

O mais famoso dos centros de detenção do Camboja funcionou numa antiga escola de 1º e 2º graus na capital Phon Phen. Hoje o local é o Museu do Holocausto Cambojano.

Bom, Pol Pot era professor antes de se tornar revolucionário.

Voltando a Argentina, seu mais famoso campo de concentração (a Esma) também era numa escola, e hoje também é museu.

Ainda no Centro de B. Aires, o ‘Imperialismo Verde-&-Amarelo‘: o Itaú (e a Petrobrás) estão engolfando a América do Sul, já cliquei o banco também no Paraguai e Chile.

A prisão ‘Pérola’ era chamada ‘Universidade’.

No Camboja, um professor se tornou genocida. Na Argentina, os genocidas se criam professores…..

……….

Hitler e Pol Pot almejaram fazer desaparecer toda e qualquer pessoas que lhes contestasse.

Entre muitos outros que vibravam na mesma frequência, claro.

Mao na China, Stalin na URSS, Franco na Espanha, os exemplos são múltiplos, não ficam tão atrás.

Então. Em menor escala, Videla também nutria semelhante anseio.

Zona Sul de Buenos Aires: periferia típica argentina, casas de alvenaria com porta direto pra rua. No Chile e no Nordeste Brasileiro é assim também.

Claro que não com tanta ferocidade pois isso não lhes era possível.

Mas a junta ditatorial argentina pretendeu se não eliminar de forma plena todos os que lhe contra-disseram, ao menos desumanizar (não é modo de dizer) aqueles que eles capturassem.

A intenção das torturas sofridas na Esma, na ‘Pérola’ e nos outros centros clandestinos era fazer com que o militante se arrependesse.

E não apenas de ter resistido a ditadura, mas que chegasse ao ponto em que ele ou ela se arrependesse mesmo de ter nascido.

……..

Os ditadores brasileiros empregavam força bruta contra seus oponentes, é óbvio.

Em Mendonça, de novo as portas na calçada. Mas com um detalhe extra, os canais pra escoar água que desce dos Andes. Isso só há em Mendonça e alguns bairros de Santiago do Chile.

Nossa ditadura torturou e matou sem piedade muita gente.

Mas ela empregava a força apenas que achava necessária pra não ser derrubada.

Não pretendia, digo de novo, eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

Tanto que vários presos políticos foram julgados pelo tribunal militar.

Evidente que sendo o juiz e o promotor militares, a condenação era quase sempre certa. Mas em alguns poucos casos houve absolvições.

E o mais importante, a ditadura brasileira quis manter essa réstia de legalidade. O que trouxe uma vantagem:

Após ser julgado num tribunal militar, o preso político ficava detido injustamente, e era torturado, é certo.

Mas ele não podia mais ser executado sumariamente, uma vez que havia a ficha dele nos arquivos da justiça militar.

Próximas 2: Vicente Lopes. A estação Rivadávia vista acima fica ainda no município de Buenos Aires (‘capital federal’). Mas cruzando o viaduto muda-se de município e de estado, entramos em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano abastado. Natural, pois também é Zona Norte, a parte rica da cidade. Aqui vemos ao pôr-do-Sol a av. principal de Vic. Lopes, a esquerda uma rua mais calma numa tomada já noturna.

Assim se ele simplesmente desaparecesse, juridicamente os próprios militares se acusariam por genocídio.

Esse detalhe, se não evitou prisões arbitrárias e torturas, certamente impediu execuções em massa. É importante dimensionarmos isso claramente.

Pois na Argentina não funcionou dessa forma. Lá não houveram esses mecanismos ‘legalistas’. A ditadura argentina não usou simplesmente a força necessária pra frear a oposição.

Lá, ao contrário daqui, os ditadores almejavam eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

O regime argentino se assemelha mais ao de Pol Pot, no distante Camboja, que ao de Médici no Brasil que está a seu lado.

Assim embora curioso é natural que o seu ‘QG do Terror’ tenha funcionado numa escola. Hoje o local é um museu.

Isso é mais um ponto que une os regimes do Camboja e da Argentina.

O ‘QG do Terror’ argentino também era numa escola (mostrada acima da manchete), embora nesse caso uma escola militar.

Indo diametralmente pro outro lado da metrópole: também num fim-de-tarde, o Centro de Avellaneda (sede do Racing e do Independente); igualmente região metropolitana, mas agora Zona Sul.

A Esma (Escola de Mecânica da Marinha) era equivalente ao ‘Dops’ argentino, como já dito e é de domínio público.

Quero apontar o seguinte. No Brasil, os presos políticos ficavam detidos injustamente e eram torturados, sim.

Mas executados em massa não. No Camboja, e também na Argentina, a intenção era mais macabra.

Pretendia-se, se possível, aniquilar fisicamente todo e qualquer opositor.

Assim os presos ficavam nos respectivos ‘QG’s do Terror’ apenas o tempo necessário pra se arranjarem os procedimentos necessários pra sua execução.

Córdoba. Na traseira de um ônibus urbano vemos 2 detalhes: 1º, a inscrição “As Malvinas são argentinas“, pra ver a popularidade do mantra; 2º, esse buso é municipal (da capital estadual), só tem 1 placa. Já entenderá porque digo isso.

Pouca gente escapou com vida das ‘Escolas do Terror’ do Camboja.

Na Esma, literalmente a ‘Escola do Terror’ argentina, o mesmo se repetiu.

Enfatizando de novo, somente 150 presos foram libertados vivos.

Provavelmente eram o que estavam ali quando a ditadura acabou, não houve tempo de matá-los. 

Mais de 5 mil foram chacinados apenas na Esma.

Só os mortos nesse local já configuraria a ditadura argentina 5 vezes pior que a brasileira em números absolutos, 20 vezes em termos proporcionais.

Como já explicado a Esma só teve uma única fuga em todo tempo que operou, e o fugitivo foi morto poucos meses depois.

Também Córdoba, e também um buso urbano. Mas tem 2 chapas. E por que? No estado (‘província’) de Córdoba, todos os veículos comerciais (os que aqui no Brasil teriam placa vermelha) necessitam ostentar uma segunda chapa com o registro estadual. Os ônibus municipais estão dispensados, mas os inter-municipais (tanto metropolitanos, esse caso, quanto de viagem) têm que ter.

Seu cadáver foi exibido como troféu pelos militares num cortejo macabro pelas dependências do centro de tortura.

Por que não houve mais fugas na Esma? Era impossível fugir. De segurança além da máxima pois o epi-centro mesmo da repressão. Além de trancafiados em celas vários prisioneiros ficavam acorrentados nas mãos e pés.

Um conceito oriental. Na China e boa parte da Ásia (Japão, Coreia e povos Malaios) a visão é bem mais dura contra os presos.

No Oriente se diz que o objetivo das cadeias não é apenas prender o corpo, mas também a Alma dos prisioneiros.

Os asiáticos entendem que os presídios ocidentais são muito suaves.

Táxi em Córdoba. Com as duas chapas.

Por deixarem o preso privado da liberdade física, mas permitindo a conversa, raciocínio, associação e ócio dos presos.

Não é segredo pra ninguém que as cadeias da China e Coreia do Norte são campos de trabalho forçados.

Em que os detentos trabalham 14 horas por dia ou mais, 365 dias por ano e 366 nos bi-sextos.

Essa é a pintura padronizada estadual do transporte escolar em Córdoba. Com as 2 placas dos veículos comerciais (no Chile, Colômbia e Peru não há a 2ª chapa, mas eles precisam pintar a principal na lateral).

E sem poderem conversar entre si, sem sequer ser permitido desviar o olhar.

Fato menos conhecido é que no rico e civilizado Japão não é tão diferente:

Os presídios também empregam legalmente instrumentos de correção que em quase todos os países do mundo seriam considerados tortura.

Por exemplo, no Japão um preso que comete uma infração disciplinar grave é atado a uma cadeira por 3 dias, até seu pescoço, punhos e tornozelos são  imobilizados.

Nos outros estados não há 2ª chapa. Essa é a padronização dos escolares em Buenos Aires (local dessa tomada) e Mendonça. Eu disse ‘vermelho’, o taxista me corrigiu pra ‘laranja’. Seja como for, é a 1ª vez que vejo um ‘Escolar’ que não é amarelo, tom que ostentam no Brasil, EUA, Chile, entre outros.

A alimentação é por soro intravenoso, e outros tubos dão conta das necessidades fisiológicas.

Em nações ocidentais, se recorre a ‘solitária’ nesses casos.

