“Voka” x “Riber”: no futebol da Argentina, a guerra invadiu a linguística

“RiBer Plate”???? É assim que o Boca se refere ao inimigo, com ‘B‘ gigante, desde que ele disputou a série B em 2012. A torcida do River risca a letra ‘B’, óbvio. Pra devolver o favor eles grafam Boca como ‘Voka’, a pronúncia é a mesma. Abaixo falo melhor desses ‘câmbios consonantais’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 17 de abril de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. As que foram baixadas da internet eu identifico com um (r) de ‘rede’.

Como abri a série dizendo (e é notório), a Argentina foi  riquíssima pela maior parte do século 20, até algumas décadas depois da segunda guerra mundial.

Essa não é mais a realidade, agora ela é um país plenamente latino-americano, com tudo que isso representa.

Isso porque nos últimos 40 ou 50 anos houve uma decadência severa, e multi-dimensional: em termos econômicos, políticos, sociais e mesmo culturais.

Agora, existe um ponto que a Argentina não decaiu nem um pouco, o futebol. Ao contrário, nesse campo (literalmente) essa nação continua sendo a potência que sempre foi.

Aqui e acima da manchete: a cidade de Buenos Aires (incluindo os subúrbios) ganhou nada menos que 24 Libertadores. Pra sentir a Alma Portenha, fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense por essa competição. Eu não sou torcedor do CAP, já esclareço. Apenas esse foi o jogo que deu certo eu ir.

Argentina É futebol, eu disse na mensagem passada. Assim de fato a coisa se manifesta:

Das 57 Libertadores eles ganharam 24. E esse fluxo vencedor de títulos se mantém constante, desde que a competição começou em 1960.

Não é difícil entender as razões. A primeira é que realmente os caras sabem jogar bola. E a segunda é que a Argentina é um país bem menor que o Brasil, não tem campeonato estadual.

Terceiro, com o futebol concentrado desproporcionalmente na capital e seus subúrbios. Assim, ganhar o campeonato argentino é quase como ganhar aqui o campeonato estadual:

“Rei de Copas”: apenas o Independente de Avellaneda, também chamado “Diabo Rubro”, levou 7 Libertadores.

Os times que brigam pela taça são todos da mesma cidade, ou no máximo de cidades tão próximas que você vai de ônibus urbano ao estádio adversário.

Por isso, desde que a Libertadores começou eles dão a vida pra ganhá-la. Nas 3 primeiras décadas, o Brasil desprezou essa competição, que então ficou restrita a uma disputa entre Argentina e Uruguai.

Com uma população que é 20% da nossa, os argentinos ganharam 50% a mais de Copas Libertadores de clubes que o Brasil (24 x 17, os dados são sempre de abril.2017, quando faço o texto).

E quase 100% a mais de Copas América de seleções (14 x 8, embora nesse quesito específico eles estejam em jejum desde 1993, enquanto nesse período o Brasil levantou 4 canecos).

Claro, faça-se o adendo que na competição máxima de seleções que é a Copa do Mundo o Brasil é hegemônico não apenas continental como globalmente, foi campeão 5 vezes

“Mão de Deus“: nosso foco são as disputas entre clubes. Mas dando uma pincelada nas seleções, contra a Inglaterra em 1986 Maradona fez 2 gols épicos, um esse que vocês estão presenciando, só o juiz não viu. Como esse jogo foi no México, eu falo dele na postagem sobre o futebol mexicano.

Contra 2 do vizinho paíso último título deles foi no México em 1986, quando Maradona marcou até gol de mão (dir.).”

……….

Ainda assim na América o domínio alvi-celeste é incontestável. Que os argentinos sabem jogar é auto-explicativo. Falemos então da concentração na capital.

No Paraguai, Chile (nesses 2 já fiz matérias específicas sobre o tópico), Peru e Uruguai o modelo é exatamente o mesmo, se você fizer uma disputa metropolitana da capital mais alguns subúrbios, na prática eis o campeonato nacional.

Meu ingresso pra ver São Lourenço x “Paranaense”: como sabem, o CAP aqui em Curitiba é conhecido como “Atlético“, e nacionalmente “Atlético Paranaense” pra diferenciar do Atlético Mineiro. Mas na Argentina e por consequência nos demais países hispânicos, o CAP é o “Paranaense”. Não é difícil entender o porque, já que na Argentina quase todos os times se chamam ‘Clube Atlético’: Clube Atlético River Plate, Clube Atlético Boca Jrs., Clube Atlético Independente, Clube Atlético São Lourenço de Almagro, Clube Atlético Belgrano, Clube Atlético Talleres, etc. Dos 30 times na 1ª atualmente, nada menos que 21 são ‘Clube Atlético’, que assim é um prefixo, e não o nome do time. Aplicando a mesma lógica ao CAP, ficou como “Paranaense”.

Alias por um tempo houve na Argentina esse campeonato chamado ‘metropolitano’, e ele tinha a mesma importância do nacional.

Esse país já teve muitas formas de disputa em seu certame nacional, abaixo faremos um resumo das diversas fórmulas que já foram usadas.

Aqui, o que quero ressaltar é que na Argentina e várias outras pátrias acima citadas o futebol basicamente se resume a capital. Mas isso está longe de ser universal.

Na Colômbia e México o super-clássico nacional opõe capital x interior (repetindo o modelo europeu), como descrevi com detalhes em outras oportunidades. Alias os 3 títulos da Libertadores colombianos foram ganhos pelo interior.

No Equador, alguns dizem que o super-clássico nacional nem envolve a capital, é Barcelona x Emelec, ambos de Guayaquil – mas a única Libertadores equatoriana foi ganha pela capital Quito.

Enquanto na Bolívia a capital La Paz é o polo principal, os dois maiores vencedores são dali, mas o interior é muito forte também – por exemplo o único tetra-campeão boliviano é de Cochabamba.

Maurílio como torcedor do Independente. Abra a postagem pra ver o desenho inteiro, ele está trepado sobre o alambrado, que é como os líderes de torcida veem a partida na Argentina. Uma nota: eu traduzo sempre que que possível tudo pro português, alias nessa postagem mesmo vocês esse debate com um leitor que fez essa retificação.

…….

De volta a nosso foco de hoje. Citei esses países acima pra pôr no contexto, fazendo o contraste. Na Argentina, entretanto, esse esporte basicamente se resume a Buenos Aires e imediações.

Dos 30 participantes da 1ª divisão em 2017, 60% são da Grande Buenos Aires (“Bs. As.”) e da cidade de La Plata.

Leve em conta que em 2015 o campeonato argentino passou por massiva ampliação, exatamente pra aumentar a presença do interior.

Nesse ano de 20 passaram a ser 30 participantes. Logo, de 2 turnos reduziu pra turno único. Apenas os maiores clássicos de cada região se repetem pra inverter o mando.

Os clubes foram emparelhados em duplas contra seu maior rival: Boca x River, Independente x Racing, Rosário Central x Newell’s, etc; nas oportunidades em que não há um clássico da cidade aí vai contra o time da cidade mais perto.

Quando eram 20 times, quase 80% deles eram da capital, região metropolitana e La Plata, que não é região metropolitana mas quase. Exemplifico nos mapas.

Observe os mapas (confira a fonte deles aqui): quando eram apenas 20 times, quase 80% eram da capital. Pegamos o ano de 2008 como exemplo que é típico: apenas 6 do interior enfrentando 14 times de Buenos Aires  no campeonato ‘argentino’. Ou seria melhor dizer ‘campeonato portenho’?,

Um adendo. Como explicado na postagem anterior e é notório, o município de Bs. As. fica dentro da província de Buenos Aires, mas não pertence a ela.

Assim como quando o Rio era nossa capital até 1960 o município do Rio de Janeiro (então nosso D.F.) ficava dentro do estado do Rio de Janeiro mas não pertencia a ele.

Então. E La Plata é a capital da província (pra nós seria chamado ‘estado’) de Buenos Aires. Dista apenas 55 km da capital federal.

Não faz parte da área urbana da Grande Buenos Aires, mas está muito próxima, é um subúrbio estendido. La Plata tem com Buenos Aires mais ou menos a mesma relação que Jundiaí tem com São Paulo, se quiser ver assim.

Nesse texto sobre futebol quando eu falar “Buenos Aires” ou “capital” isso inclui a região metropolitana e mais a cidade de La Plata, que não é região metropolitana mas falta muito pouco pra isso. Esclarecido, vamos lá.

Em 2015 passaram a ser 30 times. Aí a capital ficou com ‘apenas’ 60% deles.

Entre os campeões a supremacia da capital é ainda mais pronunciada. Depois que iniciou-se o profissionalismo (de 1931 pra cá, muitas vezes eram 2 campeonatos no mesmo ano) foram 131 troféus.

121 deles conquistados por Buenos Aires, mais de 91% portanto. De cada 10 edições, 9 taças ficam na vizinhança.

Está claro: ganhar o campeonato argentino pros clubes da capital é como ganhar o paulista ou carioca pros clubes brasileiros. Logo é preciso alçar voos mais altos pra coisa ter alguma graça.

E qual é essa esfera mais alta? A Libertadores, evidente. Resultado: o Independente de Avellaneda tem 7, o Boca 6, Estudantes de La Plata 4, River Plate 3, pra citar somente os multi-campeões.

1960-1988: disputa particular uruguai x argentina
1989-presente: a decadência uruguaia sim; argentina não

Mural do Belgrano em Córdoba: manifestação oni-presente no vizinho Chile, comum em Córdoba já numa proporção menor e inexistente em Buenos Aires e demais cidades argentinas. Ou há muitos poucos, vejo na internet, mas ao vivo não presenciei, e rodei 4 dias na capital argentina.

O domínio já foi ainda mais acentuado. A Libertadores da América se divide em 2 períodos, 1960-1988; e 1989-presente.

Explico. Até o fim dos anos 80, Libertadores significava na prática “Campeão do Rio da Prata”.

Já que ela era pouco mais que uma ‘recopa’ entre argentinos e uruguaios.

Como se sabe, nas 3 primeiras décadas o Brasil desprezou a Liberta. Por exemplo, o Santos de Pelé venceu a 3ª e a 4ª edição da competição, sendo bi em 1962/63.

Postes pintados, também em Córdoba e também pela torcida do Belgrano. Em relação aos postes, repete-se o que falei dos murais na legenda anterior: no Chile em toda parte, em Córdoba um pouco, em Buenos Aires não há – nesse caso não vi sequer pela internet.

Mas depois o clube, numa decisão que se arrende amargamente até hoje, achou que era mais lucro excursionar pela Europa.

Resultando que preferiu não mais disputar esse campeonato, ou pelo menos não com o time principal.

Tivesse centrado forças no torneio continental americano, o Santos fatalmente seria tetra, penta e quem sabe até hexa campeão da Libertadores.

Não foi assim que ocorreu. O alvi-negro praiano e todos os outros times brasileiros voltaram as costas pro principal certame do continente.

Argentinos e uruguaios agradeceram, e o transformam numa disputa particular deles.

Idem, ibidem. Mural e poste na mesma cena.

Em 1988, de 29 taças a Argentina tinha 15 (mais da metade!!!), o Uruguai (que é uma nação muito pequena) nada menos que 8 (5 do Penharol e 3 do Nacional). 

O Brasil somente 5 (um terço da Argentina e bem menos que o Uruguai), o Paraguai 1, nenhum outro país havia vencido.

A coisa era tão aberta que por 12 anos seguidos (1964-75) a taça ficou alternando entre Buenos Aires e Montevidéu somente.

Próximas 2: pichações nas ruas de Córdoba.

O Independente foi tetra seguido (72-75), o Estudantes de La Plata foi tri (68-70), sendo que em 1969/70 foi bi-campeão invicto. Todas essas façanhas permanecem inigualadas até hoje.

Porém, em 1989 a trajetória da Libertadores fez uma curva, que afetou o Uruguai negativamente e Brasil e mais 4 nações positivamente.

Em 1988, o Uruguai tinha 8 taças, o Brasil 5. Mais que isso: Brasil, Paraguai, Colômbia, Chile e Equador somados tinham apenas 6. De lá pra cá o Uruguai não ganhou mais nenhuma – já se vão 29 anos de jejum. Somados, esses 5 países acima deram 19 voltas olímpicas nesse espaço de tempo.

Aqui vemos homenagens aos dois clubes.Yuta’, que o torcedor do Belgrano gostaria de matar, significa polícia. No Chile o termo é o mesmo, e também do outro lado dos Andes alguns gostariam de eliminá-la.

O Brasil venceu 12, é o maior campeão do período (a Argentina levou mais 9). Colômbia 3, Paraguai 2, Chile e Equador 1 cada.

……..

Portanto: o Brasil, depois que voltou os olhos pra Libertadores, foi o vencedor dessas quase 3 décadas, 12 taças contra 9 da Argentina.

Como a diferença era de 3/1, a distância diminuiu muito mas eles seguem com larga vantagem.

O Raio se espalhou pelo continente. Essas 4 outras nações que somadas só haviam vestido a faixa uma única vez o fizeram mais 7 vezes, dessa forma multiplicando por 8 seu quinhão de conquistas.

Estádio Olímpico Mario Kempes, Zona Oeste de Córdoba, segundo maior do país, construído pra Copa de 78. No dia que fiz esse texto (Domingo de Páscoa/17) se enfrentaram ali Talleres x Belgrano pela 1ª divisão, o que não ocorria há 15 anos.

O Uruguai parou no tempo. Entrou numa decadência cruel. Mas a Argentina não decaiu (ao menos no futebol), é isso que quero apontar.

Os anos 90 e 10 (até 17, quando escrevo) foram de preponderância brasileira, é certo. Mas a primeira década do século foi novamente argentina com 5 títulos, sendo 4 só do Boca.

Quando Boca e River (ou ‘Voka’ e ‘Riber’, já falo dessa parte) disputam mais um super-clássico, estão em campo nada menos que 9 Libertadores.

Sede do Talleres (se pronuncia “Tachéres”) no Centro de Córdoba.’Taller’ significa ‘oficina’. Oficina de qualquer coisa, pode ser desde oficina mecânica até oficina de artesanato. No caso, são as oficinas de trens, pois o clube foi fundado pelos trabalhadores que operavam e consertavam as locomotivas. Da mesma forma, em Ponta Grossa-PR há o Operário Ferroviário, cujo estádio fica no bairro Oficinas (da ex-RFFSA), na Zona Sul.

Avellaneda é um subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia dois clubes, Independente e Racing. Pois bem.

Os dois já deram a volta olímpica no torneio máximo continental, o Independente nada menos que 7 vezes, ainda é o ‘Rei de Copas’. Até o ‘clássico suburbano’ opõe ambos times campeões da América. Isso é Buenos Aires, amigo.

……….

Agora, o futebol argentino não mingou com a virada pros anos 90. Mas seu maior campeão da Libertadores sim, esse murchou. O Independente tem 7 taças – mas a última foi no já distante ano de 1984.

Nesse ano, em que logrou sua sétima vitória, o River era virgem, nunca tinha ganho. O Boca tinha 2 taças.

Quando o novo milênio adentrou os dois maiores clubes argentinos estavam empatados, 2 pra cada.

Voltando a Buenos Aires, aqui está a sede do Racing no Centro de Avellaneda. Como o rival Independente jogava no dia e os estádios são a poucas centenas de metros dali, uma viatura da polícia faz a guarda, pra evitar problemas.

Aí veio a impressionante década de 2000. O Boca foi campeão 4 vezes, totalizando 6, bi em 2000/01, e de novo 03 e 07.

E com isso está nos calcanhares do Independente. O River, após quase 20 anos de jejum, levou de novo em 2015, e agora tem 3, ainda metade de seu arqui-rival.

……..

Em relação aos títulos nacionais, aí a vantagem é do River, que venceu 35 vezes, 10 a mais que o Boca que vem logo atrás. O Independente tem 14, São Lourenço 12, e o Vélez Sarsfield 10.

São os únicos que atingem os 2 dígitos. São Lourenço e Vélez ganharam a Libertadores uma vez, em 2014 e 1994 respectivamente.

Por ter sido mais vezes campeão argentino, o River Plate se diz “o maior da Argentina, muito longe dos outros”. Cada um diz o que quer, não necessariamente sendo verdade.

Pouco antes de clicar a imagem acima, eu passei em frente aos estádios. Aqui a multidão faz fila pra adentrar as arquibancadas do campo do Independente.

Na Argentina, o que conta é Libertadores, que o Boca tem o dobro. O certame nacional é chamado pejorativamente por lá de “navegação de cabotagem”.

Eu não tenho qualquer preferência pelo Boca, exatamente ao contrário, o time que tenho alguma simpatia na Argentina é o Independente.

Não gosto do Boca Juniors, nem um pouco, ressalto de novo. Só que números são números. ‘Só idiotas discutem com números’, diz o ditado.

A torcida do Boca é disparado a maior, com 30% dos argentinos sendo ‘xeneizes’, o apelido deles – é uma corrutela de ‘genoveses’.

Dando uns passos pra frente, não vemos mais o estádio do Independente, vermelho como o clube. Mas está óbvio que estamos na frente dele, pois ainda vemos a mesma galera na fila. Agora há o do rival Racing ao fundo, também nas cores do clube, nesse caso azul-claro.

O River vem logo a seguir com 20% da preferência nacional. A alcunha do River é ‘Milionário’.

São os dois gigantes, contra eles não há competição possível em termos de torcida. O 3º clube mais popular da Argentina é o Independente (o ‘Diabo Rubro’), escolha de 5% dos argentinos. 

Esse número já foi muito maior, a decadência do clube tem cobrado um alto preço, como é natural.

Repito, em 1984 o Diabo tinha 7 Libertadores, contra 2 do Boca e River somados. De lá pra cá não ganhou mais, e viu o Boca levar 4, o River mais 3.

O River não por acaso se auto-define como ‘o Milionário’. Foi fundado no bairro da Boca, o mesmo de seu arqui-rival.

Invertendo as posições: agora estou defronte o campo do Racing, ao fundo o do Independente, como as cores de cada um deixam claro.

Mas a muitas décadas se transferiu pra Zona Norte, que é a parte rica de Buenos Aires. O Boca é da Zona Sul, a porção pobre da cidade.

A Zona Norte, no município de Buenos Aires (ou seja, sem incluir região metropolitana), simplesmente não tem nenhuma favela.

Nenhuma. Buenos Aires está coalhada da favelas, e elas assustadoramente triplicaram nesse milênio. Todas nas Zonas Sul, Oeste e Central – Bs. As. não tem Zona Leste.

Camaradagem: o Racing abriu sua bilheteria pra torcida do rival Independente.

Abordei o assunto da miséria na capital argentina na outra postagem, com fotos, gráficos e mapas. Aqui só volto ao tema pra dizer que de fato o Boca é ‘time do povo’.

Enquanto o River domina entre os que tem mais acesso a renda e educação, e a localização dos estádios reflete isso.

Claro que a correspondência não é 100%. Muita gente prefere o River na periferia, e outros torcem pelo Boca mesmo sendo da elite e alta-burguesia. Não é 100%. Mesmo assim, nas favelas o Boca domina amplamente, alias de várias das enormes favelas da capital e região metropolitana dá pra ir a pé a ‘Bombonera’.

Os estádios são a 400 metros um do outro. E Avellaneda está inteira decorada com o ‘fantasminha vermelho da B‘, a torcida do Racing comemora o recente rebaixamento do Independente.

Essa preferência da massa, dos descamisados, se reflete nas demais quebradas e periferias pelo resto do país, independente da distância física pro estádio, é claro.

Já o ‘Monumental de Nunhez’ está incrustrado nos bairros mais elegantes e arborizados da cidade (na verdade fica no vizinho bairro de Belgrano, mas como é divisa com Nunhez, o nome pegou assim).

E esse extrato social elevado é o único em que o River tem maioria. Outra coisa: entre os mais velhos (acima de 60 anos) e entre as Mulheres o River também ganha. Quanto mais jovem e pobre, maior a distância a favor do Boca.

Ou seja: você está numa favela. Vem um garoto, de boné na cabeça. Ele usa uma camisa de futebol. A chance que seja do Boca ou do River é na proporção de 4 pra 1 a favor do Boca.

Mesmo recado na pichação: a “Guarda Imperial” Zona Oeste do Racing desenha o ‘B’ de chifres e escarlate, o Diabo caiu afinal.

………

A capital (com seus subúrbios) domina amplamente o futebol argentino. Levou todas as Libertadores do país, e 121 dos 131 títulos nacionais. Isso já disse.

O que quero adicionar aqui é que o interior da Argentina, em relação ao futebol, praticamente se resuma a uma única cidade: Rosário.

O interior ganhou 10 vezes, e todas as 10 por Rosário, 6 pelo Newell’s Old Boys e 4 pelo seu arqui-rival Rosário Central.

River x Boca (r), o ‘Super-Clássico‘ que para um país (esse aqui não se sabe se é de futebol ou polo aquático). Como dito na abertura, as tomadas com o ‘(r)’ são baixadas da internet.

Rosário também a única cidade do interior que chegou a final da Libertadores. 2 vezes (1988 e 92), ambas com o Newell’s. Perdeu ambas.

Mas essas façanhas são mais que suficiente pra colocar o Newell’s como maior time do interior da Argentina, disparado. E Rosário como a maior cidade do interior, ao menos quando o quesito é esse esporte.       

Novamente: não tenho qualquer preferência pelo Newell’s, apenas analiso os números. Por outro lado, o Rosário Central venceu a Copa Conmebol de 1995.

Como se lembra quem tem idade pra tanto, esse era um torneio secundário, uma espécie de 2ª divisão da Libertadores, precursor da atual Copa Sul-Americana que cumpre esse papel hoje.

Das 131 taças do certame nacional, Boca e River levaram juntos 60, quase 45% somente pra 2 times. O campeonato argentino não é apenas concentrado na capital, mas é concentrado nesse clássico.

A Argentina ganhou 3 vezes a Conmebol, e sempre com clubes menores, fora do circuito. O Talleres de Córdoba e o Lanús da Grande Buenos Aires também contam com essa façanha no currículo.

………

Córdoba é a maior cidade do interior, em termos de população. Rosário é a segunda, pouco atrás, e na sequência vem Mendonça.

Visitei Córdoba e Mendonça, infelizmente Rosário não deu pra ir. Mas pro futebol Córdoba e Mendonça são praticamente irrelevantes, alias todo o interior é irrelevante exceto Rosário.

Esse ano (2017) Córdoba terá seu clássico Talleres x Belgrano pela primeirona nacional. Fato raríssimo, faziam 15 anos que não ocorria.

Drones sobre o estádio no dia do jogo (r), . . . .

Esse times disputaram a 1ª divisão em 21 e 17 oportunidades respectivamente, mas em poucos anos os dois ao mesmo tempo.

O clássico foi disputado no dia que escrevo essas linhas, Domingo de Páscoa/17. Acabou empatado em 1×1, o que manteve o Belgrano em 29º e penúltimo lugar.

Pra completar o circo dos horrores pro clube, a torcida do Belgrano cometeu um crime monstruoso na arquibancada, atirou pelo vão da escada um rapaz de 26 anos, tudo foi filmado e as cenas correram o mundo.

Ele sofreu traumatismo craniano e acabou desencarnando no hospital. Pra piorar, depois descobriram que ele torcedor do próprio Belgrano, e não do rival Talleres como pensaram na hora. A briga não era por futebol, quem disse que o rapaz era da torcida inimiga mentiu por uma rixa antiga. Sem saber disso a ‘barra-brava’ do Belgrano assassinou um dos seus. ‘Fogo amigo’.

. . . um cara com a letra ‘B‘ na camisa na arquibancada (r), . . .

