‘Pol Pot na América’: o Genocídio Argentino, com suas ‘Escolas’ e ‘Voos da Morte’

A esquerda e os movimentos sociais querem que a ditadura militar argentina seja reconhecida oficialmente como um ‘genocídio’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 20 de julho de 2017

Maioria das tomadas de minha autoria. O que for puxado da internet eu identifico com um (r) de ‘rede, como visto abaixo.

No intervalo de um mês, fui a Argentina e a África do Sul. Assim vamos alternando as séries sobre esses países.

Escrevi recentemente sobre o ‘Apartheid’ sul-africano. Hoje, mantendo-nos na mesma frequência, vamos falar sobre os ‘anos de chumbo’ da Argentina (1976-83).

Vamos ser bem claros aqui: não há qualquer comparação possível entre as ditaduras brasileira e argentina.

A deles foi infinitamente mais cruel. Infinitamente. Muito mais curta, somente 7 anos, contra 21 da nossa (nota: ao publicar a matéria escrevi erroneamente ’31 anos’. Perdão pela falha).

Os Encapuzados” (r): escultura de metal em frente a Esma (o ‘Dops argentino’) revela forma de tortura. Como explicado, todas as tomadas com ‘(r)’ são baixadas da internet.

Mas o regime de Rafael Videla foi muito, mas muito pior que o de Médici e seus companheiros, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade, se podemos colocar assim.

A definição é: o Brasil viveu um regime autoritário, mas a Argentina passou por um genocídio.

Estima-se que a ‘guerra suja’ brasileira tenha deixado perto de mil vítimas fatais.

A maioria mortos pelos militares, mas as guerrilhas que os combatiam também assassinavam friamente seus oponentes.

Entretanto, pondere que em apenas 7 anos foram mortas 30 mil pessoas na Argentina.

Como a população deles é 4 vezes menor que a nossa, isso equivaleria a 120 mil pessoas no Brasil.

No Brasil o ‘carro do terror’ era a Veraneio. Na República Dominicana o ‘Fuscão Preto’. Pois bem. Na Argentina quem cumpriu esse papel foi o Ford Falcão (r).

Portanto um simples cálculo nos mostra que a ditadura argentina foi nada menos que 120 vezes mais letal que a brasileira.

Não há a necessidade de se argumentar além disso, já que só idiotas discutem com números.

Da Esma (escola técnica da marinha transformada no ‘Dops argentino’) partiam os famosos ‘Voos da Morte’:

Os presos eram dopados pra ficarem inconscientes, embarcados em aviões e desmaiados atirados sobre o Delta do Rio da Prata ou sobre o mar.

Praça de Maio, epicentro político da Argentina no Centro de B. Aires.

Dezenas de corpos acabaram aparecendo boiando nas praias da Argentina e Uruguai.

Os que acabaram na costa argentina os ditadores recolheram e deram fim nos cadáveres.

Mas os mortos argentinos que foram pro Uruguai foram preservados. Posteriormente identificados, serviram como provas nos processos contra os militares.

Muitos milhares mais desapareceram pra todo sempre, dissolvidos na água e devorados por animais marinhos.

Noturna do Obelisco da 9 de Julho em B. Aires, cartão-postal-mor argentino.

De todos os que foram presos na Esma, apenas 150 foram soltos ainda vivos. Mais de 5 mil foram chacinados.

A minúscula proporção entre libertados com vida e executados nos autoriza igualar o regime de Videla ao de Pol Pot.

5 mil mortos apenas e tão somente num único centro de detenção. No país inteiro foram 30 mil.

……...

Por outro lado, se lá a repressão foi muito pior, em compensação os militares foram julgados e presos.

Menen reverteu os processos, a gestão de Nestor Kirchner os reabriu. O ditador-ícone, Jorge Rafael Videla, morreu na prisão, em 2013.

Próximas 2 (via ‘Google Mapas’): favela Vila 51, bairro de Vila Lugano, Zona Oeste, município de Buenos Aires. Também chamada ‘Cidade Oculta‘.

Já falamos do pós-ditadura. Primeiro vamos ver como foi a matança.

Não são apenas números, e só eles já são impressionantes. Mas fica pior. Muito pior.

Primeiro, o massacre foi centrado contra a juventude de classe média, especialmente na capital.

O regime militar tornou essa geração acéfala. Faça as contas. 30 mil foram sumariamente executados.

Na ditadura, Videla mandou murar a Vila 51, pra que ela ficasse oculta as vistas de quem passava pela avenida em frente, aí surgiu o apelido usado até hoje, décadas depois da queda do ‘muro da vergonha’.

Conte aí as muitas dezenas de milhares mais que foram torturados, exilados, ficaram viúvas (o), órfãos, etc.

Os ditadores eliminaram, ou no mínimo prejudicaram severamente, toda uma geração daquela que hoje é a classe dirigente nacional.

Daí nada mais natural a confusão multidimensional que engolfou a Argentina.

Primeiro, na Argentina houve o rapto sistemático dos bebês das presas políticas.

Próximas 3: estação de trem (de subúrbio) Rivadávia, bairro de Nunhez, onde fica a Esma, daí os murais lembrando a ditadura.

O que nunca ocorreu no Brasil, certamente não em escala industrial como aconteceu lá.

Segundo, após a Segunda Guerra mundial, a Argentina acolheu diversos oficiais da Alemanha nazista.

Com novos documentos, alguns desses alemães prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, se é que se pode colocar assim.

Por isso as torturas infligidas aos presos políticos na Esma e outros ‘Centros Clandestinos de Detenção’ espelhou as experiências nazistas nos campos de concentração:

Não visavam somente confissões, não visavam somente infligir dor num ato de sadismo.

Isso é universal, existiu na ditadura brasileira (e ainda existe em nossas delegacias hoje contra presos ‘comuns’).

Essa gravura é no mesmo local, a Estação Rivadávia em Nunhez. As argentinas adoram cachecóis. As chilenas idem.

As torturas na Argentina, como em Auschwitz antes disso, visavam também desumanizar o adversário.

Retirar dele ou dela qualquer réstia de dignidade, pra que ele preferisse a morte a continuar pelo suplício.

Mas o ‘tiro de misericórdia’ era negado, o tormento prosseguia, num ‘1984’ puro.

………..

A esquerda abaixo a Praça de Maio, Centro de Buenos Aires. Ao fundo a Casa Rosada, palácio presidencial.

Pintado no chão o lenço que é o símbolo das ‘Mães da Praça de Maio‘.

Grupo que montou a resistência mais efetiva a ditadura protestando nesse exato local.

Nem Videla teve coragem de prender e torturar senhoras idosas, que pacificamente apenas pediam pra saber onde estavam seus filhos.

E elas tinham razão de estarem preocupadas:

Na Argentina houve formas de torturas desconhecidas no Brasil, só praticadas nos regimes mais opressores da Ásia na época, que descreverei mais abaixo.

Cartaz na Praça de Maio conta a história do epicentro político da nação.

No ‘consciente coletivo’ brasileiro, o nome do chileno Augusto Pinochet é o símbolo dos ditadores sul-americanos.

A maioria dos brasileiros nunca ouviu falar de Jorge Rafael Videla, que cumpriu esse papel na Argentina. Mesmo o paraguaio Stroessner é mais conhecido aqui que Videla.

Um dos motivos é que quando a Argentina era ditadura o Brasil também, assim nossa mídia preferia não tocar não tocar muito nesse tema.

Fundos da Casa Rosada. Em 1º plano o Escudo Nacional que há na grade.

Pois a imprensa era censurada, e ademais a maior rede de TV era a relações-públicas dos militares.

Portanto era melhor não atirar pedras nos outros quando seu próprio telhado era de vidro.

A Argentina voltou ao regime civil em 83, o Brasil logo após em 85. O Paraguai, entretanto, só em 89, e o Chile em 90.

O governo de Sarney, a segunda metade dos anos 80, foi uma era bem confusa no Brasil, como quem tem mais de 30 lembra perfeitamente. E natural.

Centro de Buenos Aires.

Afinal recém reconquistámos os direitos de expressão e associação, mas o caos econômico e político foi total.

Assim, nesse período de catarse, a mídia exorcizava o período que esteve amarrada falando intensamente dos ditadores Pinochet e Stroessner.

Videla foi poupado dessa propaganda negativa, pois quando ele governava com mão de ferro seus colegas faziam o mesmo no Brasil.

E o departamento de censura militar é quem determinava as manchetes dos jornais.

Mapa das favelas na Grande Buenos Aires: a direita no município (cap. federal). Um similar já seguiu na postagem anterior. A esquerda, e esse é novidade, na região metropolitana.

que o regime argentino foi ainda mais letal que o chileno.

E muito, mas muito mais letal que o paraguaio.

Na ditadura Pinochet morreram cerca de 3 mil chilenos.

Dez vezes menos que na Argentina, sendo que a população do Chile é 2,5 vezes menor que a desse seu vizinho trans-andino.

‘Dom’ Alfredo Stroessner torturou e exilou muita gente no Paraguai, é certo.

Chegamos a uma Buenos Aires imersa em caos, março de 2017. Protestos fechavam a cidade inteira. Fui ao jogo São Lourenço x Atlético Paranaense. Na volta, já tarde da noite os protestos continuavam, aqui um deles. Em primeiro plano o validador onde você encosta o cartão de transporte pra descontar a passagem do ônibus.

Mas em termos de vítimas fatais, calcula-se em 400 o número de desaparecidos e executados por seu regime.

Com a população paraguaia 30 vezes menor que a nossa, e pouco menos da metade dos mortos, a taxa de letalidade é de 10 a 15 vezes maior que a nossa.

(Nota: anteriormente calculei erroneamente essa proporção, corrigido agora.)

Portanto a ditadura Stroessner, arredondando por alto a proporção de mortos em relação a população total, é bem mais violenta que a brasileira, mas menos que chilena, e incomparavelmente menos que a argentina.

Oras, em 2013 eu passei pelas ruínas de um supermercado que  9 anos antes pegou fogo na Zona Norte de Assunção. Ali morreram igualmente 400 pessoas.

Porque mesmo com as chamas consumindo o local os donos mandaram fechar as portas pra “impedir que as pessoas saíssem com produtos sem pagar”. Oras, num único dia, por ganância pra não ter prejuízos materiais, o dono dessa rede de mercados matou tanta gente quanto o governo Stroessner em 35 anos.

As famosas “Águas Vermelhas” da praça principal de Mendonça.

É evidente que nenhum Ser Humano deveria ser assassinado, e um dia vamos chegar lá. Mas convenhamos, outros ditadores foram bem mais sanguinários que ‘Dom’ Alfredo.

Stroessner rebatizou com seu nome o que na época era uma distante e desimportante cidade nos confins do interior, é certo.

Vamos falar do mais sanguinário de todos. O que dizer então do dominicano Rafael Trujillo?

Que afinal mudou o nome da capital (e na verdade única cidade grande da pátria) em sua própria homenagem??

A ditadura mais sangrenta da América certamente foram os 31 anos (1930-61) em que Trujillo comandou com mão-de-ferro, alias mão-de-aço, a Rep. Dominicana.

Um paradoxo: entre a classe média argentina predomina o materialismo (ateísmo). Mas o povo é bastante religioso. A Argentina, ao lado do México, é entre os países que já visitei o que mais têm essas capelinhas nas ruas. Essa é em Mendonça e traz ao lado da bandeira nacional as do Peru e Chile.

Foram eliminados 50 mil pessoas, 30 mil haitianos e 20 mil dominicanos. Trujillo matou mais de 1% da população dominicana.

Digo, em termos de matança Trujillo está ao lado (fisicamente e na questão dos números) de ‘Papa Doc’, no vizinho Haiti. Seu governo exterminou entre 30 a 60 mil pessoas, o que também dá mais de 1%.

A Argentina ficou em aproximadamente 0,1%, na primeira casa decimal, Chile e Paraguai oscilam entre 0,02 e 0,04%, enquanto que no Brasil a taxa é de 0,001%.

Os números são aproximados, apenas pra termos uma noção, e não seguem rigor estatístico. Mas são válidos pra compararmos.

IRONIA DA VIDA: VIDELA RECLAMA DE ‘MAUS-TRATOS’ NA PRISÃO –

Em compensação, de todos esses países a Argentina foi o único que a justiça funcionou, e os ditadores acabaram passando um tempo atrás das grades.

Aqui em Porto Madeiro, um novo bairro de elite a beira d’água que foi feito no Centro de Buenos Aires (na Cidade do Cabo/África do Sul um projeto idêntico está em implantação).

Na República Dominicana, a CIA estadunidense pôs e manteve Trujillo no poder. Mas quando não foi mais interessante, a CIA descartou-o, como ela sempre faz.

Assim Trujillo morreu no cargo, assassinado numa emboscada com armas fornecidas pela própria CIA.

No Brasil no fim de seu regime os militares passaram a ‘Anistia’, pra aqueles quem eles perseguiam, e também pra si mesmos.

Resultando que ninguém respondeu por violações de direitos humanos em nossa pátria.

Stroessner foi deposto em golpe militar, o mesmo instrumento que ele usara pra vestir a faixa presidencial foi usado contra pra retirar dele esse símbolo do poder presidencial.

Feitiço contra o feiticeiro. Mas quem assumiu no seu lugar achou que geraria menos problemas políticos exilar Stroessner que julgá-lo e aprisioná-lo.

Assim o ex-ditador paraguaio se mudou pro Brasil onde viveu seus últimos 17 anos numa vida bucólica em nossa capital, sem se incomodar com a justiça.

Nas favelas de B. Aires, a ‘cultura da laje’ (prédios artesanais que o próprio morador vai erguendo um andar por vez, sem qualquer tipo de alvará) está tão consolidada quanto no Sudeste do Brasil e Salvador/BA. Aqui vemos a favela Vila 21 (em Bs. As. elas são numeradas, como em Medelím/ Colômbia). Zona Sul, ainda no município da capital mas divisa com Avellaneda.

Pinochet foi acusado pelo juiz espanhol Baltazar Garzón pelos crimes que cometeu, e chegou a ficar 1 ano e meio em prisão domiciliar na Inglaterra.

Mas não houve como extraditá-lo pra ser julgado na Espanha por crimes de ‘lesa-humanidade’, como queria a acusação.

Resultando que em 2000 ele foi liberado pela justiça inglesa, e voltou ao Chile como um Homem livre.

Em dezembro de 2004, quando haviam pendentes contra ele mais de 300 acusações, foi posto em prisão domiciliar.

Assim viveu mais 2 anos. Em dezembro de 2006 desencarnou, sem ter sido preso ou condenado.

Na Argentina, entretanto, foi diferente. Após a volta do regime civil com Raul Alfonsín em 83 houve uma primeira tentativa de julgar os militares.

Mas na periferia de Buenos Aires fora das favelas, e no interior dentro e fora das favelas há poucas lajes. Agora que essa cultura começa a germinar. Flagrei essa na periferia de Córdoba.

Alfonsín revogou a auto-anistia que os ditadores se concederam no apagar das luzes de seu mandato, e houveram condenações na justiça.

Mas motins militares e a ameaça aberta de novo golpe de estado forçaram seu recuo. Seu sucessor Carlos Menen novamente anistiou os militares ditadores.

Depois de Menen veio Fernando de la Rúa, que foi obrigado a renunciar numa rebelião popular em dezembro de 2001.

Quando a Argentina re-assumiu a ordem constitucional, a partir de 2003  presidente foi Nestor Kirchner.

Nestor, e sua esposa Cristina que o sucedeu no cargo em 2007 e ficou até 2015, reverteram mais uma vez o rumo dos acontecimentos.

A infra-estrutura urbana na Argentina é precária. É muito comum vermos esgoto correndo a céu aberto. Aqui estou na Zona Sul do município de Buenos Aires.

Em novo giro de 180º, os ditadores foram levados mais uma vez a juízo. Rafael Videla cumpria prisão domiciliar, como ocorrera com Pinochet no Chile.

Mas em 2008 VIdela foi pro presídio, a princípio militar, depois civil. E seus advogados e família reclamaram de ‘maus-tratos’ e ‘negligência’.

Ironia, não? Um dos torturadores e exterminadores-mor do planeta se queixar que as condições da cadeia são muito duras.

Mas não teve jeito. Quando já estava a 4 anos e meio encarcerado, Videla sofreu mal súbito, e desencarnou em março de 2013.

Periferia de Córdoba, mesma cena.

Como dito, os ditadores argentinos foram os mais cruéis do continente, excetuando Trujillo e ‘Papa Doc’. Mas a justiça de seu país também foi implacável com eles.

“ESCOLAS DO TERROR”: A ESTRANHA FIXAÇÃO DOS TORTURADORES ARGENTINOS COM A ‘EDUCAÇÃO’ –

O maior centro de tortura argentino funcionou numa antiga escola técnica militar. Como é sabido, o ‘Dops argentino’ era na Esma, ‘Escola de Mecânica da Marinha’.

Hoje, funciona ali o Museu dos Direitos Humanos. A ex-Esma fica no bairro de Nunhez, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Pra falarmos de uma coisa leve, os refris na Argentina. Lá ainda existem 7Up (ao fundo um buso no bairro Palermo), Crush e Mirinda. Passo de los Toros é uma marca local que também fotografei no Paraguai. Voltando a Argentina, Talca é um clone local da Pepsi. A lata da Coca é ‘caçula’ (250 ml), mas a garrafa é maior (350 ml, contra 290 ou 300 aqui). Já no Chile a garrafa (de todas as marcas) é menor que no Brasil. A fábrica da Coca na Argentina exporta também pro Paraguai e Uruguai. Nosso Guaraná Antarctica faz sucesso na Argentina, mas no verso tem uma explicação que é um “fruto exótico” da Selva Amazônica. É fabricado pela Quilmes (cerveja mais popular da Argentina) e exportado também pra Bolívia e Uruguai.

A poucas quadras dali está o ‘Monumental de Nunhez’, pertencente ao River Plate, maior estádio do país e por isso a casa oficial da seleção argentina.

Do futebol já falamos em mensagem a parte, ricamente ilustrada. Aqui o tema é a política. Ou melhor, nesse caso o futebol interfere na política.

O golpe militar foi em março de 76. Mesmo antes dele, ainda no regime civil da primeira presidente Mulher da história da Humanidade (‘Isabelita Perón’), já estavam ocorrendo ‘desaparições’ políticas.

Mas depois que os militares assumiram o poder de fato (embora não de direito) a coisa piorou muito.

Se a Argentina já não estava calma de 68 a 76, a 2ª metade dos anos 70 foi um banho de sangue.

E, vejam vocês, quando do golpe já estava definido que o país sediaria a próxima Copa do Mundo.

Na final da Mundial de 78 o Monumental explodia em alegria pela vitória da seleção local.

A Argentina está mudando o emplacamento. A direita modelo antigo (ainda predominante em março.17), 3 letras e 3 dígitos. A esquerda o novo (há rumores que será implantado em todo Merco-Sul, Brasil incluído), com 2 letras, 3 dígitos e mais 2 letras.

E, bem perto dali, centenas de argentinos gritavam também, mas de dor nas câmaras de tortura.

Pra felicidade dos ditadores, a ‘alvi-celeste’ venceu sua primeira Copa jogando em casa (a segunda e última foi 8 anos depois, em 1986 com um Maradona endiabrado).

Voltemos a 78. Essa ‘Dieguito’ não jogou pois era muito jovem. Ainda assim a Argentina foi campeã, batendo a Holanda na final.

O êxtase que tomou conta da pátria abafou a questão política, tirando o foco e permitindo que as atrocidades seguissem.

Os gritos de ‘gol’ foram mais fortes que os que vinham dos porões dos Centros Clandestinos de Detenção, sendo que o principal deles estava bem ao lado.

Próximas 2: Porto Madeiro, Centro de Buenos Aires. Construído no antigo cais do porto.

O estádio do River Plate fica na verdade no vizinho Belgrano, mas é na divisa dos bairros, por isso o ‘Monumental de Nunhez’ na boca do povo.

Na capital o maior centro de detenção e tortura ficava em um de seus bairros mais chiques e caros.

Local elitizado, moram muitos artistas. Um deles fez essa escultura, ‘derreteu’ a base dos postes de luz.

Entretanto, na principal cidade do interior a cadeia ficava próxima mas já totalmente fora da cidade: bem-vindo a “Pérola de Córdoba”.

Se é que alguém pode ser bem-vindo a um lugar macabro desses. As margens da rodovia que leva a Carlos Paz ficava o presídio chamado de ‘A Pérola’.

Com a virada da maré e volta da democracia as prisões da ditadura foram renomeadas ‘Centro Clandestino de Detenção’ – CCD.

Tenha o título que tiver, na “Pérola” ficaram boa parte dos presos políticos do Norte do país.

Pros íntimos, Pérola era chamada de  “Universidade do Terror”. Curioso esse apelido, não? Fora o fato que a Esma era numa escola. 

Como se tortura e assassinatos fossem matérias educativas.

Fica pior. Notam a direita a placa da rodovia que indica a entrada pra ‘Pérola’ (imagens baixadas da rede) alguém escreveu ‘Volta Videla’.

E desenhou mas logo a seguir riscou o lenço das Mães da Pça. de Maio, que viram em foto mais pra cima na matéria.

Aeroparque, o aeroporto central de B. Aires. ‘Austral’ é a marca pra curtas distâncias da Aerolineas Argentinas.

É. Ainda tem gente saudosa dos ‘Voos da Morte’, e das ‘Escolas do Terror’ dos Anos de Chumbo.

…..

Disse acima que Nestor Kirchner e sua esposa Cristina são heróis da esquerda argentina.

Pois revogaram várias anistias que haviam sido auto-concedidas e depois re-concedidas por Menen aos militares por crimes na ditadura.

Após 3 mandatos dos Kirchner (1 dele e 2 dela), a direita voltou ao poder. E almejam o sonho de ver Cristina atrás das grades (dir.)

Não há como prender o marido porque Nestor já desencarnou em 2010. Mas se possível eles colocarão uma ‘esposa’ na esposa.

(Quem não conhece o idioma espanhol não entendeu o trocadilho. Nessa língua a palavra ‘esposa’ tem duplo significado.

Centro de Córdoba.

É sinônimo de ‘cônjuge’, como em português. Mas ‘esposa’ signifca também ‘algemas’. Estar ‘esposado’ é estar algemado.)

Alguns auxiliares de primeiro escalão dela já estão ‘esposados’. Lemos no jornal em março de 2017 que Cesar Milani, ex-comandante-geral do Exército no governo de Cristina, foi pro presídio.

E não apenas isso, ele está num presídio feminino. Em Ezeiza, na região metropolitana da capital (onde fica o aeroporto de mesmo nome).

A justificativa é no xadrez masculino ele seria morto. Como ele já está no pavilhão das Mulheres, o sonho da direita é que sua ex-chefe Cristina fique na cela ao lado.

Ir pra Argentina em muitos aspectos é como viajar ao passado. Vejam a chave do hotel que nos hospedamos em Córdoba. Sim, de metal.

…..

Na Argentina os presos políticos sofreram todas as formas de suplício aplicadas no Brasil (pau-de-arara, afogamento, choque elétrico). Mas muito pior que isso.

Lá houveram técnicas de tortura que não foram usadas aqui:

Os infelizes detidos em alguns pavilhões na macabra Esma eram conhecidos como ‘Os Encapuzados’.

E eis a portaria do prédio que ficamos no Centro de Buenos Aires. Na Argentina todos os interfones são desse modelo, como era o Brasil 20 anos atrás. Tem que ter uma tecla pra cada apê, se forem dois blocos o aparelho é o dobro desse. Não existe ainda interfone com teclado, em que você simplesmente digita o nº do apartamento.

O nome se deve a que eles ficavam o dia todo acorrentados na posição fetal, com grilhões nas mãos e pés, e com toucas ou vendas cobrindo-lhes os olhos.

É isso. não podiam ver nada, e nem sequer se mexerem. Reveja a segunda foto da matéria, no alto da página, que ficara claro.

Os presos ficavam em baias individuais, pra não conversarem entre si.

Eles eram libertados uns poucos minutos por dia, apenas pra ir ao banheiro, onde eram acompanhados por seus captores.

As Mulheres precisavam sentar ao vaso e banhar-se sob as vistas de seus torturadores do sexo oposto.

Afora esses poucos minutos de ‘liberdade vigiada’, vários dos Homens e Mulheres detidos na Esma passavam o dia inteiro acorrentados e encapuzados.

A ‘liberdade’ é relativa, eles apenas podiam andar um pouco por dentro da prisão, e vigiados por soldados fortemente armados.

Mas pelo menos nessa hora podiam ver e movimentar seu corpo, era o melhor momento do dia.

Centro de Córdoba: bandeiras nacional e estadual nesse belo fim-de-tarde.

Eu disse que os militares argentinos usaram padrões de crueldade asiáticos, desconhecidos na América

Na Ásia (já veremos exemplos) é corrente esse prática de manter os detentos imobilizados por longo período.

Nada nem remotamente parecido jamais existiu no Brasil. Voltemos a descrever os tormentos dos ‘encapuzados’ na Esma:

Eles permaneciam vendados mesmo na hora das refeições. Ali o marinheiro soltava brevemente os braços – mas não tirava o capuz do prisioneiro.

Ele ou ela só sabia qual era o cardápio quando punha o alimento na boca. Isso era uma tortura em si mesmo, a desumanização extrema do inimigo.

Mafalda também passa na TV, não é só quadrinhos. Um ícone na capital argentina.

Pois assim o cativo estava completamente batido.

Não tinha sequer o direito de saber o que comia, exceto quando a gororoba já descia pela goela.

Se isso te parece uma forma de punição aplicada num campo de concentração nazista, é porque é exatamente isso:

A Argentina (e também em menor escala a Bolívia e o Paraguai) recebeu centenas de oficiais e soldados da tropa da SS, fugidos da Alemanha pra escapar do Julgamento de Nuremberg.

Mais 2 da favela Vila 31, a mais famosa de Buenos Aires, bem no Centrão.

Vários desses alemães, com documentos falsos, prestaram ‘consultoria’ aos militares argentinos, como também ocorreu nos EUA.

De volta a Argentina, basta lembrar que Adolf Eichmann vivia em Buenos Aires e trabalhava na fábrica da Ford.

Desse subúrbio da capital argentina ele foi sequestrado pelo Mossad pra ser julgado em Israel.

Josef Mengele também viveu na clandestinidade na Argentina no pós-guerra.

A Vila 31 fica atrás dos terminais de trem (de subúrbio e longa distância), de ônibus (igualmente, os urbanos e rodoviários), do porto e a 500 metros do aeroporto. A calçada está tomada de camelôs, muitos deles africanos.

Enfim, de volta a Esma. Nem todos os presos eram ‘encapuzados’. Alguns mais afortunados eram obrigados a trabalhar pros militares.

Tinham que falsificar documentos (passaportes, etc) que eram usados em novas capturas de militantes.