O cara fica isolado numa cela escura sem falar com ninguém, mas sem estar impedido de movimentar seu corpo.

Pois bem. No Japão, como visto, o conceito é mais amplo:

O preso fica atado completamente imobilizado, literalmente os únicos músculos que ele consegue mexer são os olhos, a boca e os dedos e nada mais.

E isso não é um castigo infligido no porão ilegalmente por um carcereiro particularmente cruel, mas sim um recurso legal aplicado a luz do dia por todos os agentes da lei.

Boliche em Córdoba. Esse esporte é muito mais popular na Argentina que no Brasil. Inclusive ‘ir ao boliche’ na periferia das grandes cidades desse vizinho país significa ‘ir pra balada’, pois nas mesmas casas noturnas que oferecem pistas de boliche também há outras opções de lazer: sinuca, caraoquê, música ao vivo, pista de dança, barzinho. Vi na Argentina um garoto brincando de boliche sozinho na calçada, em plena via pública. Ele arrumava os pinos e a seguir arremessava uma bola de tênis neles, pelo ar mesmo e não ao nível do chão. Suficiente pra provar a popularidade da modalidade. Na República Dominicana vi meninos fazendo uma pelada de beisebol, e agora isso.

Citei essa punição exemplar, que é certo é usada somente em casos extremos mas ainda assim é a lei da terra.

Pra mostrar que o oriental vê a correção dos presos de forma completamente diferente do ocidental.

Na Ásia, o conceito é tirar a liberdade não só física como mental.

Não basta estar trancado entre muros, mas existe ‘a prisão dentro da prisão’, o detido não pode sequer movimentar seu corpo a vontade, incluindo a fala e a visão.

 …….

Entendendo isso, vê-se o porque escolhi nomear essa matéria como ‘Pol Pot na América’. Não é exagero, infelizmente.

Digo, é óbvio que em termos de quantidade o Camboja foi infinitamente pior.

Pois o regime de Pol Pot foi o maior banho de sangue da história da humanidade, em termos proporcionais a população do país.

Próximas 3: Jd. Botânico de B. Aires, na parte rica da cidade, entre Palermo e Recoleta. Aqui a estátua-símbolo de Roma/Itália, os gêmeos Remo e Rômulo mamando na loba.

Em apenas 16 anos (1963-1979) a ditadura do Khmer Vermelho eliminou nada menos que 25% da população cambojana.

(Nisso contando os combates pra que ela assumisse o poder, ali se mantivesse, e depois a invasão vietnamita pra derrubá-la.) 

Pol Pot e seus asseclas simplesmente dizimaram o Camboja. Dizimaram.

Óbvio que a ditadura argentina de Videla e seus colegas não passou nem perto disso, eles mataram “apenas” 0,1% da população argentina. Ainda assim 0,1% em somente 7 anos não é pouco.

Se os generais, almirantes e brigadeiros argentinos tivessem ficado os mesmos 16 anos de Pol Pot mantendo o mesmo ritmo de execuções, eles teriam matado nada menos que 0,25% da população total argentina.

100 vezes menos que Pol Pot? Sim. Mas bicho, ter 1% da letalidade do mais sangrento regime da humanidade já é sangrento o bastante.

Em outras palavras, mesmo 1% do pior genocídio da história do Planeta Terra já configura um genocídio em si mesmo.

Em 21 anos a ditadura brasileira eliminou a vida de 0,001% dos brasileiros.

Portanto faremos uma comparação grosseira entre o número de cadáveres e os anos em que estiveram no poder.

Assim, diríamos que se fossem os mesmos 16 anos de Pol Pot, a taxa no Brasil seria 0,0008%.

Resultando, arredondado grosseiramente pros 16 anos do Khmer Vermelho no Camboja, ou seja dobrando o período da ditadura argentina e reduzindo a brasileira pro mesmo tempo, mas em ambos os casos mantendo a taxa de letalidade:

Vão longe os tempos que a Argentina tinha pouca pobreza. Aqui e a direita, pessoas revirando as latas de lixo de Buenos Aires em busca de algo pra vender. Fotografei mais, a cena é bem comum, até descartei outras imagens. Essa tomada foi feita próxima a São Telmo, na Zona Central.

– Camboja, 25%

– Argentina, 0,25%

– Brasil, 0,0008%.

Já reconheci acima e enfatizo de novo, obviamente trata-se de um arredondamento grosseiro.

Toda hipótese é especulativa por natureza, o que nunca aconteceu só pode ser imaginado, o que sempre torna a comparação imperfeita. 

Feita essa ressalva, o emparelhamento dos números é útil pra deixar nítido como o regime ditatorial argentino esteve mais próximo do cambojano que do brasileiro.

E aqui em plena Recoleta, Zona Norte.

…….

Veja bem, não estou argumentando que a ditadura brasileira foi suave ou gentil.

Evidente que em nosso país os generais também deram um golpe pra assumir um poder que não lhes pertencia.

E depois reprimiram ferozmente quem lhes negava a legitimidade, seja por métodos pacíficos ou de insurreição. 

É um fato, e renomear o processo como ‘Revolução’ ou mesmo ‘Contra-Revolução’ não altera a realidade.

Contraste social agudo: na mesma região de Palermo e Recoleta, perto de onde o rapaz revira o latão, lojas chiques e caras com nomes em inglês.

E a realidade é a de que eles derrubaram um presidente que havia sido ratificado pela vontade popular não apenas uma mas duas vezes:

A 1ª quando eleito, pois na época o vice-presidente era eleito diretamente. Era diferente de hoje.

Atualmente, a chapa é ‘casada’, você vota só pra presidente, o vice vem junto no ‘pacote’.

Portanto agora o povo só elege o presidente, o vice é o partido ou coligação quem escolhem. Mas antigamente não era assim, entendamos bem a diferença.

A classe média argentina adora cães. Pode ser que os dois bichos sejam desse rapaz; mas lá existe a profissão de ‘passeador de cachorros’, o cara ganha pra levar os animais darem uma volta, é mole? Avellaneda, Z/S metropolitana de B. Aires.

Antes você votava separadamente pro cargo de presidente, e depois pro de vice. Portanto eles podiam ser de partidos diferentes.

Resultando que, se o titular se afastasse, o vice havia sido escolhido diretamente por sufrágio democrático pra governar a nação, tanto quanto aquele que ele substituiu.

Assim João Goulart (‘Jango’) havia sido eleito diretamente pelo povo brasileiro pra ser vice, e caso necessário o presidente. Mas tem mais.

No plebiscito de 63, o presidencialismo ganhou por ampla maioria, referendando mais uma vez o mandato dele como presidente legítimo.

Próximas 2: Vila Carlos Paz, uma espécie de ‘Campos do Jordãobem próxima a Córdoba. Uma cidade muito bonita, os ricos da região têm casas na orla do lago.

Obviamente a implantação do parlamentarismo em 61 já havia sido um ‘golpe branco’ na presidência de Jango.

Com a revogação dele em 63, no fatídico dia 31/03/64 veio o golpe aberto.

Portanto não estou de forma alguma negando o golpe e a ditadura brasileiras.

Não concordo com muitas coisas que a esquerda prega, mas tampouco compactuo com a prática da direita de mascarar um golpe com ‘aforismos’ diversos.

Numa praça no Centro,  caça da Força Aérea.

Então a ditadura brasileira foi exatamente isso, uma ditadura militar.

Generais que subiram ao poder ilegitimamente atropelando a Constituição, e derrubando um presidente duas vezes votado pela maioria da população brasileira.

Vocês já sabem de tudo isso, provavelmente até melhor do que eu. Estou colocando isso aqui pra fazermos o paralelo com a Argentina.

E pra mostrar pra imensa maioria que não estudou o processo em nosso vizinho como lá foi infinitamente pior que aqui.

A ditadura brasileira era uma ditadura mesmo. Ainda assim, o regime brasileiro tentou manter uma réstia, uma casca de legalidade.

Aqui e a direita: as margens da estrada que liga Córdoba a Carlos Paz. As colônias de veraneio entre o lago e a montanha.

Tanto que manteve o congresso, ainda que fantoche pois expurgado de qualquer oposição verdadeira.

Entretanto, Pinochet no Chile não teve sequer essa preocupação. Nos anos que ele foi presidente (1973-90) simplesmente dispensou o Congresso.

Mesmo como fachada, mesmo como encenação, nem assim existiu. Por 17 anos o Chile não teve poder legislativo, caso raro senão único na história.

O que o generalíssimo determinava era a automaticamente lei, não precisando de um crivo legalista nem mesmo encenado.

