Por que o Hospital Cajuru não é no Cajuru?

1914

Mapa de 1914, com a grafia ‘Coritiba‘, que o time de futebol preservou. Clique pra ampliar. No início do século 20 a cidade havia crescido menos pro leste. Aqui o atual Alto da XV (no mapa chamado ‘Uberaba’, bem longe do atual Uberaba) já existia. Mas em 1900 ainda não. Veja que o atual Cristo Rei ainda fazia parte do ‘Cajuru’, que então englobava toda a porção austral da Zona Leste. Tem mais: o começo do Bacacheri se chamava ‘Colônia Argelina‘, leia matéria específica.

Por Maurílio Mendes, O Mensageiro

Publicado em 8 de agosto de 2010

Vamos retomar nossa série sobre Curitiba. Conforme indiquei no título, vamos falar hoje de um paradoxo:

Por que o Hospital Cajuru não é no bairro do Cajuru? A resposta é simples: não é hoje, mas um dia já foi.

E pra entrarmos nessa questão, iremos destrinchar um pouco da história de toda a Zona Leste curitibana. Vamos lá então.

Como é sabido, o Hospital Cajuru está localizado no Cristo Rei.

A filial do Bradesco que fica exatamente em frente a Rodoferroviária também se chama agência Cajuru. Embora pouca gente saiba, ali pertence ao bairro do Jardim Botânico.

taruma

Linha de ônibus Tarumã. Foi estendida e hoje o ponto final é no Terminal Bairro Alto, também Z/L. Buso da finada Viação Luz, que tinha vários Apaches. Fonte: sítio Ônibus Brasil.

A maioria das pessoas pensa que é Centro, mas não é. A Rodoviária e o Mercado Municipal fazem parte de um enclave do bairro Jardim Botânico.

Só que não é sobre isso que quero falar agora.

Muitos podem pensar que a Rodoviária e Mercado ficam no Centro, mas todos sabem que não ficam no Cajuru.

E tampouco o hospital está no bairro do Cajuru, também acima de qualquer dúvida.

Isso pra não falar no cartório do Cajuru, que fica entre esses dois pontos, da mesma forma no coração do Cristo Rei.

alto taruma

E essa é a Alto Tarumã. Os pontos inicial e final são o mesmo, mas o trajeto é diferente. Esse era o famoso ‘Cara-Preta’ da Luz. Todos os Apaches eram inteiro amarelos, como o visto ao lado. Só esse tinha essa ‘máscara negra’.

…………

Por que então tantas coisas levam o nome do Cajuru, sem estarem nele?

Pra responder a essa pergunta, é preciso voltar no tempo, até a colonização da área.

Nas últimas décadas do século 20, Curitiba cresceu bem mais pra leste do que pra oeste e norte.

Tanto que a Zona Leste já está inteiramente povoada a décadas, não tem mais grandes áreas disponíveis.

cajuru

Esse é o buso Cajuru. Ele não passa pelo bairro que o nomeia. Explico: seu ponto final é no vizinho bairro do Capão da Imbuia, que se separou do Cajuru em 1974. Foi uma de muitas secessões. No passado o Cajuru era muito maior que hoje, e englobava boa parte da atual Zona Leste.

Como ainda são encontradas nos extremos Sul, Oeste e Norte. A Zona Sul também cresceu muito, mas ela é muito maior fisicamente.

Resumindo, a expansão entre os anos 60 até começo dos 90 foi maior pra sul, leste e em menor medida norte. E pra oeste foi a mais modesta de todas.

Por isso na virada da década de 80 pra 90 o leste do município de Curitiba estava inteiramente ocupado por área urbana.

No sul a cidade era muito grande, maior que nas outras regiões, mas como a área é mais extensa pra esse lado ainda havia (e ainda há) área rural.

alto cajuru

Um dia, houve também a linha Alto Cajuru, hoje eliminada. Fonte: sítio Curitiba Antiga. Essa imagem também consta na página da Urbs, estatal que gerencia o transporte coletivo.

