“A Vida no Morro”, parte 2: Valparaíso é América de corpo e Alma

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Favela no morro: Valparaíso é assim

Por Maurílio Mendes, “O Americano”

Publicado em 17 de maio de 2015

Ouça a música.

É o Chile, caramba !!!!

Ninguém deixa de ser o que é.

E o Chile é América, de corpo e Alma.

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Em escala maior, pra ver que a coisa é brava, as casas se empilham na encosta ao deus-dará.

(Nota: todas as fotos dessa matéria são da Grande Valparaíso, exceto uma.)

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Europeizaram a capital Santiago e a transformaram num xerox londrino, pelo menos urbanisticamente.

Sim.

Ainda assim, basta uma volta por sua outra capital Valparaíso – onde está o congresso – que você verá o quão pífia foi essa tentativa de abafar o sol com a peneira grossa.

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Ampliando ainda mais; Bairro São Roque, Valparaíso, Chile, América, 2015.

Valparaíso é América Latina.

Tão Latina e tão Americana quanto uma cidade pode ser, e as imagens falam por si mesmas.

Em Valpo você se sente em Cali-Colômbia, La Paz-Bolívia, Caracas-Venezuela ou nos subúrbios da Cidade do México.

Valparaíso é onde o Chile se re-encontra com a América.

pano-valA direita uma panorâmica, clique pra ampliar.

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O Chile em Preto e Branco. Prédio da elite na beira-mar, Vinha do Mar, Grande Valparaíso

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A cidade foi, como já disse algumas vezes, construída sobre 41 morros.

Os mais centrais são chiques, ligados com teleféricos a Cidade Baixa que é o Centrão.

E por isso abrigam gente descolada e de classe média em suas estreitas ladeiras.

Sabe uma versão sul-americana de São Francisco-EUA? É por aí.    

vista céu azul porto alto ladeira morro central z/c valparaíso chile marinha navio esquadra armada mar oceano costa pacífico

Porto de Valparaíso; veja mais tomadas nessa postagem.

Agora, na periferia, nas quebradas, Valparaíso não é chique, e não é descolada.

Ao contrário, os morros estão favelizados, e milhares de casas se empilham precariamente nas encostas.

Isso quando não chove. Quando desaba água do céu, as casas desabam também.

E só do Céu é que vem alguma esperança que um dia essa situação mude.

Veja o que eu já havia escrito sobre Val ainda em 2013, bem antes de ir lá fisicamente.

madeira

Casa de madeira: tão comum no Chile como no Sul e Norte do Brasil; Todas as fotos dessa matéria são na Grande Valparaíso, essa é de novo no bairro São Roque.

Mas após ter dado umas boas voltas pela cidade assim que o ‘Google’ a filmou no Visão de Rua.

Porque o governo chileno urbanizou intensamente a capital Santiago, que é onde mora o/a presidente do país.

Mas o interior ainda aguarda esse melhoramento. E olhe que Valparaíso também é capital, a capital legislativa.

Só que isso não bastou pra que o governo olhe com um pouco mais de carinho pra esse povo, e o resultado é o que está aí.

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Mais uma de madeira: exceto quando indicado as fotos de periferia e morro são todas no bairro São Roque, Valparaíso, que é ao lado de onde me hospedei, e foi o único que tive oportunidade de conhecer melhor, devido ao tempo exíguo.

O Chile é bi-polar, amigos. Apenas 130 km separam suas duas capitais.

E pela moderna auto-estrada duplicada chega-se rapidamente em 1 hora e meia. Mas parecem galáxias diferentes.

Porque em todos os países latinos que citei acima a coisa é complicada, mas é complicada por inteiro.

Não há essa bi-polaridade chilena, é o que estou tentando colocar.

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A periferia, e as vezes mesmo o Centro, de Acapulco, Tijuana, Monte-Rei e Guajdajara é pavorosa? Assim o é, e no caso de Acapulco comprovei com meus próprios olhos.

Mas o subúrbio da capital México D.F. não é nem um pouco melhor, e em muitos casos chega a ser pior.

casa de lata centro

As moradas de latão são muito frequentes no Chile (na Argentina existem também, mas muito mais raras). Essa aqui é em pleno Centro de Valparaíso.

Porque o México é pobre, é de 3º mundo certamente, mas o é por inteiro, disso não restam dúvidas.

O mesmo ocorre na Colômbia. Medelím e Cali tem muitas favelas em morro.