Ou então escrever matérias pra imprensa dizendo que os exatos abusos que eles estavam sofrendo na verdade “não ocorriam, era ‘intriga da oposição’ “.

Ironia, não? Presos políticos eram obrigados a escrever que não havia presos políticos em território argentino.

Numa espécie de tortura psicológica, eram obrigados a negar sua própria existência. Bom, era melhor que ficar sem visão e acorrentado ao solo. Qualquer coisa era melhor.

……….

Na Argentina cada estado (lá chamado ‘província’) tem uma ‘embaixada no Centro da Capital Federal. Essa é a ‘embaixada’ do estado das Missões, onde há muitas casas de madeira – como no Brasil mas ao contrário das grandes metrópoles argentinas.

Alias o único fugitivo da Esma era exatamente um desses presos que trabalhavam.

Horácio Maggio, apelidado ‘Nariz’, foi sequestrado pela Marinha Argentina em 1977.

Passou um ano e um mês na Esma. Inteligente, foi cordato com seus captores, pra ganhar a confiança deles.

Assim ele era um dos que trabalhavam. Mais que isso, de vez em quando ele ou outros presos faziam serviços externos.

Sempre acompanhados por um marinheiro armado, claro. Numa dessas saídas, Horácio ‘Nariz’ se tornou a única pessoa a fugir da Esma.

As versões variam, e ele não viveu muito tempo pra contar sua história.

Córdoba: pessoas sem proteção na caçamba, cena digna da África e das partes mais pobres da América Latina.

Segundo uma das versões, ele entrou numa loja pra comprar material de escritório.

O guarda ficou na porta, pois pensou que era suficiente, não haveria como o prisioneiro escapar pois teria que passar por ali fatalmente.

O que o guarda não sabia é que a papelaria tinha outra saída do lado oposto, pra rua dos fundos.

Horácio teria se evadido por ali, se tornando então um dos Homens mais procurados da Argentina.

Tropas de elite da Marinha e outros setores das forças de segurança faziam uma caçada humana frenética recapturá-lo.

Cosquín, interior de Córdoba: família na moto, todos sem nenhum tipo de proteção.

Horácio Maggio não deixou por menos. Ao invés de sair do país, preservando assim sua vida, optou por continuar lutando contra a ditadura:

Pôs-se a escrever cartas e telefonar pra imprensa e ONG’s estrangeiras (pois as nacionais eram censuradas).

Pra denunciar a repressão argentina, que oficialmente não existia.

Nos noticiários de TV e jornais, os militares apenas combatiam dentro da lei os guerrilheiros ‘pra evitar a revolução comunista’.

Calçadão no Centro de Mendonça.

Mas os relatos de Horácio, em primeira pessoa, geraram uma repercussão negativa ao governo, afora o fato que ele já havia dado um drible nos seus carcereiros ao fugir.

‘Nariz’ resolveu mesmo ser a ‘pedra no sapato’ da Esma. De orelhões ele ligava pro centro de torturas e discutia com os marinheiros.

Dizendo que breve eles seriam julgados ‘como os nazistas foram em Nuremberg’.

Centro de Córdoba: semáforo em que o pedestre (na verdade a pedestre) é uma Mulher de vestido e cabelos compridos.

Aí se tornou questão de honra ser capturado ‘vivo ou morto’.

O regime não poupou esforços pra localizá-lo. Em outubro de 1978, sete meses depois de sua fuga, a saga de Horácio ‘Nariz’ Maggio chegou ao fim:

Um pelotão do Exército o encontrou, e cercou-o na rua. Em desespero ele pulou o muro pra uma obra.

Dali, atirava tijolos nos soldados, na tentativa de ter mais alguns minutos de vida.

A resposta veio com muitas saraivadas de metralhadoras.

Horácio tombou sem vida. Terminara a epopeia do único foragido da temida Esma.

Seu cadáver crivado de projéteis foi caravaneado pelas celas do centro de torturas.

“Macri Gato”, o mantra oni-presente da Argentina. Maurício Macri é um ‘neo-liberal’, e suas políticas concentram renda, é fato. Mas foi eleito democraticamente, e hoje não há censura, presos políticos nem ‘desaparecidos’ na Argentina. Ainda assim, a esquerda iniciou uma insurreição civil pra derrubá-lo.

……….

O número de 30 mil desaparecidos e executados pelo regime é repetido o tempo inteiro por vários movimentos sociais na Argentina.

Como até os cartazes nas ruas deixam claro. Mas, é óbvio, não deixa de ser controverso. Os setores da direita insistem que foram “apenas” 9 mil mortos.

Eu estive na Argentina em março de 2017, quando o país enfrentava uma insurreição (civil) que visa derrubar o presidente (eleito democraticamente) Maurício Macri.

O país estava em caos, como descrevi com muitas fotos na mensagem de abertura da série.

A nação está em turbilhão, a um passo de decretação do estado de emergência, veja a manchete do jornal.

A situação persiste uns meses depois, quando produzo e levanto esse texto (julho.17). Por hora voltemos a março:

Passeatas exigiam o reconhecimento consciencial do ‘Genocídio Argentino’, com a oficialização da cifra dos 30 mil cadáveres.

Questionado sobre o tema, Macri declarou: “não sei se foram 9 ou 30 mil, mas é fato que morreu muita gente”.

“Vamos virar a mesa”, eis o lema dos insurgentes. Veja, em março somando passeatas e greves gerais foram 21 protestos, quase um por dia.

Ele é político, então obviamente ficou em cima do muro, não definiu publicamente qual dos dois números ele crê ser verdade.

Maurício Macri pretende agradar a todos, ou no mínimo não desagradar nenhuma corrente, como é habitual entre as pessoas que dependem de votos pra terem emprego.

O que quero apontar aqui é que essa declaração, de um presidente no exercício do cargo, sintetiza o quão sangrenta foi a ditadura argentina.

Disparada a mais letal da América do Sul, como apontado bem acima da chilena, brasileira e paraguaia.

Uma vez que é evidente que mesmo o número otimista de 9 mil já seria 3 vezes pior que Pinochet no absoluto.

E olhe que Pinochet não matou pouca gente.

Vamos pra uma panorâmica. Tenha em mente que eu não fotografei todos os cartazes. Mesmo assim a coisa é assombrosa. Não perca a conta: 6 e 7/3.

O oposto sendo verdadeiro. Sua ‘Dina’ (‘Dep. de Inteligência Nacional’, a temida polícia política da repressão chilena) não era famosa por economizar munição.

Muitas vezes eles exterminavam famílias inteiras, como ocorreu no célebre caso da ‘Rinconada de Maipú, na Zona Oeste de Santiago.

E mesmo assim a Argentina matou 10 vezes mais gente no absoluto, e proporcionalmente de 3 a 4 vezes mais, se aceitarmos a cifra de 30 mil.

Que eu acredito ser verdadeira, afinal apenas e somente na Esma foram mais de 5 mortos.

7/3.

…….

Não foram apenas os assassinatos em maior número, na Argentina, repito, ocorrerem barbaridades que não se repetiram em outras partes, certamente não no Brasil.

Já falamos das formas de torturas trazidas de Auschwitz, de impedir a pessoas de ver, falar e se mexer em tempo integral.

Outro ponto doloroso, que igualmente não existiu em nossa pátria, foi o sequestro deliberado de centenas de bebês das presas pelos generais torturadores.

Muito mais de uma centena de milhares de pessoas passaram pelos cárceres políticos argentinos nesse período.

14/3.

Embora a imensa maioria fosse de Homens, muito mais de uma dezena de milhares de Mulheres argentinas sofreram o mesmo martírio, ou na verdade um martírio ainda maior.

Me refiro ao fato óbvio que boa parte delas senão quase todas as presas políticas foram estupradas por seus captores.

Isso ocorreu também no Brasil, não tapo sol com a peneira. Mas hoje nosso tema é a Argentina, então bora de volta pra lá, pois fica ainda pior.

Algumas centenas de argentinas estiveram atrás das grades quando grávidas. A maioria delas já estava ‘de barriga’ quando capturadas.

20, 21 e 22/3. Colado em cima de um cartaz que chamava pra manifestação em 24/3 (o que abre a reportagem, no topo da página).

Mas algumas tiveram a infelicidade de gerar um filho de seus torturadores/estupradores. Isso, repito, foi igual no Brasil. A diferença vem quando o bebê veio ao mundo.

Caso o recém-nascido fosse branquinho e saudável, no país vizinho muitos generais roubaram essas crianças e as registraram em seu nome.

A seguir rapidamente assassinaram a presa, pra que ela não delatasse o rapto. Foram centenas desses casos. E esse sequestro coletivo não encontra paralelo no Brasil.

21 e 22/3.

Muitos oficiais das forças armadas argentinas não tinham filhos, por eles mesmos ou suas esposas serem estéreis.

Lembre-se, nos anos 70 a medicina nem de longe tinha o poder que possui hoje pra modificar essa condição.

Então ocorreram muitos sequestros de bebês, após o parto a mãe era sumariamente eliminada (muitas vezes atiradas no mar num ‘voo da morte’).

21 a 22 ou 23/3, ficou pequeno e não dá pra ler com toda certeza.

E generais e almirantes registravam esses filhos como se fossem legítimos deles. Por isso ONG’s hoje auxiliam as pessoas que no papel são filhas de militares.

Mas que no fundo de sua Alma têm uma ‘pulga atrás da orelha’, uma dúvida se aqueles são mesmos seus pais ou se elas nasceram em cárcere de outras mães raptadas.

Em Córdoba vi um mural na rua: “Se você nasceu entre 1975 e 1984 e tem dúvidas quanto sua origem, procure-nos”.

Assinado pelas “Avós da Praça de Maio“, organização-espelho das famosas “Mães da Praça de Maio”.

Apenas as “Avós” obviamente é formada por Mulheres mais velhas, que tiveram seus netos sequestrados, ao invés de seus filhos.

Mas peraí!!! Como assim, “1975”? “Se a ditadura militar se iniciou em 29 de março de 1976”???, alguém perguntaria com toda razão. Porém infelizmente é verdade.

24/3.

A violência na Argentina foi tão áspera que os desaparecimentos e execuções políticas por agentes do estado começaram 2 anos antes do golpe militar, ainda em 1974.

Isso estou falando de sequestros e execuções perpetrados pelas forças armadas oficiais. Pois desde 1968 a Argentina vivia uma conflito armado.

De um lado, forças da extrema direita (o grupo “Aliança Anti-comunista Argentinta”, o “Triplo A”, equivalente ao “Triplo C” brasileiro, o ‘Comando de Caça aos Comunistas’.

Do outro, a extrema esquerda, representada no início somente pelos ‘Montoneros‘, mais tarde surgiu a guerrilha “Exército Popular Revolucionário” – ERP.

Sem data.

Ambos os lados praticavam atrocidades, com sequestros e execuções sumárias.

De 1968 até antes do golpe, em março de 1976, estima-se que 1,3 mil argentinos tenham sido mortos pelos dois lados.

Em 1974 desencarnou João Perón, figura-ícone argentina. Morreu ocupando a faixa presidencial. Sua vice era a esposa, Isabel Perón.

Com a morte do marido, ela assumiu o cargo, sendo assim a primeira Mulher presidente do todo o planeta Terra, repetindo.

Com a morte do Homem-forte Perón, os grupos armados aumentaram o escopo de suas ações violentas. Isso tanto a esquerda quanto a direita.

Porém a eminência-parda de Isabelita Perón era José Lopes Rega, líder do “Triplo A”, a ‘Aliança Anti-comunista’.

Rapaz desaparecido. Teria sido sequestrado e/ou executado por algum grupo armado? Não sei te dizer, apenas registrei o protesto.

Apenas entre 73 e 74 o ‘Triplo A’ é suspeito de cometer 300 assassinatos.

Mas seu líder é quem dá muitas das ordens no governo de Isabel.

Assim ela, já em setembro de 1974, assina a ‘Lei Anti-Terrorismo’, que dá carta branca aos militares pra eliminar as guerrilhas de esquerda.

Em novembro desse ano as guerrilhas assassinam o chefe de polícia de Buenos Aires, assim Isabel decreta estado de sítio.

Que suspende o ‘habeas-corpus’ entre outras medidas drásticas de igual calibre.

Em fevereiro de 75 o estado parte pra ofensiva total, denominada ‘Operação Independência’.

Protesto sem data. Cartaz colado sobre o do garoto desaparecido.

Os vizinhos Chile e Brasil estão no auge da violência política, esses sob ditadura. A Argentina ainda não passou pelo golpe militar.

Ainda assim o regime civil de Isabel Perón pra ir aquecendo as máquinas já autoriza o exército a ‘desaparecer’ com os militantes que incomodam.

Mas essa ‘liberdade’ ainda era pouca pros que eram da ‘linha-dura.’ Em março de 76, como todos sabem, eles afastam a presidente Isabel Perón do poder.

Pra poderem agir como quiserem, sem freios de qualquer tipo. Portanto evidente que o golpe amplifica e muito o processo. Mas não é a gênese dele.

Repetindo, por 1 ano e 1 mês (fev.75-mar.76), ainda sob regime civil constitucional, centenas de pessoas já havia ‘desaparecido’ nas mãos do estado.

Mendonça, 21/03/17: fotografei um dos protestos, o dos funcionários públicos municipais (no Chile, que é pertinho, eu cliquei uma greve aeroportuária).

Claro, em 7 anos de regime os militares executaram mais 30 mil, então piorou e muito. Mas a prática de sumir gente é anterior a seu governo. Tá bom pra ti ou quer mais?

UMA PÁTRIA DIVIDIDA, UNANIMIDADES SÓ A SELEÇÃO E AS MALVINAS –

A coisa foi feia. Assim, os militares e a direita em geral precisam  tirar o foco da matança na ‘Guerra Suja’ interna.

Por isso, os militares argentinos gostam muito de lembrar a guerra externa contra a Inglaterra pela posse das ilhas.

Pichação em Córdoba protesta contra arrocho econômico. ‘Despidos’ significa ‘despedidos‘, e não ‘pelados, como muitos pensariam.

Que as Malvinas deveriam pertencer a Argentina é um dos pouquíssimos temas de consenso nesse conflitado país.

Pois de resto ele está aguerridamente dividido entre esquerda e direita em quase todos os assuntos.

Mas se o desejo que as Malvinas pertencessem a nação é consenso na Argentina, a Guerra das Malvinas não é.

Zona Sul da capital: ‘Buitre’ é ‘abutre’, ‘urubu’. “Nem mais um dia com Macri, ou seremos colônia dos abutres, seremos devorados por eles”, é o que quer dizer.

Muitos a viram como uma estupidez, um excesso de orgulho da Marinha Argentina. Sim, eles rapidamente venceram a o conflito interno. Não foi tão difícil, né?

A oposição militante era formada por civis, uns poucos estavam levemente armados nas guerrilhas dos Montoneros e ERP. Mas a imensa maioria sequer portava armas.

Após torturar selvagemente Homens e mesmo Mulheres civis, sem armas (com poucas exceções), e executar dezenas de milhares deles, o comando militar se entusiasmou.

Jornais na banca retratam a confusão do país. Os dois de cima são de esquerda, incluso o Página 12 é um clássico da imprensa mundial, um jornal da grande mídia mas de tendência esquerdista. Era curioso parar na banca e ler a cobertura da confusão política que engolfou a Argentina nos 3 maiores jornais da capital: o ‘Clarín’ e o ‘La Nación’ iam por um lado, o ‘Página 12’ sempre divergia, fazia o contra-ponto. O de baixo, Diário Popular, é mídia tradicional, mas um periódico menor, de circulação mais restrita ao subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires.

E levou uma surra da Real Marinha Britânica, os combates não duraram 2 meses e meio.

Bem, se a vitória na Copa de 78, inédita e logo em casa, deu um gás pra ditadura na sua gênese, a desastrada derrota fulminante  nas Malvinas foi seu ocaso:

A guerra foi em 82, já no ano seguinte os militares se viram obrigados a abandonar a Casa Rosada e retornar aos quartéis.

Alguns veem a pancada levada dos ingleses – com a dor psicológica e muito mais física dos marinheiros, pois guerra é sempre guerra – como uma ‘auto-expiação’ de culpa da Marinha.

Uma busca tardia pela redenção na Consciência Coletiva Argentina. De certa forma funciona, dá algum alento.

Já que embora muitos discordem da decisão de atacar a Inglaterra militarmente, quase todos entendem a que a Inglaterra usurpa o que não lhe pertence – visão que compartilho.

Manifestantes acampados na Pç. de Maio. São veteranos da Guerra das Malvinas.

Só a seleção de futebol e esse arquipélago é que são unanimidade na Argentina.

São os únicos 2 assuntos que você pode puxar numa roda de desconhecidos sem que a conversa descambe pra ofensas.

Repetindo, a nação está agudamente partida, esquerda e direita nutrem mutuamente um ódio recíproco que não se ameniza, só aumenta.

Proibido esquecer as Ilhas Malvinas. Não são negociáveis”, diz cartaz no Centro de Córdoba.

Exemplifico pelo o desejo de encarcerar Cristina Kirchner, o que é absurdo. Mas não pense que a esquerda é menos intransigente, porque é tão egocêntrica quanto.

Daí os cartazes e pichações por Buenos Aires que dizem “Reconciliação e perdão jamais”. Tudo bem, os ditadores torturaram e mataram muita gente.

Mas a esquerda quer derrubar um presidente eleito democraticamente, que não decretou estado de sítio ou exceção, e que não desapareceu com ninguém.

Concordo que as política neo-liberais de Macri aumentam a exclusão social, porém a esquerda fala abertamente em ‘virar a mesa’. Isso também não é golpe?

Eu não tomo partido, não sou nem de esquerda nem de direita, eu não voto (isto é, anulo, digito ‘zero-zero e confirma’). Apenas relato o conflito, sem ser parte dele.

Monumento as Malvinas em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano da capital que mostrarei mais abaixo. Tanto a escultura quanto o prédio em construção atrás pertencem a um quartel da Marinha, que abriga também uma escola técnica (como era o caso da Esma, como agora a Esma é um museu as classes foram transferidas pra outras sedes da ‘Armada’).

Agora, o que vi na Argentina é: os ânimos estão muito exaltados, dos dois lados. Todo mundo quer impor o que pensa.

Seja sobre Macri, ditadura, religião, aborto, qualquer assunto, direita e esquerda não aceitam divergências, e querem eliminar quem pensa diferente. 

O Brasil é um país que o povo é bastante despolitizado, e isso de certa forma é bom. Sim, agora aqui os ânimos também estão bastante exaltados, não nego.

Mas muito menos que na Argentina e Chile, sem comparação possível. Na nossa pátria, as diferenças de visão política acabam em discussão. Na Argentina e Chile, acabam em atos de violência.

Temos nossas divergências políticas, mas isso não paralisa o país. Digo, a violência urbana aqui é elevadíssima, muito mais que na Argentina e Chile, não nego. E o Rio de Janeiro está realmente em situação muitíssimo complicada há 2 décadas, que persiste em 2017.

Mas, Rio de Janeiro a parte, nosso país convive com altos índices de chacinas (nas periferias) e assaltos (em toda parte) sim, mas com guerrilhas e insurreições políticas definitivamente não.

Periferia de Buenos Aires (município de Avellaneda, Zona Sul metropolitana).

Na Argentina a esquerda quer reverter a eleição a força, inclusive com apedrejamentos, numa tensão que lembra a África do Sul do ‘Apartheid’. Mas não há qualquer ‘apartheid‘ na Argentina.

E o Chile ainda tem uma guerrilha ativa, anarquista, que além de com frequência promover incêndios e saques, em 2014 bombardeou o metrô de Santiago.

……

Muita politização sem compaixão leva a intolerância, que leva a ofensas a quem pensa distintamente. Isso estamos vivenciando no Brasil. Porém a Argentina e Chile estão um passo adiante, ou melhor atrás. Lá a intolerância leva a violência política. Daí você entende a ferocidade das ditaduras Pinochet e Videla, que brotaram nesse exato campo.

Mas, voltando o foco somente a Argentina de novo, não são só os números, repetindo. É uma questão conceitual.

O metrô de Buenos Aires é o mais antigo da América Latina, de todo Hemisfério Sul, e de toda língua espanhola. Veio só 9 anos depois do de Nova Iorque/EUA, e 6 anos antes do de Madri/Espanha.

O regime ditatorial brasileiro queria apenas se manter no poder. Ou seja, precisava apenas conter a oposição, mas não almejava eliminá-la.

O regime argentino, muito diferentemente, pretendia eliminar fisicamente qualquer um que contestasse sua legitimidade.

Como Pol Pot fazia ao mesmo tempo na Ásia e Hitler fizera antes na Europa.

Por exemplo, na 2ª Grande Guerra um comandante do Exército Alemão foi morto num ataque-surpresa na pequena cidade de Lídice, na atual República Checa.

Manifestações típicas argentinas: o plátano (árvore do frio que já cliquei também no Chile e na África do Sul) e a frota muito velha. Foto em Cosquín, interior de Córdoba.

A SS então foi ao local com grande regimento e matou todos os Homens adultos, e encarcerou todas as Mulheres em campos de concentração, fora as que também foram executadas.

Hitler a seguir dinamitou todas as casas da cidadezinha, limpou o local e plantou árvores. E mandou que o nome ‘Lídice’ fosse eliminado de todos os mapas.

Ou seja, por ter perdido ali um de seus oficiais o regime nazista pretendeu fazer com que a cidade não apenas deixasse de existir – isso ele conseguiu.

Mas ele pretendia também fazer com que nunca tivesse existido, por isso acabou com todas as casas e limpou o terreno de entulhos.

Literalmente Hitler riscou Lídice do mapa. Era proibido até a pronúncia desse nome. Ele quis mudar inclusive o passado.

Falemos num detalhe da linguística: no espanhol pratense (falado na Argentina e seus vizinhos Paraguai e Uruguai) usa-se a palavra vós como 2ª pessoa do singular, ou seja, como sinônimo de ‘você’ (sem o ‘s’) ou ‘tu’. Leia anúncio no Centro de Mendonça: “junto a vós“, “de tu vida”. Repito, ‘vós’ significa ‘tu’, por isso ‘tua vida’ e não ‘vossas vidas’.

Pra resistir, os casais nomearam ‘Lídice’ as meninas que nasceram logo a seguir a esse triste episódio.

Há centenas de Mulheres checas de 70 e poucos anos com esse nome, e a causa é essa:

Se Hitler acabou com uma cidade e pretendeu eliminar mesmo a palavra, a República Checa não permite registrando suas filhas assim.

Na Rodoviária de Córdoba, outro exemplo. “Vós te vás”. Sujeito (aparentemente) no plural, mas pela preposição vemos que é singular.

Pouco depois, na Ásia, outro ditador, Pol Pot, tentou o mesmo, fazer com que a oposição a ele nunca tivesse existido.

Os ‘Campos da Morte’ cambojanos, os temidos centros de concentração do Khmer Vermelho, não intentavam manter as pessoas detidas ali indefinidamente. Não.

Os presídios políticos do Camboja visavam reter ali as pessoas apenas o tempo necessário pra providenciar sua execução e desaparecimento em massa.

Os prisioneiros eram levados de caminhão pro interior, e ali eliminados primeiro a tiros.

Outra noturna do Centro de Buenos Aires.

Depois passaram a matar muita gente e começou a faltar balas (não é modo de falar, é literal), então decidiram usar machadadas e golpes de facão.

O mais famoso dos centros de detenção do Camboja funcionou numa antiga escola de 1º e 2º graus na capital Phon Phen. Hoje o local é o Museu do Holocausto Cambojano.

Bom, Pol Pot era professor antes de se tornar revolucionário.

Voltando a Argentina, seu mais famoso campo de concentração (a Esma) também era numa escola, e hoje também é museu.

Ainda no Centro de B. Aires, o ‘Imperialismo Verde-&-Amarelo‘: o Itaú (e a Petrobrás) estão engolfando a América do Sul, já cliquei o banco também no Paraguai e Chile.

A prisão ‘Pérola’ era chamada ‘Universidade’.

No Camboja, um professor se tornou genocida. Na Argentina, os genocidas se criam professores…..

……….

Hitler e Pol Pot almejaram fazer desaparecer toda e qualquer pessoas que lhes contestasse.

Entre muitos outros que vibravam na mesma frequência, claro.

Mao na China, Stalin na URSS, Franco na Espanha, os exemplos são múltiplos, não ficam tão atrás.

Então. Em menor escala, Videla também nutria semelhante anseio.

Zona Sul de Buenos Aires: periferia típica argentina, casas de alvenaria com porta direto pra rua. No Chile e no Nordeste Brasileiro é assim também.

Claro que não com tanta ferocidade pois isso não lhes era possível.

Mas a junta ditatorial argentina pretendeu se não eliminar de forma plena todos os que lhe contra-disseram, ao menos desumanizar (não é modo de dizer) aqueles que eles capturassem.

A intenção das torturas sofridas na Esma, na ‘Pérola’ e nos outros centros clandestinos era fazer com que o militante se arrependesse.

E não apenas de ter resistido a ditadura, mas que chegasse ao ponto em que ele ou ela se arrependesse mesmo de ter nascido.

……..

Os ditadores brasileiros empregavam força bruta contra seus oponentes, é óbvio.

Em Mendonça, de novo as portas na calçada. Mas com um detalhe extra, os canais pra escoar água que desce dos Andes. Isso só há em Mendonça e alguns bairros de Santiago do Chile.

Nossa ditadura torturou e matou sem piedade muita gente.

Mas ela empregava a força apenas que achava necessária pra não ser derrubada.

Não pretendia, digo de novo, eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

Tanto que vários presos políticos foram julgados pelo tribunal militar.

Evidente que sendo o juiz e o promotor militares, a condenação era quase sempre certa. Mas em alguns poucos casos houve absolvições.

E o mais importante, a ditadura brasileira quis manter essa réstia de legalidade. O que trouxe uma vantagem:

Após ser julgado num tribunal militar, o preso político ficava detido injustamente, e era torturado, é certo.

Mas ele não podia mais ser executado sumariamente, uma vez que havia a ficha dele nos arquivos da justiça militar.

Próximas 2: Vicente Lopes. A estação Rivadávia vista acima fica ainda no município de Buenos Aires (‘capital federal’). Mas cruzando o viaduto muda-se de município e de estado, entramos em Vic. Lopes, subúrbio metropolitano abastado. Natural, pois também é Zona Norte, a parte rica da cidade. Aqui vemos ao pôr-do-Sol a av. principal de Vic. Lopes, a esquerda uma rua mais calma numa tomada já noturna.

Assim se ele simplesmente desaparecesse, juridicamente os próprios militares se acusariam por genocídio.

Esse detalhe, se não evitou prisões arbitrárias e torturas, certamente impediu execuções em massa. É importante dimensionarmos isso claramente.

