Europa na América: Santiago do Chile

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Povo hiper-nacionalista: a bandeira do Chile tremula por todas as partes, estendida nos bairros ricos e pobres de suas cidades. Aqui na Zona Oeste.

Por Maurílio Mendes, “O Mensageiro”

Publicado em 4 de maio de 2015

Parte da Série sobre o Chile.

Todas as fotos dessa matéria são de Santiago, não há nenhuma de Valparaíso.

Vamos falar mais um pouco dessa nação trans-andina.

Começamos pela culinária: os chilenos comem muita pimenta.

Não tanto quanto no México, mas ainda assim bastante. Tanto quanto em Belo Horizonte-MG, eu diria.

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“Londres Americana”: a periferia de Santiago é inteira formada por conjuntinhos geminados, térreos ou de sobrados. Esse é na Zona Sul.

Bem, em francês Chile se escreve Chili, com ‘i’. E a própria palavra ‘chili’ já quer dizer pimenta vermelha.

Nas lanchonetes há 3 bisnagas, uma é amarela. E duas são vermelhas.

Dessas que são rubras, uma tem a tampa verde e a outra tem a tampa também vermelha.

Amarela é mostarda. No Chile se come tanta mostarda quanto no Sul do Brasil. Pra quem não sabe, só existe esse condimento onde a influência europeia é maior.

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Esse é na Zona Oeste. É o padrão dominante, Santiago é inteira assim: conjunto atrás de conjunto, os bairros são todos iguais.

Aqui em Curitiba toda lanchonete tem mostarda amarela, mais raramente nos locais mais sofisticados há também o tipo escuro.

Entretanto, se você for em Blumenau ou qualquer outra cidade do Norte de Santa Catarina, todo botequinho mesmo o mais simples de beira de estrada oferece os dois tipos, há as duas bisnagas.

Em Brasília-DF a mostarda é bem mais difícil de achar, por exemplo. Não é em todo lugar que tem pois pouca gente come.

E no Norte e Nordeste é praticamente inexistente. Em Fortaleza-CE e Belém-PA eu não vi em lugar algum.

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São pouquíssimas favelas, cerca de 10 em toda Grande Santiago, que tem 7 milhões de habitantes. Essa é a maior favela da cidade, o Morro São Cristóvão, Zona Norte.

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De volta ao Chile. Lá eles comem bastante mostarda, também. A amarela. A escura é mais rara.

Além da bisnaga áurica, há duas rubras, uma de tampa verde, outra também vermelha, como disse acima.

Nós que vamos do Brasil tendemos a pensar que as duas embalagens vermelhas são de ketchup, talvez o normal e um pouco mais picante, mas ainda um ketchup.

É um engano que pode custar muito caro. A tampa verde é mesmo ketchup mas a tampa rubra é um molho de pimenta bem forte. 

Se você virar no teu prato ou sanduíche como viraria o ketchup perderá a refeição, não conseguirá comê-la.

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Associação de Moradores do Morro São Cristóvão. A vista da cidade lá de cima é espetacular.

De todos os lugares que já estive o México certamente é onde se come mais pimenta, o Chile e Minas Gerais vem em segundo.

Em B.H. também há muito, colocam pimenta até nos pastéis, e se duvidar até no pão de queijo.

Curiosamente, na República Dominicana eles não apreciam muito pimenta, sabia?

Como é um lugar muito quente, muito ligado ao mar e de amplíssima maioria negra, a gente a princípio traça um paralelo com a Bahia.

E tende a achar que o gosto culinário é parecido também. Mas não é, é um estereótipo que se prova falso.

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A Zona Leste é a parte rica de Santiago. Os subúrbios mais afastados – a moda estadunidense – já são nos Andes, bem mais altos que o resto da cidade.

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Estou falando de outros lugares que já estive pra gente ter uma base de comparação. Agora de volta ao foco de hoje: os chilenos adoram batata-frita.

Um prato rápido muito popular é batata-frita com várias coisas por cima: diversos tipos de carne, cebola, ovos, molhos, você pode escolher.

Não pense que o gosto pela batata-frita é universal porque está longe de ser o caso.

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Residência de classe alta na Z/L, já subindo a Cordilheira. Com cerca elétrica porque sempre é bom garantir. A mídia diz que Santiago quase não tem violência. É uma mentira grotesca.

Na Amazônia ela é quase inexistente.

Em Belém e Manaus-AM só existe esse prato nos restaurante frequentados por turistas, e é caríssimo.

O povão não come. O prato-feito em Belém é arroz, feijão, salada, carne e macarrão.

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No Chile existe o pastel frito como no Brasil.

Afora daqui, só na República Dominicana e agora no Chile eu vi essa receita.

No Paraguai, Colômbia, México e EUA não existe, os salgados são sempre assados.

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Sem-tetos dormem em praça no Centro de Santiago.

Na Argentina também há pastel frito, me informaram, isso ainda não pude comprovar pessoalmente.

O prato nacional do Chile – e também da Argentina, nesse ponto eles são mesmo irmãos – é a empanada, como se sabe.

Que geralmente é assada. Mas em alguns lugares se acha também frita, e aí é idêntico aquilo que chamamos ‘pastel’ no Brasil.

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Abordada essa questão da comida, vamos falar de outros aspectos do país.

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No Chile há muitas casas de madeira. Em Santiago menos porque foram demolidas pra construir os conjuntos geminados. Mas ainda restam algumas, essa é na Zona Norte.

O Chile é inteiro pichado, tanto quanto Brasil, Colômbia, México, República Dominicana e EUA.

Novamente, não pense que isso é universal porque não é. No Paraguai só há pichações de torcidas de futebol, o mesmo ocorrendo na Argentina.

Na África do Sul e em toda Ásia Chinesa (que inclui também Japão e as Coreias) os rabiscos nos muros são raríssimos.

Porque não é da cultura do povo escrever coisas na propriedade alheia.

Os lugares que há muita pichação são a América, toda ela, do Sul, Central e Norte. 

Com poucas exceções como Argentina e seus vizinhos Paraguai, Uruguai e Bolívia, na Europa há também embora em proporção menor, e na Palestina e Ásia Malaia (Tailândia, Indonésia, etc) igualmente a garotada curte um picho.

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Outra periferia típica chilena: casa simples de alvenaria com porta direto pra rua. Na Argentina é igual, aqui os dois países se encontram.

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Então, nesse quesito o Chile é parecido com a maior parte da América, e diferente da Argentina e seus vizinhos menores.

Atualização (dez.15): o ‘Google’ filmou agora quase toda América do Sul, então tivemos acesso a uma base de dados infinitamente maior.

Até a virada do milênio a Argentina quase não tinha mesmo pichação, exceto torcidas de futebol.

Na última década e meia aumentou bastante, pelo menos na capital.