Bem, a violência nos estádios é universal na América Latina, quando estive na Colômbia vi cenas similares pela TV nos clássicos de Cali e Medelím.

E aqui no Brasil os cadáveres perecidos em guerras de torcidas se contam as centenas nessas últimas 3 décadas, numa realidade amaríssima.

Voltemos a Argentina. O Talleres subiu de novo somente esse ano, depois de 12 anos na 2ª e mesmo 3ª divisões.

Seu arqui-rival Belgrano está na 6ª temporada no torneio principal do país, mas deve cair esse ano. Quando eu estava na Argentina, vi pela TV o Belgrano vencer em casa o Racing de Avellaneda por 2×0. Era a sétima rodada, e foi somente a 1ª vitória do time cordobês.

. . . e infinitas pichações pela cidade: o Boca não cansa de relembrar ao River seu rebaixamento.

Até então eram 3 empates e 3 derrotas, estava em último. Com o triunfo subiu pra penúltimo, o que não ajuda muito. 4 semanas depois, se mantinha no mesmo lugar.

Na Grande Mendonça é ainda pior, só há um clube na primeira, o Godoy Cruz. Há muito a cidade não vê um clássico local pela série A argentina. 

Se serve de consolo, como dito acima o Talleres de Córdoba já venceu um torneio internacional, a Copa Conmebol de 1999.

A final, vejam vocês, foi contra o CSA de Alagoas. Também chegaram a semifinal o Desportivo Concepção do Chile e o São Raimundo do Amazonas. Foi a última edição da Copa Conmebol.

‘voka’ x ‘riber’; rosário ‘bentral’; e o ‘paranaense’ de ‘curitiva’

No idioma espanhol, como se sabe, não há a pronúncia da letra ‘v’. Se escrevendo com essa letra ou com ‘b’, pronuncia-se tudo como se fosse ‘b’.

Veja ao lado: nossa bagagem não chegou conosco a Buenos Aires, só 2 dias depois. Eis a reclamação no guichê da Gol feita no aeroporto central de Bs. As., o Aero-Parque.

A viação aérea é brasileira, mas essa ficha foi preenchida na Argentina, por um funcionário argentino da empresa.

Quando eu estava na Argentina, esse país enfrentou o Chile pelas eliminatórias no Monumental de Nunhez. O time da casa jogou muito mal, e venceu por 1×0 graças a um pênalti duvidoso (diz a própria imprensa local) aos 16 do 1º. Sete minutos antes anularam um gol do Chile. Vi pela TV em Córdoba.

Perguntou que cidade morávamos, e respondemos ‘Curitiba’. O rapaz não teve dúvidas: mandou ver ‘Curitivano papel, porque pra ele a pronúncia é idêntica.

Isto posto, podemos entender porque a briga das torcidas nesse país vizinho invadiu a linguística:

Além de mais títulos na Libertadores e maior número de fãs, o Boca é o único clube que nunca foi rebaixado, que sempre disputou a 1ª divisão do profissional.

O River lhe fazia companhia até 2011. Mas nesse ano caiu, e teve que jogar a série B. Resultado: desde então a torcida do Boca só grafa o River como ‘Riber’ Plate.

O que obviamente os ‘milionários’ odeiam. Volte ao topo da página e observe a primeira imagem, logo abaixo da manchete. Alguém do Boca grafou ‘RiBer’ no muro, propositadamente exagerando no ‘B’, que ficou gigante óbvio, pois é esse o ponto nevrálgico que enerva o inimigo. 

Córdoba: um torcedor do Talleres pintou o símbolo do clube sob a palavra ‘loucura’. Um rival do Belgrano profanou, dizendo ‘loucura de galinhas’. Na América Hispânica, é essa pecha que as torcidas tentam impôr sobre os adversários. Por isso o ‘T’ virou ‘G’, de ‘Galleres’, soma de ‘Talleres’ com ‘Gallinas’. ‘Peito Frio‘ também é uma expressão castelhana que quer dizer que o jogador não tem sangue quente, a camisa ‘não esquenta’ no peito, aí tanto faz ganhar ou perder.

Enervou mesmo. Algum torcedor do River foi lá e tentou com todas as suas forças riscar a letra ‘B’, como se sua vida – ou ao menos sua honra – dependesse de ocultar esse símbolo gráfico.

Não adianta nada, claro. Os boquenses continuam a proliferar o mantra ‘Riber’ por todas as partes da cidade, um pouco mais pra cima a esquerda mais um exemplo: “River vende fumo, você foi pra (série) B’, é o que está escrito nessa porta de loja.

Pra compensar, a torcida ‘milionária’ do River grafa o rival como ‘Voka’. A pronúncia é a mesma de ‘Boca’. Nesse caso não há correlações com rebaixamentos, já que infelizmente pro River o Boca jamais foi rebaixado.

Simplesmente se paga na mesma moeda. ‘Vocês distorcem a grafia do nosso time, nós distorcemos do seu’, é a lógica de quem criou e espalha o termo ‘Voka’.

Na Argentina, a briga futebolística definitivamente descambou pra dimensão da linguística. O combate é pra mudar as letras no nome do adversário. Os gramados, arquibancadas, ‘adesivos’ na internet (“memes”) e muros se tornaram muito pouco . . . .

Próximas 12: vamos ver mais algumas cenas que eu captei no Novo Gasômetro, estádio do São Lourenço na Z/Sul de B. Aires. Aqui a bateria da ‘Gloriosa’ no aquecimento. Por enquanto sem os saxofonistas.

……….

Não é só no Super-Clássico que essa situação acontece. Estive na Vila Carlos Paz, no interior da província de Córdoba.

A uma hora de ônibus da capital estadual, é uma espécie de ‘Campos do Jordão (SP)’ argentina.

Na verdade Carlos Paz é ainda mais bela que C. do Jordão, pois nessa cidade argentina além das montanhas há um rio que vira um lago bem no Centro.

Em Carlos Paz eu me senti na Suíça, se quer saber. Breve subo as fotos que tirei por lá. Aqui nosso tema é futebol. A Vila Carlos Paz está a 40 km do Centro de Córdoba, você faz um bate-volta, sai cedo e volta a noite se quiser.

No alambrado: na Argentina é assim que os cabeças da barra-brava (torcida organizada) veem o jogo, sempre trepados nas grades. Por isso desenhei Maurílio na mesma posição.

De Rosário a distância decuplica, ou seja são 400 km. Então é preciso pernoitar.

Mesmo assim, muitos rosarinos visitam Carlos Paz. Comprovei isso pelas pichações nos muros, a guerra entre as torcidas do Rosário Central e Newell’s Old Boys (sigla ‘N.O.B.’ nos pichos).

Pois bem. Exatamente na orla, na parte mais bonita da cidade, estava grafado Rosário “B”entral, com o ‘B’ bem grande e destacado.

Aí não tem a ver com a linguística. Simplesmente um torcedor do Newell’s ressaltava o recente rebaixamento do rival.

O Rosário já caiu 4 vezes, mas a última é bem recente, já em 2010, e ele levou 3 anos na série B.

Poucos minutos antes da bola rolar, a banda vai pra arquibancada. No destaque mais um rapaz agarrado a grade, eles ficam o jogo inteiro ali, e não somente pra pôr as faixas como alguém poderia pensar.

O Newell’s também já foi pra segundona, mas está ininterruptamente na primeira desde 1964.

……….

No Clássico Suburbano de Avellaneda o mesmo se repete. O Boca é o único que nunca caiu, repetindo. Até 2011, River e Independente de Avellaneda lhe faziam companhia.

O River teve que disputar a segundona em 2012. No ano que ele retornou pra primeira divisão, em 2013, foi a vez do Independente ser rebaixado. Agora todos caíram, exceto o Boca Juniors. 

Os famosos guarda-sóis não iriam mesmo faltar, nada é mais argentino que isso!

Em Avellaneda os dois rivais já estiveram na série B. O Racing foi rebaixado em 1983, e ficou 3 anos antes de voltar.

Os torcedores do Diabo Rubro até hoje comemoram essa data, vi camisetas alusivas a esse fato, dizendo “Proibido Esquecer”.

Porém agora a maré virou. Nessa década de 10 foi a vez do Independente jogar a segunda. Conseguiu subir no 1º ano.

Ainda assim, a torcida azul do Racing não perdoa, evidente. Avellaneda está inteira pichada com um fantasminha em vermelho com a letra ‘B’.

A foto acima da manchete.

Agora um detalhe curioso: a rivalidade entre Racing e Independente é acirradíssima dentro de campo.

E as pichações nos muros, camisetas e cânticos deixam claro. Mas fora dele os clubes se ajudam.

Os estádios são na mesma quadra, de um você vê o outro. Fui pra Zona Sul de Buenos Aires num sábado a tarde.

Conheci os bairros de Parque Patrícios, Nova Pompéia e Barracas, rumo a famosa favela da Vila 21.

Portão da ‘Cidade Esportiva‘ do S. Lourenço. Chovia muito, veja as capas amarelas.

Cruzei o Riachuelo, mudando de estado e município, do Distrito Federal pra Avellaneda, na província de Buenos Aires.

Chegando ao Centro de Avellaneda, vi uma multidão caminhando com camisas vermelhas, e logo concluí que iam ao jogo do Independente.

Resolvi acompanhá-los até o portão do estádio, embora eu não poderia entrar porque não tinha dinheiro suficiente.

Ainda assim me imiscuí entre a rapaziada e fui, pra pelo menos sentir o clima. Chegamos as imediações do ‘Estádio Libertadores da América’. Sim, esse é o nome oficial da praça desportiva, pra lembrar a todos quem é o ‘Rei de Copas’.

dentro do complexo, em 1º plano um campo de treinamento, ao fundo o estádio.

Mesmo não podendo passar pra arquibancada, foi bom estar ali. Camelôs e bares vendiam churrasco, sanduíches e cerveja.

A banda fazia o aquecimento, com seus bumbos e saxofones característicos. A galera bradava seus gritos de guerra.

Vi os ônibus que trouxeram os comboios do interior. Eram veículos na configuração urbana, com 2 (ou 3) portas e bancos fixos de acrílico.

Próximas 2: quando adentrei o estádio, 1 hora antes do jogo, por isso está vazio. Quando a bola rolou, as retas encheram. A curva oposta continuou vazia. Choveu muito, Buenos Aires tinha diversas vias sitiadas por protestos e na rodada anterior o São Lourenço levou 4×0 do Flamengo no Rio. Tudo isso afastou o público.

Imagine ficar horas e horas sentado naqueles tocos duros, haja paixão!

No Brasil, os comboios das torcidas são em ônibus de viagem, em que o banco é maior, estofado e reclina, um pouquinho que seja.

Como disse acima: os estádios são vizinhos. Eu estava ali, entre a massa vermelha, que adentrava os portões do campo do Independente.

Como pano de fundo da cena estava o estádio do Racing, que é maior.

Saí dali, me dirigindo ao Centro de Avellaneda. Já anoitecia, e como não poderia mesmo ir pra arquibancada queria aproveitar os últimos raios de Sol pra conhecer um pouco mais da cidade.

Repare nas barreiras na arquibancada, pra impedir a ‘avalanche’, comemoração do gol em que tudo mundo corria em direção ao alambrado, causando esmagamento.

Antes passei exatamente em frente o campo do rival Racing.

Os torcedores do Independente faziam o mesmo trajeto, mas no sentido oposto.

Pois bem. A bilheteria do Racing estava aberta. . . porém a serviço do ‘inimigo’.

Eram os torcedores do Independente quem compravam ingressos pra ver seu time.

Pois o Racing jogava fora na rodada, e não no mesmo dia, tudo pra evitar encontros das torcidas adversárias. 

Com a bola rolando. O São Lourenço, mandante, jogou com o uniforme titular escuro. O CAP, visitante, veio de branco.

O que ocorre é o seguinte. A polícia isolou várias quadras ao redor do estádio do Independente, só passava pela barreira quem já tinha ingresso em mãos.

Eu pude conhecer o estádio ao menos por fora porque eu vim mais cedo e por um acesso secundário, onde a polícia ainda não havia fechado.

Porém na avenida principal, a que vinha do Centro, estava interditado exceto pra quem já tinha o bilhete adquirido.

Tive que pedir licença pro policial, ele abriu pra mim a porta dos deficientes, pra que eu pudesse sair enquanto a multidão entrava. Como eu estava saindo, obviamente não houve complicações. Mas ninguém podia entrar sem ingresso.

Torcida do Atlético-PR presente em Buenos Aires. Eles levaram 2 bandeiras do Brasil, infelizmente essas fotos desfocaram.

E quem não havia comprado não mais podia fazê-lo no estádio do Independente, já que a bilheteria fica dentro da zona fechada. Então como fazê-lo?

O Racing deu uma mãozinha, e abriu as suas próprias bilheterias aos que deixaram pra última hora. Uma camaradagem interessante, inimigos dentro das 4 linhas, parceiros fora delas.

……….

Fechamos (por hora) a sequência dentro do estádio do São Lourenço. São os saxofonistas, agora a orquestra está completa.

Qual o povo mais fanático por futebol no mundo? O argentino? Não, é o chileno.

Digo, na arquibancada são iguais. O torcedor argentino é passional, e suas ‘hinchadas’ são famosas por nunca pararem de cantar. De fato assim é.

Veja a prova: a própria torcida do São Lourenço levanta pra rede um vídeo de uma final que eles perderam por 3×0. O resultado dentro de campo importa menos, o fundamental é que o ‘alento’ na arquibancada nunca pare.

Fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense pela Libertadores, 3 dias antes desse sábado em Avellaneda. Já eu conto melhor. Aqui é só pra dizer que chovia a cântaros, o São Lourenço perdeu em casa, e passou o jogo inteiro perdendo, já que o gol do CAP foi logo aos 3 do primeiro.

Aqui e a direita: Zona Sul de Buenos Aires: a torcida do Furacão (esse é o nome do time, não é apelido) homenageia um de seus ídolos.

Ainda assim, a torcida do São Lourenço não parou um minuto de pular e cantar, a plenos pulmões. Voltando a pergunta que eu fiz, dentro do estádio não há diferença, fato. Mas nas ruas o chileno faz questão de se manifestar de forma mais expressiva.

Como eu já contei com muitas fotos quando retornei de lá, no Chile a guerra de torcidas é poste-a-poste. No Centro das cidades não porque a burguesia não se interessa por isso.

Mas assim que você entra nos bairros mais humildes – mesmo aqueles bem centrais, em que você pode ir a pé do Centrão e comprovei isso pessoalmente – e muito mais nas quebradas distantes do subúrbio, todos os postes do bairro são pintados com as cores de algum time.

Todos os postes, todos os bairros, todo o subúrbio e também a parte mais proletária da Zona Central. Além disso, são famosos mundialmente os ‘murais’ chilenos:

Furacão Capo” (chefão da máfia, e por analogia aqui o dono do bairro), e “São Silêncio de Amargo”, provocação ao vizinho São Lourenço de Almagro. Pelo futebol argentino ser muito centrado na Grade Buenos Aires, as rivalidades dos bairros ou municípios suburbanos vizinhos são as mais fortes. O Furacão é próprio time suburbano, como o Olaria, Bangu ou América no Rio. A torcida do Furacão tem birra com quem está mais perto, que é o São Lourenço, fazem ‘o clássico da Zona Sul’. Os fãs do Furacão pouco se importam com o Vélez Sarsfield, por exemplo, já que esse está distante, na Z/Oeste.

Grafites em que as torcidas expressam sua paixão com muitas cores, alguns obras de arte, outros bem toscos, mas todas as pinturas de muro inteiro servindo ao propósito de mostrar quem é ‘o dono’ daquele bairro.

Em Santiago e Valparaíso, os murais e postes decorados estão por toda parte, obras de todas as torcidas. Pois bem. Na Argentina não é assim. 

Em Buenos Aires e Mendonça há bastante pichações de futebol sim, como no Brasil. Mas murais e postes decorados não há.

Como informei na legenda acima: vejo fotos na internet dos murais de futebol em Buenos Aires. Então eles existem, sim. Mas em número reduzidíssimo.

Fiquei 4 dias em Buenos Aires, e o tempo todo circulando pela metrópole, Centro, burguesia e periferia. Não vi nenhum mural, nem mesmo perto dos estádios do São Lourenço e dos dois em Avellaneda.

Fiquei os mesmo 4 dias em Santiago, vi centenas de murais em diversos bairros, tantos que perdi a conta. Fotografei dezenas, ainda pude me dar ao luxo de excluir boa parte e só publicar os mais gráficos.

Rivalidade em Córdoba (r): o Estádio Mário Kempes (em tomadas do mesmo ângulo) ocupado pelas torcidas do Belgrano e Talleres, respectivamente.

Em apenas um dia e meio na Grande Valparaíso (esse município mais Vinha do Mar) vi mais murais que em nos 4 dias em Buenos Aires.

Então eles existem na capital argentina? Sim. Mas pouquíssimos. Os murais que eu fotografei do São Lourenço são dentro do estádio, sob a arquibancada. Na rua não existem.

Em Córdoba já muito mais que na capital. Em vários bairros há postes pintados e murais. Lembra mais o Chile, mas bem em proporção bem menor que do outro lado dos Andes.

Dentro desse mesmo campo, Talleres de camisa listrada, Belgrano com a mais clara.

Andei por vários bairros da periferia cordobesa, especialmente na Zona Oeste, inclusive passei exatamente em frente ao Estádio Olímpico de Córdoba ‘Mário Kempes’ que vemos nas 2 fotos a esquerda.

Que é o segundo maior da Argentina só após o Monumental de Nunhez do River Plate. E mesmo ali e nos bairros vizinhos não haviam grafites ou postes decorados.

Em vários outros lugares o mesmo se repetia, pichações certamente em abundância, mas outras manifestações mais elaboradas existentes mas bem mais raras.

Córdoba lembra um pouco a gana do Chile já de forma diluída, e nas outras cidades argentinas há muita pichação mas nada (ou quase nada) além disso.

……..

Zona Sul de Buenos Aires, mas no muro há pichação do Desportivo Cali da Colômbia. Isso é comum na América Hispânica, ver emblemas de times de outros países.

Como o mapa já informou: o campeonato profissional começou em 1931. Até 1938 apenas com times da Grande Buenos Aires e de La Plata, que dista apenas 55 km da capital, enfatizando de novo.

Em 39 é admitida a participação de equipes do interior da província de Buenos Aires, e também da província de Rosário, que é vizinha.

Ou seja, a importância de Rosário no futebol nacional é histórica, data de muitas décadas.

Em 1967 enfim é criado o torneio nacional, aberto a todos. A partir daí passam a ser dois campeonatos por ano.

O nacional e um outro chamado ‘metropolitano’, que continua a ser disputado somente pelos times de Buenos Aires (capital e interior) e Rosário.

Mas muito mais das equipes locais, é claro. Avellaneda, Zona Sul. As torcidas do Racing e Independente disputam quem comanda a distante Zona Oeste. Disse que os times pequenos têm rivalidades apenas locais, e assim é. Mas esses dois são grandes, logo têm torcida na cidade inteira, e também no interior. Por isso os clubes de Avellaneda discutem quem domina um outro município da região metropolitana, que fica a 22 km dali.

Como o futebol na Argentina é grosseiramente concentrado nessas praças na prática os dois torneios tinham a mesma importância.

Repetindo, Buenos Aires e Rosário detém 100% dos títulos, mesmo depois que a disputa foi aberta a outras cidades, o que já data de 1967 num campeonato e 1980 em ambos. 

Isso porque em 1980 o metropolitano passa a incluir 3 times de Córdoba, Talleres, Racing (o local, e não o de Buenos Aires óbvio) e Instituto.

Assim vai até 1985. Portanto, repetindo, no período 1967-85 são dois campeões por ano.

Na temporada 1985/86 é extinto o metropolitano, e tudo unificado no novo campeonato nacional, agora aberto a todos os clubes.

Próximas 5, ainda pelas ruas de Avellaneda. A pichação em letra clara é de futebol. C.A.I. (Independente) é quem assina, e ameaça: “Racing puto, aqui no bairro mando eu”. Em primeiro plano, em letra escura, outro conflito não relacionado ao futebol, alguém pede “Menos La Beriso, mais rock!”. ‘La Beriso’ é uma banda de música romântica que é dali de Avellaneda.

Por 6 anos, até 1991, houve apenas uma disputa por ano. De 1991/92 até 2012 voltam a ser duas disputas por ano, a ‘Abertura’ e ‘Fechamento’ (modelo que ainda é usado na maioria dos países sul-americanos).

Porém agora não há mais discriminação, os dois campeonatos são abertos a todos os times do país. A partir de 2014 volta a ser um torneio por ano, pra igualar o calendário europeu.

……….

Fecho a matéria contando como comecei minha visita ao país. No Chile ir ao jogo foi a última coisa que fiz no estrangeiro, na Argentina inverteu, foi a primeira.

“no bico do corvo”: ‘ciclone’ x ‘furacão’ no ‘templo divino’.

Chegamos a Buenos Aires uma quarta já do meio pro fim-da-tarde. Estávamos num inferno astral.

Estádio do Racing. Repare no esgoto que corre a céu aberto, a infra-estrutura na Argentina está precária, breve falo mais disso.

Nosso voo foi mudado em São Paulo, assim nossa bagagem não foi pra Argentina, como dito acima.

Tudo atrasou bastante, o próprio avião já pousou mais tarde, perdemos muito tempo na fila do câmbio e registrando a queixas das malas.

Pra piorar, a cidade estava em caos. Chovia adoidado, e a Argentina passa por uma rebelião (por enquanto basicamente pacífica, os episódios de violência existem mas nesse início de movimento não são fatais) que tenta derrubar o governo.

Tudo já foi descrito na primeira matéria da série, breve me aprofundo mais. 

Escudos do Independente: na parede . . .

Pro que nos importa aqui, haviam protestos fechando o tráfego pela cidade inteira. Tudo somado, entramos no apartamento que ficamos hospedados no Centrão já 5 da tarde, quando era pra ter sido logo depois do almoço.

Havia planejado ver São Lourenço x Atlético Paranaense. Não sou torcedor do CAP nem de qualquer outro clube, já disse muitas vezes.

Foi apenas o jogo que se abriu, que ocorreu enquanto eu estava lá, então fui. Assim como, pra equilibrar talvez, também já vi o Coxa em outra cidade, no Independência em Belo Horizonte-MG, 2012.

Outra coisa: na Argentina e toda América Hispânica o CAP não é chamado de ‘Atlético’, mas de ‘Paranaense’. Já expliquei o porque na legenda da foto do ingresso, no alto da página.

. . . e num velho caminhão. Colapso! A frota da Argentina parece a de Cuba. Breve dezenas de fotos.

De volta a Buenos Aires. O São Lourenço é um clube médio, já campeão da América, e tem mais de 10 títulos ‘de cabotagem’ (nacionais).

Mais ou menos no mesmo nível do Veléz Sarsfielda da Zona Oeste, e dos dois clubes de Avellaneda na Zona Sul.

Ou seja, a muitas léguas de River e Boca. Mas estava de bom tamanho. Se o São Lourenço não é gigante, também não é pequeno, então dava pra pegar o espírito.

Além disso, eu sendo de Curitiba seria interessante ver uma partida do Atlético em outro país, mesmo sem ser torcedor desse time. 

Caixa d’água no Centro de Avellaneda tem o nome de todos os times da cidade, desde os pequenos até os 2 grandes lado-a-lado. Os torcedores do Racing e Independente reciprocamente se auto-denominam ‘capo’ e seus rivais de ‘puto‘. E por que ‘Racing’, ‘Newell’s Old Boys’, ‘River Plate’, ou seja, tantos times com nome em inglês? É simples, já contei quando fui ao Chile, a imigração britânica foi infinitamente maior na Argentina e Chile que no Brasil. E os britânicos foram quem fundaram vários clubes nesses países.