Pois na Argentina não funcionou dessa forma. Lá não houveram esses mecanismos ‘legalistas’. A ditadura argentina não usou simplesmente a força necessária pra frear a oposição.

Lá, ao contrário daqui, os ditadores almejavam eliminar fisicamente toda e qualquer oposição.

O regime argentino se assemelha mais ao de Pol Pot, no distante Camboja, que ao de Médici no Brasil que está a seu lado.

Assim embora curioso é natural que o seu ‘QG do Terror’ tenha funcionado numa escola. Hoje o local é um museu.

Isso é mais um ponto que une os regimes do Camboja e da Argentina.

O ‘QG do Terror’ argentino também era numa escola (mostrada acima da manchete), embora nesse caso uma escola militar.

Indo diametralmente pro outro lado da metrópole: também num fim-de-tarde, o Centro de Avellaneda (sede do Racing e do Independente); igualmente região metropolitana, mas agora Zona Sul.

A Esma (Escola de Mecânica da Marinha) era equivalente ao ‘Dops’ argentino, como já dito e é de domínio público.

Quero apontar o seguinte. No Brasil, os presos políticos ficavam detidos injustamente e eram torturados, sim.

Mas executados em massa não. No Camboja, e também na Argentina, a intenção era mais macabra.

Pretendia-se, se possível, aniquilar fisicamente todo e qualquer opositor.

Assim os presos ficavam nos respectivos ‘QG’s do Terror’ apenas o tempo necessário pra se arranjarem os procedimentos necessários pra sua execução.

Córdoba. Na traseira de um ônibus urbano vemos 2 detalhes: 1º, a inscrição “As Malvinas são argentinas“, pra ver a popularidade do mantra; 2º, esse buso é municipal (da capital estadual), só tem 1 placa. Já entenderá porque digo isso.

Pouca gente escapou com vida das ‘Escolas do Terror’ do Camboja.

Na Esma, literalmente a ‘Escola do Terror’ argentina, o mesmo se repetiu.

Enfatizando de novo, somente 150 presos foram libertados vivos.

Provavelmente eram o que estavam ali quando a ditadura acabou, não houve tempo de matá-los. 

Mais de 5 mil foram chacinados apenas na Esma.

Só os mortos nesse local já configuraria a ditadura argentina 5 vezes pior que a brasileira em números absolutos, 20 vezes em termos proporcionais.

Como já explicado a Esma só teve uma única fuga em todo tempo que operou, e o fugitivo foi morto poucos meses depois.

Também Córdoba, e também um buso urbano. Mas tem 2 chapas. E por que? No estado (‘província’) de Córdoba, todos os veículos comerciais (os que aqui no Brasil teriam placa vermelha) necessitam ostentar uma segunda chapa com o registro estadual. Os ônibus municipais estão dispensados, mas os inter-municipais (tanto metropolitanos, esse caso, quanto de viagem) têm que ter.

Seu cadáver foi exibido como troféu pelos militares num cortejo macabro pelas dependências do centro de tortura.

Por que não houve mais fugas na Esma? Era impossível fugir. De segurança além da máxima pois o epi-centro mesmo da repressão. Além de trancafiados em celas vários prisioneiros ficavam acorrentados nas mãos e pés.

Um conceito oriental. Na China e boa parte da Ásia (Japão, Coreia e povos Malaios) a visão é bem mais dura contra os presos.

No Oriente se diz que o objetivo das cadeias não é apenas prender o corpo, mas também a Alma dos prisioneiros.

Os asiáticos entendem que os presídios ocidentais são muito suaves.

Táxi em Córdoba. Com as duas chapas.

Por deixarem o preso privado da liberdade física, mas permitindo a conversa, raciocínio, associação e ócio dos presos.

Não é segredo pra ninguém que as cadeias da China e Coreia do Norte são campos de trabalho forçados.

Em que os detentos trabalham 14 horas por dia ou mais, 365 dias por ano e 366 nos bi-sextos.

Essa é a pintura padronizada estadual do transporte escolar em Córdoba. Com as 2 placas dos veículos comerciais (no Chile, Colômbia e Peru não há a 2ª chapa, mas eles precisam pintar a principal na lateral).

E sem poderem conversar entre si, sem sequer ser permitido desviar o olhar.

Fato menos conhecido é que no rico e civilizado Japão não é tão diferente:

Os presídios também empregam legalmente instrumentos de correção que em quase todos os países do mundo seriam considerados tortura.

Por exemplo, no Japão um preso que comete uma infração disciplinar grave é atado a uma cadeira por 3 dias, até seu pescoço, punhos e tornozelos são  imobilizados.

Nos outros estados não há 2ª chapa. Essa é a padronização dos escolares em Buenos Aires (local dessa tomada) e Mendonça. Eu disse ‘vermelho’, o taxista me corrigiu pra ‘laranja’. Seja como for, é a 1ª vez que vejo um ‘Escolar’ que não é amarelo, tom que ostentam no Brasil, EUA, Chile, entre outros.

A alimentação é por soro intravenoso, e outros tubos dão conta das necessidades fisiológicas.

Em nações ocidentais, se recorre a ‘solitária’ nesses casos.

O cara fica isolado numa cela escura sem falar com ninguém, mas sem estar impedido de movimentar seu corpo.

Pois bem. No Japão, como visto, o conceito é mais amplo:

O preso fica atado completamente imobilizado, literalmente os únicos músculos que ele consegue mexer são os olhos, a boca e os dedos e nada mais.

E isso não é um castigo infligido no porão ilegalmente por um carcereiro particularmente cruel, mas sim um recurso legal aplicado a luz do dia por todos os agentes da lei.

Boliche em Córdoba. Esse esporte é muito mais popular na Argentina que no Brasil. Inclusive ‘ir ao boliche’ na periferia das grandes cidades desse vizinho país significa ‘ir pra balada’, pois nas mesmas casas noturnas que oferecem pistas de boliche também há outras opções de lazer: sinuca, caraoquê, música ao vivo, pista de dança, barzinho. Vi na Argentina um garoto brincando de boliche sozinho na calçada, em plena via pública. Ele arrumava os pinos e a seguir arremessava uma bola de tênis neles, pelo ar mesmo e não ao nível do chão. Suficiente pra provar a popularidade da modalidade. Na República Dominicana vi meninos fazendo uma pelada de beisebol, e agora isso.

Citei essa punição exemplar, que é certo é usada somente em casos extremos mas ainda assim é a lei da terra.

Pra mostrar que o oriental vê a correção dos presos de forma completamente diferente do ocidental.

Na Ásia, o conceito é tirar a liberdade não só física como mental.

Não basta estar trancado entre muros, mas existe ‘a prisão dentro da prisão’, o detido não pode sequer movimentar seu corpo a vontade, incluindo a fala e a visão.

 …….

Entendendo isso, vê-se o porque escolhi nomear essa matéria como ‘Pol Pot na América’. Não é exagero, infelizmente.

Digo, é óbvio que em termos de quantidade o Camboja foi infinitamente pior.

Pois o regime de Pol Pot foi o maior banho de sangue da história da humanidade, em termos proporcionais a população do país.

Próximas 3: Jd. Botânico de B. Aires, na parte rica da cidade, entre Palermo e Recoleta. Aqui a estátua-símbolo de Roma/Itália, os gêmeos Remo e Rômulo mamando na loba.

Em apenas 16 anos (1963-1979) a ditadura do Khmer Vermelho eliminou nada menos que 25% da população cambojana.

(Nisso contando os combates pra que ela assumisse o poder, ali se mantivesse, e depois a invasão vietnamita pra derrubá-la.) 

Pol Pot e seus asseclas simplesmente dizimaram o Camboja. Dizimaram.

Óbvio que a ditadura argentina de Videla e seus colegas não passou nem perto disso, eles mataram “apenas” 0,1% da população argentina. Ainda assim 0,1% em somente 7 anos não é pouco.

Se os generais, almirantes e brigadeiros argentinos tivessem ficado os mesmos 16 anos de Pol Pot mantendo o mesmo ritmo de execuções, eles teriam matado nada menos que 0,25% da população total argentina.

100 vezes menos que Pol Pot? Sim. Mas bicho, ter 1% da letalidade do mais sangrento regime da humanidade já é sangrento o bastante.

Em outras palavras, mesmo 1% do pior genocídio da história do Planeta Terra já configura um genocídio em si mesmo.

Em 21 anos a ditadura brasileira eliminou a vida de 0,001% dos brasileiros.

Portanto faremos uma comparação grosseira entre o número de cadáveres e os anos em que estiveram no poder.

Assim, diríamos que se fossem os mesmos 16 anos de Pol Pot, a taxa no Brasil seria 0,0008%.

Resultando, arredondado grosseiramente pros 16 anos do Khmer Vermelho no Camboja, ou seja dobrando o período da ditadura argentina e reduzindo a brasileira pro mesmo tempo, mas em ambos os casos mantendo a taxa de letalidade:

Vão longe os tempos que a Argentina tinha pouca pobreza. Aqui e a direita, pessoas revirando as latas de lixo de Buenos Aires em busca de algo pra vender. Fotografei mais, a cena é bem comum, até descartei outras imagens. Essa tomada foi feita próxima a São Telmo, na Zona Central.

– Camboja, 25%

– Argentina, 0,25%

– Brasil, 0,0008%.

Já reconheci acima e enfatizo de novo, obviamente trata-se de um arredondamento grosseiro.

Toda hipótese é especulativa por natureza, o que nunca aconteceu só pode ser imaginado, o que sempre torna a comparação imperfeita. 

Feita essa ressalva, o emparelhamento dos números é útil pra deixar nítido como o regime ditatorial argentino esteve mais próximo do cambojano que do brasileiro.

E aqui em plena Recoleta, Zona Norte.

…….

Veja bem, não estou argumentando que a ditadura brasileira foi suave ou gentil.

Evidente que em nosso país os generais também deram um golpe pra assumir um poder que não lhes pertencia.

E depois reprimiram ferozmente quem lhes negava a legitimidade, seja por métodos pacíficos ou de insurreição. 

É um fato, e renomear o processo como ‘Revolução’ ou mesmo ‘Contra-Revolução’ não altera a realidade.

Contraste social agudo: na mesma região de Palermo e Recoleta, perto de onde o rapaz revira o latão, lojas chiques e caras com nomes em inglês.

E a realidade é a de que eles derrubaram um presidente que havia sido ratificado pela vontade popular não apenas uma mas duas vezes:

A 1ª quando eleito, pois na época o vice-presidente era eleito diretamente. Era diferente de hoje.

Atualmente, a chapa é ‘casada’, você vota só pra presidente, o vice vem junto no ‘pacote’.

Portanto agora o povo só elege o presidente, o vice é o partido ou coligação quem escolhem. Mas antigamente não era assim, entendamos bem a diferença.

A classe média argentina adora cães. Pode ser que os dois bichos sejam desse rapaz; mas lá existe a profissão de ‘passeador de cachorros’, o cara ganha pra levar os animais darem uma volta, é mole? Avellaneda, Z/S metropolitana de B. Aires.

Antes você votava separadamente pro cargo de presidente, e depois pro de vice. Portanto eles podiam ser de partidos diferentes.

Resultando que, se o titular se afastasse, o vice havia sido escolhido diretamente por sufrágio democrático pra governar a nação, tanto quanto aquele que ele substituiu.

Assim João Goulart (‘Jango’) havia sido eleito diretamente pelo povo brasileiro pra ser vice, e caso necessário o presidente. Mas tem mais.

No plebiscito de 63, o presidencialismo ganhou por ampla maioria, referendando mais uma vez o mandato dele como presidente legítimo.

Próximas 2: Vila Carlos Paz, uma espécie de ‘Campos do Jordãobem próxima a Córdoba. Uma cidade muito bonita, os ricos da região têm casas na orla do lago.

Obviamente a implantação do parlamentarismo em 61 já havia sido um ‘golpe branco’ na presidência de Jango.

Com a revogação dele em 63, no fatídico dia 31/03/64 veio o golpe aberto.

Portanto não estou de forma alguma negando o golpe e a ditadura brasileiras.

Não concordo com muitas coisas que a esquerda prega, mas tampouco compactuo com a prática da direita de mascarar um golpe com ‘aforismos’ diversos.

Numa praça no Centro,  caça da Força Aérea.

Então a ditadura brasileira foi exatamente isso, uma ditadura militar.

Generais que subiram ao poder ilegitimamente atropelando a Constituição, e derrubando um presidente duas vezes votado pela maioria da população brasileira.

Vocês já sabem de tudo isso, provavelmente até melhor do que eu. Estou colocando isso aqui pra fazermos o paralelo com a Argentina.

E pra mostrar pra imensa maioria que não estudou o processo em nosso vizinho como lá foi infinitamente pior que aqui.

A ditadura brasileira era uma ditadura mesmo. Ainda assim, o regime brasileiro tentou manter uma réstia, uma casca de legalidade.

Aqui e a direita: as margens da estrada que liga Córdoba a Carlos Paz. As colônias de veraneio entre o lago e a montanha.

Tanto que manteve o congresso, ainda que fantoche pois expurgado de qualquer oposição verdadeira.

Entretanto, Pinochet no Chile não teve sequer essa preocupação. Nos anos que ele foi presidente (1973-90) simplesmente dispensou o Congresso.

Mesmo como fachada, mesmo como encenação, nem assim existiu. Por 17 anos o Chile não teve poder legislativo, caso raro senão único na história.

O que o generalíssimo determinava era a automaticamente lei, não precisando de um crivo legalista nem mesmo encenado.

“O Brasil te espera!”, diz anúncio em Córdoba.

Como curiosidade pra fecharmos o Chile que não é nosso tópico de hoje, até 1973, no golpe, o Congresso era em Santiago, então a única capital do país.

Quando o Congresso foi reaberto com a volta da democracia em 1990, foi transferido pra outra cidade, Valparaíso.

Assim hoje o Chile tem mais de uma capital, como também ocorre na Bolívia e África do Sul, por exemplo.

Portanto aqui já temos o exemplo de um regime ditatorial sul-americano que foi muito mais severo que o nosso. Mas o argentino foi hours-concours na América do Sul.

E em toda a América, talvez só menos pior que os da Ilha Espanhola (Trujillo na República Dominicana e Papa Doc no vizinho Haiti). Esses executaram cada um mais de 1% da população de seus países.

Cetro de Buenos Aires, Obelisco ao fundo.

Bem, a massa ali é formada por negros e mulatos. Aí os militares descarregaram munição sem dó nem piedade.

Tirando esses casos extremos, Videla e seus almirantes e generais são os recordistas. Realmente implantaram a própria ‘Escola do Terror’. 

Pol Pot na América. Não é modo de falar.

…….

Que Deus Ilumine a Argentina e a todos os Homens e Mulheres da Humanidade.

Deus proverá

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“Voka” x “Riber”: no futebol da Argentina, a guerra invadiu a linguística

“RiBer Plate”???? É assim que o Boca se refere ao inimigo, com ‘B‘ gigante, desde que ele disputou a série B em 2012. A torcida do River risca a letra ‘B’, óbvio. Pra devolver o favor eles grafam Boca como ‘Voka’, a pronúncia é a mesma. Abaixo falo melhor desses ‘câmbios consonantais’.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 17 de abril de 2017

Maioria das fotos de minha autoria. As que foram baixadas da internet eu identifico com um (r) de ‘rede’.

Como abri a série dizendo (e é notório), a Argentina foi  riquíssima pela maior parte do século 20, até algumas décadas depois da segunda guerra mundial.

Essa não é mais a realidade, agora ela é um país plenamente latino-americano, com tudo que isso representa.

Isso porque nos últimos 40 ou 50 anos houve uma decadência severa, e multi-dimensional: em termos econômicos, políticos, sociais e mesmo culturais.

Agora, existe um ponto que a Argentina não decaiu nem um pouco, o futebol. Ao contrário, nesse campo (literalmente) essa nação continua sendo a potência que sempre foi.

Aqui e acima da manchete: a cidade de Buenos Aires (incluindo os subúrbios) ganhou nada menos que 24 Libertadores. Pra sentir a Alma Portenha, fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense por essa competição. Eu não sou torcedor do CAP, já esclareço. Apenas esse foi o jogo que deu certo eu ir.

Argentina É futebol, eu disse na mensagem passada. Assim de fato a coisa se manifesta:

Das 57 Libertadores eles ganharam 24. E esse fluxo vencedor de títulos se mantém constante, desde que a competição começou em 1960.

Não é difícil entender as razões. A primeira é que realmente os caras sabem jogar bola. E a segunda é que a Argentina é um país bem menor que o Brasil, não tem campeonato estadual.

Terceiro, com o futebol concentrado desproporcionalmente na capital e seus subúrbios. Assim, ganhar o campeonato argentino é quase como ganhar aqui o campeonato estadual:

“Rei de Copas”: apenas o Independente de Avellaneda, também chamado “Diabo Rubro”, levou 7 Libertadores.

Os times que brigam pela taça são todos da mesma cidade, ou no máximo de cidades tão próximas que você vai de ônibus urbano ao estádio adversário.

Por isso, desde que a Libertadores começou eles dão a vida pra ganhá-la. Nas 3 primeiras décadas, o Brasil desprezou essa competição, que então ficou restrita a uma disputa entre Argentina e Uruguai.

Com uma população que é 20% da nossa, os argentinos ganharam 50% a mais de Copas Libertadores de clubes que o Brasil (24 x 17, os dados são sempre de abril.2017, quando faço o texto).

E quase 100% a mais de Copas América de seleções (14 x 8, embora nesse quesito específico eles estejam em jejum desde 1993, enquanto nesse período o Brasil levantou 4 canecos).

Claro, faça-se o adendo que na competição máxima de seleções que é a Copa do Mundo o Brasil é hegemônico não apenas continental como globalmente, foi campeão 5 vezes

“Mão de Deus“: nosso foco são as disputas entre clubes. Mas dando uma pincelada nas seleções, contra a Inglaterra em 1986 Maradona fez 2 gols épicos, um esse que vocês estão presenciando, só o juiz não viu. Como esse jogo foi no México, eu falo dele na postagem sobre o futebol mexicano.

Contra 2 do vizinho paíso último título deles foi no México em 1986, quando Maradona marcou até gol de mão (dir.).”

……….

Ainda assim na América o domínio alvi-celeste é incontestável. Que os argentinos sabem jogar é auto-explicativo. Falemos então da concentração na capital.

No Paraguai, Chile (nesses 2 já fiz matérias específicas sobre o tópico), Peru e Uruguai o modelo é exatamente o mesmo, se você fizer uma disputa metropolitana da capital mais alguns subúrbios, na prática eis o campeonato nacional.

Meu ingresso pra ver São Lourenço x “Paranaense”: como sabem, o CAP aqui em Curitiba é conhecido como “Atlético“, e nacionalmente “Atlético Paranaense” pra diferenciar do Atlético Mineiro. Mas na Argentina e por consequência nos demais países hispânicos, o CAP é o “Paranaense”. Não é difícil entender o porque, já que na Argentina quase todos os times se chamam ‘Clube Atlético’: Clube Atlético River Plate, Clube Atlético Boca Jrs., Clube Atlético Independente, Clube Atlético São Lourenço de Almagro, Clube Atlético Belgrano, Clube Atlético Talleres, etc. Dos 30 times na 1ª atualmente, nada menos que 21 são ‘Clube Atlético’, que assim é um prefixo, e não o nome do time. Aplicando a mesma lógica ao CAP, ficou como “Paranaense”.

Alias por um tempo houve na Argentina esse campeonato chamado ‘metropolitano’, e ele tinha a mesma importância do nacional.

Esse país já teve muitas formas de disputa em seu certame nacional, abaixo faremos um resumo das diversas fórmulas que já foram usadas.

Aqui, o que quero ressaltar é que na Argentina e várias outras pátrias acima citadas o futebol basicamente se resume a capital. Mas isso está longe de ser universal.

Na Colômbia e México o super-clássico nacional opõe capital x interior (repetindo o modelo europeu), como descrevi com detalhes em outras oportunidades. Alias os 3 títulos da Libertadores colombianos foram ganhos pelo interior.

No Equador, alguns dizem que o super-clássico nacional nem envolve a capital, é Barcelona x Emelec, ambos de Guayaquil – mas a única Libertadores equatoriana foi ganha pela capital Quito.

Enquanto na Bolívia a capital La Paz é o polo principal, os dois maiores vencedores são dali, mas o interior é muito forte também – por exemplo o único tetra-campeão boliviano é de Cochabamba.

Maurílio como torcedor do Independente. Abra a postagem pra ver o desenho inteiro, ele está trepado sobre o alambrado, que é como os líderes de torcida veem a partida na Argentina. Uma nota: eu traduzo sempre que que possível tudo pro português, alias nessa postagem mesmo vocês esse debate com um leitor que fez essa retificação.

…….

De volta a nosso foco de hoje. Citei esses países acima pra pôr no contexto, fazendo o contraste. Na Argentina, entretanto, esse esporte basicamente se resume a Buenos Aires e imediações.

Dos 30 participantes da 1ª divisão em 2017, 60% são da Grande Buenos Aires (“Bs. As.”) e da cidade de La Plata.

Leve em conta que em 2015 o campeonato argentino passou por massiva ampliação, exatamente pra aumentar a presença do interior.

Nesse ano de 20 passaram a ser 30 participantes. Logo, de 2 turnos reduziu pra turno único. Apenas os maiores clássicos de cada região se repetem pra inverter o mando.

Os clubes foram emparelhados em duplas contra seu maior rival: Boca x River, Independente x Racing, Rosário Central x Newell’s, etc; nas oportunidades em que não há um clássico da cidade aí vai contra o time da cidade mais perto.

Quando eram 20 times, quase 80% deles eram da capital, região metropolitana e La Plata, que não é região metropolitana mas quase. Exemplifico nos mapas.

Observe os mapas (confira a fonte deles aqui): quando eram apenas 20 times, quase 80% eram da capital. Pegamos o ano de 2008 como exemplo que é típico: apenas 6 do interior enfrentando 14 times de Buenos Aires  no campeonato ‘argentino’. Ou seria melhor dizer ‘campeonato portenho’?,

Um adendo. Como explicado na postagem anterior e é notório, o município de Bs. As. fica dentro da província de Buenos Aires, mas não pertence a ela.

Assim como quando o Rio era nossa capital até 1960 o município do Rio de Janeiro (então nosso D.F.) ficava dentro do estado do Rio de Janeiro mas não pertencia a ele.

Então. E La Plata é a capital da província (pra nós seria chamado ‘estado’) de Buenos Aires. Dista apenas 55 km da capital federal.

Não faz parte da área urbana da Grande Buenos Aires, mas está muito próxima, é um subúrbio estendido. La Plata tem com Buenos Aires mais ou menos a mesma relação que Jundiaí tem com São Paulo, se quiser ver assim.

Nesse texto sobre futebol quando eu falar “Buenos Aires” ou “capital” isso inclui a região metropolitana e mais a cidade de La Plata, que não é região metropolitana mas falta muito pouco pra isso. Esclarecido, vamos lá.

Em 2015 passaram a ser 30 times. Aí a capital ficou com ‘apenas’ 60% deles.

Entre os campeões a supremacia da capital é ainda mais pronunciada. Depois que iniciou-se o profissionalismo (de 1931 pra cá, muitas vezes eram 2 campeonatos no mesmo ano) foram 131 troféus.

121 deles conquistados por Buenos Aires, mais de 91% portanto. De cada 10 edições, 9 taças ficam na vizinhança.

Está claro: ganhar o campeonato argentino pros clubes da capital é como ganhar o paulista ou carioca pros clubes brasileiros. Logo é preciso alçar voos mais altos pra coisa ter alguma graça.

E qual é essa esfera mais alta? A Libertadores, evidente. Resultado: o Independente de Avellaneda tem 7, o Boca 6, Estudantes de La Plata 4, River Plate 3, pra citar somente os multi-campeões.

1960-1988: disputa particular uruguai x argentina
1989-presente: a decadência uruguaia sim; argentina não

Mural do Belgrano em Córdoba: manifestação oni-presente no vizinho Chile, comum em Córdoba já numa proporção menor e inexistente em Buenos Aires e demais cidades argentinas. Ou há muitos poucos, vejo na internet, mas ao vivo não presenciei, e rodei 4 dias na capital argentina.

O domínio já foi ainda mais acentuado. A Libertadores da América se divide em 2 períodos, 1960-1988; e 1989-presente.

Explico. Até o fim dos anos 80, Libertadores significava na prática “Campeão do Rio da Prata”.

Já que ela era pouco mais que uma ‘recopa’ entre argentinos e uruguaios.

Como se sabe, nas 3 primeiras décadas o Brasil desprezou a Liberta. Por exemplo, o Santos de Pelé venceu a 3ª e a 4ª edição da competição, sendo bi em 1962/63.

Postes pintados, também em Córdoba e também pela torcida do Belgrano. Em relação aos postes, repete-se o que falei dos murais na legenda anterior: no Chile em toda parte, em Córdoba um pouco, em Buenos Aires não há – nesse caso não vi sequer pela internet.

Mas depois o clube, numa decisão que se arrende amargamente até hoje, achou que era mais lucro excursionar pela Europa.

Resultando que preferiu não mais disputar esse campeonato, ou pelo menos não com o time principal.

Tivesse centrado forças no torneio continental americano, o Santos fatalmente seria tetra, penta e quem sabe até hexa campeão da Libertadores.

Não foi assim que ocorreu. O alvi-negro praiano e todos os outros times brasileiros voltaram as costas pro principal certame do continente.

Argentinos e uruguaios agradeceram, e o transformam numa disputa particular deles.

Idem, ibidem. Mural e poste na mesma cena.

Em 1988, de 29 taças a Argentina tinha 15 (mais da metade!!!), o Uruguai (que é uma nação muito pequena) nada menos que 8 (5 do Penharol e 3 do Nacional). 

O Brasil somente 5 (um terço da Argentina e bem menos que o Uruguai), o Paraguai 1, nenhum outro país havia vencido.

A coisa era tão aberta que por 12 anos seguidos (1964-75) a taça ficou alternando entre Buenos Aires e Montevidéu somente.

Próximas 2: pichações nas ruas de Córdoba.

O Independente foi tetra seguido (72-75), o Estudantes de La Plata foi tri (68-70), sendo que em 1969/70 foi bi-campeão invicto. Todas essas façanhas permanecem inigualadas até hoje.

Porém, em 1989 a trajetória da Libertadores fez uma curva, que afetou o Uruguai negativamente e Brasil e mais 4 nações positivamente.

Em 1988, o Uruguai tinha 8 taças, o Brasil 5. Mais que isso: Brasil, Paraguai, Colômbia, Chile e Equador somados tinham apenas 6. De lá pra cá o Uruguai não ganhou mais nenhuma – já se vão 29 anos de jejum. Somados, esses 5 países acima deram 19 voltas olímpicas nesse espaço de tempo.