“O Brasil te espera!”, diz anúncio em Córdoba.

Como curiosidade pra fecharmos o Chile que não é nosso tópico de hoje, até 1973, no golpe, o Congresso era em Santiago, então a única capital do país.

Quando o Congresso foi reaberto com a volta da democracia em 1990, foi transferido pra outra cidade, Valparaíso.

Assim hoje o Chile tem mais de uma capital, como também ocorre na Bolívia e África do Sul, por exemplo.

Portanto aqui já temos o exemplo de um regime ditatorial sul-americano que foi muito mais severo que o nosso. Mas o argentino foi hours-concours na América do Sul.

E em toda a América, talvez só menos pior que os da Ilha Espanhola (Trujillo na República Dominicana e Papa Doc no vizinho Haiti). Esses executaram cada um mais de 1% da população de seus países.

Cetro de Buenos Aires, Obelisco ao fundo.

Bem, a massa ali é formada por negros e mulatos. Aí os militares descarregaram munição sem dó nem piedade.

Tirando esses casos extremos, Videla e seus almirantes e generais são os recordistas. Realmente implantaram a própria ‘Escola do Terror’. 

Pol Pot na América. Não é modo de falar.

…….

Que Deus Ilumine a Argentina e a todos os Homens e Mulheres da Humanidade.

Deus proverá

“Voka” x “Riber”: no futebol da Argentina, a guerra invadiu a linguística

“RiBer Plate”???? É assim que o Boca se refere ao inimigo, com ‘B‘ gigante, desde que ele disputou a série B em 2012. A torcida do River risca a letra ‘B’, óbvio. Pra devolver o favor eles grafam Boca como ‘Voka’, a pronúncia é a mesma. Abaixo falo melhor desses ‘câmbios consonantais’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 17 de abril de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. As que foram baixadas da internet eu identifico com um (r) de ‘rede’.

Como abri a série dizendo (e é notório), a Argentina foi  riquíssima pela maior parte do século 20, até algumas décadas depois da segunda guerra mundial.

Essa não é mais a realidade, agora ela é um país plenamente latino-americano, com tudo que isso representa.

Isso porque nos últimos 40 ou 50 anos houve uma decadência severa, e multi-dimensional: em termos econômicos, políticos, sociais e mesmo culturais.

Agora, existe um ponto que a Argentina não decaiu nem um pouco, o futebol. Ao contrário, nesse campo (literalmente) essa nação continua sendo a potência que sempre foi.

Aqui e acima da manchete: a cidade de Buenos Aires (incluindo os subúrbios) ganhou nada menos que 24 Libertadores. Pra sentir a Alma Portenha, fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense por essa competição. Eu não sou torcedor do CAP, já esclareço. Apenas esse foi o jogo que deu certo eu ir.

Argentina É futebol, eu disse na mensagem passada. Assim de fato a coisa se manifesta:

Das 57 Libertadores eles ganharam 24. E esse fluxo vencedor de títulos se mantém constante, desde que a competição começou em 1960.

Não é difícil entender as razões. A primeira é que realmente os caras sabem jogar bola. E a segunda é que a Argentina é um país bem menor que o Brasil, não tem campeonato estadual.

Terceiro, com o futebol concentrado desproporcionalmente na capital e seus subúrbios. Assim, ganhar o campeonato argentino é quase como ganhar aqui o campeonato estadual:

“Rei de Copas”: apenas o Independente de Avellaneda, também chamado “Diabo Rubro”, levou 7 Libertadores.

Os times que brigam pela taça são todos da mesma cidade, ou no máximo de cidades tão próximas que você vai de ônibus urbano ao estádio adversário.

Por isso, desde que a Libertadores começou eles dão a vida pra ganhá-la. Nas 3 primeiras décadas, o Brasil desprezou essa competição, que então ficou restrita a uma disputa entre Argentina e Uruguai.

Com uma população que é 20% da nossa, os argentinos ganharam 50% a mais de Copas Libertadores de clubes que o Brasil (24 x 17, os dados são sempre de abril.2017, quando faço o texto).

E quase 100% a mais de Copas América de seleções (14 x 8, embora nesse quesito específico eles estejam em jejum desde 1993, enquanto nesse período o Brasil levantou 4 canecos).

Claro, faça-se o adendo que na competição máxima de seleções que é a Copa do Mundo o Brasil é hegemônico não apenas continental como globalmente, foi campeão 5 vezes

“Mão de Deus“: nosso foco são as disputas entre clubes. Mas dando uma pincelada nas seleções, contra a Inglaterra em 1986 Maradona fez 2 gols épicos, um esse que vocês estão presenciando, só o juiz não viu. Como esse jogo foi no México, eu falo dele na postagem sobre o futebol mexicano.

Contra 2 do vizinho paíso último título deles foi no México em 1986, quando Maradona marcou até gol de mão (dir.).”

……….

Ainda assim na América o domínio alvi-celeste é incontestável. Que os argentinos sabem jogar é auto-explicativo. Falemos então da concentração na capital.

No Paraguai, Chile (nesses 2 já fiz matérias específicas sobre o tópico), Peru e Uruguai o modelo é exatamente o mesmo, se você fizer uma disputa metropolitana da capital mais alguns subúrbios, na prática eis o campeonato nacional.

Meu ingresso pra ver São Lourenço x “Paranaense”: como sabem, o CAP aqui em Curitiba é conhecido como “Atlético“, e nacionalmente “Atlético Paranaense” pra diferenciar do Atlético Mineiro. Mas na Argentina e por consequência nos demais países hispânicos, o CAP é o “Paranaense”. Não é difícil entender o porque, já que na Argentina quase todos os times se chamam ‘Clube Atlético’: Clube Atlético River Plate, Clube Atlético Boca Jrs., Clube Atlético Independente, Clube Atlético São Lourenço de Almagro, Clube Atlético Belgrano, Clube Atlético Talleres, etc. Dos 30 times na 1ª atualmente, nada menos que 21 são ‘Clube Atlético’, que assim é um prefixo, e não o nome do time. Aplicando a mesma lógica ao CAP, ficou como “Paranaense”.

Alias por um tempo houve na Argentina esse campeonato chamado ‘metropolitano’, e ele tinha a mesma importância do nacional.

Esse país já teve muitas formas de disputa em seu certame nacional, abaixo faremos um resumo das diversas fórmulas que já foram usadas.

Aqui, o que quero ressaltar é que na Argentina e várias outras pátrias acima citadas o futebol basicamente se resume a capital. Mas isso está longe de ser universal.

Na Colômbia e México o super-clássico nacional opõe capital x interior (repetindo o modelo europeu), como descrevi com detalhes em outras oportunidades. Alias os 3 títulos da Libertadores colombianos foram ganhos pelo interior.

No Equador, alguns dizem que o super-clássico nacional nem envolve a capital, é Barcelona x Emelec, ambos de Guayaquil – mas a única Libertadores equatoriana foi ganha pela capital Quito.

Enquanto na Bolívia a capital La Paz é o polo principal, os dois maiores vencedores são dali, mas o interior é muito forte também – por exemplo o único tetra-campeão boliviano é de Cochabamba.

Maurílio como torcedor do Independente. Abra a postagem pra ver o desenho inteiro, ele está trepado sobre o alambrado, que é como os líderes de torcida veem a partida na Argentina. Uma nota: eu traduzo sempre que que possível tudo pro português, alias nessa postagem mesmo vocês esse debate com um leitor que fez essa retificação.

…….

De volta a nosso foco de hoje. Citei esses países acima pra pôr no contexto, fazendo o contraste. Na Argentina, entretanto, esse esporte basicamente se resume a Buenos Aires e imediações.

Dos 30 participantes da 1ª divisão em 2017, 60% são da Grande Buenos Aires (“Bs. As.”) e da cidade de La Plata.

Leve em conta que em 2015 o campeonato argentino passou por massiva ampliação, exatamente pra aumentar a presença do interior.

Nesse ano de 20 passaram a ser 30 participantes. Logo, de 2 turnos reduziu pra turno único. Apenas os maiores clássicos de cada região se repetem pra inverter o mando.

Os clubes foram emparelhados em duplas contra seu maior rival: Boca x River, Independente x Racing, Rosário Central x Newell’s, etc; nas oportunidades em que não há um clássico da cidade aí vai contra o time da cidade mais perto.

Quando eram 20 times, quase 80% deles eram da capital, região metropolitana e La Plata, que não é região metropolitana mas quase. Exemplifico nos mapas.