E nas metrópoles do litoral (Cartagena e Barranquilla) há igualmente muita miséria, apenas ali é plano, não há encostas.

Só que, assim como se dá no México, a capital Bogotá não é tão diferente assim do interior. A Zona Sul bogotana tem favelas em morro que fazem a Rocinha-RJ parecer pequena.

casa de lata - vinha

Outra casa de zinco. Essa num morro de Vinha do Mar. Na mureta grafite do Éverton, time de futebol local.

A coisa é realmente temerária e assustadora, e só quem esteve lá pode dimensionar o quanto.

A Zona Oeste é um pouco melhor mas tem pontos também bastante complicados.

Só a Zona Norte é que é de maioria de classe média (Bogotá não tem Z/L, pois há uma montanha a oriente do Centro).

O mesmo se dá em nossa Pátria Amada. O Plano Piloto de Brasília é realmente espetacular, “meu Deus, mas que cidade linda!!”, como o poeta definiu.

Agora, há partes das cidades-satélites (Estrutural, Itapoã, as quebradas da Ceilândia e Santa Maria, pra citar só alguns) são bastante depauperadas, alias nessa mesma música é narrada a saga dos subúrbios candangos.

fim de tarde centro

Anoitece no Centro de Valpo

Porque o Brasil é América Latina, e nossa capital não deixaria de expressar essa mesma sintonia.

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Vocês já sabem dessa situação, obviamente. Escrevi tudo isso pra apontar que no Chile não é assim.

Santiago é uma realidade a parte, mas em Valparaíso tudo ‘volta ao normal’, se é que se pode colocar assim.

VALPARAÍSO É A SEDE POLÍTICA DA REGIÃO METROPOLITANA;

MAS A ELITE PASSA AS FÉRIAS EM VINHA DO MAR

Falemos um pouco da Grande Valparaíso. Ali está o maior porto do país, o que lhe confere o status de sede política da Região Metropolitana.

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Praia em Vinha do Mar. Eis o ‘Guarujá Chileno’

É de fato uma cidade portuária, por toda a periferia se vê carretas muito velhas, de gente trabalha puxando carga de e para os navios.

Você já esteve em Vicente de Carvalho, no Guarujá? Valparaíso é morro, Vicente é plana.

Mas uma coisa é igual, há dezenas e mais dezenas de cavalos-mecânicos enfileirados nas ruas estreitas.

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vinha - val

Na orla de Vinha do Mar há um castelo Nessa postagem eu o desenho e conto um pouco da história dele. Ao fundo, os prédios já pertencem a Valparaíso.

Quando estive lá em 2005, já portanto na metade da primeira década desse milênio, a maioria ainda era dos velhos Jacarés laranjas da Scania, vejam vocês.

Uma década depois, em 2015, eu voltei a Vic. de Carvalho, Guarujá. Agora os Jacarés já não são maioria, mas ainda infinitamente comuns. Fotografei vários.

Pois o bairro fica no entorno do Porto de Santos, e esse é o sustento da maioria das famílias da região.

(Não apenas em SP. Em Paranaguá-PR, já nessa década de 10 os Jacarés igualmente eram abundantes.)

Então, andando agora pelas ladeiras do bairro São Roque, em Valparaíso, eu me senti de volta a Grande Santos.

caminhão carreta cavalo azul cara chata valparaíso chile

Cidade portuária: na periferia de Valparaíso as carretas estão por toda parte

Alias a metrópole costeira paulista tem muito em comum com a metrópole costeira chilena.

Santos e Valparaíso são as sedes políticas, por abrigarem o terminal marítimo.

Mas os prédios melhores, a orla mais chique, está nos vizinhos municípios do Guarujá e Vinha do Mar.

Em Itajaí e Balneário Camboriú-SC há igualmente uma situação parecida.

Nas imagens: o Porto de Valparaíso com nossa bandeira na mesma imagem, tradição que se espalha pela América.

E a seguir mais carretas nos subúrbios da cidade, da galera que vive de levar os latões de carga pro navio. Ao lado da última carreta grafite da torcida Garra Branca do Colo-Colo, comando São Roque.

valparaíso porto morro bandeira brasil pátria amada prédio cidade teleférico mar oceano costa naviocaminhão carreta cavalo vermelha renault cara chata valparaíso chilegb valparaíso são roque caminhão cara-chata man chile pichação picho garra colo-colo torcida futebol

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mural ladeira periferia teleférico morro escada valparraíso grafite muro pintura pintado chile

Grafite do teleférico no São Roque.