Então lá fui eu rumo ao Gasômetro. Planejava chegar cedo ao apê, comer, trocar de roupa e com calma estudar o roteiro e ir ao estádio de transporte coletivo ou mesmo a pé.

Sou acostumado a caminhar muitas horas seguidas, então não só isso não seria um problema como seria uma solução, eu já ia conhecendo a cidade.

Deu tudo errado, e o planejamento foi literalmente por água abaixo. Estava só com uma camiseta, sem nenhum casaco. Sem almoço.

Pelo horário avançado, chuva pesada, horário de pico e mais a cidade estando sitiada pelos piqueteiros, tudo somado a meu desconhecimento das linhas de ônibus e metrô, não dava mais pra ir por conta própria.

Tive que pegar um táxi que cobrou bem caro, nada menos que 100 reais do Centro ao estádio, que não é tão distante assim, na Zona Sul da capital. 

Mas não desisti, persisti ‘contra tudo e contra todos’: Estava sem almoçar, só comera um sanduichinho minúsculo no avião. Eu como bastante, peso pouco mais de 100 kg.

Então praticamente em jejum há 12 horas, estava com fome mesmo. E muito, muito frio. Saí do Brasil apenas de camiseta, pois estava quente.

Buenos Aires esfria muito no fim-de-tarde no outono, todo mundo veste casacos, mas eu não tinha com o que me abrigar pois a mala não veio. Chovia demais. Então lá estava eu, com fome, roupa encharcada que o vento frio me dava a sensação de estar no Polo Sul (ou quem sabe no Polo Norte?).

Ufa!!! São Lourenço campeão da Libertadores/2014. Acabou a piada mais antiga do futebol da Argentina. As iniciais do Clube Atlético São Lourenço de Almagro são ‘C.A.S.L.A.’. Como ele era o único grande sem esse título, os rivais diziam que a sigla era de ‘Clube Ainda Sem Libertadores da América’. Agora não mais, informa o mural no estádio.

Se tudo fosse pouco, o entorno do estádio é uma parte bastante perigosa da cidade. Bem em frente há uma enorme favela, uma das maiores da capital, o que já ajuda compor o cenário. Todos recomendaram não andar pelas ruas sob risco iminente de ser roubado.

Assim, enfrentando fome, frio, chuva, possibilidade de assaltos e uma cidade paralisada por protestos, cheguei ao Novo Gasômetro, o estádio do São Lourenço. Fica no bairro portenho de Flores.

Alias falando em roubos, o estádio anterior era na época simplesmente ‘o Gasômetro’, mas o terreno foi confiscado pela ditadura militar, e hoje abriga um supermercado Carrefour.

Passei em frente, o taxista me mostrou o local e contou a história. O clube até hoje não perdoa a ‘mão-grande’, e quem perdoaria? Há um movimento muito forte pra que o espaço seja devolvido ao São Lourenço, e ali se erga novamente o estádio. “Voltaremos a Boedo”, é o mantra mais forte de sua torcida.

Ao lado uma imagem que resume a luta, um menino com a camisa do time no estacionamento do mercado. Quando seu pai tinha a mesma idade, nesse exato local era a entrada do estádio, veja o vídeo.

O time foi fundado em 1908, e sua antiga sede ficava no bairro de Almagro, daí o nome. Mas depois o bairro de Boedo foi seccionado de Almagro, por isso o São Lourenço de Almagro quer voltar a Boedo. Incluso já é lei municipal. Veremos se será cumprida.

Mais um grafite: São Lourenço é ‘o Corvo’. Também é conhecido como ‘Ciclone‘. Seu rival da Z/Sul é o Furacão, daí o clássico ‘Ciclone x Furacão’. Quando o CAP – que também é o ‘Furacão’ – jogou lá, o emparelhamento se repetiu. Em tempo: o Cerro Portenho de Assunção tem as mesmas cores, mesmo escudo e mesmo apelido de Ciclone, ‘clonou’ o S. Lourenço, prática comum no Paraguai.

Deixemos a história pra lá e falemos de 2017, quando fui ao Novo Gasômetro. Ainda precisava providenciar o ingresso. Bem, essa parte foi mais fácil que eu esperava.

Assim que entrei no complexo esportivo de propriedade do clube (que inclui também ginásio, piscinas, quadras de tênis e diversos outros campos usado pra treino) fui abordado por vários cambistas.

Como chovia muito – e portanto a audiência seria muito abaixo da esperada – eles desovavam as entradas pelo preço de custo. O que não era barato. Pra não-sócios (lá o termo é ‘convidado’) a entrada custa 400 pesos, ou seja 80 reais.

Fui a jogos no Chile e Paraguai, paguei o equivalente a 20 e 10 reais respectivamente.  Tudo bem que já passou um tempinho, fazem 2 anos que estive no Estádio da Praia Grande em Valparaíso e 4 no Defensores do Chaco em Assunção.

Voltando a Argentina, o jogo do Independente era ainda mais salgado, 50 reais pra não-sócios. O futebol na Argentina está todo voltado pra que apenas sócios frequentem as canchas. Pra você ser sócio do São Lourenço custa apenas 330 pesos ou 66 reais por mês, ou seja menos que um ingresso unitário pros não-sócios.

A mesma ave no ponto em frente ao estádio do ramal sudoeste do sistema de ônibus Metro-Bus. Em outra mensagem, breve, o transporte na Argentina.

Um detalhe importante: no Brasil, vários campos de futebol passaram pro um processo de modernização. E em muitos casos parecem teatros, com amplos estacionamentos, butiques, praças de alimentação e em alguns casos banheiros com mármore.

O exemplo é o Maracanã, que abrigou 200 mil pessoas, e hoje tem capacidade pra um terço disso, eliminaram a famosa geral que era onde ficava o povão, a massa folclórica de descamisados que vinha de trem.

Na América Hispânica, esse está longe de ser o caso. Os estádios não foram reformados, e ainda contam com a mesma parca estrutura de décadas atrás. No Gasômetro do São Lourenço o aquecimento da torcida é no vão embaixo da arquibancada, que está cheia de goteiras.

De volta a Avellaneda. Se o tema é transporte coletivo, agora segura essa: a massa do ‘Diabo Rubro’ chega ao estádio. Ao fundo o trem suburbano.

Pra se alimentar, há uma tosca lanchonete em que você se espreme num balcão de concreto pra comprar pão com bife ou linguiça, comida altamente calórica e gordurosa. E pra beber? Copos de plástico com Coca-Cola.

Cheguei ali ensopado, com frio e fome, como já expliquei. Não podia comer nada pois não tinha dinheiro.

A “Gloriosa”, a ‘barra-brava’ (torcida organizada) do São Lourenço, estava se agrupando, faltava hora e pouco pra bola rolar.

A princípio havia um forte cheiro de carne de segunda sendo assada, pois estávamos ao lado da lanchonete. Quando a rapaziada da Gloriosa formou a roda, o odor dominante foi substituído pelo de maconha.

Também em frente do campo do Independente.

A bateria começou a tocar. Os bumbos e pratos são no mesmo instrumento, ou seja um tambor com um prato colado acima.

O cara fica com um bastão na direita e outro prato na esquerda, e toca os dois ao mesmo tempo.

Poucos minutos antes do apito inicial, passamos pra arquibancada. Aí adentraram os saxofones. Toda torcida da Argentina conta com uma orquestra de saxofonistas.

Aqui e a esquerda: Racing x Independente, o ‘Clássico de Avellaneda’, ‘Clássico Suburbano‘, e também o ‘Clássico da Zona Sul’ – o metropolitano da Z/S, o municipal é São Lourenço x Furacão como dito acima.

Logo aos 3 minutos o time brasileiro abriu o placar, por ironia o tento foi marcado por um argentino (Lucho González), de cabeça.

Eu fotografava a torcida e não vi o gol, que acabou sendo o único da partida. No segundo tempo o time da casa bateu um pênalti pra fora.

Como dito acima, a torcida do São Lourenço cantou, pulou e batucou o tempo inteiro, mesmo numa noite fria e chuvosa, mesmo perdendo desde o começo.

Já havia passado pelo mesmo na Colômbia e Chile (no Paraguai fui ver um time pequeno, e o gigante Defensores do Chaco estava deserto. Além disso, nesse caso fiquei no lado oposto ao da torcida organizada).

Mas faltava vivê-lo na Argentina, em Buenos Aires, cidade que contando com os subúrbios concentra nada menos que 24 Libertadores. Valeu a pena enfrentar todas as dificuldades materiais.

É sempre um clima tenso. Jogadores de ambas as equipes se enfrentam ‘olho-no-olho‘ (r).

É uma experiência de arrepiar. De arrepiar, mano. Lágrimas de emoção escorriam dos olhos, e todos os pelos do corpo se eriçavam (veja o vídeo ligado mais pro alto na página pra saber como é a festa da torcida).

Eu ali, no ‘Templo Divino’ – me refiro a que o Papa é torcedor declarado do São Lourenço, há murais relativos a esse fato. ‘Contra tudo e contra todos’, eu chegara ali.

Frio, chuva, fome, forte cheiro de linguiça barata e de erva – ainda mais barata – no ar. Olhando pro lado, via os ‘prédios artesanais’ da favela em frente, que já atingem o 3º ou 4º andar.

No meio daquela massa que pulava e cantava, especialmente quando entoavam os cânticos relativos a conquista da Libertadores, sonho centenário do time enfim realizado. A bateria batendo forte.

“Agante Boca”, no Centro de Buenos Aires. Na verdade o autor quis dizer ‘aguante’, literalmente ‘aguente’, mas no léxico esportivo castelhano significa ‘torcida’. ‘No tienes aguante’ quer dizer ‘teu time não tem torcida’. Um rival adicionou o clássico ‘puto’.

É Transcendental. Buenos Aires É futebol. Naquele momento, eu tive uma espécie de ‘Samadhi’, se você sabe o que é isso. 

Captava a Essência da Alma Argentina, de seu Logos. E (por alguns momentos que fosse) eu era parte dela, era Um com essa Vibração. 

Se no dia seguinte cedo eu tivesse pegado um avião e voltado pro Brasil sem ter visto mais nada da Argentina, a viagem (com todos os seus inúmeros problemas até ali) já teria valido a pena.

…………

Que Deus Ilumine a Todos.

“Deus proverá

“Ascensão & Queda”: a Argentina vista por dentro

Obelisco da 9 de Julho, Centro de Buenos Aires, o cartão-postal do país.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de abril de 2017

Mensagem-Portal sobre a Argentina. Ao fim do texto ancoro as outras mensagens da série.

No fim do século 19, e por toda a primeira metade do 20, a Argentina era um país de primeiríssimo mundo.

Um verdadeiro pedaço da Europa em plena América.

Ops, mas veja atrás dele: sem-tetos dormem em plena luz do dia. Imagem que sintetiza a crise social que a Argentina atravessa.

Muito, mas muito acima de seus vizinhos latino-americanos com exceção do Uruguai (que é uma nação muito pequena, e portanto muito mais homogênea).

A ascensão foi intensa e notória.

Porém, as coisas mudam. Num processo que se iniciou após a 2ª guerra mundial e se acentuou rapidamente nas últimas décadas, a Argentina empobreceu visivelmente.

Hoje não há nada de europeu nela. É exatamente o mesmo padrão de toda América Latina, com tudo que isso representa.

Maior o voo, maior a queda, como dizem. A decadência também tem sido intensa e notória.

………..

Antes que os mais apressados corram pra corrigir o que eu não disse, eu não estou afirmando que a Argentina está mais pobre que o Brasil.

Abra matéria do jornal ‘La Nación’ que você vai se assustar (essa imagem e a próxima vieram dali). Em 2000, 100 mil pessoas moravam em favelas no município de Bs. As. . No censo de 2010 já se contabilizaram 160 mil, e as estimativas são que em 2017 já são 275 mil. Quase triplicou somente nesse milênio, portanto. Acima da manchete está a favela Vila 31, bem no Centrão da capital, aparecem os prédios chiques ao fundo.  Imagem que vale por mil palavras: a Vila 31 em 2001, e apenas 12 anos depois em 2013 com o quíntuplo do tamanho.

As duas nações estão mais ou menos no mesmo nível. A questão é que até 1970, digamos, a Argentina era 10 vezes mais rica que o Brasil.

Era notório o exemplo que os peões dos prédios que eram construídos em Buenos Aires comiam nas horas de almoço churrasco só com carne de primeira (alcatra, picanha, etc).

Tudo assado no próprio canteiro de obras, posto que a Argentina era e é grande produtora de gado, o que também barateava a matéria-prima.

Mas o principal é que a classe proletária de lá ganhava muito, mas infinitamente muito mais que a daqui na mesma época.

Já que então os operários da construção civil do Rio e SP moravam em barracos de papelão nas inúmeras favelas dessas cidades, e comiam geralmente arroz-&-feijão engrossado com muita farinha.

Precisa dizer mais??

Um ovo frito ou bife de carne de segunda já era um luxo que nem todos podiam dispôr.

Portanto a Argentina estava a anos-luz do Brasil, Colômbia, e muito a frente mesmo do Chile. Isso na primeira metade do século 20 e até as duas ou três décadas posteriores a segunda grande guerra.

Um exemplo vai selar a questão em definitivo: o metrô de Buenos Aires (abreviada ‘Bs. As.’) é de 1913. Um dos mais antigos do mundo.

O de Londres-Inglaterra foi eletrificado (e portanto a partir daí considerado metrô) em 1890. O de Paris-França é de 1900, Nova Iorque-EUA inaugurou o seu em 1904.

Vamos também mostrar as partes bonitas da Argentina, é óbvio. Aqui e a direita, a região dos bairros Palermo e Recoleta, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Portanto o metrô da capital argentina é apenas 13 mais novo que o da capital francesa, e veio menos de uma década depois da principal cidade estadunidense. 

Mais: o metrô de Buenos Aires (lá chamado ‘subte’, diminutivo de ‘subterrâneo’) foi o 1º de todo Hemisfério Sul, o 1º de toda América Latina.

E, se tudo fosse pouco, o 1º de um país de língua espanhola, pois mesmo o de Madri-Espanha chegou 6 anos depois dele.

O metrô de Lisboa-Portugal, que também é Europa Ocidental, só foi rodar em 1959.

Hoje a China tem os dois maiores sistemas de metrô do mundo, nas suas capitais política e econômica Pequim e Xangai.

Entretanto o metrô de Pequim é de 1965, e o de Xangai ainda mais novo, entrou em operação bem recentemente, em 1993. Já que estamos na Ásia, Tóquio-Japão fez o seu em 1927, e o de Seul-Coreia do Sul é de 1974.

Hoje esses dois sistemas são infinitamente maiores que os de Buenos Aires, mas os portenhos contaram com esse conforto 14 anos antes que os japoneses, e 61 anos antes dos coreanos.

Todas as cidades argentinas são bastante arborizadas, não tanto no Paraguai, ainda assim abundante. Seja na alta burguesia (esse caso aqui) quanto na periferia.

Somente no mesmo ano de 1974 o Brasil passou a contar com esse modal, quando São Paulo inaugurou sua primeira linha.

No México D.F. em 1969, pouquíssimo antes de SP e muitíssimo depois de Bs. As. . O primeiro e até agora único metrô da Colômbia, o de Medelím, data de apenas 1995.

Assim fica evidente o passado glorioso da Argentina. Muito próxima na Linha do Tempo de Londres, Nova Iorque e Paris, e a frente mesmo de Madri (a ex-colônia superou sua antiga metrópole).

E décadas e décadas a frente de Portugal, Brasil, México, China e Colômbia. No entanto essa não é mais a situação do país, exatamente o oposto sendo verdadeiro.

Argentina É futebol. Das 57 Libertadores, os caras ganharam nada menos que 24, ou seja, quase metade das taças ficou por lá. Pra sentir essa frequência, fui ao Novo Gasômetro conferir São Lourenço (o time do Papa e campeão de 2014) x Atlético Paranaense por esse torneio. Eu sou de Curitiba mas não sou torcedor do CAP, foi apenas o jogo que deu certo de eu ir, assim como já vi o Coxa fora de casa, em Belo Horizonte-MG, 2012. Breve matéria específica com muitas fotos.

Hoje Brasil e Argentina estão num nível parecido de ‘desfuncionalidade’ e de desigualdade social – isto é, muito elevado.

Mas antes não era assim. No passado o Brasil era ainda mais pobre e injusto, portanto houve uma melhora.

Não estou justificando o nível de desigualdade social em nosso país.

Alias em várias partes, de Fortaleza-CE a Florianópolis-SC e também aqui em Curitiba, já retratei bastante vezes o quão agudo é esse contraste.

Ainda assim, houve significativa redução da miséria em nosso país nas últimas duas décadas. Embora obviamente haja muito por fazer, diversas das favelas mais feias foram removidas/urbanizadas.

Quem conhece São Paulo, por exemplo, vai se lembrar que até o começo dos anos 2000 haviam diversas favelas miseráveis nas ilhas da Marginal Tietê (‘ilhas’ dos viadutos, e não do rio), por exemplo.

“Passeador de Cachorros”, outra cena que sintetiza a Alma Argentina. Provavelmente esse garoto não é o dono de todos esses animais, ao contrário, ele ganha dinheiro das madames pra dar um volta no parque com os bichinhos. Foto na Z/N da capital.

Essas pessoas foram transferidas pra apartamentos no estilo ‘Cingapura’, o que é uma melhora inegável.

Então ainda há seríssimos problemas, mas é fato que a situação se amenizou um pouco ultimamente no Brasil.

A Argentina vai na mão oposta, isso é que quero apontar.

Essa nação, que um dia foi muito rica e olhava toda a América Latina de cima (com exceção de seu pequeno vizinho Uruguai) hoje não tem mais esse privilégio.

Então a Argentina é mais pobre que o Brasil? Não, não é. Mas num passado recente, ela foi muitíssimo mais rica, e agora não é mais.

A Argentina é o pior país da América Latina em termos de estrutura social? Obviamente não. Porém um dia ela foi disparado o melhor, tanto que era pensada como a ‘Europa na América’.

E hoje ela está no mesmo nível dos vizinhos, a frente dos mais miseráveis é certo, mas não acima do Brasil, Chile, México e Colômbia, pra citar somente alguns.

E aqui mais uma: performance pública de tango na Feira de Artesanato de São Telmo, Centro Velho de Buenos Aires. Já fiz minha versão dessa cena com Marília & Maurílio.

A queda é real, e absolutamente palpável. Só que ‘quem foi rei nunca perde a majestade’.

Assim esse processo de câmbio, de uma nação rica e homogênea europeizada pra uma realidade totalmente latino-americana com tudo que isso representa, tem sido difícil de ser digerida pelos argentinos.

Resultado: a Argentina está numa convulsão social gravíssima, em múltiplas dimensões.

Chegamos lá, no meio de março.17, numa Buenos Aires em caos. Chovia muito, essa foi a contribuição da Mãe-Natureza.

Mas além do clima, e essa é a parte feita pelas mãos do Homem e da Mulher, a capital estava coalhada de protestos.

Com todo o Centro sitiado, diversas avenidas interrompidas por manifestações. Foram esss as ‘boas-vindas’ que recebemos. 

A direita exatamente a primeira cena que vimos no país, piqueteiros fechavam o tráfego na Avenida Nove de Julho, umas principais da cidade.

Na hora de irmos embora, na última noite esperávamos nosso ônibus na Rodoviária de Córdoba.

A confusão foi a noite inteira. Quase 10 da noite, quando retornei do estádio, a Praça de Maio continuava ocupada pelos manifestantes, com suas vias de acesso fechadas.

E nada dele chegar, já iam 45 minutos de atraso, estávamos preocupados pois no dia seguinte seria o voo pro Brasil saindo de Bs. As. .

Quando o veículo afinal encostou na plataforma, os funcionários explicaram:

O ônibus havia sido apedrejado ao passar perto de um protesto. Felizmente estava vazio e ninguém se feriu. E assim foi a despedida.

No dia seguinte, todo o Centro de Bs. As. permanecia sitiado, avisos pela cidade alertavam os motoristas pra evitarem as zonas de confronto. Pouco antes de eu tirar essa foto, 5 policiais me cercaram, revistaram minha câmera e exigiram que eu apagasse algumas imagens. Isso é estado de direito ou anarquia??

Da chegada a partida, uma síntese da crise que assola a Argentina, e que não irá terminar tão cedo, pois é um processo estrutural, que já dura décadas.

Após meteórica ascensão que fez a capital argentina ter metrô antes que sua antiga (e orgulhosa) metrópole, a readequação a realidade latino-americana, que será perene nesse século 21.

Não, a Argentina não retornará ao 1º mundo. E está vivendo ‘as dores do parto’ dessa nova frequência.

Bem-vinda a América, agora de corpo & alma, Argentina querida. Nós estávamos te aguardando, e a hora chegou. Agora que a ‘ilusão europeia’ se dissipou, definitivamente estamos todos no mesmo barco.

Insurreição: diversos grupos promovem um levante que visa ‘derrotar’ (derrubar) o presidente Maurício Macri. No mês seguinte (abril.17, quando produzo o texto) o caos continuava, com mais greves-gerais nacionais. Nem sempre os protestos são pacíficos, esse é o perigo.

………..

A série ainda vai longe, essa é apenas uma pequena introdução. Em outra mensagem (breve) falaremos melhor da conturbada situação política argentina, passado e pressente.

Desde a ‘guerra suja’ de Videla com suas ‘escolas’ e cidades ‘ocultas’, até o presente momento, em que Macri implantou uma política neo-liberal, soltando um ‘tarifaço‘ e arrocho nos salários.

Assim os movimentos sociais vem fazendo um movimento de insurreição pra derrubá-lo, como a imagem ao lado deixa nítido.

Fazendo uma leve pincelada no passado, a ditadura argentina foi crudelíssima, infinitamente pior que no Brasil.

Infinitamente, quem não estudou a fundo não tem noção do que ocorreu por lá. Em apenas 7 anos o regime desapareceu 30 mil pessoas.

No Brasil, calcula-se que tenham morrido no auge da repressão perto de mil pessoas.

A prova: em Córdoba, o trem suburbano passava dentro de um ‘assentamento’, a “Vila de Nylon” (ou ‘Náilon’ na pronúncia latinizada). Os comboios estavam sendo apedrejados com frequência, obrigando a suspender o serviço no trecho conturbado, agora ele opera da Estação Rodrigues do Busto (que já é na saída da cidade) até Cosquín no interior da província, evitando assim a parte mais problemática dentro da cidade de Córdoba.

Sendo que  nem todos foram mortos pelos militares, pois as guerrilhas também assassinaram gente em atos que eles denominavam ‘justiçamentos’.

Pois bem. Considere que a população argentina é um quinto da brasileira. Portanto os 30 mil mortos de lá equivaleriam a 150 mil aqui.

Resultando que a ditadura argentina foi 150 vezes mais letal que a brasileira, ou, ainda tirando 50% de brinde, nada menos que 100 vezes pior.

O regime de Videla se assemelha mais ao de Pol Pot que ao de Médici. Na Argentina os presos enfrentaram torturas inimagináveis aos brasileiros, que descreverei em texto futuro.

……….

Por hora, falemos um pouco mais sobre como é o país em termos gerais. A Argentina tem 44 milhões de habitantes.

Como eu já disse quando retornei da Colômbia:

Infelizmente apedrejamentos do transporte coletivo são comuns em Córdoba e toda Argentina. Na estação dessa cidade, flagrei um trem que tem o para-brisas gradeado. Na África do Sul no auge dos ‘problemas’ do ‘Apartheid’ os ônibus e trens eram assim, mas hoje não mais. Por aí você vê como está a Argentina atualmente. Logo ao lado eu vi uma locomotiva que não tinha proteção, e o vidro estava inteiro perfurado por pedras. Não deu pra fotografar porque a composição que eu estava já se encontrava em movimento.

