Entre o Centro e o CIC: Boqueirão, Zona Sul

busão Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 16 de janeiro, 2015

No ensaio fotográfico de hoje, vou me focar num bairro perto de minha casa. Ou melhor, o bairro que é minha casa: 

Boqueirão, Zona Sul.

Ele fica entre o Centro e Cidade Industrial não na dimensão espacial, mas sim temporal.

Explico. Veja o mapa abaixo, retirada do sítio oficial da prefeitura: www.ippuc.org.brplaca

Desde que Curitiba surgiu (oficialmente, pelos europeus, em 1693; já era habitada antes, pelos indígenas.

Mas como não tenho dados da época pré-europeia teremos que nos ater a essa versão) até o censo de 1970 o Centro foi o bairro mais populoso.

Do censo de 1990 em diante o bairro mais populoso é a Cidade Industrial (Zonas Oeste e Sul), e o será pela Eternidade. Isso porque a CIC tem 172 mil habitantes (censo de 10).

entre o Centro e a Cidade Industrial

Curitiba cresce pro sul. Já produzi matéria completa sobre o tema.

Quem vem logo atrás é o Sítio Cercado (Zona Sul) que na mesma contagem se mostrou com 115 mil.

Veja a população de todos os bairros, divididos pelas regiões da cidade.

E o Sítio já está todo ocupado, não tem mais pra onde se expandir horizontalmente.

Já a Cidade Industrial de Curitiba, bem ao contrário, ainda tem muito espaço pra novos loteamentos. A diferença entre ambos é grande, e não vai diminuir, antes irá aumentar. Tudo somado:

fim-de-tarde no Boqueirão, Zona Sul

fim-de-tarde no Boqueirão, Z/ Sul

Desde a fundação e por quase 300 anos, o Centro foi o bairro mais populoso de Curitiba, até o censo de 1970.

Do censo de 1990 em diante, e pelos próximos 300 anos ou mais, a Cidade Industrial ocupará essa condição. É um clubinho fechado entre os dois que monopolizam esse posto.

Só há uma exceção: no censo de 1980, o Boqueirão foi o bairro mais populoso de Curitiba, pois a Zona Central já decaía, mas a CIC ainda não havia explodido.

casa enfileiradas

várias casas num só terreno

Portanto, entre os outros 73 bairros da cidade, foi o único que conseguiu se infiltrar entre a dupla e retirar, por um censo que seja, a liderança do clubinho.

O que nunca mais ocorrerá, façanha histórica e que permanecerá inédita.

Entre o Centro e a Cidade Industrial, eis o Boqueirão. Não no espaço mas no tempo. Agora sabem o porquê.

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Quartel

Quartel do Boqueirão

O Boqueirão é um bairro planejado, portanto com traçado artificial. Suas ruas são paralelas e formam retângulos exatos, como as super-quadras de Brasília.

Voltando ao Boqueirão, ele foi urbanizado na prancheta, não sei se nos anos 50 ou começo dos 60 (como vemos contemporâneo a capital federal, surfa na mesma onda).

Pra ser uma cidade-jardim, um subúrbio modelo, pra mostrar que aqui em Curitiba mesmo a classe proletária habita num bairro plano, arborizado, amplo e com as ruas retinhas, bem traçadas a régua e compasso.

sobrados

Sobrados artesanais, a famosa “Cidade da Laje”: Vila Canal Belém, Boqueirão

Pegue o mapa de Curitiba (pode ser sua versão virtual na internet se o modal de papel for inacessível) e isso ficará claro.

Repare nos outros bairros de periferia, seja o vizinho Alto Boqueirão, ou os mais distantes Sítio Cercado, Tatuquara (todos eles também Zona Sul).

Ou  Cajuru, o também vizinho Uberaba (ambos  Zona Leste), enfim qualquer um do subúrbio.

Verá que as quadras são pequenas e irregulares, as ruas sinuosas, pois cada vila surgiu separadamente (várias delas são invasões) e foram se emendando como foi possível, sem planejamento, sem prancheta, enfim, ‘no mundão’ mesmo.

terrenos enormes

Os terrenos são enormes – é o padrão aqui do Boqueirão

Já no Boqueirão, oh… quanta diferença. As quadras são retangulares e amplas, todas elas praticamente iguais, o que se expande pra vizinha Vila Hauer, urbanizaram os gêmeos-siameses numa tacada só.

E nos planos da prefeitura assim deveria permanecer.