Disse que há teleféricos ligando os morros que contornam o Centro ao baixada em Valparaíso.

Veja a esquerda, no subúrbio, bem longe dali, em morros que não são servidos por teleféricos, há grafites retratando-os.

Portanto mesmo os que não dispõem desse benefício o cultuam apenas por fazerem parte do ‘Espírito valparaisense’.

Pois bem. Agora veja esse bar ao lado: homenageando o tróleibus, que tem 70 anos e é outro símbolo da cidade.trolei - simbolo da cidade

Trata-se do único sistema de tróleibus do Chile.

E de toda a América do Sul ao lado de São Paulo e Santos, Mérida-Venezuela, Quito-Equador e Córdoba, Mendonça e Rosário, as 3 na Argentina.

Retificação importante: anteriormente eu informei erroneamente que só há tróleibus no Brasil e Chile. Peço perdão aos amigos do Equador, Venezuela e Argentina pela falha.

Veja essa matéria em que mostro os ônibus elétricos americanos, de Valparaíso a Vancuver-Canadá.

Já fiz uma mensagem específica sobre os tróleibus chilenos, e outra sobre os brasileiros.

Uma terra em que os meios de transporte são muito queridos no coração de seus habitantes, elevados a símbolos da cidade. Valparaíso é assim.

troleis

Tróleis no Centro de Val

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O curioso é que eles homenageiam apenas os meios de transporte antigos, que estão ali a há décadas.

Porque a Grande Valparaíso tem também moderníssimo metrô.

Que liga o Centro (a Estação Central é perto do porto) aos subúrbios, primeiro cortando a orla (em Valpo e na sequência em Vinha do Mar).

frio casa de madeira

Casa de madeira com porta pra rua. É o Chile, irmão. O carro da família dorme na via pública.

A seguir faz uma curva a direita, cruza o morro via túnel.

E conecta ao núcleo distantes municípios da Grande Valparaíso que ficam na face oposta da montanha, e são planos, sem encostas.

Falei de tudo isso – a rede de transportes e os subúrbios afastados – em mensagem a parte, incluso com muitas fotos.

Aqui é só uma pincelada pra apontar que o metrô é moderno.

E muito útil, usado pelos valparaiseneses diariamente pra ir e voltar do trabalho. Mas não é homenageado em grafites e placas.

frio

Frio, muito frio: veja a quantia de sereno no vidro do automóvel, e já faz mais de uma hora que amanheceu.

É prático, e por isso utilizado no plano material.

Porém não é querido ao Coração, esse espacinho ‘no Recôndito da Alma’ abriga apenas os meios de transporte antigos, o trólei e o teleférico.

Valparaíso tem a Alma Retrô, saudosa de um passado que não volta mais, e por isso é eternizado nas pinturas que adornam as ruas.

A causa é que a cidade já teve dias melhores, economicamente falando. Beeem melhores. O Centrão é velho, feio, sujo e confuso.

Há alguns bairros de classe média e média alta nos morros, mas são poucos. A cidade é bem pobre, no geral.

frio pra caramba

Brrrrr, que gelo!!! A garota saiu toda encasacada pra ir trabalhar, nessa 4ª de manhã. O outono de Valparaíso é o inverno de Curitiba, e Curitiba já é gelada. Não quero conhecer o inverno de Val.

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E onde então moram os ricos da Grande Valparaíso?

Oras, no mesmo lugar que os ricos de Santiago passam suas férias de verão: na orla do vizinho município de Vinha do Mar.

Igualmente as imagens falam por si mesmas. Os prédios da elite em Vinha tem um luxo e ostentação abertos.

Em Santiago não é assim, a cidade é muito rica, mas é uma riqueza mais discreta.

Na capital a elite não tem tanta necessidade de exibir seu dinheiro. Mas quando desce a serra a coisa muda, ali é a ‘Beverly Hills’ chilena, e vale tudo.

periferia1 concreto

Em outra escala. O sol já está subindo, mas o vento gelado é de rachar. Repare na rua de concreto. São Roque, Valparaíso.

O Centro de Valparaíso é apertado, velho e confuso, com poucos prédios altos residenciais.

O Centro de Vinha do Mar (a palavra ‘vinha’ se refere a fazenda onde se plantam uvas, e não ao verbo vir) é, exatamente ao oposto, novo.