Muitos brasileiros de classe média pensam erroneamente que a Argentina é o 2º país sul-americano em população, logo após o Brasil, pela Argentina ser mais próxima física e culturalmente do Centro-Sul Brasileiro.

Nada poderia ser mais distante da realidade. A Colômbia é quem ocupa esse posto, com 48 milhões de pessoas, 10% a mais que a Argentina portanto.

Voltando ao nosso vizinho a sudoeste. Na capital Buenos Aires (no ‘conurbado’, núcleo mais subúrbios metropolitanos) residem 14 milhões de argentinos.

Apenas no município de Buenos Aires (que no Brasil e México seria o ‘Distrito Federal‘, lá antes chamado ‘Capital Federal’, agora ”Cidade Autônoma de Bs. As.”) são 3 milhões.

Portanto outros 11 milhões vivem na mesma cidade que é a Grande Buenos Aires mas nos municípios da região metropolitana, que ficam em outro estado, a Província de Buenos Aires.

A todos os problemas políticos, some-se a criminalidade comum , que também está elevada. Em 2 semanas, houve 5 sequestros na Zona Oeste de Buenos Aires. Suspeita-se que todos cometidos pela mesma quadrilha, sediada no conjunto ‘Forte Apache‘ – sim, é onde Tévez foi criado. A onda de raptos não se resume a capital, nos jornais de Mendonça as notícias são as mesmas, como veremos em postagem futura. Uma “Terra em Convulsão”, sem dúvidas. . .

Já eu falo mais da divisão política da capital, da distinção entre a ‘Cidade Autônoma’ (C.A.B.A.) e os subúrbios metropolitanos da ‘Província’ (A.M.B.A.).

Por hora, vamos ao interior. A segunda maior cidade argentina é Córdoba – também se escreve ‘Córdova’, a pronúncia é a mesma.

Linguística a parte, a Grande Córdoba tem 1,5 milhão de pessoas, sendo quase todos (1,4 milhão) no município de Córdoba mesmo. Visitei essa cidade, e breve lanço matéria específica sobre ela.

Depois vem Rosário, que conta com 1,3 milhão de Homens e Mulheres. Ali não tive oportunidade de ir. 

E a seguir Mendonça, que acaba de ultrapassar 1 milhão. Nessa também fui e breve falaremos com muito mais detalhes, ricamente ilustrado.

São as únicas 4 cidades argentinas que abrigam mais de 1 milhão de habitantes (as estatísticas têm como fonte o sítio ‘City Population’, disponível em inglês e alemão.)

………

Córdoba, como acabo de dizer, quase não tem região metropolitana. Dos 1,5 milhão de pessoas, 1,4 miram no núcleo, o município de Córdoba mesmo. Repito a informação pra fazer o contraste com Mendonça, onde a situação é diametralmente oposta.

Dos 1 milhão de argentinos que moram na cidade que é a Grande Mendonça, apenas 119 mil vivem no município de Mendonça, pouco mais de 10% portanto.

É que o município de Mendonça é minúsculo em área, como o mapa deixa claro. 

Abrange apenas o Centrão e uma parte da Zona Oeste (onde ficam o estádio e a universidade) e outra da Zona Norte.

Mafalda é uma deusa neo-pagã em B. Aires, seu rosto está por toda parte, há quase uma relação de culto em relação a ela na cidade. Aqui na Feira de São Telmo. No interior não é assim, fora da capital ela é uma menina personagem de quadrinhos que muitas pessoas curtem, mas não um ícone a ser idolatrado.

Quase toda a área urbana da cidade fica em outros municípios. A capital estadual é apenas o 6º município mais populoso da Grande Mendonça, você acredita nisso?

Pois é a realidade. O município mais povoado da Grande Mendonça é Guaymallén, com 320 mil. Pega quase toda a Zona Leste da cidade.

Como acabo de dizer e é notório, o município da capital da província é muito pequeno.

Você está no marco zero de Mendonça, a ‘Praça de Armas’ da cidade do tempo da colonização espanhola (no México o ‘Zócalo’), ou seja em seu núcleo mesmo, onde há aquela fonte com a bandeira argentina.

Pois bem. Caminhe 9 quadras pra leste. Apenas nove quadras o que dá menos de 1 quilômetro, quinze minutos a pé.

Você ainda está na Zona Central da Grande Mendonça, mas não mais no município de Mendonça, e sim em Guaymallén. 

O plátano é uma árvore típica de lugares frios. Símbolo-mor do Canadá, estampa inclusive sua bandeira, e também representa Campos do Jordão-SP, a cidade mais alta do Brasil. Pois bem. Na Argentina ela também é muito comum, essa está no Centro de Bs. As., perto da Casa Rosada e Porto Madeiro.

Depois vem Las Heras, com 227 mil, que corresponde a maior parte da Zona Norte.

A seguir Godoy Cruz, 203 mil. Se espraia entre as Zonas Oeste e Sul de Mendonça.

Seu vizinho em área e número de habitantes é Maipú, onde vivem 193 mil pessoas. Parte da Zona Sul e a parte da Zona Leste.

O extremo da Zona Sul já fica em Luján de Cuyo, moradia de mais 137 mendoncinos.

Parece incrível mas é isso mesmo, o município de Mendonça é apenas o 6º mais populoso da cidade que é Mendonça.

No Brasil, temos um paralelo com essa situação no Espírito Santo.

Já que falamos nela, eis a Casa Rosada na Praça de Maio, sede da presidência da nação.

Pois o município de Vitória, capital do estado, é apenas o 4º mais populoso da Grande Vitória, atrás de Serra, Vila Velha e Cariacica.

……….

Agora vamos pra capital. Pra quem não conhece o sistema político argentino, é um pouco complicado definir ‘Buenos Aires’, pois isso pode se referir a 3 coisas distintas

O município de Buenos Aires. Equivalente ao nosso ‘Distrito Federal’;

A província de Buenos Aires. Como todos sabem, as ‘províncias’ seriam chamadas de ‘estados’ no Brasil, México e EUA, entre outros países;

Congresso Argentino, em outra parte do Centro. Até que o efeito da chuva ficou legal, não?

E a cidade que é a Grande Buenos Aires, o ‘Conurbado’.

O município de Buenos Aires é circundado pela província de Buenos Aires mas não faz parte dela, como o D.F. brasileiro está dentro de Goiás mas não pertence a esse estado.

No México ocorre, o mesmo, expliquei em detalhes quando voltei de lá, com o agravante que o termo ‘México’ designa 4 esferas diferentes:

A nação; o município da capital que é o Distrito Federal; o estado que o circunda mas de quem o DF não faz parte;

Continuando na mesma frequência, a Assembleia Legislativa do estado (‘província’) de Córdoba.

E por fim a cidade que é Grande México, núcleo mais subúrbios, que incluem todos os que moram no DF e parte dos que moram no ‘Estado do México’.

Pra gente entender, ajuda muito relembrar como era a situação no Brasil até 20 de abril de 1960, ou seja, quando o Rio era nossa capital.

Havia o município do Rio de Janeiro, o ‘Distrito Federal’. Havia o estado do Rio de Janeiro, que circundava o DF mas não o abrangia, a capital era Niterói como sabem.

E por fim havia a cidade que era o Grande Rio, que compreendia núcleo mais subúrbios.

Esse incluía todo o DF (município do Rio de Janeiro) mais alguns subúrbios que ficavam no Estado do Rio de Janeiro, como Duque de Caxias, a própria Niterói e vários outros.

Quem morava nesses municípios obviamente vivia na mesma aglomeração urbana que os habitantes do Distrito Federal, malgrado a divisa estadual. Agora, havia também o interior do Estado do Rio.

O Rio Suquía corta toda cidade de Córdoba. Nos postes, a bandeira argentina.

Certamente os habitantes de Campos, Angra dos Reis, Volta Redonda, Petrópolis, entre muitas outras cidades, vivem no Estado do Rio de Janeiro, mas não no Grande Rio.

Voltando a Argentina, lá essa ainda é a realidade até hoje. Há o que moram no núcleo, o município de Buenos Aires.

Há os que moram em outro estado, a Província de Buenos Aires (ou simplesmente ‘a Província’ na linguagem popular) mas na mesma cidade que é a Grande Buenos Aires, nos subúrbios metropolitanos conurbados.

E há os que moram na Província de Buenos Aires mas não na Grande Buenos Aires, em cidades menores afastadas da capital ou mesmo no interior.

Jardim Botânico de Buenos Aires.

……

Repetindo, antigamente o município de Buenos Aires era conhecido como a ‘Capital Federal’, e hoje é a ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’.

O termo ‘autônoma’ se refere exatamente a que esse município não pertence a nenhum estado.

Já que tem autonomia em relação a essa esfera administrativa, situação exclusiva nessa pátria justamente por ser a capital dela.

A abreviação é ‘C.A.B.A.’, formada pelas iniciais, e esse termo é amplamente usado lá, mesmo no dia-a-dia sem conotação técnica, pra designar a capital. Exemplo numa pizzaria ao lado.

Na C.A.B.A. moram perto de 3 milhões de pessoas, número que se mantém mais ou menos estável há quase 50 anos, desde o censo de 1970.

Mas a cidade que é a Grande Buenos Aires tem hoje 14 milhões, portanto 11 vivem na ‘Província’. Aí é que está.

Anoitecer no Centro de Avellaneda, município na Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia o Independente e o Racing – ambos já ganharam a Libertadores, portanto em Bs. As. até o ‘clássico suburbano’ envolve dois campeões dessa competição máxima da América.

Em 1970, esse número era de também mais ou menos 3 milhões, resultando que foi multiplicado em quase 4 vezes nas últimas 5 décadas.

Oras, coloquemos no contexto histórico e geográfico. Obviamente a Zona Central, o núcleo, o Distrito Federal de uma capital tem o padrão de vida muito mais elevado que sua periferia.

Em 1970, a Argentina vivia os últimos espasmos de sua fase gloriosa anterior como integrante do 1º mundo.

Então os portenhos já tinham metrô a quase 6 décadas, enquanto nenhuma cidade brasileira contava com essa benfeitoria.

E nesse ano a divisão da Grande Buenos Aires era praticamente meio-a-meio: metade no núcleo, a Capital Federal. E metade nos subúrbios metropolitanos que ficam em outro estado.

Outro Pôr-do-Sol também na Região Metropolitana de Buenos Aires, mas agora do outro lado da metrópole: município de Vicente Lopes, Zona Norte.

Assim, não é difícil de ver que a capital argentina era, como suas equivalentes europeias, uma cidade majoritariamente de classe média.

Onde mesmo os peões de obra comiam picanha diariamente, evidenciando que já haviam adentrado a classe média-baixa.

Hoje a proporção núcleo/subúrbio inter-estadual se alterou pra uma proporção de mais de 4 pra 1 a favor do último.

Óbvio que nem todos os que moram na ‘Província’ são pobres.

Óbvio. Exatamente ao contrário, há subúrbios de altíssimo padrão, especialmente na Zona Norte mas também a Oeste e Sul.

“Trabalho em negro” significa “sem carteira assinada”. Em Córdoba mais de um terço dos trabalhadores está nessa condição de sub-emprego. Em algumas cidades chega quase a metade. Ainda assim, os índices oficiais de des/e sub-emprego baixaram em março. Os sindicatos dizem que as estatísticas foram fraudadas.

Acabamos de ver imagens do Centro de Vic. Lopes e Avellaneda. Breve detalho melhor esse ponto também, inclusive com muito mais fotos

Na divisa com a capital na Z/S e Z/O, e bem mais avançado na Z/N, vários municípios da Grande Buenos Aires tem um padrão de vida similar ao da capital.

Entretanto, também é óbvio que quando mais você se afastando do Centro, mais difícil a coisa vai ficando.

E como o subúrbio está inchando descontroladamente, natural que a pobreza esteja aumentando em níveis alarmantes.

Uma pequena parte desse aumento é de uma classe afluente, sim, mas o grosso é do povão, da classe proletária.

Fora que mesmo na parte riquíssima da Capital Federal as favelas têm se multiplicado como cogumelos após a chuva.

Resultado: a muito Buenos Aires não é mais majoritariamente de classe média.

Houve nova greve geral no começo de abril.17. O índice oficial caiu. Foram criados mais postos de trabalho, e mais gente está trabalhando? Não, exatamente ao contrário. Há cada vez menos empregos com carteira assinada, assim simplesmente as pessoas pararam de procurar ocupação formal. Foram trabalhar por conta, muitos como como camelôs ou flanelinhas.

Há muito isso virou passado, um sonho distante, que os mais velhos se lembram com agoniosa nostalgia, e os mais jovens não chegaram a vivenciar.

A Argentina de hoje, especialmente sua capital, tem pirâmide de concentração de renda exatamente igual a qualquer país da América Latina:

Alguns obscenamente ricos, uma pequena classe-média que está cada vez mais encolhendo, e uma massa de despossuídos, que apenas sobrevive ou as vezes nem isso.

‘mad max em mendonça’; e risco de vida triplo em buenos aires.

Catador de papel em Buenos Aires . . .

Obviamente fui conferir de perto essa transição, que não tem sido nada suave. Voltei a pé do Novas Quintas, o bairro mais ocidental de Mendonça, a pé até o Centro.

Deu quase 20 km, mais ou menos 4 horas de caminhada. Em outra mensagem conto melhor essa aventura.

Apenas como aperitivo, os bairros mais a Oeste da cidade estão a mais de 300 metros e nesse ponto extremo cerca de 400 metros mais altos que o Centro, logo você vê a metrópole inteira lá de cima.

Aqui o que nos importa é: atrás do Aero-Clube há uma nem tão pequena favela. As margens de um enorme canal, que nessa época do ano fica quase vazio, um mero riachinho, mas na primavera se torna um potente rio caudaloso.

. . . e flanelinhas em Mendonça. Oficialmente, essas pessoas não estão desempregadas, pois elas não buscam um emprego com carteira que sabem que não existe. Em tempos de crise, é assim que as estatísticas de desemprego baixam, na Argentina e toda parte.

Presenciei a mesma situação em Santiago do Chile, e o motivo é o mesmo: no verão, apenas os picos mais altos dos Andes se mantém nevados.

No outono a neve começa a se acumular na cadeia de montanhas.

No inverno toda a Cordilheira fica branca de neve, tão abundante a ponto de propiciar inclusive muitas estações de esqui como é notório.

E na primavera a neve derrete, escorre pra cidade, onde a água é usada pro consumo humano.

Duas cenas da favela na Zona Oeste de Menonça que eu passei ao lado. As fotos foram puxadas via ‘Google Mapas’ porque minha máquina ficou sem bateria.

Toda Mendonça é cortada por pequenos canais, pra levar pras casas a água resultante do desgelo dos Andes na primavera. Toda ela, Centro, classe média e subúrbios.

Em Santiago isso também ocorre mas apenas em pequenas partes da Zona Leste, no resto da cidade não.

Santiago e Mendonça ficam em países distintos, mas são muito próximas, física e principalmente culturalmente.

Natural, pois elas estão bem pertinho, uma em cada margem da montanha. Depois nós falamos disso mais detalhadamente.

Repare no esgoto correndo a céu aberto.

Aqui o que nos importa é: tanto Santiago quanto muito mais Mendonça têm rios intermitentes, isso é, que só existem em determinadas épocas do ano.

Na primavera, com toneladas de neve derretida descendo da Cordilheiras, esses cursos d’água se tornam colossais, se você cair neles será fatalmente arrastado pela correnteza e caso não seja exímio nadador não sobreviverá.

Também via ‘Google’, eis o canal do rio em Mendonça, que fica seco do verão ao outono. Em compensação, quase não tem água mas tem muito lixo, toneladas dele, formando um aterro sanitário clandestino.

Porém, do verão ao outono, são pequenos regatos d’água que até uma criança atravessa a pé sem qualquer risco.

Aqui voltamos a nossa narrativa. Eu desci as montanhas que cercam Mendonça a oeste. Saí atrás do Aero-Clube.

Atravessei um terreno baldio, cheio de cactos – por ser ao lado da montanha, o clima de Mendonça é semi-árido, parecido com o do Chile mas ainda mais pronunciado. Cheguei no canal concretado do rio.

Ou eu teria que voltar, ou pra seguir pro Centro teria que ir pelo canal. Como estive lá no outono não havia rio de fato, só um pequeno fiozinho de líquido.

Você conhece o Rio Los Angeles, que nomeia essa que é a segunda maior cidade ianque? ‘Hollywood adora filmar ali.

No texto ao lado sigo falando de Mendonça. Mas daqui pra baixo as fotos são todas na capital e de minha autoria. Nessa e a direita: Vila 21, na Zona Sul. Ainda no município de B. Aires, mas na extremidade de sua periferia.

Por exemplo, busque na internet a famosa cena de perseguição do filme ‘O Exterminador do Futuro’, estrelada por Schwarzenegger, que depois foi governador da Califórnia.

Pro que nos interessa aqui, mostra o canal concretado de um rio que está quase seco, e portanto dá para andar ou dirigir pelo que deveria ser o leito do curso aquático.

Então, em Mendonça a cena é a mesma: há uma enorme canaleta de concreto, que enche na primavera e esvazia no resto do ano. Como estava vazia, fui por ela.

Ao lado uma favela, uma das maiores da cidade – no resto da Argentina as concentrações de miséria são bem menores que na capital. 

Outra da Vila 21. Essa favela fica na margem do Riachuelo, que divide a Capital Federal de Avellaneda, município que como já dito fica em outro estado, a ‘Província’ de B. Aires.

As favelas de Buenos Aires são gigantescas, tanto em extensão quanto em densidade.

No interior a coisa é bem mais amena. Bem mais. Essa favela seria pequena na capital. Mas em Mendonça é uma das maiores senão mesmo a maior. 

Ali estava eu. Caminhando pelo leito cimentado do rio quase seco. De um lado um enorme muro, do Aero-Clube.

Do outro a favela. Mas o mais impressionante estava no chão e nas encostas de concreto:

Lixo, muito mas muito mesmo lixo e mais lixo. Toneladas de lixo, que são simplesmente descartadas no rio. Cachorros furavam os sacos procurando comida, crianças brincavam como se aquilo fosse um lindo parque.

Não confunda: a partir de agora e até o final veremos a Vila 31, que fica no Centrão, atrás do porto, das estações rodoviária e ferroviária, e não muito longe do aeroporto. A logística dos transportes é excelente, não (risos…)? Pena que a infra-estrutura na favela seja péssima.

E nas margens os precários barracos de papelão que são a moradia desses meninos e meninas e seus pais e mães.

Uma cena surreal, mas real. ‘Mad Max na Argentina’, como o episódio foi batizado. 

Estado inexistente, cada um toma sua sobrevivência e de sua família nas suas próprias mãos, da melhor forma que puder.

……….

Ainda bem que eu já estava escolado e curtido pelo que passara na capital, uns dias antes. Em Buenos Aires (como em Medelím, Colômbia) as favelas são numeradas. As duas mais famosas são as Vilas 21 e 31. Vimos a Vila 21 pelo decorrer da matéria, busque pelas legendas.

Clique pra ampliar que a imagem é muito comprida. A Vila 31 foi invadida no pátio ferroviário, como temos casos também em Curitiba e Fortaleza-CE, entre muitas outras.

É igualmente enorme e pavorosa, mas fica na periferia, Zona Sul, já na divisa de município – que lá também é divisa de estado.

Já a Favela Vila 31, retratada acima da manchete e depois em outras tomadas espalhadas pela página, fica exatamente no Centro de Buenos Aires.

Alias veem a linha de prédios da alta burguesia ao fundo de algumas tomadas. A Vila 31 é “a que não deixa o Centro dormir”. Quando a Vila se expande, o Centro se recolhe, se é que me entende . . .

………

Agora de mais perto, as casas da Vila avançando sobre o estacionamento de trens.

Corri um risco tri-dimensional pra captar essas imagens, enfrentando tráfico, tráfego e a polícia.

O país estava em convulsão exatamente naquele dia, simplesmente a Argentina passa por uma revolução que tenta derrubar a governo, não sabemos ainda se terão sucesso ou não mas estão tentando.

Logo a nação está em caos e as forças de segurança, consequentemente, estão em alerta máximo.

Pouco antes fui cercado por 5 policiais que revistaram minha câmera e exigiram que eu apagasse algumas imagens, como contei acima.

Situação explosiva (e de fato vem explodindo): milionários e miseráveis lado-a-lado, vendo um ao outro, nem sempre com pensamentos de amor e fraternidade óbvio, e isso vale pras duas mãos. Eis a imagem acima da manchete.

Ademais, eu tirei as fotos de cima de um viaduto, onde é proibido entrar caminhando, só permitido de carro.

Assim sequer há espaço pra pedestres, só pista pra veículos, que como estão numa auto-estrada vem em alta velocidade.

Mesmo sendo ilegal e perigosíssimo eu fui a pé, me esquivando do fluxo de carros, caminhões e motos na auto-estrada mais movimentada do país. Por aí vocês entendem porque desafiei a polícia e o tráfego.

Quanto ao tráfico, não é preciso explicar. A Vila 31 é a boca de drogas mais quente de toda Argentina, pois é que mais fatura, uma vez que está cercada do público consumidor de maior poder aquisitivo.

Assim, naturalmente é a boca mais bem protegida por soldados armados dos comandos de criminosos. Eles não permitem serem fotografados, por motivos óbvios.

A laje das favelas de B. Aires já atingiu o 5º ou 6º andar, as quebradas são idênticas as do Rio e SP. A 1ª vez que eu vi na internet fotos de B. Aires tive que conferir a digitação, porque a princípio me pareceram cenas cariocas.

Mas eu estava lá. Contra tudo e contra todos. Sozinho, a pé, sem celular, só eu e Deus.

Contra, reitero, a polícia, os bandidos e os carros e motos que passavam voando a pouquíssimos centímetros de minha humilde pessoa.

O barato é louco e arrepia na hora.

Valeu a pena. Missão é Missão, e vamos até o final.

Eu Sou O Mensageiro.

……..

Outras mensagens da série:

No canto esquerdo, o pequeno espaço que eu me espremi pra poder fotografar a favela. Veja que os carros avançam sobre a faixa o tempo todo, pois é proibido passar a pé ali.

– “Perfume de Mulher: Desenho que mostra um casal dançando tango. Produzido e a postagem subiu pro ar lá no Centro de Buenos Aires, março de 2017.

– “No Topo do Mundo“: também é uma gravura, e também de 03/17, retratei de meu próprio punho as Mulheres dessa nação.

Oras, mas que Diabo!!!” – desenho de setembro de 2016, 6 meses antes da viagem, portanto. Maurílio torcedor do Independente de Avellaneda. trepado no alambrado, que é como os argentinos assistem as partidas nos estádios.

“Deus proverá”

Perfume de Mulher


Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 18 de março de 2017

BUENOS AIRES – Maurílio e Marília na Argentina. Dançando tango, é claro.

Obviamente, emprestei nome da mensagem de um filme muito conhecido.

Como sabem, em cuja uma das cenas mais famosas o Homem, que é cego, tira uma moça pra dançarem tango no meio do salão.

Na primeira matéria da série sobre a Argentina, fotografei um casal fazendo uma performance pública na Feira da São Telmo, Centro Velho da capital

Agora voltemos aos desenhos: ainda por conta do título, vamos ver Marília se arrumando pra essa noite. Pra estar bem perfumada na hora que seus corpos se unirem na dança.

…….

Passamos pra uma outra história, o casal de pombinhos andando de braços dados na rua.