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Próximas 3: Centrão de Santiago todo riscado pelos ‘manos’ e ‘manas’ que dominam a noite.

Mas ainda é bem menos que outros países (Brasil, EUA, México, Chile, Colômbia, Peru, Rep. Dominicana, América Central em geral). Já o Uruguai e Bolívia é muito pouco mesmo, quase inexistente.

É claro que em todos os países um pouquinho de rabiscos pelos muros sempre há, afinal estamos na América. Mas é residual. A exceção é talvez a cidade de Santa Cruz da Serra.

Em alguns de seus bairros há pichações. Novamente, bem menos que no Brasil e demais nações supra-citadas, mas existe.

Santa Cruz é mesmo bem diferente do resto da Bolívia. Pra começar a conversa, é plana, uma cidade planície, enquanto todas as outras metrópoles bolivianas (em especial La Paz e Cochabamba) são no alto dos Andes, sobe-e-desce ladeira o tempo todo.

‘Morro’ e ‘Bolívia’ são quase sinônimos. Mas em Santa Cruz não é assim, a cidade – topograficamente falando – lembre muito o Mato Grosso, ou o Chaco Paraguaio/Argentino, regiões que lhe são próximas.

pichacaoTalvez por isso, por ser as vezes mais parecida com os vizinhos que com a própria Bolívia, a garotada de Santa Cruz da Serra também aja diferente de seus colegas de La Paz, e rabiscam um pouco os muros da cidade.

Feita essa ampliação pro tema ficar completo, o grosso do que escrevi permanece. Na Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai picha-se muito pouco.

Com pontuais exceções, é certo: torcidas de futebol picham muito em todos eles exceto Bolívia, e nesse país em sua única cidade plana há um pouco de picho. Mas a regra geral se mantém, a Argentina não curte pichação, ao contrário do resto da América, e levou seus vizinhos juntos.

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Alguém escreveu ‘Ópio’ na ponte sobre o Rio Mapocho.

Pois bem. Mesmo sendo vizinho da Argentina alias ambos dividem uma das  maiores fronteiras do mundo com mais de 5 mil km – o Chile não pulsa na mesma frequência que ela, aqui também.

O Chile não tem, ao menos em seus subúrbios, a cultura europeizada argentina. O Chile é América. Na periferia de suas metrópoles com toda certeza.

Por isso suas cidades são inteiras pichadas. Como é por toda América.

Ainda assim, o Chile não tem um estilo próprio de pichar, importa os ‘alfabetos’ de outros locais.

Há inclusive algumas pichações que são similares a que predomina em São Paulo e no Sul do Brasil, com letras retas, grandes, pontiagudas e separadas.

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O Chile é todo pichado, como Brasil, EUA, México e Colômbia, entre outros. Mas exatamente ao contrário da Argentina, aqui os vizinhos voltam a ficar distantes.

Como se sabe, no Rio de Janeiro é o exato oposto, as letras são curvas, pequenas, sinuosamente unidas entre si.

Então, no Chile há esses dois tipos e muitos outros, porque eles rabiscam muito os muros mas não criaram um estilo local que seja marcante, importam o que outros bolaram.

Em Manaus é assim também:

Muita pichação mas sem alfabeto próprio, usa-se tudo que foi criado em outras partes do planeta, sem distinção ou preferência particular por uma frequência.

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pichação igual sp e sul do brasil

Ainda assim, o Chile não tem um estilo peculiar de pichar. Não tem seu próprio alfabeto, digamos assim, importa o que outros criaram. Algumas pichações de Santiago se parecem com as de SP e Sul do Brasil, letras retas e pontiagudas, bem separadas e de rolinho

No Chile há muita pichação política, tanto no Centro quanto periferia. Fizemos outro texto especialmente pra tratarmos desse tema.

Por hora quero apenas colocar que é exatamente o inverso do Paraguai num ponto. Em ambos há pichações políticas e de futebol.

Mas no Paraguai as marcas das torcidas organizadas estão por toda parte, Centro, classe média e periferia.

Já os lemas e mantras dos diversos grupos políticos de esquerda e direita se concentram somente no Centrão, nos subúrbios não há.

Enquanto que no Chile é o exato oposto, a pichação política está por toda parte incluso as quebradas mais distantes, coisa que só vi lá.

Já as pichações e murais de futebol são muito fortes no Chile. Muito, muito fortes mesmo. Mas somente no subúrbio. Na Zona Central não há.

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Cena triste: pessoas reviram o lixo no Centro de Santiago, plena luz do dia. O Chile não é tão de 1º mundo quanto alguns querem crer.

Já publiquei como são as pichações, tanto as políticas quanto as futebolísticas no Paraguai.

E também já fiz uma mensagem sobre o futebol no Chile.

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O chileno é extremamente nacionalista. Por toda a parte, bairros ricos e pobres, se vê a bandeira pátria hasteada.

Os povos mais patrióticos do planeta são o Chile, EUA, Israel e a Tailândia. Suas respectivas bandeiras estão por toda parte, em suas cidades.

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Pra compensar uma coisa bela: flor na Zona Sul de Santiago. Veja centenas de flores chilenas.

Pelo menos chilenos e tailandeses demonstram o amor por sua nação sem invadir e ocupar outras nações, mas essa já é outra história, que não vamos adentrar aqui.

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Feitas essas pinceladas, vamos pro tópico principal dessa mensagem: a cidade de Santiago.

Em Espírito, em raça, em cultura, em ‘ethos’, Santiago é uma cidade totalmente Americana – ‘América’ é um continente, não um país, como você bem sabe.

centro - universidade

Centro de Santiago, a frente do campus central da Universidade do Chile – sim, é a origem do time. Note os táxis pretos com teto amarelo. Não há a plaquinha ‘táxi’, você tem que identificar pela cor.

Santiago é América, no jeito de ser. Em seus subúrbios é mais parecida com a América Central que com a Argentina. Santiago adora ‘rap’.

A Colômbia, Venezuela, Equador, México, Porto Rico e Honduras também.

A Argentina, Paraguai e Uruguai detestem ‘rap’, por outro lado, porque a raça que predomina ali é mais europeizada e menos americanizada.

Por ‘americanizada’ eu não me refiro aos EUA, mas ao continente, nunca te esqueças.

Os jovens santiaguinos gostam de pichar muros. Os colombianos, equatorianos, peruanos, mexicanos, dominicanos, etc, idem.

Já na Argentina, Paraguai e Uruguai isso quase não existe, exceto torcidas de futebol.

Culturalmente, Santiago é América pura. 

novo nome

A “Avenida dos Passarinhos“, que liga o Centro a Zona Oeste, mudou de nome, agora é Gladys Marín. Mas todos continuam usando o nome velho. Belo fim de tarde. Veja mais fotos do Céu no Chile, inclusive algumas belíssimas feitas nessa mesma avenida.