Nos bairros Ganchinho, Umbará, Campo de Santana, Cachimba e um último resquício no Tatuquara.

Pra norte a expansão urbana foi grande mas ainda há um pouco de área verde (embora não área rural) nos bairros Santa Cândida, Cachoeira, Abranches, Taboão e Pilarzinho.

E pra oeste 25 anos atrás havia muita área verde em diversos bairros, pois prali a cidade era bem menor:

São Braz, Campo Comprido, Santo Inácio, São João, Cascatinha e partes da Cidade Industrial (porque ela é muito grande).

E em Santa Felicidade, Riviera, Augusta, Orleans, São Miguel, Lamenha Pequena e Butiatuvinha não apenas havia inúmeros e inúmeros bosques, mas mesmo pequenos sítios de agricultores.

Nas últimas duas décadas e meia o crescimento foi intenso pra Zona Oeste, exatamente porque essa era a região que mais tinha espaço disponível.

hospital

Entrada do Hospital Cajuru. Atualmente pertencendo ao bairro Cristo Rei.

Então embora a mancha urbana tenha avançado muito pro ocidente, resquícios do que descrevi acima ainda permanecem. 

……….

Mas esqueçamos agora o fim do século 20. Vamos retornar um século inteiro no tempo, ver como a cidade era no começo desse século 20.

Curitiba havia se expandido mais pra norte, sul e oeste, e pra leste muito pouco.

Tenha em mente que a área urbanizada de Curitiba de então é a somente o que hoje é a Zona Central.

Segundo os arquivos da prefeitura (se eu conseguir achar esse mapa eu subo pra rede), na virada dos séculos 19 pro 20 ou seja em 1900 a mancha urbana já havia ocupado todo o Centro e pelo menos partes de um ou mais bairros a Oeste, Norte e Sul. Dando nome aos bois:

Já eram urbanizados todo o Centro e pequenas partes do Batel e Mercês a Oeste, todo o Centro, quase todo o São Francisco e parte do atual Centro Cívico (que na época pertencia a outros bairros, pois ele foi criado artificialmente na década de 50) a Norte, todo o Centro e a maior parte do Rebouças e mesmo uma pequena porção da Água Verde a Sul.

Vamos ver imagens não relacionadas com o texto sobre o Cajuru. Essa tomada do Calçadão da XV é de 1978. Veio do sítio do Ippuc, órgão de planejamento da prefeitura.

Mas pra Leste a situação era diferente. Tudo ainda era zona rural, inclusive locais que ainda pertencem ao atual território do Centro.

O Rio Belém marcava em 1900 o limite da expansão urbana.

Pra quem não sabe, ele passa por baixo da Rua Mariano Torres, ou melhor, em 1978 ele foi canalizado e a pista da avenida foi construída sobre ele.

O fato é que a Leste da atual Mariano Torres ainda haviam apenas chácaras em 1900.

E o território do Centro vai bem pra além disso, seu limite oriental é a Rua Ubaldino do Amaral.

Ou seja, enfatizando, nem sequer o território do Centro havia sido totalmente tomado, área urbana em bairros a Leste então nem pensar. Lembre-se que estamos em 1900.

……..

Mapa_Curitiba_1894

Planta de ‘Curityba’, de 1894. Na virada do século 19 pra 20 tanto essa grafia quanto ‘Coritiba’ eram correntes. Nenhuma das duas vingou.

Vamos agora avançar rapidamente quase 3 décadas. Descreverei como era Curitiba em 1927:

A cidade crescia e avançava sobre as chácaras e fazendas de seu cinturão verde. A mancha urbana se expandiu vigorosamente pra Sul e Oeste.

Na ocasião pra Sul a zona urbana já atingia quase todo o bairro do Rebouças e mais uma parte da Água Verde.

Embora a maior parte desse último bairro ainda fosse rural, até porque ele é bem extenso.

Pro Oeste, a expansão da cidade assimilou quase todo o bairro do Batel e mais uma boa parte das Mercês e Bigorrilho.