Aqui vemos homenagens aos dois clubes.Yuta’, que o torcedor do Belgrano gostaria de matar, significa polícia. No Chile o termo é o mesmo, e também do outro lado dos Andes alguns gostariam de eliminá-la.

O Brasil venceu 12, é o maior campeão do período (a Argentina levou mais 9). Colômbia 3, Paraguai 2, Chile e Equador 1 cada.

……..

Portanto: o Brasil, depois que voltou os olhos pra Libertadores, foi o vencedor dessas quase 3 décadas, 12 taças contra 9 da Argentina.

Como a diferença era de 3/1, a distância diminuiu muito mas eles seguem com larga vantagem.

O Raio se espalhou pelo continente. Essas 4 outras nações que somadas só haviam vestido a faixa uma única vez o fizeram mais 7 vezes, dessa forma multiplicando por 8 seu quinhão de conquistas.

Estádio Olímpico Mario Kempes, Zona Oeste de Córdoba, segundo maior do país, construído pra Copa de 78. No dia que fiz esse texto (Domingo de Páscoa/17) se enfrentaram ali Talleres x Belgrano pela 1ª divisão, o que não ocorria há 15 anos.

O Uruguai parou no tempo. Entrou numa decadência cruel. Mas a Argentina não decaiu (ao menos no futebol), é isso que quero apontar.

Os anos 90 e 10 (até 17, quando escrevo) foram de preponderância brasileira, é certo. Mas a primeira década do século foi novamente argentina com 5 títulos, sendo 4 só do Boca.

Quando Boca e River (ou ‘Voka’ e ‘Riber’, já falo dessa parte) disputam mais um super-clássico, estão em campo nada menos que 9 Libertadores.

Sede do Talleres (se pronuncia “Tachéres”) no Centro de Córdoba.’Taller’ significa ‘oficina’. Oficina de qualquer coisa, pode ser desde oficina mecânica até oficina de artesanato. No caso, são as oficinas de trens, pois o clube foi fundado pelos trabalhadores que operavam e consertavam as locomotivas. Da mesma forma, em Ponta Grossa-PR há o Operário Ferroviário, cujo estádio fica no bairro Oficinas (da ex-RFFSA), na Zona Sul.

Avellaneda é um subúrbio da Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia dois clubes, Independente e Racing. Pois bem.

Os dois já deram a volta olímpica no torneio máximo continental, o Independente nada menos que 7 vezes, ainda é o ‘Rei de Copas’. Até o ‘clássico suburbano’ opõe ambos times campeões da América. Isso é Buenos Aires, amigo.

……….

Agora, o futebol argentino não mingou com a virada pros anos 90. Mas seu maior campeão da Libertadores sim, esse murchou. O Independente tem 7 taças – mas a última foi no já distante ano de 1984.

Nesse ano, em que logrou sua sétima vitória, o River era virgem, nunca tinha ganho. O Boca tinha 2 taças.

Quando o novo milênio adentrou os dois maiores clubes argentinos estavam empatados, 2 pra cada.

Voltando a Buenos Aires, aqui está a sede do Racing no Centro de Avellaneda. Como o rival Independente jogava no dia e os estádios são a poucas centenas de metros dali, uma viatura da polícia faz a guarda, pra evitar problemas.

Aí veio a impressionante década de 2000. O Boca foi campeão 4 vezes, totalizando 6, bi em 2000/01, e de novo 03 e 07.

E com isso está nos calcanhares do Independente. O River, após quase 20 anos de jejum, levou de novo em 2015, e agora tem 3, ainda metade de seu arqui-rival.

……..

Em relação aos títulos nacionais, aí a vantagem é do River, que venceu 35 vezes, 10 a mais que o Boca que vem logo atrás. O Independente tem 14, São Lourenço 12, e o Vélez Sarsfield 10.

São os únicos que atingem os 2 dígitos. São Lourenço e Vélez ganharam a Libertadores uma vez, em 2014 e 1994 respectivamente.

Por ter sido mais vezes campeão argentino, o River Plate se diz “o maior da Argentina, muito longe dos outros”. Cada um diz o que quer, não necessariamente sendo verdade.

Pouco antes de clicar a imagem acima, eu passei em frente aos estádios. Aqui a multidão faz fila pra adentrar as arquibancadas do campo do Independente.

Na Argentina, o que conta é Libertadores, que o Boca tem o dobro. O certame nacional é chamado pejorativamente por lá de “navegação de cabotagem”.

Eu não tenho qualquer preferência pelo Boca, exatamente ao contrário, o time que tenho alguma simpatia na Argentina é o Independente.

Não gosto do Boca Juniors, nem um pouco, ressalto de novo. Só que números são números. ‘Só idiotas discutem com números’, diz o ditado.

A torcida do Boca é disparado a maior, com 30% dos argentinos sendo ‘xeneizes’, o apelido deles – é uma corrutela de ‘genoveses’.

Dando uns passos pra frente, não vemos mais o estádio do Independente, vermelho como o clube. Mas está óbvio que estamos na frente dele, pois ainda vemos a mesma galera na fila. Agora há o do rival Racing ao fundo, também nas cores do clube, nesse caso azul-claro.

O River vem logo a seguir com 20% da preferência nacional. A alcunha do River é ‘Milionário’.

São os dois gigantes, contra eles não há competição possível em termos de torcida. O 3º clube mais popular da Argentina é o Independente (o ‘Diabo Rubro’), escolha de 5% dos argentinos. 

Esse número já foi muito maior, a decadência do clube tem cobrado um alto preço, como é natural.

Repito, em 1984 o Diabo tinha 7 Libertadores, contra 2 do Boca e River somados. De lá pra cá não ganhou mais, e viu o Boca levar 4, o River mais 3.

O River não por acaso se auto-define como ‘o Milionário’. Foi fundado no bairro da Boca, o mesmo de seu arqui-rival.

Invertendo as posições: agora estou defronte o campo do Racing, ao fundo o do Independente, como as cores de cada um deixam claro.

Mas a muitas décadas se transferiu pra Zona Norte, que é a parte rica de Buenos Aires. O Boca é da Zona Sul, a porção pobre da cidade.

A Zona Norte, no município de Buenos Aires (ou seja, sem incluir região metropolitana), simplesmente não tem nenhuma favela.

Nenhuma. Buenos Aires está coalhada da favelas, e elas assustadoramente triplicaram nesse milênio. Todas nas Zonas Sul, Oeste e Central – Bs. As. não tem Zona Leste.

Camaradagem: o Racing abriu sua bilheteria pra torcida do rival Independente.

Abordei o assunto da miséria na capital argentina na outra postagem, com fotos, gráficos e mapas. Aqui só volto ao tema pra dizer que de fato o Boca é ‘time do povo’.

Enquanto o River domina entre os que tem mais acesso a renda e educação, e a localização dos estádios reflete isso.

Claro que a correspondência não é 100%. Muita gente prefere o River na periferia, e outros torcem pelo Boca mesmo sendo da elite e alta-burguesia. Não é 100%. Mesmo assim, nas favelas o Boca domina amplamente, alias de várias das enormes favelas da capital e região metropolitana dá pra ir a pé a ‘Bombonera’.

Os estádios são a 400 metros um do outro. E Avellaneda está inteira decorada com o ‘fantasminha vermelho da B‘, a torcida do Racing comemora o recente rebaixamento do Independente.

Essa preferência da massa, dos descamisados, se reflete nas demais quebradas e periferias pelo resto do país, independente da distância física pro estádio, é claro.

Já o ‘Monumental de Nunhez’ está incrustrado nos bairros mais elegantes e arborizados da cidade (na verdade fica no vizinho bairro de Belgrano, mas como é divisa com Nunhez, o nome pegou assim).

E esse extrato social elevado é o único em que o River tem maioria. Outra coisa: entre os mais velhos (acima de 60 anos) e entre as Mulheres o River também ganha. Quanto mais jovem e pobre, maior a distância a favor do Boca.

Ou seja: você está numa favela. Vem um garoto, de boné na cabeça. Ele usa uma camisa de futebol. A chance que seja do Boca ou do River é na proporção de 4 pra 1 a favor do Boca.

Mesmo recado na pichação: a “Guarda Imperial” Zona Oeste do Racing desenha o ‘B’ de chifres e escarlate, o Diabo caiu afinal.

………

A capital (com seus subúrbios) domina amplamente o futebol argentino. Levou todas as Libertadores do país, e 121 dos 131 títulos nacionais. Isso já disse.

O que quero adicionar aqui é que o interior da Argentina, em relação ao futebol, praticamente se resuma a uma única cidade: Rosário.

O interior ganhou 10 vezes, e todas as 10 por Rosário, 6 pelo Newell’s Old Boys e 4 pelo seu arqui-rival Rosário Central.

River x Boca (r), o ‘Super-Clássico‘ que para um país (esse aqui não se sabe se é de futebol ou polo aquático). Como dito na abertura, as tomadas com o ‘(r)’ são baixadas da internet.

Rosário também a única cidade do interior que chegou a final da Libertadores. 2 vezes (1988 e 92), ambas com o Newell’s. Perdeu ambas.

Mas essas façanhas são mais que suficiente pra colocar o Newell’s como maior time do interior da Argentina, disparado. E Rosário como a maior cidade do interior, ao menos quando o quesito é esse esporte.       

Novamente: não tenho qualquer preferência pelo Newell’s, apenas analiso os números. Por outro lado, o Rosário Central venceu a Copa Conmebol de 1995.

Como se lembra quem tem idade pra tanto, esse era um torneio secundário, uma espécie de 2ª divisão da Libertadores, precursor da atual Copa Sul-Americana que cumpre esse papel hoje.

Das 131 taças do certame nacional, Boca e River levaram juntos 60, quase 45% somente pra 2 times. O campeonato argentino não é apenas concentrado na capital, mas é concentrado nesse clássico.

A Argentina ganhou 3 vezes a Conmebol, e sempre com clubes menores, fora do circuito. O Talleres de Córdoba e o Lanús da Grande Buenos Aires também contam com essa façanha no currículo.

………

Córdoba é a maior cidade do interior, em termos de população. Rosário é a segunda, pouco atrás, e na sequência vem Mendonça.

Visitei Córdoba e Mendonça, infelizmente Rosário não deu pra ir. Mas pro futebol Córdoba e Mendonça são praticamente irrelevantes, alias todo o interior é irrelevante exceto Rosário.

Esse ano (2017) Córdoba terá seu clássico Talleres x Belgrano pela primeirona nacional. Fato raríssimo, faziam 15 anos que não ocorria.

Drones sobre o estádio no dia do jogo (r), . . . .

Esse times disputaram a 1ª divisão em 21 e 17 oportunidades respectivamente, mas em poucos anos os dois ao mesmo tempo.

O clássico foi disputado no dia que escrevo essas linhas, Domingo de Páscoa/17. Acabou empatado em 1×1, o que manteve o Belgrano em 29º e penúltimo lugar.

Pra completar o circo dos horrores pro clube, a torcida do Belgrano cometeu um crime monstruoso na arquibancada, atirou pelo vão da escada um rapaz de 26 anos, tudo foi filmado e as cenas correram o mundo.

Ele sofreu traumatismo craniano e acabou desencarnando no hospital. Pra piorar, depois descobriram que ele torcedor do próprio Belgrano, e não do rival Talleres como pensaram na hora. A briga não era por futebol, quem disse que o rapaz era da torcida inimiga mentiu por uma rixa antiga. Sem saber disso a ‘barra-brava’ do Belgrano assassinou um dos seus. ‘Fogo amigo’.

. . . um cara com a letra ‘B‘ na camisa na arquibancada (r), . . .

Bem, a violência nos estádios é universal na América Latina, quando estive na Colômbia vi cenas similares pela TV nos clássicos de Cali e Medelím.

E aqui no Brasil os cadáveres perecidos em guerras de torcidas se contam as centenas nessas últimas 3 décadas, numa realidade amaríssima.

Voltemos a Argentina. O Talleres subiu de novo somente esse ano, depois de 12 anos na 2ª e mesmo 3ª divisões.

Seu arqui-rival Belgrano está na 6ª temporada no torneio principal do país, mas deve cair esse ano. Quando eu estava na Argentina, vi pela TV o Belgrano vencer em casa o Racing de Avellaneda por 2×0. Era a sétima rodada, e foi somente a 1ª vitória do time cordobês.

. . . e infinitas pichações pela cidade: o Boca não cansa de relembrar ao River seu rebaixamento.

Até então eram 3 empates e 3 derrotas, estava em último. Com o triunfo subiu pra penúltimo, o que não ajuda muito. 4 semanas depois, se mantinha no mesmo lugar.

Na Grande Mendonça é ainda pior, só há um clube na primeira, o Godoy Cruz. Há muito a cidade não vê um clássico local pela série A argentina. 

Se serve de consolo, como dito acima o Talleres de Córdoba já venceu um torneio internacional, a Copa Conmebol de 1999.

A final, vejam vocês, foi contra o CSA de Alagoas. Também chegaram a semifinal o Desportivo Concepção do Chile e o São Raimundo do Amazonas. Foi a última edição da Copa Conmebol.

‘voka’ x ‘riber’; rosário ‘bentral’; e o ‘paranaense’ de ‘curitiva’

No idioma espanhol, como se sabe, não há a pronúncia da letra ‘v’. Se escrevendo com essa letra ou com ‘b’, pronuncia-se tudo como se fosse ‘b’.

Veja ao lado: nossa bagagem não chegou conosco a Buenos Aires, só 2 dias depois. Eis a reclamação no guichê da Gol feita no aeroporto central de Bs. As., o Aero-Parque.

A viação aérea é brasileira, mas essa ficha foi preenchida na Argentina, por um funcionário argentino da empresa.

Quando eu estava na Argentina, esse país enfrentou o Chile pelas eliminatórias no Monumental de Nunhez. O time da casa jogou muito mal, e venceu por 1×0 graças a um pênalti duvidoso (diz a própria imprensa local) aos 16 do 1º. Sete minutos antes anularam um gol do Chile. Vi pela TV em Córdoba.

Perguntou que cidade morávamos, e respondemos ‘Curitiba’. O rapaz não teve dúvidas: mandou ver ‘Curitivano papel, porque pra ele a pronúncia é idêntica.

Isto posto, podemos entender porque a briga das torcidas nesse país vizinho invadiu a linguística:

Além de mais títulos na Libertadores e maior número de fãs, o Boca é o único clube que nunca foi rebaixado, que sempre disputou a 1ª divisão do profissional.

O River lhe fazia companhia até 2011. Mas nesse ano caiu, e teve que jogar a série B. Resultado: desde então a torcida do Boca só grafa o River como ‘Riber’ Plate.

O que obviamente os ‘milionários’ odeiam. Volte ao topo da página e observe a primeira imagem, logo abaixo da manchete. Alguém do Boca grafou ‘RiBer’ no muro, propositadamente exagerando no ‘B’, que ficou gigante óbvio, pois é esse o ponto nevrálgico que enerva o inimigo. 

Córdoba: um torcedor do Talleres pintou o símbolo do clube sob a palavra ‘loucura’. Um rival do Belgrano profanou, dizendo ‘loucura de galinhas’. Na América Hispânica, é essa pecha que as torcidas tentam impôr sobre os adversários. Por isso o ‘T’ virou ‘G’, de ‘Galleres’, soma de ‘Talleres’ com ‘Gallinas’. ‘Peito Frio‘ também é uma expressão castelhana que quer dizer que o jogador não tem sangue quente, a camisa ‘não esquenta’ no peito, aí tanto faz ganhar ou perder.

Enervou mesmo. Algum torcedor do River foi lá e tentou com todas as suas forças riscar a letra ‘B’, como se sua vida – ou ao menos sua honra – dependesse de ocultar esse símbolo gráfico.

Não adianta nada, claro. Os boquenses continuam a proliferar o mantra ‘Riber’ por todas as partes da cidade, um pouco mais pra cima a esquerda mais um exemplo: “River vende fumo, você foi pra (série) B’, é o que está escrito nessa porta de loja.

Pra compensar, a torcida ‘milionária’ do River grafa o rival como ‘Voka’. A pronúncia é a mesma de ‘Boca’. Nesse caso não há correlações com rebaixamentos, já que infelizmente pro River o Boca jamais foi rebaixado.

Simplesmente se paga na mesma moeda. ‘Vocês distorcem a grafia do nosso time, nós distorcemos do seu’, é a lógica de quem criou e espalha o termo ‘Voka’.

Na Argentina, a briga futebolística definitivamente descambou pra dimensão da linguística. O combate é pra mudar as letras no nome do adversário. Os gramados, arquibancadas, ‘adesivos’ na internet (“memes”) e muros se tornaram muito pouco . . . .

Próximas 12: vamos ver mais algumas cenas que eu captei no Novo Gasômetro, estádio do São Lourenço na Z/Sul de B. Aires. Aqui a bateria da ‘Gloriosa’ no aquecimento. Por enquanto sem os saxofonistas.

……….

Não é só no Super-Clássico que essa situação acontece. Estive na Vila Carlos Paz, no interior da província de Córdoba.

A uma hora de ônibus da capital estadual, é uma espécie de ‘Campos do Jordão (SP)’ argentina.

Na verdade Carlos Paz é ainda mais bela que C. do Jordão, pois nessa cidade argentina além das montanhas há um rio que vira um lago bem no Centro.

Em Carlos Paz eu me senti na Suíça, se quer saber. Breve subo as fotos que tirei por lá. Aqui nosso tema é futebol. A Vila Carlos Paz está a 40 km do Centro de Córdoba, você faz um bate-volta, sai cedo e volta a noite se quiser.

No alambrado: na Argentina é assim que os cabeças da barra-brava (torcida organizada) veem o jogo, sempre trepados nas grades. Por isso desenhei Maurílio na mesma posição.

De Rosário a distância decuplica, ou seja são 400 km. Então é preciso pernoitar.

Mesmo assim, muitos rosarinos visitam Carlos Paz. Comprovei isso pelas pichações nos muros, a guerra entre as torcidas do Rosário Central e Newell’s Old Boys (sigla ‘N.O.B.’ nos pichos).

Pois bem. Exatamente na orla, na parte mais bonita da cidade, estava grafado Rosário “B”entral, com o ‘B’ bem grande e destacado.

Aí não tem a ver com a linguística. Simplesmente um torcedor do Newell’s ressaltava o recente rebaixamento do rival.

O Rosário já caiu 4 vezes, mas a última é bem recente, já em 2010, e ele levou 3 anos na série B.

Poucos minutos antes da bola rolar, a banda vai pra arquibancada. No destaque mais um rapaz agarrado a grade, eles ficam o jogo inteiro ali, e não somente pra pôr as faixas como alguém poderia pensar.

O Newell’s também já foi pra segundona, mas está ininterruptamente na primeira desde 1964.

……….

No Clássico Suburbano de Avellaneda o mesmo se repete. O Boca é o único que nunca caiu, repetindo. Até 2011, River e Independente de Avellaneda lhe faziam companhia.

O River teve que disputar a segundona em 2012. No ano que ele retornou pra primeira divisão, em 2013, foi a vez do Independente ser rebaixado. Agora todos caíram, exceto o Boca Juniors. 

Os famosos guarda-sóis não iriam mesmo faltar, nada é mais argentino que isso!

Em Avellaneda os dois rivais já estiveram na série B. O Racing foi rebaixado em 1983, e ficou 3 anos antes de voltar.

Os torcedores do Diabo Rubro até hoje comemoram essa data, vi camisetas alusivas a esse fato, dizendo “Proibido Esquecer”.

Porém agora a maré virou. Nessa década de 10 foi a vez do Independente jogar a segunda. Conseguiu subir no 1º ano.

Ainda assim, a torcida azul do Racing não perdoa, evidente. Avellaneda está inteira pichada com um fantasminha em vermelho com a letra ‘B’.

A foto acima da manchete.

Agora um detalhe curioso: a rivalidade entre Racing e Independente é acirradíssima dentro de campo.

E as pichações nos muros, camisetas e cânticos deixam claro. Mas fora dele os clubes se ajudam.

Os estádios são na mesma quadra, de um você vê o outro. Fui pra Zona Sul de Buenos Aires num sábado a tarde.

Conheci os bairros de Parque Patrícios, Nova Pompéia e Barracas, rumo a famosa favela da Vila 21.

Portão da ‘Cidade Esportiva‘ do S. Lourenço. Chovia muito, veja as capas amarelas.

Cruzei o Riachuelo, mudando de estado e município, do Distrito Federal pra Avellaneda, na província de Buenos Aires.

Chegando ao Centro de Avellaneda, vi uma multidão caminhando com camisas vermelhas, e logo concluí que iam ao jogo do Independente.

Resolvi acompanhá-los até o portão do estádio, embora eu não poderia entrar porque não tinha dinheiro suficiente.

Ainda assim me imiscuí entre a rapaziada e fui, pra pelo menos sentir o clima. Chegamos as imediações do ‘Estádio Libertadores da América’. Sim, esse é o nome oficial da praça desportiva, pra lembrar a todos quem é o ‘Rei de Copas’.

dentro do complexo, em 1º plano um campo de treinamento, ao fundo o estádio.

Mesmo não podendo passar pra arquibancada, foi bom estar ali. Camelôs e bares vendiam churrasco, sanduíches e cerveja.

A banda fazia o aquecimento, com seus bumbos e saxofones característicos. A galera bradava seus gritos de guerra.

Vi os ônibus que trouxeram os comboios do interior. Eram veículos na configuração urbana, com 2 (ou 3) portas e bancos fixos de acrílico.

Próximas 2: quando adentrei o estádio, 1 hora antes do jogo, por isso está vazio. Quando a bola rolou, as retas encheram. A curva oposta continuou vazia. Choveu muito, Buenos Aires tinha diversas vias sitiadas por protestos e na rodada anterior o São Lourenço levou 4×0 do Flamengo no Rio. Tudo isso afastou o público.

Imagine ficar horas e horas sentado naqueles tocos duros, haja paixão!

No Brasil, os comboios das torcidas são em ônibus de viagem, em que o banco é maior, estofado e reclina, um pouquinho que seja.

Como disse acima: os estádios são vizinhos. Eu estava ali, entre a massa vermelha, que adentrava os portões do campo do Independente.

Como pano de fundo da cena estava o estádio do Racing, que é maior.

Saí dali, me dirigindo ao Centro de Avellaneda. Já anoitecia, e como não poderia mesmo ir pra arquibancada queria aproveitar os últimos raios de Sol pra conhecer um pouco mais da cidade.

Repare nas barreiras na arquibancada, pra impedir a ‘avalanche’, comemoração do gol em que tudo mundo corria em direção ao alambrado, causando esmagamento.

Antes passei exatamente em frente o campo do rival Racing.

Os torcedores do Independente faziam o mesmo trajeto, mas no sentido oposto.

Pois bem. A bilheteria do Racing estava aberta. . . porém a serviço do ‘inimigo’.

Eram os torcedores do Independente quem compravam ingressos pra ver seu time.

Pois o Racing jogava fora na rodada, e não no mesmo dia, tudo pra evitar encontros das torcidas adversárias. 

Com a bola rolando. O São Lourenço, mandante, jogou com o uniforme titular escuro. O CAP, visitante, veio de branco.

O que ocorre é o seguinte. A polícia isolou várias quadras ao redor do estádio do Independente, só passava pela barreira quem já tinha ingresso em mãos.

Eu pude conhecer o estádio ao menos por fora porque eu vim mais cedo e por um acesso secundário, onde a polícia ainda não havia fechado.

Porém na avenida principal, a que vinha do Centro, estava interditado exceto pra quem já tinha o bilhete adquirido.

Tive que pedir licença pro policial, ele abriu pra mim a porta dos deficientes, pra que eu pudesse sair enquanto a multidão entrava. Como eu estava saindo, obviamente não houve complicações. Mas ninguém podia entrar sem ingresso.

Torcida do Atlético-PR presente em Buenos Aires. Eles levaram 2 bandeiras do Brasil, infelizmente essas fotos desfocaram.

E quem não havia comprado não mais podia fazê-lo no estádio do Independente, já que a bilheteria fica dentro da zona fechada. Então como fazê-lo?

O Racing deu uma mãozinha, e abriu as suas próprias bilheterias aos que deixaram pra última hora. Uma camaradagem interessante, inimigos dentro das 4 linhas, parceiros fora delas.

……….

Fechamos (por hora) a sequência dentro do estádio do São Lourenço. São os saxofonistas, agora a orquestra está completa.

Qual o povo mais fanático por futebol no mundo? O argentino? Não, é o chileno.

Digo, na arquibancada são iguais. O torcedor argentino é passional, e suas ‘hinchadas’ são famosas por nunca pararem de cantar. De fato assim é.

Veja a prova: a própria torcida do São Lourenço levanta pra rede um vídeo de uma final que eles perderam por 3×0. O resultado dentro de campo importa menos, o fundamental é que o ‘alento’ na arquibancada nunca pare.

Fui ver São Lourenço x Atlético Paranaense pela Libertadores, 3 dias antes desse sábado em Avellaneda. Já eu conto melhor. Aqui é só pra dizer que chovia a cântaros, o São Lourenço perdeu em casa, e passou o jogo inteiro perdendo, já que o gol do CAP foi logo aos 3 do primeiro.

Aqui e a direita: Zona Sul de Buenos Aires: a torcida do Furacão (esse é o nome do time, não é apelido) homenageia um de seus ídolos.

Ainda assim, a torcida do São Lourenço não parou um minuto de pular e cantar, a plenos pulmões. Voltando a pergunta que eu fiz, dentro do estádio não há diferença, fato. Mas nas ruas o chileno faz questão de se manifestar de forma mais expressiva.

Como eu já contei com muitas fotos quando retornei de lá, no Chile a guerra de torcidas é poste-a-poste. No Centro das cidades não porque a burguesia não se interessa por isso.

Mas assim que você entra nos bairros mais humildes – mesmo aqueles bem centrais, em que você pode ir a pé do Centrão e comprovei isso pessoalmente – e muito mais nas quebradas distantes do subúrbio, todos os postes do bairro são pintados com as cores de algum time.

Todos os postes, todos os bairros, todo o subúrbio e também a parte mais proletária da Zona Central. Além disso, são famosos mundialmente os ‘murais’ chilenos:

Furacão Capo” (chefão da máfia, e por analogia aqui o dono do bairro), e “São Silêncio de Amargo”, provocação ao vizinho São Lourenço de Almagro. Pelo futebol argentino ser muito centrado na Grade Buenos Aires, as rivalidades dos bairros ou municípios suburbanos vizinhos são as mais fortes. O Furacão é próprio time suburbano, como o Olaria, Bangu ou América no Rio. A torcida do Furacão tem birra com quem está mais perto, que é o São Lourenço, fazem ‘o clássico da Zona Sul’. Os fãs do Furacão pouco se importam com o Vélez Sarsfield, por exemplo, já que esse está distante, na Z/Oeste.