Com amplas avenidas tomadas por espigões que ostentam belos jardins gramados adornados com espelhos-d’água, canteiros e cascatas.

Entretanto, leve em conta que Vinha do Mar tem o mesmo perfil topográfico que a vizinha Valparaíso, e portanto tem o mesmo perfil urbanístico-social:

O Centro é cercado por morros, os mais próximos são de classe média, conforme você vai se afastando as favelas tomam conta de tudo.

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casas de madeira e de lata, as vezes saindo pra rua: a periferia do chile se parece com a do brasil, argentina, áfrica e ásia

casa de lata

Outra casa de latão, Zona Central de Valparaíso. Imagina o frio que isso é no invernão.

No Chile há muita casa de madeira. Tanto quanto no Sul e Norte do Brasil.

Como Valpo é pobre e em morros, é cópia fiel de Almirante Tamandaré, na Zona Norte da Grande Curitiba.

Ou quem sabe a Lomba do Pinheiro, na Zona Leste de Porto Alegre-RS, quase divisa com Alvorada.

Como é notório pra quem esteve em Santiago as casas de madeira diminuíram muito com a intensa urbanização lá ocorrida, mas ainda estão presentes em bom número.

Na Argentina praticamente não há casas de madeira, exceto no estado das Missões e na Patagônia, ou seja nas pontas do país, sua periferia econômica e cultural. Tratei desse tema com muito mais detalhes em outra postagem.

centro - vinha

O Centro de Vinha do Mar é muito rico, limpo, gramado e amplo.

Aqui é só pra verem que nesse ponto o Chile se parece mais com o Brasil, com quem ele não faz fronteira, que com a Argentina, com quem o Chile compartilha uma fronteira de nada menos que 5,1 mil km.

Mas isso não é tudo.

Muito comuns na periferia do Chile também são casas de alvenaria muito humildes, com saída direto pra rua.

comercio informal centro

Já o Centro de Valparaíso é o exato oposto: velho, confuso, apertado e apinhado de ambulantes, parece a Nigéria.

Na Argentina igualmente.

Aqui os vizinhos são próximos não apenas física mas espiritualmente da mesma forma. E o mais curioso: no Nordeste Brasileiro é igual.

Tudo isso já disse antes. Então vamos pra parte que eu ainda não disse.

Nas partes pobres da Argentina há umas poucas casas de latão. Muito mais raras que no Chile, mas ainda se acham algumas isoladas.

Faça uma voltinha ao redor do estádio do Boca Júniors na Zona Sul de Buenos Aires. Algumas partes do Bairro da Boca, que nomeia o time, pouco mudaram em mais de um século:

Bairro dos Ingleses

Classe média-alta no Bairro dos Ingleses, Valparaíso, no alto do morro, afastado do Centro.

Ainda tem gente que mora no latão, em pleno século 21. É uma forma de tortura.

Pelo metal ser condutor térmico, a casa fica gelada no inverno, e um forno no verão.

Mas ainda é a realidade de alguns argentinos que não tem recursos financeiros.

Pois bem. No Chile também é assim. E muito mais que na Argentina. Já que no Chile as moradias em zinco ainda existem aos montes, mesmo no Centro, e muito mais nas favelas e periferias.

Em graus diferentes, compartilham ainda esse modal precaríssimo. É outro ponto em que os vizinhos são irmãos. 

Já retomamos o texto. Antes uma pausa pra mais cenas da orla de Vinha do Mar, o balneário da elite chilena. Clique sobre que as fotos aumentam, o mesmo vale pra todas.

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Logo na 1ª tomada note mais uma vez as ruas de concreto. É o padrão do Chile, e independe de classe social. Da elite a favela, é onipresente.

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Favela em Valparaíso

Na América, entre todos os países que já visitei e também que o ‘Google’ já filmou, só Chile e Argentina tem casas de latão, vejam só.

No Brasil não existe esse modal, louvado seja Deus, porque é desumano.

No Paraguai tampouco, e olhe que esse vizinho menor nosso é pobre, muito pobre.

No México, Colômbia e República Dominicana há algumas, mas raríssimas.

Só nas piores partes das piores favelas, mesmo na periferia fora da favela não há, e no Centro então nem pensar. O Peru já está filmado e constato que a situação é a mesma.

bandeira favela

Povo nacionalista: mesmo nas favelas a bandeira do Chile tremula, sempre. Valparaíso.

