Soteropolitano

cidade-baixaPor Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 21 de janeiro de 2017

Os desenhos são inéditos.

as fotos são de um emeio que foi publicado em setembro de 2015.

Marília e Maurílio (e mais a filhinha deles) em Salvador, Bahia. Eles moram numa quitinete em cima de uma laje na última expansão da Cajazeiras. Já quase na divisa com Simões Filho. Se você conhece a capital da Bahia, sabe o que isso quer dizer.

De segunda a sexta Maurílio é motoqueiro, ganha a vida fazendo entregas. As vezes até faz bicos a noite numa pizzaria, na mesma função.

A direita vemos ele pilotando seu instrumento de trabalho, enfrentando o pesado trânsito da Avenida Suburbana.

E no domingo ele e a esposa foram passear no Centro, por isso a 1ª imagem mostra eles na Cidade Baixa, o famoso Elevador Lacerda ao fundo.

……..

Comentemos primeiro a cena em que está toda família: a menina ainda se alimenta dos peitos da mãe. Enquanto Marília amamenta, o maridão ‘papai fresco’ segura as bolsas, a do bebê e também a bolsa de Mulher da esposa, que é da Minnie e com bolinhas vermelhas.

caixa

Esse desenho não se relaciona com o texto. Marília trabalhando como caixa. Aqui, ela é de novo a típica representante do Sul do Brasil, loira natural. Com a camiseta de marca combinando com suas unhas laranjas. Fazer o que, se alguém tem que ser chique e elegante?

Ao lado eu mostro outra Marília, essa Sulista, cheia de charme. Pois bem. A Marília Nordestina também é sempre elegante. Ela não tem dinheiro pra comprar roupas de marca, na verdade nem mesmo se importa com isso.

Mas nem por isso ela é menos elegante. Veja, ela combinou o vestido com sua tatuagem pois ambos são floridos. E mais uma echarpe.Como na Bahia é muito quente pra usar no pescoço, ela amarrou na cintura.

Também fez a ‘mecha californiana‘, pras pontas de seu cabelo ficarem mais claras que a raiz.

Não tem jeito. Mesmo sendo uma dona-de-casa suburbana, Marília nunca deixa de ser charmosa. Tá no DNA dela….

Quanto a pequena princesa, mesmo quando deixar o berço ela terá que dormir por um bom tempo ainda no quarto dos pais.

É que a família aumentou mas o orçamento continua o mesmo. A casa deles é só a famosa ‘quarto-&-cozinha’. Há um pequeno banheiro, claro. Mas não há sala, lavanderia, quintal, garagem, e nenhum quarto extra. É preciso se adaptar a essa realidade.

Vamos aproveitar o busão (Busscar da Bahia Transportes Urbanos – B.T.U.) e mostrarmos algumas características da busologia baiana. Um dia farei uma mensagem onde ilustraremos com dezenas de fotos, mas por hora serve de aperitivo.

buzu

Busscar da BTU ainda na pintura livre.

Vou falar de um tempo que já se foi, da era pré-padronização de pintura e pré-letreiro eletrônico.  Num passado não muito distante, em Salvador, os ônibus tinham:

1) pintura livre; 2) entrada traseira e saída dianteira; 3) o letreiro menor, onde vinha o n° da linha, era vermelho.

Portanto não é porque esse ônibus é vermelho que o letreiro do número é da mesma cor, isso valia pra todas as empresas.

4) Quase todo o itinerário vinha no para-brisas, em épocas mais remotas pintado a mão com giz, e mais recentemente mais organizado numa grande placa ou adesivo. Nesse desenho pegamos a transição, há a placa mais organizada mas pra garantir escreveram ‘Paripe’ e ‘Lapa’ a mão.

E 5) existe uma letra (‘B’, nesse caso) também adesivada bem grande no vidro. Isso também ocorre em outras metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre-RS. É que nas grande avenidas passam dezenas de linhas de ônibus, então é preciso dividir elas por pontos diferentes:

a-familia-cresceu

Combinando o vestido com a tatuagem. Marília é sempre charmosa, mesmo com o orçamento apertado.