Observe os mapas (confira a fonte deles aqui): quando eram apenas 20 times, quase 80% eram da capital. Pegamos o ano de 2008 como exemplo que é típico: apenas 6 do interior enfrentando 14 times de Buenos Aires  no campeonato ‘argentino’. Ou seria melhor dizer ‘campeonato portenho’?,

Um adendo. Como explicado na postagem anterior e é notório, o município de Bs. As. fica dentro da província de Buenos Aires, mas não pertence a ela.

Assim como quando o Rio era nossa capital até 1960 o município do Rio de Janeiro (então nosso D.F.) ficava dentro do estado do Rio de Janeiro mas não pertencia a ele.

Então. E La Plata é a capital da província (pra nós seria chamado ‘estado’) de Buenos Aires. Dista apenas 55 km da capital federal.

Não faz parte da área urbana da Grande Buenos Aires, mas está muito próxima, é um subúrbio estendido. La Plata tem com Buenos Aires mais ou menos a mesma relação que Jundiaí tem com São Paulo, se quiser ver assim.

Nesse texto sobre futebol quando eu falar “Buenos Aires” ou “capital” isso inclui a região metropolitana e mais a cidade de La Plata, que não é região metropolitana mas falta muito pouco pra isso. Esclarecido, vamos lá.

Em 2015 passaram a ser 30 times. Aí a capital ficou com ‘apenas’ 60% deles.

Entre os campeões a supremacia da capital é ainda mais pronunciada. Depois que iniciou-se o profissionalismo (de 1931 pra cá, muitas vezes eram 2 campeonatos no mesmo ano) foram 131 troféus.

121 deles conquistados por Buenos Aires, mais de 91% portanto. De cada 10 edições, 9 taças ficam na vizinhança.

Está claro: ganhar o campeonato argentino pros clubes da capital é como ganhar o paulista ou carioca pros clubes brasileiros. Logo é preciso alçar voos mais altos pra coisa ter alguma graça.

E qual é essa esfera mais alta? A Libertadores, evidente. Resultado: o Independente de Avellaneda tem 7, o Boca 6, Estudantes de La Plata 4, River Plate 3, pra citar somente os multi-campeões.

1960-1988: disputa particular uruguai x argentina
1989-presente: a decadência uruguaia sim; argentina não

Mural do Belgrano em Córdoba: manifestação oni-presente no vizinho Chile, comum em Córdoba já numa proporção menor e inexistente em Buenos Aires e demais cidades argentinas. Ou há muitos poucos, vejo na internet, mas ao vivo não presenciei, e rodei 4 dias na capital argentina.

O domínio já foi ainda mais acentuado. A Libertadores da América se divide em 2 períodos, 1960-1988; e 1989-presente.

Explico. Até o fim dos anos 80, Libertadores significava na prática “Campeão do Rio da Prata”.

Já que ela era pouco mais que uma ‘recopa’ entre argentinos e uruguaios.

Como se sabe, nas 3 primeiras décadas o Brasil desprezou a Liberta. Por exemplo, o Santos de Pelé venceu a 3ª e a 4ª edição da competição, sendo bi em 1962/63.

Postes pintados, também em Córdoba e também pela torcida do Belgrano. Em relação aos postes, repete-se o que falei dos murais na legenda anterior: no Chile em toda parte, em Córdoba um pouco, em Buenos Aires não há – nesse caso não vi sequer pela internet.

Mas depois o clube, numa decisão que se arrende amargamente até hoje, achou que era mais lucro excursionar pela Europa.

Resultando que preferiu não mais disputar esse campeonato, ou pelo menos não com o time principal.

Tivesse centrado forças no torneio continental americano, o Santos fatalmente seria tetra, penta e quem sabe até hexa campeão da Libertadores.

Não foi assim que ocorreu. O alvi-negro praiano e todos os outros times brasileiros voltaram as costas pro principal certame do continente.

Argentinos e uruguaios agradeceram, e o transformam numa disputa particular deles.

Idem, ibidem. Mural e poste na mesma cena.

Em 1988, de 29 taças a Argentina tinha 15 (mais da metade!!!), o Uruguai (que é uma nação muito pequena) nada menos que 8 (5 do Penharol e 3 do Nacional). 

O Brasil somente 5 (um terço da Argentina e bem menos que o Uruguai), o Paraguai 1, nenhum outro país havia vencido.

A coisa era tão aberta que por 12 anos seguidos (1964-75) a taça ficou alternando entre Buenos Aires e Montevidéu somente.

Próximas 2: pichações nas ruas de Córdoba.

O Independente foi tetra seguido (72-75), o Estudantes de La Plata foi tri (68-70), sendo que em 1969/70 foi bi-campeão invicto. Todas essas façanhas permanecem inigualadas até hoje.

Porém, em 1989 a trajetória da Libertadores fez uma curva, que afetou o Uruguai negativamente e Brasil e mais 4 nações positivamente.

Em 1988, o Uruguai tinha 8 taças, o Brasil 5. Mais que isso: Brasil, Paraguai, Colômbia, Chile e Equador somados tinham apenas 6. De lá pra cá o Uruguai não ganhou mais nenhuma – já se vão 29 anos de jejum. Somados, esses 5 países acima deram 19 voltas olímpicas nesse espaço de tempo.

Aqui vemos homenagens aos dois clubes.Yuta’, que o torcedor do Belgrano gostaria de matar, significa polícia. No Chile o termo é o mesmo, e também do outro lado dos Andes alguns gostariam de eliminá-la.

O Brasil venceu 12, é o maior campeão do período (a Argentina levou mais 9). Colômbia 3, Paraguai 2, Chile e Equador 1 cada.

……..

Portanto: o Brasil, depois que voltou os olhos pra Libertadores, foi o vencedor dessas quase 3 décadas, 12 taças contra 9 da Argentina.

Como a diferença era de 3/1, a distância diminuiu muito mas eles seguem com larga vantagem.

O Raio se espalhou pelo continente. Essas 4 outras nações que somadas só haviam vestido a faixa uma única vez o fizeram mais 7 vezes, dessa forma multiplicando por 8 seu quinhão de conquistas.

Estádio Olímpico Mario Kempes, Zona Oeste de Córdoba, segundo maior do país, construído pra Copa de 78. No dia que fiz esse texto (Domingo de Páscoa/17) se enfrentaram ali Talleres x Belgrano pela 1ª divisão, o que não ocorria há 15 anos.

O Uruguai parou no tempo. Entrou numa decadência cruel. Mas a Argentina não decaiu (ao menos no futebol), é isso que quero apontar.

Os anos 90 e 10 (até 17, quando escrevo) foram de preponderância brasileira, é certo. Mas a primeira década do século foi novamente argentina com 5 títulos, sendo 4 só do Boca.

Quando Boca e River (ou ‘Voka’ e ‘Riber’, já falo dessa parte) disputam mais um super-clássico, estão em campo nada menos que 9 Libertadores.

Sede do Talleres (se pronuncia “Tachéres”) no Centro de Córdoba.’Taller’ significa ‘oficina’. Oficina de qualquer coisa, pode ser desde oficina mecânica até oficina de artesanato. No caso, são as oficinas de trens, pois o clube foi fundado pelos trabalhadores que operavam e consertavam as locomotivas. Da mesma forma, em Ponta Grossa-PR há o Operário Ferroviário, cujo estádio fica no bairro Oficinas (da ex-RFFSA), na Zona Sul.

Avellaneda é um subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia dois clubes, Independente e Racing. Pois bem.

Os dois já deram a volta olímpica no torneio máximo continental, o Independente nada menos que 7 vezes, ainda é o ‘Rei de Copas’. Até o ‘clássico suburbano’ opõe ambos times campeões da América. Isso é Buenos Aires, amigo.

……….

Agora, o futebol argentino não mingou com a virada pros anos 90. Mas seu maior campeão da Libertadores sim, esse murchou. O Independente tem 7 taças – mas a última foi no já distante ano de 1984.

Nesse ano, em que logrou sua sétima vitória, o River era virgem, nunca tinha ganho. O Boca tinha 2 taças.

Quando o novo milênio adentrou os dois maiores clubes argentinos estavam empatados, 2 pra cada.

Voltando a Buenos Aires, aqui está a sede do Racing no Centro de Avellaneda. Como o rival Independente jogava no dia e os estádios são a poucas centenas de metros dali, uma viatura da polícia faz a guarda, pra evitar problemas.

Aí veio a impressionante década de 2000. O Boca foi campeão 4 vezes, totalizando 6, bi em 2000/01, e de novo 03 e 07.