Marília não está grávida. É que ela é uma Mulher muito fofinha, digamos assim.

No passado, a sociedade era muito machista, então o padrão de beleza era muito rigoroso com sexo feminino.

Nos Homens, era aceito com mais naturalidade um pouco de ‘barriga de cerveja’.

Mas as moças tinham que ter o corpo parecido com a Gisele Bündchen pra não serem ostracizadas.

Assim como era tabu uma Mulher ficar com um Homem muitos anos mais novo, enquanto que o contrário era visto com naturalidade.

A situação se alterou bastante. É claro que ainda estamos muito longe do ideal, mas os 2 tabus se amainaram consideravelmente.

Já que trata do mesmo tema, insiro desenho dos arquivos. Mais uma vez, Marília sendo rodopiada na pista de dança, nos braços de Maurílio. Essa postagem, que se chama ‘Baila Comigo’, foi publicada em dezembro de 2016.

Agora está ficando mais frequente vermos viúvas ou divorciadas com companheiros de 10, 15 ou 20 anos mais jovens que elas. Como os Homens sempre fizeram, alias.

Além disso, os Homens começam a descobrir o valor das ‘Grandes Mulheres’. Nada mais natural.

Uma garota pode ser charmosa, feminina, cativante, e ainda assim estar um pouco distante do que a mídia afirma que é o padrão “ideal”, o único aceitável, pra todas as pessoas.

As pessoas são diferentes, logo os corpos serão diferentes. É preciso centrar mais na essência e não somente na aparência.

Refletindo essa tendência, desenhei essa Marília. Ela é totalmente feminina, bastante vaidosa e por isso toda produzida:

De camiseta transparente e enfeitada com pedras brilhantes, brincos enormes e uma saia rodada vermelha que combina com a ‘lingerie’, que está visível através de sua blusinha branca.

Muitíssimo bem acompanhada de seu Amor Maurílio.

Veja que ele, ao contrário, tem os músculos bastante definidos.

Mas isso não impede que ele goste e deseje sua esposa do jeito que ela é.

Os opostos se atraem, quem sabe.

Sinal dos tempos . . .

………

Mensagem levantada pra rede do Centro da Cidade de Buenos Aires, Argentina.

“Deus proverá”

A Devota

procissaoPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de janeiro de 2017

Todas as postagens de Marília são dedicadas as Mulheres.

Vamos mostrar, como o título indica, Marília como devota, expressando sua Fé.

Deus Pai e Mãe é Oni-Presente.

Portanto o espectro da forma de Devotá-lo(a) pode ser muito aberto.centro-de-umbanda

Tanto quanto é a heterogeneidade que os Homens e Mulheres manifestam pelo planeta, em todas as dimensões.

Por isso Marília nessa postagem terá diferentes raças.

Pra refletir um pouco essa ampla gama de venerar o Criador Deus Pai e Mãe.

Acima: Marília numa procissão a Santa Morte na Cidade do México.dentro-da-igreja

– A seguir: Marília num Centro de Umbanda, rendendo Homenagens aos Orixás.

E também Marília dentro de uma Igreja Cristã, no Sul do Brasil.

………….

Apesar que são auto-explicativas, comentemos um pouco o que cada imagem representa.

Comecemos por essa que está a direita.

igrejaMarília foi rezar na Igreja-Matriz de São Bento do Sul, Santa Catarina.

Fiz dois desenhos, um pra mostrar a parte externa do templo.

E depois a Devota Marília dentro dele.

……….

Esses dias pus na página um desenho em que Marília é avó, e se encanta com seu netinho recém-nascido nos braços.marilia-bisavo

Pois bem. Essa Marília do retrato de hoje já é bisavó.

Viúva, seu Amado Maurílio já retornou pro Outro Lado há alguns anos.

Ela necessita até de um porretinho (bengala) pra ajudá-la a caminhar.

Mas Marília continua vaidosa: pinta as unhas, usa bijuteria, e até uma saia na altura dos joelhos – curtíssima pra uma senhora na sua idade!

a-devota-india

Claro que ela aceita a velhice, e não tenta parecer jovem, tanto que os cablos são naturalmente brancos. Apenas ela gosta, sempre gostou, de se produzir.

Ela não se arruma pra que outras pessoas, os Homens, a vejam. Se enfeita assim pra ela mesma, porque ela se sente bem.

Marília é vaidosa desde o berço, desde que sua bicicleta ainda tinha rodinhas, e enquanto Deus a manter na matéria, assim ela prosseguirá.

………..

Falemos um pouco mais da Marília Mexicana, que cultua a Santa Morte.

Certamente é estranha pra nós brasileiros essa forma de ter Fé, e foi esse o choque que eu tive quando vi esqueletos nos altares do México.santa-morte

Mas na América Central, o que inclui o México – se considerarmos a geografia humana, e não a física – é absolutamente normal cultuar a Santa Morte.

Tudo é uma questão de ponto de vista. Fiz uma matéria que analisa e ilustra em detalhes a situação.

É simples a explicação. Na Índia há o culto a “Deusa Negra” Kali. Oras, como se sabe, os Americanos Nativos vieram da Ásia.

Na classe média, os Latino-Americanos se creem europeus (ou ianques, o que dá no mesmo).

a-devota-negraMas o povão Hispano-Americano é muito mais asiático que europeu. Muito mais, incluso na aparência. E também no modo de vida.

Oras, quando Santa Morte ressurgiu entre os Aztecas (depois sincretizado com o catolicismo, embora o Vaticano não aprove) eles simplesmente estão fazendo o que seus antepassados faziam na Índia, milênios atrás.

………

Em mais uma Homenagem a Mama-África, agora a Marília Umbandista. 

Em seu vestido branco, e seus colares e guias. Seu cabelo esvoaçando. No culto a Iemanjá e demais Orixás do Panteão.batucando-tambor

E não nos esqueçamos de Maurílio tocando o tambor, parte fundamental dos cultos afro-brasileiros.

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Nomeei a imagem da Marília segurando o Altar de Santa Morte como “Índia”.

Tem um duplo sentido. Tanto Santa Morte é Kali metamorfoseada, e Kali veio da Índia. Como também é Índia de indígena, Americana Nativa.

E a Umbandista pus como “Negra”. Como todos sabem, a Umbanda tem como fonte o Candomblé, que é originário do Golfo da Guiné, África. Daí o nome das Entidades ser em Iorubá, a língua falada na Nigéria.

lata d'água cabeça Marília negra depilada lenço regata azul colar corrente pingente cruz crucifixo petrobrásJá a Cristã é caucasiana, do Sul do Brasil.

Falei em termos arquétipos, simbólicos. Nossa Querida América é um caldeirão de raças e culturas (Ásia + África + Europa + Americanos Nativos, tudo está aqui), e obviamente a religião de alguém não é determinada pela sua raça física.

Daí o Maurílio que batuca o instrumento musical no Centro de Umbanda ser branco de olhos verdes. Alias, aqui em Curitiba, a imensa maioria dos Umbandistas são fisicamente brancos, posto que nossa cidade é majoritariamente branca.

Acima, uma Marília negra e cristã. Carregando uma lata na cabeça. Esse retrato tem sua própria mensagem, abra pra você ver ela de corpo inteiro. camponesa marília morena lenço cabeça cabelos regata laranja crucifixo cruz corrente pingente colar sem maquiagem

Entre a categoria ‘Desenhos’ é a 3ª postagem mais acessada.

Ao lado uma Marília também branca mas não normanda (norte-europeia), uma camponesa humilde. Morena, um tipo bem latino. Novamente com o crucifixo no pescoço. 

Igualmente essa gravura tem sua própria postagem, ela está segurando seu filho recém-nascido nos braços.

Deus proverá” – Sendo Oni-Presente, Ele-Ela pode ser Cultuado(a) pela forma que nos for mais familiar.

Mar gelado, churros e pombas: isto é Vinha do Mar, Chile

no-oceano-pacificoPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Levantado pra página em 17 de outubro de 2016

Um desenho inédito, e os demais publicados (em emeio) no ano de 2013

Começamos pelo inédito, produzido em outubro de 2016.

tudo-azul

As próximas 2 imagens são de dezembro de 2013, e não se relacionam com o texto. Tudo Azul: Marília e Maurílio se encontraram, e sem combinar ambos estavam na mesma cor: Sintonia de Almas. Depois aconteceu de novo, porém os dois estavam de verde.

Marília e Maurílio visitaram o Chile.

E lá aproveitaram pra se banhar no Pacífico Sul, na cidade de Vinha do Mar, Grande Valparaíso.

Ao menos eles tentaram. Mas não deu pra ficar dentro d’água:

A costa do Chile é cortada por uma corrente marítima vinda direto do Polo Sul.

Por isso o mar é indescritivelmente gelado.

Apenas no auge do verão (dezembro e janeiro) você consegue entrar. Nos outros meses não dá.

almas-em-comunhao-de-energia

Voltamos ao azul. Logo a seguir ela com o mesmo vestido, dando o peito pro filho deles.

Aí eles ficaram comendo churros.

No Chile foi o único país além do Brasil que eu vi churros. Não quer dizer que não existe em outras nações, mas sim que eu não me deparei.

Bem, nessa praia de Vinha eu achei essa receita.

No Brasil o churro é tamanho único. No Chile é diferente, existe o igual nós conhecemos aqui.

Mas também se vende nas banquinhas um mini-churro, um quarto do tamanho normal.

Marília é muito vaidosa e ciosa de sua aparência. Por isso ela pegou um mini-churro. Pra não passar vontade, mas também sem engordar.

comendo-churros

Veja na escala ampliada, ela ainda não começou a comer, em cima está a calda de chocolate. Mas o churro é tão pequeno que cabe inteiro nas suas delicadas mãos de moça.

Aproveitamos o embalo pra ver as unhas que ela pintou de branco. E o biquíni reproduzindo a bandeira da Pátria Amada. Ela tem também um brinco nesse motivo.

Voltando aos doces, já o maridão Maurílio pediu logo o churro tamanho família. Ele não está nem aí pra aparência – eu já disse isso, e também foi no Chile.

extase-infinito

“Vestido Prateado”, julho de 2013. Esse desenho tampouco se relaciona com o texto.

Um último detalhe da orla de Vinha: não jogue comida pros pássaros. Ou você se verá cercado por uma horda de pombas.

Numa refilmagem amadora do filme ‘Os Pássaros’. Veja que os bichos estão rondando o casal, pra ver se sobra uma faísca.

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Abaixo as gravuras em outra escala. Clique pra ampliar, o mesmo vale pra todas as imagens sempre.

feminino-e-masculinopoder-femininocoisa-linda-linda-linda

“Deus proverá”

Oras, mas que Diabo!!!

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“Inferno Vermelho”

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de setembro de 2016

Um Maurílio argentino dessa vez. Torcedor do Independente, cujo símbolo é o ‘diabo’.

Como fazem os ‘barra-bravas’ (membros de torcida organizada) desse país ele assiste o jogo trepado no alambrado.

O Independente fica no subúrbio metropolitano de Avellaneda, Zona Sul da Grande Buenos Aires. Pronuncia-se “Abechaneda” no ramo pratense do idioma espanhol, lá utilizado. Ou “Abejaneda” no ramo andino, o qual sou mais familiarizado.

………….

A Zona Sul é a parte mais pobre da capital argentina, que concentra quase todas as suas grandes favelas. Avellaneda é outro município, mas muito próximo do núcleo, a Capital Federal. Portanto um subúrbio relativamente central. Estive na Argentina em março de 2017, e fotografei a divisa entre a Capital Federal e Avellaneda, o Centro de Avellaneda e o estádio do Independente  em dia de jogo (esse sobe breve pro ar).

rei-de-copas

Independente, o “Rei de Copas” da América.

O Independente teve um passado absolutamente glorioso. Ganhou nada menos que 7 Libertadores da América. Por isso conhecido como “O Rei de Copas”.

Ainda é o maior vencedor desse que é o principal torneio americano. Atrás dele vem o Boca Juniors, com 6, e a seguir o Penharol do Uruguai com 5. Não por outro motivo o campo onde joga o Independente se chama, bem, ‘Estádio Libertadores da América’.

E por conta do passado de vacas gordas, o ‘Diabo Rubro de Avellaneda’ ainda tem a 3ª maior torcida da Argentina, só atrás dos gigantes Boca e River. Já foi bem mais, tanto que o Independente ainda se auto-intitula “Orgulho Nacional” da Argentina.

Mas a seca de títulos fez a torcida do Independente minguar, e concentrar de vez o gosto do povo nos 2 maiores: o Boca tem mais de 40% da torcida, a nível nacional. O River quase 30%. Portanto contra esses dois não há competição possível. De forma que o Independente é o mais popular ‘entre a rapa’, tem perto de 5% da preferência nacional.

Pois note que o Independente está em severa decadência. Dominou a era ‘jurássica’ da Libertadores, 6 de seus títulos são nos anos 60 e 70.O mais recente foi no já distante ano de 1984, resultando 33 anos de fila quando levanto o desenho pra página.

O Boca, exatamente ao contrário, é uma potência ascendente. Tem 6 Libertadores. Até a virada do milênio só tinha 2. Aí ele emplacou uma sequência impressionante, ganhou nada menos que 4 Libertadores em apenas 8 disputas, de 2000 a 2007.

diabo-rubro

Maurílio Portenho.

Até no campeonato nacional o Independente vem mal. Foi rebaixado em 2013, portanto em 14 disputou a segundona.

Tudo somado: hoje o ‘Diabo Rubro’ não apavora mais ninguém. Mas Maurílio não se importa. Fica os 90 minutos pendurado na grade, gritando.

Pra ver se, nem que seja por obra do capeta, o Independente ganha um título. Afinal, na Argentina o Deus é mesmo outro, ao menos quando o futebol está envolvido.

Por isso o Maurílio portenho não desiste, nunca perde a Fé. Paixão é paixão. Não se explica, se sente…

Falando nisso, veja Maurílio torcedor do: Nacional da Colômbia; América do México; Nacional do Uruguai; LDU do Equador; Colo-Colo do Chile; e Olímpia do Paraguai aqui na América. E Nápoles da Itália e Paris-Saint Germain da França do outro lado do Oceano.

E sua esposa Marília torcedora do: Flamengo, Fluminense e Internacional na mesma postagem; e do Criciúma nessa outra.

“Deus proverá”

Vielas da Vila Maria, Deusa-Lua, Primavera Eterna, Afeganistão ao lado de ‘Beverly Hills’: assim é a Colômbia.

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Aqui e acima da manchete: Chía, a Deusa-Lua, Grande Mãe, o Lado Feminino de Deus Pai e Mãe. Homenageada com uma cidade em seu nome na Grande Bogotá, onde eu estive.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Subido pra rede em 23 de agosto de 2016

Publicado (em emeios) em 20 e 30 de abril de 2011.

Nessa mensagem nenhuma foto é de minha autoria. As de Cartagena (Litoral) foram clicadas por meus familiares, o resto puxei da rede.

Fechando a Série sobre a Colômbia, solto 2 emeios. O 1º se chamou “Nas Vielas da Vila Maria, Bogotá”, e é de 20-04-11:

Vamos lá retratar mais alguns aspectos da Colômbia, esse vizinho tão fascinante e tão pouco conhecido de nós brasileiros.

Talvez muitos nem tenham se atentado pro fato que a Colômbia é um país do Hemisfério Norte:

cartagena colômbia água oceano praia prédios classe média alta elite burguesia beira-mar orla litoral céu azul limpo linha prédios

Passeio de barco por Cartagena, Litoral da Colômbia. De um lado espigões de luxo onde vivem os muito ricos.

Apenas uma pequena parte do país é ao sul do Equador, e não há nenhuma cidade grande ou média ali. 90% do território e 99% da população colombiana fica ao norte dessa linha que divide a Terra no meio. 

………….

Há igrejas evangélicas nas favelas e periferias de Bogotá e Medelím, é claro. Mas numa proporção infinitamente menor que aqui.

Nos subúrbios aqui no Brasil você chega a ver 3 ou 4 igrejas evangélicas na mesma quadra, as vezes parede a parede, ou frente a frente.

Lá nem de longe o fenômeno atinge essa proporção. Diria que há uma igreja a cada 3 quadras.

cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia varal roupas negro rapaz

Mesmo canal em Cartagena: só olhar pro lado e verá pavorosas favelas em palafitas abrigando os que nada têm.

Nota: fui a Colômbia em 2011. Na sequência, em 12 ao México, 13 Paraguai e República Dominicana e 15 ao Chile.

Apenas na Rep. Dominicana a proporção de igrejas neo-pentencostais atinge a mesma proporção que aqui.

Nos demais países bem menos. Bom, no Chile a imensa maioria da população ainda é católica praticante, como foi no Brasil até os anos 80.

Voltando a Colômbia, há templos evangélicos, mas numa proporção menor que no Brasil. Dentre as igrejas que lá estão a brasileira Universal é uma das mais fortes.

Assim se vê que as duas maiores empresas brasileiras (Petrobrás e Universal) estão bem fincadas em solo colombiano (da Petrobrás já falei melhor em outra mensagem).

cartagena colômbia água oceano praia prédios classe média alta elite burguesia beira-mar orla litoral céu azul limpo linha prédios marinha navio barco porto base naval

Nas próximas 2 mais um pouco do agudo contraste em Cartagena: milionários

………..

Discorrendo agora sobre algo completamente distinto, nem toda Colômbia aderiu ainda aos caminhões de lixo na forma como conhecemos aqui:

Onde o veículo é feito especialmente pra esse fim, portanto tem um compactador que vai comprimindo o que é jogado dentro.

Estou falando do caminhão de lixo comum, que todos conhecem. Há alguns deles na Colômbia, os vi.

cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia

ao lado dos miseráveis. Na Colômbia o Afeganistão está ao lado de ‘Beverly Hills‘ (como também ocorre no Brasil, Chile, Rep. Dominicana e várias partes do mundo)

Mas não em toda parte. Andava num bairro de elite em Medelím, pra milionários mesmo.

E o lixo estava sendo recolhido com um caminhão comum (!!!). Sim, estou me referindo aqueles com caçamba, abertos em cima.

Um cara jogava os sacos, e outro, em cima do caminhão, ia amassando o volume com os pés e com uma pá. Chovia, ainda por cima.

Parece inacreditável, mas presenciei. Já vi a mesma cena em Cancun, no México – nesse caso pela internet via Visão de Rua do ‘Google’ Mapas.

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chia1

Próximas 3: na cidade de mesmo nome na Grande Bogotá, a estátua de Chía, a Deusa-Lua, a Grande-Mãe da Humanidade. Segundo a Mitologia Americana, Chía foi um Grande Espírito que encarnou como Mulher pra pregar a Palavra de Deus na Terra. Passada essa fase material de sua missão, ela Ascendeu aos Céus, e hoje na forma da Lua continua a Iluminar os Homens e Mulheres.

FRANGO, MILHO E FEIJÃO, A BASE DA CULINÁRIAFoi difícil pra mim me alimentar na Colômbia. Eu não como carne, de nenhum tipo. E esse povo é extremamente carnívoro.

Digo, quando estava com minha família, parávamos pra almoçar em restaurantes, aí não havia problema, pedíamos os pratos e do meu eu simplesmente cedia a carne pra eles.

Porém muitos dias estava sozinho, eles iam ver outras coisas e eu subir os morros e favelas.

Pelo tempo ser curto, não parava pra comer, tentava fazê-lo na rua. Aqui no Brasil me viro bem, sempre há uma pastelaria onde como pastel de queijo.

Lá entretanto, não há salgados sem carne. Alguns dias tive que almoçar bolinhos doces.

Assim é culinária colombiana, sempre com muita carne. Preferem o frango, mas a carne de boi também é muito popular, seguida pela do porco.

Quase não se come peixe em Bogotá e Medelím. Pois estão no alto dos Andes, onde não há como pescar, e o transporte é caro e difícil.

Na Amazônia Colombiana a situação deve ser diferente, a julgar pelo que vi na Amazônia Brasileira. Estive em Manaus em setembro de 2010, onde o peixe (que eu também não como) é a base da alimentação. Com certeza do lado colombiano da selva funciona igual.

chia4

Como vê, Chía está bem na frente da Catedral. Duas formas distintas de ver o Criador, e ambas são igualmente válidas.

No litoral da Colômbia o peixe também deve ser mais frequente. Não pude ir até lá, tive que voltar antes.

Minha família foi a Cartagena, como já informado na legenda das fotos, clicadas por eles.

Entre os cereais, a base da alimentação é o milho e o feijão. Se faz tudo com milho por lá, farinha, bolinhos, o que imaginar.

E como aqui o feijão é prato nacional. Isso é América, e nós americanos comemos feijão. Sendo a Colômbia coração e essência da cultura americana, lá se come todos os dias.

Arroz nem tanto. Eles gostam também, mas é pedido separado, pois alguns comem feijão com milho (em forma de farinha ou bolinhos), dispensando então o arroz.chia

Seja como for, com milho, arroz ou puro, o feijão é a paixão colombiana. Só que é diferente do que comemos aqui. Os grãos são muito maiores, o triplo do nosso.

O feijão da Colômbia é do mesmo tamanho ou até maior que o ‘feijão cavalo’, aquele servido no Brasil como salada.

Só que lá eles comem quente esses feijões gigantes. Maior e mais forte, é avermelhado, e tem um gosto mais pronunciado.

Talvez porque lá se coma mais pimenta. Um povo de sangue quente, indígena, pouco europeizado – me refiro ao povo mesmo, a elite é bem europeizada, como em toda a parte.

cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia

Próximas 12 tomadas: vamos ver muitas fotos de Cartagena. As duas primeiras são ainda das favelas no mangue. Depois várias do Centro Histórico, que era murado pra evitar ataques de piratas.

MÚSICA, SÓ EM ESPANHOLO povo colombiano quase não ouve ‘rock’, nem qualquer música que não seja em espanhol. Eles praticamente não ouvem música em inglês.

O ritmo preferido deles é aquele bem latino mesmo, parecido com o que é chamado ‘cumbia’ na Argentina.

Sabe aquela música que vemos nos filmes sobre Cuba? É por aí que a coisa vai, uma música caribenha, de corpo e alma americana.

A parte instrumental é essa música caribenha, as letras são iguais ao nosso sertanejo, ‘chorei tanto quando me deixou’, e por aí vai.

Nas quebradas, se ouve muito ‘rap’ também, mas sempre ‘rap’ em espanhol.

………

Mesmo os que têm mais renda e acesso a estudo também dão preferência a música no seu próprio idioma. cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia

Em Bogotá, estávamos no bairro universitário, reduto cultural burguês. Saímos eu sexta a noite para curtir um pouco do ar fresco da noite bogotana.

Fomos a uma praça onde haviam vários bares, parecida com o Largo da Ordem no Centro de Curitiba ou com a Vila Madalena na Zona Oeste de São Paulo e a Lapa no Rio.

Pois bem. Até os bares destinados a jovens de classe média tocavam música em espanhol. Menos um. Mas esse tinha umas dez bandeiras da Inglaterra na fachada, se assumia nitidamente como um ‘pub’:

cartagena colômbia lagoa água palácio linha prédios elite burguesia classe média altaEsse era seu diferencial, exatamente pra concentrar o não muito numeroso público colombiano que aprecia música em outras línguas.

Ou seja, pra tocar música em inglês, tem que ser notadamente inglês. Já no caminho pro hotel, paramos em um bar menor, quase um mercadinho. Estava tocando ‘rap’ – em espanhol, óbvio.

Mais uma atualização: a Colômbia é assim, e eu diria que a República Dominicana também. Nesses países quase não se ouve roque, nem música em inglês em geral.