Pra Norte o crescimento foi menor, pegou só uma pequena parte do Alto da Glória e mais um pequeno trecho do São Francisco.

ctba avenida juvevê z/n z/c joão gualberto 1974 anos década 70 p-b canaleta corredor buso prédio cidade convencional pintura livre

Av. João Gualberto em fins de 1974. Ainda não haviam os expressos vermelhos. Nessa outra postagem imagens mais antigas da avenida, sem a canaleta e com ela ainda em obras.

Vocês não devem se esquecer que os bairros ao Norte do Centro estão em aclive em relação a este (visualize a subida da Av. João Gualberto no Alto da Glória).

Então em épocas sem transporte motorizado, as pessoas deram preferências as planícies a Oeste e Sul do Centro.

E também a cidade já havia crescido bastante a Norte no ciclo anterior, em 1900 o São Francisco era o único bairro (a parte do Centro, obviamente) que já majoritariamente urbano.

O que resulta que da mesma forma a cidade em 1927 era muito maior pra Norte do que pra Leste.

Pois pra esse último lado, embora não haja subidas (pelo menos se formos pela atual Av. Afonso Camargo, e a região da atual rodoviária já era habitada), ainda estava destinado a ser área rural.

Cajuru cajurú Z/L ctba aérea terminal capão imbuia linha trem ônibus interbairros 2 artic verde

Vamos ver alguns retratos aéreos do atual Cajuru. Começamos pela divisa com o Capão da Imbuia, que fez parte dele até 1974. Hoje a via do expresso os divide: do Terminal Capão da Imbua pra baixo é o bairro que o nomeia. Do outro lado da avenida pra cima é Cajuru, nessa porção uma região de classe média, com caros sobrados duplex e triplex.

É claro que houve crescimento pra parte oriental, mas apenas em 1927 a mancha urbana conseguiu ocupar todo o Centro (o que os outros 3 lados já haviam atingido em 1900), e apenas uma pequena porção do (atual) Alto da XV.

Pra se fazer justiça, embora pelo Cristo Rei não haja subidas, pra ir do Centro ao Alto da XV é preciso vencer a ladeira, como alias a própria nomenclatura do bairro indica.

Aclives topográficos a parte, o fato é que em 1900 a cidade pra Norte, Sul e Oeste já ocupava todo o Centro e partes de alguns bairros.

Pra Leste, nem sequer o Centro, e bairros nem pensar.

Em 1927, nas 3 primeiras regiões, a mancha urbana já abrangia pelo menos a maior parte de um bairro e grandes partes de mais um ou dois.

Enquanto a Leste apenas havia-se atingido com 27 anos de atraso o que as outras partes já logravam na virada do século: tomar todo o Centro e uma pequena parte de um bairro.

Em foto do ano 2000, a mesma Avenida Affonso Camargo separando o Capão da Imbuia (dir.) do Cajuru (esq.). Essa parte do bairro, já perto da divisa com Pinhais, é bem de periferia. Ao fundo os prédios da Zona Central.

Ocupar quase todo um bairro e ainda partes de um segundo ou terceiro, novamente nem pensar.

Resumindo: o crescimento pra Leste, se analisarmos a área urbana em 1900 e 1927, está sempre um ciclo atrás do verificado nos outros 3 pontos cardeais.

Fiz toda essa retrospectiva histórica apenas pra mostrar o que havia dito no início, que até o começo da década de 30, a cidade havia crescido pouco pra Leste.

E é com isso em mente que vamos poder entender afinal por que o Hospital Cajuru não está no Cajuru?

Como acabei de dizer, a Zona Leste até um pouco antes da 2ª guerra mundial ainda era área rural. Enquanto os três outros lados da cidade se urbanizavam e se dividiam em bairros, não houve essa necessidade pra parte oriental.

Assim, a maior parte do que é a atual Zona Leste foi dividido em apenas duas grandes regiões: Cajuru e Tarumã.