No Chile, entretanto, é bem comum, mesmo em partes degradadas do Centrão. Na Argentina já vi pelo ‘Google’, existe, mas bem menos que no Chile.

Sabe onde os pobres também moram em casas de latão? Na China e África do Sul.

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Tudo somado: no subúrbio das cidades chilenas há casas de madeira e zinco, além da alvenaria.

Independente do modal, muitas vezes há muros e quintal, mas também é frequente a porta sair na via pública, sem quintal.

No Chile as periferias do Brasil, Argentina, África e Ásia se encontram. Um Portal Inter-Dimensional.

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Pra ilustrarmos essa realidade, fotos do subúrbio de Valparaíso. Uma moradia de madeira ao lado de outra de compensado, saindo direto na rua.

Depois mais uma de latão, na mesma quebrada de Valpo, o São Roque e imediações.

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Minha estada no litoral do Chile foi brevíssima, apenas um dia e meio.

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Centrão da cidade, cercado por morros. Valpo (a esq. em escala maior).

Considerem que no único dia que passei inteiro lá de manhã eu fui a praia e de tarde a um jogo de futebol.

Assim sobraram pouquíssimas horas pra andar pela cidade.

Por isso, da periferia só tenho fotos do entorno do bairro que fiquei hospedado em Valpo e de um morro mais central em Vinha.

Logo que chegamos subimos o teleférico, onde tirei as fotos do porto, inclusive a com o estandarte da Pátria Amada.

centro e morroA seguir peguei o metrô e fui aos subúrbios distantes e planos do outro lado do morro, saga que será melhor contada depois.

No dia seguinte fomos a praia. Pra isso é preciso ir a Vinha do Mar.

Valparaíso tem litoral mas não tem praia, boa parte da orla está ocupada pela porto e o resto é rochosa.

Só dá pra entrar no mar em Vinha no auge do verão, dezembro e janeiro.

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Subida de morro em Vinha do Mar. Essa parte é de classe média-baixa. Note as casas que saem direto na rua de concreto, 2 traços indeléveis do Chile.

No outono e primavera já é impraticável, o mar é indescritivelmente gelado, porque o litoral chileno é cortado por uma corrente fria antártica.

E no inverno as águas do Pacífico Sul naquele trecho lembram as da Rússia.

Fomos no outono. É tão frio, mas tão frio, que você não consegue andar descalço pela areia na parte que ela está molhada.

É preciso buscar a parte seca pra não parecer que está com os pés dentro de uma geladeira.

E isso que o dia estava claro, de sol sem nenhuma nuvem, como as imagens mostram.

centro (2)

Centro de Valparaíso tomado por comércio informal

Alias tempo seco é o padrão no Chile. O país é árido, na semana que fiquei lá não choveu uma gota sequer.

É a primeira viagem que faço que isso acontece, em todas as outras (e já foram algumas, pelo Brasil e América) sempre chove pelo menos uma vez.

Em Belém-PA choveu todos os dias, cheguei e saí da cidade sob temporal.

Fiquei encharcado também em Belo Horizonte-MG (“A Vida no Morro”, parte 1), no Paraguai e na Colômbia, e mesmo em Fortaleza-CE, que no geral é bem seca, eu tomei um pouco de chuva. molhando as plantas

Mas no Chile não foi assim. O Norte do país é deserto, alias um dos mais áridos do planeta.

O Centro, onde estão as duas capitais, há um pouco mais de umidade no ar, mas não muito.

Veja a foto ao lado. Em Santiago todos os dias nos fins de tarde caminhões-pipa da prefeitura agoam a vegetação dos canteiros de praças e avenidas, pra que ela não pereça desidratada.

5 e meia - poente - centro - vinha

Centro de Vinha do Mar. Vamos reparar alguns detalhes na placa de rua: 1) é marrom, padrão em vários países de Cone Sul, na Argentina e  Paraguai e são exatamente iguais. 2) Nesse ponto da cidade as ruas são numeradas. Essa é a Rua 5 1/2 Oeste. Rua “Cinco e Meia”?? Exatamente. Ela surgiu entre as ruas 5 e 6, e como não havia um número inteiro pra nomeá-la foi preciso fracionar. 3) Como no México, ‘Oeste’ no Chile é o Poente. Na Colômbia se fala ‘Ocidente’.

Essa é a única foto que é de Santiago, todas as outras dessa matéria são da Grande Valparaíso, não custa enfatizar ainda mais uma vez.