Agora, e é isso que quero colocar aqui, há um paradoxo.

Fisicamente, em termos de urbanismo, Santiago é uma cidade europeia. A mais europeia de todas as capitais latino-americanas.

Mais que europeia, Santiago é inglesa, na dimensão material

A periferia de Santiago é exatamente igual a de Londres, Liverpool, Manchester e Dublim.

Toda a periferia de Santiago é pontilhada por milhares de conjuntinhos em que as casas são exatamente iguais.

Alguns são térreos, outros de sobrados. Prédios há pouquíssimos, mesmo baixos.

novo nome x torres

Vetado!: alguém riscou o “Gladys Marín”, dizendo que o nome continua a ser “Passarinhos“. Outro detalhe: Santiago também sua Avenida das Torres. Os curitibanos, e todos que já visitaram Curitiba chegando de avião, sabem o porque da referência.

É conjunto de casas atrás de conjunto atrás de conjunto, quilômetros e quilômetros.

Você vai indo pro subúrbios, é só casas umas iguais as outras, ruas sempre retas, não muda nunca. Se conhece Londres, Santiago é igual, sem tirar nem por.

Tem mais: Santiago é a capital latino-americana que tem menos favelas, ao lado de Montevidéu-Uruguai.

Existem cerca de 10 favelas em toda Grande Santiago, e são 7 milhões de pessoas. Umas 3 ou 4 são de tamanho médio, as outras são pequenas.

Há favelas em Santiago, não estou afirmando o contrário, que fique bem claro.

Eu mesmo subi na maior delas, que fica em morro, na Zona Norte. E vi mais duas na extremidade da Zona Sul, sendo essas últimas bem miseráveis.

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Predinho de cohab: não muito comum, mas existe. Esse é na Zona Norte de Santiago.

Mas são poucas. Repito, umas 10 favelas pra 7 milhões de pessoas. E nenhuma delas muito grande.

A título de comparação, apenas o município do Rio de Janeiro tem mais ou menos a mesma população, só que são 500 favelas.

Várias delas gigantescas, com mais de 100 mil habitantes (Rocinha, Alemão, Maré).

E várias outras áreas que são favelas originais ou conjuntos que posteriormente se favelizaram, o que dá no mesmo, com dezenas de milhares de moradores (são tantas que só vou citar algumas:

centro fim de tarde

Azul & Rosa: Centro de Santiago ao cair do Sol

Cantagalo, Vidigal, Cidade de Deus, Jacarezinho, Manguinhos, Vigário Geral, os Complexos da Tijuca e Vila Izabel, o complexo entre o Centro e a Zona Sul, etc. 

A lista é longa, fosse pra falar todas precisaria de uma mensagem só pra isso).

Em Curitiba embora nem tão gráfica e aguda a situação é similar.

São 300 favelas, nem tão grandes quanto no Rio é certo, mas algumas com situação extremamente preocupantes, especialmente as mais centrais, as Vilas Parolin e Capanema.

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Bairro Brasil”: na Zona Sul de Santiago há uma vila que com suas vias homenageia nossa Pátria Amada: eis a Rua Rio de Janeiro.

Em Santiago, em contraste, são poucas favelas. Existem, e fui em algumas. Mas é ao lado de Montevidéu a capital latino-americana com menos barracos.

Cerca de 2% dos santiaguinos e montevidelenses vivem em moradias improvisadas.

Em Curitiba, São Paulo e Florianópolis, capitais ricas do Sul e Sudeste, o índice era de 10% na virada do milênio.

De lá pra cá melhorou, várias favelas foram urbanizadas, algumas das piores foram removidas.

Mas pode ter certeza que ainda está em torno de 6 a 7%, mais que o triplo das capitais chilena e uruguaia.

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Rua São Paulo. Em português, sem ‘til’ mas com ‘O’ no fim.

Não ser deixe iludir pelas aparências: Buenos Aires tem muitas favelas, muito grandes e muito feias.

A capital argentina tem infinitamente mais miséria que suas congêneres chilena e uruguaia.

Muito mais, sem comparação possível. Buenos Aires tem índices brasileiros de pobreza. Não estou brincando nem exagerando.

Em sua cultura e modo de viver Buenos Aires é europeia. Mas fisicamente é uma cidade totalmente latino-americana.

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Rua Curitiva curitiba Santiago Chile z/s placa1

Essa é a casa no nº 5521 da Rua Curitiva. Opa, pera lá: Curitiva??? Com ‘V’?????????

Há um contraste, um jogo de espelhos, entre Buenos Aires e Santiago.

A capital da Argentina é Europa em Espírito, América na matéria.

A capital do Chile é o exato inverso. Europeia fisicamente, em Espírito Americaníssima.

Yin-Yan, em que o preto e branco se alternam.

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Rua Curitiva Curitiba Santiago z/s pichação placa Chile

O certo é mesmo com ‘B’, veja a placa da prefeitura. Mas como a pronúncia é a mesma, as vezes o povão troca.

Isso porque Santiago nas últimas décadas passou por uma das reformas urbanas mais intensas e profundas do planeta. A capital do Chile tinha muitas favelas até os anos 70.

Mas foi intensamente urbanizada pela ditadura e pelos governos que se seguiram. Intensamente, você não tem noção do quanto até andar por seus subúrbios.

Santiago parece ser uma cidade inglesa, ao menos fisicamente.

A única capital latino-americana que é assim. Porque Montevidéu também tem índice baixo de pobreza, mas não é inteira formada por conjuntinhos.

Rua Maggeio

Outro erro de grafia: “Rua Maggeio”. Que cidade é essa??? Certamente não é no Brasil.

Na capital do Uruguai, como nas cidades brasileiras, os bairros são orgânicos, isto é, surgem naturalmente, não são planejados.

Por consequência as ruas as vezes são sinuosas, e cada casa é distinta uma da outra.

O que faz com que as ruas de uma mesma vila sejam diferentes entre si, e as vilas também são diferentes umas das outras, cada uma tem sua própria personalidade.

É assim no Uruguai, é assim no Brasil, é assim na maior parte do mundo, quando a cidade cresce naturalmente, por si mesma, sem sofrer grandes intervenções do governo.

Rua Macéio

Trata-se da “Rua Maceió”, vejam vocês. Agora sim!!! Bem melhor, né?

Mas o modelo inglês de urbanismo é diferente, preza pela intervenção das mãos do Homem e da Mulher em todas as dimensões do universo.

Alias não só no urbanismo, o modo inglês de ver o mundo é controlar tudo e todos, vide o que seu filho pródigo, os EUA, fazem.

Porém aqui vamos nos ater ao modo que as cidades são construídas.