Havia uma sub-divisão, onde se acrescentava o “Alto” na frente pra indicar se era perto do Centro ou não. O Alto indicava a parte mais distante, então subentendia-se que o ‘baixo’ (que não era escrito) era a porção mais central.

Assim: Cajuru e Alto Cajuru, Tarumã e Alto Tarumã, num processo análogo ao que culminou na secessão do Alto Boqueirão do bairro em que resido, o Boqueirão.

O Alto Boqueirão não tem esse nome porque ele está mais elevado em relação ao nível do mar (dimensão vertical) que o Boqueirão.

R. XV de Novembro - SJP

Esse também é o Calçadão da Rua XV de Novembro, no Centro. Porém o de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana.

E sim porque está mais afastado em relação ao Centro da cidade (dimensão horizontal).

O ‘baixo’ Boqueirão – chamado somente ‘Boqueirão’ – vem antes, a seguir está o Alto Boqueirão, e pelo prefixo ‘alto’ se indica exatamente isso.

Tudo somado: pela Z/L ser em grande medida ainda rural antes da 2ª guerra, não houve a necessidade de dividi-la em bairros menores.

Processo análogo ao Norte do Brasil, onde os estados são maiores porque mora menos gente neles.

De volta a Curitiba de décadas atrás. Não havia ‘Cristo Rei’, nem ‘Jardim Social’, ‘Bairro Alto’, nenhum desses nomes.

(Notas: na época o atual Jd. Social, alias, era despovoado, exceto por pequenas chácaras, e por isso conhecido como ‘Morro do Querosene‘, vejam vocês.

E o Bairro Alto é Zona Leste mesmo, e não Norte como muitos erroneamente afirmam.)

1857

Mapa de 1857. Curitiba se resumia a poucas quadras no Centro. Amplie pra você ler os nomes anteriores das ruas mais antigas de Curitiba.

Uma divisão bastava pra toda a atual Zona Leste: Cajuru na parte austral, Tarumã na boreal.

Com uma sub-divisão: ‘baixos’ (termo sub-entendido, por isso não grafado) Cajuru e Tarumã perto do Centro, Alto Cajuru e Alto Tarumã na porção mais distante.

Ainda hoje há as linhas de ônibus Tarumã e Alto Tarumã, e a Cajuru.

No passado houve também a linha Alto Cajuru, porém foi extinta ou teve nomenclatura trocada.

Assim, o ‘Cajuru’ (‘Baixo Cajuru’) da época englobava os atuais Cristo Rei e Jardim Botânico.

Como falei antes, o Hospital Cajuru, presentemente no Cristo Rei, tem esse nome porque já pertenceu ao Cajuru, e o mesmo vale pra região da Rodoviária e do Mercado Municipal, hoje Jardim Botânico.

O antigo ‘Alto Cajuru’ é o atual Cajuru propriamente dito. Subindo um pouco no mapa, o antigo ‘Tarumã’ é a região onde é o atual Tarumã, aqui não houve alterações.

Cristo Rei Z/l ctba aérea prédios moinho anaconda

O moinho de farinha (centro da imagem) está na pontinha do Jardim Botânico. Já todos os prédios altos no Cristo Rei (fiz minha versão dessa cena). Toda a região um dia pertenceu ao Cajuru.

O ‘Alto Tarumã’ era a denominação de uma parte do que hoje pertence ao Bairro Alto.

Mais especificamente, era conhecido por Alto Tarumã a parte plana do Bairro Alto, ali próximo a Av. Vítor Ferreira do Amaral.

O ônibus chamado Alto Tarumã serve exatamente a pequena planície que há na região meridional do Bairro Alto.

Quando o Terminal que leva o nome do bairro foi inaugurado em 1993, a linha foi estendida até lá, pra oferecer transporte integrado aquelas vilas.

Mas a origem do nome é essa que acabei de dizer.

Agora discorramos sobre algumas das imagens da matéria, não necessariamente relacionadas ao que foi falado acima.