Santiago tem clima ameno. Quando fomos lá (março de 15) a temperatura estava bem agradável, tanto de dia quanto de noite.

Porém, por ficar entre montanhas o problema da poluição atmosférica é seríssimo.

Já a Grande Valparaíso é um gelo. Não apenas a água do mar. A cidade idem.

De manhã cedinho e a tarde todo mundo se cobre de casacos da cabeça aos pés, e isso que estávamos no outono.

Imagine como é o inverno. Tudo por causa da corrente fria do Pacífico.

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bandeira

Mais uma vez: mesmo nas favelas a bandeira nacional está sempre orgulhosamente presente.

Já retomamos o texto. Vamos ver várias cenas do Morro no bairro São Roque, em Valparaíso.

Lhes disse, por falta de tempo esse foi o único que pude conhecer em profundidade.

Mas representa com perfeição a periferia da Grande Valparaíso, o que inclui Vinha do Mar.

Nos outros bairros os morros são iguais, tomados de favelas nas encostas exatamente como esse.

Várias vezes há a mesma tomada em escalas diferentes, pra vermos tanto o panorama geral quanto os detalhes.

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Vimos várias casas de madeira e metal, afinal estamos no Chile.

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Mais uma favela em morro. Essa é na entrada de Valparaíso, ainda na estrada. Longe do São Roque que está retratado acima, portanto.

Na penúltima e antepenúltima foto, o povão nomeia as ruas por conta, pra as pessoas conseguirem achar seu endereço.

O cara escreveu “Rua Nova” no muro.

E ainda teve o cuidado de o fazer no padrão do país, em marrom e com flecha bi-lateral indicando que é mão dupla.

Depois alguém nomeou a ‘Transversal Hijuelas’. Trata-se do escadão, na verdade.

Mesmo as pessoas que moram na parte mais degradada do morro querem, naturalmente, ter um endereço padronizado e reconhecido por todos, e por isso até as escadarias tem nome.

Em Vitória-ES, além de várias outras cidades pelo mundo, é igual.

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picho centro

Rabiscos no Centro de Valparaíso. O Chile é inteiro pichado mas não há estilo próprio, copia de outros países. Já falei mais disso em outro texto, incluso com fotos.

Voltando a falar de nossa ida a praia chilena. Vimos que o mar é gelado já caminhando na areia.

Quando nos estabelecemos em um ponto fui pra dentro d’água.

Afinal era minha primeira e provavelmente nessa encarnação última chance de ficar imerso no Pacífico Sul.

Então eu afundei no oceano. Rapidamente. A seguir de novo. Após essas duas rápidas mergulhadas fui pra areia, de onde não saí mais.

Foi o suficiente. É frio demais. Demais, demais mesmo, não há qualquer paralelo com o Brasil, nem mesmo com a parte austral da pátria, que é onde vivo.

O litoral do Sul é bem gelado no inverno de fato. Mas muito menos que no Chile, não há qualquer comparação possível.

picho vinha

Vinha do Mar: pichar caminhões é a mais nova-iorquina das manifestações. A importação da cultura ianque foi feita tão abertamente que o chileno escreveu ‘querida mamãe’ em inglês. Fotografei uma van rabiscada também na República Dominicana.

Aqui no inverno não dá pra entrar mesmo no mar, mas nos dias mais quentes de outono e primavera dá tranquilo.

E no verão a água é bem quente. No Chile apenas no pico do verão ela fica suportável, ainda assim bem fria.

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Já lhes contei em outra oportunidade de algo engraçado e também um pouco assustador que ocorreu ali na areia.

Foi como se revivêssemos o filme ‘Os Pássaros’ na orla chilena.

Então vambora falar de volta da cidade de Valparaíso. Lembra muito Acapulco, muito mesmo. São cidades-gêmeas ‘separadas no nascimento’:

A topografia é praticamente idêntica, parece que o Criador quando foi materializá-las pegou o mesmo projeto e apenas adaptou os detalhes.

centrão valpo valparaíso chile anúncio propag z/c

Centro – Valparaíso

Ambas surgiram entre um arco de montanhas que protege uma baía. Na parte plana está o Centro.

Elas já tiveram dias bem mais luminosos em termos econômicos.

Então com a decadência a elite saiu da cidade e foi morar em subúrbios, visitando a área central só pra trabalhar.