Grafites em que as torcidas expressam sua paixão com muitas cores, alguns obras de arte, outros bem toscos, mas todas as pinturas de muro inteiro servindo ao propósito de mostrar quem é ‘o dono’ daquele bairro.

Em Santiago e Valparaíso, os murais e postes decorados estão por toda parte, obras de todas as torcidas. Pois bem. Na Argentina não é assim. 

Em Buenos Aires e Mendonça há bastante pichações de futebol sim, como no Brasil. Mas murais e postes decorados não há.

Como informei na legenda acima: vejo fotos na internet dos murais de futebol em Buenos Aires. Então eles existem, sim. Mas em número reduzidíssimo.

Fiquei 4 dias em Buenos Aires, e o tempo todo circulando pela metrópole, Centro, burguesia e periferia. Não vi nenhum mural, nem mesmo perto dos estádios do São Lourenço e dos dois em Avellaneda.

Fiquei os mesmo 4 dias em Santiago, vi centenas de murais em diversos bairros, tantos que perdi a conta. Fotografei dezenas, ainda pude me dar ao luxo de excluir boa parte e só publicar os mais gráficos.

Rivalidade em Córdoba (r): o Estádio Mário Kempes (em tomadas do mesmo ângulo) ocupado pelas torcidas do Belgrano e Talleres, respectivamente.

Em apenas um dia e meio na Grande Valparaíso (esse município mais Vinha do Mar) vi mais murais que em nos 4 dias em Buenos Aires.

Então eles existem na capital argentina? Sim. Mas pouquíssimos. Os murais que eu fotografei do São Lourenço são dentro do estádio, sob a arquibancada. Na rua não existem.

Em Córdoba já muito mais que na capital. Em vários bairros há postes pintados e murais. Lembra mais o Chile, mas bem em proporção bem menor que do outro lado dos Andes.

Dentro desse mesmo campo, Talleres de camisa listrada, Belgrano com a mais clara.

Andei por vários bairros da periferia cordobesa, especialmente na Zona Oeste, inclusive passei exatamente em frente ao Estádio Olímpico de Córdoba ‘Mário Kempes’ que vemos nas 2 fotos a esquerda.

Que é o segundo maior da Argentina só após o Monumental de Nunhez do River Plate. E mesmo ali e nos bairros vizinhos não haviam grafites ou postes decorados.

Em vários outros lugares o mesmo se repetia, pichações certamente em abundância, mas outras manifestações mais elaboradas existentes mas bem mais raras.

Córdoba lembra um pouco a gana do Chile já de forma diluída, e nas outras cidades argentinas há muita pichação mas nada (ou quase nada) além disso.

……..

Zona Sul de Buenos Aires, mas no muro há pichação do Desportivo Cali da Colômbia. Isso é comum na América Hispânica, ver emblemas de times de outros países.

Como o mapa já informou: o campeonato profissional começou em 1931. Até 1938 apenas com times da Grande Buenos Aires e de La Plata, que dista apenas 55 km da capital, enfatizando de novo.

Em 39 é admitida a participação de equipes do interior da província de Buenos Aires, e também da província de Rosário, que é vizinha.

Ou seja, a importância de Rosário no futebol nacional é histórica, data de muitas décadas.

Em 1967 enfim é criado o torneio nacional, aberto a todos. A partir daí passam a ser dois campeonatos por ano.

O nacional e um outro chamado ‘metropolitano’, que continua a ser disputado somente pelos times de Buenos Aires (capital e interior) e Rosário.

Mas muito mais das equipes locais, é claro. Avellaneda, Zona Sul. As torcidas do Racing e Independente disputam quem comanda a distante Zona Oeste. Disse que os times pequenos têm rivalidades apenas locais, e assim é. Mas esses dois são grandes, logo têm torcida na cidade inteira, e também no interior. Por isso os clubes de Avellaneda discutem quem domina um outro município da região metropolitana, que fica a 22 km dali.

Como o futebol na Argentina é grosseiramente concentrado nessas praças na prática os dois torneios tinham a mesma importância.

Repetindo, Buenos Aires e Rosário detém 100% dos títulos, mesmo depois que a disputa foi aberta a outras cidades, o que já data de 1967 num campeonato e 1980 em ambos. 

Isso porque em 1980 o metropolitano passa a incluir 3 times de Córdoba, Talleres, Racing (o local, e não o de Buenos Aires óbvio) e Instituto.

Assim vai até 1985. Portanto, repetindo, no período 1967-85 são dois campeões por ano.

Na temporada 1985/86 é extinto o metropolitano, e tudo unificado no novo campeonato nacional, agora aberto a todos os clubes.

Próximas 5, ainda pelas ruas de Avellaneda. A pichação em letra clara é de futebol. C.A.I. (Independente) é quem assina, e ameaça: “Racing puto, aqui no bairro mando eu”. Em primeiro plano, em letra escura, outro conflito não relacionado ao futebol, alguém pede “Menos La Beriso, mais rock!”. ‘La Beriso’ é uma banda de música romântica que é dali de Avellaneda.

Por 6 anos, até 1991, houve apenas uma disputa por ano. De 1991/92 até 2012 voltam a ser duas disputas por ano, a ‘Abertura’ e ‘Fechamento’ (modelo que ainda é usado na maioria dos países sul-americanos).

Porém agora não há mais discriminação, os dois campeonatos são abertos a todos os times do país. A partir de 2014 volta a ser um torneio por ano, pra igualar o calendário europeu.

……….

Fecho a matéria contando como comecei minha visita ao país. No Chile ir ao jogo foi a última coisa que fiz no estrangeiro, na Argentina inverteu, foi a primeira.

“no bico do corvo”: ‘ciclone’ x ‘furacão’ no ‘templo divino’.

Chegamos a Buenos Aires uma quarta já do meio pro fim-da-tarde. Estávamos num inferno astral.

Estádio do Racing. Repare no esgoto que corre a céu aberto, a infra-estrutura na Argentina está precária, breve falo mais disso.

Nosso voo foi mudado em São Paulo, assim nossa bagagem não foi pra Argentina, como dito acima.

Tudo atrasou bastante, o próprio avião já pousou mais tarde, perdemos muito tempo na fila do câmbio e registrando a queixas das malas.

Pra piorar, a cidade estava em caos. Chovia adoidado, e a Argentina passa por uma rebelião (por enquanto basicamente pacífica, os episódios de violência existem mas nesse início de movimento não são fatais) que tenta derrubar o governo.

Tudo já foi descrito na primeira matéria da série, breve me aprofundo mais. 

Escudos do Independente: na parede . . .

Pro que nos importa aqui, haviam protestos fechando o tráfego pela cidade inteira. Tudo somado, entramos no apartamento que ficamos hospedados no Centrão já 5 da tarde, quando era pra ter sido logo depois do almoço.

Havia planejado ver São Lourenço x Atlético Paranaense. Não sou torcedor do CAP nem de qualquer outro clube, já disse muitas vezes.

Foi apenas o jogo que se abriu, que ocorreu enquanto eu estava lá, então fui. Assim como, pra equilibrar talvez, também já vi o Coxa em outra cidade, no Independência em Belo Horizonte-MG, 2012.

Outra coisa: na Argentina e toda América Hispânica o CAP não é chamado de ‘Atlético’, mas de ‘Paranaense’. Já expliquei o porque na legenda da foto do ingresso, no alto da página.

. . . e num velho caminhão. Colapso! A frota da Argentina parece a de Cuba. Breve dezenas de fotos.

De volta a Buenos Aires. O São Lourenço é um clube médio, já campeão da América, e tem mais de 10 títulos ‘de cabotagem’ (nacionais).

Mais ou menos no mesmo nível do Veléz Sarsfielda da Zona Oeste, e dos dois clubes de Avellaneda na Zona Sul.

Ou seja, a muitas léguas de River e Boca. Mas estava de bom tamanho. Se o São Lourenço não é gigante, também não é pequeno, então dava pra pegar o espírito.

Além disso, eu sendo de Curitiba seria interessante ver uma partida do Atlético em outro país, mesmo sem ser torcedor desse time. 

Caixa d’água no Centro de Avellaneda tem o nome de todos os times da cidade, desde os pequenos até os 2 grandes lado-a-lado. Os torcedores do Racing e Independente reciprocamente se auto-denominam ‘capo’ e seus rivais de ‘puto‘. E por que ‘Racing’, ‘Newell’s Old Boys’, ‘River Plate’, ou seja, tantos times com nome em inglês? É simples, já contei quando fui ao Chile, a imigração britânica foi infinitamente maior na Argentina e Chile que no Brasil. E os britânicos foram quem fundaram vários clubes nesses países.

Então lá fui eu rumo ao Gasômetro. Planejava chegar cedo ao apê, comer, trocar de roupa e com calma estudar o roteiro e ir ao estádio de transporte coletivo ou mesmo a pé.

Sou acostumado a caminhar muitas horas seguidas, então não só isso não seria um problema como seria uma solução, eu já ia conhecendo a cidade.

Deu tudo errado, e o planejamento foi literalmente por água abaixo. Estava só com uma camiseta, sem nenhum casaco. Sem almoço.

Pelo horário avançado, chuva pesada, horário de pico e mais a cidade estando sitiada pelos piqueteiros, tudo somado a meu desconhecimento das linhas de ônibus e metrô, não dava mais pra ir por conta própria.

Tive que pegar um táxi que cobrou bem caro, nada menos que 100 reais do Centro ao estádio, que não é tão distante assim, na Zona Sul da capital. 

Mas não desisti, persisti ‘contra tudo e contra todos’: Estava sem almoçar, só comera um sanduichinho minúsculo no avião. Eu como bastante, peso pouco mais de 100 kg.

Então praticamente em jejum há 12 horas, estava com fome mesmo. E muito, muito frio. Saí do Brasil apenas de camiseta, pois estava quente.

Buenos Aires esfria muito no fim-de-tarde no outono, todo mundo veste casacos, mas eu não tinha com o que me abrigar pois a mala não veio. Chovia demais. Então lá estava eu, com fome, roupa encharcada que o vento frio me dava a sensação de estar no Polo Sul (ou quem sabe no Polo Norte?).

Ufa!!! São Lourenço campeão da Libertadores/2014. Acabou a piada mais antiga do futebol da Argentina. As iniciais do Clube Atlético São Lourenço de Almagro são ‘C.A.S.L.A.’. Como ele era o único grande sem esse título, os rivais diziam que a sigla era de ‘Clube Ainda Sem Libertadores da América’. Agora não mais, informa o mural no estádio.

Se tudo fosse pouco, o entorno do estádio é uma parte bastante perigosa da cidade. Bem em frente há uma enorme favela, uma das maiores da capital, o que já ajuda compor o cenário. Todos recomendaram não andar pelas ruas sob risco iminente de ser roubado.

Assim, enfrentando fome, frio, chuva, possibilidade de assaltos e uma cidade paralisada por protestos, cheguei ao Novo Gasômetro, o estádio do São Lourenço. Fica no bairro portenho de Flores.

Alias falando em roubos, o estádio anterior era na época simplesmente ‘o Gasômetro’, mas o terreno foi confiscado pela ditadura militar, e hoje abriga um supermercado Carrefour.

Passei em frente, o taxista me mostrou o local e contou a história. O clube até hoje não perdoa a ‘mão-grande’, e quem perdoaria? Há um movimento muito forte pra que o espaço seja devolvido ao São Lourenço, e ali se erga novamente o estádio. “Voltaremos a Boedo”, é o mantra mais forte de sua torcida.

Ao lado uma imagem que resume a luta, um menino com a camisa do time no estacionamento do mercado. Quando seu pai tinha a mesma idade, nesse exato local era a entrada do estádio, veja o vídeo.

O time foi fundado em 1908, e sua antiga sede ficava no bairro de Almagro, daí o nome. Mas depois o bairro de Boedo foi seccionado de Almagro, por isso o São Lourenço de Almagro quer voltar a Boedo. Incluso já é lei municipal. Veremos se será cumprida.

Mais um grafite: São Lourenço é ‘o Corvo’. Também é conhecido como ‘Ciclone‘. Seu rival da Z/Sul é o Furacão, daí o clássico ‘Ciclone x Furacão’. Quando o CAP – que também é o ‘Furacão’ – jogou lá, o emparelhamento se repetiu. Em tempo: o Cerro Portenho de Assunção tem as mesmas cores, mesmo escudo e mesmo apelido de Ciclone, ‘clonou’ o S. Lourenço, prática comum no Paraguai.

Deixemos a história pra lá e falemos de 2017, quando fui ao Novo Gasômetro. Ainda precisava providenciar o ingresso. Bem, essa parte foi mais fácil que eu esperava.

Assim que entrei no complexo esportivo de propriedade do clube (que inclui também ginásio, piscinas, quadras de tênis e diversos outros campos usado pra treino) fui abordado por vários cambistas.

Como chovia muito – e portanto a audiência seria muito abaixo da esperada – eles desovavam as entradas pelo preço de custo. O que não era barato. Pra não-sócios (lá o termo é ‘convidado’) a entrada custa 400 pesos, ou seja 80 reais.

Fui a jogos no Chile e Paraguai, paguei o equivalente a 20 e 10 reais respectivamente.  Tudo bem que já passou um tempinho, fazem 2 anos que estive no Estádio da Praia Grande em Valparaíso e 4 no Defensores do Chaco em Assunção.

Voltando a Argentina, o jogo do Independente era ainda mais salgado, 50 reais pra não-sócios. O futebol na Argentina está todo voltado pra que apenas sócios frequentem as canchas. Pra você ser sócio do São Lourenço custa apenas 330 pesos ou 66 reais por mês, ou seja menos que um ingresso unitário pros não-sócios.

A mesma ave no ponto em frente ao estádio do ramal sudoeste do sistema de ônibus Metro-Bus. Em outra mensagem, breve, o transporte na Argentina.

Um detalhe importante: no Brasil, vários campos de futebol passaram pro um processo de modernização. E em muitos casos parecem teatros, com amplos estacionamentos, butiques, praças de alimentação e em alguns casos banheiros com mármore.

O exemplo é o Maracanã, que abrigou 200 mil pessoas, e hoje tem capacidade pra um terço disso, eliminaram a famosa geral que era onde ficava o povão, a massa folclórica de descamisados que vinha de trem.

Na América Hispânica, esse está longe de ser o caso. Os estádios não foram reformados, e ainda contam com a mesma parca estrutura de décadas atrás. No Gasômetro do São Lourenço o aquecimento da torcida é no vão embaixo da arquibancada, que está cheia de goteiras.

De volta a Avellaneda. Se o tema é transporte coletivo, agora segura essa: a massa do ‘Diabo Rubro’ chega ao estádio. Ao fundo o trem suburbano.

Pra se alimentar, há uma tosca lanchonete em que você se espreme num balcão de concreto pra comprar pão com bife ou linguiça, comida altamente calórica e gordurosa. E pra beber? Copos de plástico com Coca-Cola.

Cheguei ali ensopado, com frio e fome, como já expliquei. Não podia comer nada pois não tinha dinheiro.

A “Gloriosa”, a ‘barra-brava’ (torcida organizada) do São Lourenço, estava se agrupando, faltava hora e pouco pra bola rolar.

A princípio havia um forte cheiro de carne de segunda sendo assada, pois estávamos ao lado da lanchonete. Quando a rapaziada da Gloriosa formou a roda, o odor dominante foi substituído pelo de maconha.

Também em frente do campo do Independente.

A bateria começou a tocar. Os bumbos e pratos são no mesmo instrumento, ou seja um tambor com um prato colado acima.

O cara fica com um bastão na direita e outro prato na esquerda, e toca os dois ao mesmo tempo.

Poucos minutos antes do apito inicial, passamos pra arquibancada. Aí adentraram os saxofones. Toda torcida da Argentina conta com uma orquestra de saxofonistas.

Aqui e a esquerda: Racing x Independente, o ‘Clássico de Avellaneda’, ‘Clássico Suburbano‘, e também o ‘Clássico da Zona Sul’ – o metropolitano da Z/S, o municipal é São Lourenço x Furacão como dito acima.

Logo aos 3 minutos o time brasileiro abriu o placar, por ironia o tento foi marcado por um argentino (Lucho González), de cabeça.

Eu fotografava a torcida e não vi o gol, que acabou sendo o único da partida. No segundo tempo o time da casa bateu um pênalti pra fora.

Como dito acima, a torcida do São Lourenço cantou, pulou e batucou o tempo inteiro, mesmo numa noite fria e chuvosa, mesmo perdendo desde o começo.

Já havia passado pelo mesmo na Colômbia e Chile (no Paraguai fui ver um time pequeno, e o gigante Defensores do Chaco estava deserto. Além disso, nesse caso fiquei no lado oposto ao da torcida organizada).

Mas faltava vivê-lo na Argentina, em Buenos Aires, cidade que contando com os subúrbios concentra nada menos que 24 Libertadores. Valeu a pena enfrentar todas as dificuldades materiais.

É sempre um clima tenso. Jogadores de ambas as equipes se enfrentam ‘olho-no-olho‘ (r).

É uma experiência de arrepiar. De arrepiar, mano. Lágrimas de emoção escorriam dos olhos, e todos os pelos do corpo se eriçavam (veja o vídeo ligado mais pro alto na página pra saber como é a festa da torcida).

Eu ali, no ‘Templo Divino’ – me refiro a que o Papa é torcedor declarado do São Lourenço, há murais relativos a esse fato. ‘Contra tudo e contra todos’, eu chegara ali.

Frio, chuva, fome, forte cheiro de linguiça barata e de erva – ainda mais barata – no ar. Olhando pro lado, via os ‘prédios artesanais’ da favela em frente, que já atingem o 3º ou 4º andar.

No meio daquela massa que pulava e cantava, especialmente quando entoavam os cânticos relativos a conquista da Libertadores, sonho centenário do time enfim realizado. A bateria batendo forte.

“Agante Boca”, no Centro de Buenos Aires. Na verdade o autor quis dizer ‘aguante’, literalmente ‘aguente’, mas no léxico esportivo castelhano significa ‘torcida’. ‘No tienes aguante’ quer dizer ‘teu time não tem torcida’. Um rival adicionou o clássico ‘puto’.

É Transcendental. Buenos Aires É futebol. Naquele momento, eu tive uma espécie de ‘Samadhi’, se você sabe o que é isso. 

Captava a Essência da Alma Argentina, de seu Logos. E (por alguns momentos que fosse) eu era parte dela, era Um com essa Vibração. 

Se no dia seguinte cedo eu tivesse pegado um avião e voltado pro Brasil sem ter visto mais nada da Argentina, a viagem (com todos os seus inúmeros problemas até ali) já teria valido a pena.

…………

Que Deus Ilumine a Todos.

“Deus proverá

“Ascensão & Queda”: a Argentina vista por dentro

Obelisco da 9 de Julho, Centro de Buenos Aires, o cartão-postal do país.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de abril de 2017

Mensagem-Portal sobre a Argentina. Ao fim do texto ancoro as outras mensagens da série.

No fim do século 19, e por toda a primeira metade do 20, a Argentina era um país de primeiríssimo mundo.

Um verdadeiro pedaço da Europa em plena América.

Ops, mas veja atrás dele: sem-tetos dormem em plena luz do dia. Imagem que sintetiza a crise social que a Argentina atravessa.

Muito, mas muito acima de seus vizinhos latino-americanos com exceção do Uruguai (que é uma nação muito pequena, e portanto muito mais homogênea).

A ascensão foi intensa e notória.

Porém, as coisas mudam. Num processo que se iniciou após a 2ª guerra mundial e se acentuou rapidamente nas últimas décadas, a Argentina empobreceu visivelmente.

Hoje não há nada de europeu nela. É exatamente o mesmo padrão de toda América Latina, com tudo que isso representa.

Maior o voo, maior a queda, como dizem. A decadência também tem sido intensa e notória.

………..

Antes que os mais apressados corram pra corrigir o que eu não disse, eu não estou afirmando que a Argentina está mais pobre que o Brasil.

Abra matéria do jornal ‘La Nación’ que você vai se assustar (essa imagem e a próxima vieram dali). Em 2000, 100 mil pessoas moravam em favelas no município de Bs. As. . No censo de 2010 já se contabilizaram 160 mil, e as estimativas são que em 2017 já são 275 mil. Quase triplicou somente nesse milênio, portanto. Acima da manchete está a favela Vila 31, bem no Centrão da capital, aparecem os prédios chiques ao fundo.  Imagem que vale por mil palavras: a Vila 31 em 2001, e apenas 12 anos depois em 2013 com o quíntuplo do tamanho.

As duas nações estão mais ou menos no mesmo nível. A questão é que até 1970, digamos, a Argentina era 10 vezes mais rica que o Brasil.

Era notório o exemplo que os peões dos prédios que eram construídos em Buenos Aires comiam nas horas de almoço churrasco só com carne de primeira (alcatra, picanha, etc).

Tudo assado no próprio canteiro de obras, posto que a Argentina era e é grande produtora de gado, o que também barateava a matéria-prima.

Mas o principal é que a classe proletária de lá ganhava muito, mas infinitamente muito mais que a daqui na mesma época.

Já que então os operários da construção civil do Rio e SP moravam em barracos de papelão nas inúmeras favelas dessas cidades, e comiam geralmente arroz-&-feijão engrossado com muita farinha.

Precisa dizer mais??

Um ovo frito ou bife de carne de segunda já era um luxo que nem todos podiam dispôr.

Portanto a Argentina estava a anos-luz do Brasil, Colômbia, e muito a frente mesmo do Chile. Isso na primeira metade do século 20 e até as duas ou três décadas posteriores a segunda grande guerra.

Um exemplo vai selar a questão em definitivo: o metrô de Buenos Aires (abreviada ‘Bs. As.’) é de 1913. Um dos mais antigos do mundo.

O de Londres-Inglaterra foi eletrificado (e portanto a partir daí considerado metrô) em 1890. O de Paris-França é de 1900, Nova Iorque-EUA inaugurou o seu em 1904.

Vamos também mostrar as partes bonitas da Argentina, é óbvio. Aqui e a direita, a região dos bairros Palermo e Recoleta, Zona Norte, a porção rica de Buenos Aires.

Portanto o metrô da capital argentina é apenas 13 mais novo que o da capital francesa, e veio menos de uma década depois da principal cidade estadunidense. 

Mais: o metrô de Buenos Aires (lá chamado ‘subte’, diminutivo de ‘subterrâneo’) foi o 1º de todo Hemisfério Sul, o 1º de toda América Latina.

E, se tudo fosse pouco, o 1º de um país de língua espanhola, pois mesmo o de Madri-Espanha chegou 6 anos depois dele.

O metrô de Lisboa-Portugal, que também é Europa Ocidental, só foi rodar em 1959.

Hoje a China tem os dois maiores sistemas de metrô do mundo, nas suas capitais política e econômica Pequim e Xangai.

Entretanto o metrô de Pequim é de 1965, e o de Xangai ainda mais novo, entrou em operação bem recentemente, em 1993. Já que estamos na Ásia, Tóquio-Japão fez o seu em 1927, e o de Seul-Coreia do Sul é de 1974.

Hoje esses dois sistemas são infinitamente maiores que os de Buenos Aires, mas os portenhos contaram com esse conforto 14 anos antes que os japoneses, e 61 anos antes dos coreanos.

Todas as cidades argentinas são bastante arborizadas, não tanto no Paraguai, ainda assim abundante. Seja na alta burguesia (esse caso aqui) quanto na periferia.

Somente no mesmo ano de 1974 o Brasil passou a contar com esse modal, quando São Paulo inaugurou sua primeira linha.

No México D.F. em 1969, pouquíssimo antes de SP e muitíssimo depois de Bs. As. . O primeiro e até agora único metrô da Colômbia, o de Medelím, data de apenas 1995.

Assim fica evidente o passado glorioso da Argentina. Muito próxima na Linha do Tempo de Londres, Nova Iorque e Paris, e a frente mesmo de Madri (a ex-colônia superou sua antiga metrópole).

E décadas e décadas a frente de Portugal, Brasil, México, China e Colômbia. No entanto essa não é mais a situação do país, exatamente o oposto sendo verdadeiro.

Argentina É futebol. Das 57 Libertadores, os caras ganharam nada menos que 24, ou seja, quase metade das taças ficou por lá. Pra sentir essa frequência, fui ao Novo Gasômetro conferir São Lourenço (o time do Papa e campeão de 2014) x Atlético Paranaense por esse torneio. Eu sou de Curitiba mas não sou torcedor do CAP, foi apenas o jogo que deu certo de eu ir, assim como já vi o Coxa fora de casa, em Belo Horizonte-MG, 2012.

Hoje Brasil e Argentina estão num nível parecido de ‘desfuncionalidade’ e de desigualdade social – isto é, muito elevado.

Mas antes não era assim. No passado o Brasil era ainda mais pobre e injusto, portanto houve uma melhora.

Não estou justificando o nível de desigualdade social em nosso país.

Alias em várias partes, de Fortaleza-CE a Florianópolis-SC e também aqui em Curitiba, já retratei bastante vezes o quão agudo é esse contraste.

Ainda assim, houve significativa redução da miséria em nosso país nas últimas duas décadas. Embora obviamente haja muito por fazer, diversas das favelas mais feias foram removidas/urbanizadas.

Quem conhece São Paulo, por exemplo, vai se lembrar que até o começo dos anos 2000 haviam diversas favelas miseráveis nas ilhas da Marginal Tietê (‘ilhas’ dos viadutos, e não do rio), por exemplo.

“Passeador de Cachorros”, outra cena que sintetiza a Alma Argentina. Provavelmente esse garoto não é o dono de todos esses animais, ao contrário, ele ganha dinheiro das madames pra dar um volta no parque com os bichinhos. Foto na Z/N da capital.

Essas pessoas foram transferidas pra apartamentos no estilo ‘Cingapura’, o que é uma melhora inegável.

Então ainda há seríssimos problemas, mas é fato que a situação se amenizou um pouco ultimamente no Brasil.

A Argentina vai na mão oposta, isso é que quero apontar.

Essa nação, que um dia foi muito rica e olhava toda a América Latina de cima (com exceção de seu pequeno vizinho Uruguai) hoje não tem mais esse privilégio.

Então a Argentina é mais pobre que o Brasil? Não, não é. Mas num passado recente, ela foi muitíssimo mais rica, e agora não é mais.

A Argentina é o pior país da América Latina em termos de estrutura social? Obviamente não. Porém um dia ela foi disparado o melhor, tanto que era pensada como a ‘Europa na América’.

E hoje ela está no mesmo nível dos vizinhos, a frente dos mais miseráveis é certo, mas não acima do Brasil, Chile, México e Colômbia, pra citar somente alguns.

E aqui mais uma: performance pública de tango na Feira de Artesanato de São Telmo, Centro Velho de Buenos Aires. Já fiz minha versão dessa cena com Marília & Maurílio.

A queda é real, e absolutamente palpável. Só que ‘quem foi rei nunca perde a majestade’.