No emeio original eram apenas 3 imagens, duas do calçadão da XV no Centro de Ctba, e outra também do Calçadão da XV no Centro, porém do subúrbio metropolitano de São José dos Pinhais.

Calcadao da R. XV - Centro

Inclusive com agência do Bamerindus

A descrição que inicia abaixo é sobre elas. Pra subir pra rede puxei mais imagens, que serão comentadas nas legendas.

Falemos das cenas que mostram a ‘Rua das Flores’, cuja última quadra é conhecida por ‘Boca Maldita’ (uma delas a direita).

Essa e uma outra, identificada na legenda, são de 1978, e mostram uma Curitiba que já se extinguiu a muito, aquela anterior aos ‘shoppings’.

Quando o calçadão do coração da cidade ainda era seu ponto mais nobre de comércio.

Eu encarnei em 1977, e me mudei pra Curitiba, com 3 anos, em 1980. Logo, não sou exatamente contemporâneo a época desses registros.

Mas boa parte das características aqui mostradas se mantiveram ao longo da década de 80, então deu tempo de serem presenciadas pra ficarem em minha memória.

Alto da XV

Pça. das Nações, divisa quádrupla de Cristo Rei, Alto da XV, Jd. Social e Tarumã.

Até porque o primeiro grande ‘shopping’ da cidade é o Mueller, que foi inaugurado em 1983.

Porém, ainda levaram alguns anos até ele ‘pegar’ em definitivo, e matar de vez o ‘glamour’ do Centro, ou seja, ainda pude presenciar esse encerramento de ciclo.

Na imagem que está bem pro alto da página vemos 4 carros, e curiosamente 3 eram marrons.

Cor hoje não mais utilizada nos automóveis novos, que dão preferência a tons metálicos, prateados. Como se percebe no entanto, em 1978 a tendência era outra.

Embora a definição deixe a desejar, percebemos 3 carros Corcel, da Ford, dois do modelo Corcel 1 e um mais novo, Corcel 2. O outro veículo é uma imponente Caravan, da Chevrolet.

mapa-de-44

Mapa de 1944

Os 4 carros, é óbvio, têm placa amarela, a placa cinza só foi implantada em 1991.

O Paraná foi o primeiro estado da federação a fazê-lo, por isso as chapas aqui começam com “A”.

Detalhe curioso nas faixas de pedestre: haviam flechas indicando que as pessoas deveriam seguir a direita.

Numa tentativa de padronizar o fluxo dos que andam a pé de forma similar ao tráfego motorizado.

………..

Reparem nas placas de ruas, logo a frente da faixa. Era branca e luminosa, ou seja, acendia a noite. Esse sinalização sofisticada só foi implantada no Centro, e na virada pra década de 80 foi substituída por outro padrão.

Jd. Botanico e Cristo Rei

Jd. Botânico, prédios ao fundo no Cristo Rei

Mas até hoje ainda há uns poucos exemplares, que a prefeitura se esqueceu de retirar.

Quando você andar pela Zona Central, se estiver com os olhos bem atentos, ainda pode achar algumas dessas placas brancas remanescentes.

Vamos falar agora de marcos característicos da Rua XV que permaneceram até pelo menos todos os anos 80.

O primeiro deles é aquela forma de peculiar de iluminação pública, com aquelas bolas no alto dos postes.

Outro exemplo é aquela construção com cobertura azul, bem no meio da foto. Ali funcionou muito tempo um quiosque de venda de ingressos pra peças de teatro e apresentações musicais nos teatros e casas noturnas dessa cidade.

rua xv aberta

Em captura que deve datar do fim dos anos 50 ou começo dos 60, vemos a Boca Maldita com o tráfego de automóveis ainda liberado.

Infelizmente nessa escala não dá pra ler, mas está escrito na fachada: “Teatro Paiol – Não me maltrate Robinson – de 10 a 12” e logo abaixo “Teatro Paiol – Música Erudita – as terças”.