A periferia de Londres e todas as outras cidades britânicas não é orgânica, é planejada. É conjunto atrás de conjunto atrás de conjunto.

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Centro da cidade

Sempre casas, térreas ou então sobrados, mas os prédios são raros, mesmo os baixos.

As casas são iguais, as ruas são iguais, as vilas são iguais, os bairros são iguais, as cidades são …

 . . . oras, são sempre iguais, e como mais seriam se estamos falando da Inglaterra? Quem morou lá que o diga.

E esse modelo é exportado pra outros continentes. Cingapura é totalmente inglesa, a África do Sul e a Malásia também.

Nesses 3 países mudam as raças, é claro que não predomina a raça normanda norte-europeia. Nas metrópoles sul-africanas obviamente os negros africanos são maioria, é a casa deles.

Em Cingapura a etnia majortária é a chinesa, há também muitos malaios. E a Malásia, como o nome indica, é a nação-ícone da Raça Malaia.

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Maipú, Z/O: de Oeste a Leste, Sul a Norte, Santiago é assim, a mais britânica dentre todas as cidades latino-americanas.

Mas na Cidade do Cabo, Joanesburgo, Cingapura e Cuala Lumpur, andando por seus subúrbios, parece que você está nas ilhas britânicas.

Sempre ruas retas, planejadas, conjunto atrás de conjunto atrás de conjunto.

Há ressalvas, claro, nem tudo é tão uniforme.

Na África do Sul há muitas e muitas favelas, onde não há planejamento algum por motivos óbvios, favela e planejamento urbano são antíteses entre si.

Em Cingapura há muitos prédios altos, com elevador.

Pois a raça chinesa (como a americana e ao contrário da ianque-europeia) gosta de morar em arranha-céus.

Ainda assim, no geral suas cidades seguem o modelo inglês. Periferia meticulosamente planejada, sem muito espaço pra manifestações orgânicas, espontâneas, naturais do ser humano.

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Cidade da Rainha, Z/L: a periferia de Santiago é inteira assim, conjunto e mais conjunto, sempre igual. Note a rua de concreto, típico do Chile e também do México.

Santiago segue também. A mais inglesa das cidades latino-americanas. Pouca periferia orgânica.

E por isso Santiago quase acabou com as casas de madeira.

Se você não sabe, casa de madeira é típico do Chile, tão comum lá quanto é no Sul e no Norte do Brasil.

Santiago teve muitas e muitas, no passado a maioria de sua periferia foi nesse modal.

E onde a ‘mão planejadora’ do espírito inglês não tomou conta, elas ainda existem em bom número.

me ocupei desse assunto com muito mais profundidade aqui.

………….

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Santiago: mais uma pichação igual a de SP e Sul do Brasil

Pois vou enfatizar mais uma vez, casa de madeira é um traço típico da periferia orgânica chilena.

Que o planejamento a moda inglesa reduziu mas não eliminou, e nem eliminaria, pois é o orgânico, o traço natural de um povo.

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Uma pausa no texto pra vermos umas fotos. Na sequência abaixo, mais ruas do “Bairro Brasil”, na Zona Sul de Santiago.

Esse não é o nome do lugar, sou eu que estou chamando assim. Não sei como essa vila se chama, na verdade. O que é certo é que as ruas são em homenagem a nossa Pátria Amada.

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Zona Oeste.

Pela ordem, vemos as Ruas Belém (grafada ‘Belen’ pois em espanhol não existe ‘M’ em fim de palavra);

Belo Horizonte (escrito “Bello”, com 2 ‘L’s, pelo mesmo motivo, espanholizaram o nome); Porto Alegre e Santos-SP.

Há ainda a Rua Campiña, outra grafia errada, queriam homenagear Campinas-SP.

Mas essa é a menor de todas e fica no fundo da vila, eu não consegui achar na hora, estava sem mapa, nem de papel e muito menos em GPS, fazendo tudo na raça.

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Centro de Santiago. Ao fundo os Andes.

Então fiquei feliz que localizei todas as outras. Peço desculpas aos campineiros, mas aqui vai a menção, a Rua Campiña existe.

Pena que grafada errado, e nessa, ao contrário das outras, a falha é da prefeitura, a rua se chama ‘Campiña’.

Dessa vez não foi o povão quem se confundiu.

Clique sobre as imagens que elas aumentam, o mesmo vale pra todas.

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Zona Leste

Volta o texto. Eu dizia que a partir do regime ditatorial de Pinochet mudaram completamente a configuração de Santiago.

Já Valparaíso não foi urbanizada. O “esforço embranquecedor” chileno se centrou na capital.

Em Santiago foi fortíssimo, a transformação urbana é de fato surpreendente, deu um ar londrino a uma cidade totalmente Americana em Espírito.

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Aqui um bairro de elite na Z/L. Veja a inclinação da rua, estamos subindo já os Andes. Sempre a bandeira do Chile tremulando. A rua é de concreto.

Por conta disse foco tão meticuloso na capital não sobrou Energia suficiente pra empreender a mesma transformação no interior.

Se Santiago é América em Espírito e Europa na matéria, Valparaíso é América de Corpo e Alma.

Valparaíso é construída sobre 41 morros.

Na periferia todos favelizados, em Valpo me senti de Volta em Medelím-Colômbia ou Acapulco-México.

Duas cidades Amerricaníssimas, Essência e Retrato fiel de nossa América tão querida e tão Amada.

Valparaíso É América. Sem retoques, máscaras ou maquiagem.

Lembre-se, falo um pouco de Valpo só pra fazer o contrastem, nessa mensagem todas as fotos são de Santiago.

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Favela se formando na extremidade sul de Santiago, ao redor um depósito de lixo clandestino.

…………

E nos subúrbios de Valparaíso predominam casas de madeira. uma mensagem só pra isso, ricamente ilustrada, onde ficará claríssimo.

Mas já vou adiantando: Valparaíso parece Almirante Tamandaré, na Zona Norte da Grande Curitiba.

Ou Viamão, na Zona Leste da Grande Porto Alegre-RS, ou então os morros de Blumenau e Florianópolis: ruas sinuosas na ladeira, um sobe-e-desce o tempo todo, e a maioria das casas é de madeira.

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A mesma favela na Z/S. Desculpe se tremeu, tirei as fotos do ônibus em movimento, fiz o que foi possível.

Valparaíso é Chile, também sem retoques. Onde a ‘mão planejadora’ a inglesa não teve ainda tempo de operar. Tudo somado:

Valparaíso é onde o Chile se re-encontra com a América.

……………

O litoral foi bem melhor decupado em texto a parte, com a ligação em vermelho acima. Aqui foi só pra dimensionar:

O Chile é bi-polar.