Mas no México e Chile é totalmente diferente. Nessas duas últimas nações já curtem bastante o roque e outros ritmos populares nos EUA/Europa (como a música eletrônica), exatamente como no Brasil.

…………cartagena colômbia muralha Colonial forte fortaleza murado prédio trânsito avenida

E PRÉDIOS TAMBÉM Os prédios na Colômbia são todos em espanhol, de todas as classes sociais. Não há por lá edifícios chamados dream life”, “queen elizabeth”, “hyde park” ou “hudson river”.

Os nomes dos conuntos são todos pomposos, mas sempre em seu idioma:

Jardines de la reina (jardins da rainha)”, “cerro rico (morro bonito)”, “lomas (colinas) verdes”, “portal del bosque”, e assim por diante. E o que aqui chamamos “shopping center”, lá é, bem, ‘centro comercial’.

cartagena colômbia palácio torre construção prédio antigoNo México, vi nas viagens seguintes, é assim também. Já no Paraguai é como no Brasil, há sim em Assunção prédios com nomes em inglês.

…….

Claro que também se copia muito os EUA na Colômbia.

Algumas lojas nos bairros caros tem um neon escrito ‘open’, assim, em inglês, e numa periferia, havia um brexó com roupas usadas vindas dos EUA, e isso era propagandeado como se fosse enorme vantagem.

AS RUAS NUMERADASHá outras influências estadunidenses no país. A capital se chama Bogotá D.C., imitando Washington D.C.. Mais abaixo desenvolvemos mais esse tema. Por hora falaremos de outra questão: as ruas numeradas.cartagena colômbia muralha Colonial forte fortaleza murado prédio igreja

É um sistema similar ao de Nova Iorque. Na maior cidade estadunidense, como é notório, há as ruas e avenidas, ambas identificadas por números.

As ruas cortam a cidade no sentido leste-oeste, e a numeração começa logo acima do Centro, que é no extremo sul da ilha de Manhattan.

As avenidas cortam a cidade no sentido sul-norte, e a numeração começa no leste.

Voltemos a Colômbia. Falei um pouco sobre o sistema numerado das ruas de Nova Iorque porque foi copiado pelas cidades colombianas:

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado construção antiga sacada varanda céu azul limpo torre igrejaAs ruas cortam a cidade de leste a oeste. Como se sabe, se chamam “calles” em espanhol. Bem no Centro de Bogotá há a rua (calle) 1.

A sua primeira paralela ao norte se chama rua 2. Ao sul eles acrescentam o ‘s’ pra diferenciar, a primeira paralela ao sul é a rua 1-S.

O que em Nova Iorque seriam as avenidas na Colômbia são as “Carreras”, que cortam a cidade de sul a norte. A numeração começa no Centro.

cartagena colômbia Colonial estátua torre igreja sobrado casa antiga

Ainda estamos vendo Cartagena.

Como em Bogotá o Centro é no pé da montanha, só há cidade a oeste dele, e não a leste (por essa impossibilidade física, Bogotá não tem Zona Leste).

Então só é carrera 1, carrera 2, não há carrera 1-L, porque não é preciso. E as as ruas transversais são chamadas assim mesmo, ‘transversais’.

Algumas vias mais importantes têm nome, mas não deixam de ter número. A (já citada em outra mensagem) Avenida Chile, onde fica a bolsa de valores, é a calle 72.

A Avenida Caracas, por onde passa o principal eixo do Transmilênio, é a Carrera 14. Note que na Colômbia as vias numeradas se chamam ‘calles’ (sul-norte), ‘carreras’ (leste-oeste) ou ‘transversais’ (diagonais).

cartagena colômbia Colonial prédio construção antiga galeria comercial comércio canteiro planta lojasO nome avenida‘ não guarda relação com a posição e portanto com esse nomenclatura oficial.

Resultando que uma ‘avenida’ pode ser tanto uma calle quanto uma carrera, dependendo se são no sentido oeste-leste ou sul-norte.

O sistema é quadriculado, simples e fácil de aprender. Pois em condições normais nunca uma calle cruza com outra calle, nem carrera com carrera.cartagena colômbia Colonial ponte táxi taxi amarelo árvore palmeira trânsito avenida

O ideal e mais comum é que toda esquina seja de uma carrera com uma calle, ou de uma delas ou ambas com uma transversal.

Claro, as vezes uma via faz uma curva, aí complica. Então as vezes a carrera 30 cruza a carrera 29, o que não deveria acontecer, mas acontece. São exceções, porém.

cartagena colômbia Colonial estátua ponte trânsito avenidaE quando surge uma nova rua entre duas já existentes? Aí vira a rua 56-A, por exemplo. Se surge mais uma paralela entre a 56 e a 57, vira 56-B, e assim por diante.

Se for ao sul do Centro, entre a 56-S e a 57-S, vira a 56-S-A.

Na parte plana da cidade, há alguns casos que fogem a norma, como citei acima, mas tudo funciona bem. cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado plantas construção antiga bandeira

O caldo engrossa mesmo nas favelas, na numeração das ruas como em diversos outros aspectos.

O sistema foi bolado em Nova Iorque afinal, que tem guetos bem feios, mas não tem favelas com ruas irregulares e muito menos morros.

Já a Colômbia tem favelas. São muitas, e são na encosta da montanha, tanto em Medelím e Bogotá como também em Cali (onde não fui), entre outras cidades.

Se na cidade plana as vezes existe a rua 15-A e mais raramente 15-B, nas favelas é comum a 15-H, 15-J, as vezes são becos de uma quadra, mas a numeração é seguida.

O problema é que no morro, além de surgirem muitas ruas sem controle como cogumelos após a chuva, elas são muito sinuosas, fazem curvas.

vila maria

Próximas 4: Vila Maria, perto da divisa entre as Zonas Norte e Oeste de Bogotá (via ‘Google’ Mapas).

Até porque precisam se adaptar a topografia irregular do lugar. Só que a numeração quadriculada, que é regular, tenta então se adaptar a esse caos.

Não dá certo, claro, daí com frequência calle cruza calle, carrera cruza carrera, a carrera 70 (que deveria estar entre as carreras 69 e 71) está entre a 72-E e a calle 18-J, a confusão é geral.

Bem, favela é favela, na Colômbia ou em toda parte.

AS PERIFERIAS PLANASAlém dos morros, também há na Colômbia periferias planas.vila maria1 

Fora não haver risco de desabamento – o que já uma tremenda vantagem, claro – não se diferenciam tanto assim das favelas nas encostas.

O governo fez por todo país enormes conjuntos residenciais, de casas geminadas, pra população de baixa renda.

Muitos nem sequer tem garagem ou mesmo ruas, tampouco há quintal ou muro, as portas saem na via pública.

vila maria2Em algumas dessas vilas se chega a porta das casas por passagens onde só se entra a pé ou no máximo de moto.

Em outras cohabs há sim ruas. Mas são muito estreitas.

E cada morador modificou a vontade sua residência, pondo por conta própria novas lajes e erguendo tanto mais andares quanto o tamanho da família exigiu e orçamento permitiu. As imagens são auto-explicativas: Estamos na América, afinal.

Tudo somado, os conjuntos ganharam aspecto de favelas, e erradicar as favelas era exatamente o que eles pretendiam, tendo porém o efeito oposto na prática.  vila maria3   

Se você passa de carro na frente pensa que é uma invasão, pois é o que aparentam ser.

Porque as ruas são mais estreitas e as casas geminadas, muito mais próximas.

cartagena colômbia Colonial sobrado igreja

Próxima 7: voltamos a Cartagena.

Me embrenhei nas vielas de vários desses conjuntos favelizados pra ver como é por dentro essa ‘zonaproibida’.

Um deles é a Vila Maria, na Zona Norte de Bogotá, que nomeou a mensagem.

………….

Emendamos outro emeio, que se chamou “Da Deusa-Lua a Primavera Eterna”.

Foi publicado 10 dias depois, em 30 de abril de 2011.

Já demos uma pincelada antes, agora falemos melhor do sotaque.

Pra quem não é versado em linguística, o idioma castelão (espanhol) se divide basicamente em 3 vertentes conforme a pronúncia:cartagena colômbia Colonial estátua ponte

– O espanhol ‘europeu’, usado onde ele surgiu, a Espanha obviamente;

– O espanhol ‘pratense’, na Argentina, Uruguai e Paraguai;

– E o espanhol ‘andino’, falado no Chile, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, América Central e México.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado grades flores construção antigaAs letras “j” e “g”, na Colômbia e em toda parte, são pronunciadas como nosso “r”.

Cartagena se lê Cartarrena. ‘Joven’ se diz ven, ‘mujer’ se pronuncia murrér, e assim vai. É universal, nas 3 vertentes é o mesmo.

O que o espanhol andino (o corrente na Colômbia) tem de distinto dos outros dois é que os dois ‘eles’ se pronunciam como jota. E o ‘ypsilion’ seguido de vogal também.

Exemplificando fica mais fácil entender. Peguemos as palavras Barranquilla e Medellín (cidades do litoral e dos Andes colombianos) e ‘ayer’, ‘ontem’ em português:

– No castelão europeu se fala o ‘ll’ como nosso ‘lh’, e o ‘y’ como nosso ‘i’. Assim, um cidadão espanhol leria “Barranquilha”, Medelhin” e ”aier”;cartagena colômbia muralha Colonial murado igreja

– Na região da bacia do Rio da Prata (Uruguai, Argentina e mais o Paraguai), ambos têm som do nosso “ch”. Assim eles diriam “Barranquicha”, “Medechin” e “acher”;

Na Colômbia, entretanto, se diz “Barranquija”, “Medejin” e “ajer”.

Há uma avenida em Bogotá chamada Boyacá. Homenageia uma batalha decisiva da guerra de independência, que foi longa e cruel.

Ao contrário do Brasil, em que Dom Pedro I decretou a separação quase em consenso com Portugal. Lá não, o negócio foi tenso. Como é sabido, o venezuelano Simão Bolívar é um dos grandes ‘Libertadores da América’:

cartagena colômbia prédio grades luminária antiga colonial bandeiraHerói da independência da Colômbia, Venezuela, Bolívia, Peru, Equador e Panamá (este último pertencia a Colômbia, até virem os ianques e separarem pra poderem dominar o Canal).

Então, em Boyacá suas tropas impuseram uma derrota definitiva aos soldados da coroa espanhola. Batalha essa que foi homenageada pela avenida.

E como eu dizia acima, se fosse em Madri essa avenida seria pronunciada Boiacá. Se fosse em Montevidéu, Bochacá.

Mas como ela fica em Bogotá, a gravação do Transmilênio, numa marcante voz feminina anuncia: “próxima parada, Abenida Bojacá”.

Se alguém não sabe, o espanhol não tem o som de ‘v‘. E isso não só na Colômbia, em toda parte. Tanto cartagena colômbia sacada centro histórico colonial sobrado grades flores construção antiga casase escreva com ‘v’ ou com ‘b’, se pronuncia ‘b’.

Na Zona Sul de Santiago do Chile há um bairro que homenageia as capitais brasileiras. Há as ruas Maceió, Bello Horizonte, e também a rua Curitiva, com ‘v’.

Na verdade oficialmente é com ‘b’, mas o povão muitas vezes troca pelo ‘v’, pois dá no mesmo.

Avenida se escreve com ‘v’ em espanhol, mas se fala ‘abenida’. O libertador americano também se pronuncia Simón Bolibar.

Os espanhol não têm vários sons que temos em português: ‘z’, se fala sempre como se fosse dois “s”, por isso os micro-ônibus se escrevem ‘busetas’ mas se pronuncia ‘bucetas’, trocadilho que já foi explicado em outra mensagem;

cartagena colômbia prédio banco arcos antiga colonial bandeira‘V’ se fala como ‘b’, por isso avenida se diz ‘a benda’ quando algo está com placa de venda; ‘j’ e ‘g’ se pronuncia como dois “r”, assim júnior é “rúnior”. Tudo isso em todos os países que falam espanhol.

E no espanhol andino “ll” e “y” antes de vogal se pronuncia como nosso “j”. Tudo somado, Abenida Bojacá, como a gravação informa.

Da linguística a geografia, acrescento que tanto Bogotá quanto Medelím têm bairros chamados “Brasília”, em homenagem a nossa capital federal.

mapa-bogota1

Mapa da Grande Bogotá. Veja em vermelho que a capital e Soacha uniram suas áreas urbanas, ou seja a cidade é a mesma embora mude o estado. Em azul subúrbios menores da Grande Bogotá.

………..

Falemos mais de Bogotá, cujo nome oficial é Bogotá D.C., por influência estadunidense, óbvio. Isso é o que debateremos agora.

DE SANTAFÉ A D.C.Até 20 anos atrás (quando fiz o texto, agora em 2016 já são 25) a cidade se chamava Santafé de Bogotá.

Não houve erro de digitação, ‘Santafé’ era uma palavra só. Seguindo o padrão de colonização ibérica.

Quando uma cidade era fundada, colocavam primeiro um nome católico (geralmente o santo do dia) seguido de um nome indígena, ou pelo menos um nome não católico.

mapa-bogota

Eis aqui o original, com o nome das meso-regiões do Estado de Cundinamarca. Ressalto: das meso-regiões, e não dos municípios. A fonte é a página da Cundinamarca na ‘Wikipédia’.

A cidade de São Paulo, por exemplo, foi fundada em 25 de janeiro de 1554, sendo nomeada São Paulo de Piratininga, unindo o nome pelo qual os indígenas conheciam o local com o patrono católico daquela data.

O Rio de Janeiro se chamava São Sebastião do Rio de Janeiro (pois os portugueses chegaram em janeiro, e pensaram que a Baía da Guanabara era um rio, como é domínio público);

Salvador era São Salvador da Bahia, Curitiba era a Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

E Bariloche, a famosa estância turística argentina, se chamava São Carlos de Bariloche. Entre muitíssimos outros exemplos. Santafé de Bogotá segue esse padrão.

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Aqui e a esquerda: na cidade de mesmo nome, Chía, a Deusa que se materializou como Mulher e depois como a Lua. Em suas duas representações, de pedra como uma humana protegendo sua cria (que são todos os Homens e Mulheres da Humanidade) e no Espaço Sideral, numa escala Maior ainda fazendo o o mesmo gesto, abraçando a Terra, a Humanidade.

Na época colonial, a cidade foi mais conhecida como Santafé. Pois Bogotá, nome indígena da região, era como era chamada uma das cidades da região metropolitana, atualmente nomeada Funza.

Na Colômbia, os estados são denominados ‘departamentos’, assim como na Argentina e na França são ‘províncias’.

Até 1991, Santafé de Bogotá pertencia do estado (departamento) de Cundinamarca, do qual era capital, concomitante com a função de ser capital federal.

A cidade de Bogotá era um “distrito especial” de Cundinamarca, e não um município comum como todos os outros, por abrigar a sede da União.

Mas, repetindo, ainda que com esse ‘status’ diferenciado, pertencia a Cundinamrca, era inclusive sua capital.

Na Constituição Colombiana de 1991, o “distrito especial” foi elevado a “Distrito Capital”, e este ganhou autonomia em relação a Cundinamarca. Entretanto permanece sendo sua capital.

chia2Se você achou o negócio confuso (Bogotá ainda é capital da Cundinamarca mesmo sendo autônoma a ela), eu também achei, mas é assim que funciona. Cito para vocês o que está escrito na página da ‘Wikipédia’ em espanhol:

La relación entre Bogotá y Cundinamarca es compleja pues aunque el primero es capital del segundo, sólo comparten los Tribunales de justicia de Bogotá y Cundinamarca.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado grades flores construção antiga

Próximas 15: voltamos a ver o Centro Histórico de Cartagena.

Por el contrario, ni el gobernador ni la asamblea departamental tienen jurisdicción sobre Bogotá ni son elegidos por los bogotanos. ”

Ou seja: o poder judiciário é unificado, comum a Bogotá e a Cundinamarca.

Mas os poderes executivo e legislativo de Cundinamarca se situam em Bogotá, entretanto não são eleitos nem tem jurisdição sobre os habitantes de Bogotá (????).

É como se Brasília além de capital federal fosse capital do estado de Goiás, mesmo sem pertencer a ele.

………..

Tumulto administrativo a parte, vamos prosseguir. Resolveram criar o Distrito Federal. No Brasil e no México, ele tem esse nome.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado igreja construção antiga calçadão poça pombas aves pássaros reflexo águaNa Colômbia, entretanto, ele se chama Distrito Capital, abreviado D.C., parafraseando a capital estadunidense, Washington D.C.

O fato é que há vinte anos o antigo município de Santafé de Bogotá virou o distrito federal, renomeado Bogotá D.C., e ganhou autonomia em relação ao estado de Cundinamarca.

Mas sua região metropolitana não.

As cidades-dormitório nos subúrbios da metrópole não entraram pro Distrito Capital, continuam na Cundinamarca.cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado construção antiga luminária grade flor árvore primavera rosa

O que resulta que centenas de milhares de trabalhadores moram em uma unidade da federação e trabalham em outra.

Bogotá é uma metrópole bi-estadual, como tantas outras ao redor do globo.

O núcleo, o município de Bogotá, é o Distrito Capital. Os subúrbios metropolitanos pertencem a outra unidade da federação.

cartagena colômbia Colonial construção antiga arcosA cidade é a mesma, em termos urbanísticos, econômicos e culturais. Mas politicamente são esferas de governo separadas.

Todos os subúrbios estão a oeste do Distrito Capital. Pois a leste é montanha. Bogotá não tem Zona Leste nem sequer municipal, muito menos metropolitana.

Então as cidades satélites formam um arco, do sudoeste ao noroeste do núcleo. A maior delas é Soacha. Essa é a única que já uniu sua área urbana ao do núcleo (vide mapa).

Ou seja, você muda de município (e até de estado) mas não sai da área urbana da cidade que é a Grande Bogotá. Se não ler as placas não percebe a divisa. cartagena colômbia Colonial torre igreja construção antiga

Soacha é parte integrante da Zona Sul bogotana, que é a mais pobre e violenta. Eu fui até lá, é claro.

Um ramal do Transmilênio (linhas de ônibus articulados que vão por corredores exclusivos) está sendo construído, que vai enfim integrar esse município pobre a rede de transporte da capital.

Atualização: embora com muito atraso, enfim o Transmilênio chegou a Soacha. Abordamos melhor esse assunto, com muitas fotos, em outra mensagem.

Só isso já está levando muito progresso a Soacha, diversos prédios de classe média estão sendo erguidos ao lado da estrada por onde vão passar os articulados vermelhos.

cartagena colômbia estátua escultura arte metal ferro costureira colonial pombas aves pássaros

Dentro do (murado) Centro Histórico de Cartagena, duas esculturas homenageando os trabalhadores: aqui, a Costureira

É uma situação universal, onde se implantam grandes eixos de transporte coletivo a terra valoriza demais.

Veja os espigões que estão pipocando ao lado do bonde moderno da Baixada (em Santos mesmo e no vizinho São Vicente).

De volta a Bogotá, outra vantagem é que os alimentadores são gratuitos.

Assim o pessoal da periferia de Soacha que quiser ir apenas até o Centro da cidade (sem continuar até Bogotá, é o que quero dizer) poderá ir e voltar sem pagar nada, o que fortalecerá o comércio dessa região tão carente.

……….

cartagena colômbia estátua escultura arte metal ferro ambulante camelô vendedor bicicleta costureira colonial pombas aves pássaros

…e agora o Vendedor Ambulante.

As outras cidades da Grande Bogotá são menores, e não são conurbadas com a capital.

Ou seja, nesse caso você vê nitidamente que está mudando de cidade, tem que pegar estrada e passa por áreas verdes até chegar ao outro núcleo urbano.

É uma viagem perigosa. Como passa por rodovias, em áreas ainda rurais, o micro-ônibus (as ‘bucetas’, e isso quer dizer exatamente ‘micro-ônibus’) pega tranquilamente 80 ou 90 km/h.

Porém as vezes ele simplesmente não fecha a porta. Enfia o pé, e a porta aberta.

cartagena colômbia táxi taxi amarelo prédio ambulante camelô vendedor comidas alimento

Seguimos nas próximas 8 vendo o Centro de Cartagena. Aqui a parte mais moderna, fora da muralha. Na Colômbia todos os táxis são amarelos, em todas as cidades – no Paraguai também!!!

Se alguém cair nessa velocidade é fatal. Segurança não é prioridade na Colômbia. Por vezes, você precisa embarcar e desembarcar do ônibus com ele em movimento.

O mesmo já havia presenciado na Cidade do Leste, Paraguai.

Deixa eu voltar a falar da Grande Bogotá. Eu estive, além de Soacha, nas cidades de Zipaquirá e Chía, e sem descer do ônibus também conheci Cota, Facatativá, Mosquera e Madri.

Zipaquirá (popularmente ‘Zipa’, e fala-se ‘Sipa’, pois espanhol não tem som de ‘z’) está a 50 km da capital, a norte dela.

A Zona Norte é a mais rica de Bogotá, então na estrada que liga essas duas cidades estão surgindo inúmeros condomínios fechados de alta renda.

Chegando em Zipa, ela tem um Centro colonial, de ruas estreitas, uma parte plana mais moderna, com prédios de classe média, e do outro lado do Centro uma enorme favela subindo a encosta do morro. cartagena colômbia prédio grades luminária antiga

Nessa cidade há uma mina abandonada, que virou museu. Dentro dela, embaixo da terra, há uma catedral feita inteira de sal.

Não estive na mina, dei uma volta pela cidade e regressei a Bogotá. Meus familiares entraram.

CHÍA, A DEUSA LUAChía e Cota são menores, mais calmas e mais próximas da capital. São regiões bem de classe média.

Por isso quero dizer que são subúrbios proletários: sem alta burguesia, mas também sem muitas favelas.

Existem também ainda muitas chácaras (lembram muito a Vila Alemã, subúrbio de Valparaíso, que visitei em 2015).

cartagena colômbia prédio colonial antigo sacada varanda céu azulEm Cota não desci do ônibus, então falarei um pouco de Chía.

Embora pertencente a Grande Bogotá, por ser um pouco afastada da área urbana da capital Chía lembra uma cidade do interior da Colômbia.

Pacata, cheia de conjuntinhos habitacionais, sem extremos, ou seja, não possui milionários nem miseráveis, um centrinho com comércio popular.

Um ótimo lugar para morar, se você tiver emprego ali mesmo.

Porque se deslocar para Bogotá todos os dias é difícil, pela distância e trânsito pesado. Enfim, vida de subúrbio afastado, tão comum em nossa pátria também.cartagena colômbia Colonial prédio construção antiga sobrado

Chía significa a Deusa-Lua na cultura indígena americana. É a parte feminina de Deus, tão negligenciada pela teologia tradicional.

Chía é uma enviada do Todo Poderoso, projeção Dele-Dela, que desceu a Terra materializada como uma linda Mulher.

Pra ensinar nossa humanidade tão ignorante a elevar um pouco seu pensamento.

Uma Profeta Feminina, como Jesus, Buda, Zoroastro, Maomé, Moisés e tantos outros encarnaram em corpo de Homem para Iluminar a massa. Só que Chia encarnou em corpo de Mulher.

Cumprida sua missão entre nós, ela ascendeu aos Céus novamente, e se materializou na forma da Lua, e assim é cultuada pela simbologia americana.

A Lua representa a metade Feminina de Deus, assim como o Sol representa a metade Masculina. Na simbologia, ambos tem igual valor, as metades se completam pra que o Universo possa existir.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado igreja construção antigaPra finalizar, voltando a falar das cidades suburbanas de Bogotá, já rumando pra Medelím, passei nas cidades de Mosquera, Madri e Facatativá (carinhosamente Faca).