Ou nem isso, muitas vezes a moda estadunidenses já surgiram mesmo centros corporativos e comerciais afastados da confusão e do povão que pulula no núcleo velho da metrópole.

periferia1 vinha

Periferia em Vinha do Mar: sempre na ladeira. Repare a rua de concreto, o padrão méxico-chileno.

Ele é, digo ainda mais uma vez, barulhento, apertado, velho, sujo, e, isso eu ainda não disse, tomado de camelôs, nos dois casos.

Sério: Valpo e Acá (pra usar os apelido carinhosos delas) parecem um mercado persa, no Centrão. As fotos são auto-explicativas – essas são do Chile.

Algumas matérias sobre o México já estão no ar, clique nas ligações em vermelho acima pra comprovar.

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Em Santiago há muitos camelôs também, mas apenas nos bairros periféricos. Em outra mensagem seguem as fotos.

valparaíso chile morro favela periferia encosta montanha pobreza quebrada barracos obra construção inacabada parada invasão

Favela em Valparaíso. A dir. em escala maior. Repare em mais uma casa de madeira. Bairro São Roque.

No Centro não há tanto esse problema. De forma que muitos pensam que ele não existe.

Bem, não só na questão do comércio informal. Santiago tem muita miséria, mas é bem longe dos olhos.

E portanto longe da mente das pessoas também.

No subúrbio o bicho pega e pega feio, o sistema é bruto. 

Mas, como diz outra música, ‘só quem é de lá sabe o que acontece’. bandeira chilena valparaíso valpo favela morro quebrada subúrbio pobreza encosta escada

Eu estive lá, e vi, e agora relato a vocês.

Mas como a imensa maioria das pessoas não vai pros arrebaldes da metrópole, a coisa fica meio encoberta. 

…………

Em Valparaíso esse auto-engano não é possível.

centrão favela morro pobreza quebrada z/c valparaíso chile encosta montanha invasão prédio periferia congresso

Classe média em prédios no Centro, uma favela no morro ao fundo. Fotografei a exata mesma cena em Florianópolis-SC.

As consequências da desigualdade social estão a vista de todos, a luz do dia, no coração da cidade.

Bem ao lado das portas do congresso que representa o povo chileno, repare o que acontece:

Uma parcela considerável desse mesmo povo luta apenas pra sobreviver materialmente. 

Da forma que seja possível por mais precária que seja, como é na Nigéria e Haiti. As imagens  ao lado e logo acima foram feitas na região.

E as calçadas ao redor são tomadas por camelôs, obviamente pessoas que não têm emprego e centro favela morro pobreza quebrada z/c valparaíso chile encosta montanha invasão periferiafazem o que podem pra levar dinheiro pra casa.

Valparaíso É América. Não dá pra negar ou maquiar. 

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Mais uma pausa pra fotos.

Agora vamos ver Vinha do Mar, na Grande Valparaíso.

subida do morro - vinhamadeira - o Chile e assim - vinhamadeira vinha1morro madeira vinhaperiferia vinhamorro1 vinhacentro1 vinha ao fundo valcentro vinha ao fundo valmorro centro vinhamorro centro vinha1morro centro vinha val ao fundomadeira vinha

Repare na casa que está na 9ª e 10ª fotos:

A garagem é no nível da rua. E o chão dela está muito acima do teto da casa, isso que é um sobrado! Por aí se calcula a inclinação do morro. É a realidade da Grande Valparaíso, é a realidade de boa parte da América.

periferia concreto

Aqui é Valparaíso. Ruas sempre concretadas.

Muitas casas de madeira e de metal, afinal isto é Chile. A subida do morro, e a vista do Centro lá de cima.

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De volta ao texto. Já disse antes e direi de novo:

Na classe média o Chile é muito parecido com a Argentina.

Talvez a média e alta burguesia espanhola que tenha vindo povoar os dois países vizinhos seja oriunda de um extrato homogêneo.

madeira2

Valparaíso: casa de madeira no morro, rua de concreto.

Semelhança que foi reforçada depois quando ambos receberam grandes levas de italianos, ingleses e alemães.

No Sul do Brasil também houveram muitos imigrantes italianos e alemães, e em SP italianos.

Agora, pra nossa Pátria quase não vieram ingleses. Pra Argentina e Chile foram muitos, muitos mesmo. O que uniu esses países entre si.

Porém no subúrbio, no povão, o Chile é muito parecido com Peru e Colômbia, e completamente distinto da vizinha Argentina.