Veja vários equipamentos urbanos com o mesmo telhado:

Aquelas cúpulas redondas que Jaime Lerner transformou na marca da cidade nos anos 70, que também adornava os pontos dos ônibus expressos.

A imagem registra outro detalhe que os mais novos, que praticamente falaram suas primeiras palavras no celular, não vão se lembrar. Entre a bilheteria e a banca de revistas, há outra construção, que servia pra abrigar uma ‘manada’ de orelhões.

1972

1972: Jaime Lerner manda fechar a Rua XV pra carros e a transforma em calçadão. A burguesia se revoltou num primeiro momento. Amplie a foto pra poder reparar na placa de rua branca (a esquerda na imagem) daquele tipo que descrevi no texto, com uma luz dentro que acendia a noite.

É claro que haviam também orelhões isolados, mas na Rua XV e em diversos outros locais do Centro haviam esses locais onde se agrupavam uns 10 ou 15 de uma vez.

Eram disputadíssimos, eu mesmo cheguei em minha juventude a ficar na fila várias vezes, de vez em quando tínhamos que esperar vários minutos pra usar, e isso em pleno Centro.

A maioria só fazia ligações locais, e eram amarelos. Alguns poucos eram azuis e faziam também DDD. Eu disse DDD.

DDI (ligações pra outros países) de orelhão, como hoje é possível, só em contos de ficção científica.

A fila pra falar no orelhão era longa, pois celular também era um sonho distante. Foi lançado no início dos anos 90, e só veio mesmo a se popularizar na década de 2000.

Mesmo telefone fixo era um luxo, inexistente na periferia, e um cobiçado sonho de consumo pra classe média.

Haviam pessoas que tinham 2 ou 3 linhas e as alugavam, como se aluga um imóvel. Eu não estou brincando, nem mesmo exagerando.

rua xv

Em foto que é dos anos 70 ou 80, novamente a Rua 15 de Novembro em suas quadras mais centrais.

É claro que o orelhão funcionava a base das hoje extintas fichas telefônicas, outro objeto ignorado pelos mais novos.

Quem era prevenido andava com várias no bolso, pois se estivesse sem tinha que recorrer aos pontos de venda mais próximos, que geralmente cobravam ágio.

Só que ou se pagava o que eles pediam ou não se telefonava, pois a maioria dos orelhões também não fazia ligações a cobrar.

cajuru2

Mais duas tomadas da parte periférica do atual Cajuru, de padrão econômico bem mais modesto. Aqui o centro geográfico do bairro, vemos a linha de trem, e bem ao fundo o subúrbio metropolitano de Pinhais. A parte intermediária, entre a linha férrea e a mata, foi invadida dentro do Parque Nacional do Iguaçu. Leia essa outra matéria em que eu abordo detalhadamente a questão das invasões de terra em Curitiba, várias delas surgidas antes de eleições.

O primeiro telefone a cartão em Curitiba foi inaugurado na (hoje fechada) Rua 24 Horas, que é de 1991.

Mas a universalização dessa nova tecnologia, e aposentadoria definitiva das fichas, só se deu na segunda metade dos anos 90.

(Nota. O texto é de 2010. A Rua 24 Horas ficou alguns anos desativada, mas agora em 2015 está funcionando de novo.)

A segunda foto mostra o mesmo local, apenas de uma ângulo mais aberto.

Creio que foi tirada no mesmo dia, porque também está chuvoso, e mostra a mesma propaganda com a bandeira do Paraná no cartaz.

Inclui essa imagem apenas porque mostra mais um ícone de nossa cidade que já se extinguiu: o Banco Bamerindus, cuja sede era aqui.

Chegou a ser o terceiro maior banco privado de nosso país, atrás apenas do Bradesco e Itaú. Durou até a segunda metade dos anos 90. Foi vendido ao inglês HSBC, situação que perdurava quando escrevi o emeio.

5 anos depois, quando jogo na página, o espólio do Bamerindus já trocou de mãos mais uma vez, negociado com o Bradesco.