É uma parte pobre. Mesmo os bairros planos a margem da rodovia são humildes, muitos são invasões. E assim como em Zipa, em Faca há uma enorme favela subindo a montanha.

Bem, favelas em morro e em todos os lugares é que não falta na Colômbia.

Em Bogotá, fiquei no bairro Chapinero, numa região de classe média pra média-alta, na Zona Norte, que é a parte mais rica da cidade. Mesmo assim a duas quadras de onde estava há uma favela.

Já lhes contei minhas voltas por lá. Agora é só pra relatar um detalhe curioso. Parte da favela do Chapinero ocupava os vãos e gramados abaixo e ao lado de um complexo de viadutos que há no local.

cartagena colômbia baianas mulheres negras vendedoras frutas comida melancia ambulante barraquinha banquinha rua vestidos coloridos lenços

Não é só Salvador que tem ‘baianas‘. Óbvio que em Cartagena elas não são baianas no sentido gentílico, pois são caribenhas. Mas  falando em termos de cultura, veja como a manifestação é semelhante.

Então. Um cara invadiu a ilha do viaduto. Área pública, obviamente. Mas mesmo assim ele colocou uma placa no “seu” terreno: “não entre, propriedade particular”. É mole?

…………..

OS DEPARTAMENTOSAgora falemos um pouco dos estados (departamentos) da Colômbia. Me aterei aqueles pelos quais passei.

Bogotá é o Distrito Capital, está dentro do estado de Cundinamarca, sendo sua capital mesmo sendo autônoma a ele (?). Já disse que não entendi também, mas é assim.

A Grande Bogotá está em Cundinamarca, aí de fato e direito. Bogotá está a 250 km apenas de Medelím, em linha reta, mas a viagem de ônibus leva 10 horas.

Medelím e Bogotá estão no alto dos Andes, mas ir por via terrestre é preciso descer e depois tornar a subir a montanha. Porque se cruza o vale do Rio Madalena.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado grades flores construção antigaEsse é o “rio de integração nacional”. A Colômbia só existe como país unificado por causa dele:

Pois na época da colonização se formaram dois núcleos distintos:

Um no alto dos Andes (cujas cidades principais formam o triângulo Bogotá-Medelím-Cali), que vivia da mineração;

E outro no litoral – as maiores cidades são Cartagena (a ‘pequena Cartago’), e Barranquilla – , que se sustentava mais com agricultura e comércio marítimo, inclusive comércio de escravos.

Se não houvesse o Rio Madalena a ligá-las, na época da descolonização (princípios do século 19) essas duas partes teriam se separado em pequenos países independentes, como ocorreu na América Central.cartagena colômbia centro histórico colonial pássaros pombas poça água reflexo prédio construção antiga

……..

Então. Feito esse registro histórico do rio, conto meu trajeto aquele dia que fui de ônibus entre a capital e a maior cidade do interior da Colômbia.

Saímos da rodoviária de Bogotá. Cruzando o Rio Bogotá que a nomeia, deixamos o Distrito Capital pra entrarmos em Cundinamarca.

Aí começa descer. É tão íngreme que o ônibus vai a uma média de 30 km/h. Lembra a Estrada da Graciosa, aqui no Paraná, ou a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

bogotá colômbia luzes montanha serra panorâmica noite noturna céu mata árvore monserrate monte serra igreja iluminada

A partir daqui todas as imagens baixadas da rede: essa é uma noturna de Bogotá.

Com a diferença fundamental que aqui no Brasil estas são vias turísticas, e lá é simplesmente a principal rodovia do país, que conecta suas duas maiores cidades.

Já imaginou a Via Dutra com velocidade média de 30 km/h, com a viagem entre São Paulo e Rio levando 10 horas? É a realidade deles.

Bogotá e Medelím distam 250 km em linha reta. De avião dá 45 minutos de voo. Mas por tanta curva, a estrada tem 400 km.

medelím medellín colômbia panorâmica morros encosta metrô transporte elevado trem prédios classe média alta

Medelím.

Que levam um dia inteiro, de manhãzinha até quase o anoitecer, para serem vencidos.

Como observamos, boa parte dos veículos de carga eram caminhões-tanque, ou seja, que carregam combustível. Isso porque em boa parte do interior não há refinarias de petróleo, o que torna tudo difícil.

Precisam ir buscar gasolina na capital, só que viajando nesse passo de tartaruga.

meu-cabo serra montanha periferia cali colômbia panorâmica morros encosta ladeira favela pobreza quebrada subúrbio teleférico bondinho transporte duplex sem acabamento pintura tijolo alimentador ônibus

Cali.

Ademais os trechos sinuosos no meio da selva, onde os caminhões precisam quase parar pra fazer as curvas, são ideais pra tocaias das guerrilhas que se escondem na mata.

O risco é pra todos os caminhões e não apenas pros que carregam gasolina. Por isso o exército está presente em vários pontos da estrada.

Antigamente era bem pior, haviam bem mais ataques, e carros caros também eram alvo, seus donos sequestrados. Aa virada do milênio ninguém da elite e classe média viajava por via terrestre, só de avião.

Hoje a coisa amainou muito, e durante a luz do dia é seguro viajar por terra na Colômbia.

Mama Quilla-Luna

Dessa até o fim: Chía, a Deusa-Lua.

CRUZANDO 3 VEZES O MADALENAE aí fomos descendo, serpenteando os Andes. Cruzamos pela primeira vez o Rio Madalena, entrando no estado de Tolima.

Esse estado nomeia o time de mesmo nome, que ficou conhecido no Brasil por em 2011 ter eliminado o Corinthians na pré-Libertadores.

Quando eu estive na Colômbia, isso tinha recém-acontecido.

………….

Voltando a viagem, cruzamos o rio e entramos na cidade de Honda, Tolima.

Toda a região é muito quente. aquario

Bogotá e Medelím têm ambas uma temperatura agradável o ano todo, por serem muito altas.

Bogotá, mais de 2.600 metros acima do nível do mar, é a terceira capital mais alta do mundo:

Só perde pras capitais da Bolívia (La Paz) e Equador (Quito).

diosa-chiaMas o vale do Rio Madalena é baixo, e por ser emparedado entre os Andes esquenta ainda mais.

Tanto que os restaurantes de beira de estrada simplesmente não têm paredes.

É isso mesmo, só tem o teto e colunas sutentando-o, é tudo aberto.

Paramos pra comer já depois das 4 da tarde. Fazia perto de 35º, tudo mundo suava em bicas.

Prossigamos. Dentro do estado de Tolima, seguimos paralelo ao rio.

Ao cruzarmos um outro curso fluvial, menor, entramos no estado de Caldas. DIOSA CHIA

Já esse estado sedia o Once Caldas, que em 2004 venceu a Libertadores, eliminando o São Paulo na semi e o Boca Juniors na final. 

As outras duas Libertadores da Colômbia são do Nacional de Medelím, de 1989 e de 2016, ano que essa matéria subiu pro ar.

Voltando ao texto original de 2011, o Once Caldas era o então campeão nacional (desde 2002 a Colômbia têm dois campeões por ano), e em 2011 disputava de novo a Libertadores.

……………

Falar em cursos fluviais, vi algo muito triste na Colômbia, que me preocupou muito:

luaVários riachos estão secando. Passamos por várias pontes que cruzavam leitos secos, cadáveres de rios.

Em plena Amazônia, e olhe que agora é a estação das chuvas por lá.

Tanto que estão ocorrendo desabamentos nas favelas nas encostas de morros das grandes cidades.

Agora voltemos narrar a viagem. Estamos no estado de Caldas.

Após a cidade de La Dorada, cruzamos novamente o Rio Madalena.Chia6

E retornamos pro estado de Cundinamarca, muitas horas de temos deixado-o. 

Ao transpor um outro rio menor, entramos no estado de Boyacá, onde Bolívar derrotou as tropas espanholas.

Seguindo sempre ao norte, viramos a esquerda e passamos pela terceira vez sobre o Madalena.

Ali é proibido tirar fotos ou filmar as pontes e o rio, pois é zona militar de combates ativos entre exército e manifestaras guerrilhas da Farc.

Dos dois lados haviam soldados com metralhadoras.

Então ao cruzar pela 3ª e derradeira vez o Madalena, entramos no estado de Antioquia, cuja capital é Medelím.

O nome é em homenagem a cidade de Antioquia que fica na atual Turquia, fundada em 300 a.C., citada na Bíblia.

Aí foi só subir a serra de novo que lá pelas 9 da noite chegamos a Medelím, a cidade da eterna primavera, como é conhecida.Deusa

Há outros apelidos, não tão sublimes. Mas essa parte relato em outro texto. 

……………

A Série sobre a Colômbia acaba de ser toda levantada para rede. Trabalho encerrado com sucesso.

Graças a Deus Pai e Mãe que permitiu, está feito.

Que Deus ilumine a todos.

Deus proverá”

Charrúa

maurilio no uruguaiPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 30 de julho de 2016

Maurílio viajando pelo mundo. No Uruguai e na França. Começando pelo Uruguai:

Ele foi fotografado num parque na orla de Montevidéu, que tem o nome da cidade em letras garrafais. Eu não conhecia esse monumento, nunca estive fisicamente no Uruguai. Seja como for, aí está Maurílio:montevideu

Tomando um chimarrão, e com o manto do Nacional do Uruguai, tri-campeão da Libertadores.

bleu, blanc, rouge

Pra vibrarmos na mesma frequência, agora Maurílio em Paris. Em frente a Torre Eiffel. Dessa vez com a camisa do Paris Saint-Germain. Esse monumento é universalmente conhecido, não é preciso explicar nem anexar fotos. Mesmo quem nunca esteve na Europa (como é meu caso) já o viu milhares de vezes em fotos e na TV.

maurilio na franca

Na ‘Cidade-Luz’.

A ‘mesma frequência’ se refere que os dois times têm as mesmas cores, branco, azul e vermelho. Que são as cores nacionais também tanto da França quanto do Uruguai.

Sim, a bandeira atual, civil, do Uruguai é apenas azul e branca espelhando a argentina. Mas a bandeira de guerra uruguaia, com a qual ele se tornou independente do Brasil, é tricolor, incluía o vermelho.

Todos os movimentos nacionalistas uruguaios, sejam de direita ou esquerda, incluem a cor rubra em sua parafernália, exatamente por isso. É pela mesma razão que o Nacional é tricolor e inclui o vermelho.

Trata-se do primeiro clube ‘crioulo’ da América. Daí seu nome, o ‘Nacional do Uruguai’. Foi fundado por uruguaios, e não por espanhóis (ou ingleses, ou italianos, ou alemães) que morassem no Uruguai.

Ou seja o 1º que foi fundado por americanos aqui nascidos, e não por europeus colonos (‘Americanos’ se refere, sempre, ao continente América – o que é natural dos EUA é ‘ianque’ ou ‘estadunidense’, não se confunda).

…………

tomando chimarrao

Mate Amargo.

Isto bem esclarecido, vamos a um detalhe curioso. Geralmente quando desenho ‘Maurílio’ com camisa de times de futebol do exterior, é na cor azul. No Equador o L.D.U., inclusive esse é tricolor como os dois acima, celeste, rubro e alvo. No México o América – bem, esse é um caso a parte, o futebol mexicano é mesmo quase inteiro azul.

Na Itália o Nápoli. Está se estabelecendo um padrão. Mas não é regra geral. Tanto o Chile quanto o Paraguai têm a mesma rivalidade futebolística em termos de cores: um time azul e vermelho contra um preto e branco.

Obviamente me refiro a Cerro Portenho x Olímpia em Assunção e Colo-Colo x Universidade do Chile em Santiago. E nesses casos eu prefiro o alvi-negro ao azul.

Aliás o Paraguai tem uma equipe, o Nacional de Assunção, que é xerox ‘falsificado’ do Nacional de Montevidéu. Em 2013 eu vi no Defensores do Chaco uma partida do Nacional-cópia de Assunção. Naquele ano ele acabou se sagrando campeão paraguaio, e no ano seguinte vice da Libertadores.

paris-saint-germainA Argentina também tem um time azul, diga-se de passagem é o mais popular do país. Mas eu gosto de um clube vermelho, e não é o River, e sim o Independente de Avellaneda. Já me desenhei com o boné do Olímpia, e igualmente como como ‘hincha’ do Índio Chileno. Já joguei no ar a nova ‘encarnação’ futebolística de Maurílio: o Diabo Argentino.

Tem mais. A Colômbia também tem um time azul, o Milionários de Bogotá. No entanto Maurílio é torcedor do Nacional de Medelím, que acaba de se sagrar bi-campeão da América. Portanto no Velho Mundo, Uruguai, México, etc, Maurílio usa a camisa azul.

Mas na Colômbia, que foi a nação que eu mais gostei de visitar, não há qualquer dúvida: “Vamos Verde!!! Vamos de novo pro Japão!!!”

“Deus proverá”

“Sinais antes do fim”: é Medelím, a ‘Cidade da Primavera Eterna’.

Las palmas medelím medellín colômbia prédios panorâmica classe média alta elite morros encosta ladeira verde mata bosque árvore

Bairro das Palmas, Zona Sul de Medelím, a única encosta de classe alta da cidade (imagem baixada da rede). Acima da manchete vemos um morro da Zona Oeste de padrão social oposto, em tomada de minha autoria.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Levantado pra rede em 31 de maio de 2016.

Publicado (em emeios) em junho de 2011.

A maioria das fotos foi batidas por mim ou meus familiares. Quando for puxada da rede eu informo na legenda. Os créditos foram mantidos sempre que estivessem impressos nas imagens.

Seguindo a série sobre a Colômbia, vou sintetizar aqui dois emeios. O primeiro teve o mesmo título da mensagem, ‘Sinais antes do fim’, e foi publicado em 3 de junho de 2011.

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De dentro do Metrô-Cabo, voltamos a ver o mesmo morro da Zona Oeste. Alguns detalhes chamam a atenção: 1°, boa parte dos telhados são de zinco, até Eternit é luxo; 2°, incrível a quantia de casas pintadas no mesmo tom de verde, e por fim, falando desse humilde Mensageiro, eu estou com a mesma camisa vermelha que me auto-retratei ao lado de ‘Marília’.

Vou descrever um pouco sobre Medelím, a maior cidade do interior do pais.

É a capital do estado de Antioquia. Como é notório, a Antioquia original é uma cidade na atual Turquia, citada na Bíblia.

Alias os “Sinais antes do Fim” também são relativos a essa Escritura, abaixo explico a relação.

Já o nome da cidade é uma homenagem a cidade homônima que há na Espanha.

Por conta disso, também há Medellíns no México e nas Filipinas – embora muitos não se deem conta, esse país asiático também era colônia espanhola.

Até que foi arrebatado pelos EUA na guerra hispano-estadunidense, na virada dos séculos 19 pro 20. Também butim do mesmo conflito foram Cuba, Porto Rico e outras possessões menores.

metrôcabo z/o morros periferia serra montanha medelím medellín colômbia panorâmica morros encosta ladeira favela pobreza quebrada subúrbio teleférico bondinho transporte metrô-cabo classe média prédio

Mais uma do Metrô-Cabo, meio de transporte que ajudou em muito a pacificar Medelím, e foi copiado em outras partes da Colômbia, na Venezuela e Brasil.

Mesmo por terra, a sensação é de estar no avião 

Voltemos a Colômbia. Medelím foi fundada em 1675 e originalmente se chamava Vila Nossa Senhora da Candelária de Medelím.

Como sempre, os colonizadores ibéricos misturavam um nome católico com um pagão.

Um detalhe muito curioso em Medelím é que você chega na cidade pelo alto, ainda que venha por via terrestre, de carro ou ônibus.

A primeira visão que alguém tem de Medelím é similar a que teria se chegasse de avião, pois a estrada está no alto da montanha, e a cidade lá embaixo, no fundo do vale.

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Jd. Botânico de Medelím.

Chegamos a noite, e vimos as luzes da metrópole iluminada, como se a estivéssemos sobrevoando (a última foto dessa matéria, no pé da página, mostra a cena).

Falar em aviação, eu cheguei de ônibus e deixei Medelím de avião. Isso rende uma outra história: 

Se alguma vez na sua vida você chegar ou sair de Medelím por seu aeroporto internacional (o José María Cordova), como eu fiz, nunca mais irá reclamar da distância do aeroporto de sua cidade.

Explico. O José María está a 50 km de Medelím. Dá quase uma hora e meia de estrada, uma viagem antes de empreender outra viagem.

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Parque dos Pés Descalços, outra atração de Medelím. O nome, lembrado por toda Colômbia, se refere aos ‘crioulos’, os colombianos que eram explorados pela Coroa Espanhola, e por isso não podiam sequer comprar sapatos, enquanto os colonizadores se cobriam de luxo e joias.

Tem o nome de um general que lutou ao lado de Bolívar na guerra de independência contra a Espanha, que lá foi longa e sangrenta, ao contrário do Brasil.

Homenagens patrióticas a parte, pra chegar ao aeroporto você pega a linha de ônibus no Centro.

E o busão vai, primeiro tem que vencer os congestionamentos.

Aí ele chega numa avenida chamada Las Palmas, que corta o bairro mais rico da cidade:

Cheio de condomínios fechados, parece ‘Beverlly Hills’, as mansões no morro. Eu já havia estado lá antes (em Las Palmas, não em ‘Beverlly Hills’), depois eu conto.

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Centro Histórico de Bogotá. Embora o texto seja sobre Medelím, vou enxertar nas laterais fotos de outras partes da nação. Note que, como Medelím, a capital também é cercada por altas montanhas, estamos no pico dos Andes afinal.

Enfim, nesse bairro você vê novamente Medelím do alto, parece que já está no avião.

Afinal Las Palmas está simplesmente situado entre 600 metros a quase 1 km acima do Centro da cidade, em suas porções mais remotas.

É um subúrbio típico estadunidense, só mansões, a beira da rodovia, bem distante da área central, todos vão trabalhar de carro.

E por estar no morro lembra muito o bairro dos milionários de Los Angeles (EUA). Mas pra chegar no aeroporto ainda tem muito chão. Primeiro a rodovia de pista dupla se torna de pista única.

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Subimos o morro. Eis o Monserrate, antigamente um mosteiro, agora uma atração turística, 400 metros acima da cidade de Bogotá – que já fica ela mesma a 2,6 mil metros mais alta que a costa. Portanto aqui chegamos a mais de 3 km acima do nível do mar.

Aí você passa por pequenas cidades, por áreas rurais onde vacas pastam tranquilamente, pelo pedágio, e o negócio não chega.

Uma hora e pouco ali dentro, e enfim, o ônibus estaciona em frente o terminal, já no município de Rio Negro (xará da cidade do PR).

Há um outro aeroporto bem no Centro de Medelím, mas só é usado por aeronaves menores em voos mais curtos.

Inchada pela guerra – 

Atualmente a cidade tem uma população de 2,6 milhões apenas no município e de 3,7 milhões se incluirmos os subúrbios da Grande Medelím.

Antes de falar deles, uma observação: escrevi anteriormente que o município de Medelím tinha uma população similar a de Curitiba, ou seja perto de 1,8 milhão.

bonde

O bondinho que leva ao Monserrate, ponto mais alto dessa cidade. É caro e turístico (uso ocasional e só 2 estações), similar ao do Pão de açúcar, no Rio. Ou seja, não tem nada a ver com aquele que liga as favelas de Medelím ao metrô, que é barato, com diversas paradas e de uso diário.

É o que eu havia lido. Agora me deparei com esse dado de 2,6. Talvez 1,8 fosse em 2000. O número maior é de 2010.

Ao contrário das grandes cidades brasileiras do Centro-Sul, que atualmente pouco crescem, creio que as cidades da Colômbia ainda têm crescimento elevado.

Até porque a guerra civil permanece ativa no interior, empurrando todo ano dezenas de milhares de pessoas pras cidades.

…….

É conhecida como “a cidade da eterna primavera”, por suas flores e clima suave. A cor de Medelím é verde, assim como Curitiba. Por isso o Clube Atlético Nacional tem essa cor.

Do futebol já falei em outra parte, aqui quis apenas dizer que o Nacional é verde porque Medelím é verde.

A cidade está no vale do Rio Medelím, que cruza a área urbana de sul a norte. Mais apropriadamente diríamos que a cidade é quem se instalou ao redor do rio.

andes

Bogotá é no alto dos Andes, Medelím idem. Mas pra ir por terra é preciso descer a Cordilheira e subir de novo. Assim um trajeto de 250 km em linha reta leva nada menos que 10 horas de estrada.

O fato é que o rio, que nomeia a cidade, é também sua espinha dorsal, em todos os sentidos.

O metrô de Medelím, símbolo maior do renascimento da cidade, corre sobre seu eixo, por vezes a sua margem e por vezes literalmente sobre ele.

Infelizmente o rio está morto, como estão os rios que cortam as grandes cidades brasileiras.

Enfim, ao redor do poluído Rio Medelím se acha a cidade. A Grande Medelím muitas vezes é chamada “Vale do Aburrá”, assim como a Grande Santos (SP) é mais conhecida como “Baixada Santista”.

Voltando a Colômbia, as cidades que compõe a Grande Medelím são Estrela, Itagüi (o idioma espanhol não aboliu o trema ainda), Sabaneta, Envigado, Medelím, Belo e Copacabana.

Aqui e a esquerda: Pra ir da capital a Medelím você cruza 3 vezes Rio Madalena – eis o ‘São Francisco deles’, a Colômbia é um país só por conta desse rio. Aqui é a divisa entre os estados de Cundinamarca e Tolima.

Comecei a partir do sul, seguindo a corrente do rio que originou tudo isso.

Há outros municípios oficialmente considerados Grande Medelím, mas que não o são na prática, como ocorre no Brasil também.

Os que estão umbilicalmente ligados ao núcleo, que tem suas áreas urbanas fundidas, são os que citei.

Desses, eu só não estive em Estrela e Copacabana, porque não são servidos pelo metrô.

Por serem os mais distantes, os extremos meridional e setentrional do Vale do Aburrá. Há planos de expansão da linha.

Atualização: em 2016 o metrô vai até o subúrbio de Estrela. Portanto se minha viagem fosse agora eu teria conhecido ali também. Infelizmente não deu.

rio madalena

Onde foi permitido eu fotografei. Há pontes em que é proibido captar imagens, por ser zona de segurança militar, nas imediações há combates ativos entre exército e guerrilha.

Riqueza na Zona Sul e favelas na Norte – 

A Zona Sul de Medelím é a mais rica, exatamente ao contrário da capital Bogotá.

Então Sabaneta, Envigado e Itagüi, que ficam na Zona Sul da metrópole, são mais ricas que Belo e Copacabana, que ficam na Zona Norte.

Algumas das maiores favelas da área metropolitana estão em Belo, e são em morro. Estive lá, evidentemente.

O crescimento demográfico é altíssimo, tornando tudo difícil.

Do outro lado, principalmente em Envigado, há bairros não apenas de classe média mas também de alta renda, também passeei por lá. Desci na estação de metrô no Centro do município e fui subindo o morro.

mina

Em Zipaquirá (Grande Bogotá) há uma mina abandonada, hoje uma atração turística. Os visitantes podem “se sentir” um mineiro, guardadas as devidas proporções evidente.

Nessa parte a encosta não é favelizada. Na região ainda mais plana há muitos bairros de sobradinhos geminados.

Mas quanto mais sobe a altura em relação ao nível do mar mais sobe a renda igualmente – isso nessa região da cidade, em outras partes é o inverso: quanto mais alto mais pobre.

Voltando a falar de Envigado, fui subindo a encosta, em direção ao leste. Mas também fui indo em direção ao norte, ou seja, ao município de Medelím.