Só esqueceram de combinar isso com os moradores, que tinham outros planos. Assim eles subdividiram infinitamente os lotes, fazendo casas de fundo.

Praça do Carmo

Praça do Carmo, onde fica o terminal de mesmo nome – bairro do Boqueirão

Questionamento: Pra que um terreno enorme com só uma casa? Vamos fazer mais casas no fundo. Assim toda família mora junto, ninguém paga aluguel.

Melhor: podemos até receber aluguel de outras pessoas.

Resultado: as moradias enfileiradas, com 5 ou mais casas em sequência (por vezes mais de 10), se tornaram o modo típico de viver do Boqueirão.

Na dimensão do desenho automotivo, temos outro exemplo perfeito do povão ‘corrigir’ o planejamento especializado dos engenheiros.

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Veja exemplos. Clique sobre as cenas que elas aumentam, o mesmo vale pra todas:

terreno enorme - casas de fundo1terreno enorme - casas de fundocasa enfileiradas1

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casa de madeira

casa de madeira

Planejado e entregue a população no começo dos anos 60, nessa década e na seguinte o Boqueirão foi densamente ocupado, e não como a prefeitura esperava.

Por isso passou o Centro em população e chegou a liderança no censo de 80, o que nunca fora previsto.

Mas o mundo segue girando, e a Vida segue dando voltas. Criada nos anos 70 pra abrigar as indústrias, a Cidade Industrial se consolida e explode nos anos 80 e 90.

Tanto praquilo que foi criada – acolher barracões industriais – como, por consequência, também recebendo inúmeros loteamentos populares, cohabs e invasões, pois as pessoas vão morar aonde há emprego. Por isso a partir de 90 toma o primeiro lugar em população, de onde não sairá mais.

indústria

barracão industrial – Boqueirão

Disso já falamos. Quero discorrer agora sobre um outro aspecto da formação da CIC, que afeta diretamente o Boqueirão:

Curitiba foi transformada num polo industrial (especialmente depois da vinda de duas montadoras de automóveis pra seus subúrbios metropolitanos nos anos 90).

Assim começa a faltar espaço pra novos barracões que possam abrigar fábricas na Cidade Industrial.

várias casas no quintal

aluga-se casas: direto com o dono

Ora, como falamos no Boqueirão os lotes são enormes. Ocupados por muitas casas, mas ainda pertencentes a um dono só, com uma única escritura.

Se ele decidir vender, 5 ou mesmo 10 famílias têm que se mudar queiram ou não.

Assim, depois da virada do milênio e o processo só se acelera, estão demolindo em massa as casinhas enfileiradas pra dar lugar a galpões industriais.

Há quadras e quadras no Boqueirão que não mora ninguém, é só barracão atrás de barracão.

indústria2Atualmente entre os 75 bairros o Boqueirão é 2º que mais tem fábricas, só atrás mesmo da Cidade Industrial.

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Pra compensar estão surgindo muitas quitinetes.

Empilham-se dezenas delas num único terreno, propiciando ainda moradia a preços acessíveis mesmo que a qualidade seja lastimável, pela altíssima densidade que resulta em privacidade zero.

quitinetes

Quitinetes: são 4 casas nesse sobrado. Essa até que é pequena. Confira algumas bem maiores na mesma região.

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As fotos (várias não estão exatamente ao lado da descrição, busque pela legenda):

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Praça do Carmo: essas placas verticais de concreto são a marca registrada da gestões de Lerner dos anos 60 e 70.

Hortências na Carmelitas

Rua das Carmelitas florida nesse belo fim-de-tarde de verão

Quartel do Boqueirão: a Avenida Marechal Floriano Peixoto existe por causa dele. Até o princípio do século passado o bairro era rural.

A ‘Fazenda Boqueirão’ era um latifúndio, creio que de gado, que ocupava a maior parte das terras daqui, origem do nome.

Nos anos 30 o latifúndio já não existia mais, parcelado em chácaras menores.

Ainda assim, a região era de difícil acesso, a única rua larga que passava mais ou menos perto era a Senador Salgado Filho, no vizinho Uberaba já na Zona Leste, que por ser muito antiga é estreita com muitas curvas, sinuosa como uma serpente.

Mas isso ainda era avançado, pra época. Saindo dessa via a situação piorava, pra se atingir o Boqueirão era por estrada vicinal ou mesmo no facão pra poder chegar. Aí, nos anos 30, Getúlio fez o quartel, e de brinde a moderníssima avenida, ampla e reta, conectando-o com o Centro da cidade.