Vejam o logotipo do Bamerindus em sua agência, no alto, a esquerda na foto. Abaixo da loja da C&A ainda estava ativo um cinema da prefeitura. Esse sobreviveu mais um pouco, foi fechado em 2005.

Bairro Cajuru_ Parque Linear do Cajuru, às margens do Rio Atuba. Curitiba, 11/11/2002 Foto: Carlos Ruggi/SMCS (22682-24a) ARQUIVO

Em imagem de 2002, a porção do Cajuru as margens o Rio Atuba (que nesse trecho divide os municípios de Curitiba e Pinhais, a esq.). Trata-se de uma área de subúrbio, classe trabalhadora.

Cheguei a ver vários filmes ali, só a entrada era no nível da rua, com a sala de projeção no subterrâneo.

Pra finalizar, também a esquerda, há um grande relógio, na vertical. Como se pode ver por ele, a foto foi tirada as 13:30, de um dia qualquer de 1978.

Esse ainda está lá, mas não sei se está funcionando.

……

Ligação externa:

Veja mais imagens de Curitiba antigamente nessa matéria:

http://www.xvcuritiba.com/curitiba-era-muito-mais-elegante-confira-algumas-fotos-de-curitiba-antigamente/

Paz a todos.

Deus proverá”

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Um comentário sobre “Por que o Hospital Cajuru não é no Cajuru?

  1. omensageiro77 disse:

    NENHUM BAIRRO SERÁ DIVIDIDO EM CURITIBA, POIS É ANÁTEMA AO QUE A PREFEITURA QUER;
    E A CLASSE MÉDIA NÃO GOSTA DE “VILAS”, POR ISSO DISPENSA SUB-DIVISÕES.

    Um leitor comentou o texto. Como ele o fez por emeio sou eu, O Mensageiro, quem assina esse comentário. Mas reproduzo as palavras textuais dele, que foram:

    “ Caro Companheiro,

    Li sua reportagem sobre o bairro Cajurú, ótima!
    Gostaria de saber se saberia me dizer se existem projetos para novos zoneamentos, como li na internet, por exemplo, transformar Centenário e Vilas Oficinas em Bairros independentes, ou é só boato. e gostaria de saber se o companheiro saberia mais sobre as subdivisões do cajuru atualmente, não achei por exemplo como denomina´-se a porção onde está localizado o antigo IBS e o 6 Distrito. ”
    ………….

    Abaixo minha resposta a ele.

    Firmeza total irmão.

    Desculpe a demora pra responder. Fui pra Florianópolis (breve jogo no ar uma matéria dessa viagem também) e lá não mexi na internet. Eu não tenho celular, só acesso a rede em computador fixo, com aquele monte de fios jurássicos, portanto em viagens fico meio fora do ar.

    Quanto ao que você perguntou do Cajuru, eu não tenho nenhuma fonte oficial, não conheço ninguém que trabalhe na câmara ou prefeitura. Mas se meu conhecimento empírico da cidade serve de balizamento eu te digo:

    É boato. Nem o Cajuru nem qualquer outro bairro vai ser dividido. A prefeitura não permite esse tipo de seccionamento.

    Na virada dos anos 60 pra 70 foi criado o maior bairro de Curitiba, a Cidade Industrial, sobre a qual já fiz algumas matérias também. Em 1974 ocorreu a última mudança no limite dos bairros, quando o Capão da Imbuia se separou exatamente do Cajuru.

    De lá pra cá apenas em 1992 o bairro Capanema mudou o nome pra Jd. Botânico, mas o território não se alterou.

    Há um movimento pra criar oficialmente o bairro “Champagnat”, na Zona Oeste, entre Bigorrilho e Mercês. Nem mesmo esse vingou, e olhe que são algumas pessoas bastante influentes que ali residem.