Assim que cheguei a um planalto, já bem mais elevado que em relação ao núcleo em torno do rio, atingi um bairro de classe média-alta.

Ainda estava no município de Envigado. Ao cruzar a divisa, adentrando no município-sede da metrópole, a renda aumentou ainda mais.

Guichê na rodoviária. ‘Tolima’ é um estado colombiano, repito. Em sua capital Ibagué fica o time de mesmo nome.

Aí passei a subir cada vez mais o morro. Essa região já não é mais de classe média-alta, é de classe altíssima, “AA” mesmo, só pra milionários.

O Morumbi colombiano – 

Aqui chegamos aquela região que já descrevi pra vocês, é o Morumbi do país vizinho.

Ali onde estava é na encosta, com pequenas ruas exclusivamente residenciais, e os prédios de altíssimo padrão.

Todos cercados evidentemente por muros altíssimos guarnecidos em seu topo por arame farpado e/ou cerca elétrica – nada diferente do que estamos habituados aqui.

mapa-metro-medellin

Mapa do metrô de Medelím que puxei a época, 2011. A ampliação pro município de Estrela, na Zona Sul, foi concluída.

Por exemplo, eu passava na hora da saída da escola. As vans que carregam os alunos não os deixam na frente do prédio, como no Brasil.

Em Medelím há mais precauções, o porteiro abre o portão, o veículo entra, o portão se fecha, e só aí a criança/adolescente desce. Afinal, os sequestros diminuíram 90% na Colômbia, mas não acabaram.

Deixando essa parte de lado, é um bairro muito bonito, totalmente arborizado, com pouco trânsito, o que dá um clima de tranquilidade único na cidade.

É entre 100 a 300 metros mais alto que o Centro, e a altitude somada aos grandes bosques tornam o clima mais ameno, quase temperado.

Repetindo, vi esquilos caminhando nas ruas, como vemos frequentemente em Nova Iorque, seja nos filmes ou pessoalmente pra quem teve a oportunidade de ir até lá.

O bairro, que se chama El Poblado, é um verdadeiro parque. Excelente pra caminhar e se esquecer dos problemas, pena que quase ninguém aproveite tamanha beleza.

Os ricos têm medo da violência, e a região é de difícil acesso para moradores de outras partes da cidade. Então as calçadas ficam desertas de pedestres, eu andava praticamente sozinho.

mapa-medelim

Mapa atual do transporte medelinense em boa resolução. Como é costume na Colômbia, o norte está a esquerda e o leste pra cima.

Nas ruas, entretanto, muitos carros e de vez em quando ônibus passavam, não é uma cidade-fantasma obviamente.

Mas parecia. Caminhava por vezes mais de uma hora sem ver uma alma viva sequer nas calçadas. Isso quando o tempo estava agradável.

Depois começou a chover, aí que eu fiquei com as calçadas só para mim.

Continuei meu roteiro, encharcado mas em paz, feliz por estar tendo essa oportunidade.

As partes intermediárias do bairro estão ocupadas por prédios. Por isso me refiro a faixa situada entre 100 a 300 metros mais alta que o Centro.

medelím medellín colômbia estação metrô transporte trem são xavier san javier plataforma

Estação na Zona Oeste de Medelím.

Lembra muito o Morumbi, em São Paulo, como já disse. Foi a parte que percorri a pé.

Acima disso a cidade continua, mas a partir daí só há casas. Mansões, na verdade.

É aquela parte que descrevi acima contando o trajeto pro aeroporto, que parece Beverlly Hills, e onde a altura em relação ao Centro chega a quase 1 km.

Pra não deixar dúvidas: o Centro de Medelím já está a 1,5 mil metros acima do nível do mar, quase tão alta quanto a mais alta cidade brasileira, Campos do Jordão-SP que está a 1,6 mil metros.

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O trem visto a direita vai pra São Xavier, onde se troca com o Metrô-Cabo. Dois modais, um só sistema e uma só tarifa.

Alguns subúrbios de Medelím estão a 800 ou mesmo quase mil metros acima do Centro, porto a 2,3 ou mesmo 2,5 km acima do Oceano.

Volto a narrar minha subida no morro. Fui da estação de metrô na região metropolitana até o fim da parte em que ainda há prédios.

A partir daí não prossegui. Estava já andando há muitas horas, em subida, e na última hora embaixo de uma tempestade.

Vi lá debaixo os prédios no alto da montanha e me propus a ir até ali. E assim o fiz. Vencida essa etapa, quando vi o ponto final de uma jardineira (aqueles ônibus com motor saliente, como se fosse um caminhão), fiquei por ali mesmo.

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Eis o que se vê do Metrô-Cabo.

Afinal ainda não havia andado em jardineiras na Colômbia, e queria ter essa experiência também.

Cansado e encharcado, e tendo feito o que me propus, peguei o ônibus e retornei ao Centro.

Após ter descansado no trajeto, ao descer do ônibus ainda fui a pé para o hotel, e nisso foram mais umas duas horas de caminhada, boa parte delas embaixo de chuva também.

Nesse dia andei umas cinco horas a pé pelas ruas de Medelím, sendo perto da metade disso sob chuva muito forte.

Mas valeu a pena. Dentro da mesma cidade, vi partes que se parecem com os bairros mais ricos do Brasil e dos EUA.

medellin

Esse não anda mais. Fica parado como atração turística no Jd. Botânico de Medelím.

E outras favelas enormes que se parecem com as partes mais degradadas do Afeganistão, do Brasil e da Somália.

Como alias já havia feito na capital Bogotá, porém lá sem chuva. A Zona Sul de Bogotá também lembra muito o Afeganistão.

Enquanto partes da Zona Norte se parecem com o Jardim Social aqui em Curitiba, ou com os Jardins em SP.

O Afeganistão e Beverlly Hills dentro da mesma cidade, as vezes inclusive próximos fisicamente, embora em termos sociais vivendo em galáxias diferentes.

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Também no Jdim. Botânico.

Assim é a Colômbia, coração de nosso continente americano. 

E mais acentuadamente ainda assim é Medelím, sua cidade mais emblemática, com seus conflitos e seu renascimento, símbolo de nossa querida América.

………..

Aqui encerra o primeiro emeio. Emendamos mais um publicado 2 dias depois, portanto em 5 de junho de 2011.

É de fato notável o Renascimento da cidade de Medelím e da Colômbia em geral, que tem na integração das periferias pelo transporte coletivo sua espinha dorsal, aliado claro a um melhor policiamento.

Tanto que 1991 foi o ano mais violento da história de Medelím, mais de 5 mil pessoas foram assassinadas.

A violência, tanto política quanto ‘comum’, caiu muito na Colômbia. Mas como o país estava em estado de calamidade, a redução fez com que as pessoas possam levar uma vida mais normal, o que é ótimo, evidente. Porém o que quero apontar é que essa nação continua violenta. Veja esse mercado em um dos bairros mais ricos de Bogotá (Chapinero). Já fotografei comércios atendendo gradeados no Chile, Paraguai, Rep. Dominicana, México, e aqui no Brasil em Curitiba, Belo Horizonte e Belém. Mas sempre nas periferias. Nos bairros de elite, só na Colômbia mesmo.

Em 2008 o números se reduziu pra 500, dez vezes menos portanto.

Em 2010 (dados mais recentes que tenho, o texto é de 2011 como sabem) a violência voltou a crescer:

Perto de mil Homens e Mulheres foram mortos intencionalmente nas mãos de outras pessoas.

Ainda assim é uma queda de 80% em relação ao auge da matança.

Alguns desses problemas ainda permanecem, claro, mas a situação mudou da água pro vinho.

A primeira medida concreta foi a inauguração do metrô de Medelím, em 1995. Primeiramente só havia uma linha, cortando a cidade de sul a norte, seguindo o trajeto do Rio Medelím.

Lembra muito a Marginal Pinheiros, em São Paulo, o trem as margens de um rio poluído, e ao lado de ambos uma grande avenida, com tráfego pesado inclusive de caminhões.

Voltando a Medelím, o trajeto dessa linha liga a Zona Sul (mais rica, polo de empregos) a Zona Norte (mais pobre, região-dormitório), e ambas ao Centro.

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Centro de Zipaquirá, a cidade da Gde. Bogotá que tem o museu da mina.

Ela foi sendo ampliada até que em 1998 chegou a Região Metropolitana, servindo a quase todas as cidades da Grande Medelím.

Depois se inaugurou uma segunda linha, ligando o Centro a Zona Oeste.

Medelím tem tanto Zona Oeste quanto Leste, embora ambas sejam menores que as Zona Norte e Sul, pelo fato de estarem limitadas pelas montanhas.

A Zona Oeste medellinense – 

Então, a Zona Oeste, onde ficamos, é uma região majoritariamente de classe média. Por isso me refiro a sua parte plana. Porque nas encostas é favela por toda parte, todos os morros de Medelím estão ocupados por invasões, em graus variáveis de urbanização.

Bogotá

Seja na Zona Sul, Oeste, Leste, Norte e mesmo no Centro, pois dos 2,6 milhões de habitantes do município creio que metade mora em favelas.

As únicas encostas que não são favelizadas ficam em parte da Zona Sul, tanto a leste quanto a oeste do rio.

Ali bem ao contrário é a região dos milionários que já lhes descrevi.

Voltando, a parte plana da Zona Oeste é tipicamente de classe média-alta. Não há prédios de altíssimo luxo, mas tampouco invasões ou bairros operários.

Vou fazer um apêndice, pra falar de um detalhe curioso. Aqui no Brasil, os bairros nomeiam os estádios.

trolei medelím 2011 medellín colômbia eletrônico universidade faculdade campus estudantes linha experimental teste universitária roda eixo frente porta roda ar-cond piso baico pbt vidro preto azul faixa branco sem placa chapa

A Colômbia não tem mais tróleibus. Tanto Bogotá (até 1991) quanto Medelím (até 1951) os tiveram mas desativaram. Em 2011 uma universidade de Medelím re-implantou uma linha experimental no campus. Pretendiam estendê-la até o Estádio, no bairro de mesmo nome. Mas não deu certo e até mesmo o ramal universitário foi desmantelado em poucos meses (fonte da imagem: internet).

Os exemplos são diversos, desde o Alto da Glória e Vila Capanema aqui em Curitiba ao Morumbi em São Paulo e Vila Belmiro em Santos, bem como o Maracanã e Laranjeiras no Rio, entre muitos outros.

Porém em Medelím é o estádio que nomeia o bairro. A região ao redor do complexo esportivo Atanasio Girardot se chama, bem, Bairro Estádio. 

É ali que está localizado o quartel da 4ª brigada do exército, o que dá um clima pesado a um bairro tão bonito, calmo, plano e arborizado. Da segurança falei melhor em outro texto.

Aqui o que importa é que a parte plana da Zona Oeste é uma região tipicamente de classe média. E a segunda linha do metrô foi ali construída.

De metrô mesmo, com trilhos e trens, por enquanto só existem essas duas linhas, a Zona Leste ainda aguarda o dia em que será contemplada.

A revolução do Metrô-Cabo – 

Porém foram feitas mais duas linhas com bondinhos, integrando a maior parte da cidade. Funciona da seguinte forma: em duas estações do metrô normal é possível fazer conexão gratuita com o bondinho.

Como já disse, o metrô-cabo de Medelím não guarda qualquer semelhança com o bondinho que leva ao alto do Monserrate, em Bogotá. Esse último é caro e turístico, e só tem dois vagões operando, enquanto um sobe, o outro desce, logo o tempo de espera é grande.

santo domingo sávio periferia z/n serra montanha medelím medellín colômbia panorâmica morros encosta ladeira favela pobreza quebrada subúrbio teleférico bondinho transporte metrô-cabo duplex sem acabamento pintura tijolo estaçãoNo metrô-cabo, ao contrário, há dezenas de pequenos vagões. Então não há tempo de espera, o intervalo entre um e outro é de cerca de 15 a 30 segundos. É assim que operam:

Como podem ver pela foto (puxada da rede), há uma distância de cerca de 10 metros entre eles quando estão no ar. Ao chegar na estação reduzem em muito a velocidade, mas não param.

Então eles se enfileiram na plataforma, sem parar mas indo bem devagar, de forma que até um idoso ou deficiente pode embarcar com todo conforto e segurança. Há funcionários orientando e auxiliando os que precisam.

clássico paísa montanhês montanha serra futebol colômbia esporte times clubes rivalidade desportivo independente medelím atlético nacional azul vermelho verde branco atanásio girardot partida jogo

Clássico Paísa‘ no Estádio Atanásio Giradot. No Brasil os bairros nomeiam os campos de futebol. Em Medelím é o inverso (fonte: internet).

Cada um tem capacidade pra 10 pessoas, 4 sentadas em cada fileira de bancos e 2 em pé no meio. O metrô-cabo é metrô. Faz parte da rede, é integrado gratuitamente as estações onde operam os trens.

E custa o mesmo preço, tanto faz embarcar nas estações onde só operam trens, onde só operam o bondinho ou nas duas em que os modais se encontram.

Alguns mapas, erroneamente, ao retratar o metrô de Medelím, excluem as linhas de cabo.

É um erro de fato e de direito. Talvez por não terem utilizado, as pessoas que desenharam pensam que o cabo é turístico, opcional, e que leva ao um parque ou algo assim. Nada poderia ser mais distante da realidade.

O cabo é transporte de massa, barato, e liga as piores favelas ao metrô, e consequentemente a cidade toda. Tanto que os ramais do cabo são linhas regulares do metrô, recebendo os códigos J e K. A linha Sul-Norte (via Centro) é a linha A, enquanto a Centro-Oeste é a linha B.

Mais uma de Bogotá.

Digo, há uma linha de metrô-cabo que realmente é turística, leva a um parque fora da cidade, e por isso opera em horários diferenciados.

Mas as outras duas são transporte de massa, parte da rede de metrô de fato e direito.

Claro, há algumas desvantagens. Em caso de tempestades com ventos fortes o sistema é interrompido.

Além disso, uma vez por ano o cabo precisa parar duas semanas pra manutenção. Quando estava lá, a linha K (que fica na Zona Norte) estava fechada. Só andei na linha J, que fica na Zona Oeste, ligando algumas de suas enormes favelas a região de classe média.

Próximas 5: guerra de torcidas de futebol pelas ruas de Bogotá. Aqui alguém pichou o emblema do Nacional e outra torcida riscou por cima. Mesmo sendo do interior, o Nacional é a maior torcida da Colômbia e marca forte presença na capital.

Mando o mapa, onde podem ver também a expansão que está sendo construída na Zona Sul, chegando ao município de Estrela. Isso quando fiz o texto, em 2011. Agora já está operando essa ampliação.

Falando nisso, um apêndice: estou falando em Zonas Oeste, Sul, Leste e Norte porque utilizo o jargão brasileiro, e também argentino.

As cidades brasileiras, bem como Buenos Aires, é que se dividem com essa nomenclatura.

Na Colômbia é diferente. Norte e Sul são Norte e Sul mesmo, mas Leste e Oeste são Oriente e Ocidente. E não se usa o termo ‘zona’ nem qualquer outro equivalente.

Então quando digo “na Zona Sul da cidade”, eles dizem apenas “no Sul da cidade”, e “na Zona Oeste de Medelím” é “no Ocidente de Medelím”.

Enfim, agora quanto as vantagens. É muito mais rápido e barato de se construir que o metrô convencional, de trilhos. Nem sei se seria possível fazer o metrô subir o morro, pois o ângulo de inclinação é muito elevado.

Alguns bairros de Medelím estão a mais de 300 (ou mesmo mais de 500) metros acima da região central. É isso mesmo.

Escudo do Santa Fé, também profanado. ‘Santa Fé de Bogotá’ foi o nome da cidade até 1991, quando foi mudado pra Bogotá D.C. .

Fui na parte rica da Zona Sul. Até o clima é diferente, mais fresco, esquilos andam pelas ruas pois a região é forrada de bosques.

Mas esse, como dito, é o único morro habitado pela elite, as outras encostas estão pesadamente favelizadas.

Dessa forma, mesmo que fosse viável fisicamente seria inviável financeiramente fazer o metrô normal chegar nos bairros mais pobres, pois o gasto seria astronômico.

Então esse metrô-cabo foi uma verdadeira revolução. Como é notório, liga as piores favelas ao metrô convencional, ou seja, a cidade inteira. Sem custos extras pros moradores.

Foi a partir da instalação do metrô, seja na versão de cabo ou de trem, que a periferia de Medelím começou a se acalmar, resultando que hoje ela não é diferente das cidades brasileiras em termos de violência urbana.

Indumentária do Milionários, bastante estilizada.

Eternit já é luxo – 

A cidade tem muita favela, e são miseráveis, em morro. Há partes em que simplesmente não se chega de carro, só de moto (e olhe lá) ou a pé. Bem, as imagens dizem tudo.

Um detalhe interessante é que aqui no Centro-Sul do Brasil e até a Bahia, como é sabido, a maioria das casas em periferia, tanto nas favelas quanto nos loteamentos regulares, tem o telhado de eternit.

Bem, na Colômbia não, o teto de muitos dos barracos é de zinco, um metal. Isso torna as casas insuportavelmente quentes no verão e insuportavelmente geladas no inverno. 

Na África do Sul as favelas também são de zinco, com o agravante que lá mesmo as paredes são desse material, alias por isso as quebradas sul-africanas são chamadas ‘cidades de lata’.

Na Colômbia ao menos é só telhado que é de latão. As paredes são de alvenaria, madeira ou papelão, conforme a família seja apenas pobre ou então miserável. As favelas da Colômbia, como as do Brasil e toda parte, também têm alto grau de estratificação social dentro delas.

Só o Millos (apelido do Milionários) Campeão“.

As partes mais antigas são asfaltadas, com sobrados de alvenaria, é possível ter carro, passa ônibus perto, enfim um bairro minimamente civilizado embora os serviços públicos sejam precários.

Já as bordas da favela são ‘a periferia da periferia’, áreas recém-invadidas onde vivem mesmo aqueles que não têm nada.

É impressionante sobrevoar esses locais, há casas que estão no meio da mata, numa encosta muito inclinada, onde só se chega a pé. Felizmente agora há a estação de metrô-cabo, o que ao menos minorou a caminhada.

Sinais antes do fim – 

Com mais ou menos estrutura, o fato é que as favelas abrigam perto da metade da população medellinense. O metrô-cabo foi uma medida importante, mas muito ainda há por fazer.

Essa é a melhor de todas: 1º alguém fez o escudo do Santa Fé, em vermelho. Ainda adicionaram a foice e o martelo pra reforçar a ideia do ‘Exército Vermelho’. A torcida arqui-rival do ‘Millos’ sobre-escreveu em azul a indumentária de seu próprio clube. E por fim um grafiteiro, sem relação com o futebol, transformou em obra de arte, também em rubro colocou um menino de pincel na mão pintando. 3 pichações em 1.

Coleta de lixo e rede de saneamento básico nessas áreas então, nem pensar. Um cenário de destruição, parece o apocalipse. 

Aí me deparei com uma cena muito curiosa. O teleférico sobrevoa um riacho, no meio da montanha. Numa de suas pedras alguém pintou o título “Sinais antes do fim, Lucas 21-7”. 

Escreveu em letras garrafais, dá para ler nitidamente lá de cima, o contraste entre o mineral negro e os escritos em branco.

Fui ler o versículo. Trata-se do que irá ocorrer indicando que essa civilização está o fim, na visão dos que assim creem.

Diz que “aparecerão os falsos profetas, e os que creem de verdade serão castigados pelos poderosos por sua fé. Aparecerão doenças e guerras, e por toda parte haverá destruição.

E por fim, quando chegar a hora final, as cidades serão arrasadas, devendo por isso quem estiver no campo ali permanecer, e os que ainda estiverem nas cidades que a deixem o quanto antes”.

Pichação comum de Bogotá, sem nada a ver com torcida organizada.

Citei o sentido do que está escrito na Bíblia, sem me preocupar em transcrever as palavras ‘ipsis-litteris’. Quem fez essa pintura teve uma ideia genial. 

Mesmo que alguém não acredite no “fim do mundo” na conotação religiosa não pode negar que o que está vendo ali é uma cena apocalíptica:

Que prenuncia uma grande mudança em nosso modo de vida e em como nos relacionamos uns com os outros e com o planeta.

Trata-se, se não do fim do planeta, ao menos o fim do mundo ‘como o conhecemos’, ou seja, o fim de um estilo de vida substituído por outro.

medallo

Pra celebrar e marcar o Renascimento de Medelim, vamos ver (em 2 imagens baixadas da rede de computadores) o Astro-Rei Sol Renascendo sobre essa belíssima cidade.

Esse Renascimento, da Colômbia em geral, e de Medelím em particular, é parte disso. É parte da ‘Nova Terra‘ que está surgindo. Como eu escrevi em outra parte:

”  Medelím é feroz! Ontem, um poder incrível usado pra destruir, exemplo mundial de cidade em que tudo dava errado.

Hoje, usa o mesmo poder pra construir, e se torna cidade-modelo pra América e pro mundo como lugar que as coisas dão certo. Eu tiro meu chapéu. Respeito a quem merece . . . . “

Assim É. Civilização: América.

O Novo Homem e Nova Mulher estão surgindo. E eles serão pacíficos. Priorizarão o diálogo ao invés da agressão.

A Pacificação de Medelím já é um ensaio desse Processo Maior.

medelimDo Chumbo a Era Dourada. Alquimia é isso e não há outro.

A Raça Americana Surgiu. Não há mais como parar esses despertar.

Vamos em Frente, Sempre.

E Deus Pai e Mãe proverá.

Flores do Chaco

flor paraguai (9)Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 14 de maio de 2013

Todas as postagens de ‘Flores’ são dedicadas as Mulheres

Eis o que escrevi quando acabei de voltar de Assunção:

É uma cidade muito bonita, bastante arborizada. flor paraguai

Como sempre, fiz uma série detalhada contando tudo sobre a capital paraguaia.

Por hora, envio-lhe as flores que por lá fotografei.

A da direita é de um bairro da Zona Central.  Essa a esquerda pelo poste pintado eu vejo que tirei em São Lourenço, na região metropolitana. A primeira, onde o Sol aparece, também.

flor paraguai (11)Em algumas eu não me lembro em que parte da cidade foram batidas.

……………..

No modal do emeio as mensagens sobre as flores abriam as séries.

Aqui na página elas fecham.

Clique sobre as fotografias que elas aumentam de tamanho.flor paraguai (3)

Eis as flores que adornam o Chaco Paraguaio, a “Grande Planície Sul-Americana“.

A primeira tomada da sequência horizontal é quase em frente ao portão da Universidade Nacional, na Rodovia nº 2, igualmente em São Lourenço, perto da divisa com Fernando de la Mora.

As outras 2 (a mesma em duas escalas) são em um bairro de elite no sopé do Monte Lambaré.

Universidade Nacional Z/L metropolitana rodovia estrada árvore flores assunção paraguailambaré Z/s assunção paraguai elite classe média alta casa mansão árvore flores primavera violeta grade sobrado rua pedra irregular pavimentada céu azul limpolambaré Z/s assunção paraguai elite classe média alta casa mansão árvore flores primavera violeta grade sobrado

Mais flores. Já notaram que por vezes a mesma cena é mostrada com graus de aproximação distintos.

flor paraguai (4)flor paraguai (6)flor paraguai (7)flor paraguai (5)flor paraguai (2)flor paraguai (8)z/c assunção paraguai árvore flor céu azul limpo

Ao lado vemos a casa antiga próxima ao Centro, onde há essa belíssima árvore avermelhada.

E fechamos com essa primavera violeta.

A mesma retratada acima, agora ampliada.flor paraguai (10)

Eu adoro essa flor !

Deus a ilumine Eternamente.

Deus proverá”