Assim esse processo de câmbio, de uma nação rica e homogênea europeizada pra uma realidade totalmente latino-americana com tudo que isso representa, tem sido difícil de ser digerida pelos argentinos.

Resultado: a Argentina está numa convulsão social gravíssima, em múltiplas dimensões.

Chegamos lá, no meio de março.17, numa Buenos Aires em caos. Chovia muito, essa foi a contribuição da Mãe-Natureza.

Mas além do clima, e essa é a parte feita pelas mãos do Homem e da Mulher, a capital estava coalhada de protestos.

Com todo o Centro sitiado, diversas avenidas interrompidas por manifestações. Foram esss as ‘boas-vindas’ que recebemos. 

A direita exatamente a primeira cena que vimos no país, piqueteiros fechavam o tráfego na Avenida Nove de Julho, umas principais da cidade.

Na hora de irmos embora, na última noite esperávamos nosso ônibus na Rodoviária de Córdoba.

A confusão foi a noite inteira. Quase 10 da noite, quando retornei do estádio, a Praça de Maio continuava ocupada pelos manifestantes, com suas vias de acesso fechadas.

E nada dele chegar, já iam 45 minutos de atraso, estávamos preocupados pois no dia seguinte seria o voo pro Brasil saindo de Bs. As. .

Quando o veículo afinal encostou na plataforma, os funcionários explicaram:

O ônibus havia sido apedrejado ao passar perto de um protesto. Felizmente estava vazio e ninguém se feriu. E assim foi a despedida.

No dia seguinte, todo o Centro de Bs. As. permanecia sitiado, avisos pela cidade alertavam os motoristas pra evitarem as zonas de confronto. Pouco antes de eu tirar essa foto, 5 policiais me cercaram, revistaram minha câmera e exigiram que eu apagasse algumas imagens. Isso é estado de direito ou anarquia??

Da chegada a partida, uma síntese da crise que assola a Argentina, e que não irá terminar tão cedo, pois é um processo estrutural, que já dura décadas.

Após meteórica ascensão que fez a capital argentina ter metrô antes que sua antiga (e orgulhosa) metrópole, a readequação a realidade latino-americana, que será perene nesse século 21.

Não, a Argentina não retornará ao 1º mundo. E está vivendo ‘as dores do parto’ dessa nova frequência.

Bem-vinda a América, agora de corpo & alma, Argentina querida. Nós estávamos te aguardando, e a hora chegou. Agora que a ‘ilusão europeia’ se dissipou, definitivamente estamos todos no mesmo barco.

Insurreição: diversos grupos promovem um levante que visa ‘derrotar’ (derrubar) o presidente Maurício Macri. No mês seguinte (abril.17, quando produzo o texto) o caos continuava, com mais greves-gerais nacionais. Nem sempre os protestos são pacíficos, esse é o perigo.

………..

A série ainda vai longe, essa é apenas uma pequena introdução. Em outra mensagem falamos melhor da conturbada situação política argentina, passado e pressente.

Desde a ‘guerra suja’ de Videla com suas ‘escolas’ e cidades ‘ocultas’, até o presente momento, em que Macri implantou uma política neo-liberal, soltando um ‘tarifaço‘ e arrocho nos salários.

Assim os movimentos sociais vem fazendo um movimento de insurreição pra derrubá-lo, como a imagem ao lado deixa nítido.

Fazendo uma leve pincelada no passado, a ditadura argentina foi crudelíssima, infinitamente pior que no Brasil.

Infinitamente, quem não estudou a fundo não tem noção do que ocorreu por lá. Em apenas 7 anos o regime desapareceu 30 mil pessoas.

No Brasil, calcula-se que tenham morrido no auge da repressão perto de mil pessoas.

A prova: em Córdoba, o trem suburbano passava dentro de um ‘assentamento’, a “Vila de Nylon” (ou ‘Náilon’ na pronúncia latinizada). Os comboios estavam sendo apedrejados com frequência, obrigando a suspender o serviço no trecho conturbado, agora ele opera da Estação Rodrigues do Busto (que já é na saída da cidade) até Cosquín no interior da província, evitando assim a parte mais problemática dentro da cidade de Córdoba.

Sendo que  nem todos foram mortos pelos militares, pois as guerrilhas também assassinaram gente em atos que eles denominavam ‘justiçamentos’.

Pois bem. Considere que a população argentina é um quinto da brasileira. Portanto os 30 mil mortos de lá equivaleriam a 150 mil aqui.

Resultando que a ditadura argentina foi 150 vezes mais letal que a brasileira, ou, ainda tirando 50% de brinde, nada menos que 100 vezes pior.

O regime de Videla se assemelha mais ao de Pol Pot que ao de Médici. Na Argentina os presos enfrentaram torturas inimagináveis aos brasileiros, que descrevo nesse texto.

……….

Por hora, falemos um pouco mais sobre como é o país em termos gerais. A Argentina tem 44 milhões de habitantes.

Como eu já disse quando retornei da Colômbia:

Infelizmente apedrejamentos do transporte coletivo são comuns em Córdoba e toda Argentina. Na estação dessa cidade, flagrei um trem que tem o para-brisas gradeado. No auge dos ‘problemas’ do ‘Apartheid’ na África do Sul  os ônibus e trens eram assim, mas hoje não mais. Por aí você vê como está a Argentina atualmente. Logo ao lado eu vi uma locomotiva que não tinha proteção, e o vidro estava inteiro perfurado por pedras. Não deu pra fotografar porque a composição que eu estava já se encontrava em movimento.

Muitos brasileiros de classe média pensam erroneamente que a Argentina é o 2º país sul-americano em população, logo após o Brasil, pela Argentina ser mais próxima física e culturalmente do Centro-Sul Brasileiro.

Nada poderia ser mais distante da realidade. A Colômbia é quem ocupa esse posto, com 48 milhões de pessoas, 10% a mais que a Argentina portanto.

Voltando ao nosso vizinho a sudoeste. Na capital Buenos Aires (no ‘conurbado’, núcleo mais subúrbios metropolitanos) residem 14 milhões de argentinos.

Apenas no município de Buenos Aires (que no Brasil e México seria o ‘Distrito Federal‘, lá antes chamado ‘Capital Federal’, agora ”Cidade Autônoma de Bs. As.”) são 3 milhões.

Portanto outros 11 milhões vivem na mesma cidade que é a Grande Buenos Aires mas nos municípios da região metropolitana, que ficam em outro estado, a Província de Buenos Aires.

A todos os problemas políticos, some-se a criminalidade comum , que também está elevada. Em 2 semanas, houve 5 sequestros na Zona Oeste de Buenos Aires. Suspeita-se que todos cometidos pela mesma quadrilha, sediada no conjunto ‘Forte Apache‘ – sim, é onde Tévez foi criado. A onda de raptos não se resume a capital, nos jornais de Mendonça as notícias são as mesmas, como veremos em postagem futura. Uma “Terra em Convulsão”, sem dúvidas. . .

Já eu falo mais da divisão política da capital, da distinção entre a ‘Cidade Autônoma’ (C.A.B.A.) e os subúrbios metropolitanos da ‘Província’ (A.M.B.A.).

Por hora, vamos ao interior. A segunda maior cidade argentina é Córdoba – também se escreve ‘Córdova’, a pronúncia é a mesma.

Linguística a parte, a Grande Córdoba tem 1,5 milhão de pessoas, sendo quase todos (1,4 milhão) no município de Córdoba mesmo. Visitei essa cidade, e breve lanço matéria específica sobre ela.

Depois vem Rosário, que conta com 1,3 milhão de Homens e Mulheres. Ali não tive oportunidade de ir. 

E a seguir Mendonça, que acaba de ultrapassar 1 milhão. Nessa também fui e breve falaremos com muito mais detalhes, ricamente ilustrado.

São as únicas 4 cidades argentinas que abrigam mais de 1 milhão de habitantes (as estatísticas têm como fonte o sítio ‘City Population’, disponível em inglês e alemão.)

………

Córdoba, como acabo de dizer, quase não tem região metropolitana. Dos 1,5 milhão de pessoas, 1,4 miram no núcleo, o município de Córdoba mesmo. Repito a informação pra fazer o contraste com Mendonça, onde a situação é diametralmente oposta.

Dos 1 milhão de argentinos que moram na cidade que é a Grande Mendonça, apenas 119 mil vivem no município de Mendonça, pouco mais de 10% portanto.

É que o município de Mendonça é minúsculo em área, como o mapa deixa claro. 

Abrange apenas o Centrão e uma parte da Zona Oeste (onde ficam o estádio e a universidade) e outra da Zona Norte.

Mafalda é uma deusa neo-pagã em B. Aires, seu rosto está por toda parte, há quase uma relação de culto em relação a ela na cidade. Aqui na Feira de São Telmo. No interior não é assim, fora da capital ela é uma menina personagem de quadrinhos que muitas pessoas curtem, mas não um ícone a ser idolatrado.

Quase toda a área urbana da cidade fica em outros municípios. A capital estadual é apenas o 6º município mais populoso da Grande Mendonça, você acredita nisso?

Pois é a realidade. O município mais povoado da Grande Mendonça é Guaymallén, com 320 mil. Pega quase toda a Zona Leste da cidade.

Como acabo de dizer e é notório, o município da capital da província é muito pequeno.

Você está no marco zero de Mendonça, a ‘Praça de Armas’ da cidade do tempo da colonização espanhola (no México o ‘Zócalo’), ou seja em seu núcleo mesmo, onde há aquela fonte com a bandeira argentina.

Pois bem. Caminhe 9 quadras pra leste. Apenas nove quadras o que dá menos de 1 quilômetro, quinze minutos a pé.

Você ainda está na Zona Central da Grande Mendonça, mas não mais no município de Mendonça, e sim em Guaymallén. 

O plátano é uma árvore típica de lugares frios. Símbolo-mor do Canadá, estampa inclusive sua bandeira, e também representa Campos do Jordão-SP, a cidade mais alta do Brasil. Pois bem. Na Argentina ela também é muito comum, essa está no Centro de Bs. As., perto da Casa Rosada e Porto Madeiro.

Depois vem Las Heras, com 227 mil, que corresponde a maior parte da Zona Norte.

A seguir Godoy Cruz, 203 mil. Se espraia entre as Zonas Oeste e Sul de Mendonça.

Seu vizinho em área e número de habitantes é Maipú, onde vivem 193 mil pessoas. Parte da Zona Sul e a parte da Zona Leste.

O extremo da Zona Sul já fica em Luján de Cuyo, moradia de mais 137 mendoncinos.

Parece incrível mas é isso mesmo, o município de Mendonça é apenas o 6º mais populoso da cidade que é Mendonça.

No Brasil, temos um paralelo com essa situação no Espírito Santo.

Já que falamos nela, eis a Casa Rosada na Praça de Maio, sede da presidência da nação.

Pois o município de Vitória, capital do estado, é apenas o 4º mais populoso da Grande Vitória, atrás de Serra, Vila Velha e Cariacica.

……….

Agora vamos pra capital. Pra quem não conhece o sistema político argentino, é um pouco complicado definir ‘Buenos Aires’, pois isso pode se referir a 3 coisas distintas

O município de Buenos Aires. Equivalente ao nosso ‘Distrito Federal’;

A província de Buenos Aires. Como todos sabem, as ‘províncias’ seriam chamadas de ‘estados’ no Brasil, México e EUA, entre outros países;

Congresso Argentino, em outra parte do Centro. Até que o efeito da chuva ficou legal, não?

E a cidade que é a Grande Buenos Aires, o ‘Conurbado’.

O município de Buenos Aires é circundado pela província de Buenos Aires mas não faz parte dela, como o D.F. brasileiro está dentro de Goiás mas não pertence a esse estado.

No México ocorre, o mesmo, expliquei em detalhes quando voltei de lá, com o agravante que o termo ‘México’ designa 4 esferas diferentes:

A nação; o município da capital que é o Distrito Federal; o estado que o circunda mas de quem o DF não faz parte;

Continuando na mesma frequência, a Assembleia Legislativa do estado (‘província’) de Córdoba.

E por fim a cidade que é Grande México, núcleo mais subúrbios, que incluem todos os que moram no DF e parte dos que moram no ‘Estado do México’.

Pra gente entender, ajuda muito relembrar como era a situação no Brasil até 20 de abril de 1960, ou seja, quando o Rio era nossa capital.

Havia o município do Rio de Janeiro, o ‘Distrito Federal’. Havia o estado do Rio de Janeiro, que circundava o DF mas não o abrangia, a capital era Niterói como sabem.

E por fim havia a cidade que era o Grande Rio, que compreendia núcleo mais subúrbios.

Esse incluía todo o DF (município do Rio de Janeiro) mais alguns subúrbios que ficavam no Estado do Rio de Janeiro, como Duque de Caxias, a própria Niterói e vários outros.

Quem morava nesses municípios obviamente vivia na mesma aglomeração urbana que os habitantes do Distrito Federal, malgrado a divisa estadual. Agora, havia também o interior do Estado do Rio.

O Rio Suquía corta toda cidade de Córdoba. Nos postes, a bandeira argentina.

Certamente os habitantes de Campos, Angra dos Reis, Volta Redonda, Petrópolis, entre muitas outras cidades, vivem no Estado do Rio de Janeiro, mas não no Grande Rio.

Voltando a Argentina, lá essa ainda é a realidade até hoje. Há o que moram no núcleo, o município de Buenos Aires.

Há os que moram em outro estado, a Província de Buenos Aires (ou simplesmente ‘a Província’ na linguagem popular) mas na mesma cidade que é a Grande Buenos Aires, nos subúrbios metropolitanos conurbados.

E há os que moram na Província de Buenos Aires mas não na Grande Buenos Aires, em cidades menores afastadas da capital ou mesmo no interior.

Jardim Botânico de Buenos Aires.

……

Repetindo, antigamente o município de Buenos Aires era conhecido como a ‘Capital Federal’, e hoje é a ‘Cidade Autônoma de Buenos Aires’.

O termo ‘autônoma’ se refere exatamente a que esse município não pertence a nenhum estado.

Já que tem autonomia em relação a essa esfera administrativa, situação exclusiva nessa pátria justamente por ser a capital dela.

A abreviação é ‘C.A.B.A.’, formada pelas iniciais, e esse termo é amplamente usado lá, mesmo no dia-a-dia sem conotação técnica, pra designar a capital. Exemplo numa pizzaria ao lado.

Na C.A.B.A. moram perto de 3 milhões de pessoas, número que se mantém mais ou menos estável há quase 50 anos, desde o censo de 1970.

Mas a cidade que é a Grande Buenos Aires tem hoje 14 milhões, portanto 11 vivem na ‘Província’. Aí é que está.

Anoitecer no Centro de Avellaneda, município na Zona Sul da Grande Buenos Aires, que sedia o Independente e o Racing – ambos já ganharam a Libertadores, portanto em Bs. As. até o ‘clássico suburbano’ envolve dois campeões dessa competição máxima da América.

Em 1970, esse número era de também mais ou menos 3 milhões, resultando que foi multiplicado em quase 4 vezes nas últimas 5 décadas.

Oras, coloquemos no contexto histórico e geográfico. Obviamente a Zona Central, o núcleo, o Distrito Federal de uma capital tem o padrão de vida muito mais elevado que sua periferia.

Em 1970, a Argentina vivia os últimos espasmos de sua fase gloriosa anterior como integrante do 1º mundo.

Então os portenhos já tinham metrô a quase 6 décadas, enquanto nenhuma cidade brasileira contava com essa benfeitoria.

E nesse ano a divisão da Grande Buenos Aires era praticamente meio-a-meio: metade no núcleo, a Capital Federal. E metade nos subúrbios metropolitanos que ficam em outro estado.

Outro Pôr-do-Sol também na Região Metropolitana de Buenos Aires, mas agora do outro lado da metrópole: município de Vicente Lopes, Zona Norte.

Assim, não é difícil de ver que a capital argentina era, como suas equivalentes europeias, uma cidade majoritariamente de classe média.

Onde mesmo os peões de obra comiam picanha diariamente, evidenciando que já haviam adentrado a classe média-baixa.

Hoje a proporção núcleo/subúrbio inter-estadual se alterou pra uma proporção de mais de 4 pra 1 a favor do último.

Óbvio que nem todos os que moram na ‘Província’ são pobres.

Óbvio. Exatamente ao contrário, há subúrbios de altíssimo padrão, especialmente na Zona Norte mas também a Oeste e Sul.

“Trabalho em negro” significa “sem carteira assinada”. Em Córdoba mais de um terço dos trabalhadores está nessa condição de sub-emprego. Em algumas cidades chega quase a metade. Ainda assim, os índices oficiais de des/e sub-emprego baixaram em março. Os sindicatos dizem que as estatísticas foram fraudadas.

Acabamos de ver imagens do Centro de Vic. Lopes e Avellaneda. Breve detalho melhor esse ponto também, inclusive com muito mais fotos

Na divisa com a capital na Z/S e Z/O, e bem mais avançado na Z/N, vários municípios da Grande Buenos Aires tem um padrão de vida similar ao da capital.

Entretanto, também é óbvio que quando mais você se afastando do Centro, mais difícil a coisa vai ficando.

E como o subúrbio está inchando descontroladamente, natural que a pobreza esteja aumentando em níveis alarmantes.

Uma pequena parte desse aumento é de uma classe afluente, sim, mas o grosso é do povão, da classe proletária.

Fora que mesmo na parte riquíssima da Capital Federal as favelas têm se multiplicado como cogumelos após a chuva.

Resultado: a muito Buenos Aires não é mais majoritariamente de classe média.

Houve nova greve geral no começo de abril.17. O índice oficial caiu. Foram criados mais postos de trabalho, e mais gente está trabalhando? Não, exatamente ao contrário. Há cada vez menos empregos com carteira assinada, assim simplesmente as pessoas pararam de procurar ocupação formal. Foram trabalhar por conta, muitos como como camelôs ou flanelinhas.

Há muito isso virou passado, um sonho distante, que os mais velhos se lembram com agoniosa nostalgia, e os mais jovens não chegaram a vivenciar.

A Argentina de hoje, especialmente sua capital, tem pirâmide de concentração de renda exatamente igual a qualquer país da América Latina:

Alguns obscenamente ricos, uma pequena classe-média que está cada vez mais encolhendo, e uma massa de despossuídos, que apenas sobrevive ou as vezes nem isso.

‘mad max em mendonça’; e risco de vida triplo em buenos aires.

Catador de papel em Buenos Aires . . .

Obviamente fui conferir de perto essa transição, que não tem sido nada suave. Voltei a pé do Novas Quintas, o bairro mais ocidental de Mendonça, a pé até o Centro.

Deu quase 20 km, mais ou menos 4 horas de caminhada. Em outra mensagem conto melhor essa aventura.

Apenas como aperitivo, os bairros mais a Oeste da cidade estão a mais de 300 metros e nesse ponto extremo cerca de 400 metros mais altos que o Centro, logo você vê a metrópole inteira lá de cima.

Aqui o que nos importa é: atrás do Aero-Clube há uma nem tão pequena favela. As margens de um enorme canal, que nessa época do ano fica quase vazio, um mero riachinho, mas na primavera se torna um potente rio caudaloso.

. . . e flanelinhas em Mendonça. Oficialmente, essas pessoas não estão desempregadas, pois elas não buscam um emprego com carteira que sabem que não existe. Em tempos de crise, é assim que as estatísticas de desemprego baixam, na Argentina e toda parte.

Presenciei a mesma situação em Santiago do Chile, e o motivo é o mesmo: no verão, apenas os picos mais altos dos Andes se mantém nevados.

No outono a neve começa a se acumular na cadeia de montanhas.

No inverno toda a Cordilheira fica branca de neve, tão abundante a ponto de propiciar inclusive muitas estações de esqui como é notório.

E na primavera a neve derrete, escorre pra cidade, onde a água é usada pro consumo humano.

Duas cenas da favela na Zona Oeste de Menonça que eu passei ao lado. As fotos foram puxadas via ‘Google Mapas’ porque minha máquina ficou sem bateria.

Toda Mendonça é cortada por pequenos canais, pra levar pras casas a água resultante do desgelo dos Andes na primavera. Toda ela, Centro, classe média e subúrbios.

Em Santiago isso também ocorre mas apenas em pequenas partes da Zona Leste, no resto da cidade não.

Santiago e Mendonça ficam em países distintos, mas são muito próximas, física e principalmente culturalmente.

Natural, pois elas estão bem pertinho, uma em cada margem da montanha. Depois nós falamos disso mais detalhadamente.

Repare no esgoto correndo a céu aberto.

Aqui o que nos importa é: tanto Santiago quanto muito mais Mendonça têm rios intermitentes, isso é, que só existem em determinadas épocas do ano.

Na primavera, com toneladas de neve derretida descendo da Cordilheiras, esses cursos d’água se tornam colossais, se você cair neles será fatalmente arrastado pela correnteza e caso não seja exímio nadador não sobreviverá.

Também via ‘Google’, eis o canal do rio em Mendonça, que fica seco do verão ao outono. Em compensação, quase não tem água mas tem muito lixo, toneladas dele, formando um aterro sanitário clandestino.

Porém, do verão ao outono, são pequenos regatos d’água que até uma criança atravessa a pé sem qualquer risco.

Aqui voltamos a nossa narrativa. Eu desci as montanhas que cercam Mendonça a oeste. Saí atrás do Aero-Clube.

Atravessei um terreno baldio, cheio de cactos – por ser ao lado da montanha, o clima de Mendonça é semi-árido, parecido com o do Chile mas ainda mais pronunciado. Cheguei no canal concretado do rio.

Ou eu teria que voltar, ou pra seguir pro Centro teria que ir pelo canal. Como estive lá no outono não havia rio de fato, só um pequeno fiozinho de líquido.

Você conhece o Rio Los Angeles, que nomeia essa que é a segunda maior cidade ianque? ‘Hollywood adora filmar ali.

No texto ao lado sigo falando de Mendonça. Mas daqui pra baixo as fotos são todas na capital e de minha autoria. Nessa e a direita: Vila 21, na Zona Sul. Ainda no município de B. Aires, mas na extremidade de sua periferia.

Por exemplo, busque na internet a famosa cena de perseguição do filme ‘O Exterminador do Futuro’, estrelada por Schwarzenegger, que depois foi governador da Califórnia.

Pro que nos interessa aqui, mostra o canal concretado de um rio que está quase seco, e portanto dá para andar ou dirigir pelo que deveria ser o leito do curso aquático.

Então, em Mendonça a cena é a mesma: há uma enorme canaleta de concreto, que enche na primavera e esvazia no resto do ano. Como estava vazia, fui por ela.

Ao lado uma favela, uma das maiores da cidade – no resto da Argentina as concentrações de miséria são bem menores que na capital. 

Outra da Vila 21. Essa favela fica na margem do Riachuelo, que divide a Capital Federal de Avellaneda, município que como já dito fica em outro estado, a ‘Província’ de B. Aires.

As favelas de Buenos Aires são gigantescas, tanto em extensão quanto em densidade.

No interior a coisa é bem mais amena. Bem mais. Essa favela seria pequena na capital. Mas em Mendonça é uma das maiores senão mesmo a maior. 

Ali estava eu. Caminhando pelo leito cimentado do rio quase seco. De um lado um enorme muro, do Aero-Clube.

Do outro a favela. Mas o mais impressionante estava no chão e nas encostas de concreto:

Lixo, muito mas muito mesmo lixo e mais lixo. Toneladas de lixo, que são simplesmente descartadas no rio. Cachorros furavam os sacos procurando comida, crianças brincavam como se aquilo fosse um lindo parque.

Não confunda: a partir de agora e até o final veremos a Vila 31, que fica no Centrão, atrás do porto, das estações rodoviária e ferroviária, e não muito longe do aeroporto. A logística dos transportes é excelente, não (risos…)? Pena que a infra-estrutura na favela seja péssima.

E nas margens os precários barracos de papelão que são a moradia desses meninos e meninas e seus pais e mães.

Uma cena surreal, mas real. ‘Mad Max na Argentina’, como o episódio foi batizado. 

Estado inexistente, cada um toma sua sobrevivência e de sua família nas suas próprias mãos, da melhor forma que puder.

……….

Ainda bem que eu já estava escolado e curtido pelo que passara na capital, uns dias antes. Em Buenos Aires (como em Medelím, Colômbia) as favelas são numeradas. As duas mais famosas são as Vilas 21 e 31. Vimos a Vila 21 pelo decorrer da matéria, busque pelas legendas.

Clique pra ampliar que a imagem é muito comprida. A Vila 31 foi invadida no pátio ferroviário, como temos casos também em Curitiba e Fortaleza-CE, entre muitas outras.

É igualmente enorme e pavorosa, mas fica na periferia, Zona Sul, já na divisa de município – que lá também é divisa de estado.

Já a Favela Vila 31, retratada acima da manchete e depois em outras tomadas espalhadas pela página, fica exatamente no Centro de Buenos Aires.

Alias veem a linha de prédios da alta burguesia ao fundo de algumas tomadas. A Vila 31 é “a que não deixa o Centro dormir”. Quando a Vila se expande, o Centro se recolhe, se é que me entende . . .

………

Agora de mais perto, as casas da Vila avançando sobre o estacionamento de trens.

Corri um risco tri-dimensional pra captar essas imagens, enfrentando tráfico, tráfego e a polícia.

O país estava em convulsão exatamente naquele dia, simplesmente a Argentina passa por uma revolução que tenta derrubar a governo, não sabemos ainda se terão sucesso ou não mas estão tentando.

Logo a nação está em caos e as forças de segurança, consequentemente, estão em alerta máximo.

Pouco antes fui cercado por 5 policiais que revistaram minha câmera e exigiram que eu apagasse algumas imagens, como contei acima.

Situação explosiva (e de fato vem explodindo): milionários e miseráveis lado-a-lado, vendo um ao outro, nem sempre com pensamentos de amor e fraternidade óbvio, e isso vale pras duas mãos. Eis a imagem acima da manchete.

Ademais, eu tirei as fotos de cima de um viaduto, onde é proibido entrar caminhando, só permitido de carro.

Assim sequer há espaço pra pedestres, só pista pra veículos, que como estão numa auto-estrada vem em alta velocidade.

Mesmo sendo ilegal e perigosíssimo eu fui a pé, me esquivando do fluxo de carros, caminhões e motos na auto-estrada mais movimentada do país. Por aí vocês entendem porque desafiei a polícia e o tráfego.

Quanto ao tráfico, não é preciso explicar. A Vila 31 é a boca de drogas mais quente de toda Argentina, pois é que mais fatura, uma vez que está cercada do público consumidor de maior poder aquisitivo.

Assim, naturalmente é a boca mais bem protegida por soldados armados dos comandos de criminosos. Eles não permitem serem fotografados, por motivos óbvios.

A laje das favelas de B. Aires já atingiu o 5º ou 6º andar, as quebradas são idênticas as do Rio e SP. A 1ª vez que eu vi na internet fotos de B. Aires tive que conferir a digitação, porque a princípio me pareceram cenas cariocas.