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“Vila Temática”: Em Maipú (Z/O) as  vias são relacionadas ao espaço sideral. Aqui em Curitiba há uma vila com igual homenagem. Alias, onde Curitiba tem ruas com nomes de planetas, você sabe? Se não, abra a ligação que eu conto.

A capital, ainda que Americana no modo de ser, é europeia no urbanismo, a mais europeia das capitais latino-americanas.

E a maior cidade do interior – em verdade também capital da nação, pois o congresso está em Valparaíso – é Americana na Alma e também na sua configuração material.

Apenas 130 km separam as duas capitais do Chile. Com uma moderna auto-estrada a uni-las, a viagem leva somente 1 hora e meia.

Mas parecem galáxias diferentes. Difícil crer que se trate do mesmo país.

Assim é a Vida, não é, amigos?

O Preto e o Branco vem juntos, não há como separar. O Yin-Yan é o Oráculo dos Oráculos.

extremidade oeste

Maipú é na extremidade oeste da cidade. É tão longe que a placa na rodovia diz ‘Santiago’, e não ‘Centro’, pois já considera que estamos fora da cidade. São mais de 20 km até o Centro, e eu voltei a pé. Caminhei 6 horas seguidas nesse dia, sem parar. Santiago a pé, de ponta a ponta. Eu Sou o Caminhante, oras.

……….

Vejamos mais tomadas da maior favela de Santiago, o Morro São Cristóvão.

Em algumas estou em suas encostas favelizadas vendo a cidade embaixo, outras invertido, capturadas a partir do plano.

Repare na casa mostrada nas duas primeiras cenas:

1º, construída exatamente sob a alta tensão;

2º a parte debaixo do sobrado é de compensado de madeirite.

…………

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Terminamos com o “Escadão”, que todo morro tem.

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A periferia típica do Chile é essa: alvenaria, porta na rua.

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Volta o texto: Já lhes disse que os predinhos pombais, baixos, de 3 a 5 andares sem elevador, são a habitação típica da República Dominicana.

Na periferia de S. Domingo, e também nas maiores cidades do interior dominicano, eles predominam.

Em muitos bairros do México e Colômbia, e também do Brasil, é o mesmo.

Vide a Cidade Tiradentes em São Paulo ou o Rubem Berta em Porto Alegre. São muito comuns também na Europa, do Leste e do Oeste, e também na Ásia.

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Maipú, Z/O: aqui os prédios de cohab são comuns. É a exceção que confirma a regra. Note o poste pintado de azul e vermelho pela torcida da Universidade do Chile.

Já no Paraguai esse tipo de construção praticamente não existe. A periferia de Assunção é toda plana. Quase não há conjuntos horizontais também, a cidade é bem orgânica.

Os prédios são raros no Paraguai, tanto altos quanto baixos. No México os prédios altos são bem poucos, mas os baixos são muitos, como nos EUA e Europa.

A Colômbia e a Rep. Dominicana são parecida com o Brasil, muitos prédios altos no Centro e bairros de classe média, muitos pombais nas quebradas.

Já Santiago, após tantas comparações retomo nosso foco, tem muitos prédios altos no Centro.

Muitos, muitos mesmo, afinal é uma metrópole de 7 milhões, e você tem que prensar pra acomodar tanta gente.

Mas os conjuntos de pombais estilo cohab são poucos.

Existem, vi vários pela cidade, mas não chega a ser marcante. Tem bem mais que no Paraguai, mas menos que em todos os outros países citados.

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Bairro de classe elevada ao redor da Av. dos Passarinhos, Zona Oeste.

A exceção é o bairro de Maipú, na Zona Oeste de Santiago. Mostrado acima.

Ali as cohabs em prédio são o tom dominante dessa vila, que sedia um comando muito forte da Garra Branca, torcida do Colo-Colo.

Curiosamente nessa cena flagramos o oposto, uma rua pintada pela torcida rival.

A mensagem de futebol está no ar, acima já ativei a ligação.

Mostro melhor esse lugar, com muitas fotos, nessa matéria.

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Também na Z/O: um aterro de lixo clandestino. Na verdade há uma encosta no meio da cidade que se joga todo tipo de detritos. Lamentável.

…………

Agora vamos falar das poucas favelas de Santiago. E também da elite, os extremos.

Comecemos pelas favelas: a maior e mais famosa é a do Morro São Cristóvão.

Fica numa montanha que uma das encostas dá de cara com o Centro da cidade. Na outra encosta está a favela. Essa é antiga, e de tamanho médio.

Já a conhecia pelo ‘Google’ Mapas, e agora a Vida me deu a oportunidade visitá-la, o que aproveitei amplamente, serpenteando por suas vielas sinuosas na encosta.

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Zona Sul: muitas bandeiras do Chile, como sempre. Essas estão rasgadas, necessitando serem trocadas.

Já falamos mais dela. Antes mais umas referências geográficas.

A cidade de Santiago está ao pé da Cordilheira dos Andes, que emoldura a cidade a leste.

Até por isso amanhece tarde na cidade. Digo, são dois motivos, o primeiro pelo fuso horário.

É o mesmo do Brasil, mas o Chile está muito mais a oeste.

E segundo pela própria cadeia de montanhas altíssima que o Sol tem que vencer antes de iluminar a metrópole.

bandeira madeira zl

Cidade da Rainha, Z/L: a bandeira tremula sobre a casa de madeira. Estamos no Chile, caramba !!!!

Somando ambos os fatores, você acorda de manhã, tá tudo escuro, um breu total. Parece alta madrugada.

Mas lá fora tá uma barulheira da tráfego infernal.

Aí olha pela janela (eu fiquei bem no Centrão de Santiago) e confirma visualmente o que já sabia auditivamente:

O trânsito está pesadíssimo. A princípio você estranha, tipo:

“Nossa, aqui o horário de pico é as 4 da manhã”. Afinal, como disse, ainda é noite plena, não há um raio de luz.

É pelo fuso que já faz o Sol aparecer mais tarde, e quando afinal ele chega ainda precisa subir os Andes antes de se mostrar a cidade.

Quando você olha no relógio, não é madrugada, são 7 horas. Mas ainda está em escuridão total. Em compensação anoitece depois também, óbvio. Perto das 8 da noite.

classe alta concreto zl

Classe alta, na Z/L. Rua calma e arborizada. De concreto, claro.

Tudo somado: amanhece e anoitece em Santiago mais ou menos uma hora e pouco depois de Curitiba.

O fuso é o mesmo, não precisamos mudar o relógio.

……………

Em João Pessoa-PB é o exato oposto.

É a mais oriental entre todas as cidades americanas, logo recebe o primeiro raio de Sol de todo continente.

Na capital da Paraíba 5 e pouco da manhã já é dia claro. O pico da manhã é todo com luz natural.

Em compensação, anoitece antes também, evidente. 6 da tarde é noite, aí inverte, o pico da tarde que é todo ele na penumbra.

centro (2)

Vila de classe baixa em pleno Centrão.