1º prédio da Marechal

1º prédio alto do Boqueirão

Ao contrário das outras canaletas (corredores) do expresso, a Marechal ainda não tem prédios altos após o Centro. Eis o pioneiro, em estágio final de construção.

O primeiro prédio com elevador de todo Boqueirão, e também de toda Marechal fora do Centrão, o que inclui outros bairros.

Num ensaio anterior, em que percorri a pé o trajeto do ônibus que utilizo (475-Canal Belém) fotografei esse mesmo conjunto como ele é visto de longe, do alto do morro no bairro Uberaba.

Mais cenas da Avenida Marechal Floriano Peixoto: pichação nos telhados; a ciclovia que a prefeitura fez recentemente; e a ‘Baixada’, a porção oriental do Boqueirão.

pichaçãocicloviaao fundo a Serra do Mar

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A Marechal divide o Boqueirão em dois. A parte a esquerda (pra quem vem do Centro), a baixada do Rio Belém e divisa com o Uberaba, é mais pobre, e de uns tempos pra cá industrial. É nessa metade que eu vivo. Ao menos a vista é bonita, ao fundo a Serra do Mar.

rua das malhas1

malharias e facções têxteis na Rua Bley Zorning, Boqueirão

Há dois alimentadores que ligam os Terminais do Hauer e do Boqueirão, cada um vai por um lado da Marechal.

Pelo meu lado, mais pobre, vem o Iguape 2. Pelo setor oposto, mais abastado, passa o Hauer/Boqueirão.

O ponto final e inicial é o mesmo, mas o trajeto é completamente diferente. E o padrão social das vilas que ele serve varia bastante também.

Pois  a direita, o planalto, divisa com o Xaxim, tem renda muito mais elevada. Ali predominam os conjuntos de sobrados de classe média-alta.

O perfil da parte direita e alta do Boqueirão é totalmente distinta da parte esquerda e baixa, ‘primo rico e primo pobre’ que vivem lado a lado. Nem parece o mesmo bairro.

rua das malhas

R. Bley Zorning: pros íntimos a “Rua das Malhas”

Na parte baixa do Boqueirão há a “Rua das Malhas”: são dezenas de lojas de tecidos, uma ao lado da outra na Rua Bley Zorning. Pessoas vem de todo o Paraná se abastecer no atacado aqui.

Na parte alta, rica, do Boqueirão, a Bley Zorning continua mas lá ela tem perfil residencial, e não comercial.

Ao cruzar o Rio Belém e entrar no Uberaba, a Bley Zorning muda de nome. Estive lá também.

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casas de madeira

Sul do Brasil

Como já falamos muitas vezes, eis a casa típica da periferia do Sul do Brasil (e do Norte também): madeira, lote que parece chácara, sem muro ou muro baixo.

Um dia foi comum também no Sudeste, mas não mais.

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Pra que o povão possa continuar a residir no Boqueirão, surgiram essas quitinetes. Numa delas se abrigou numerosa colônia haitiana, era fim de tarde e os irmãos após um dia duro de batente se refrescavam nas escadas.

colônia haitiana

colônia haitiana no Boqueirão

Eis uma característica típica da raça negra caribenha, quando fui a vizinha República Dominicana (que como sabem divide com o Haiti a Ilha Espanhola) presenciei e retratei esse traço tão prevalente na população de lá:

se congregar nas escadarias e saguões da cohab como se essa fosse sua sala de estar.

Eles colocam inclusive vasos com plantas nos peitorais pra tornar o ambiente mais agradável, pois é ali que passam boa parte de suas horas livres.

padrão elevado…………..

Sobrado requintado, amplo e de fino acabamento.

Exceção na parte baixa do Boqueirão a esquerda da Marechal e por isso registrei, é o padrão do ‘outro lado’, a direita na seção alta do bairro.

horta em via pública

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Horta em via pública, perto do Terminal Boqueirão. Abóboras se proliferaram, alguém abriu uma clareira pra plantar um pé de abacate, pedindo as pessoas que não mexam na planta.

Esta cena é longe de minha casa. Mas aqui na esquina também há uma horta na praça no mesmo estilo.

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Azulão que Brilha !!!Encerrando como comecei, um bi-articulado na linha Boqueirão. Abrimos com o Raio Vermelho, fechamos com o Raio Azul.

dia luminoso………..

Que Deus Pai-Mãe Ilumine Infinitamente a Caminhada de vocês.

“Ele-Ela proverá”

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