    Portanto eu creio que a Vila Oficinas e o Centenário continuarão a ser parte do Cajuru, não haverá a criação de novos bairros. Falando sinceramente nem vejo muita utilidade. O prefeito e os vereadores continuam exatamente os mesmos, então dividir um bairro gera apenas um gasto imenso de dinheiro e trabalho pra mudar as placas, os mapas, as escrituras, sem muito benefício prático.
    …………

    Quanto as sub-divisões: esse é um conceito mais do subúrbio. A classe média não gosta de “vilas”. Assim, as porções dos bairros em que predomina a classe média geralmente não é dividida em vilas, usa-se só o nome do bairro mesmo.

    Nesse caso específico que você citou, acredito que ali os moradores digam apenas “moro no Cajuru”, dispensando sub-divisões.

    Conheço bem o Cajuru, e portanto conheço diversas sub-divisões dele. Além da Oficinas e Centenário que você citou, poderíamos lembrar as vilas Trindade, Autódromo, Acrópole, São Domingos, Camargo, Moradias Cajuru (essa última, você sabe, é aquela perto do ‘shopping’ Jd. Das Américas, do outro lado da BR) e outras menores, menos conhecidas, como Betel, Parque Nacional e Rocinha.

    Nota que todas elas têm o perfil mais proletário, de classe trabalhadora, muitas vezes antigas favelas que foram ou ainda estão sendo urbanizadas.

    Ao contrário, geralmente as regiões mais estabilizadas, que antigamente tinham um perfil mais de classe média-baixa e hoje se aburguesaram, mas que seja como for sempre foram mais estáveis, digamos assim, desde o começo tiveram suas ruas abertas de forma regular, já com nome desde que surgiram, essas partes são habitadas por pessoas que tem um perfil mais conservador.

    E essas pessoas, digo de novo, não gostam de morar em ‘vilas’, dizem apenas o nome do bairro.

    Eu fui criado em Santa Cândida, na Zona Norte. Ali era exatamente esse caso. Onde nós morávamos não havia qualquer sub-divisão, não havia nome de vila. Dizíamos simplesmente ‘Santa Cândida’. Aí pra explicar onde era falávamos ‘atrás do Clube Rio Branco’. Portanto era usada uma referência de uma instituição que havia no bairro, mas não uma sub-divisão do mesmo. E ali era esse caso, era uma parte de periferia da cidade. Mas como ainda tinha um perfil mais pra classe média-baixa, não existia uma vila, era apenas ‘Santa Cândida’ mesmo.

    Mais pra frente, em suas vilas mais proletárias, Santa Cândida tem diversas sub-divisões, sendo as vilas Aliança, Olaria, São Benedito, Laranjeiras, Califórnia e Abaeté (esse última na divisa com a Boa Vista) as mais famosas porque nomeiam ônibus, mas há outras como Vila Granada.

    No Boqueirão, onde eu moro hoje, esse processo é ainda mais pronunciado, o Boqueirão tem pouquíssimas vilas. Onde moro é uma das mais famosas, o Canal Belém. Aqui ficou fácil criar uma sub-divisão, porque é na beira do rio e é uma invasão, algumas partes já urbanizadas, outras ainda não. Perto do Terminal do Carmo também há a sub-divisão exatamente conhecida como ‘Carmo’, e há ainda as vilas Iguape e Parque Náutico já perto da divisa com São J. dos Pinhais.

    Mas no geral a maior parte do Boqueirão não tem sub-divisões, não tem vilas, as pessoas chamam onde moram simplesmente de ‘Boqueirão’ e isso lhes basta. Essa situação se repete pela cidade, Bairro Alto, Fazendinha, Boa Vista, Capão da Imbuia, e muitos outros bairros, poderíamos dar mais exemplos mas é supérfluo.

    O importante é gente ter em mente que em partes mais aburguesadas, mais conservadoras de cada bairro não há sub-divisão, as pessoas usam somente a denominação do bairro.

    Como essa parte que você citou do Cajuru é justamente uma de suas porções bem abastadas, eu creio que ali não há sub-divisão. Ou se houver eu desconheço.
    ……….

    Esteja sempre em Paz, que Deus Ilumine sua Caminhada.

    “Deus proverá”

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