Algumas param no ponto ‘A’, outras no ‘B’, se tiver mesmo muitas abre-se o ‘C’ e mesmo a letra ‘D’ existe nos corredores mais carregados. As vezes são números, a função é a mesma.

Tem mais. Já que falamos da cor dos bichões da BTU. Essa foi uma das poucas viações que não adotou a “padronização branca” voluntária do começo desse milênio. 

Explico. Até o meio da década de 10, ainda era pintura livre na capital da Bahia, só padronizou oficialmente um pouco antes da Copa do Mundo-14.

No entanto, na década passada houve uma “padronização informal” na cor branca. A maioria das viações adotou uma pintura em que o branco era majoritário, embora houvesse detalhes em outras cores.

Foi voluntário, um acordo entre as viações talvez pra facilitar o remanejamento da frota entre elas. Não foi imposto pelo poder público. Logo, aderia quem quis. A maioria quis, e ficou sem cor em pelo menos metade do veículo (aqui vemos um exemplo da BarraMar).

Na época se comentava “em terra de gente negra, o ônibus é branco”. Bom, na África as vans de transporte coletivo são (quase sempre) alvas, do outro lado do Oceano o mesmo espírito se manifestou na Boa Terra.

papai-maurilio

A família cresceu. Repito a imagem mas mudo o foco, dessa vez centro a câmera nele, pra gente ver melhor o sorriso de orelha-a-orelha de Maurílio quando está junto com as duas Mulheres de sua vida.

Pois bem. A BTU não quis participar, não aderiu a “padronização branca” informal. Seus busões continuaram multi-coloridos enquanto foi permitido por lei.

Agora, quando veio (pouco antes da Copa de futebol, como dito) a padronização ‘Integra Salvador’, aí a BTU entrou porque foi compulsória, importa pela prefeitura.

A ‘Integra’ também inverteu a entrada pra frente, em todas as viações obviamente.

…………………

Aqui acaba a parte inédita.

Pra encerrar enxerto um emeio publicado em 4 de setembro de 2015.

puxadinho no prédio: salvador também é (áfrica na) américa
salvador1

Perambués, Salvador.

Debatemos recentemente o fenômeno do “puxadinho no prédio” no Chile. E anteriormente na República Dominicana, apelidada “África na América”.

Veja bem. Não estou falando de puxadinho em casa, nem em “prédio artesanal” (‘subindo laje’), quando sobem um andar por vez. Isso existe em toda América Latina e boa parte de Ásia e África.

E sim quando há um prédio, legalmente construído, com alvará e tudo. E aí sem alvará alguém sobe mais um andar por conta – ou no caso chileno faz mais um cômodo suspenso. Isso eu só tinha visto nesses dois países.

Porém acabo de presenciar o mesmo em nossa Pátria Amada (via Google Mapas): bairro Perambués, periferia de Salvador da Bahia. Depois, indo pra outros bairros, constatei que a situação é a mesma na cidade inteira, ao menos na periferia. Veja que beleza!!! Salvador é América, óbvio. E como é. A própria essência Americana desdobrada na matéria.

salvador

Visto mais de perto.

Atualização de 2017: em julho de 2016, quase um ano depois do emeio acima, fui a Aparecida-SP. Lá também é comum adicionarem mais andares em prédios já prontos.

Embora no caso paulista como inclusive no Centro aí creio que a maioria dos prédios tem alvará pra reforma. Pode ser.

Mas a impressão é a mesma. Veja a matéria sobre a “Cidade da Fé”, fotografei a situação que relato acima. Deixando o interior paulista pra lá, vamos continuando pela Bahia. . . Pois o melhor estava por vir.

salvador-2Seguindo pela mesma rua em Perambués, olhe o que eu vi: pessoas andando sem nenhuma proteção na caçamba de caminhões. E não foi a única vez em Salvador que presencio isso. Exatamente como na África do Sul, República Dominicana, México e Colômbia. 

Ah, América querida. Por que você é assim???

“Deus proverá” 

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