4,7 mil quilômetros separam essas duas cidades, por via aérea.

Por quase duas horas de manhã é dia claro na capital paraibana, noite escura na chilena. De tarde inverte.

Mas o fuso horário ainda é o mesmo, vejam vocês.

………….

Voltemos. Os Andes estão a leste da cidade. Seus subúrbios mais orientais são mais altos, já subindo a encosta.

condominio fechado zl

Condomínio fechado de classe média-baixa na Cid. da Rainha, Z/L. Na verdade era uma rua sem saída que puseram portão e interfone. Fotografei o mesmo no México.

E é exatamente a Zona Leste que é a mais rica de Santiago.

A Zona Sul é a maior e mais pobre (como em Curitiba e São Paulo), e, voltando a Santiago, as Zonas Norte e Oeste são intermediárias.

Há, como disse acima, um morro menor bem perto do Centro.

É um lugar bem bonito, com um teleférico que tem duas estações além daquela de partida no nível do chão.

A intermediária é onde está o zoológico, vejam vocês, ele fica na ladeira.

A estação superior tem um mirante e uma capela, a vista da cidade é espetacular, em outra mensagem seguem essas fotos.

cortiço

Cortiço no Centro: numa entradinha se espremem no fundo dezenas de casas, as vezes mais de 20. Tipo de moradia popular muito comum no Chile, e segundo eu li também em Portugal. Nunca fui a Europa pra confirmar pessoalmente.

A encosta que dá pro Centro não é favelizada.

Entre essas duas elevações, esse morrinho menor que é uma atração turística e a imensamente maior cadeia dos Andes, está a parte da alta burguesia santiaguina.

Ali se concentram os sobrados triplex com piscinas, grandes quintais sempre adornados por belos jardins gramados e floridos.

A leste do Centro, perto dele.

Conforme você se afasta e vai pros Andes há alguns conjuntos de classe média-baixa e baixa.

Por exemplo nos subúrbios metropolitanos de Peñalolén (é um nome indígena que significa “um bom lugar pra viver”).

E Cidade da Rainha (‘La Reina’ no original, sabem que eu traduzo tudo pro português). Esse último já é na subida da Cordilheira, bem mais alto que a Zona Central.

periferia zona norte

Outro cortiço, esse é na Zona Norte, mas já próximo ao Centro.

Depois da Cidade da Rainha, ainda mais alto pois mais ainda ladeira acima, há outra parte de classe elevada.

Os clubes da elite são ali, é uma região de clima mais ameno, o ar é mais puro. Já que tocamos no tema:

Santiago é uma das cidades mais poluídas do planeta, tanto quanto a Cidade do México e Los Angeles-EUA. São muitos carros, e a cidade está num vale entre serras.

No inverno a inversão térmica torna o ar irrespirável. Mesmo no outono a capa cinza de monóxido de carbono cobre a cidade, pois fica presa, não tem pra onde ir.

Veja foto abaixo.

conjunto zs

Conjunto na Zona Sul.

A situação é crítica mesmo, e por isso lá um rodízio severo de automóveis. Não adianta nada, claro.

Como em São Paulo todo mundo já comprou mais um carro, pra poder circular todos os dias de automóvel.

………..

Enfim. Por isso os bairros do extremo da Zona Leste foram escolhidos pelos ricos pra se fazerem subúrbios a moda estadunidense:

Só ruas residenciais, quadras e quadras sem um comércio sequer, você depende do carro pra tudo – agravando o problema da poluição, mas ninguém parece se importar.

condominio fechado zc

Mais um condomínio fechado. Na divisa entre as Zonas Central e Oeste.

Vias calmas, arborizadas, e bem mais altas, já acima do grosso da camada de poluição que sufoca a maior parte da metrópole.

Lembrei muito de Medelím-Colômbia. Essa cidade é muito, mas muito diferente de Santiago.

Medelím é América pura, muito pobre, um vale de rio cercado de morros, quase todos favelizados. Mas algumas poucas encostas de Medelím não têm favelas.

Uma delas, na Zona Sul, é um subúrbio a estadunidense, morada dos milionários. Se chama ‘Las Palmas’.

bairro brasil1 zona sul

Zona Sul. A rua é de concreto.

Você conhece ‘Beverly Hills’ em Los Angeles (mesmo que só por imagens, eu também nunca fui lá)?  Então, ‘esse bairro de Medelím é igual.

E o extremo leste da capital chilena é assim também.

Por isso me vinha todo tempo a cabeça a ‘Las Palmas’ colombiana, as imagens voltavam, parecia uma máquina do tempo.

Agora de volta a Santiago, eu passava por uma rua com muitos condomínios fechados.

Quando vi a portaria de um clube exclusivo pra quem pode pagar bastante. Zona Leste A rua lateral a ele se chamava . . . “Las Palmas” (esquerda).

Arrematou com perfeição. A Vida tem dessas coisas.

…………

Estamos no Extremo Leste de Santiago. Já subindo os Andes. Veja a cidade lá embaixo. Se quiser confira no ‘Google’ Mapas onde fica essa rua.

Eu voltei a pé pro Centro (que são aqueles prédios que você vê lá no fundo), atravessei Zona Leste inteira caminhando.

Como outro dia eu voltei do Extremo Oeste, dividindo em 2 etapas eu cruzei Santiago de Leste a Oeste, da última casa a oriente até a última casa a ocidente, caminhando.

O detalhe triste é a capa de poluição que cobre a cidade, a ‘inversão térmica’. No inverno é ainda pior.

madeira bairro brasil

Zona Sul: casa típica da periferia chilena, de madeira.

…………..

Retomemos o texto principal. Então é o seguinte:

Você está no Centro de Santiago, vendo aquele morrinho menor que há ali. Ele divide a Zona Leste da Norte.

Se você for pro oriente, o roteiro é o que já tracei acima, perto do Centro alguns bairros de classe alta, depois alguns subúrbios mais pobres.

Como é em Santiago formados por conjuntinhos de casas, sempre. Por fim alguns chegaremos em subúrbios de elite a moda estadunidense.

conjunto zs1

Zona Sul. Já entenderam, né? A periferia inteira de Santiago é conjuntos geminados, parece Londres.

E se você pegar a encosta contrária e for pra Zona Norte? Primeiro há um bairro de classe média-alta.

A leste, já nos Andes, os clubes tem suas sedes esportivas. Onde há muitas canchas de futebol, bosques, espaço pra cavalgar, etc.

Agora, as sedes sociais, onde há o salão de bailes, é na Zona Central, claro.

Então. Alguns desses clubes ficam ali, nesse bairro no comecinho da Z/N, ao pé do morro. Nesse trecho ainda não há favelas na encosta.