E a linguística é a prova.

Quem fala castelhano sabe, quem não tem essa habilidade vai saber agora. Há 3 formas de pronunciar os dois ‘L’s nesse idioma. Vou exemplificar pela palavra ‘llave’:

Os espanhóis falam como se lê, ‘lhave’ (como se fosse nosso ‘lh’), uma pronúncia parecida com ‘liave’.

Os pratenses (argentinos e seus vizinhos paraguaios e uruguaios) dizem ‘chave’, e aí fica igual falamos no português, eles leem o ‘ll’ como nosso ‘ch’.

subida morro vinha mar madeira classe média valparaíso chile ladeira

“Mônaco Americana”: a Grande Valparaíso é sobe-e-desce o tempo todo. Aqui é um bairro de classe média em Vinha do Mar.

No Norte da América do Sul (Equador, Colômbia, Venezuela) e América Central (México incluído) fala-se ‘jave’, como se fosse nosso jota.

Pois bem: no Chile também se diz ‘jave’.

Me ative a primeira sílaba, a que distingue os sotaques hispânicos entre si.

Quanto ao final da palavra, sabem que não existe a pronúncia de ‘v’ em espanhol, fala-se como se fosse ‘b’.

Resultando que na verdade se diz ‘liabe’, ‘chabe’ ou ‘jabe’.

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centro vinha mar valparaíso chile prédio elite valpo classe alta poste luz iluminação pública luxo

Centro de Vinha do Mar, perto da orla.

A cidade de Barranquilla, Colômbia. Os espanhóis, que a fundaram, falam
‘Barranquília’.

Os argentinos e vizinhos dizem ‘Barranquícha’. Já o povo que lá habita, os colombianos, denominam essa metrópole costeira de ‘Barranquíja’.

Os chilenos também dizem ‘Barranquíja’. 

alto teleferico

Aqui e a direita: alto do morro em Valpo. Esse é central e de classe média. Ligado ao Centrão por um teleférico, o que permite que alguém more ali e vá trabalhar sem carro.

O mesmo vale pra letra ‘Y’ seguida de vogal. Os espanhóis falam como se lê.

Os pratenses como se fosse ‘ch’. Os Centro-Americanos, e também os chilenos, como ‘jota’.

Yo Soy . . .”:

– Europa: “Dio Soy”.

– Prata: “Cho Soy”

– México, Colômbia, Venezuela, Equador e Chile: “Jo Soy”

……….

E isso também em Santiago, claro. A capital chilena passou por uma reforma urbanaalto espantosa nesse último quase meio século.

De fato impressionante, transformou uma cidade latino-americana em europeia.

Mais que europeia, norte-europeia, ou seja inglesa. Vendo fisicamente sua periferia, Santiago é uma cidade normanda. Na matéria.

favela

Favela em morro na entrada de Valparaíso, ainda na estrada. Sem querer eu desregulei a máquina e a imagem ficou em P&B.

Ainda que impressionante, foi feito, porque é possível construir centenas de milhares, ou mesmo milhões, de moradias geminadas em conjuntinho.

Mas o sotaque de um povo você não muda, porque você não muda a Alma dele.

Pois em espírito Santiago é Americana. E como é.

Em postagem futura dou todas as provas, em múltiplas dimensões.

lata, brahma e torcida

Periferia de Valparaíso. Repare nos detalhes: 1) mais uma casa de lata; 2) pichação ‘S.W.’, da torcida do time de futebol Santiago Wanderers, que apesar do nome é dali de Valpo; 3) e o bar vende a cerveja brasileira Brahma. No Paraguai essa marca também está amplamente popularizada.

..

Na língua é assim também. Distante da vizinha Argentina, e de mãos dadas com México, Venezuela, Peru e Colômbia.

Que estão longe na matéria, mas perto no coração.

Santiago é Europa na matéria, América na Alma.

Valparaíso não está em cima do muro.

Valparaíso É América. De corpo e Alma. 

A Vida no Morro”.

América, América.

Como eles dizem no Chile:

América explorada e ferida.

Invadida por colonos que não eram bem-vindos.

E a falsa religião a morte apoiou.

América, de pele morena e cabelo preto.

Eu te respeito, e te Amo.

Sentimento”.

………..

Assim É.

Dos morros de Medelím aos morros de Acapulco

até os 41 morros de Valparaíso:

Eu Sou O Americano.

Amor Maior”.

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