E com isso está nos calcanhares do Independente. O River, após quase 20 anos de jejum, levou de novo em 2015, e agora tem 3, ainda metade de seu arqui-rival.

……..

Em relação aos títulos nacionais, aí a vantagem é do River, que venceu 35 vezes, 10 a mais que o Boca que vem logo atrás. O Independente tem 14, São Lourenço 12, e o Vélez Sarsfield 10.

São os únicos que atingem os 2 dígitos. São Lourenço e Vélez ganharam a Libertadores uma vez, em 2014 e 1994 respectivamente.

Por ter sido mais vezes campeão argentino, o River Plate se diz “o maior da Argentina, muito longe dos outros”. Cada um diz o que quer, não necessariamente sendo verdade.

Pouco antes de clicar a imagem acima, eu passei em frente aos estádios. Aqui a multidão faz fila pra adentrar as arquibancadas do campo do Independente.

Na Argentina, o que conta é Libertadores, que o Boca tem o dobro. O certame nacional é chamado pejorativamente por lá de “navegação de cabotagem”.

Eu não tenho qualquer preferência pelo Boca, exatamente ao contrário, o time que tenho alguma simpatia na Argentina é o Independente.

Não gosto do Boca Juniors, nem um pouco, ressalto de novo. Só que números são números. ‘Só idiotas discutem com números’, diz o ditado.

A torcida do Boca é disparado a maior, com 30% dos argentinos sendo ‘xeneizes’, o apelido deles – é uma corrutela de ‘genoveses’.

Dando uns passos pra frente, não vemos mais o estádio do Independente, vermelho como o clube. Mas está óbvio que estamos na frente dele, pois ainda vemos a mesma galera na fila. Agora há o do rival Racing ao fundo, também nas cores do clube, nesse caso azul-claro.

O River vem logo a seguir com 20% da preferência nacional. A alcunha do River é ‘Milionário’.

São os dois gigantes, contra eles não há competição possível em termos de torcida. O 3º clube mais popular da Argentina é o Independente (o ‘Diabo Rubro’), escolha de 5% dos argentinos. 

Esse número já foi muito maior, a decadência do clube tem cobrado um alto preço, como é natural.

Repito, em 1984 o Diabo tinha 7 Libertadores, contra 2 do Boca e River somados. De lá pra cá não ganhou mais, e viu o Boca levar 4, o River mais 3.

O River não por acaso se auto-define como ‘o Milionário’. Foi fundado no bairro da Boca, o mesmo de seu arqui-rival.

Invertendo as posições: agora estou defronte o campo do Racing, ao fundo o do Independente, como as cores de cada um deixam claro.

Mas a muitas décadas se transferiu pra Zona Norte, que é a parte rica de Buenos Aires. O Boca é da Zona Sul, a porção pobre da cidade.

A Zona Norte, no município de Buenos Aires (ou seja, sem incluir região metropolitana), simplesmente não tem nenhuma favela.

Nenhuma. Buenos Aires está coalhada da favelas, e elas assustadoramente triplicaram nesse milênio. Todas nas Zonas Sul, Oeste e Central – Bs. As. não tem Zona Leste.

Camaradagem: o Racing abriu sua bilheteria pra torcida do rival Independente.

Abordei o assunto da miséria na capital argentina na outra postagem, com fotos, gráficos e mapas. Aqui só volto ao tema pra dizer que de fato o Boca é ‘time do povo’.

Enquanto o River domina entre os que tem mais acesso a renda e educação, e a localização dos estádios reflete isso.

Claro que a correspondência não é 100%. Muita gente prefere o River na periferia, e outros torcem pelo Boca mesmo sendo da elite e alta-burguesia. Não é 100%. Mesmo assim, nas favelas o Boca domina amplamente, alias de várias das enormes favelas da capital e região metropolitana dá pra ir a pé a ‘Bombonera’.

Os estádios são a 400 metros um do outro. E Avellaneda está inteira decorada com o ‘fantasminha vermelho da B‘, a torcida do Racing comemora o recente rebaixamento do Independente.

Essa preferência da massa, dos descamisados, se reflete nas demais quebradas e periferias pelo resto do país, independente da distância física pro estádio, é claro.

Já o ‘Monumental de Nunhez’ está incrustrado nos bairros mais elegantes e arborizados da cidade (na verdade fica no vizinho bairro de Belgrano, mas como é divisa com Nunhez, o nome pegou assim).

E esse extrato social elevado é o único em que o River tem maioria. Outra coisa: entre os mais velhos (acima de 60 anos) e entre as Mulheres o River também ganha. Quanto mais jovem e pobre, maior a distância a favor do Boca.

Ou seja: você está numa favela. Vem um garoto, de boné na cabeça. Ele usa uma camisa de futebol. A chance que seja do Boca ou do River é na proporção de 4 pra 1 a favor do Boca.

Mesmo recado na pichação: a “Guarda Imperial” Zona Oeste do Racing desenha o ‘B’ de chifres e escarlate, o Diabo caiu afinal.

………

A capital (com seus subúrbios) domina amplamente o futebol argentino. Levou todas as Libertadores do país, e 121 dos 131 títulos nacionais. Isso já disse.

O que quero adicionar aqui é que o interior da Argentina, em relação ao futebol, praticamente se resuma a uma única cidade: Rosário.

O interior ganhou 10 vezes, e todas as 10 por Rosário, 6 pelo Newell’s Old Boys e 4 pelo seu arqui-rival Rosário Central.

River x Boca (r), o ‘Super-Clássico‘ que para um país (esse aqui não se sabe se é de futebol ou polo aquático). Como dito na abertura, as tomadas com o ‘(r)’ são baixadas da internet.

Rosário também a única cidade do interior que chegou a final da Libertadores. 2 vezes (1988 e 92), ambas com o Newell’s. Perdeu ambas.

Mas essas façanhas são mais que suficiente pra colocar o Newell’s como maior time do interior da Argentina, disparado. E Rosário como a maior cidade do interior, ao menos quando o quesito é esse esporte.       

Novamente: não tenho qualquer preferência pelo Newell’s, apenas analiso os números. Por outro lado, o Rosário Central venceu a Copa Conmebol de 1995.

Como se lembra quem tem idade pra tanto, esse era um torneio secundário, uma espécie de 2ª divisão da Libertadores, precursor da atual Copa Sul-Americana que cumpre esse papel hoje.

Das 131 taças do certame nacional, Boca e River levaram juntos 60, quase 45% somente pra 2 times. O campeonato argentino não é apenas concentrado na capital, mas é concentrado nesse clássico.

A Argentina ganhou 3 vezes a Conmebol, e sempre com clubes menores, fora do circuito. O Talleres de Córdoba e o Lanús da Grande Buenos Aires também contam com essa façanha no currículo.

………

Córdoba é a maior cidade do interior, em termos de população. Rosário é a segunda, pouco atrás, e na sequência vem Mendonça.

Visitei Córdoba e Mendonça, infelizmente Rosário não deu pra ir. Mas pro futebol Córdoba e Mendonça são praticamente irrelevantes, alias todo o interior é irrelevante exceto Rosário.

Esse ano (2017) Córdoba terá seu clássico Talleres x Belgrano pela primeirona nacional. Fato raríssimo, faziam 15 anos que não ocorria.

Drones sobre o estádio no dia do jogo (r), . . . .

Esse times disputaram a 1ª divisão em 21 e 17 oportunidades respectivamente, mas em poucos anos os dois ao mesmo tempo.

O clássico foi disputado no dia que escrevo essas linhas, Domingo de Páscoa/17. Acabou empatado em 1×1, o que manteve o Belgrano em 29º e penúltimo lugar.

Pra completar o circo dos horrores pro clube, a torcida do Belgrano cometeu um crime monstruoso na arquibancada, atirou pelo vão da escada um rapaz de 26 anos, tudo foi filmado e as cenas correram o mundo.

Ele sofreu traumatismo craniano e acabou desencarnando no hospital. Pra piorar, depois descobriram que ele torcedor do próprio Belgrano, e não do rival Talleres como pensaram na hora. A briga não era por futebol, quem disse que o rapaz era da torcida inimiga mentiu por uma rixa antiga. Sem saber disso a ‘barra-brava’ do Belgrano assassinou um dos seus. ‘Fogo amigo’.

. . . um cara com a letra ‘B‘ na camisa na arquibancada (r), . . .

Bem, a violência nos estádios é universal na América Latina, quando estive na Colômbia vi cenas similares pela TV nos clássicos de Cali e Medelím.