Conforme você vai seguindo a cidade vai se proletarizando. E ali, quando o morro já fez uma curva, está a favela de São Cristóvão. É antiga, e de tamanho médio, tem alguns milhares de habitantes.

Pouco pro Brasil, e seria pouco também em Valparaíso ali no próprio Chile mesmo, bem como no Paraguai e Argentina, todos esses lugares têm favelas bem maiores.

conjunto zo

Mais conjuntinhos: Zona Oeste.

E oras, favelas na casa dos 4 dígitos então é pouquíssimo na Bolívia, Venezuela, Peru, Colômbia, México e toda América Central exceto Cuba.

Já que todas essas nações tem favelas que são verdadeiramente gigantescas, maiores só na Índia, Bangladesh e Nigéria, além do Iraque destruído pela guerra.

As maiores favelas do planeta tem o número de moradores na casa dos 5 dígitos (dezenas de milhares), em casos mais extremos 6, ou seja mais de 100 mil.

E muitas estão na América Latina, da Bolívia ao México.

conjunto zl andes

Mais ainda. Z/L, ao fundo os Andes.

Mas como Santiago quase não tem favelas, alguns poucos milhares de habitantes numa aglomeração é o muito pros padrões deles.

É certamente a maior favela da Grande Santiago.

Já está urbanizada, com infra-estrutura como luz, água, telefone, e boa parte das ruas está pavimentada, como é o padrão no Chile com concreto.

Mas alguns problemas permanecem, as casas foram construídas precariamente na encosta, algumas delas sob fios de alta tensão, os serviços públicos são deficientes.

É a Saga da Favela, Vibração que também existe em Santiago, ainda que num grau menor. Veja as fotos.

conjunto zs concreto

Voltamos pra Zona Sul, mais casas geminadas. Não acaba nunca? Não, não acaba. Santiago é assim, amigos.

Fora essa, há algumas invasões no extremo da Zona Sul. São novas, algumas recém-invadidas, e todas miseráveis.

Sem luz, saneamento, não têm nada, essas são favelas mesmo, na melhor acepção do termo, ou mais corretamente diríamos na pior acepção do termo.

Repito, a Z/S é a mais pobre e maior em área. Logo essas favelas estão muito, mas muito distantes do Centro, mais de 20 km.

De ônibus alimentador dá uma hora até a estação de metrô e dali ainda vai uma meia hora até chegarmos no coração da cidade.

favela extremidade sul

Favela se formando na extremidade da Zona Sul de Santiago.

É uma pobreza invisível, e portanto esquecida. A maioria dos chilenos de classe média sequer sabe que existem esses bolsões de pobreza em sua capital.

Mas eles estão ali, lembrando que sim, de fato o Chile é um país rico.

Ainda assim, tem muita miséria. Seja nas quebradas da Zona Sul ou no Centrão.

Uma cena nos impressionou muito em Santiago:

No Centro, assim que no fim de tarde se coloca o lixo na rua pro lixeiro recolher, uma horda de maltrapilhos age antes e abre os sacos, revirando-os em busca de algo que possa ser trocado por dinheiro, umas moedas que seja.

Em pleno Centro, e a luz do dia, os trabalhadores ainda estão por ali, se dirigindo aos subúrbios mas ainda não saíram da Região Central.

A classe média também está nas ruas, em barzinhos tomando um chope que ninguém é de ferro.

miséria1

Barra-pesada no Centrão. Pessoas revirando o lixo. A foto tremeu, desculpe. Mantive pra vocês verem que a cena é comum por lá.

Do outro lado da rua a realidade é essa que veem nas imagens:

Mortos-vivos, seres em que o corpo está vivo mas a Alma já se foi e vaga um ponto escuro do Universo, tiram seu sustento do que outros rejeitaram. A Vida é dura.

…………

Pra fechar mais um detalhe:

A periferia orgânica de Santiago, o pouco dela que não foi eliminado pela padronização dos conjuntinhos, tem duas características:

madeira2 bairro brasil

Zona Sul: era uma casa térrea, ergueram um sobrado em que a parte de cima é de madeira. Pode isso???

1) Casas de madeira. Sobre isso já falamos. Foram derrubadas em massa e substituída por alvenaria no esforço maciço de europeização da ditadura Pinochet.

Mas algumas restaram. Na favela, onde o planejamento é menor quando existente, são comuns. Parecido com o Sul e Norte do Brasil.

Na vizinha Argentina, tão ligada ao Chile em muitos aspectos, não há casas de madeira.

Exceto no estado das Missões, que está espremido entre o Brasil e o Paraguai, bem longe dos Andes e do Chile portanto.

2) Casas de alvenaria humildes, com a fachada na calçada. Portanto, com as portas e janelas já na via pública.

Vejamos mais exemplos na sequência abaixo, além daqueles que estão espalhados pela mensagem. Repare nas ruas de concreto.

Essas aqui foram clicadas no bairro que homenageias as cidades do Brasil, na Zona Sul.

Clique sobre as fotos pra ampliá-las:

bairro brasil3 zona sulbairro brasil zona sulbairro brasil2 zona sul

Eis a periferia típica argentina, e muito comum também no Chile. Aqui os irmãozinhos se reconciliaram, e mostraram que são mesmo umbilicalmente ligados.

madeira1 bairro brasil

Essa e direita abaixo também no “Bairro Brasil”, Zona Sul: de novo, ergueram a laje usando madeira no piso superior.

E sabe o que é mais curioso?

A periferia do Nordeste é assim também: exatamente igual, casas pequenas de alvenaria, de cara pra rua.

Tudo bem, no Nordeste as moradias são ainda menores, cubículos mesmo, enquanto na Argentina e Chile elas são simples mas não uma caixinha de ovos.

Ainda assim, a essência é a mesma, pontos tão distintos da América compartilham isso.

……………

bairro brasil4 zona sul

Portanto, repetindo ainda mais uma vez pra passarmos a régua, nos subúrbios de Santiago 3 frequências se misturam:

1) os conjuntinhos, parece que estamos em Londres, o mais comum.

2) as casas de madeira, nesse ponto é um pedaço do Sul e Norte do Brasil no Pacífico. Em Santiago pouco, em Valparaíso muitíssimo.

cohab zs

Cohab na Zona Sul: veja a foto a direita, abaixo.

3) casas de concreto com saída direto pra rua, sem quintal. A frequência intermediária, menos que os conjuntos, mas bem mais que as casas de madeira.

Aí sim fica claro que de Santiago estamos pertíssimo de Mendonça-Argentina, basta cruzar o morro via túnel.

E mesmo Córdoba, Rosário e Buenos Aires também são próximas.

Se na dimensão física a distância pras maiores metrópoles argentinas é maior, pela arquitetura vemos que pulsam na mesma frequência.