Mas eu estava lá. Contra tudo e contra todos. Sozinho, a pé, sem celular, só eu e Deus.

Contra, reitero, a polícia, os bandidos e os carros e motos que passavam voando a pouquíssimos centímetros de minha humilde pessoa.

O barato é louco e arrepia na hora.

Valeu a pena. Missão é Missão, e vamos até o final.

Eu Sou O Mensageiro.

……..

Outras mensagens da série:

No canto esquerdo, o pequeno espaço que eu me espremi pra poder fotografar a favela. Veja que os carros avançam sobre a faixa o tempo todo, pois é proibido passar a pé ali.

“Pol Pot na América” (07/17): os ‘anos de chumbo’, o Genocídio Argentino que deixou 30 mil mortos em apenas 7 anos de ditadura militar.

“Voka” versus “Riber”????? (03/17): o futebol na Argentina. Eis uma dimensão que essa nação não decaiu, ao contrário das outras.

Dentro dos gramados os caras continuam no auge, comandando a Libertadores. E eu fui ao estádio, pra sentir o modo portenho de viver.

Detalhe: a briga das torcidas invadiu a linguística, daí a grafia ‘alternativa’ dos 2 arqui-rivais.

– “Perfume de Mulher: Desenho que mostra um casal dançando tango. Produzido e a postagem subiu pro ar lá no Centro de Buenos Aires, março de 2017.

– “No Topo do Mundo“: também é uma gravura, e também de 03/17, retratei de meu próprio punho as Mulheres dessa nação.

“Voka” e “Riber” se enfrentando sob muita chuva. Essa foto foi baixada da internet.

Oras, mas que Diabo!!!” – desenho de setembro de 2016, 6 meses antes da viagem, portanto.

Maurílio torcedor do Independente de Avellaneda. trepado no alambrado, que é como os argentinos assistem as partidas nos estádios.

“Deus proverá”

Perfume de Mulher


Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 18 de março de 2017

BUENOS AIRES – Maurílio e Marília na Argentina. Dançando tango, é claro.

Obviamente, emprestei nome da mensagem de um filme muito conhecido.

Como sabem, em cuja uma das cenas mais famosas o Homem, que é cego, tira uma moça pra dançarem tango no meio do salão.

Na primeira matéria da série sobre a Argentina, fotografei um casal fazendo uma performance pública na Feira da São Telmo, Centro Velho da capital

Agora voltemos aos desenhos: ainda por conta do título, vamos ver Marília se arrumando pra essa noite. Pra estar bem perfumada na hora que seus corpos se unirem na dança.

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Passamos pra uma outra história, o casal de pombinhos andando de braços dados na rua.

Marília não está grávida. É que ela é uma Mulher muito fofinha, digamos assim.

No passado, a sociedade era muito machista, então o padrão de beleza era muito rigoroso com sexo feminino.

Nos Homens, era aceito com mais naturalidade um pouco de ‘barriga de cerveja’.

Mas as moças tinham que ter o corpo parecido com a Gisele Bündchen pra não serem ostracizadas.

Assim como era tabu uma Mulher ficar com um Homem muitos anos mais novo, enquanto que o contrário era visto com naturalidade.

A situação se alterou bastante. É claro que ainda estamos muito longe do ideal, mas os 2 tabus se amainaram consideravelmente.

Já que trata do mesmo tema, insiro desenho dos arquivos. Mais uma vez, Marília sendo rodopiada na pista de dança, nos braços de Maurílio. Essa postagem, que se chama ‘Baila Comigo’, foi publicada em dezembro de 2016.

Agora está ficando mais frequente vermos viúvas ou divorciadas com companheiros de 10, 15 ou 20 anos mais jovens que elas. Como os Homens sempre fizeram, alias.

Além disso, os Homens começam a descobrir o valor das ‘Grandes Mulheres’. Nada mais natural.

Uma garota pode ser charmosa, feminina, cativante, e ainda assim estar um pouco distante do que a mídia afirma que é o padrão “ideal”, o único aceitável, pra todas as pessoas.

As pessoas são diferentes, logo os corpos serão diferentes. É preciso centrar mais na essência e não somente na aparência.

Refletindo essa tendência, desenhei essa Marília. Ela é totalmente feminina, bastante vaidosa e por isso toda produzida:

De camiseta transparente e enfeitada com pedras brilhantes, brincos enormes e uma saia rodada vermelha que combina com a ‘lingerie’, que está visível através de sua blusinha branca.

Muitíssimo bem acompanhada de seu Amor Maurílio.

Veja que ele, ao contrário, tem os músculos bastante definidos.

Mas isso não impede que ele goste e deseje sua esposa do jeito que ela é.

Os opostos se atraem, quem sabe.

Sinal dos tempos . . .

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Mensagem levantada pra rede do Centro da Cidade de Buenos Aires, Argentina.

“Deus proverá”

A Devota

procissaoPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de janeiro de 2017

Todas as postagens de Marília são dedicadas as Mulheres.

Vamos mostrar, como o título indica, Marília como devota, expressando sua Fé.

Deus Pai e Mãe é Oni-Presente.

Portanto o espectro da forma de Devotá-lo(a) pode ser muito aberto.centro-de-umbanda

Tanto quanto é a heterogeneidade que os Homens e Mulheres manifestam pelo planeta, em todas as dimensões.

Por isso Marília nessa postagem terá diferentes raças.

Pra refletir um pouco essa ampla gama de venerar o Criador Deus Pai e Mãe.

Acima: Marília numa procissão a Santa Morte na Cidade do México.dentro-da-igreja

– A seguir: Marília num Centro de Umbanda, rendendo Homenagens aos Orixás.

Também Marília dentro de uma Igreja Cristã, no Sul do Brasil.

E mais: uma Marília e seu marido muçulmanos, ambos descendentes de Asiáticos mas vivendo em plena Europa.

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Apesar que são auto-explicativas, comentemos um pouco o que cada imagem representa.

Comecemos por essa que está a esquerda.

igrejaMarília foi rezar na Igreja-Matriz de São Bento do Sul, Santa Catarina.

Fiz dois desenhos, um pra mostrar a parte externa do templo, e depois a Devota Marília dentro dele.

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Acima um casal umbandista, tocando tambor. Abaixo um casal muçulmano.

Cujos ancestrais vieram da Ásia. Mas eles são nascidos e criados em Amsterdã, Holanda.

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Esses dias pus na página um desenho em que Marília é avó, e se encanta com seu netinho recém-nascido nos braços.

Pois bem. Essa Marília do retrato de hoje já é bisavó.

Viúva, seu Amado Maurílio já retornou pro Outro Lado há alguns anos.

Ela necessita até de um porretinho (bengala) pra ajudá-la a caminhar.

Mas Marília continua vaidosa: pinta as unhas, usa bijuteria, e até uma saia na altura dos joelhos – curtíssima pra uma senhora na sua idade!

marilia-bisavoClaro que ela aceita a velhice, e não tenta parecer jovem, tanto que os cabelos são naturalmente brancos.

Apenas ela gosta, sempre gostou, de se produzir. Ela não se arruma pra que outras pessoas, os Homens, a vejam.

Se enfeita assim pra ela mesma, porque ela se sente bem.

a-devota-indiaMarília é vaidosa desde o berço, desde que sua bicicleta ainda tinha rodinhas, e enquanto Deus a manter na matéria, assim ela prosseguirá.

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Falemos um pouco mais da Marília Mexicana, que cultua a Santa Morte.

Certamente é estranha pra nós brasileiros essa forma de ter Fé, e foi esse o choque que eu tive quando vi esqueletos nos altares do México.

Mas na América Central, o que inclui o México – se considerarmos a geografia humana, e não a física – é absolutamente normal cultuar a Santa Morte. santa-morte

Tudo é uma questão de ponto de vista. Fiz uma matéria que analisa e ilustra em detalhes a situação.

É simples a explicação. Na Índia há o culto a “Deusa Negra” Kali.

Oras, como se sabe, os Americanos Nativos vieram da Ásia.

Na classe média, os Latino-Americanos se creem europeus (ou ianques, o que dá no mesmo).

a-devota-negraMas o povão Hispano-Americano é muito mais asiático que europeu. Muito mais, incluso na aparência. E também no modo de vida.

Oras, quando Santa Morte ressurgiu entre os Aztecas (depois sincretizado com o catolicismo, embora o Vaticano não aprove) eles simplesmente estão fazendo o que seus antepassados faziam na Índia, milênios atrás.

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Em mais uma Homenagem a Mama-África, agora a Marília Umbandista. 

Em seu vestido branco, e seus colares e guias. Seu cabelo esvoaçando. No culto a Iemanjá e demais Orixás do Panteão.batucando-tambor

E não nos esqueçamos de Maurílio tocando o tambor, parte fundamental dos cultos afro-brasileiros.

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Nomeei a imagem da Marília segurando o Altar de Santa Morte como “Índia”.

Tem um duplo sentido. Tanto Santa Morte é Kali metamorfoseada, e Kali veio da Índia. Como também é Índia de indígena, Americana Nativa.

E a Umbandista pus como “Negra”. Como todos sabem, a Umbanda tem como fonte o Candomblé, que é originário do Golfo da Guiné, África. Daí o nome das Entidades ser em Iorubá, a língua falada na Nigéria.

lata d'água cabeça Marília negra depilada lenço regata azul colar corrente pingente cruz crucifixo petrobrásJá a Cristã é caucasiana, do Sul do Brasil.

Falei em termos arquétipos, simbólicos. Nossa Querida América é um caldeirão de raças e culturas (Ásia + África + Europa + Americanos Nativos, tudo está aqui), e obviamente a religião de alguém não é determinada pela sua raça física.

Daí o Maurílio que batuca o instrumento musical no Centro de Umbanda ser branco de olhos verdes. Alias, aqui em Curitiba, a imensa maioria dos Umbandistas são fisicamente brancos, posto que nossa cidade é majoritariamente branca.

Acima, uma Marília negra e cristã. Carregando uma lata na cabeça. Esse retrato tem sua própria mensagem, abra pra você ver ela de corpo inteiro. camponesa marília morena lenço cabeça cabelos regata laranja crucifixo cruz corrente pingente colar sem maquiagem

Entre a categoria ‘Desenhos’ é a 3ª postagem mais acessada.

Ao lado uma Marília também branca mas não normanda (norte-europeia), uma camponesa humilde. Morena, um tipo bem latino. Novamente com o crucifixo no pescoço. 

Igualmente essa gravura tem sua própria postagem, ela está segurando seu filho recém-nascido nos braços.

Deus proverá” – Sendo Oni-Presente, Ele-Ela pode ser Cultuado(a) pela forma que nos for mais familiar.

Mar gelado, churros e pombas: isto é Vinha do Mar, Chile

no-oceano-pacificoPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Levantado pra página em 17 de outubro de 2016

Um desenho inédito, e os demais publicados (em emeio) no ano de 2013

Começamos pelo inédito, produzido em outubro de 2016.

tudo-azul

As próximas 2 imagens são de dezembro de 2013, e não se relacionam com o texto. Tudo Azul: Marília e Maurílio se encontraram, e sem combinar ambos estavam na mesma cor: Sintonia de Almas. Depois aconteceu de novo, porém os dois estavam de verde.

Marília e Maurílio visitaram o Chile.

E lá aproveitaram pra se banhar no Pacífico Sul, na cidade de Vinha do Mar, Grande Valparaíso.

Ao menos eles tentaram. Mas não deu pra ficar dentro d’água:

A costa do Chile é cortada por uma corrente marítima vinda direto do Polo Sul.

Por isso o mar é indescritivelmente gelado.

Apenas no auge do verão (dezembro e janeiro) você consegue entrar. Nos outros meses não dá.

almas-em-comunhao-de-energia

Voltamos ao azul. Logo a seguir ela com o mesmo vestido, dando o peito pro filho deles.

Aí eles ficaram comendo churros.

No Chile foi o único país além do Brasil que eu vi churros. Não quer dizer que não existe em outras nações, mas sim que eu não me deparei.

Bem, nessa praia de Vinha eu achei essa receita.

No Brasil o churro é tamanho único. No Chile é diferente, existe o igual nós conhecemos aqui.

Mas também se vende nas banquinhas um mini-churro, um quarto do tamanho normal.

Marília é muito vaidosa e ciosa de sua aparência. Por isso ela pegou um mini-churro. Pra não passar vontade, mas também sem engordar.

comendo-churros

Veja na escala ampliada, ela ainda não começou a comer, em cima está a calda de chocolate. Mas o churro é tão pequeno que cabe inteiro nas suas delicadas mãos de moça.

Aproveitamos o embalo pra ver as unhas que ela pintou de branco. E o biquíni reproduzindo a bandeira da Pátria Amada. Ela tem também um brinco nesse motivo.

Voltando aos doces, já o maridão Maurílio pediu logo o churro tamanho família. Ele não está nem aí pra aparência – eu já disse isso, e também foi no Chile.

extase-infinito

“Vestido Prateado”, julho de 2013. Esse desenho tampouco se relaciona com o texto.

Um último detalhe da orla de Vinha: não jogue comida pros pássaros. Ou você se verá cercado por uma horda de pombas.

Numa refilmagem amadora do filme ‘Os Pássaros’. Veja que os bichos estão rondando o casal, pra ver se sobra uma faísca.

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Abaixo as gravuras em outra escala. Clique pra ampliar, o mesmo vale pra todas as imagens sempre.

feminino-e-masculinopoder-femininocoisa-linda-linda-linda

“Deus proverá”

Oras, mas que Diabo!!!

em-cima-do-alambrado

“Inferno Vermelho”

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 9 de setembro de 2016

Um Maurílio argentino dessa vez. Torcedor do Independente, cujo símbolo é o ‘diabo’.

Como fazem os ‘barra-bravas’ (membros de torcida organizada) desse país ele assiste o jogo trepado no alambrado.

O Independente fica no subúrbio metropolitano de Avellaneda, Zona Sul da Grande Buenos Aires.

Pronuncia-se “Abechaneda” no ramo pratense do idioma espanhol, lá utilizado. Ou “Abejaneda” no ramo andino, o qual sou mais familiarizado.

Fui ao estádio do São Lourenço, em Buenos Aires. Taí a prova, veja como os líderes da torcida assistem as partidas na Argentina.

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A Zona Sul é a parte mais pobre da capital argentina, que concentra quase todas as suas grandes favelas.

Avellaneda é outro município, mas muito próximo do núcleo, a Capital Federal. Portanto um subúrbio relativamente central.

Estive na Argentina em março de 2017, e fotografei a divisa entre a Capital Federal e Avellaneda, e o Centro de Avellaneda.

E no mesmo município os estádios do Independente e do Racing, que são vizinhos como nota,  em dia de jogo do Independente.

rei-de-copas

Independente, “Rei de Copas” da América. 7 Libertadores você tem que respeitar.

Como falo com mais detalhes nessa matéria específica sobre o futebol na nação vizinha, o Independente teve um passado absolutamente glorioso.

Ganhou nada menos que 7 Libertadores da América. Por isso conhecido como “O Rei de Copas”.

Ainda é o maior vencedor desse que é o principal torneio americano. Atrás dele vem o Boca Juniors, com 6, e a seguir o Penharol do Uruguai com 5.

Não por outro motivo o campo onde joga o Independente se chama, bem, ‘Estádio Libertadores da América’.

E por conta do passado de vacas gordas, o ‘Diabo Rubro de Avellaneda’ ainda tem a 3ª maior torcida da Argentina, só atrás dos gigantes Boca e River.

Próximas 3: Avellaneda, Grande Buenos Aires, em dia de jogo do ‘Diabo’. Aqui a galera chega ao estádio, uniformizada de rubro.

Já foi bem mais, tanto que o Independente ainda se auto-intitula “Orgulho Nacional” da Argentina.

Mas a seca de títulos fez a torcida do Independente minguar, e concentrar de vez o gosto do povo nos 2 maiores: o Boca tem mais de 40% da torcida, a nível nacional.

O River quase 30%. Portanto contra esses dois não há competição possível. De forma que o Independente é o mais popular ‘entre a rapa’, tem perto de 5% da preferência nacional.

Pois note que o Independente está em severa decadência. Dominou a era ‘jurássica’ da Libertadores, 6 de seus títulos são nos anos 60 e 70.

Estou em frente ao campo do arqui-rival Racing, ao fundo o do Independente, cada um nas respectivas cores dos clubes.

O mais recente foi no já distante ano de 1984, resultando 33 anos de fila quando levanto o desenho pra página.

O Boca, exatamente ao contrário, é uma potência ascendente. Tem 6 Libertadores. Até a virada do milênio só tinha 2.

Aí ele emplacou uma sequência impressionante, ganhou nada menos que 4 Libertadores em apenas 8 disputas, de 2000 a 2007.

Até no campeonato nacional o Independente vem mal. Foi rebaixado em 2013, portanto em 14 disputou a segundona.

Buuu!!! Eis o fantasminha vermelho: a torcida do Racing comemora o recente rebaixamento do inimigo.

Tudo somado: hoje o ‘Diabo Rubro’ não apavora mais ninguém. Mas Maurílio não se importa. Fica os 90 minutos pendurado na grade, gritando.

Pra ver se, nem que seja por obra do capeta, o Independente ganha um título. Afinal, na Argentina o Deus é mesmo outro, ao menos quando o futebol está envolvido.

Por isso o Maurílio portenho não desiste, nunca perde a Fé. Paixão é paixão. Não se explica, se sente…

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diabo-rubro

Maurílio Portenho.

Falando nisso, veja Maurílio torcedor do: Nacional da Colômbia; América do México; Nacional do Uruguai; LDU do Equador; Colo-Colo do Chile; e Olímpia do Paraguai aqui na América.

E Nápoles da Itália e Paris-Saint Germain da França do outro lado do Oceano.

E sua esposa Marília torcedora do: Flamengo, Fluminense e Internacional na mesma postagem; e do Criciúma nessa outra.

“Deus proverá”

Vielas da Vila Maria, Deusa-Lua, Primavera Eterna, Afeganistão ao lado de ‘Beverly Hills’: assim é a Colômbia.

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Aqui e acima da manchete: Chía, a Deusa-Lua, Grande Mãe, o Lado Feminino de Deus Pai e Mãe. Homenageada com uma cidade em seu nome na Grande Bogotá, onde eu estive.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Subido pra rede em 23 de agosto de 2016

Publicado (em emeios) em 20 e 30 de abril de 2011.

Nessa mensagem nenhuma foto é de minha autoria. As de Cartagena (Litoral) foram clicadas por meus familiares, o resto puxei da rede.

Fechando a Série sobre a Colômbia, solto 2 emeios. O 1º se chamou “Nas Vielas da Vila Maria, Bogotá”, e é de 20-04-11:

Vamos lá retratar mais alguns aspectos da Colômbia, esse vizinho tão fascinante e tão pouco conhecido de nós brasileiros.

Talvez muitos nem tenham se atentado pro fato que a Colômbia é um país do Hemisfério Norte:

cartagena colômbia água oceano praia prédios classe média alta elite burguesia beira-mar orla litoral céu azul limpo linha prédios

Passeio de barco por Cartagena, Litoral da Colômbia. De um lado espigões de luxo onde vivem os muito ricos.

Apenas uma pequena parte do país é ao sul do Equador, e não há nenhuma cidade grande ou média ali. 90% do território e 99% da população colombiana fica ao norte dessa linha que divide a Terra no meio. 

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Há igrejas evangélicas nas favelas e periferias de Bogotá e Medelím, é claro. Mas numa proporção infinitamente menor que aqui.

Nos subúrbios aqui no Brasil você chega a ver 3 ou 4 igrejas evangélicas na mesma quadra, as vezes parede a parede, ou frente a frente.

Lá nem de longe o fenômeno atinge essa proporção. Diria que há uma igreja a cada 3 quadras.

cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia varal roupas negro rapaz

Mesmo canal em Cartagena: só olhar pro lado e verá pavorosas favelas em palafitas abrigando os que nada têm.

Nota: fui a Colômbia em 2011. Na sequência, em 12 ao México, 13 Paraguai e República Dominicana e 15 ao Chile.

Apenas na Rep. Dominicana a proporção de igrejas neo-pentencostais atinge a mesma proporção que aqui.

Nos demais países bem menos. Bom, no Chile a imensa maioria da população ainda é católica praticante, como foi no Brasil até os anos 80.

Voltando a Colômbia, há templos evangélicos, mas numa proporção menor que no Brasil. Dentre as igrejas que lá estão a brasileira Universal é uma das mais fortes.

Assim se vê que as duas maiores empresas brasileiras (Petrobrás e Universal) estão bem fincadas em solo colombiano (da Petrobrás já falei melhor em outra mensagem).

cartagena colômbia água oceano praia prédios classe média alta elite burguesia beira-mar orla litoral céu azul limpo linha prédios marinha navio barco porto base naval

Nas próximas 2 mais um pouco do agudo contraste em Cartagena: milionários

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Discorrendo agora sobre algo completamente distinto, nem toda Colômbia aderiu ainda aos caminhões de lixo na forma como conhecemos aqui:

Onde o veículo é feito especialmente pra esse fim, portanto tem um compactador que vai comprimindo o que é jogado dentro.

Estou falando do caminhão de lixo comum, que todos conhecem. Há alguns deles na Colômbia, os vi.

cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia

ao lado dos miseráveis. Na Colômbia o Afeganistão está ao lado de ‘Beverly Hills‘ (como também ocorre no Brasil, Chile, Rep. Dominicana e várias partes do mundo)

Mas não em toda parte. Andava num bairro de elite em Medelím, pra milionários mesmo.

E o lixo estava sendo recolhido com um caminhão comum (!!!). Sim, estou me referindo aqueles com caçamba, abertos em cima.

Um cara jogava os sacos, e outro, em cima do caminhão, ia amassando o volume com os pés e com uma pá. Chovia, ainda por cima.

Parece inacreditável, mas presenciei. Já vi a mesma cena em Cancun, no México – nesse caso pela internet via Visão de Rua do ‘Google’ Mapas.

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Próximas 3: na cidade de mesmo nome na Grande Bogotá, a estátua de Chía, a Deusa-Lua, a Grande-Mãe da Humanidade. Segundo a Mitologia Americana, Chía foi um Grande Espírito que encarnou como Mulher pra pregar a Palavra de Deus na Terra. Passada essa fase material de sua missão, ela Ascendeu aos Céus, e hoje na forma da Lua continua a Iluminar os Homens e Mulheres.

FRANGO, MILHO E FEIJÃO, A BASE DA CULINÁRIAFoi difícil pra mim me alimentar na Colômbia. Eu não como carne, de nenhum tipo. E esse povo é extremamente carnívoro.

Digo, quando estava com minha família, parávamos pra almoçar em restaurantes, aí não havia problema, pedíamos os pratos e do meu eu simplesmente cedia a carne pra eles.

Porém muitos dias estava sozinho, eles iam ver outras coisas e eu subir os morros e favelas.

Pelo tempo ser curto, não parava pra comer, tentava fazê-lo na rua. Aqui no Brasil me viro bem, sempre há uma pastelaria onde como pastel de queijo.

Lá entretanto, não há salgados sem carne. Alguns dias tive que almoçar bolinhos doces.

Assim é culinária colombiana, sempre com muita carne. Preferem o frango, mas a carne de boi também é muito popular, seguida pela do porco.

Quase não se come peixe em Bogotá e Medelím. Pois estão no alto dos Andes, onde não há como pescar, e o transporte é caro e difícil.

Na Amazônia Colombiana a situação deve ser diferente, a julgar pelo que vi na Amazônia Brasileira. Estive em Manaus em setembro de 2010, onde o peixe (que eu também não como) é a base da alimentação. Com certeza do lado colombiano da selva funciona igual.

chia4

Como vê, Chía está bem na frente da Catedral. Duas formas distintas de ver o Criador, e ambas são igualmente válidas.

No litoral da Colômbia o peixe também deve ser mais frequente. Não pude ir até lá, tive que voltar antes.

Minha família foi a Cartagena, como já informado na legenda das fotos, clicadas por eles.

Entre os cereais, a base da alimentação é o milho e o feijão. Se faz tudo com milho por lá, farinha, bolinhos, o que imaginar.

E como aqui o feijão é prato nacional. Isso é América, e nós americanos comemos feijão. Sendo a Colômbia coração e essência da cultura americana, lá se come todos os dias.

Arroz nem tanto. Eles gostam também, mas é pedido separado, pois alguns comem feijão com milho (em forma de farinha ou bolinhos), dispensando então o arroz.chia

Seja como for, com milho, arroz ou puro, o feijão é a paixão colombiana. Só que é diferente do que comemos aqui. Os grãos são muito maiores, o triplo do nosso.

O feijão da Colômbia é do mesmo tamanho ou até maior que o ‘feijão cavalo’, aquele servido no Brasil como salada.

Só que lá eles comem quente esses feijões gigantes. Maior e mais forte, é avermelhado, e tem um gosto mais pronunciado.

Talvez porque lá se coma mais pimenta. Um povo de sangue quente, indígena, pouco europeizado – me refiro ao povo mesmo, a elite é bem europeizada, como em toda a parte.

MÚSICA, SÓ EM ESPANHOLO povo colombiano quase não ouve ‘rock’, nem qualquer música que não seja em espanhol. Eles praticamente não ouvem música em inglês.

Acima o feijão consumido na Colômbia, abaixo o tipo mais comum no Brasil. A imagem é auto-explicativa, o feijão de lá é do tamanho do ‘feijão-cavalo’ nosso, mas não é salada, é cozido e comido com arroz, como aqui. Só muda – bastante! – a dimensão.

O ritmo preferido deles é aquele bem latino mesmo, parecido com o que é chamado ‘cumbia’ na Argentina.

Sabe aquela música que vemos nos filmes sobre Cuba? É por aí que a coisa vai, uma música caribenha, de corpo e alma americana.

A parte instrumental é essa música caribenha, as letras são iguais ao nosso sertanejo, ‘chorei tanto quando me deixou’, e por aí vai.

Nas quebradas, se ouve muito ‘rap’ também, mas sempre ‘rap’ em espanhol.

………

Mesmo os que têm mais renda e acesso a estudo também dão preferência a música no seu próprio idioma.

Em Bogotá, estávamos no bairro universitário, reduto cultural burguês. Saímos eu sexta a noite para curtir um pouco do ar fresco da noite bogotana.

cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia

Próximas 12 tomadas: vamos ver muitas fotos de Cartagena. As duas primeiras são ainda das favelas no mangue. Depois várias do Centro Histórico, que era murado pra evitar ataques de piratas.

Fomos a uma praça onde haviam vários bares, parecida com o Largo da Ordem no Centro de Curitiba ou com a Vila Madalena na Zona Oeste de São Paulo e a Lapa no Rio.