E aqui no Brasil os cadáveres perecidos em guerras de torcidas se contam as centenas nessas últimas 3 décadas, numa realidade amaríssima.

Voltemos a Argentina. O Talleres subiu de novo somente esse ano, depois de 12 anos na 2ª e mesmo 3ª divisões.

Seu arqui-rival Belgrano está na 6ª temporada no torneio principal do país, mas deve cair esse ano. Quando eu estava na Argentina, vi pela TV o Belgrano vencer em casa o Racing de Avellaneda por 2×0. Era a sétima rodada, e foi somente a 1ª vitória do time cordobês.

. . . e infinitas pichações pela cidade: o Boca não cansa de relembrar ao River seu rebaixamento.

Até então eram 3 empates e 3 derrotas, estava em último. Com o triunfo subiu pra penúltimo, o que não ajuda muito. 4 semanas depois, se mantinha no mesmo lugar.

Na Grande Mendonça é ainda pior, só há um clube na primeira, o Godoy Cruz. Há muito a cidade não vê um clássico local pela série A argentina. 

Se serve de consolo, como dito acima o Talleres de Córdoba já venceu um torneio internacional, a Copa Conmebol de 1999.

A final, vejam vocês, foi contra o CSA de Alagoas. Também chegaram a semifinal o Desportivo Concepção do Chile e o São Raimundo do Amazonas. Foi a última edição da Copa Conmebol.

‘voka’ x ‘riber’; rosário ‘bentral’; e o ‘paranaense’ de ‘curitiva’

No idioma espanhol, como se sabe, não há a pronúncia da letra ‘v’. Se escrevendo com essa letra ou com ‘b’, pronuncia-se tudo como se fosse ‘b’.

Veja ao lado: nossa bagagem não chegou conosco a Buenos Aires, só 2 dias depois. Eis a reclamação no guichê da Gol feita no aeroporto central de Bs. As., o Aero-Parque.

A viação aérea é brasileira, mas essa ficha foi preenchida na Argentina, por um funcionário argentino da empresa.

Quando eu estava na Argentina, esse país enfrentou o Chile pelas eliminatórias no Monumental de Nunhez. O time da casa jogou muito mal, e venceu por 1×0 graças a um pênalti duvidoso (diz a própria imprensa local) aos 16 do 1º. Sete minutos antes anularam um gol do Chile. Vi pela TV em Córdoba.

Perguntou que cidade morávamos, e respondemos ‘Curitiba’. O rapaz não teve dúvidas: mandou ver ‘Curitivano papel, porque pra ele a pronúncia é idêntica.

Isto posto, podemos entender porque a briga das torcidas nesse país vizinho invadiu a linguística:

Além de mais títulos na Libertadores e maior número de fãs, o Boca é o único clube que nunca foi rebaixado, que sempre disputou a 1ª divisão do profissional.

O River lhe fazia companhia até 2011. Mas nesse ano caiu, e teve que jogar a série B. Resultado: desde então a torcida do Boca só grafa o River como ‘Riber’ Plate.

O que obviamente os ‘milionários’ odeiam. Volte ao topo da página e observe a primeira imagem, logo abaixo da manchete. Alguém do Boca grafou ‘RiBer’ no muro, propositadamente exagerando no ‘B’, que ficou gigante óbvio, pois é esse o ponto nevrálgico que enerva o inimigo. 

Córdoba: um torcedor do Talleres pintou o símbolo do clube sob a palavra ‘loucura’. Um rival do Belgrano profanou, dizendo ‘loucura de galinhas’. Na América Hispânica, é essa pecha que as torcidas tentam impôr sobre os adversários. Por isso o ‘T’ virou ‘G’, de ‘Galleres’, soma de ‘Talleres’ com ‘Gallinas’. ‘Peito Frio‘ também é uma expressão castelhana que quer dizer que o jogador não tem sangue quente, a camisa ‘não esquenta’ no peito, aí tanto faz ganhar ou perder.

Enervou mesmo. Algum torcedor do River foi lá e tentou com todas as suas forças riscar a letra ‘B’, como se sua vida – ou ao menos sua honra – dependesse de ocultar esse símbolo gráfico.

Não adianta nada, claro. Os boquenses continuam a proliferar o mantra ‘Riber’ por todas as partes da cidade, um pouco mais pra cima a esquerda mais um exemplo: “River vende fumo, você foi pra (série) B’, é o que está escrito nessa porta de loja.

Pra compensar, a torcida ‘milionária’ do River grafa o rival como ‘Voka’. A pronúncia é a mesma de ‘Boca’. Nesse caso não há correlações com rebaixamentos, já que infelizmente pro River o Boca jamais foi rebaixado.

Simplesmente se paga na mesma moeda. ‘Vocês distorcem a grafia do nosso time, nós distorcemos do seu’, é a lógica de quem criou e espalha o termo ‘Voka’.

Na Argentina, a briga futebolística definitivamente descambou pra dimensão da linguística. O combate é pra mudar as letras no nome do adversário. Os gramados, arquibancadas, ‘adesivos’ na internet (“memes”) e muros se tornaram muito pouco . . . .

Próximas 12: vamos ver mais algumas cenas que eu captei no Novo Gasômetro, estádio do São Lourenço na Z/Sul de B. Aires. Aqui a bateria da ‘Gloriosa’ no aquecimento. Por enquanto sem os saxofonistas.

……….

Não é só no Super-Clássico que essa situação acontece. Estive na Vila Carlos Paz, no interior da província de Córdoba.

A uma hora de ônibus da capital estadual, é uma espécie de ‘Campos do Jordão (SP)’ argentina.

Na verdade Carlos Paz é ainda mais bela que C. do Jordão, pois nessa cidade argentina além das montanhas há um rio que vira um lago bem no Centro.

Em Carlos Paz eu me senti na Suíça, se quer saber. Breve subo as fotos que tirei por lá. Aqui nosso tema é futebol. A Vila Carlos Paz está a 40 km do Centro de Córdoba, você faz um bate-volta, sai cedo e volta a noite se quiser.

No alambrado: na Argentina é assim que os cabeças da barra-brava (torcida organizada) veem o jogo, sempre trepados nas grades. Por isso desenhei Maurílio na mesma posição.

De Rosário a distância decuplica, ou seja são 400 km. Então é preciso pernoitar.

Mesmo assim, muitos rosarinos visitam Carlos Paz. Comprovei isso pelas pichações nos muros, a guerra entre as torcidas do Rosário Central e Newell’s Old Boys (sigla ‘N.O.B.’ nos pichos).

Pois bem. Exatamente na orla, na parte mais bonita da cidade, estava grafado Rosário “B”entral, com o ‘B’ bem grande e destacado.

Aí não tem a ver com a linguística. Simplesmente um torcedor do Newell’s ressaltava o recente rebaixamento do rival.

O Rosário já caiu 4 vezes, mas a última é bem recente, já em 2010, e ele levou 3 anos na série B.

Poucos minutos antes da bola rolar, a banda vai pra arquibancada. No destaque mais um rapaz agarrado a grade, eles ficam o jogo inteiro ali, e não somente pra pôr as faixas como alguém poderia pensar.

O Newell’s também já foi pra segundona, mas está ininterruptamente na primeira desde 1964.

……….

No Clássico Suburbano de Avellaneda o mesmo se repete. O Boca é o único que nunca caiu, repetindo. Até 2011, River e Independente de Avellaneda lhe faziam companhia.

O River teve que disputar a segundona em 2012. No ano que ele retornou pra primeira divisão, em 2013, foi a vez do Independente ser rebaixado. Agora todos caíram, exceto o Boca Juniors. 

Os famosos guarda-sóis não iriam mesmo faltar, nada é mais argentino que isso!

Em Avellaneda os dois rivais já estiveram na série B. O Racing foi rebaixado em 1983, e ficou 3 anos antes de voltar.

Os torcedores do Diabo Rubro até hoje comemoram essa data, vi camisetas alusivas a esse fato, dizendo “Proibido Esquecer”.

Porém agora a maré virou. Nessa década de 10 foi a vez do Independente jogar a segunda. Conseguiu subir no 1º ano.

Ainda assim, a torcida azul do Racing não perdoa, evidente. Avellaneda está inteira pichada com um fantasminha em vermelho com a letra ‘B’.

A foto acima da manchete.

Agora um detalhe curioso: a rivalidade entre Racing e Independente é acirradíssima dentro de campo.

E as pichações nos muros, camisetas e cânticos deixam claro. Mas fora dele os clubes se ajudam.