…………..

cohab zs terreo

Mesmo predinho na Z/S: o cara do térreo transformou a área comum do condomínio no quintal dele.

Assim é periferia de Santiago. Onde Londres, Blumenau e Córdoba se encontram.

Mas a primeira predomina, como a vibração londrina sempre se impõe quando entra em choque com outras.

Em Espírito não, em termos de raça e cultura, digo de novo, Santiago é América. Aguarde a continuação que isso ficará claro.

Agora, na arquitetura ao menos, parece que pousamos por engano nas Ilhas Britânicas.

centro2

Centro

Europa na América”. Santiago do Chile, muito prazer.

…….

Deus Pai-Mãe proverá

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2 comentários sobre “Europa na América: Santiago do Chile

  1. JOSE RINALDO LIMA DE ANDRADE disse:

    Excelente texto, muito proveitoso e descritivo. PARABÉNS!!!! Excelente leitura.
    Lembrei o que aconteceu com minha filha mais velha, que quase perdeu o sanduíche quando jogou aquele molho pensando que era catchup…..kkkkkkkkkkk…….teve que comer só a metade e tomar muita Coca-cola……..kkkkkkkkkkkkk

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    • omensageiro77 disse:

      Irmão, valeu pelo comentário. Comigo aconteceram situações similares na África recentemente.

      Mas comecemos do começo. Fui ao Chile em 2015. E 3 anos anos antes (2012) a um país onde se come ainda mais pimenta: o México.
      https://omensageiro77.wordpress.com/2015/09/01/amplo-metro-trem-ligeiro-metro-bus-caminhao-disco-bus-troleis-e-micros-verdes-busos-rosas-taxi-alimentador-o-transporte-no-mexico/

      E em 2017 a um outro onde se come tanta pimenta quanto no México, e portanto mais que no Chile – a África do Sul. Pudera. A África do Sul é formada por 3 povos que adoram esse condimento. O negro, indiano (esses se concentram em Durbã, existem em outras partes do país mas aí de forma bem reduzida) e inglês.

      Além deles os africâneres. Só que os holandeses e alemães (africâneres são descendentes de holandeses, e esses, os holandeses, num passado mais distante são descendentes de alemães, se alguém não sabe) não comem muita pimenta – os ingleses comem. Explico:

      No Brasil se consome popularmente duas mostardas, a escura (chamada ‘holandesa’) e a clara (denominada ‘americana’). Não existe no Brasil (ao menos não nos supermercados e lanchonetes populares, talvez venda em lojas especializadas, mas aí pela raridade foge do escopo) a mostarda ‘inglesa’, pois pro Brasil não vieram muitos ingleses, exatamente ao contrário da África do Sul e mesmo do Chile.

      Na África do Sul existem popularizadas as mostardas: clara suave, nossa ‘americana’, lá eles chamam de mostarda ‘alemã’ – mudado o nome, o gosto é quase o mesmo; e a mostarda ‘inglesa’.

      É aqui que quero chegar. A mostarda ‘inglesa’ é clarinha, amarela do mesmo tom da ‘americana’ no Brasil e da ‘alemã’ na África. Mas o gosto. . . oh, quanta diferença! A mostarda inglesa é pimenta pura!!! É dinamite!!!

      Estava eu no começo da viagem em Joanesburgo, tomando café-da-manhã. Vi a mostarda inglesa, cor igual a nossa amarela. Pensei que o gosto era parecido. Erro fatal!

      O negócio é tão, mas tão ardido, que eu fiquei vermelho como um pimentão, e saíram lágrimas dos olhos na hora. Não é modo de falar. Meus familiares ficaram até preocupados na hora, mas passado o susto acabamos dando risada.

      Tive que tomar meia jarra de suco de laranja pra me refazer de uma simples mordida do sanduíche temperado com mostarda inglesa. Deveria chamar ‘pimenta inglesa’, e vir com o rótulo vermelho – pra não dizer preto com uma caveira….rs!
      ……..

      Dias depois, na orla de Durbã, fui comer o arroz a indiana. Similar ao arroz a grega que conhecemos aqui, mas muito mais temperado. Bota muito mais nisso! É mais escuro, alaranjado, e muito mais apimentado. Nessa matéria há uma foto dele.
      https://omensageiro77.wordpress.com/2017/05/25/africa-do-sul-o-mundo-num-so-pais/

      Cara, esse eu consegui comer. Mas toda tua boca, língua, bochecha, tudo, esquenta como se estivesse ingerindo algo ainda em brasa. É uma garfada, duas no máximo, vem um bom gole de refrigerante ou suco pra equilibrar, assim vai. E quando acaba a refeição mais um copo inteiro de líquido, no mínimo, pra tua boca começar a esfriar – eu disse ‘começar’ . . . É gostoso, apreciei a experiência, fui uma oportunidade de ir a Índia sem ir a Índia de fato. Mas que é forte, isso é mesmo.

      E por fim, antes de retornar ao Brasil, voltamos a Joanesburgo, pois entramos e saímos do país por lá. Estávamos na praça de alimentação de um centro comercial (‘shopping’) no Centrão da cidade. Fomos almoçar numa cadeia de comida rápida de lá, tipo um Mc Donald’s local, cujo nome é em português – os portugueses foram os primeiros europeus a pisarem na África do Sul, e embora lá ninguém exceto imigrantes angolanos e moçambicanos falem o idioma luso, é comum as lojas exibirem nomes em português, especialmente restaurantes.

      Enfim, estávamos lá no centro comercial, numa grande rede de lanchonetes. Perfil bem de classe média, não tem nada de popular, alias o povão sul-africano não pode arcar com o luxo de comer nesse local, preferem as banquinhas que ficam nas calçadas, ou no máximo lanchonetes de padrão bem mais simples. Bem mais mesmo.

      Você entendeu. Estávamos num ambiente mais sofisticado. E no cardápio todos os pratos exibiam a opção ‘Quente’ (ou seja, com pimenta) ou ‘Normal’. Pensei: ‘pelo perfil de classe-média, a pimenta vai ser suave, vai dar um leve gostinho, mas nada tão acentuado’.

      Outro engano fatal. Na África do Sul o ‘quente’ é quente mesmo, é muita pimenta. No fim meu sanduíche ficou igual ao que sua filha comeu em Santiago. Como era bem gostoso tirando o a ardência eu acabei comendo até o final, mas somente porque fui me aliviando com grandes doses de refrigerantes – que também era Coca-Cola. Alias a Coca é oni-presente na África do Sul, ainda escreverei melhor sobre isso em postagem futura.

      Na verdade essa história eu iria contar nessa mensagem que ainda está por vir. Mas como aconteceu algo similar com alguém de sua família, e você compartilhou conosco, já vou adiantando aqui de aperitivo.

      Esteja sempre em Paz.

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