Pois bem. Até os bares destinados a jovens de classe média tocavam música em espanhol. Menos um. Mas esse tinha umas dez bandeiras da Inglaterra na fachada, se assumia nitidamente como um ‘pub’:

Esse era seu diferencial, exatamente pra concentrar o não muito numeroso público colombiano que aprecia música em outras línguas.

Ou seja, pra tocar música em inglês, tem que ser notadamente inglês. Já no caminho pro hotel, paramos em um bar menor, quase um mercadinho. Estava tocando ‘rap’ – em espanhol, óbvio. 

Mais uma atualização: a Colômbia é assim, e eu diria que a República Dominicana também. Nesses países quase não se ouve roque, nem música em inglês em geral. cartagena mar barco água palafita barcos cais marina colômbia favela pobreza quebrada subúrbio periferia

Mas no México e Chile é totalmente diferente. Nessas duas últimas nações já curtem bastante o roque e outros ritmos populares nos EUA/Europa (como a música eletrônica), exatamente como no Brasil.

…………

E PRÉDIOS TAMBÉM Os prédios na Colômbia são todos em espanhol, de todas as classes sociais. Não há por lá edifícios chamados dream life”, “queen elizabeth”, “hyde park” ou “hudson river”.

cartagena colômbia lagoa água palácio linha prédios elite burguesia classe média altaOs nomes dos conuntos são todos pomposos, mas sempre em seu idioma:

Jardines de la reina (jardins da rainha)”, “cerro rico (morro bonito)”, “lomas (colinas) verdes”, “portal del bosque”, e assim por diante. E o que aqui chamamos “shopping center”, lá é, bem, ‘centro comercial’.

No México, vi nas viagens seguintes, é assim também. Já no Paraguai é como no Brasil, há sim em Assunção prédios com nomes em inglês.

…….cartagena colômbia muralha Colonial forte fortaleza murado prédio trânsito avenida

Claro que também se copia muito os EUA na Colômbia.

Algumas lojas nos bairros caros tem um neon escrito ‘open’, assim, em inglês, e numa periferia, havia um brexó com roupas usadas vindas dos EUA, e isso era propagandeado como se fosse enorme vantagem.

AS RUAS NUMERADASHá outras influências estadunidenses no país. A capital se chama Bogotá D.C., imitando Washington D.C..

cartagena colômbia palácio torre construção prédio antigoMais abaixo desenvolvemos mais esse tema. Por hora falaremos de outra questão: as ruas numeradas.

É um sistema similar ao de Nova Iorque. Na maior cidade estadunidense, como é notório, há as ruas e avenidas, ambas identificadas por números.

As ruas cortam a cidade no sentido leste-oeste, e a numeração começa logo acima do Centro, que é no extremo sul da ilha de Manhattan. cartagena colômbia muralha Colonial forte fortaleza murado prédio igreja

As avenidas cortam a cidade no sentido sul-norte, e a numeração começa no leste.

Voltemos a Colômbia. Falei um pouco sobre o sistema numerado das ruas de Nova Iorque porque foi copiado pelas cidades colombianas:

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado construção antiga sacada varanda céu azul limpo torre igrejaAs ruas cortam a cidade de leste a oeste. Como se sabe, se chamam “calles” em espanhol. Bem no Centro de Bogotá há a rua (calle) 1.

A sua primeira paralela ao norte se chama rua 2. Ao sul eles acrescentam o ‘s’ pra diferenciar, a primeira paralela ao sul é a rua 1-S.

O que em Nova Iorque seriam as avenidas na Colômbia são as “Carreras”, que cortam a cidade de sul a norte. A numeração começa no Centro.

cartagena colômbia Colonial estátua torre igreja sobrado casa antiga

Ainda estamos vendo Cartagena.

Como em Bogotá o Centro é no pé da montanha, só há cidade a oeste dele, e não a leste (por essa impossibilidade física, Bogotá não tem Zona Leste).

Então só é carrera 1, carrera 2, não há carrera 1-L, porque não é preciso. E as as ruas transversais são chamadas assim mesmo, ‘transversais’.

Algumas vias mais importantes têm nome, mas não deixam de ter número. A (já citada em outra mensagem) Avenida Chile, onde fica a bolsa de valores, é a calle 72.

A Avenida Caracas, por onde passa o principal eixo do Transmilênio, é a Carrera 14. Note que na Colômbia as vias numeradas se chamam ‘calles’ (sul-norte), ‘carreras’ (leste-oeste) ou ‘transversais’ (diagonais).

cartagena colômbia Colonial prédio construção antiga galeria comercial comércio canteiro planta lojasO nome avenida‘ não guarda relação com a posição e portanto com esse nomenclatura oficial.

Resultando que uma ‘avenida’ pode ser tanto uma calle quanto uma carrera, dependendo se são no sentido oeste-leste ou sul-norte.

O sistema é quadriculado, simples e fácil de aprender. Pois em condições normais nunca uma calle cruza com outra calle, nem carrera com carrera.cartagena colômbia Colonial ponte táxi taxi amarelo árvore palmeira trânsito avenida

O ideal e mais comum é que toda esquina seja de uma carrera com uma calle, ou de uma delas ou ambas com uma transversal.

Claro, as vezes uma via faz uma curva, aí complica. Então as vezes a carrera 30 cruza a carrera 29, o que não deveria acontecer, mas acontece. São exceções, porém.

cartagena colômbia Colonial estátua ponte trânsito avenidaE quando surge uma nova rua entre duas já existentes? Aí vira a rua 56-A, por exemplo. Se surge mais uma paralela entre a 56 e a 57, vira 56-B, e assim por diante.

Se for ao sul do Centro, entre a 56-S e a 57-S, vira a 56-S-A.

Na parte plana da cidade, há alguns casos que fogem a norma, como citei acima, mas tudo funciona bem. cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado plantas construção antiga bandeira

O caldo engrossa mesmo nas favelas, na numeração das ruas como em diversos outros aspectos.

O sistema foi bolado em Nova Iorque afinal, que tem guetos bem feios, mas não tem favelas com ruas irregulares e muito menos morros.

Já a Colômbia tem favelas. São muitas, e são na encosta da montanha, tanto em Medelím e Bogotá como também em Cali (onde não fui), entre outras cidades.

Se na cidade plana as vezes existe a rua 15-A e mais raramente 15-B, nas favelas é comum a 15-H, 15-J, as vezes são becos de uma quadra, mas a numeração é seguida.

O problema é que no morro, além de surgirem muitas ruas sem controle como cogumelos após a chuva, elas são muito sinuosas, fazem curvas.

vila maria

Próximas 4: Vila Maria, perto da divisa entre as Zonas Norte e Oeste de Bogotá (via ‘Google’ Mapas).

Até porque precisam se adaptar a topografia irregular do lugar. Só que a numeração quadriculada, que é regular, tenta então se adaptar a esse caos.

Não dá certo, claro, daí com frequência calle cruza calle, carrera cruza carrera, a carrera 70 (que deveria estar entre as carreras 69 e 71) está entre a 72-E e a calle 18-J, a confusão é geral.

Bem, favela é favela, na Colômbia ou em toda parte.

AS PERIFERIAS PLANASAlém dos morros, também há na Colômbia periferias planas.vila maria1 

Fora não haver risco de desabamento – o que já uma tremenda vantagem, claro – não se diferenciam tanto assim das favelas nas encostas.

O governo fez por todo país enormes conjuntos residenciais, de casas geminadas, pra população de baixa renda.

Muitos nem sequer tem garagem ou mesmo ruas, tampouco há quintal ou muro, as portas saem na via pública.

vila maria2Em algumas dessas vilas se chega a porta das casas por passagens onde só se entra a pé ou no máximo de moto.

Em outras cohabs há sim ruas. Mas são muito estreitas.

E cada morador modificou a vontade sua residência, pondo por conta própria novas lajes e erguendo tanto mais andares quanto o tamanho da família exigiu e orçamento permitiu. As imagens são auto-explicativas: Estamos na América, afinal.

Tudo somado, os conjuntos ganharam aspecto de favelas, e erradicar as favelas era exatamente o que eles pretendiam, tendo porém o efeito oposto na prática.  vila maria3   

Se você passa de carro na frente pensa que é uma invasão, pois é o que aparentam ser.

Porque as ruas são mais estreitas e as casas geminadas, muito mais próximas.

cartagena colômbia Colonial sobrado igreja

Próxima 7: voltamos a Cartagena.

Me embrenhei nas vielas de vários desses conjuntos favelizados pra ver como é por dentro essa ‘zonaproibida’.

Um deles é a Vila Maria, na Zona Norte de Bogotá, que nomeou a mensagem.

………….

Emendamos outro emeio, que se chamou “Da Deusa-Lua a Primavera Eterna”.

Foi publicado 10 dias depois, em 30 de abril de 2011.

Já demos uma pincelada antes, agora falemos melhor do sotaque.

Pra quem não é versado em linguística, o idioma castelão (espanhol) se divide basicamente em 3 vertentes conforme a pronúncia:cartagena colômbia Colonial estátua ponte

– O espanhol ‘europeu’, usado onde ele surgiu, a Espanha obviamente;

– O espanhol ‘pratense’, na Argentina, Uruguai e Paraguai;

– E o espanhol ‘andino’, falado no Chile, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, América Central e México.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado grades flores construção antigaAs letras “j” e “g”, na Colômbia e em toda parte, são pronunciadas como nosso “r”.

Cartagena se lê Cartarrena. ‘Joven’ se diz ven, ‘mujer’ se pronuncia murrér, e assim vai. É universal, nas 3 vertentes é o mesmo.

O que o espanhol andino (o corrente na Colômbia) tem de distinto dos outros dois é que os dois ‘eles’ se pronunciam como jota. E o ‘ypsilion’ seguido de vogal também.

Exemplificando fica mais fácil entender. Peguemos as palavras Barranquilla e Medellín (cidades do litoral e dos Andes colombianos) e ‘ayer’, ‘ontem’ em português:

– No castelão europeu se fala o ‘ll’ como nosso ‘lh’, e o ‘y’ como nosso ‘i’. Assim, um cidadão espanhol leria “Barranquilha”, Medelhin” e ”aier”;cartagena colômbia muralha Colonial murado igreja

– Na região da bacia do Rio da Prata (Uruguai, Argentina e mais o Paraguai), ambos têm som do nosso “ch”. Assim eles diriam “Barranquicha”, “Medechin” e “acher”;

Na Colômbia, entretanto, se diz “Barranquija”, “Medejin” e “ajer”.

Há uma avenida em Bogotá chamada Boyacá. Homenageia uma batalha decisiva da guerra de independência, que foi longa e cruel.

Ao contrário do Brasil, em que Dom Pedro I decretou a separação quase em consenso com Portugal. Lá não, o negócio foi tenso. Como é sabido, o venezuelano Simão Bolívar é um dos grandes ‘Libertadores da América’:

cartagena colômbia prédio grades luminária antiga colonial bandeiraHerói da independência da Colômbia, Venezuela, Bolívia, Peru, Equador e Panamá (este último pertencia a Colômbia, até virem os ianques e separarem pra poderem dominar o Canal).

Então, em Boyacá suas tropas impuseram uma derrota definitiva aos soldados da coroa espanhola. Batalha essa que foi homenageada pela avenida.

E como eu dizia acima, se fosse em Madri essa avenida seria pronunciada Boiacá. Se fosse em Montevidéu, Bochacá.

Mas como ela fica em Bogotá, a gravação do Transmilênio, numa marcante voz feminina anuncia: “próxima parada, Abenida Bojacá”.

Se alguém não sabe, o espanhol não tem o som de ‘v‘. E isso não só na Colômbia, em toda parte. Tanto cartagena colômbia sacada centro histórico colonial sobrado grades flores construção antiga casase escreva com ‘v’ ou com ‘b’, se pronuncia ‘b’.

Na Zona Sul de Santiago do Chile há um bairro que homenageia as capitais brasileiras. Há as ruas Maceió, Bello Horizonte, e também a rua Curitiva, com ‘v’.

Na verdade oficialmente é com ‘b’, mas o povão muitas vezes troca pelo ‘v’, pois dá no mesmo.

Avenida se escreve com ‘v’ em espanhol, mas se fala ‘abenida’. O libertador americano também se pronuncia Simón Bolibar.

Os espanhol não têm vários sons que temos em português: ‘z’, se fala sempre como se fosse dois “s”, por isso os micro-ônibus se escrevem ‘busetas’ mas se pronuncia ‘bucetas’, trocadilho que já foi explicado em outra mensagem;

cartagena colômbia prédio banco arcos antiga colonial bandeira‘V’ se fala como ‘b’, por isso avenida se diz ‘a benda’ quando algo está com placa de venda; ‘j’ e ‘g’ se pronuncia como dois “r”, assim júnior é “rúnior”. Tudo isso em todos os países que falam espanhol.

E no espanhol andino “ll” e “y” antes de vogal se pronuncia como nosso “j”. Tudo somado, Abenida Bojacá, como a gravação informa.

Da linguística a geografia, acrescento que tanto Bogotá quanto Medelím têm bairros chamados “Brasília”, em homenagem a nossa capital federal.

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Mapa da Grande Bogotá. Veja em vermelho que a capital e Soacha uniram suas áreas urbanas, ou seja a cidade é a mesma embora mude o estado. Em azul subúrbios menores da Grande Bogotá.

………..

Falemos mais de Bogotá, cujo nome oficial é Bogotá D.C., por influência estadunidense, óbvio. Isso é o que debateremos agora.

DE SANTAFÉ A D.C.Até 20 anos atrás (quando fiz o texto, agora em 2016 já são 25) a cidade se chamava Santafé de Bogotá.

Não houve erro de digitação, ‘Santafé’ era uma palavra só. Seguindo o padrão de colonização ibérica.

Quando uma cidade era fundada, colocavam primeiro um nome católico (geralmente o santo do dia) seguido de um nome indígena, ou pelo menos um nome não católico.

mapa-bogota

Eis aqui o original, com o nome das meso-regiões do Estado de Cundinamarca. Ressalto: das meso-regiões, e não dos municípios. A fonte é a página da Cundinamarca na ‘Wikipédia’.

A cidade de São Paulo, por exemplo, foi fundada em 25 de janeiro de 1554, sendo nomeada São Paulo de Piratininga, unindo o nome pelo qual os indígenas conheciam o local com o patrono católico daquela data.

O Rio de Janeiro se chamava São Sebastião do Rio de Janeiro (pois os portugueses chegaram em janeiro, e pensaram que a Baía da Guanabara era um rio, como é domínio público);

Salvador era São Salvador da Bahia, Curitiba era a Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

E Bariloche, a famosa estância turística argentina, se chamava São Carlos de Bariloche. Entre muitíssimos outros exemplos. Santafé de Bogotá segue esse padrão.

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Aqui e a esquerda: na cidade de mesmo nome, Chía, a Deusa que se materializou como Mulher e depois como a Lua. Em suas duas representações, de pedra como uma humana protegendo sua cria (que são todos os Homens e Mulheres da Humanidade) e no Espaço Sideral, numa escala Maior ainda fazendo o o mesmo gesto, abraçando a Terra, a Humanidade.

Na época colonial, a cidade foi mais conhecida como Santafé. Pois Bogotá, nome indígena da região, era como era chamada uma das cidades da região metropolitana, atualmente nomeada Funza.

Na Colômbia, os estados são denominados ‘departamentos’, assim como na Argentina e na França são ‘províncias’.

Até 1991, Santafé de Bogotá pertencia do estado (departamento) de Cundinamarca, do qual era capital, concomitante com a função de ser capital federal.

A cidade de Bogotá era um “distrito especial” de Cundinamarca, e não um município comum como todos os outros, por abrigar a sede da União.

Mas, repetindo, ainda que com esse ‘status’ diferenciado, pertencia a Cundinamrca, era inclusive sua capital.

Na Constituição Colombiana de 1991, o “distrito especial” foi elevado a “Distrito Capital”, e este ganhou autonomia em relação a Cundinamarca. Entretanto permanece sendo sua capital.

chia2Se você achou o negócio confuso (Bogotá ainda é capital da Cundinamarca mesmo sendo autônoma a ela), eu também achei, mas é assim que funciona. Cito para vocês o que está escrito na página da ‘Wikipédia’ em espanhol:

La relación entre Bogotá y Cundinamarca es compleja pues aunque el primero es capital del segundo, sólo comparten los Tribunales de justicia de Bogotá y Cundinamarca.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado grades flores construção antiga

Próximas 15: voltamos a ver o Centro Histórico de Cartagena.

Por el contrario, ni el gobernador ni la asamblea departamental tienen jurisdicción sobre Bogotá ni son elegidos por los bogotanos. ”

Ou seja: o poder judiciário é unificado, comum a Bogotá e a Cundinamarca.

Mas os poderes executivo e legislativo de Cundinamarca se situam em Bogotá, entretanto não são eleitos nem tem jurisdição sobre os habitantes de Bogotá (????).

É como se Brasília além de capital federal fosse capital do estado de Goiás, mesmo sem pertencer a ele.

………..

Tumulto administrativo a parte, vamos prosseguir. Resolveram criar o Distrito Federal. No Brasil e no México, ele tem esse nome.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado igreja construção antiga calçadão poça pombas aves pássaros reflexo águaNa Colômbia, entretanto, ele se chama Distrito Capital, abreviado D.C., parafraseando a capital estadunidense, Washington D.C.

O fato é que há vinte anos o antigo município de Santafé de Bogotá virou o distrito federal, renomeado Bogotá D.C., e ganhou autonomia em relação ao estado de Cundinamarca.

Mas sua região metropolitana não.

As cidades-dormitório nos subúrbios da metrópole não entraram pro Distrito Capital, continuam na Cundinamarca.cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado construção antiga luminária grade flor árvore primavera rosa

O que resulta que centenas de milhares de trabalhadores moram em uma unidade da federação e trabalham em outra.

Bogotá é uma metrópole bi-estadual, como tantas outras ao redor do globo.

O núcleo, o município de Bogotá, é o Distrito Capital. Os subúrbios metropolitanos pertencem a outra unidade da federação.

cartagena colômbia Colonial construção antiga arcosA cidade é a mesma, em termos urbanísticos, econômicos e culturais. Mas politicamente são esferas de governo separadas.

Todos os subúrbios estão a oeste do Distrito Capital. Pois a leste é montanha. Bogotá não tem Zona Leste nem sequer municipal, muito menos metropolitana.

Então as cidades satélites formam um arco, do sudoeste ao noroeste do núcleo. A maior delas é Soacha. Essa é a única que já uniu sua área urbana ao do núcleo (vide mapa).

Ou seja, você muda de município (e até de estado) mas não sai da área urbana da cidade que é a Grande Bogotá. Se não ler as placas não percebe a divisa. cartagena colômbia Colonial torre igreja construção antiga

Soacha é parte integrante da Zona Sul bogotana, que é a mais pobre e violenta. Eu fui até lá, é claro.

Um ramal do Transmilênio (linhas de ônibus articulados que vão por corredores exclusivos) está sendo construído, que vai enfim integrar esse município pobre a rede de transporte da capital.

Atualização: embora com muito atraso, enfim o Transmilênio chegou a Soacha. Abordamos melhor esse assunto, com muitas fotos, em outra mensagem.

Só isso já está levando muito progresso a Soacha, diversos prédios de classe média estão sendo erguidos ao lado da estrada por onde vão passar os articulados vermelhos.

cartagena colômbia estátua escultura arte metal ferro costureira colonial pombas aves pássaros

Dentro do (murado) Centro Histórico de Cartagena, duas esculturas homenageando os trabalhadores: aqui, a Costureira

É uma situação universal, onde se implantam grandes eixos de transporte coletivo a terra valoriza demais.

Veja os espigões que estão pipocando ao lado do bonde moderno da Baixada (em Santos mesmo e no vizinho São Vicente).

De volta a Bogotá, outra vantagem é que os alimentadores são gratuitos.

Assim o pessoal da periferia de Soacha que quiser ir apenas até o Centro da cidade (sem continuar até Bogotá, é o que quero dizer) poderá ir e voltar sem pagar nada, o que fortalecerá o comércio dessa região tão carente.

……….

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…e agora o Vendedor Ambulante.

As outras cidades da Grande Bogotá são menores, e não são conurbadas com a capital.

Ou seja, nesse caso você vê nitidamente que está mudando de cidade, tem que pegar estrada e passa por áreas verdes até chegar ao outro núcleo urbano.

É uma viagem perigosa. Como passa por rodovias, em áreas ainda rurais, o micro-ônibus (as ‘bucetas’, e isso quer dizer exatamente ‘micro-ônibus’) pega tranquilamente 80 ou 90 km/h.

Porém as vezes ele simplesmente não fecha a porta. Enfia o pé, e a porta aberta.

cartagena colômbia táxi taxi amarelo prédio ambulante camelô vendedor comidas alimento

Seguimos nas próximas 8 vendo o Centro de Cartagena. Aqui a parte mais moderna, fora da muralha. Na Colômbia todos os táxis são amarelos, em todas as cidades – no Paraguai também!!!

Se alguém cair nessa velocidade é fatal. Segurança não é prioridade na Colômbia. Por vezes, você precisa embarcar e desembarcar do ônibus com ele em movimento.

O mesmo já havia presenciado na Cidade do Leste, Paraguai.

Deixa eu voltar a falar da Grande Bogotá. Eu estive, além de Soacha, nas cidades de Zipaquirá e Chía, e sem descer do ônibus também conheci Cota, Facatativá, Mosquera e Madri.

Zipaquirá (popularmente ‘Zipa’, e fala-se ‘Sipa’, pois espanhol não tem som de ‘z’) está a 50 km da capital, a norte dela.

A Zona Norte é a mais rica de Bogotá, então na estrada que liga essas duas cidades estão surgindo inúmeros condomínios fechados de alta renda.

Chegando em Zipa, ela tem um Centro colonial, de ruas estreitas, uma parte plana mais moderna, com prédios de classe média, e do outro lado do Centro uma enorme favela subindo a encosta do morro. cartagena colômbia prédio grades luminária antiga

Nessa cidade há uma mina abandonada, que virou museu. Dentro dela, embaixo da terra, há uma catedral feita inteira de sal.

Não estive na mina, dei uma volta pela cidade e regressei a Bogotá. Meus familiares entraram.

CHÍA, A DEUSA LUAChía e Cota são menores, mais calmas e mais próximas da capital. São regiões bem de classe média.

Por isso quero dizer que são subúrbios proletários: sem alta burguesia, mas também sem muitas favelas.

Existem também ainda muitas chácaras (lembram muito a Vila Alemã, subúrbio de Valparaíso, que visitei em 2015).

cartagena colômbia prédio colonial antigo sacada varanda céu azulEm Cota não desci do ônibus, então falarei um pouco de Chía.

Embora pertencente a Grande Bogotá, por ser um pouco afastada da área urbana da capital Chía lembra uma cidade do interior da Colômbia.

Pacata, cheia de conjuntinhos habitacionais, sem extremos, ou seja, não possui milionários nem miseráveis, um centrinho com comércio popular.

Um ótimo lugar para morar, se você tiver emprego ali mesmo.

Porque se deslocar para Bogotá todos os dias é difícil, pela distância e trânsito pesado. Enfim, vida de subúrbio afastado, tão comum em nossa pátria também.cartagena colômbia Colonial prédio construção antiga sobrado

Chía significa a Deusa-Lua na cultura indígena americana. É a parte feminina de Deus, tão negligenciada pela teologia tradicional.

Chía é uma enviada do Todo Poderoso, projeção Dele-Dela, que desceu a Terra materializada como uma linda Mulher.

Pra ensinar nossa humanidade tão ignorante a elevar um pouco seu pensamento.

Uma Profeta Feminina, como Jesus, Buda, Zoroastro, Maomé, Moisés e tantos outros encarnaram em corpo de Homem para Iluminar a massa. Só que Chia encarnou em corpo de Mulher.

Cumprida sua missão entre nós, ela ascendeu aos Céus novamente, e se materializou na forma da Lua, e assim é cultuada pela simbologia americana.

A Lua representa a metade Feminina de Deus, assim como o Sol representa a metade Masculina. Na simbologia, ambos tem igual valor, as metades se completam pra que o Universo possa existir.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado igreja construção antigaPra finalizar, voltando a falar das cidades suburbanas de Bogotá, já rumando pra Medelím, passei nas cidades de Mosquera, Madri e Facatativá (carinhosamente Faca).

É uma parte pobre. Mesmo os bairros planos a margem da rodovia são humildes, muitos são invasões. E assim como em Zipa, em Faca há uma enorme favela subindo a montanha.

Bem, favelas em morro e em todos os lugares é que não falta na Colômbia.

Em Bogotá, fiquei no bairro Chapinero, numa região de classe média pra média-alta, na Zona Norte, que é a parte mais rica da cidade. Mesmo assim a duas quadras de onde estava há uma favela.

Já lhes contei minhas voltas por lá. Agora é só pra relatar um detalhe curioso. Parte da favela do Chapinero ocupava os vãos e gramados abaixo e ao lado de um complexo de viadutos que há no local.

cartagena colômbia baianas mulheres negras vendedoras frutas comida melancia ambulante barraquinha banquinha rua vestidos coloridos lenços

Não é só Salvador que tem ‘baianas‘. Óbvio que em Cartagena elas não são baianas no sentido gentílico, pois são caribenhas. Mas  falando em termos de cultura, veja como a manifestação é semelhante.

Então. Um cara invadiu a ilha do viaduto. Área pública, obviamente. Mas mesmo assim ele colocou uma placa no “seu” terreno: “não entre, propriedade particular”. É mole?

…………..

OS DEPARTAMENTOSAgora falemos um pouco dos estados (departamentos) da Colômbia. Me aterei aqueles pelos quais passei.

Bogotá é o Distrito Capital, está dentro do estado de Cundinamarca, sendo sua capital mesmo sendo autônoma a ele (?). Já disse que não entendi também, mas é assim.

A Grande Bogotá está em Cundinamarca, aí de fato e direito. Bogotá está a 250 km apenas de Medelím, em linha reta, mas a viagem de ônibus leva 10 horas.

Medelím e Bogotá estão no alto dos Andes, mas ir por via terrestre é preciso descer e depois tornar a subir a montanha. Porque se cruza o vale do Rio Madalena.

cartagena colômbia casa centro histórico colonial sobrado grades flores construção antigaEsse é o “rio de integração nacional”. A Colômbia só existe como país unificado por causa dele:

Pois na época da colonização se formaram dois núcleos distintos:

Um no alto dos Andes (cujas cidades principais formam o triângulo Bogotá-Medelím-Cali), que vivia da mineração;

E outro no litoral – as maiores cidades são Cartagena (a ‘pequena Cartago’), e Barranquilla – , que se sustentava mais com agricultura e comércio marítimo, inclusive comércio de escravos.

Se não houvesse o Rio Madalena a ligá-las, na época da descolonização (princípios do século 19) essas duas partes teriam se separado em pequenos países independentes, como ocorreu na