Os estádios são na mesma quadra, de um você vê o outro. Fui pra Zona Sul de Buenos Aires num sábado a tarde.

Conheci os bairros de Parque Patrícios, Nova Pompéia e Barracas, rumo a famosa favela da Vila 21.

Portão da ‘Cidade Esportiva‘ do S. Lourenço. Chovia muito, veja as capas amarelas.

Cruzei o Riachuelo, mudando de estado e município, do Distrito Federal pra Avellaneda, na província de Buenos Aires.

Chegando ao Centro de Avellaneda, vi uma multidão caminhando com camisas vermelhas, e logo concluí que iam ao jogo do Independente.

Resolvi acompanhá-los até o portão do estádio, embora eu não poderia entrar porque não tinha dinheiro suficiente.

Ainda assim me imiscuí entre a rapaziada e fui, pra pelo menos sentir o clima. Chegamos as imediações do ‘Estádio Libertadores da América’. Sim, esse é o nome oficial da praça desportiva, pra lembrar a todos quem é o ‘Rei de Copas’.

dentro do complexo, em 1º plano um campo de treinamento, ao fundo o estádio.

Mesmo não podendo passar pra arquibancada, foi bom estar ali. Camelôs e bares vendiam churrasco, sanduíches e cerveja.

A banda fazia o aquecimento, com seus bumbos e saxofones característicos. A galera bradava seus gritos de guerra.

Vi os ônibus que trouxeram os comboios do interior. Eram veículos na configuração urbana, com 2 (ou 3) portas e bancos fixos de acrílico.

Próximas 2: quando adentrei o estádio, 1 hora antes do jogo, por isso está vazio. Quando a bola rolou, as retas encheram. A curva oposta continuou vazia. Choveu muito, Buenos Aires tinha diversas vias sitiadas por protestos e na rodada anterior o São Lourenço levou 4×0 do Flamengo no Rio. Tudo isso afastou o público.

Imagine ficar horas e horas sentado naqueles tocos duros, haja paixão!

No Brasil, os comboios das torcidas são em ônibus de viagem, em que o banco é maior, estofado e reclina, um pouquinho que seja.

Como disse acima: os estádios são vizinhos. Eu estava ali, entre a massa vermelha, que adentrava os portões do campo do Independente.

Como pano de fundo da cena estava o estádio do Racing, que é maior.

Saí dali, me dirigindo ao Centro de Avellaneda. Já anoitecia, e como não poderia mesmo ir pra arquibancada queria aproveitar os últimos raios de Sol pra conhecer um pouco mais da cidade.

Repare nas barreiras na arquibancada, pra impedir a ‘avalanche’, comemoração do gol em que tudo mundo corria em direção ao alambrado, causando esmagamento.

Antes passei exatamente em frente o campo do rival Racing.

Os torcedores do Independente faziam o mesmo trajeto, mas no sentido oposto.

Pois bem. A bilheteria do Racing estava aberta. . . porém a serviço do ‘inimigo’.

Eram os torcedores do Independente quem compravam ingressos pra ver seu time.

Pois o Racing jogava fora na rodada, e não no mesmo dia, tudo pra evitar encontros das torcidas adversárias. 

Com a bola rolando. O São Lourenço, mandante, jogou com o uniforme titular escuro. O CAP, visitante, veio de branco.

O que ocorre é o seguinte. A polícia isolou várias quadras ao redor do estádio do Independente, só passava pela barreira quem já tinha ingresso em mãos.

Eu pude conhecer o estádio ao menos por fora porque eu vim mais cedo e por um acesso secundário, onde a polícia ainda não havia fechado.

Porém na avenida principal, a que vinha do Centro, estava interditado exceto pra quem já tinha o bilhete adquirido.

Tive que pedir licença pro policial, ele abriu pra mim a porta dos deficientes, pra que eu pudesse sair enquanto a multidão entrava. Como eu estava saindo, obviamente não houve complicações. Mas ninguém podia entrar sem ingresso.

Torcida do Atlético-PR presente em Buenos Aires. Eles levaram 2 bandeiras do Brasil, infelizmente essas fotos desfocaram.

E quem não havia comprado não mais podia fazê-lo no estádio do Independente, já que a bilheteria fica dentro da zona fechada. Então como fazê-lo?

O Racing deu uma mãozinha, e abriu as suas próprias bilheterias aos que deixaram pra última hora. Uma camaradagem interessante, inimigos dentro das 4 linhas, parceiros fora delas.

……….

Fechamos (por hora) a sequência dentro do estádio do São Lourenço. São os saxofonistas, agora a orquestra está completa.

Qual o povo mais fanático por futebol no mundo? O argentino? Não, é o chileno.

Digo, na arquibancada são iguais. O torcedor argentino é passional, e suas ‘hinchadas’ são famosas por nunca pararem de cantar. De fato assim é.

Veja a prova: a própria torcida do São Lourenço levanta pra rede um vídeo de uma final que eles perderam por 3×0. O resultado dentro de campo importa menos, o fundamental é que o ‘alento’ na arquibancada nunca pare.

Fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense pela Libertadores, 3 dias antes desse sábado em Avellaneda. Já eu conto melhor. Aqui é só pra dizer que chovia a cântaros, o São Lourenço perdeu em casa, e passou o jogo inteiro perdendo, já que o gol do CAP foi logo aos 3 do primeiro.

Aqui e a direita: Zona Sul de Buenos Aires: a torcida do Furacão (esse é o nome do time, não é apelido) homenageia um de seus ídolos.

Ainda assim, a torcida do São Lourenço não parou um minuto de pular e cantar, a plenos pulmões. Voltando a pergunta que eu fiz, dentro do estádio não há diferença, fato. Mas nas ruas o chileno faz questão de se manifestar de forma mais expressiva.

Como eu já contei com muitas fotos quando retornei de lá, no Chile a guerra de torcidas é poste-a-poste. No Centro das cidades não porque a burguesia não se interessa por isso.

Mas assim que você entra nos bairros mais humildes – mesmo aqueles bem centrais, em que você pode ir a pé do Centrão e comprovei isso pessoalmente – e muito mais nas quebradas distantes do subúrbio, todos os postes do bairro são pintados com as cores de algum time.

Todos os postes, todos os bairros, todo o subúrbio e também a parte mais proletária da Zona Central. Além disso, são famosos mundialmente os ‘murais’ chilenos:

Furacão Capo” (chefão da máfia, e por analogia aqui o dono do bairro), e “São Silêncio de Amargo”, provocação ao vizinho São Lourenço de Almagro. Pelo futebol argentino ser muito centrado na Grade Buenos Aires, as rivalidades dos bairros ou municípios suburbanos vizinhos são as mais fortes. O Furacão é próprio time suburbano, como o Olaria, Bangu ou América no Rio. A torcida do Furacão tem birra com quem está mais perto, que é o São Lourenço, fazem ‘o clássico da Zona Sul’. Os fãs do Furacão pouco se importam com o Vélez Sarsfield, por exemplo, já que esse está distante, na Z/Oeste.

Grafites em que as torcidas expressam sua paixão com muitas cores, alguns obras de arte, outros bem toscos, mas todas as pinturas de muro inteiro servindo ao propósito de mostrar quem é ‘o dono’ daquele bairro.

Em Santiago e Valparaíso, os murais e postes decorados estão por toda parte, obras de todas as torcidas. Pois bem. Na Argentina não é assim. 

Em Buenos Aires e Mendonça há bastante pichações de futebol sim, como no Brasil. Mas murais e postes decorados não há.

Como informei na legenda acima: vejo fotos na internet dos murais de futebol em Buenos Aires. Então eles existem, sim. Mas em número reduzidíssimo.

Fiquei 4 dias em Buenos Aires, e o tempo todo circulando pela metrópole, Centro, burguesia e periferia. Não vi nenhum mural, nem mesmo perto dos estádios do São Lourenço e dos dois em Avellaneda.

Fiquei os mesmo 4 dias em Santiago, vi centenas de murais em diversos bairros, tantos que perdi a conta. Fotografei dezenas, ainda pude me dar ao luxo de excluir boa parte e só publicar os mais gráficos.

Rivalidade em Córdoba (r): o Estádio Mário Kempes (em tomadas do mesmo ângulo) ocupado pelas torcidas do Belgrano e Talleres, respectivamente.

Em apenas um dia e meio na Grande Valparaíso (esse município mais Vinha do Mar) vi mais murais que em nos 4 dias em Buenos Aires.

Então eles existem na capital argentina? Sim. Mas pouquíssimos. Os murais que eu fotografei do São Lourenço são dentro do estádio, sob a arquibancada. Na rua não existem.

Em Córdoba já muito mais que na capital. Em vários bairros há postes pintados e murais. Lembra mais o Chile, mas bem em proporção bem menor que do outro lado dos Andes.

Dentro desse mesmo campo, Talleres de camisa listrada, Belgrano com a mais clara.

Andei por vários bairros da periferia cordobesa, especialmente na Zona Oeste, inclusive passei exatamente em frente ao Estádio Olímpico de Córdoba ‘Mário Kempes’ que vemos nas 2 fotos a esquerda.

Que é o segundo maior da Argentina só após o Monumental de Nunhez do River Plate. E mesmo ali e nos bairros vizinhos não haviam grafites ou postes decorados.

Em vários outros lugares o mesmo se repetia, pichações certamente em abundância, mas outras manifestações mais elaboradas existentes mas bem mais raras.

Córdoba lembra um pouco a gana do Chile já de forma diluída, e nas outras cidades argentinas há muita pichação mas nada (ou quase nada) além disso.

……..

Zona Sul de Buenos Aires, mas no muro há pichação do Desportivo Cali da Colômbia. Isso é comum na América Hispânica, ver emblemas de times de outros países.

Como o mapa já informou: o campeonato profissional começou em 1931. Até 1938 apenas com times da Grande Buenos Aires e de La Plata, que dista apenas 55 km da capital, enfatizando de novo.

Em 39 é admitida a participação de equipes do interior da província de Buenos Aires, e também da província de Rosário, que é vizinha.

Ou seja, a importância de Rosário no futebol nacional é histórica, data de muitas décadas.

Em 1967 enfim é criado o torneio nacional, aberto a todos. A partir daí passam a ser dois campeonatos por ano.

O nacional e um outro chamado ‘metropolitano’, que continua a ser disputado somente pelos times de Buenos Aires (capital e interior) e Rosário.

Mas muito mais das equipes locais, é claro. Avellaneda, Zona Sul. As torcidas do Racing e Independente disputam quem comanda a distante Zona Oeste. Disse que os times pequenos têm rivalidades apenas locais, e assim é. Mas esses dois são grandes, logo têm torcida na cidade inteira, e também no interior. Por isso os clubes de Avellaneda discutem quem domina um outro município da região metropolitana, que fica a 22 km dali.

Como o futebol na Argentina é grosseiramente concentrado nessas praças na prática os dois torneios tinham a mesma importância.

Repetindo, Buenos Aires e Rosário detém 100% dos títulos, mesmo depois que a disputa foi aberta a outras cidades, o que já data de 1967 num campeonato e 1980 em ambos. 

Isso porque em 1980 o metropolitano passa a incluir 3 times de Córdoba, Talleres, Racing (o local, e não o de Buenos Aires óbvio) e Instituto.

Assim vai até 1985. Portanto, repetindo, no período 1967-85 são dois campeões por ano.

Na temporada 1985/86 é extinto o metropolitano, e tudo unificado no novo campeonato nacional, agora aberto a todos os clubes.

Próximas 5, ainda pelas ruas de Avellaneda. A pichação em letra clara é de futebol. C.A.I. (Independente) é quem assina, e ameaça: “Racing puto, aqui no bairro mando eu”. Em primeiro plano, em letra escura, outro conflito não relacionado ao futebol, alguém pede “Menos La Beriso, mais rock!”. ‘La Beriso’ é uma banda de música romântica que é dali de Avellaneda.

Por 6 anos, até 1991, houve apenas uma disputa por ano. De 1991/92 até 2012 voltam a ser duas disputas por ano, a ‘Abertura’ e ‘Fechamento’ (modelo que ainda é usado na maioria dos países sul-americanos).

Porém agora não há mais discriminação, os dois campeonatos são abertos a todos os times do país. A partir de 2014 volta a ser um torneio por ano, pra igualar o calendário europeu.

……….

Fecho a matéria contando como comecei minha visita ao país. No Chile ir ao jogo foi a última coisa que fiz no estrangeiro, na Argentina inverteu, foi a primeira.

“no bico do corvo”: ‘ciclone’ x ‘furacão’ no ‘templo divino’.

Chegamos a Buenos Aires uma quarta já do meio pro fim-da-tarde. Estávamos num inferno astral.

Estádio do Racing. Repare no esgoto que corre a céu aberto, a infra-estrutura na Argentina está precária, breve falo mais disso.

Nosso voo foi mudado em São Paulo, assim nossa bagagem não foi pra Argentina, como dito acima.

Tudo atrasou bastante, o próprio avião já pousou mais tarde, perdemos muito tempo na fila do câmbio e registrando a queixas das malas.

Pra piorar, a cidade estava em caos. Chovia adoidado, e a Argentina passa por uma rebelião (por enquanto basicamente pacífica, os episódios de violência existem mas nesse início de movimento não são fatais) que tenta derrubar o governo.

Tudo já foi descrito na primeira matéria da série, breve me aprofundo mais. 

Escudos do Independente: na parede . . .

Pro que nos importa aqui, haviam protestos fechando o tráfego pela cidade inteira. Tudo somado, entramos no apartamento que ficamos hospedados no Centrão já 5 da tarde, quando era pra ter sido logo depois do almoço.

Havia planejado ver São Lourenço x Atlético Paranaense. Não sou torcedor do CAP nem de qualquer outro clube, já disse muitas vezes.

Foi apenas o jogo que se abriu, que ocorreu enquanto eu estava lá, então fui. Assim como, pra equilibrar talvez, também já vi o Coxa em outra cidade, no Independência em Belo Horizonte-MG, 2012.

Outra coisa: na Argentina e toda América Hispânica o CAP não é chamado de ‘Atlético’, mas de ‘Paranaense’. Já expliquei o porque na legenda da foto do ingresso, no alto da página.

. . . e num velho caminhão. Colapso! A frota da Argentina parece a de Cuba. Nessa matéria dezenas de fotos.

De volta a Buenos Aires. O São Lourenço é um clube médio, já campeão da América, e tem mais de 10 títulos ‘de cabotagem’ (nacionais).

Mais ou menos no mesmo nível do Veléz Sarsfielda da Zona Oeste, e dos dois clubes de Avellaneda na Zona Sul.

Ou seja, a muitas léguas de River e Boca. Mas estava de bom tamanho. Se o São Lourenço não é gigante, também não é pequeno, então dava pra pegar o espírito.

Além disso, eu sendo de Curitiba seria interessante ver uma partida do Atlético em outro país, mesmo sem ser torcedor desse time. 

Caixa d’água no Centro de Avellaneda tem o nome de todos os times da cidade, desde os pequenos até os 2 grandes lado-a-lado. Os torcedores do Racing e Independente reciprocamente se auto-denominam ‘capo’ e seus rivais de ‘puto‘. E por que ‘Racing’, ‘Newell’s Old Boys’, ‘River Plate’, ou seja, tantos times com nome em inglês? É simples, já contei quando fui ao Chile, a imigração britânica foi infinitamente maior na Argentina e Chile que no Brasil. E os britânicos foram quem fundaram vários clubes nesses países.

Então lá fui eu rumo ao Gasômetro. Planejava chegar cedo ao apê, comer, trocar de roupa e com calma estudar o roteiro e ir ao estádio de transporte coletivo ou mesmo a pé.

Sou acostumado a caminhar muitas horas seguidas, então não só isso não seria um problema como seria uma solução, eu já ia conhecendo a cidade.

Deu tudo errado, e o planejamento foi literalmente por água abaixo. Estava só com uma camiseta, sem nenhum casaco. Sem almoço.

Pelo horário avançado, chuva pesada, horário de pico e mais a cidade estando sitiada pelos piqueteiros, tudo somado a meu desconhecimento das linhas de ônibus e metrô, não dava mais pra ir por conta própria.

Tive que pegar um táxi que cobrou bem caro, nada menos que 100 reais do Centro ao estádio, que não é tão distante assim, na Zona Sul da capital. 

Mas não desisti, persisti ‘contra tudo e contra todos’: Estava sem almoçar, só comera um sanduichinho minúsculo no avião. Eu como bastante, peso pouco mais de 100 kg.

Então praticamente em jejum há 12 horas, estava com fome mesmo. E muito, muito frio. Saí do Brasil apenas de camiseta, pois estava quente.

Buenos Aires esfria muito no fim-de-tarde no outono, todo mundo veste casacos, mas eu não tinha com o que me abrigar pois a mala não veio. Chovia demais. Então lá estava